Perdido na vastidão do beijo que te quero dar. No deserto.
25.12.16
24.12.16
Escala de Serpa
Todos nós conhecemos - ou pelo menos ouvimos falar - da escala de Richter, uma escala que mede a intensidade dos sismos; nem todos, mas alguns dos meus leitores conhecerão decerto a escala de Beaufort: mede a intensidade do vento e é linda de morrer (ou melhor: a sua historia é linda de morrer: Beaufort inventou-a para avaliar os panos que envergaria no seu navio, os colegas acharam a ideia tão boa que a universalizaram; ainda hoje é usada). A escala de Douglas mede o estado do mar, foi inventada no princípio do séc. XX e poucos navegadores a conhecem. Menos ainda - graças a Deus - conhecem a escala de Saffir - Simpson, usada para avaliar a força (e prever os estragos) dos furações.
Hoje venho propôr uma nova escala, tão importante como todas as supra-mencionadas. Com toda a humildade chamar-lhe-ei "Escala Serpa da Tesura" e como o nome indica serve para medir os diferentes graus da pobreza (em calão: tesura, para quem não sabe).
Uma das características bonitas da tesura é que se reproduz assexuadamente. Reproduz-se por partenogénese. Um físico diria "Tesura atrai tesura na razão directa da falta de dinheiro". Se fosse um físico pretensioso diria "Pobreza atrai pobreza na razão inversa do carcanhol disponível". (É do domínio público que dinheiro atrai dinheiro. Escusado será certamente fazer a aproximação entre os conceitos de massa e pobreza. As diferenças só se atraem no magnetismo - o que de resto nos levaria para os interessantes terrenos da atracção magnética não estivesse eu ocupadíssimo a desenvolver a Escala Serpa da Tesura - ).
Ora bem:
Nível Zero: Pode comprar-se uma garrafa de vinho sem matutar mais de dois segundos sobre o preço (lembro que esta escala mede a falta de guito e não a sua presença. Nunca gastei mais de trinta euros numa garrafa de vinho e mesmo essa foi para oferecer. Se um dia fizer uma escala para a abastança falarei em todas as abençoadas garrafas de Chateau Haut Marbuzet et simili que bebi até hoje. Ou uma escala da amizade, vá).
Nível Um: A garrafa de vinho custa ligeiramente acima de dez euros. Um gajo pergunta-se "vale a pena juntar uma moeda à nota? Não haverá por aí vinho que me permita receber antes uma moeda em troca desta nota, tão bonita?"
Nível Dois: O problema do vinho está resolvido. Não se fala mais nisso. Começa-se a pensar na passagem a ferro das camisas (lembro que esta escala é pessoal: detesto passar a ferro. Cada um dos leitores terá certamente outra antipatia). A Cinq à Sec lava e passa pelo mesmo preço; a senhora da esquina passa só, por um preço ligeiramente inferior. Que fazer? Qual escolher?
Nível Três: Deixa de haver dilema na escolha do fornecedor para a passagem a ferro das camisas.
Nível Quatro: Deixa de haver fornecedores para a passagem a ferro das camisas. Um gajo passa-as ele próprio, se possível com um ferro decente, ouvindo música decente e pensando numa mulher decente (de bonita, não de costumes).
Nível Cinco: A passagem a ferro das camisas torna-se um hábito; o preço do vinho deixa de ser um problema: se uma nota de cinco não tiver troco e esse troco for uma moeda preta não se compra. Os dilemas mudam, a memória aviva-se, como o frio da primeira manhã de Outono: quanto custa um copo de vinho no café X? E no Y? (Os efeitos positivos da falta de massa sobre a memória são incomensuráveis).
Nível Seis: A questão do preço do vinho nos cafés fica resolvida. O teso começa a lembrar-se da qualidade do vinho nas tascas e a compará-las (cf. ponto anterior).
Nível Sete: Um gajo hesita entre apanhar um autocarro e beber um café. Este ponto é interessante porque permite avaliar ao mesmo tempo actividades fundamentalmente diferentes. É uma espécie de sinestesia financeira. No supermercado: o único critério para a escolha de uma coisa qualquer é o preço. Batatas, cebolas, alhos, salsichas, azeite, carne picada, sal, pimenta, desodorizante e por aí fora deixam de ser entidades com uma personalidade e uma identidade próprias e reduzem-se a uma etiqueta de preços.
Nível Oito: Um gajo não pode nem beber um café nem ir de autocarro.
Nível nove: Fica para depois.
Nível Dez: Um gajo está na rua e tem miúdas giras a levar-lhe comida à meia noite.
Notas:
1 - É importante notar que a segunda lei da termodinâmica se aplica como uma luva à situação financeira de uma pessoa: é mais fácil passar de rico a pobre do que de pobre a rico.
2 - Deve distinguir-se entre ser pobre - uma questão de números - e miserável - coisa de atitude -. Pobre é aceitável; miserável não.
3 - Mudar de nível com dinheiro emprestado não conta como mudança de nível.
4 - Há uma espécie de pedantice em ser pobre por escolha própria; conta como pedantice, caso um dia alguém decida fazer uma escala desta. Mas continua a incluir-se na escala da pobreza, porque por mais que o diga ninguém quer ser pobre ou é pobre porque quer.
5 - Reitero o ponto dois: Pobre sim; miserável nunca.
Hoje venho propôr uma nova escala, tão importante como todas as supra-mencionadas. Com toda a humildade chamar-lhe-ei "Escala Serpa da Tesura" e como o nome indica serve para medir os diferentes graus da pobreza (em calão: tesura, para quem não sabe).
Uma das características bonitas da tesura é que se reproduz assexuadamente. Reproduz-se por partenogénese. Um físico diria "Tesura atrai tesura na razão directa da falta de dinheiro". Se fosse um físico pretensioso diria "Pobreza atrai pobreza na razão inversa do carcanhol disponível". (É do domínio público que dinheiro atrai dinheiro. Escusado será certamente fazer a aproximação entre os conceitos de massa e pobreza. As diferenças só se atraem no magnetismo - o que de resto nos levaria para os interessantes terrenos da atracção magnética não estivesse eu ocupadíssimo a desenvolver a Escala Serpa da Tesura - ).
Ora bem:
Nível Zero: Pode comprar-se uma garrafa de vinho sem matutar mais de dois segundos sobre o preço (lembro que esta escala mede a falta de guito e não a sua presença. Nunca gastei mais de trinta euros numa garrafa de vinho e mesmo essa foi para oferecer. Se um dia fizer uma escala para a abastança falarei em todas as abençoadas garrafas de Chateau Haut Marbuzet et simili que bebi até hoje. Ou uma escala da amizade, vá).
Nível Um: A garrafa de vinho custa ligeiramente acima de dez euros. Um gajo pergunta-se "vale a pena juntar uma moeda à nota? Não haverá por aí vinho que me permita receber antes uma moeda em troca desta nota, tão bonita?"
Nível Dois: O problema do vinho está resolvido. Não se fala mais nisso. Começa-se a pensar na passagem a ferro das camisas (lembro que esta escala é pessoal: detesto passar a ferro. Cada um dos leitores terá certamente outra antipatia). A Cinq à Sec lava e passa pelo mesmo preço; a senhora da esquina passa só, por um preço ligeiramente inferior. Que fazer? Qual escolher?
Nível Três: Deixa de haver dilema na escolha do fornecedor para a passagem a ferro das camisas.
Nível Quatro: Deixa de haver fornecedores para a passagem a ferro das camisas. Um gajo passa-as ele próprio, se possível com um ferro decente, ouvindo música decente e pensando numa mulher decente (de bonita, não de costumes).
Nível Cinco: A passagem a ferro das camisas torna-se um hábito; o preço do vinho deixa de ser um problema: se uma nota de cinco não tiver troco e esse troco for uma moeda preta não se compra. Os dilemas mudam, a memória aviva-se, como o frio da primeira manhã de Outono: quanto custa um copo de vinho no café X? E no Y? (Os efeitos positivos da falta de massa sobre a memória são incomensuráveis).
Nível Seis: A questão do preço do vinho nos cafés fica resolvida. O teso começa a lembrar-se da qualidade do vinho nas tascas e a compará-las (cf. ponto anterior).
Nível Sete: Um gajo hesita entre apanhar um autocarro e beber um café. Este ponto é interessante porque permite avaliar ao mesmo tempo actividades fundamentalmente diferentes. É uma espécie de sinestesia financeira. No supermercado: o único critério para a escolha de uma coisa qualquer é o preço. Batatas, cebolas, alhos, salsichas, azeite, carne picada, sal, pimenta, desodorizante e por aí fora deixam de ser entidades com uma personalidade e uma identidade próprias e reduzem-se a uma etiqueta de preços.
Nível Oito: Um gajo não pode nem beber um café nem ir de autocarro.
Nível nove: Fica para depois.
Nível Dez: Um gajo está na rua e tem miúdas giras a levar-lhe comida à meia noite.
Notas:
1 - É importante notar que a segunda lei da termodinâmica se aplica como uma luva à situação financeira de uma pessoa: é mais fácil passar de rico a pobre do que de pobre a rico.
2 - Deve distinguir-se entre ser pobre - uma questão de números - e miserável - coisa de atitude -. Pobre é aceitável; miserável não.
3 - Mudar de nível com dinheiro emprestado não conta como mudança de nível.
4 - Há uma espécie de pedantice em ser pobre por escolha própria; conta como pedantice, caso um dia alguém decida fazer uma escala desta. Mas continua a incluir-se na escala da pobreza, porque por mais que o diga ninguém quer ser pobre ou é pobre porque quer.
5 - Reitero o ponto dois: Pobre sim; miserável nunca.
22.12.16
Poemas, vida
Um monte de poemas. A pergunta é: quanta vida há por detrás deles?
Isto é: de quem os lê, de quem os escreveu?
Sem o sangue que fica da vida e da poesia?
Isto é: de quem os lê, de quem os escreveu?
Sem o sangue que fica da vida e da poesia?
Amor, rua
Uma vez amei uma mulher. "Uma vez" não deve naturalmente ser lido à letra. Foram mais: uma, duas, três vezes. Quatro, quiçá. Nunca as contei porque cada vez que amo uma mulher é a primeira vez; e de qualquer forma nunca deixei de amar uma mulher que alguma vez amei. Isto não é demagogia: se amo alguém é porque ela é amável. Não deixa de o ser, ou raramente, se eu deixar de a amar, ou ela a mim, ou os dois. Acontece, claro: já amei mulheres de quem nem o nome recordo. Poucas, graças a Deus.
A calçada está irregular, é desconfortável mas bom andar nela: nem sempre o que amamos é confortável. Talvez até o amor – aquele cujo nome se recorda anos mais tarde – seja desconfortável. Prefiro os passeios desajeitados de Lisboa aos monótonos e cansativos sidewalks de West Palm Beach, por exemplo.
Uma vez amei uma mulher; ainda a amo. Amo-as todas: as que amei e um dia amarei, as que me amam e as que amei e me disseram “não, vai amar para outro lado. Vai passear por essas ruas de que tanto gostas, as que percorres a pé ou quando a tinhas de bicicleta, as ruas que vês do autocarro ou adivinhas do metro”.
Há amores mais desconfortáveis do que outros, amores que se percorrem mais depressa ou mais devagar, amores que nos ou se fazem esperar.
Como as ruas. O amor é bom à solta na rua no mar no ar, no futuro ou no passado, no presente e sempre e nunca. Uma vez amei uma mulher. Vou amá-la sempre, para sempre: para cada uma das que amei há um sempre diferente, construído tijolo a tijolo, passo a passo, beijo a beijo, olhar a olhar, toque a toque.
Nas ruas do amor há sentidos proibidos e sentidos obrigatórios, limites de velocidade, traços contínuos, proibições de estacionar, calçadas escorregadias, pilaretes e polícias sinaleiros.
Se não houvesse não seriam ruas e não seria amor.
A calçada está irregular, é desconfortável mas bom andar nela: nem sempre o que amamos é confortável. Talvez até o amor – aquele cujo nome se recorda anos mais tarde – seja desconfortável. Prefiro os passeios desajeitados de Lisboa aos monótonos e cansativos sidewalks de West Palm Beach, por exemplo.
Uma vez amei uma mulher; ainda a amo. Amo-as todas: as que amei e um dia amarei, as que me amam e as que amei e me disseram “não, vai amar para outro lado. Vai passear por essas ruas de que tanto gostas, as que percorres a pé ou quando a tinhas de bicicleta, as ruas que vês do autocarro ou adivinhas do metro”.
Há amores mais desconfortáveis do que outros, amores que se percorrem mais depressa ou mais devagar, amores que nos ou se fazem esperar.
Como as ruas. O amor é bom à solta na rua no mar no ar, no futuro ou no passado, no presente e sempre e nunca. Uma vez amei uma mulher. Vou amá-la sempre, para sempre: para cada uma das que amei há um sempre diferente, construído tijolo a tijolo, passo a passo, beijo a beijo, olhar a olhar, toque a toque.
Nas ruas do amor há sentidos proibidos e sentidos obrigatórios, limites de velocidade, traços contínuos, proibições de estacionar, calçadas escorregadias, pilaretes e polícias sinaleiros.
Se não houvesse não seriam ruas e não seria amor.
21.12.16
Ser pequeno
A miséria é desconfiada e a desconfiança miserável. Sem uma a outra não sobrevive: a pequenez não é auto-sustentável.
Exclusão de partes, tempo
Era um humanista misantropo. À medida que envelhecia mais misantropo e mais humanista ficava. Mistura de tempo e exclusão de partes: demasiado tarde para começar a gostar de animais e demasiado cedo para deixar de os ver.
20.12.16
Definição - Amigo
Um amigo é um irmão que atribui mais peso às nossas qualidades do que aos nossos defeitos.
(Para o A.G. com um abraço amigo, irmão)
(Para o A.G. com um abraço amigo, irmão)
Optimismo, tempos
É preciso imaginar as ruínas de Great Zimbabwe, aqueles muros circulares, concêntricos e misteriosos devastados, demolidos por um bando de elefantes enraivecidos, bêbedos e voadores. Os elefantes atacaram por todos os lados: as ruínas são caóticas, espalham-se em todas as direcções sem ordem aparente. O cenário é aterrador. Não resta pedra sobre pedra. A devastação é total.
"Não faz mal. Tenho os planos dos muros e posso reconstruí-los", diz um homem; mete mãos à obra de seguida. Está cansado, mas aprendeu há muito a viver com o cansaço. "A longo prazo não reconstruir é mais cansativo", explica-se. "As muralhas estão em ruínas mas de qualquer forma tenho os planos".
..........
O optimismo mata mais gente e provoca mais danos do que o pessimismo. Talvez um gajo devesse ter isso presente antes de fazer seja o que for.
Todavia: sem optimismo uma ruína é uma ruína; com é uma obra, um objectivo quiçá nobre, quiçá risível. Um futuro. Para um pessimista só existe passado.
O passado é uma merda. Tanto é que já passou. Se fosse bom estaria presente, não teria passado.
"Não faz mal. Tenho os planos dos muros e posso reconstruí-los", diz um homem; mete mãos à obra de seguida. Está cansado, mas aprendeu há muito a viver com o cansaço. "A longo prazo não reconstruir é mais cansativo", explica-se. "As muralhas estão em ruínas mas de qualquer forma tenho os planos".
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O optimismo mata mais gente e provoca mais danos do que o pessimismo. Talvez um gajo devesse ter isso presente antes de fazer seja o que for.
Todavia: sem optimismo uma ruína é uma ruína; com é uma obra, um objectivo quiçá nobre, quiçá risível. Um futuro. Para um pessimista só existe passado.
O passado é uma merda. Tanto é que já passou. Se fosse bom estaria presente, não teria passado.
19.12.16
"Nada é feito"
"Nada é feito" clama um senhor nos Poetas do Povo. Se nada é feito como é que tudo se desfaz?
18.12.16
Voltar a casa
Anarquismo em Portugal? Ser anarquista num país em que se acha que o Estado deve fornecer tudo, desde pensos rápidos a bancos para os amigos, passando por teatro, cinema e respectivos rebuçados, companhias aéreas, água, luz, gás e greves ser anarquista é uma piada.
De quem não percebeu, mas piada.
........
"Atenção ao espaço entre o cais e o comboio". Enternecedor, este cuidado com a saúde dos passageiros. De notar que o próximo espaço entre o cais e o comboio vai ocorrer daqui a - diz o painel luminoso - dezasseis minutos e trinta segundos.
Pena o cuidado com os passageiros não ser extensível a coisas fundamentais e ficar confinado a infantilidades inúteis e importadas.
.........
Duas febras - das melhores de Lisboa - e duas taças de vinho: três euros e trinta cêntimos. Pobre por pobre antes em Lisboa. Pelo menos não me sinto espoliado. É uma pobreza justa, quase aceitável.
........
A quantidade de livros de poesia publicados em Portugal é fascinante. Num país em que as pessoas mal se falam toda a gente escreve poesia.
Deve ser por isso: tanto silêncio na urbe só se resolve com verborreia no papel.
.........
A vantagem dos amigos sobre a família é conhecerem-nos há menos tempo.
.........
"Portugal não é um país para marinheiros", diz-me R. Verdade: somos demasiado livres para um país de robots, demasiado pobres e plebeus no meio de marqueses (sem dinheiro, mas marqueses).
De quem não percebeu, mas piada.
........
"Atenção ao espaço entre o cais e o comboio". Enternecedor, este cuidado com a saúde dos passageiros. De notar que o próximo espaço entre o cais e o comboio vai ocorrer daqui a - diz o painel luminoso - dezasseis minutos e trinta segundos.
Pena o cuidado com os passageiros não ser extensível a coisas fundamentais e ficar confinado a infantilidades inúteis e importadas.
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Duas febras - das melhores de Lisboa - e duas taças de vinho: três euros e trinta cêntimos. Pobre por pobre antes em Lisboa. Pelo menos não me sinto espoliado. É uma pobreza justa, quase aceitável.
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A quantidade de livros de poesia publicados em Portugal é fascinante. Num país em que as pessoas mal se falam toda a gente escreve poesia.
Deve ser por isso: tanto silêncio na urbe só se resolve com verborreia no papel.
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A vantagem dos amigos sobre a família é conhecerem-nos há menos tempo.
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"Portugal não é um país para marinheiros", diz-me R. Verdade: somos demasiado livres para um país de robots, demasiado pobres e plebeus no meio de marqueses (sem dinheiro, mas marqueses).
Anti-capitalismo animal
Os anti-capitalistas descobriram finalmente que o capitalismo faz bem às pessoas e agora defendem os animais.
Passado e futuro, Portugal
Portugal, um país que pouco se interessa pela sua história e a respeita - com excepção dos Descobrimentos os portugueses pouco se interessam pelo seu passado - resiste à mudança como nenhum outro que eu conheço.
Quer manter o presente para não ter passado e tudo o que consegue é escamotear o futuro, que chega por baixo da gabardine como a pila de um exibicionista.
Quer manter o presente para não ter passado e tudo o que consegue é escamotear o futuro, que chega por baixo da gabardine como a pila de um exibicionista.
17.12.16
Almoço improvisado - Trouxas de presunto com carne de porco e grelos de nabo.
A ideia apareceu-me a caminho do supermercado; quem disser o contrário ou mente ou não sabe do que está a falar, passe o pleonasmo. "Aparecer" não é o verbo correcto. Foi construída. Começou com trutas à Minhota, um prato do qual gosto particularmente por causa da mistura de truta e bacon. Depois pensei numa alterativa: saltimbocca mas de porco, uma coisa que já fiz há uns anos uma vez e da qual gostei quase não desgostei.
A caminho do supermercado pensei que sim não mas talvez. Quando lá cheguei não havia trutas, mas havia grelos de nabo congelados. Comprei carne de porco picada, uma embalagem de presunto e alheiras, não fosse o diabo tecê-las.
Comecei por saltear os grelos com alho; continuei com o mesmo à carne. Fiz um déglacé (está muito na moda aqui pelas bandas de mim) com um bocadinho de água e vinho tinto; misturei os grelos salteados e a carne de porco, temperei com paprika, cominhos e uns pimentos em pó fumados que trouxe de West Palm, presente do Ed.
Com essa mistura e as fatias de presunto fiz umas trouxas, levei ao forno dez minutos ou quase quinze.
É um bom ponto de partida.
A caminho do supermercado pensei que sim não mas talvez. Quando lá cheguei não havia trutas, mas havia grelos de nabo congelados. Comprei carne de porco picada, uma embalagem de presunto e alheiras, não fosse o diabo tecê-las.
Comecei por saltear os grelos com alho; continuei com o mesmo à carne. Fiz um déglacé (está muito na moda aqui pelas bandas de mim) com um bocadinho de água e vinho tinto; misturei os grelos salteados e a carne de porco, temperei com paprika, cominhos e uns pimentos em pó fumados que trouxe de West Palm, presente do Ed.
Com essa mistura e as fatias de presunto fiz umas trouxas, levei ao forno dez minutos ou quase quinze.
É um bom ponto de partida.
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Receitas
16.12.16
Mitos
De A Short Story of Myth, de Karen Armstrong, ed. Canongate.
"This is clear in the myth of Anat, the sister and spouse of Baal, the storm god, which symbolises not only the struggling of farming but also the difficulty of attaining wholeness and harmony. Baal, who brings rain to the parched earth, is himself engaged in a creative battle with monsters, the forces and chaos and disintegration. One day, however, he is attacked by Mot, the god of death, sterility and drought, who constantly threatens to turn the earth into a desolate wilderness. At Mot's approach, Baal for once is overcome with fear, and surrenders without resistance. Mot chew him up, like a tasty morsel of lamb, and forces him down into the underworld, the land of the dead. Because Baal can no longer bring rain to the earth, vegetation withers and dies, amidst general lamentation. El, Baal's father - a typical High God - is helpless. When he hears of Baal's death, he comes down from his high trone, puts on sackcloth, and gashes his cheeks in the traditional rites of mourning, but cannot save his son. The only effective deity is Anat. Filled with grief and rage, she wanders through the earth, distraught, searching for her alter ego, her other half. The Syrian text which has preserved this myth tells us that she yearns for Baal "as a cow her calf or a ewe her lamb". The Mother Goddess is as fierce and beyond control as an animal when its young is in danger. When Anat finds Baal's remains, she makes a great funeral banquet in his honour, and, uttering a passionate complaint to El, she continues her search for Mot. When she finds him, she cleaves Mot in two with a ritual sickle, winnows him in a sieve, scorches him, grinds him in a mill, and scatters his flesh over the fields, treating him in exactly the same way as a farmer treats his grain.
Gosto desta história para lá de toda a medida. Tem tudo: o Bem vencido, a ressurreição trazida pelas mulheres, a luta sem fim entre o Bom e o Mau, a imparável fúria da Mulher.
"This is clear in the myth of Anat, the sister and spouse of Baal, the storm god, which symbolises not only the struggling of farming but also the difficulty of attaining wholeness and harmony. Baal, who brings rain to the parched earth, is himself engaged in a creative battle with monsters, the forces and chaos and disintegration. One day, however, he is attacked by Mot, the god of death, sterility and drought, who constantly threatens to turn the earth into a desolate wilderness. At Mot's approach, Baal for once is overcome with fear, and surrenders without resistance. Mot chew him up, like a tasty morsel of lamb, and forces him down into the underworld, the land of the dead. Because Baal can no longer bring rain to the earth, vegetation withers and dies, amidst general lamentation. El, Baal's father - a typical High God - is helpless. When he hears of Baal's death, he comes down from his high trone, puts on sackcloth, and gashes his cheeks in the traditional rites of mourning, but cannot save his son. The only effective deity is Anat. Filled with grief and rage, she wanders through the earth, distraught, searching for her alter ego, her other half. The Syrian text which has preserved this myth tells us that she yearns for Baal "as a cow her calf or a ewe her lamb". The Mother Goddess is as fierce and beyond control as an animal when its young is in danger. When Anat finds Baal's remains, she makes a great funeral banquet in his honour, and, uttering a passionate complaint to El, she continues her search for Mot. When she finds him, she cleaves Mot in two with a ritual sickle, winnows him in a sieve, scorches him, grinds him in a mill, and scatters his flesh over the fields, treating him in exactly the same way as a farmer treats his grain.
Our sources are incomplete, so we do not know how Anat managed to bring Baal back to life. But both Baal and Mot are divine, so neither can be wholly extinguished. The battle between the two will continue, , and the harvest will only be produced each year in the teeth of death. In one version of the myth Anat restores Baal so completely that next time Mot attacks him, he responds much more vigorously. Rain returns to the Earth, the valleys run with honey, and the heavens rain down precious oil. The story ends with the sexual reunion of Baal and Anat, an image of wholeness and completion, cultically reenacted during the New Year's festival."
Gosto desta história para lá de toda a medida. Tem tudo: o Bem vencido, a ressurreição trazida pelas mulheres, a luta sem fim entre o Bom e o Mau, a imparável fúria da Mulher.
Diário de Bordos - Lisboa, 16-12-2016
A viagem boa chegada boa: a TAP deixou-me levar o saco na bagagem de mão, pelo que não tive de esperar a habitual eternidade em Lisboa. Entre a aterragem do avião e o destino final decorreu uma hora, a qual incluiu os rituais croquete e bica à chegada, carregar o telefone portátil e verificar o bilhete do metro.
Nem as igualmente habituais escadas rolantes avariadas, a notícia no DN que o governo subvencionou não sei quantas empresas esperando assim criar mil e trezentos empregos (lê-se a notícia e vê-se que não é verdade: quinhentos são novos e os outros são mantidos). Faço rapidamente as contas: cento e trinta e seis mil euros por emprego. Se pegassem nessa massa e a dessem directamente aos beneficiados eles utilizá-la-iam muito melhor (isto assumindo que os beneficiados finais são os empregados. Duvido. Mas isso é outra história).
Está frio e chove. "Lisboa acolhe-me chorosa", penso. Talvez. Não sei. Descarto a ideia por pieguice manifesta. No meio das incertezas todas nada uma certeza: é bom estar de regresso, por muito difícil seja o que me espera. O resto é entre mim e Lisboa, uma vez mais.
........
No avião acabei o Homme Obscur de Yourcenar. Como de costume acompanhado por um posfácio, espécie de making of. É desse posfácio que retiro esta descrição de Nathanaël, a personagem principal:
"...il n'est pas tout à fait aussi ignorant ni aussi démuni que j'aurais voulu qu'il le fût. Reste, néanmoins, aussi indépendant que possible de toute opinion inculquée, le quasi‑autodidacte nullement simple, mais délesté à l'extrême, se méfiant instinctivement de ce que les livres qu'il feuillette, les musiques qu'il lui arrive d'entendre, les peintures sur lesquelles se posent parfois ses yeux ajoutent à la nudité des choses, indifférent aux grands événements des gazettes, sans préjugé dans tout ce qui touche à la vie des sens, mais aussi sans l'excitation ou les obsessions factices qui sont l'effet de la contrainte ou d'un érotisme acquis, prenant la science et la philosophie pour ce qu'elles sont, et surtout pour ce que sont les savants et les philosophes qu'il rencontre, et levant sur le monde un regard d'autant plus clair qu'il est plus incapable d'orgueil. Il n'y a rien d'autre à dire sur Nathanaël."
Há: exaspérant. A liberdade e a independência - ainda por cima sem orgulho - são exasperantes. Eu sei, por experiência.
........
É muito difícil encontrar uma hospedeira (ou hospedeiro) da TAP mais simpáticos do que qualquer outro. Salvo raríssimas excepções o pessoal de cabine de companhia é de uma simpatia estratosférica. Esta vez foi uma excepção: uma das senhoras era ainda mais simpática, sorridente, afável do que o habitual. Nem me lembrei de que tínhamos saído com uma hora de atraso.
Nem as igualmente habituais escadas rolantes avariadas, a notícia no DN que o governo subvencionou não sei quantas empresas esperando assim criar mil e trezentos empregos (lê-se a notícia e vê-se que não é verdade: quinhentos são novos e os outros são mantidos). Faço rapidamente as contas: cento e trinta e seis mil euros por emprego. Se pegassem nessa massa e a dessem directamente aos beneficiados eles utilizá-la-iam muito melhor (isto assumindo que os beneficiados finais são os empregados. Duvido. Mas isso é outra história).
Está frio e chove. "Lisboa acolhe-me chorosa", penso. Talvez. Não sei. Descarto a ideia por pieguice manifesta. No meio das incertezas todas nada uma certeza: é bom estar de regresso, por muito difícil seja o que me espera. O resto é entre mim e Lisboa, uma vez mais.
........
No avião acabei o Homme Obscur de Yourcenar. Como de costume acompanhado por um posfácio, espécie de making of. É desse posfácio que retiro esta descrição de Nathanaël, a personagem principal:
"...il n'est pas tout à fait aussi ignorant ni aussi démuni que j'aurais voulu qu'il le fût. Reste, néanmoins, aussi indépendant que possible de toute opinion inculquée, le quasi‑autodidacte nullement simple, mais délesté à l'extrême, se méfiant instinctivement de ce que les livres qu'il feuillette, les musiques qu'il lui arrive d'entendre, les peintures sur lesquelles se posent parfois ses yeux ajoutent à la nudité des choses, indifférent aux grands événements des gazettes, sans préjugé dans tout ce qui touche à la vie des sens, mais aussi sans l'excitation ou les obsessions factices qui sont l'effet de la contrainte ou d'un érotisme acquis, prenant la science et la philosophie pour ce qu'elles sont, et surtout pour ce que sont les savants et les philosophes qu'il rencontre, et levant sur le monde un regard d'autant plus clair qu'il est plus incapable d'orgueil. Il n'y a rien d'autre à dire sur Nathanaël."
Há: exaspérant. A liberdade e a independência - ainda por cima sem orgulho - são exasperantes. Eu sei, por experiência.
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É muito difícil encontrar uma hospedeira (ou hospedeiro) da TAP mais simpáticos do que qualquer outro. Salvo raríssimas excepções o pessoal de cabine de companhia é de uma simpatia estratosférica. Esta vez foi uma excepção: uma das senhoras era ainda mais simpática, sorridente, afável do que o habitual. Nem me lembrei de que tínhamos saído com uma hora de atraso.
15.12.16
Diário de Bordos - Tri-Rail entre West Palm Beach e Miami, EUA, 15-12-2016
Escrevo do comboio que me leva ao aeroporto de Miami. Daqui a pouco mais de quinze horas estarei em Lisboa. Não sei que dizer do que me espera: um período negro com uma grande luz ou uma grande claridade com um poço no meio?
Pouco importa. Ed do F.C. veio trazer-me à estação. Foi um adeus de marinheiros: "Ciao, até um dia destes". "Ciao". "Obrigado por tudo". "Obrigado eu". Um aperto de mão, as portas do carro fechadas. Detesto grandes despedidas, lenços brancos a acenar, corridas atrás do comboio, abraços que mais não fazem do que prolongar a dor que as despedidas todas são. A página West Palm Beach virou-se. Pode ser que a reabra - o conto de horror do qual é parte ainda não acabou - mas para já está fechada. Ponto final.
Parágrafo.
Pouco importa. Ed do F.C. veio trazer-me à estação. Foi um adeus de marinheiros: "Ciao, até um dia destes". "Ciao". "Obrigado por tudo". "Obrigado eu". Um aperto de mão, as portas do carro fechadas. Detesto grandes despedidas, lenços brancos a acenar, corridas atrás do comboio, abraços que mais não fazem do que prolongar a dor que as despedidas todas são. A página West Palm Beach virou-se. Pode ser que a reabra - o conto de horror do qual é parte ainda não acabou - mas para já está fechada. Ponto final.
Parágrafo.
Concentro-me na claridade que me espera. O negrume é cego e mudo, desinteressante. Tenho a certeza de que o tempo demonstrará que tive razão, que a minha opção foi a boa. Não sei. Sempre vivi na incerteza. A certeza virá no caixão.
........
O comboio teve uma avaria. "Vamos tentar chegar o mais longe possível para Sul. Acabamos de perder um motor", diz o altifalante num tom cordial, como se estivesse a dizer que se esgotou o stock de limonada. Na estação diz "Este é o comboio que vai para Sul, blablabla. Não temos ar condicionado, caso não queira embarcar". Para um indígena a vida sem ar condicionado é inconcebível, como um inferno sem chamas.
........
De volta ao aeroporto de Miami. Um dos meus ódios de estimação, desta vez largamente atenuado porque vou na TAP para Lisboa. E com o atraso no comboio vou lá passar menos tempo do que tinha previsto.
........
O comboio teve uma avaria. "Vamos tentar chegar o mais longe possível para Sul. Acabamos de perder um motor", diz o altifalante num tom cordial, como se estivesse a dizer que se esgotou o stock de limonada. Na estação diz "Este é o comboio que vai para Sul, blablabla. Não temos ar condicionado, caso não queira embarcar". Para um indígena a vida sem ar condicionado é inconcebível, como um inferno sem chamas.
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De volta ao aeroporto de Miami. Um dos meus ódios de estimação, desta vez largamente atenuado porque vou na TAP para Lisboa. E com o atraso no comboio vou lá passar menos tempo do que tinha previsto.
14.12.16
Conspiração internacional
Não é só a eleição do Trump que a Rússia está a tentar influenciar. Há claramente manobras para manipular o Don Vivo também.
Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 13-12-2016
A noite está muito calma. Lua Cheia, sem vento. Na marina dois barcos têm iluminação de Natal mastros acima. Acho um bocadinho pateta: o Natal é festa de terráqueos, não de marinheiros. Enfim, que se lixe. O problema é deles, se bem quem vê as luzes sejamos nós, todos os outros. São um bocadinho foleiras mas só as vejo durante os cinquenta metros de pontão entre o F.C. e o W. Uma vez cá dentro não vejo nada.
Oiço apenas a interminável lengalenga entre o W. e o cais. Tenho os cabos com pouca folga e deve haver corrente. Falam decerto um com um outro a dizer "espera, agora subo eu. Desce. Sobe. Vou um bocadinho avante. Deixa-te estar onde estás. Isto está a apertar de mais. Não. Deixa. Gosto assim".
Qualquer coisa do género. Um barco não faz barulho. Conversa com quem tem para o ouvir. Não me meto na conversa. Se os quisesse calar encharcaria o través de popa - é ele que está a papaguear - em detergente para a loiça, mas não quero. Desapetece-me.
........
O jantar foi garoupa cozida. Estava boa. Usei um vinagre de cidra orgânico que estava a bordo há não sei quanto tempo e estragou-me a primeira parte. O azeite tão pouco era grande coisa. Depois mudei para o Oliveira da Serra comprado no Seabra e as coisas melhoraram. Azeite orgânico, cinco estrelas, gourmet.
Os armadores percebem tanto de azeite e vinagre como de barcos, coitados.
........
Quinta-feira vou para Lisboa. Não sei quanto tempo fico. O mais provável é não voltar. Estou um bocadinho farto destes gajos, mas por enquanto é só um bocadinho. Ainda não é muito. E provável que não volte. Estou um bocadinho farto destes gajos. Não muito, ainda, só um bocadinho. E prometi-lhes que os ajudava. E a mim que levava isto até ao fim.
Parece a conversa do W. com o cais.
Oiço apenas a interminável lengalenga entre o W. e o cais. Tenho os cabos com pouca folga e deve haver corrente. Falam decerto um com um outro a dizer "espera, agora subo eu. Desce. Sobe. Vou um bocadinho avante. Deixa-te estar onde estás. Isto está a apertar de mais. Não. Deixa. Gosto assim".
Qualquer coisa do género. Um barco não faz barulho. Conversa com quem tem para o ouvir. Não me meto na conversa. Se os quisesse calar encharcaria o través de popa - é ele que está a papaguear - em detergente para a loiça, mas não quero. Desapetece-me.
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O jantar foi garoupa cozida. Estava boa. Usei um vinagre de cidra orgânico que estava a bordo há não sei quanto tempo e estragou-me a primeira parte. O azeite tão pouco era grande coisa. Depois mudei para o Oliveira da Serra comprado no Seabra e as coisas melhoraram. Azeite orgânico, cinco estrelas, gourmet.
Os armadores percebem tanto de azeite e vinagre como de barcos, coitados.
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Quinta-feira vou para Lisboa. Não sei quanto tempo fico. O mais provável é não voltar. Estou um bocadinho farto destes gajos, mas por enquanto é só um bocadinho. Ainda não é muito. E provável que não volte. Estou um bocadinho farto destes gajos. Não muito, ainda, só um bocadinho. E prometi-lhes que os ajudava. E a mim que levava isto até ao fim.
Parece a conversa do W. com o cais.
13.12.16
Reedição - Tiro ao alvo
Uma reedição que vem mesmo a calhar:
Tive uma adolescência difícil. Tentei apaziguá-la com whisky e Nietzsche, mas os resultados não foram satisfatórios. Hoje tenho sessenta anos e ainda lhe sinto os efeitos. A verdade é que me tornei um homem solitário, detestado pela maioria das pessoas e apenas levemente suportado por duas ou três - a quem por isso chamo amigos íntimos. Não o são, nem uma coisa nem outra: não tenho nem amigos nem íntimo. Enfim, o meu íntimo acaba nos meus pulmões. Daí para dentro, ou para baixo, ou para onde quiserem não há nada. Talvez o estômago. Não sei.
Também não sei se gosto da vida que levo: nunca pensei nisso e de qualquer forma não dialogo comigo mesmo. Não sendo esquizofrénico não tenho interlocutor. Continuo a beber whisky, claro; mas deixei de ler Nietzsche. O moralismo cansa-me, cada vez mais e mais depressa. Acho que deve haver, algures, uma perspicácia neutra de um ponto de vista moral. Neutra, transparente (é uma metonímia para inexistente. Que se fodam as metonímias e a moral). Claro que me podem dizer que continuo a ler Beckett e que se aquilo não é moral o que o é? Talvez, mas pelo menos Beckett é cómico. E Cioran; e esses gajos todos: Debord, Vaneigem ("en se banalisant, la vie quotidienne a conquis peu à peu le centre de nos préoccupations (1). - Aucune illusion, ni sacrée ni désacralisée (2), - ni collective ni individuelle, ne peut dissimuler plus longtemps la pauvreté des gestes quotidiens (3). - L'enrichissement de la vie exige, sans faux-fuyants, l'analyse de la nouvelle pauvreté et le perfectionnement des armes anciennes du refus (4)"). "As armas antigas da recusa". Não é cómico, isto? As novas não servem? De qualquer forma cada vez leio menos, uma sorte.
Aos quinze anos o meu Pai deu-me um modelo de porta-aviões para construir. Achava fácil, e como eu gostava de aviões pensou que era o indicado. Deve ter sido a única coisa em que acertou na vida - pelo menos no que me diz respeito -. Desde então nunca mais parei de construir modelos - de navios, de aviões, de soldados, de tanques, de carros, de tudo de que tenha sido feito um modelo -. E comprar, também: tenho uma colecção que deixa a do Pavilhão Chinês a milhas. Todos pintados pormenorizadamente - graças a Deus nunca tive que perder tempo a foder mulheres nem a educar as crianças que daí resultam, inevitavelmente -. (O que não quer dizer que seja virgem. Não sou. Até há pouco tempo ia a uma puta do Intendente, sempre a mesma, duas vezes por mês. Mas ela reformou-se e não quer foder mais. Tanto se me dá. De qualquer forma estava mais gasta do que um pergaminho do Mar Morto).
Também perdi a vontade de construir modelos. Agora o meu passatempo é destruí-los: comprei uma carabina de chumbos e todos os dias atiro a dez soldados; uma vez por semana acrescento dois aviões e um navio. Calculei que a este ritmo tenho para dez anos de tiro ao alvo. Depois, não sei. Talvez compre uma Walter PPK. É uma arma bonita, a PPK; e a dois centímetros é impossível falhar o pior modelo que já construí.
Tive uma adolescência difícil. Tentei apaziguá-la com whisky e Nietzsche, mas os resultados não foram satisfatórios. Hoje tenho sessenta anos e ainda lhe sinto os efeitos. A verdade é que me tornei um homem solitário, detestado pela maioria das pessoas e apenas levemente suportado por duas ou três - a quem por isso chamo amigos íntimos. Não o são, nem uma coisa nem outra: não tenho nem amigos nem íntimo. Enfim, o meu íntimo acaba nos meus pulmões. Daí para dentro, ou para baixo, ou para onde quiserem não há nada. Talvez o estômago. Não sei.
Também não sei se gosto da vida que levo: nunca pensei nisso e de qualquer forma não dialogo comigo mesmo. Não sendo esquizofrénico não tenho interlocutor. Continuo a beber whisky, claro; mas deixei de ler Nietzsche. O moralismo cansa-me, cada vez mais e mais depressa. Acho que deve haver, algures, uma perspicácia neutra de um ponto de vista moral. Neutra, transparente (é uma metonímia para inexistente. Que se fodam as metonímias e a moral). Claro que me podem dizer que continuo a ler Beckett e que se aquilo não é moral o que o é? Talvez, mas pelo menos Beckett é cómico. E Cioran; e esses gajos todos: Debord, Vaneigem ("en se banalisant, la vie quotidienne a conquis peu à peu le centre de nos préoccupations (1). - Aucune illusion, ni sacrée ni désacralisée (2), - ni collective ni individuelle, ne peut dissimuler plus longtemps la pauvreté des gestes quotidiens (3). - L'enrichissement de la vie exige, sans faux-fuyants, l'analyse de la nouvelle pauvreté et le perfectionnement des armes anciennes du refus (4)"). "As armas antigas da recusa". Não é cómico, isto? As novas não servem? De qualquer forma cada vez leio menos, uma sorte.
Aos quinze anos o meu Pai deu-me um modelo de porta-aviões para construir. Achava fácil, e como eu gostava de aviões pensou que era o indicado. Deve ter sido a única coisa em que acertou na vida - pelo menos no que me diz respeito -. Desde então nunca mais parei de construir modelos - de navios, de aviões, de soldados, de tanques, de carros, de tudo de que tenha sido feito um modelo -. E comprar, também: tenho uma colecção que deixa a do Pavilhão Chinês a milhas. Todos pintados pormenorizadamente - graças a Deus nunca tive que perder tempo a foder mulheres nem a educar as crianças que daí resultam, inevitavelmente -. (O que não quer dizer que seja virgem. Não sou. Até há pouco tempo ia a uma puta do Intendente, sempre a mesma, duas vezes por mês. Mas ela reformou-se e não quer foder mais. Tanto se me dá. De qualquer forma estava mais gasta do que um pergaminho do Mar Morto).
Também perdi a vontade de construir modelos. Agora o meu passatempo é destruí-los: comprei uma carabina de chumbos e todos os dias atiro a dez soldados; uma vez por semana acrescento dois aviões e um navio. Calculei que a este ritmo tenho para dez anos de tiro ao alvo. Depois, não sei. Talvez compre uma Walter PPK. É uma arma bonita, a PPK; e a dois centímetros é impossível falhar o pior modelo que já construí.
Pedido humilde
Pode a divina providência ou outra providência qualquer ou seja o que for que faz de providência deixar de fazer de mim saco de porrada?
Obrigado.
Obrigado.
12.12.16
Rosa, Manuel Gusmão
Hoje Manuel Gusmão faz anos. É um poeta que li muito e que por vezes citei no DV. Procurei-o agora e aparecem-me: "Põe uma pedra nessa infância", a "Terrível ausência de mar" e esta:
a rosa é o tigre
Chama-se Rosa e está no "dois sóis, a rosa / a arquitectura do mundo", Ed. Caminho, 1990
a rosa é o tigre
a rosa é o tigre preso
a meio do voo
e o olhar da surpresa
preso no olhar do tigre
súbito susto
Chama-se Rosa e está no "dois sóis, a rosa / a arquitectura do mundo", Ed. Caminho, 1990
10.12.16
Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 10-12-2016
Nada é simultaneamente mais simples e mais complicado do que uma espera. É simples porque não há nada que fazer; é um martírio porque não só não há nada que fazer como dependemos de terceiros.
W., o barco onde estou foi atingido por um raio antes de eu chegar. O equipamento eléctrico foi todo para o galheiro, claro, bem como a electrónica, as ferragens dos diamantes (dos dois lados) e talvez - não sabemos - o mastro e os brandais. Na melhor das hipóteses - se não tivermos de mudar o mastro - cem mil dólares; na pior duzentos. Os armadores tinham previsto gastar quinze mil.
Fiz um protesto aos seguros, claro. O caso era límpido: um raio na Flórida está muito longe de ser raro - é uma das regiões com mais raios do mundo, a seguir a uma ilha na Costa Rica - o barco estava atracado, os sintomas de raio não enganam. Os seguros começaram por aceitar, seguiram-se os trâmites habituais e toca de esperar uma resposta que só podia ser positiva.
Não foi: o barco estava seguro para as Caraíbas e portanto na Flórida estava fora da área de cobertura. Ou seja: não estava seguro.
Os armadores são inexperientes, não sabiam que um seguro marítimo tem áreas pela razão simples e irrefutável de que os riscos não são os mesmos em todo o lado. Lembraram-se, contudo, que a companhia de seguros lhes tinha exigido um Plano de preparação para ciclones (Hurricane Preparedness Plan em inglês, HPP daqui para a frente), o qual eles tinham naturalmente entregue e mencionava especificamente a Flórida como local onde o barco estaria durante a época dos ciclones.
É importante ver que a apólice tem a mesma data do HPP (23 de Junho. Isto é relevante porque a época de ciclones começa a 1 de Junho). Ou seja: a companhia de seguros vendeu um produto sabendo (ou devendo saber. Trata-se mais do que obviamente de um erro de um funcionário menor) que não era adequado às suas próprias exigências. Não há volta a dar-lhe: os seguros puseram o pé na argola.
Acontece que se há sector no qual a regra do caveat emptor se aplica sem a mais pequena flexibilidade é o dos seguros. Tem de ser assim: uma companhia de seguros que facilite sai do mercado em meia dúzia de meses.
Portanto neste momento o mar da companhia de seguros está a bater contra a rocha dos underwriters (que ainda por cima é a Lloyds de Londres, não muito conhecida por deitar dinheiro pelas janelas em casos em que não tem de o fazer). Duzentos mil dólares é uma pipa de massa para uma pequena companhia de seguros como a do W. Os armadores - que entretanto já gastaram o dobro do que tinham para gastar - disseram "acabou. Se quiseres ficar aí ficas com um per diem até se resolver o imbróglio dos seguros" (isto há aqui algumas elipses, mas o grosso da história é esta).
Decidi ficar por duas razões. Uma delas é que estes armadores já me tiraram de dois apertos e penso que agora chegou a altura de lhes pagar. O outro barco no qual trabalhei para eles acabou por ser vendido por uma soma ridícula devido à sua inexperiência (fazem-me pensar em focas bebés no meio de um bando de tubarões) e se tiverem de vender este ao menos que isso não se repita.
De modo agora só nos resta esperar que a companhia de seguros reconheça que errou. É como esperar que a Virgem Maria venha dizer aos pastorinhos que esteve numa orgia. Enfim, não tanto: ainda há uma probabilidade e é a essa que me agarro. Penso para a semana ter uma resposta definitiva.
Penso ou espero? Não sei. Para um marinheiro a clivagem entre pensar e esperar é muito muito ténue. Não haveria marinheiros se não fosse assim.
........
Vou com o Ed do F.C. ao supermercado português de Pompano Beach. Uma hora de comboio (cada trajecto) para comprar morcela e vinho tinto decente. Há piores motivações.
........
Quero definitivamente mudar de vida, mas a história do clima assusta-me. Não o aquecimento, benza-o Deus, que venha e depressa. Ao contrário: estão vinte e dois graus (diz a net) e tenho de pôr uma sweat shirt e meias porque estou cheio de frio.
........
Ah, e café. Não esquecer o café.
.......
Ontem fiz beringelas recheadas no F. C. Ed diz-me que foi a melhor refeição do ano. Fiquei contente: é um gastrónomo, sabe de comida e tem sobretudo uma qualidade que aprecio cada vez que a encontro e infelizmente encontra cada vez menos - diz o que pensa. Quando cozinho e não gosta - ou não acha muito bom - diz-mo exactamente como me disse que aquelas beringelas estavam uma delícia.
Estavam: foram feitas com todos os éfes e érres, como se estivesse a fazê-las para uma senhora que me encantou. (Estava, apesar de ela não estar aqui. O encanto tem um raio de acção ilimitado, sempre teve).
A tapenade também não ficou má, mas sofreu um bocadinho com a má qualidade das azeitonas.
(Acrescentar azeitonas à lista).
........
As previsões dizem que a frente vai ficar até segunda-feira, mas amanhã vem o sector quente e as temperaturas sobem. West Palm Beach fica a pouco menos de vinte e sete graus de latitude. Posso estar enganado, mas assim de repente devem ser uns dez a mais do que o que deviam ser. Ou então sou eu que tenho de me readaptar.
Não será difícil, penso. Ter frio é como não ter dinheiro: três meses suportam-se melhor do que três dias.
W., o barco onde estou foi atingido por um raio antes de eu chegar. O equipamento eléctrico foi todo para o galheiro, claro, bem como a electrónica, as ferragens dos diamantes (dos dois lados) e talvez - não sabemos - o mastro e os brandais. Na melhor das hipóteses - se não tivermos de mudar o mastro - cem mil dólares; na pior duzentos. Os armadores tinham previsto gastar quinze mil.
Fiz um protesto aos seguros, claro. O caso era límpido: um raio na Flórida está muito longe de ser raro - é uma das regiões com mais raios do mundo, a seguir a uma ilha na Costa Rica - o barco estava atracado, os sintomas de raio não enganam. Os seguros começaram por aceitar, seguiram-se os trâmites habituais e toca de esperar uma resposta que só podia ser positiva.
Não foi: o barco estava seguro para as Caraíbas e portanto na Flórida estava fora da área de cobertura. Ou seja: não estava seguro.
Os armadores são inexperientes, não sabiam que um seguro marítimo tem áreas pela razão simples e irrefutável de que os riscos não são os mesmos em todo o lado. Lembraram-se, contudo, que a companhia de seguros lhes tinha exigido um Plano de preparação para ciclones (Hurricane Preparedness Plan em inglês, HPP daqui para a frente), o qual eles tinham naturalmente entregue e mencionava especificamente a Flórida como local onde o barco estaria durante a época dos ciclones.
É importante ver que a apólice tem a mesma data do HPP (23 de Junho. Isto é relevante porque a época de ciclones começa a 1 de Junho). Ou seja: a companhia de seguros vendeu um produto sabendo (ou devendo saber. Trata-se mais do que obviamente de um erro de um funcionário menor) que não era adequado às suas próprias exigências. Não há volta a dar-lhe: os seguros puseram o pé na argola.
Acontece que se há sector no qual a regra do caveat emptor se aplica sem a mais pequena flexibilidade é o dos seguros. Tem de ser assim: uma companhia de seguros que facilite sai do mercado em meia dúzia de meses.
Portanto neste momento o mar da companhia de seguros está a bater contra a rocha dos underwriters (que ainda por cima é a Lloyds de Londres, não muito conhecida por deitar dinheiro pelas janelas em casos em que não tem de o fazer). Duzentos mil dólares é uma pipa de massa para uma pequena companhia de seguros como a do W. Os armadores - que entretanto já gastaram o dobro do que tinham para gastar - disseram "acabou. Se quiseres ficar aí ficas com um per diem até se resolver o imbróglio dos seguros" (isto há aqui algumas elipses, mas o grosso da história é esta).
Decidi ficar por duas razões. Uma delas é que estes armadores já me tiraram de dois apertos e penso que agora chegou a altura de lhes pagar. O outro barco no qual trabalhei para eles acabou por ser vendido por uma soma ridícula devido à sua inexperiência (fazem-me pensar em focas bebés no meio de um bando de tubarões) e se tiverem de vender este ao menos que isso não se repita.
De modo agora só nos resta esperar que a companhia de seguros reconheça que errou. É como esperar que a Virgem Maria venha dizer aos pastorinhos que esteve numa orgia. Enfim, não tanto: ainda há uma probabilidade e é a essa que me agarro. Penso para a semana ter uma resposta definitiva.
Penso ou espero? Não sei. Para um marinheiro a clivagem entre pensar e esperar é muito muito ténue. Não haveria marinheiros se não fosse assim.
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Vou com o Ed do F.C. ao supermercado português de Pompano Beach. Uma hora de comboio (cada trajecto) para comprar morcela e vinho tinto decente. Há piores motivações.
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Quero definitivamente mudar de vida, mas a história do clima assusta-me. Não o aquecimento, benza-o Deus, que venha e depressa. Ao contrário: estão vinte e dois graus (diz a net) e tenho de pôr uma sweat shirt e meias porque estou cheio de frio.
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Ah, e café. Não esquecer o café.
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Ontem fiz beringelas recheadas no F. C. Ed diz-me que foi a melhor refeição do ano. Fiquei contente: é um gastrónomo, sabe de comida e tem sobretudo uma qualidade que aprecio cada vez que a encontro e infelizmente encontra cada vez menos - diz o que pensa. Quando cozinho e não gosta - ou não acha muito bom - diz-mo exactamente como me disse que aquelas beringelas estavam uma delícia.
Estavam: foram feitas com todos os éfes e érres, como se estivesse a fazê-las para uma senhora que me encantou. (Estava, apesar de ela não estar aqui. O encanto tem um raio de acção ilimitado, sempre teve).
A tapenade também não ficou má, mas sofreu um bocadinho com a má qualidade das azeitonas.
(Acrescentar azeitonas à lista).
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As previsões dizem que a frente vai ficar até segunda-feira, mas amanhã vem o sector quente e as temperaturas sobem. West Palm Beach fica a pouco menos de vinte e sete graus de latitude. Posso estar enganado, mas assim de repente devem ser uns dez a mais do que o que deviam ser. Ou então sou eu que tenho de me readaptar.
Não será difícil, penso. Ter frio é como não ter dinheiro: três meses suportam-se melhor do que três dias.
4.12.16
Diário de Bordos - Palm Beach Gardens, Flórida, EUA, 04-12-2016
Vim ao mercado (verde, naturalmente) de Palm Beach Gardens. Comprei aipo orgânico, claro, mais especiarias ao marroquino (chama-se Adriss ou lá perto), ovos directos da quinta. Há muita comida à venda e alguma deve ser boa (comi um dos melhores conch fritters de sempre), mas não se pode beber uma cerveja, beber um copo de vinho ou sequer provar um rum chamado Really Bad Rum de um produtor local (ou comerciante, não sei, não fui à página).
Para se habituar a viver aqui um gajo tem de se habituar a ser tratado como uma criança (hoje juro que vi escrito numa garrafa de água com gás num supermercado "product under pressure. Handle with care". Numa garrafa de água com gás das de três quartos de litro. "Handle with care". Não a comprei).
Fui comprar uma cerveja a uma loja perto do mercado e beber um café ao Dunkin´Donuts que lhe fica em frente. É sempre assim: uma coisa aqui, outra ali, uma terceira acolá. No fim tudo funciona: é um puzzle espalhado por quilómetros e quilómetros quadrados (o mercado fica a quase onze quilómetros da marina) e - como me dizia Del hoje de manhã - pouco espesso, "ao contrário da Europa, onde tudo está muito perto e tem espessura".
O objectivo não é comparar a Europa aos Estados Unidos, obviamente. Seria como comer uma pera e achar que não sabe a ananás. É simplesmente habituar-me a isto, perceber os códigos, saber que o mais provável é ter de passar aqui mais dois ou três meses e mais vale saber ler o sítio onde estou.
Sendo que agora volto para bordo. Chega de leituras, descobertas e compreensões. Vou para terreno familiar. O resto é conversa de encher bexigas de porco.
........
Já tinha ouvido falar de vacas e de galinhas felizes (aquelas numa garrafa de leite, estas numa embalagem de ovos). Hoje ouvi pela primeira vez a expressão "flores felizes". Eram girassóis, indubitavelmente bonitos, grandes, resplandecentes. Agora se estavam felizes ali em baldes em vez de na terra não sei, não tenho maneira de ajuizar.
.........
Alcatrão, cimento, palmeiras, relva, uma casa e um ou dois carros. É desta paisagem que Del e Steve dizem que não tem alma. Estão podres de razão. Nem alma nem corpo nem esqueleto nem ossos ou músculo. Não tem nada. Parece uma miragem, um desenho em três dimensões, um jogo de Lego, cenário para um filme de fantasmas, ilustração de um ensaio de Camus. Desde que não seja o Homem Revoltado, claro.
Para se habituar a viver aqui um gajo tem de se habituar a ser tratado como uma criança (hoje juro que vi escrito numa garrafa de água com gás num supermercado "product under pressure. Handle with care". Numa garrafa de água com gás das de três quartos de litro. "Handle with care". Não a comprei).
Fui comprar uma cerveja a uma loja perto do mercado e beber um café ao Dunkin´Donuts que lhe fica em frente. É sempre assim: uma coisa aqui, outra ali, uma terceira acolá. No fim tudo funciona: é um puzzle espalhado por quilómetros e quilómetros quadrados (o mercado fica a quase onze quilómetros da marina) e - como me dizia Del hoje de manhã - pouco espesso, "ao contrário da Europa, onde tudo está muito perto e tem espessura".
O objectivo não é comparar a Europa aos Estados Unidos, obviamente. Seria como comer uma pera e achar que não sabe a ananás. É simplesmente habituar-me a isto, perceber os códigos, saber que o mais provável é ter de passar aqui mais dois ou três meses e mais vale saber ler o sítio onde estou.
Sendo que agora volto para bordo. Chega de leituras, descobertas e compreensões. Vou para terreno familiar. O resto é conversa de encher bexigas de porco.
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Já tinha ouvido falar de vacas e de galinhas felizes (aquelas numa garrafa de leite, estas numa embalagem de ovos). Hoje ouvi pela primeira vez a expressão "flores felizes". Eram girassóis, indubitavelmente bonitos, grandes, resplandecentes. Agora se estavam felizes ali em baldes em vez de na terra não sei, não tenho maneira de ajuizar.
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Alcatrão, cimento, palmeiras, relva, uma casa e um ou dois carros. É desta paisagem que Del e Steve dizem que não tem alma. Estão podres de razão. Nem alma nem corpo nem esqueleto nem ossos ou músculo. Não tem nada. Parece uma miragem, um desenho em três dimensões, um jogo de Lego, cenário para um filme de fantasmas, ilustração de um ensaio de Camus. Desde que não seja o Homem Revoltado, claro.
Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 03-12-2016
Fiz finalmente o chilli con carne. Ficou bom: pelo menos tinha chillies, muitos e variados. Um dos tripulantes não conseguiu comê-lo por demasiado picante. Os outros gostaram. Foi um jantar bastante agradável. Falei de mais e eles também, o que sempre equilibra. Excepto o que não conseguiu comer: não abriu a boca o jantar todo. Não sei se por demasiado picada se por não ter nada a dizer.
Ao todo foi um bom dia. Confirmei a minha ideia de que "os americanos não sabem comer" é tão falso como "a terra é plana" ou "na América quem não tem dinheiro morre na rua". De manhã fui ao "mercado verde" (entre aspas porque a tradução é literal) de West Palm. Acreditem se quiserem, mas comprei meio Époisses, uma baguette e um pão com azeitonas (meio porque o preço era proibitivo). Para quem não sabe: Époisses é um queijo francês da Borgonha. Se alguém um dia precisar de uma prova da existência de Deus (eu não preciso; sei que não existe, mas isso não é assunto que me preocupe particularmente) deve comprar um Époisses affiné au marc de Bourgogne. Não era o caso do que hoje comprei (felizmente, porque se fosse não teria podido comprar nem metade, a julgar pelo preço deste) mas um Époisses é um Époisses tal como eu sou marinheiro seja a embarcação à vela, a motor ou a remos. Comi-o no mercado, sentado no canteiro de uma árvore cujo nome desconheço mas que dava sombra, coisa bastante necessária por estas bandas. Depois fui beber um copo de vinho ao Palm Sugar, não fosse o diabo tecê-las. A posteriori é melhor do que numquam.
A seguir vim para bordo fazer o chilli. Comecei por fritar bacon, na gordura resultante refoguei os pimentos, os chillies, as cebolas, a carne (bifes que de tão ecológicos davam para vegans; estavam a preço de saldo e cortei-os aos bocadinhos). Tudo isto separadamente. Depois juntei tudo na panela, mai-los tomates e montes de salsa, os orégãos, paprika (fumada, comprada no mercado no stand de um marroquino) e cominhos comprados ao mesmo marroquino sorridente. Deixei cozer quatro horas. A inovação foram os cominhos: usei sementes em vez de moídos. Esta mutação vai ser adaptada.
Amanhã há outro mercado e é maior. Vou ter de lá ir, claro. Ainda por cima tem a vantagem de ser mais longe, qualidade não despicienda porque a) controla o peso do que trago, ou seja b) o respectivo custo e c) me faz ir mais longe.
Na bicicleta, quero dizer. Não sei quanto tempo se pode resistir sem carta de condução aqui.
........
De maneira é isto: um gajo espera e desespera e de vez em quando deixa de desesperar mas não de esperar.
Não seria mau ver o fim da espera, com ou sem desespero.
Ao todo foi um bom dia. Confirmei a minha ideia de que "os americanos não sabem comer" é tão falso como "a terra é plana" ou "na América quem não tem dinheiro morre na rua". De manhã fui ao "mercado verde" (entre aspas porque a tradução é literal) de West Palm. Acreditem se quiserem, mas comprei meio Époisses, uma baguette e um pão com azeitonas (meio porque o preço era proibitivo). Para quem não sabe: Époisses é um queijo francês da Borgonha. Se alguém um dia precisar de uma prova da existência de Deus (eu não preciso; sei que não existe, mas isso não é assunto que me preocupe particularmente) deve comprar um Époisses affiné au marc de Bourgogne. Não era o caso do que hoje comprei (felizmente, porque se fosse não teria podido comprar nem metade, a julgar pelo preço deste) mas um Époisses é um Époisses tal como eu sou marinheiro seja a embarcação à vela, a motor ou a remos. Comi-o no mercado, sentado no canteiro de uma árvore cujo nome desconheço mas que dava sombra, coisa bastante necessária por estas bandas. Depois fui beber um copo de vinho ao Palm Sugar, não fosse o diabo tecê-las. A posteriori é melhor do que numquam.
A seguir vim para bordo fazer o chilli. Comecei por fritar bacon, na gordura resultante refoguei os pimentos, os chillies, as cebolas, a carne (bifes que de tão ecológicos davam para vegans; estavam a preço de saldo e cortei-os aos bocadinhos). Tudo isto separadamente. Depois juntei tudo na panela, mai-los tomates e montes de salsa, os orégãos, paprika (fumada, comprada no mercado no stand de um marroquino) e cominhos comprados ao mesmo marroquino sorridente. Deixei cozer quatro horas. A inovação foram os cominhos: usei sementes em vez de moídos. Esta mutação vai ser adaptada.
Amanhã há outro mercado e é maior. Vou ter de lá ir, claro. Ainda por cima tem a vantagem de ser mais longe, qualidade não despicienda porque a) controla o peso do que trago, ou seja b) o respectivo custo e c) me faz ir mais longe.
Na bicicleta, quero dizer. Não sei quanto tempo se pode resistir sem carta de condução aqui.
........
De maneira é isto: um gajo espera e desespera e de vez em quando deixa de desesperar mas não de esperar.
Não seria mau ver o fim da espera, com ou sem desespero.
2.12.16
Não quero saber
Não sei o que é a solidão e verdade seja dita: não quero saber.
Deve ser uma mistura do que foi e do que vai ser, não é?
Deve ser uma mistura do que foi e do que vai ser, não é?
Morrer e continuar vivo
Beber de mais é bom: é como morrer e continuar vivo.
Há quem discorde, claro: pessoas que não sabem nem o que é morrer nem o que é continuar vivo.
Há quem discorde, claro: pessoas que não sabem nem o que é morrer nem o que é continuar vivo.
Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 01-12-2016
Noites complexas. A ideia inicial era sair de bordo com a bicicleta, ir a Singer Island, daí passar a Palm Beach e depois voltar para bordo. Mal saí começou a chover. Pouco, mas a ameaçar muito. Fui a correr à loja de bebidas, comprei quatro miniaturas de rum e refugiei-me no Romana Pizza. Mal entrei começou a chover à séria.
A ideia (parte da inicial) era comer um Tiramisu, mas não havia. Havia Cannoli.
A chuva parou. Fui para Singer Island. Recomeçou a chover. Parei num bar. Aqui a cena do bar precisa de um post separado. Um americano obeso chef numa steakhouse - ou subchefe, precisou depois, quando lhe disse que ia lá visitá-lo u dia destes - cada vez que a polícia o manda parar (acontece parece frequentemente porque tem um Camaro SS, whatever that means) explicou-me que quando lhe pedem a carta de condução entrega-a juntamente com a sua licença de porte de arma escondida. "Eles têm que saber que estou à espera deles"). Isto e muito mais.
Deus sabe que não gosto de governos, mas daí até andar com armas porque "eles" vai um passo. Eles somos nós. Pelo menos nas sociedades democráticas.
........
É um erro andar de bicicleta quando se está grosso, a partir dos cinquenta e nove anos de idade. Ou cinquenta e oito, vá.
.........
Esperar é pior do que morrer. Sei porque já experimentei os dois.
........
Não há uma ponte entre Singer Island e Palm Beach. Ainda bem que choveu.
A ideia (parte da inicial) era comer um Tiramisu, mas não havia. Havia Cannoli.
A chuva parou. Fui para Singer Island. Recomeçou a chover. Parei num bar. Aqui a cena do bar precisa de um post separado. Um americano obeso chef numa steakhouse - ou subchefe, precisou depois, quando lhe disse que ia lá visitá-lo u dia destes - cada vez que a polícia o manda parar (acontece parece frequentemente porque tem um Camaro SS, whatever that means) explicou-me que quando lhe pedem a carta de condução entrega-a juntamente com a sua licença de porte de arma escondida. "Eles têm que saber que estou à espera deles"). Isto e muito mais.
Deus sabe que não gosto de governos, mas daí até andar com armas porque "eles" vai um passo. Eles somos nós. Pelo menos nas sociedades democráticas.
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É um erro andar de bicicleta quando se está grosso, a partir dos cinquenta e nove anos de idade. Ou cinquenta e oito, vá.
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Esperar é pior do que morrer. Sei porque já experimentei os dois.
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Não há uma ponte entre Singer Island e Palm Beach. Ainda bem que choveu.
1.12.16
Confrangimentos e sem frangimentos
Há uns anos tinha uma série de posts nos quais brincava com algumas das minhas obsessões: o excesso de duches, a insuficiência de lavagem de dentes, o engraxar dos sapatos (sim, houve tempos em que andava com sapatos de engraxar), as gravatas (ditto).
Os posts eram mais ou menos assim (só encontrei este, mas há muitos mais):
Normas básicas de higiene
Aquando do douche trimestral não se deve esquecer, nunca, de se ensaboar bem a parte de trás dos pavilhões auriculares. Aliás, já o meu irmão mais velho dizia, sempre disse: "só há dois sítios que não te deves esquecer de ensaboar, nunca: o outro é a parte de trás dos pavilhões auriculares" (quando eu lhe retorquia que isso totalizava quatro sítios a ensaboar e não dois ele fazia um gesto largo com a mão - que muitas vezes encontrava, infelizmente, a minha cara no caminho - e perguntava teatralmente "que importa?". Deve ser daí que vem a pouca atenção que atribuo aos pormenores).
Ensaboar a parte de trás dos pavilhões auriculares é uma operação delicada que exige algum treino - a menos, claro, que a pessoa não se importe de misturar champô com sabonete; atitude essa que eu condeno, absolutamente: para além de ser uma espécie de pleonasmo emulsivo, indiciador sem dúvida de uma histeria latente, o sabonete pode, em alguns casos bem ilustrados pelo saudoso prof. Pfeiffer (sim: bisavô da Michelle) anular o efeito do champô -.
Dado que o regime de 4 douches por ano não fornece uma base prática suficiente para se treinar, sugiro aos meus digníssimos leitores que treinem os movimentos a seco duas ou três vezes antes de entrar na banheira. Em seis meses (ou dois douches) terão adquirido a capacidade básica para executar correctamente esta fundamental operação. Também se pode praticar em macacos, claro: aliás, até combina muito bem com o pentear dos bichos. Infelizmente esta prática está limitada aos guardiães de jardim zoológico e (de certa forma) a quem cuide de adolescentes, políticos, parlamentares e pessoas desocupadas.
Tenho uma extensa prática de douches (posso garantir que já tomei mais de uma centena, ao longo de toda a minha vida - se incluirmos os da infância, claro - ) e domino relativamente bem a técnica de ensaboamento da parte de trás dos pavilhões auriculares; contudo, como a minha aprendizagem foi empírica tenho uma certa dificuldade em transmiti-la. Sugiro se adopte o método físico mas eficaz do meu irmão mais velho, que Deus tenha e guarde com Ele bem guardado.
........
Acreditem se quiserem, mas a um desses posts (não foi este, mas o tom era o mesmo) uma leitora reagiu no primeiro grau: acreditou que eu realmente só tomava quatro duches por ano (apresso-me a esclarecer os leitores - e sobretudo as leitoras - que não é verdade. Tomo pelo menos cinco, alguns anos até seis).
Orgulhosa, segura do seu valor de guardiã da higiene pública linkou o post (era na época pré-FB); poucos dias depois tinha uma série de comentários e trocas de mail que iam do furioso ("seu porco, não tem vergonha?") ao altruísta ("Luís Serpa, você devia lavar-se mais vezes, um duche de três em três meses pode trazer-lhe complicações para a saúde").
É confrangedor, não é? É.
Adenda: editei ligeiramente o post inicial.
Os posts eram mais ou menos assim (só encontrei este, mas há muitos mais):
Normas básicas de higiene
Aquando do douche trimestral não se deve esquecer, nunca, de se ensaboar bem a parte de trás dos pavilhões auriculares. Aliás, já o meu irmão mais velho dizia, sempre disse: "só há dois sítios que não te deves esquecer de ensaboar, nunca: o outro é a parte de trás dos pavilhões auriculares" (quando eu lhe retorquia que isso totalizava quatro sítios a ensaboar e não dois ele fazia um gesto largo com a mão - que muitas vezes encontrava, infelizmente, a minha cara no caminho - e perguntava teatralmente "que importa?". Deve ser daí que vem a pouca atenção que atribuo aos pormenores).
Ensaboar a parte de trás dos pavilhões auriculares é uma operação delicada que exige algum treino - a menos, claro, que a pessoa não se importe de misturar champô com sabonete; atitude essa que eu condeno, absolutamente: para além de ser uma espécie de pleonasmo emulsivo, indiciador sem dúvida de uma histeria latente, o sabonete pode, em alguns casos bem ilustrados pelo saudoso prof. Pfeiffer (sim: bisavô da Michelle) anular o efeito do champô -.
Dado que o regime de 4 douches por ano não fornece uma base prática suficiente para se treinar, sugiro aos meus digníssimos leitores que treinem os movimentos a seco duas ou três vezes antes de entrar na banheira. Em seis meses (ou dois douches) terão adquirido a capacidade básica para executar correctamente esta fundamental operação. Também se pode praticar em macacos, claro: aliás, até combina muito bem com o pentear dos bichos. Infelizmente esta prática está limitada aos guardiães de jardim zoológico e (de certa forma) a quem cuide de adolescentes, políticos, parlamentares e pessoas desocupadas.
Tenho uma extensa prática de douches (posso garantir que já tomei mais de uma centena, ao longo de toda a minha vida - se incluirmos os da infância, claro - ) e domino relativamente bem a técnica de ensaboamento da parte de trás dos pavilhões auriculares; contudo, como a minha aprendizagem foi empírica tenho uma certa dificuldade em transmiti-la. Sugiro se adopte o método físico mas eficaz do meu irmão mais velho, que Deus tenha e guarde com Ele bem guardado.
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Acreditem se quiserem, mas a um desses posts (não foi este, mas o tom era o mesmo) uma leitora reagiu no primeiro grau: acreditou que eu realmente só tomava quatro duches por ano (apresso-me a esclarecer os leitores - e sobretudo as leitoras - que não é verdade. Tomo pelo menos cinco, alguns anos até seis).
Orgulhosa, segura do seu valor de guardiã da higiene pública linkou o post (era na época pré-FB); poucos dias depois tinha uma série de comentários e trocas de mail que iam do furioso ("seu porco, não tem vergonha?") ao altruísta ("Luís Serpa, você devia lavar-se mais vezes, um duche de três em três meses pode trazer-lhe complicações para a saúde").
É confrangedor, não é? É.
Adenda: editei ligeiramente o post inicial.
Diário de Bordos - West Palm Beach, Flórida, EUA, 30-11-2016
Hoje pus, outra primeira vez, uma bicicleta no suporte de bicicletas do autocarro. Não é uma experiência por aí além, é de uma simplicidade assustadora. Experiência, essa sim, é andar nos autocarros americanos (enfim, americanos não. Em S. Francisco não eram assim). A primeira coisa que se vê é a clivagem racial: 95% dos passageiros são negros. A segunda é da ordem da saúde mental: tanto dos noventa e cinco como dos cinco restantes uma grande parte ou é doente mental ou tem problemas de droga, bebida ou sei lá, de relacionamento com o mundo exterior. O resto refugia-se nos telefones portáteis, abençoados sejam.
Eu olho, gosto de olhar. Hoje entrou um branco com a camisola de uma marina que fica entre a minha e a cidade. É uma marina reservada a mega-iates, mega-cara, aposto que o homem - cabelos encaracolados, tímido, olhos castanhos grandes, bonito - chegou aqui há pouco tempo e ainda não comprou um carro ou porque está ilegal ou porque ainda não recebeu o primeiro salário. Também gostei da condutora do autocarro, tão simpática, esperou que atravessasse a rua e deixou-me pagar só um dólar em vez dos dois habituais porque eu não tinha troco. Quando me vim embora disse-lhe "gostaria que os seus colegas fossem todos como você" e ela respondeu "obrigado, sir" e sorriu.
Não gosto de West Palm Beach, não sei se algum dia gostarei - espero que não, seria sinal de que estaria num lugar ainda pior - mas gosto destes momentos de empatia, de humanidade.
Que bom é andar de autocarro.
........
O ping-pong com os seguros continua. Esta tarde mandei um puxanço ao qual eles não vão conseguir responder. Quem me dera fosse definitivo. Esperar é uma tortura, com ou sem fogão.
........
Hoje não fui ao Catch, vim ao Sugar Palm, de onde escrevo. É mais barato e mais feio e a comida não é tão boa, mas na verdade tudo isso importa pouco. A única coisa que importa agora é pôr aquele barco em condições.
Gosto de refits, de trazer à vida barcos que parecem mortos.
........
Comecei a trabalhar nas fotografias. Faltam-me dezenas delas, incompreensivelmente. Pode ser que um dia eu perceba porquê. Isto é: porque é que entre mim e a fotografia há esta ponte partida.
........
"Em todos os casais há um que ama e outro que se deixa amar", dizia não sei quem. Às vezes pergunto-me se nessa dicotomia não serei dos que nasceu para amar e não sabe ser amado.
É possível, embora não desejável. Sou.
........
Sonho com a simetria como um cego com a luz.
........
Isto dito, sou o que sou. Detesto o que sou mas não saberia não o ser, mesmo que quisesse. Não quero: prefiro os diabos que conheço.
E Deus sabe que aos meus conheço-os bem, tão bem como se os tivesse feito.
........
De uma coisa não tenho dúvidas: estou sozinho há demasiado tempo. São oito da noite e bocejo como se fossem quatro da manhã.
........
Uma coisa mágica nas casas de banho dos restaurantes americanos é: nunca falta papel para as mãos. Não sei como é que eles fazem isto. Em Portugal quando há papel para as mãos num enrolador um gajo faz uma festa e chama o rei de Espanha ou o Papa (o que estiver mais à mão de semear). Aqui nunca falta.
Eu olho, gosto de olhar. Hoje entrou um branco com a camisola de uma marina que fica entre a minha e a cidade. É uma marina reservada a mega-iates, mega-cara, aposto que o homem - cabelos encaracolados, tímido, olhos castanhos grandes, bonito - chegou aqui há pouco tempo e ainda não comprou um carro ou porque está ilegal ou porque ainda não recebeu o primeiro salário. Também gostei da condutora do autocarro, tão simpática, esperou que atravessasse a rua e deixou-me pagar só um dólar em vez dos dois habituais porque eu não tinha troco. Quando me vim embora disse-lhe "gostaria que os seus colegas fossem todos como você" e ela respondeu "obrigado, sir" e sorriu.
Não gosto de West Palm Beach, não sei se algum dia gostarei - espero que não, seria sinal de que estaria num lugar ainda pior - mas gosto destes momentos de empatia, de humanidade.
Que bom é andar de autocarro.
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O ping-pong com os seguros continua. Esta tarde mandei um puxanço ao qual eles não vão conseguir responder. Quem me dera fosse definitivo. Esperar é uma tortura, com ou sem fogão.
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Hoje não fui ao Catch, vim ao Sugar Palm, de onde escrevo. É mais barato e mais feio e a comida não é tão boa, mas na verdade tudo isso importa pouco. A única coisa que importa agora é pôr aquele barco em condições.
Gosto de refits, de trazer à vida barcos que parecem mortos.
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Comecei a trabalhar nas fotografias. Faltam-me dezenas delas, incompreensivelmente. Pode ser que um dia eu perceba porquê. Isto é: porque é que entre mim e a fotografia há esta ponte partida.
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"Em todos os casais há um que ama e outro que se deixa amar", dizia não sei quem. Às vezes pergunto-me se nessa dicotomia não serei dos que nasceu para amar e não sabe ser amado.
É possível, embora não desejável. Sou.
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Sonho com a simetria como um cego com a luz.
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Isto dito, sou o que sou. Detesto o que sou mas não saberia não o ser, mesmo que quisesse. Não quero: prefiro os diabos que conheço.
E Deus sabe que aos meus conheço-os bem, tão bem como se os tivesse feito.
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De uma coisa não tenho dúvidas: estou sozinho há demasiado tempo. São oito da noite e bocejo como se fossem quatro da manhã.
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Uma coisa mágica nas casas de banho dos restaurantes americanos é: nunca falta papel para as mãos. Não sei como é que eles fazem isto. Em Portugal quando há papel para as mãos num enrolador um gajo faz uma festa e chama o rei de Espanha ou o Papa (o que estiver mais à mão de semear). Aqui nunca falta.
30.11.16
Primeira vez
Esta noite o vento rondou a sul. Apercebi-me quando acordei a meio dela: os estores do camarote estavam bombados para dentro. É a primeira vez que tenho sul desde que cheguei.
A temperatura subiu bastante e voltei a adormecer.
A temperatura subiu bastante e voltei a adormecer.
Fotração
Sempre tive uma relação complicada com a fotografia, desde o início.
Mas nada se compara à sensação de querer uma determinada foto e não a encontrar em lado nenhum.
Mas nada se compara à sensação de querer uma determinada foto e não a encontrar em lado nenhum.
Deixa-me explicar-te
Bom, deixa-me então explicar-te.
Nunca sei por onde começar. As palavras chegam aos molhos, impossível pegar-lhes uma a uma: dinheiro, chuva, solidão, rum. Acabei por ir comprar uma garrafa de rum, mas devia ter começado pelo silêncio, não é?
Ou pela chuva: voltei devagar para bordo, a bicicleta não tem guarda-lamas e de qualquer forma não estava com pressa, ia a pensar se comprava o rum ou não; depois meteu-se o dinheiro, com o rum e o vinho no Catch foi-se o ganho do dia, uma porra. A solidão tem um preço.
Chuva, dinheiro, solidão, desejo, palavras que vêm por aí fora descambadas, por muito devagar que um gajo pedale elas vêm destrambelhadas e tu a dizeres-lhes não quero nada com vocês, vão para a puta que vos pariu e elas nada, catapumba, aí vêm feitas chuva ou rum. Isto é: saltam-te para o colo sem tu saberes por que raio de carga de água não te obedecem.
Nada te obedece, não é? A chuva: cai quando quer; as palavras: não te largam; o dinheiro: deixa-te sem dizer água vai; a solidão; a liberdade; o vento. Essas merdas todas de que é feito o dia e se lhes juntarmos mais uns vislumbres disto e daquilo as noites também: tu, esta porra desta vontade de parar e esta impossibilidade de parar, como se entre ti e a vida houvesse outra merda qualquer e não há, só há a vida, a chuva, o dinheiro, a solidão, as palavras, uma bicicleta que volta devagar para casa, como se viesse sozinha e eu pendurado nela como por vezes me pendurava em ti, lembras-te?, a pedalar a pedalar a pedalar devagar, devagar, devagar para que nunca mais acabasse o pedalar.
Nunca mais acabou, verdade seja dita: estou para aqui numa rua de merda de uma cidade de merda e pedalo contigo em mim como pedalava quando estava em ti.
Penso numa fotografia que tirei há muitos anos em Inhambane, de maneira fui comprar uma garrafa de Flor de Caña, quatro anos, é a mais barata da loja e verdade seja dita não é mau, o rum. Sobretudo se não tiveres massa para o Mount Gay. Quero dizer: isto é uma metáfora para a vida. Pedalar devagar, amar devagar, gastar devagar e agora escrever de fugida, as palavras não te largam devagar.
Silêncio devagar.
Coitadas. Enganaste-as, não é? Como se tivesses alguma coisa a dizer.
Imagina as ruas lisas, direitas, sem princípio nem fim como o tempo, os carros a passar sem parar, vummmm, vummmm, vummmm, chuva (não chove; é água da chuva que está nas ruas) e tu a pedalar devagar.
Devagar. Devagar. Nada de precipitações. Olha para esta rua interminável, imagina que vês seja o que for como se fosse dia e diz-me: tens vontade de te precipitar?
Tenho.
(Para a R.)
Nunca sei por onde começar. As palavras chegam aos molhos, impossível pegar-lhes uma a uma: dinheiro, chuva, solidão, rum. Acabei por ir comprar uma garrafa de rum, mas devia ter começado pelo silêncio, não é?
Ou pela chuva: voltei devagar para bordo, a bicicleta não tem guarda-lamas e de qualquer forma não estava com pressa, ia a pensar se comprava o rum ou não; depois meteu-se o dinheiro, com o rum e o vinho no Catch foi-se o ganho do dia, uma porra. A solidão tem um preço.
Chuva, dinheiro, solidão, desejo, palavras que vêm por aí fora descambadas, por muito devagar que um gajo pedale elas vêm destrambelhadas e tu a dizeres-lhes não quero nada com vocês, vão para a puta que vos pariu e elas nada, catapumba, aí vêm feitas chuva ou rum. Isto é: saltam-te para o colo sem tu saberes por que raio de carga de água não te obedecem.
Nada te obedece, não é? A chuva: cai quando quer; as palavras: não te largam; o dinheiro: deixa-te sem dizer água vai; a solidão; a liberdade; o vento. Essas merdas todas de que é feito o dia e se lhes juntarmos mais uns vislumbres disto e daquilo as noites também: tu, esta porra desta vontade de parar e esta impossibilidade de parar, como se entre ti e a vida houvesse outra merda qualquer e não há, só há a vida, a chuva, o dinheiro, a solidão, as palavras, uma bicicleta que volta devagar para casa, como se viesse sozinha e eu pendurado nela como por vezes me pendurava em ti, lembras-te?, a pedalar a pedalar a pedalar devagar, devagar, devagar para que nunca mais acabasse o pedalar.
Nunca mais acabou, verdade seja dita: estou para aqui numa rua de merda de uma cidade de merda e pedalo contigo em mim como pedalava quando estava em ti.
Penso numa fotografia que tirei há muitos anos em Inhambane, de maneira fui comprar uma garrafa de Flor de Caña, quatro anos, é a mais barata da loja e verdade seja dita não é mau, o rum. Sobretudo se não tiveres massa para o Mount Gay. Quero dizer: isto é uma metáfora para a vida. Pedalar devagar, amar devagar, gastar devagar e agora escrever de fugida, as palavras não te largam devagar.
Silêncio devagar.
Coitadas. Enganaste-as, não é? Como se tivesses alguma coisa a dizer.
Imagina as ruas lisas, direitas, sem princípio nem fim como o tempo, os carros a passar sem parar, vummmm, vummmm, vummmm, chuva (não chove; é água da chuva que está nas ruas) e tu a pedalar devagar.
Devagar. Devagar. Nada de precipitações. Olha para esta rua interminável, imagina que vês seja o que for como se fosse dia e diz-me: tens vontade de te precipitar?
Tenho.
(Para a R.)
Vazio
A esperança é um saco vazio que vamos enchendo. O desespero é o oposto: um saco cheio que não se esvazia.
Sou fraco. Prefiro o vazio.
Sou fraco. Prefiro o vazio.
Parecendo que não é esmagador
Parecendo que não o optimismo cansa muito. Mas o pessimismo ainda mais.
(O mesmo se pode dizer da luta: lutar cansa imenso; não lutar ainda mais. É esmagador).
(O mesmo se pode dizer da luta: lutar cansa imenso; não lutar ainda mais. É esmagador).
Amanhãs
Foi num dia assim que ela pegou na vassoura e se foi embora. Isto pode parecer uma contradição: é noite, já o dia passou e passou depressa, montado numa vassoura ele também. Foram-se os dois, o dia e ela cada um na sua. Eu fico. Fico sempre. Não há vassoura que me carregue.
Mas há noites como a de hoje, quentes e ventosas. O vento é um afago, uma festa, uma carícia, uma promessa. O calor também. Juntam-se os dois e vão-se as bruxas e os dias ao som da música.
Sentei-me no canto da varanda que diz "No wake zone". Zona sem esteiras, sem vagas, sem perturbações.
Com bruxas e dias e vassouras, mas sem merdas. Só com amanhãs.
Mas há noites como a de hoje, quentes e ventosas. O vento é um afago, uma festa, uma carícia, uma promessa. O calor também. Juntam-se os dois e vão-se as bruxas e os dias ao som da música.
Sentei-me no canto da varanda que diz "No wake zone". Zona sem esteiras, sem vagas, sem perturbações.
Com bruxas e dias e vassouras, mas sem merdas. Só com amanhãs.
29.11.16
Fado, fácil
Porra, isto continua assim e acabo a gostar de fado. Alguém me daria uma vida mais fácil, por favor? Com menos fado, sei lá.
Murros, aprender
É sempre assim: um gajo leva um murro, cai, levanta-se e responde.
Agora só falta aprender a não cair ou a levar murros mais fracos.
(Ou então deixar de gostar de responder, mas isso leva mais tempo. É coisa que só se aprende morrendo).
Agora só falta aprender a não cair ou a levar murros mais fracos.
(Ou então deixar de gostar de responder, mas isso leva mais tempo. É coisa que só se aprende morrendo).
Descanso
Talvez seja altura de ter um bocadinho de descanso.
Não é. Nunca será. Aposto que quando estiver no crematório as chamas vão falhar.
Não é. Nunca será. Aposto que quando estiver no crematório as chamas vão falhar.
Ninguém imagina
Quem me conhece sabe a admiração que tenho pelo regime político suíço. Essa admiração não nasce de um espanto com tudo o que é estrangeiro. Nasce de um facto simples: os políticos suíços não têm poder.
E isso é tão bom, tão bom que ninguém imagina.
E isso é tão bom, tão bom que ninguém imagina.
28.11.16
Serviço público - restaurantes em Palm Beach
Voltei ao The Catch, de longe o meu sitio preferido em West Palm Beach. Não é um restaurante barato - foi depois de cá vir que me resolvi a escrever um post que há muito estava pensado sobre o custo (monetário) da solidão - mas a qualidade da comida, da vista, do local, da música e o acolhimento bastante bom, honesto (agora, depois de ter escrito uma crítica não muito favorável no Tripadvisor) mais do que o justificam.
A crítica tinha a ver com o facto, para mim - e para todos os americanos a quem perguntei - tão inédito como desagradável de me terem debitado o piripiri que pedi (admitidamente muito, consequência a) de ser bastante bom e b) de não ser, na minha opinião, tão picante como a jovem empregada mo garantiu).
Ontem ou anteontem, não me lembro, a senhora prometeu-me que me faria um piripiri picante. Palavra dada, palavra honrada. Ontem (ou anteontem) perguntei se podia cá vir ao fim da tarde só para beber um copo. Que sim, absolutamente, claro. (Este "só" merecia dois quilómetros de aspas, mas enfim). Hoje, a acompanhar o copo de vinho branco tenho rodelas de banana fritas e o molho picante mais delicioso e justamente forte que ne foi dado provar em muito tempo.
Não há sítios, como não há pessoas, animais ou coisas absolutamente maus. A questão é saber se os há absolutamente bons. Não creio. Mas tão pouco me importa muito. Poder apreciar o que se tem - sem cair na tentação baba cool do tout le monde il est gentil tout le monde il est beau e sem perder a energia de procurar melhor - é uma dádiva.
Que demorei muito tempo a apreciar - ou melhor, que só intermitentemente soube apreciar - mas isso é outra história, para outros locais com outras pessoas. (Ou com pessoas...)
Restaurante The Catch,
766 Northlake Boulevard,
Lake Park
Flórida, EUA.
+1 561 842 2180
www.thecatchseafoodsushi.com
A crítica tinha a ver com o facto, para mim - e para todos os americanos a quem perguntei - tão inédito como desagradável de me terem debitado o piripiri que pedi (admitidamente muito, consequência a) de ser bastante bom e b) de não ser, na minha opinião, tão picante como a jovem empregada mo garantiu).
Ontem ou anteontem, não me lembro, a senhora prometeu-me que me faria um piripiri picante. Palavra dada, palavra honrada. Ontem (ou anteontem) perguntei se podia cá vir ao fim da tarde só para beber um copo. Que sim, absolutamente, claro. (Este "só" merecia dois quilómetros de aspas, mas enfim). Hoje, a acompanhar o copo de vinho branco tenho rodelas de banana fritas e o molho picante mais delicioso e justamente forte que ne foi dado provar em muito tempo.
Não há sítios, como não há pessoas, animais ou coisas absolutamente maus. A questão é saber se os há absolutamente bons. Não creio. Mas tão pouco me importa muito. Poder apreciar o que se tem - sem cair na tentação baba cool do tout le monde il est gentil tout le monde il est beau e sem perder a energia de procurar melhor - é uma dádiva.
Que demorei muito tempo a apreciar - ou melhor, que só intermitentemente soube apreciar - mas isso é outra história, para outros locais com outras pessoas. (Ou com pessoas...)
Restaurante The Catch,
766 Northlake Boulevard,
Lake Park
Flórida, EUA.
+1 561 842 2180
www.thecatchseafoodsushi.com
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Restaurantes Palm Beach
27.11.16
Almoço improvisado - filetes de peixe em polme de ervas
O raio do peixe não havia maneira de descongelar. Pu-lo agora na frigideira. A receita vai já, ab ante, para não me esquecer. Se não ficar bom paciência.
Comecei por fazer um polme com coentros frescos, aneto, farinha (integral), um ovo, sumo de limão e um bocadinho pouco de vinho branco... Espera, não. Não foi por aí que comecei. Foi por fritar gengibre às rodelas num azeite esplêndido que tenho aqui a bordo (era tão bom que fui comprar outro mais adequado à cozinha).
Depois sim, fiz o tal polme e ao que está escrito em cima acrescentei paprika fumada (uma paprika fumada da McCormick que me faz adorar essa empresa para todo o sempre) e pimenta.
Agora está a fritar no azeite de gengibre. Quando acabar deito-lhe as rodelas do dito fritas, tomate e pimento verde cortados aos bocadinhos pequenos e ligeiramente salteados por cima e oops...
Aí vai. Já cá volto.
Comecei por fazer um polme com coentros frescos, aneto, farinha (integral), um ovo, sumo de limão e um bocadinho pouco de vinho branco... Espera, não. Não foi por aí que comecei. Foi por fritar gengibre às rodelas num azeite esplêndido que tenho aqui a bordo (era tão bom que fui comprar outro mais adequado à cozinha).
Depois sim, fiz o tal polme e ao que está escrito em cima acrescentei paprika fumada (uma paprika fumada da McCormick que me faz adorar essa empresa para todo o sempre) e pimenta.
Agora está a fritar no azeite de gengibre. Quando acabar deito-lhe as rodelas do dito fritas, tomate e pimento verde cortados aos bocadinhos pequenos e ligeiramente salteados por cima e oops...
Aí vai. Já cá volto.
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Receitas
Estados Avisados
O pacote de bacon, vi hoje de manhã ao abri-lo, tem um aviso sobre como manusear bacon. O fogão (isso já tinha visto antes) vem com um aviso a avisar que pode estar quente.
Que seria dos pobres consumidores sem estes avisos? Uma mortandade, aposto.
Adenda: pergunto a mim mesmo se os boletins de voto vinham com avisos também. "Votar em Trump pode provocar-lhe um desgosto", "Hillary é má mas sempre é menos má do que Trump", "Votar em Jill Stein é inútil".
Que seria dos pobres consumidores sem estes avisos? Uma mortandade, aposto.
Adenda: pergunto a mim mesmo se os boletins de voto vinham com avisos também. "Votar em Trump pode provocar-lhe um desgosto", "Hillary é má mas sempre é menos má do que Trump", "Votar em Jill Stein é inútil".
Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 27-11-2016
Ontem consegui finalmente comprar um fogão eléctrico. É uma porcaria de dois bicos [é pouco mas aqui entre nós seja dito é mais do que eu tenho] e aquece uma panela de água em menos de uma hora (se a panela for pequena. Grande não sei, ainda não experimentei). Resultado: já vou na quarta chávena de café, Folie Noire que veio da Martinique, 100% Arábica do qual ainda tenho um pacote cheio, para além deste quase a acabar e o W. cheira finalmente àquela mistura de bacon, ovos estrelados e café que torna fisicamente impossível um gajo olhar negativamente para o dia que aí vem. Ainda não tenho luz no salão, de maneira ontem limitei-me a aquecer uns raviolis que o Ed me deu. Hoje o jantar vai ser igualmente simples mas já estou a afiar o dente para o almoço. Não quer dizer que tenho a vida normalizada, ainda não está. Enquanto não chegar a confirmação dos seguros nada estará normal. Mas bolas, um fogão de dois bicos é um gigantesco passo em frente.
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Morreu o Fidel Castro. A malta que defendia Mussolini por os comboios andarem a horas e Salazar por não haver regabofe está toda triste. Fidel encheu Cuba de escolas e médicos (que ultimamente usava como trabalho escravo para ganhar divisas, mas isso é outra história) e só por isso merece um lugar na história. Um lugar bom, entenda-se, na ala dos mártires da revolução, de quem sofreu horrores pelo seu país. Há muitos: para além dos já citados Benito e António temos o Pinochet, outro mártir, uma série deles na América do Sul, o Pol Pot... Tudo gente que melhorou imenso os respectivos países e fez frente à ira internacional (o do Pol Pot até foi invadido, veja-se).
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Não sou muito de acreditar em castigos divinos (ou seja o que for divino) mas por vezes pergunto-me se uma estadia em West Palm Beach não será castigo por não ter gostado de Galveston.
Aplico-me a ver tudo o que isto tem de bom, não vá o próximo ser pior ainda.
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Morreu o Fidel Castro. A malta que defendia Mussolini por os comboios andarem a horas e Salazar por não haver regabofe está toda triste. Fidel encheu Cuba de escolas e médicos (que ultimamente usava como trabalho escravo para ganhar divisas, mas isso é outra história) e só por isso merece um lugar na história. Um lugar bom, entenda-se, na ala dos mártires da revolução, de quem sofreu horrores pelo seu país. Há muitos: para além dos já citados Benito e António temos o Pinochet, outro mártir, uma série deles na América do Sul, o Pol Pot... Tudo gente que melhorou imenso os respectivos países e fez frente à ira internacional (o do Pol Pot até foi invadido, veja-se).
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Não sou muito de acreditar em castigos divinos (ou seja o que for divino) mas por vezes pergunto-me se uma estadia em West Palm Beach não será castigo por não ter gostado de Galveston.
Aplico-me a ver tudo o que isto tem de bom, não vá o próximo ser pior ainda.
26.11.16
Objecções
Objecção contra a solidão: é caríssima.
(O mesmo se poderia dizer do altruísmo, mas seria uma tautologia. Se não fosse caro não seria altruísmo, seria outra coisa qualquer).
(O mesmo se poderia dizer do altruísmo, mas seria uma tautologia. Se não fosse caro não seria altruísmo, seria outra coisa qualquer).
Pequeno manual das interacções sociais no séc. XXI
- Proselitismo: expressão de opiniões com as quais não concordamos.
- Tolerância: aprovação das opiniões das quais não discordamos.
- Tolerante: diz-se de uma pessoa que aprova a expressão de opiniões com as quais concorda.
- Democracia: sistema político aceitável quando os resultados são favoráveis ao lado que pensamos ser o melhor. Discutível no caso contrário.
- Inteligente: uma pessoa que pensa como nós.
- Burro, desonesto intelectual, estafermo: pessoa que tem opiniões contrárias às nossas.
- Diálogo: conversa interessante que se tem com pessoas inteligentes (cf. supra).
- Monólogo: tentativa geralmente falhada de explicar a quem não pensa como nós que está enganado (ditto).
- Neo-liberalismo: ideologia professada por quem quer o mal de outrem. Um neo-liberal pensa (isto é, se um neo-liberal pensasse pensaria) que a humanidade deve ser constituída por ricos, cuja riqueza proviria única e exclusivamente da apropriação indevida dos bens de outrem, sendo outrem os noventa e nove por cento de que falaria a Bíblia se a Bíblia falasse de percentagens e - sobretudo - não fosse o livro favorito dos católicos, cristãos e outros reacionários crentes. (Os muçulmanos são crentes e reaccionários mas isso é compreensível e aceitável porque são muçulmanos).
- Liberalismo: forma aceitável (e anterior) do neo-liberalismo. Infelizmente os liberais transformaram-se todos em neo-liberais, provavelmente uma noite de Lua Cheia. Ou Nova. Ou assim.
- Liberdade: aquilo que as pessoas inteligentes (cf. supra) pensam que é bom para todos os outros, excepto os burros (ditto).
- Ler, aprender, compreender: antigas técnicas de persuasão, desenvolvidas por pessoas que não percebem o que é a liberdade (cf. supra).
- Conversar: actividade apaixonante quando partilhada com pessoas que pensam como nós e maçadora quando os interlocutores não partilham as nossas opiniões.
- Pessoas: seres humanos ou outros animais que pensam como nós.
- Animais: pessoas que não pensam como nós.
- Cultura: diz-se da aprendizagem de ideias correctas. Exemplo: "Aquele gajo é culto": aquele gajo pensa como eu.
- Ideias correctas: as nossas ideias.
- Ideias incorrectas: todas as outras.
- Oxímoro, redundância: conceitos demasiado complexos para os tempos modernos. Grosso modo pode definir-se um oxímoro como a expressão de duas ideias contraditórias na mesma oração e redundância como o seu contrário. Por exemplo (oxímoro): aquela pessoa não pensa como eu. Ou (redundância): aquela pessoa é inteligente.
Diário de Bordos - West Palm Beach, Flórida, EUA, 25-11-2016
Esperar é um horror; e quando da nossa espera dependem outras esperas pior ainda. Não posso fazer nada: é como estar no meio de uma calmaria da qual só sairei quando entrar vento. Não posso fazer nada.
Excepto pedalar, claro. Farto-me de pedalar por esses passeios fora (o sítio habitual para as bicicletas aqui é o passeio, o que calha bem porque a) nunca têm ninguém e b) são largos e bem pavimentados. Infelizmente são também uma seca sem qualquer espécie de interesse, mas isso fica para depois ou já vem de antes, não sei).
Seja como for pedalo. Mais de vinte quilómetros por dia, na burra de montanha de bordo (outra seca: dupla suspensão e guiador com um metro de largura. Paciência. Mais vale isto do que nada).
As ruas são chatas, monótonas, intermináveis e vazias como a cabeça de uma mulher burra ou um homem sem amor.
En attendant, j'attends. Horror dos horrores, desespero dos desesperos.
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A espera é um buraco negro: aspira tudo o que lhe passa perto. De que falar, quando se espera?
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Jogo ao gato e ao rato com a solidão; quem ganha?
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Quarenta e um anos. O vinte e cinco de Novembro foi há quarenta e um anos. Não sei o que pensar: acabou um circo, mas o circo não acabou. Continua cheio de palhaços.
25.11.16
Perguntas velhas, respostas recentes
Tenho pensado nisto muitas vezes e há muitos anos, mas só hoje sinto que dei um passo em direcção à resposta.
Cheguei a Lisboa em Outubro de setenta e quatro e pouco tempo depois - digamos um ano - tinha um grupo de amigos cujas opiniões políticas iam da extrema-esquerda à extrema-direita. Encontrávamo-nos regular, frequentemente. Para jantar, para passar fins-de-semana juntos, para ir ao cinema ou a um concerto.
O grupo durou até para lá dos anos oitenta. Chegou aos noventa, antes de nos dispersarmos todos demasiado (ou pelo menos eu).
As divergências políticas entre setenta e quatro e noventa e poucos só não eram resolvidas a murro porque éramos amigos. Eram resolvidas a gritos, insultos, murros nas mesas, mais insultos, mais gritos, mais murros nas mesas, mais insultos. Quando o tema se esgotava diluíam-se numa imensa amizade e naquilo que nos unia (eram muitas, as coisas que nos uniam. Iam da comida à filosofia passando pelo vinho, literatura, miúdas e essas coisas todas que fazem da vida vida e da morte uma merda).
A primeira vez que me apercebi de que o mundo não era todo assim foi quando me mudei para Genève, em oitenta e três: as pessoas agrupavam-se em função de afinidades políticas e a minha visão das coisas - já então liberal - era mal vinda (por razões que agora não vêm ao caso a maioria das pessoas que conhecia era de esquerda). Mas o grupo em Portugal - onde vinha frequentemente - ajudava-me (ou enganava-me): a convivência com opiniões divergentes é não só possível mas também desejável. Afinal de contas aprendemos mais com quem de nós discorda do que com quem pensa como nós, quanto mais não seja quantitativamente (isto é ironia, não vá dar-se o caso de alguém não perceber).
As coisas mudaram em Portugal e no resto do mundo e a pergunta que me aparecia sem que eu a convocasse era sempre a mesma: o que mudou? Porquê?
Creio que há várias respostas, como sempre. Paradoxalmente, uma delas é a internet. Quando eu discutia com os meus amigos éramos um grupo relativamente fechado, limitado. Quando muito acontecia juntarem-se a esse grupo, ou a parte dele, amigos de um de nós e a conversa estava sempre limitada a esse conjunto. A internet alargou o âmbito do diálogo: todos falamos com todos. O Facebook alargou o conceito de amigo - tanto que o diluiu, de resto, mas isso é outra história -.
Por mim tudo bem. Choro mais facilmente pelo futuro que aí vem do que pelo passado que se foi. Mas não deixa de ser agradável encontrar a resposta a perguntas velhas de décadas.
(Se bem, admitidamente, o assunto não esteja fechado. Porque é que na Suíça dos anos oitenta, quando não havia internet, as pessoas se agrupavam em função das afinidades ideológicas e não aceitavam - salvo raras e honrosas excepções - opiniões divergentes? Fica para outra vez).
Cheguei a Lisboa em Outubro de setenta e quatro e pouco tempo depois - digamos um ano - tinha um grupo de amigos cujas opiniões políticas iam da extrema-esquerda à extrema-direita. Encontrávamo-nos regular, frequentemente. Para jantar, para passar fins-de-semana juntos, para ir ao cinema ou a um concerto.
O grupo durou até para lá dos anos oitenta. Chegou aos noventa, antes de nos dispersarmos todos demasiado (ou pelo menos eu).
As divergências políticas entre setenta e quatro e noventa e poucos só não eram resolvidas a murro porque éramos amigos. Eram resolvidas a gritos, insultos, murros nas mesas, mais insultos, mais gritos, mais murros nas mesas, mais insultos. Quando o tema se esgotava diluíam-se numa imensa amizade e naquilo que nos unia (eram muitas, as coisas que nos uniam. Iam da comida à filosofia passando pelo vinho, literatura, miúdas e essas coisas todas que fazem da vida vida e da morte uma merda).
A primeira vez que me apercebi de que o mundo não era todo assim foi quando me mudei para Genève, em oitenta e três: as pessoas agrupavam-se em função de afinidades políticas e a minha visão das coisas - já então liberal - era mal vinda (por razões que agora não vêm ao caso a maioria das pessoas que conhecia era de esquerda). Mas o grupo em Portugal - onde vinha frequentemente - ajudava-me (ou enganava-me): a convivência com opiniões divergentes é não só possível mas também desejável. Afinal de contas aprendemos mais com quem de nós discorda do que com quem pensa como nós, quanto mais não seja quantitativamente (isto é ironia, não vá dar-se o caso de alguém não perceber).
As coisas mudaram em Portugal e no resto do mundo e a pergunta que me aparecia sem que eu a convocasse era sempre a mesma: o que mudou? Porquê?
Creio que há várias respostas, como sempre. Paradoxalmente, uma delas é a internet. Quando eu discutia com os meus amigos éramos um grupo relativamente fechado, limitado. Quando muito acontecia juntarem-se a esse grupo, ou a parte dele, amigos de um de nós e a conversa estava sempre limitada a esse conjunto. A internet alargou o âmbito do diálogo: todos falamos com todos. O Facebook alargou o conceito de amigo - tanto que o diluiu, de resto, mas isso é outra história -.
Por mim tudo bem. Choro mais facilmente pelo futuro que aí vem do que pelo passado que se foi. Mas não deixa de ser agradável encontrar a resposta a perguntas velhas de décadas.
(Se bem, admitidamente, o assunto não esteja fechado. Porque é que na Suíça dos anos oitenta, quando não havia internet, as pessoas se agrupavam em função das afinidades ideológicas e não aceitavam - salvo raras e honrosas excepções - opiniões divergentes? Fica para outra vez).
23.11.16
Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 22-11-2016
Não sei se é isto ser velho. Se for é bom. Já não consigo ver uma mulher com metade das mamas à vista, apertadas num soutien que tem metade do tamanho que devia ter e o decote como os calções dos idiotas que os usam abaixo das nádegas. A vulgaridade horroriza-me cada vez mais. E coroada pela voz mais irritante que me foi dado ouvir nos últimos duzentos e trinta anos: aguda, alta, histérica, estúpida.
"Que queijo quer no seu cheeseburger?" pergunta-me a voz.
"Que queijos tem?"
Debita uma lista de queijos entre os quais "Swiss cheese".
"Que queijos suíços tem?"
"Não percebo a sua pergunta. Queijo suíço é queijo suíço". Sublinha o é, não fosse eu não perceber.
O bar - é de um tamanho regular, nem demasiado grande nem demasiado pequeno - tem dez ecrans de televisão à volta, dos quais um gigantesco, um grande (imediatamente por cima daquele) e oito "normais" (espero que ninguém me pergunte o que é um écran de televisão normal. São os que não me parecem nem gigantescos nem minúsculos).
A mulher ao meu lado - sozinha, bonita, trinta e muitos ou quarenta e poucos, vestida correctamente - bebe cerveja pela garrafa.
Tirem-me daqui! (mas não me perguntem onde é aqui).
........
A temperatura à noite e de manhã cedo tem sistematicamente estado abaixo dos vinte graus. Pouco abaixo, é certo (dezoito, dezanove) mas o suficiente para eu ter de pôr uma manta por cima do lençol e ter frio de manhã quando vou tomar o pequeno almoço.
Será que estou com o frio como estou com a ordinarice? Espero que não.
"Que queijo quer no seu cheeseburger?" pergunta-me a voz.
"Que queijos tem?"
Debita uma lista de queijos entre os quais "Swiss cheese".
"Que queijos suíços tem?"
"Não percebo a sua pergunta. Queijo suíço é queijo suíço". Sublinha o é, não fosse eu não perceber.
O bar - é de um tamanho regular, nem demasiado grande nem demasiado pequeno - tem dez ecrans de televisão à volta, dos quais um gigantesco, um grande (imediatamente por cima daquele) e oito "normais" (espero que ninguém me pergunte o que é um écran de televisão normal. São os que não me parecem nem gigantescos nem minúsculos).
A mulher ao meu lado - sozinha, bonita, trinta e muitos ou quarenta e poucos, vestida correctamente - bebe cerveja pela garrafa.
Tirem-me daqui! (mas não me perguntem onde é aqui).
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A temperatura à noite e de manhã cedo tem sistematicamente estado abaixo dos vinte graus. Pouco abaixo, é certo (dezoito, dezanove) mas o suficiente para eu ter de pôr uma manta por cima do lençol e ter frio de manhã quando vou tomar o pequeno almoço.
Será que estou com o frio como estou com a ordinarice? Espero que não.
18.11.16
Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 17-11-2016
Fui ao Publix comprar rum, cigarros e chocolate. Não vejo razão para poupar o corpo quando o resto está na merda.
Enfim, seria preciso acertar os pormenores, se quisesse ser preciso: o que é o resto? (Não sei). O Publix vende rum? (Não, mas perto há uma loja que sim). O rum é merda? (Não. É Flor de Caña 4 anos, a coisa decente mais barata da loja).
Estes pormenores parecem insignificantes, irrelevantes mas não o são. Verdade seja dita: tão pouco quero ser preciso. O chocolate era uma merda mas arrefinfei-lhe rum e ficou melhor. Os cigarros são assim assim. De qualquer forma não sei distingui-los. O rum é rum, tal como merda é merda.
........
Nunca gostei de doxas, mas a actual parece-me a pior de sempre. Cada vez me sinto mais longe da horda. Não sei se sou eu ou ela quem está errado e pouco me importa. Nunca fui de rebanhos, nem quando eles eram quase aceitáveis. Pelo menos comparados aos de hoje, insuportáveis, fedorentos, a cheirar a cueiros mal lavados.
.........
Fui parar a um site que fala de especialidades israelitas "para além do hummus". Uma delas é a boureka (a qual como o hummus não é israelita, é mediterrânica, de passagem seja dito).
Mas que saudades, meu Deus, que saudades das börek (como ele as grafava) de um bar de Carouge cujo nome esqueci onde ia buscá-las quando trabalhava no Marchand. Recheadas com espinafres e queijo, finas e estaladiças, uma delícia.
Mare nostrum? Não: mar de todos, mar da vida, mar de sempre.
(O que me leva a pensar nos sítios que são de per se uma viagem, como é Genève ainda hoje e era há trinta anos.)
........
Oiço os Carmina de Orff mas o computador não tem volume, que substitui a essência na música que a não tem. Ou lhe esconde a ausência.
.......
Tudo isto porque hoje comi um hummus bastante aceitável num bar em West Palm onde fui com o Ed. E tacos de carne, com os acessórios todos, incluídos nos preços das bebidas, as quais tinham uma redução de um dólar por ser happy hour. Jantámos lá, tacos e hummus e em prémio bebi duas pint de Smithwicks, a melhor cerveja do mundo e arredores.
.........
Devo ter nascido a gritar "Tirem-me daqui"; mas não sei se era do ventre de onde tinha acabado de sair se do quarto de hospital ao qual acabara de chegar.
........
Leio finalmente A Manual for Cleaning Women, de Lucia Berlin. Pergunto-me como consegui chegar a esta idade sem nunca sequer ter ouvido falar dela. A literatura devia ser assim toda: quanto maior o horror que descreve melhor se passa de adjectivos.
Nunca me interessei muito pelas biografias dos autores de que gosto (salvo excepções: Jack London, Beckett, Hemingway). Mas de Lucia Berlin gostava de saber mais. Como é possível descrever o ódio tão singela, linearmente, tão sem floreados, sem digressões?
........
A audição atenta da terceira composição das Vésperas de Rachmaninov (na versão de Paul Hillier, a minha favorita), Blessed is the Man não responde cabalmente à pergunta anterior mas ajuda a preencher o vazio da ausência de resposta.
........
É provável que uma boa definição operacional de amor seja "quando não há diferença entre amar e amar-te". Talvez. Não sei. Sou homem de poucas certezas.
........
Lembro-me de The Sea, The Sea e quero relê-lo. A mistura de rum, chocolate, cigarros e Rachmaninov não substitui a ausência dos livros e de um corpo.
Corpo? Cheira-me a sinédoque. A minha figura de linguagem favorita é o oxímoro, convém não me esquecer.
..........
O meu corpo já não é o que era? Não. Mas o resto está melhor.
(Continuo sem saber o que é o resto. Tal aquela parte de mim à qual o chocolate não chega e a música sim).
.........
Hoje numa discussão facebookiana mencionei John Stuart Mill e a senhora com quem discordava (gentilmente, na minha opinião) respondeu-me com Bruno Nogueira. É de uma violência inaceitável, não é?
Enfim, seria preciso acertar os pormenores, se quisesse ser preciso: o que é o resto? (Não sei). O Publix vende rum? (Não, mas perto há uma loja que sim). O rum é merda? (Não. É Flor de Caña 4 anos, a coisa decente mais barata da loja).
Estes pormenores parecem insignificantes, irrelevantes mas não o são. Verdade seja dita: tão pouco quero ser preciso. O chocolate era uma merda mas arrefinfei-lhe rum e ficou melhor. Os cigarros são assim assim. De qualquer forma não sei distingui-los. O rum é rum, tal como merda é merda.
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Nunca gostei de doxas, mas a actual parece-me a pior de sempre. Cada vez me sinto mais longe da horda. Não sei se sou eu ou ela quem está errado e pouco me importa. Nunca fui de rebanhos, nem quando eles eram quase aceitáveis. Pelo menos comparados aos de hoje, insuportáveis, fedorentos, a cheirar a cueiros mal lavados.
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Fui parar a um site que fala de especialidades israelitas "para além do hummus". Uma delas é a boureka (a qual como o hummus não é israelita, é mediterrânica, de passagem seja dito).
Mas que saudades, meu Deus, que saudades das börek (como ele as grafava) de um bar de Carouge cujo nome esqueci onde ia buscá-las quando trabalhava no Marchand. Recheadas com espinafres e queijo, finas e estaladiças, uma delícia.
Mare nostrum? Não: mar de todos, mar da vida, mar de sempre.
(O que me leva a pensar nos sítios que são de per se uma viagem, como é Genève ainda hoje e era há trinta anos.)
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Oiço os Carmina de Orff mas o computador não tem volume, que substitui a essência na música que a não tem. Ou lhe esconde a ausência.
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Tudo isto porque hoje comi um hummus bastante aceitável num bar em West Palm onde fui com o Ed. E tacos de carne, com os acessórios todos, incluídos nos preços das bebidas, as quais tinham uma redução de um dólar por ser happy hour. Jantámos lá, tacos e hummus e em prémio bebi duas pint de Smithwicks, a melhor cerveja do mundo e arredores.
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Devo ter nascido a gritar "Tirem-me daqui"; mas não sei se era do ventre de onde tinha acabado de sair se do quarto de hospital ao qual acabara de chegar.
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Leio finalmente A Manual for Cleaning Women, de Lucia Berlin. Pergunto-me como consegui chegar a esta idade sem nunca sequer ter ouvido falar dela. A literatura devia ser assim toda: quanto maior o horror que descreve melhor se passa de adjectivos.
Nunca me interessei muito pelas biografias dos autores de que gosto (salvo excepções: Jack London, Beckett, Hemingway). Mas de Lucia Berlin gostava de saber mais. Como é possível descrever o ódio tão singela, linearmente, tão sem floreados, sem digressões?
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A audição atenta da terceira composição das Vésperas de Rachmaninov (na versão de Paul Hillier, a minha favorita), Blessed is the Man não responde cabalmente à pergunta anterior mas ajuda a preencher o vazio da ausência de resposta.
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É provável que uma boa definição operacional de amor seja "quando não há diferença entre amar e amar-te". Talvez. Não sei. Sou homem de poucas certezas.
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Lembro-me de The Sea, The Sea e quero relê-lo. A mistura de rum, chocolate, cigarros e Rachmaninov não substitui a ausência dos livros e de um corpo.
Corpo? Cheira-me a sinédoque. A minha figura de linguagem favorita é o oxímoro, convém não me esquecer.
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O meu corpo já não é o que era? Não. Mas o resto está melhor.
(Continuo sem saber o que é o resto. Tal aquela parte de mim à qual o chocolate não chega e a música sim).
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Hoje numa discussão facebookiana mencionei John Stuart Mill e a senhora com quem discordava (gentilmente, na minha opinião) respondeu-me com Bruno Nogueira. É de uma violência inaceitável, não é?
17.11.16
Memorandum
Pelos tempos que correm não é infelizmente supérfluo lembrar às hordas, às polícias do pensamento, aos guardiães da doxa que um senhor chamado John Stuart Mill escreveu no séc. XIX - foi publicado em 1859, já lão vão mais de cento e cinquenta anos - um livro chamado On Liberty. Em português chamou-se Ensaio sobre a Liberdade, se não estou em erro.
A leitura desse livro devia ser fortemente sugerida por qualquer pai que tenha filhos adolescentes aos ditos cujos.
A quem já passou a idade e não teve pais assim: ainda vai a tempo. Corra para o seu computador e faça o download aqui (em inglês legível. Por sorte deles os ingleses não têm acordos ortográficos).
A leitura desse livro devia ser fortemente sugerida por qualquer pai que tenha filhos adolescentes aos ditos cujos.
A quem já passou a idade e não teve pais assim: ainda vai a tempo. Corra para o seu computador e faça o download aqui (em inglês legível. Por sorte deles os ingleses não têm acordos ortográficos).
País de plástico
Um gajo vai almoçar. Começa com um bocado de fruta no Walgreen's. Está numa embalagem de plástico. Depois vai ao fast food em frente: pratos, copos, talheres, bandeja: tudo em plástico.
É um país de plástico. Deviam começar por aqui, antes e se preocuparem com o plástico no Pacífico.
É um país de plástico. Deviam começar por aqui, antes e se preocuparem com o plástico no Pacífico.
Pequenos pormenores sem importância
- Está frio. Tenho de me tapar. Felizmente um lençol chega. Descobri que os lençóis com elástico são ainda melhores para cima do que para baixo. Não nos deixam destapados. (O plural não é majestático nem adequado. Talvez empático. Ou enfático).
- Os ciclistas circulam pelos passeios. Faz sentido: há poucas faixas para bicicletas e nos passeios não há peões. É raro cruzar-me com alguém a pé .
Mas ontem passei por um cavalo. Ia pelo passeio, como eu. Monta western, elegante, confortável, com estribos que pareciam plataformas de petróleo e uma sela que não ficaria mal numa sala de estar à frente de uma lareira. O bicho era um bocadinho magro de mais para o meu gosto. Ultrapassei-os, disse-lhes olá, como é habitual aqui entre ciclistas (os do passeio. Os que andam pela rua cobertos de Lycra não dizem nada a ninguém). O cavaleiro respondeu-me com um aceno e um sorriso.
- Jantar no F.C. Carne de porco no forno com mostarda e salsa.O Ed gostou e eu que ele tivesse gostado. Falamos de tudo mas acabamos sempre na cozinha. Ed trabalhou muito em restaurantes, de empregado de mesa a cozinheiro. Cada vez que me lembro que "Os americanos não sabem comer" penso em Ed. Tem bom gosto, estudou teatro, cantou em coros, é um amador e conhecedor de vinhos. "Além de não saberem comer são incultos". Além de tudo cozinha bem.
Posso estar farto desta vida, mas enquanto me der a conhecer pessoas como o Ed estou-lhe grato. Para sempre.
- Ontem caí da bicicleta. Nada de grave, mas aterrei nos braços (felizmente. Significa que não caí desmaiado, como em Lisboa). Hoje mal os consigo mexer. Caí mais em 2016 do que nos anos todos entre 2000 e 2015: quatro vezes. Duas eu e duas a burra. Estas últimas não podem sequer classificar-se de quedas. Falhas de equilíbrio, digamos. Estava parada e desequilibrou-se. Eu caí porque estava em cima dela. Hoje não foi bem assim .
Travei bruscamente com os dois travões, a bicicleta parou e eu continuei. O arco de círculo que descrevi deve ter sido perfeito.
Um hino à inércia.
- Os ciclistas circulam pelos passeios. Faz sentido: há poucas faixas para bicicletas e nos passeios não há peões. É raro cruzar-me com alguém a pé .
Mas ontem passei por um cavalo. Ia pelo passeio, como eu. Monta western, elegante, confortável, com estribos que pareciam plataformas de petróleo e uma sela que não ficaria mal numa sala de estar à frente de uma lareira. O bicho era um bocadinho magro de mais para o meu gosto. Ultrapassei-os, disse-lhes olá, como é habitual aqui entre ciclistas (os do passeio. Os que andam pela rua cobertos de Lycra não dizem nada a ninguém). O cavaleiro respondeu-me com um aceno e um sorriso.
- Jantar no F.C. Carne de porco no forno com mostarda e salsa.O Ed gostou e eu que ele tivesse gostado. Falamos de tudo mas acabamos sempre na cozinha. Ed trabalhou muito em restaurantes, de empregado de mesa a cozinheiro. Cada vez que me lembro que "Os americanos não sabem comer" penso em Ed. Tem bom gosto, estudou teatro, cantou em coros, é um amador e conhecedor de vinhos. "Além de não saberem comer são incultos". Além de tudo cozinha bem.
Posso estar farto desta vida, mas enquanto me der a conhecer pessoas como o Ed estou-lhe grato. Para sempre.
- Ontem caí da bicicleta. Nada de grave, mas aterrei nos braços (felizmente. Significa que não caí desmaiado, como em Lisboa). Hoje mal os consigo mexer. Caí mais em 2016 do que nos anos todos entre 2000 e 2015: quatro vezes. Duas eu e duas a burra. Estas últimas não podem sequer classificar-se de quedas. Falhas de equilíbrio, digamos. Estava parada e desequilibrou-se. Eu caí porque estava em cima dela. Hoje não foi bem assim .
Travei bruscamente com os dois travões, a bicicleta parou e eu continuei. O arco de círculo que descrevi deve ter sido perfeito.
Um hino à inércia.
16.11.16
Certezas, dúvidas.
Tenho algumas certezas, poucas; é nelas que vêm ancorar as minhas inúmeras dúvidas.
O que ela me dizia
"Sobretudo não te apaixones por mim", sussurrava-me enquanto fazíamos amor. Desobedeci-lhe parcialmente: apaixonei-me por outra.
Devia ter feito tudo o que ela me dizia e não só metade.
Devia ter feito tudo o que ela me dizia e não só metade.
De que é feito um dia?
É um cimento feito dos dias que foram, do dia que é e daquilo que esperamos dos dias que vêm. Cimento frágil, incerto, inseguro mas cimento: é ele que segura os dias de que a nossa vida é feita.
15.11.16
Milímetros de raio
Quando se vive ao milímetro o mais pequeno raio pode mandar todos os planos por água abaixo.
História de um raio
Esta tudo alinhavado. Veio um raio e desalinhavou tudo.
Raio de história. Raio de vida. Raio de raio.
Raio de história. Raio de vida. Raio de raio.
Há coisas que um homem faz sozinho
Por exemplo, dilapidar dinheiro a construir um céu onde ardem os demónios.
É óbvio que isto não é dilapidar dinheiro. É saúde, é como queimar calorias, ginástica - mas para a alma. Ou para a tristeza, vá. A alma é outra coisa. Queimar demónios. Como os demónios vivem no inferno ardem no céu.
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Entrei no Hullaboo por causa da voz da cantora. A qual senhora é o contrário da outra. Tem mamas pequenas e o cabelo todo quase da mesma cor. De resto é magra e canta muitíssimo bem, com uma voz rouca, quebrada. Às vezes não percebo bem o que canta, mas não faz mal. Ninguém quer perceber tudo o que lhe dizem, muito menos o que lhe cantam.
Quando se cala para uma pausa vêm Cohen, Dylan e outros cuja música reconheço mas de quem esqueci os nomes.
........
O meu Pai dizia que se deve beber sempre um número par de bebidas, sob pena de se voltar a coxear para casa.
Está frio no bar. Não sei se lhe vou seguir o conselho.
Segui. Gosto desta ideia de criar um céu para queimar demónios. São coisas que se fazem sozinho, não são?
É óbvio que isto não é dilapidar dinheiro. É saúde, é como queimar calorias, ginástica - mas para a alma. Ou para a tristeza, vá. A alma é outra coisa. Queimar demónios. Como os demónios vivem no inferno ardem no céu.
........
Entrei no Hullaboo por causa da voz da cantora. A qual senhora é o contrário da outra. Tem mamas pequenas e o cabelo todo quase da mesma cor. De resto é magra e canta muitíssimo bem, com uma voz rouca, quebrada. Às vezes não percebo bem o que canta, mas não faz mal. Ninguém quer perceber tudo o que lhe dizem, muito menos o que lhe cantam.
Quando se cala para uma pausa vêm Cohen, Dylan e outros cuja música reconheço mas de quem esqueci os nomes.
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O meu Pai dizia que se deve beber sempre um número par de bebidas, sob pena de se voltar a coxear para casa.
Está frio no bar. Não sei se lhe vou seguir o conselho.
Segui. Gosto desta ideia de criar um céu para queimar demónios. São coisas que se fazem sozinho, não são?
Estados Avisados
Não há um objecto, um lugar que não tenha um aviso sobre os perigos que encerra - o café está quente, o chão escorregadio, a comida mal cozida pode provocar doenças -.
(Excepto, suponho, as armas. Não as imagino a serem vendidas com avisos do género "não usar nas escolas nem em lugares públicos. Podem matar crianças e inocentes").
(Excepto, suponho, as armas. Não as imagino a serem vendidas com avisos do género "não usar nas escolas nem em lugares públicos. Podem matar crianças e inocentes").
Sub-café, diluições
Qualquer homem normal (isto é objectivo - piada privada) gosta de mulheres magras com mamas grandes. É como o grão de café no cappuccino, a rodela de ananás num bife de fiambre ou um bocadinho de brandy na mousse de chocolate.
Mas a que acabou de passar é de mais nas duas: demasiado magra e mamas demasiado grandes. O que é de mais enjoa, querida. E esse cabelo louro platinado com as raízes pretas não ajuda.
Menos silicone e mais bom senso, diluídos em menos tinta para o cabelo teriam feito milagres.
Mas a que acabou de passar é de mais nas duas: demasiado magra e mamas demasiado grandes. O que é de mais enjoa, querida. E esse cabelo louro platinado com as raízes pretas não ajuda.
Menos silicone e mais bom senso, diluídos em menos tinta para o cabelo teriam feito milagres.
Rir, chorar
É a história de uma palhaça que tinha dois parceiros no circo: um pedia-lhe dinheiro e o outro amor. Ela não tinha nem este nem aquele, pelo menos nas quantidades que os parceiros queriam. O espectáculo construía-se em torno de uma escada e de um espelho: quanto mais a palhaça descia mais parecia subir; quanto mais subia mais descia.
Foi despedida do circo. Os palhaços servem para fazer rir e não chorar.
Foi despedida do circo. Os palhaços servem para fazer rir e não chorar.
Diário de Bordos - West Palm Beach, Flórida, EUA, 14-11-2016
O Google Earth diz-me que andei seis quilómetros. Eu que andei uma vida ou duas. Não sei qual de nós terá razão. As vidas não se medem aos passos. Acabei no Clematis Pizza a comer uma lasanha no limite do suportável e no Subculture a beber um café demasiado curto para ser bom. E sem pires, ainda por cima. Detesto que me sirvam o café numa chávena sem um. Não o faço em casa, como gostar que mo façam num sítio onde pago três dólares por um expresso?
Enfim, verdade seja dita: não pago três dólares pelo café. Pago talvez um e meio. O resto é o hype: a boa música, as miúdas giras, as pessoas agarradas cada uma ao seu computador (Apple, esmagadoramente), o professor que à minha frente corrige provas.
E pago também uma desculpa para não ir de autocarro para a marina. Acabo de o perder. Agora só táxi.
Parecem os de Lisboa: cheiram mal, roubam, são mal-criados. Qualquer dia tenho uma conta da Uber, não tarda.
........
Seis quilómetros em hora e meia. Não admira que tenha gostado tanto do passeio.
........
A cidade é horrível. Ou há eixos principais com cinco faixas de rodagem, passagens de peões de vinte em vinte quilómetros (e nas quais a luz fica verde vinte milisegundos) ou ruas residenciais, sem iluminação para além da luz dos alpendres das casas que as ladeiam, todas iguais e sem o menor interesse.
Hora e meia de marcha que me puseram as ideias quase no lugar. Têm sido difíceis, os dias. Chatos, destrutivos, longos. Ainda bem que não trouxe a bicicleta, como tinha pensado fazer. Era de andar que estava necessitado.
........
Infelizmente já não posso dizer que o clima me é indiferente nas escolhas de vida. Não é. Morro de vontade de conhecer melhor a Escócia, de a conhecer a fundo. Cinco meses.
Mas depois vem-me à memória aquele dia de princípios de Agosto em que sa´í do avião em Inverness e a temperatura era de nove graus centígrados. Nove. Dia poucos de Agosto. Faz pensar, não faz?
Enfim, verdade seja dita: não pago três dólares pelo café. Pago talvez um e meio. O resto é o hype: a boa música, as miúdas giras, as pessoas agarradas cada uma ao seu computador (Apple, esmagadoramente), o professor que à minha frente corrige provas.
E pago também uma desculpa para não ir de autocarro para a marina. Acabo de o perder. Agora só táxi.
Parecem os de Lisboa: cheiram mal, roubam, são mal-criados. Qualquer dia tenho uma conta da Uber, não tarda.
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Seis quilómetros em hora e meia. Não admira que tenha gostado tanto do passeio.
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A cidade é horrível. Ou há eixos principais com cinco faixas de rodagem, passagens de peões de vinte em vinte quilómetros (e nas quais a luz fica verde vinte milisegundos) ou ruas residenciais, sem iluminação para além da luz dos alpendres das casas que as ladeiam, todas iguais e sem o menor interesse.
Hora e meia de marcha que me puseram as ideias quase no lugar. Têm sido difíceis, os dias. Chatos, destrutivos, longos. Ainda bem que não trouxe a bicicleta, como tinha pensado fazer. Era de andar que estava necessitado.
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Infelizmente já não posso dizer que o clima me é indiferente nas escolhas de vida. Não é. Morro de vontade de conhecer melhor a Escócia, de a conhecer a fundo. Cinco meses.
Mas depois vem-me à memória aquele dia de princípios de Agosto em que sa´í do avião em Inverness e a temperatura era de nove graus centígrados. Nove. Dia poucos de Agosto. Faz pensar, não faz?
14.11.16
Aprender
As pessoas não aprendem. Passo a vida a ouvir isto: as pessoas não aprendem. Claro que não. Se aprendessem ninguém perceberia Aristóteles, as tragédias gregas ou os clássicos latinos.
E isto porque os gajos das cavernas não sabiam escrever.
E isto porque os gajos das cavernas não sabiam escrever.
Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 13-11-2016
Um gajo sabe que as coisas estão mal quando prefere as Carmina Burana do Orff (preferir não é o verbo adequado. Precisar é) e sabe que tudo está no lugar quando acha aquela merda perfeitamente enjoativa e volta às do Clemencic.
Tive de fechar as portas do salão porque há um concerto na marina e a música é indescritível de má e alta. Má música nas marinas devia ser proibida. Por má música entendo, nos dias como o de hoje, tudo o que tenha sido composto depois do Séc. XII.
Excepto se acompanhado pelas porções correctas de rum, mas isso é coisa que só daqui a bocado se verá. Tal como: quanto tempo aguentarei o calor?
.........
Passeios de bicicleta, finalmente. Muitos, de dia e de noite. Não é bem que isto seja feio. É mais ser entediante. Aborrecido. Chato como a potassa.
........
Estou-me nas tintas para o Trump, Fiz um amigo aqui que tanto se me dá ser americano (do Utah) como chinês ou mexicano. É um gajo porreiro, ponto. Tenho comido muito mal quase sempre e por vezes muito bem. Hoje paguei oito dólares por uma cerveja medíocre. Estou há cinco semanas em West Palm Beach e qualquer dia sou daqui.
Não sou. Nunca serei. Sou europeu. A Europa é o meu planeta, Portugal o meu satélite. O resto nem paisagem é sequer.
Tive de fechar as portas do salão porque há um concerto na marina e a música é indescritível de má e alta. Má música nas marinas devia ser proibida. Por má música entendo, nos dias como o de hoje, tudo o que tenha sido composto depois do Séc. XII.
Excepto se acompanhado pelas porções correctas de rum, mas isso é coisa que só daqui a bocado se verá. Tal como: quanto tempo aguentarei o calor?
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Passeios de bicicleta, finalmente. Muitos, de dia e de noite. Não é bem que isto seja feio. É mais ser entediante. Aborrecido. Chato como a potassa.
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Estou-me nas tintas para o Trump, Fiz um amigo aqui que tanto se me dá ser americano (do Utah) como chinês ou mexicano. É um gajo porreiro, ponto. Tenho comido muito mal quase sempre e por vezes muito bem. Hoje paguei oito dólares por uma cerveja medíocre. Estou há cinco semanas em West Palm Beach e qualquer dia sou daqui.
Não sou. Nunca serei. Sou europeu. A Europa é o meu planeta, Portugal o meu satélite. O resto nem paisagem é sequer.
12.11.16
Distância
A única mulher que me aguenta - ou eu aguento, vá saber-se - é a distância. Tem pelo menos a vantagem de nunca se afastar muito de mim.
Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 11-11-2016
É preciso começar por dizer - dirigido sobretudo àqueles que gostam de viajar, coitados - que West Palm Beach é uma cidade detestável. Talvez não seja bem a palavra, mas não devemos embrenhar-nos por essas veredas. Explorá-las não leva a lado nenhum excepto talvez ao horror, se lhes encontrarmos o fim.
Fui jantar com o Ed ao Bar Louie e até ver a conta o jantar foi uma merda. Depois ficou a coisa mais perto da abominação total que comi em muitos muitos anos. O poder mágico dos números. Pensámos que um café resolveria talvez a coisa e levei-o ao Subculture, onde ele nunca tinha estado.
Fiquemo-nos por aqui. Não quero começar uma espécie de Apocalipse Now gastronómico.
Mais vale voltar para bordo, retomar a garrafa de Flor de Caña onde ontem a deixei (quase cheia) e Leonard Cohen onde ele ficou: no princípio, no meio e no fim.
"O you've seen that man before
his golden arm dispatching cards
but now it's rusted from the elbows to the finger
And he wants to trade the game he plays for shelter
Yes he wants to trade the game he knows for shelter."
........
Foi Leonard Cohen quem me fez ver que há mais no amor do que aquilo que está à vista. Ou melhor: que se o amor se resumir àquilo que está à vista não vale nada.
Daí para a vida não custa. É uma evidência.
........
A empregada do Kafe Hub (sic) - o sítio onde tive o privilégio de beber o pior café expresso da minha vida, uma proeza para quem, como eu não gosta muito de café expresso - não pode levar os cafés à mesa. "Está quente", explica. Alguém um dia definiu a loucura como sendo a razão levada ao extremo. Não sei se a loucura é um extremar da razão, mas o ridículo é sem dúvida nenhuma.
O excesso de bem é uma palermice, o de mal uma tragédia. Antes aquele. E que a mulher não se queime, coitada. É jovem e gorda, duplo desperdício.
........
O progresso, o bem e a razão são a Santíssima Trindade do mundo moderno. Apesar de não ser religioso prefiro a original. Feitas as contas terá de certeza feito menos mal.
Fui jantar com o Ed ao Bar Louie e até ver a conta o jantar foi uma merda. Depois ficou a coisa mais perto da abominação total que comi em muitos muitos anos. O poder mágico dos números. Pensámos que um café resolveria talvez a coisa e levei-o ao Subculture, onde ele nunca tinha estado.
Fiquemo-nos por aqui. Não quero começar uma espécie de Apocalipse Now gastronómico.
Mais vale voltar para bordo, retomar a garrafa de Flor de Caña onde ontem a deixei (quase cheia) e Leonard Cohen onde ele ficou: no princípio, no meio e no fim.
"O you've seen that man before
his golden arm dispatching cards
but now it's rusted from the elbows to the finger
And he wants to trade the game he plays for shelter
Yes he wants to trade the game he knows for shelter."
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Foi Leonard Cohen quem me fez ver que há mais no amor do que aquilo que está à vista. Ou melhor: que se o amor se resumir àquilo que está à vista não vale nada.
Daí para a vida não custa. É uma evidência.
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A empregada do Kafe Hub (sic) - o sítio onde tive o privilégio de beber o pior café expresso da minha vida, uma proeza para quem, como eu não gosta muito de café expresso - não pode levar os cafés à mesa. "Está quente", explica. Alguém um dia definiu a loucura como sendo a razão levada ao extremo. Não sei se a loucura é um extremar da razão, mas o ridículo é sem dúvida nenhuma.
O excesso de bem é uma palermice, o de mal uma tragédia. Antes aquele. E que a mulher não se queime, coitada. É jovem e gorda, duplo desperdício.
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O progresso, o bem e a razão são a Santíssima Trindade do mundo moderno. Apesar de não ser religioso prefiro a original. Feitas as contas terá de certeza feito menos mal.
11.11.16
Flor de Caña, Leonard. Para quem é nada chegaria, fosse o que fosse; não é, Jacques?
Fui comprar rum. Uma bicicleta a funcionar muda a vida e a morte, está a ver-se agora. A liquor store do Walgreens fecha às nove da noite. E ainda chamam eles àquilo uma farmácia. Ontem fui lá comprar Voltarene e disseram-me que só com receita médica.
Acabei na store ao lado. Flor de Caña quatro anos. Não vale um Mount Gay mas a diferença de preço é mais do que justificada. E de qualquer forma a ideia é beber um rum, não é beber vinte. O sacana do Leonard finou-se.
Não estamos na Primavera, estamos no Outono. E sim, vais de certeza tomar boa conta da minha mulher, quando ela for para onde estás agora. E sim, vamos rir e dançar e ir pró buraco, Jacques.
Acabei na store ao lado. Flor de Caña quatro anos. Não vale um Mount Gay mas a diferença de preço é mais do que justificada. E de qualquer forma a ideia é beber um rum, não é beber vinte. O sacana do Leonard finou-se.
Não estamos na Primavera, estamos no Outono. E sim, vais de certeza tomar boa conta da minha mulher, quando ela for para onde estás agora. E sim, vamos rir e dançar e ir pró buraco, Jacques.
Did you ever go clear?
Até que enfim que o sacana morreu, porra. Estava à espera deste dia há tanto tempo.
Eu também tentei e posso dizer que consegui. Graças a ti, em grande parte.
Like a bird on the wire
Like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free
Like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free
Like a worm on a hook
Like a knight from some old-fashioned book
I have saved all my ribbons for thee
If I, if I have been unkind
I hope that you can just let it go by
If I, if I have been untrue
I hope you know it was never to you
Like a knight from some old-fashioned book
I have saved all my ribbons for thee
If I, if I have been unkind
I hope that you can just let it go by
If I, if I have been untrue
I hope you know it was never to you
For like a baby, stillborn
Like a beast with his horn
I have torn everyone who reached out for me
But I swear by this song
And by all that I have done wrong
I will make it all up to thee
Like a beast with his horn
I have torn everyone who reached out for me
But I swear by this song
And by all that I have done wrong
I will make it all up to thee
I saw a beggar leaning on his wooden crutch
He said to me, "you must not ask for so much"
And a pretty woman leaning in her darkened door
She cried to me, "hey, why not ask for more?"
Oh, like a bird on the wire
Like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free
He said to me, "you must not ask for so much"
And a pretty woman leaning in her darkened door
She cried to me, "hey, why not ask for more?"
Oh, like a bird on the wire
Like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free
Goodbye, Leonard
Não costumo ligar muito às manifestações de pesar (por vezes quase parecem de regozijo) pela morte de alguém. Todos nós morremos, até o meu Pai e a minha Mãe (por esta ordem).
Acabo de saber que Leonard Cohen morreu. Tenho passado por dias dificeis e estou talvez hiper-sensível, vulneràvel, frágil (se alguém me puder dizer quando não estive assim durante, digamos, um período superior a três meses agradeço).
Leonard Cohen morreu. Todos sabíamos que estava quase. É uma má notícia, não é uma surpresa. É pior do que uma surpresa, é uma certeza. A confirmação de uma certeza. E logo hoje, que não tenho rum a bordo, a única coisa que ajuda a diluir surpresas e certezas.
Ficam duas canções para uma senhora que provavelmente não me lerá e se ler não saberá que são para ela.
Acabo de saber que Leonard Cohen morreu. Tenho passado por dias dificeis e estou talvez hiper-sensível, vulneràvel, frágil (se alguém me puder dizer quando não estive assim durante, digamos, um período superior a três meses agradeço).
Leonard Cohen morreu. Todos sabíamos que estava quase. É uma má notícia, não é uma surpresa. É pior do que uma surpresa, é uma certeza. A confirmação de uma certeza. E logo hoje, que não tenho rum a bordo, a única coisa que ajuda a diluir surpresas e certezas.
Ficam duas canções para uma senhora que provavelmente não me lerá e se ler não saberá que são para ela.
Sugestão
Uma forma particularmente violenta de tortura é tirar a vítima das tenazes, do fogo, da roda, da - para os mais cinéfilos ou maratonistas - cadeira do dentista e deixa-la sem nada.
Nada: sozinha, sem frio nem calor, sem fome nem desejo, sem luz e sem frio, sem certezas nem - oh quão pior - dúvidas, sem sede, vinho, luz, vontade, café ou uma pele que substitua a sua, magoada e vazia.
9.11.16
Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 08-11-2016
Cheguei a Lisboa há mais ou menos seis meses. Vinha de Cabo San Lucas, de uma viagem horrível, decidido a mudar de vida. Ao princípio tudo correu bem, demasiado bem. Foi em Setembro que as coisas se complicaram. Depois ficaram bem outra vez; depois mal; depois bem; mal; bem; mal... a série parece não ter fim e oscila entre estes dois pólos, não como um pêndulo que passaria por todos os pontos intermédios, mas como dois gatos de Schrödinger assanhados, vivos e mortos ao mesmo tempo, sem estados intermédios. Ou três, ou quatro gatos, como os Vietnam do outro.
Estou exausto. Começo finalmente a ver uma luz ao fundo do túnel. Ainda é pequena e tremelica, mas é luz. Estou exausto.
........
Ontem fui jantar com a N. S., uma das poucas pessoas que admiro realmente. Veio a Miami fazer uma palestra sobre a sua experiência. N. é alemã; era responsável pelo marketing de uma dessas empresas do Mittelstand. Um dia comprou barco no Panamá que estava num estado mil vezes pior do que lhe tinha sido dito. Reparou-o todo, ela própria porque não tinha dinheiro para pagar a quem lhe fizesse o trabalho.
Somos amigos. Há três mulheres no mundo que amo de amor amigo, de amor amado. N. é uma delas. Com ela um dos gatos está vivo.
.........
Trump está à frente. Ainda é muito cedo, claro e estes resultados não querem dizer muito.
Enfim, dizem: há milhões de americanos mais saloios do que o mais saloio dos portugueses.
Estou exausto. Começo finalmente a ver uma luz ao fundo do túnel. Ainda é pequena e tremelica, mas é luz. Estou exausto.
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Ontem fui jantar com a N. S., uma das poucas pessoas que admiro realmente. Veio a Miami fazer uma palestra sobre a sua experiência. N. é alemã; era responsável pelo marketing de uma dessas empresas do Mittelstand. Um dia comprou barco no Panamá que estava num estado mil vezes pior do que lhe tinha sido dito. Reparou-o todo, ela própria porque não tinha dinheiro para pagar a quem lhe fizesse o trabalho.
Somos amigos. Há três mulheres no mundo que amo de amor amigo, de amor amado. N. é uma delas. Com ela um dos gatos está vivo.
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Trump está à frente. Ainda é muito cedo, claro e estes resultados não querem dizer muito.
Enfim, dizem: há milhões de americanos mais saloios do que o mais saloio dos portugueses.
6.11.16
Subir, cair
É verdade que para quanto mais alto apontares de mais alto cais. E mais tempo duram a subida e a queda.
4.11.16
Impossível, vida
A convivência comigo próprio nunca foi fácil; quando as condições exteriores se aliam a mim com o objectivo de me fazer a vida impossível a coligação ganha.
En passant
Pequena nota de passagem: o bar Louie fica à frente do teatro onde agora se apresenta a peça "The Night of the Iguana". A qual peça tem bilhetes a sessenta e seis dólares. Sessenta e seis.
Bolas, a realidade não precisa de se exibir tão provocadora e trocistamente cada vez que venho jantar.
Bolas, a realidade não precisa de se exibir tão provocadora e trocistamente cada vez que venho jantar.
3.11.16
Vida, verdade, exagero
Verdade seja dita que aqui não se diz a verdade. Só mentira. Sem uma não existe a outra, de qualquer forma. Como se o mar não tivesse barcos ou o céu nuvens. Como se a música existisse sem Karen Dalton, que exagero. A vida.
Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 02-11-2016
Várias coisas há que é preciso reconhecer.
Todas elas brevemente:
-A política portuguesa é uma escolha entre aldrabões e castrados. Ou se se preferir, entre gestores de quintinhas. Algumas são mais caras, outras mais baratas. No fim, todos mentem e ninguém tem tomates;
- Hoje comi um dos melhores pestos da minha vida e arredores; o que só demonstra que a minha vida e arredores merecem mais pestos (sem alho. Sou contra o alho no pesto);
- Foi também um dos melhores jantares desta vida, apesar de insuficiente para perceber porque gosto tanto dela;
- Hoje falei com um gajo que começou pr me perguntar, depois da resposta à sacramental pergunta "De onde és?" se Portugal era na América Latina. Quando lhe disse que não perguntou-me se era perto da Itália. Disse-lhe que era ao lado da Espanha disse "Ah", como se lhe tivesse dito que era o país onde fica o jardim da Dona Etelvina.
- Jantei com outro que nunca tinha comido pesto na vida mas já esteve no Pólo Sul e na cabana de Shackleton.
- Continuo a perguntar-me o que tem esta vida que a faz ser impossível de deixar. É como amar uma mulher bonita, inteligente e sexy. Ou feia, inteligente e sexy. Ou bonita, inteligente e assexuada. Ou... agora entram as variações inteligente / burra.
Talvez seja como não amar, no fundo.
- Amanhã tenho a inspecção dos seguros, mas hoje não tenho cigarros e bem precisava de um. Paciência. Amanhã já não terei a inspecção, terei cigarros e não precisarei - espero - nem de uma nem dos outros.
- Está longe de ser tudo, mas é o que me ocorre. Sorte ter a cabeça pequena.
PS
- A estação de serviço tem um novo cozinheiro. Chama-se John e sabe fazer malassadas e chouriços porque viveu no Hawai. Tenho finalmente pequenos-almoços de ovos estrelados e bacon.
PPS
- Amanhã vai um rigger fazer uma inspecção ao mastro. Deus ele-prórpio sabe que não existe, mas se existisse faria com que o mastro esteja bom.
PPPS
- Inscrevi-me na Biblioteca. Aqui não preciso de ser residente para isso. Trouxe o Manual das Mulheres a Dias, mas ainda não consegui ler-lhe nem a capa. Soube também que posso abrir uma conta no banco. Não tarda estou a tirar a carta e a ficar como toda a gente.
PPPPS
-Já falei do rum? É uma merda infecta. Felizmente no domingo estávamos todos demasiado grossos para nos apercebermos disso e a garrafa está a um terço. Nao tarda está no lixo.
Que se fodam os P e os S
- Gasto quase oito amperes com os frigoríficos. Pergunto-me "para quê?" e apago-os. Agora só me resta perceber onde estou a gastar dois vírgula seis com tudo apagado. Tenho mil e duzentos, devia estar-me nas tintas. Infelizmente não consigo. Aposto que é do inversor, mas isto está num estado tal que não consigo chegar-lhe ao interruptor.
Por vezes pergunto-me se a resposta não será esta mistura quase mágica de impotência e omnipotência, tão vizinhas e imiscíveis como azeite e vinagre na mesa da sala de jantar.
Um marinheiro é um gajo que vive nos pólos opostos de cada vida. Se houvesse só uma seria enorme. Infelizmente não há.
- Sempre pensei que amamos quem nos ama, mas não é verdade. Amamos quem queremos amar. É como escrever ou navegar: por muito frágeis que sejamos somos nós que nos fodemos ou decidimos quem nos fode, que palavras, que mares. Ou seja: uma pele precisa de palavras? Ou seja: se um dia disser "Amo-te" estou enganado, mas não estou a enganar-te.
- Ignoro se preciso mais de mar do que de um barco, se mais de um corpo do que de amor.
Pergunta tola ou esperançosa: como separá-los?
Todas elas brevemente:
-A política portuguesa é uma escolha entre aldrabões e castrados. Ou se se preferir, entre gestores de quintinhas. Algumas são mais caras, outras mais baratas. No fim, todos mentem e ninguém tem tomates;
- Hoje comi um dos melhores pestos da minha vida e arredores; o que só demonstra que a minha vida e arredores merecem mais pestos (sem alho. Sou contra o alho no pesto);
- Foi também um dos melhores jantares desta vida, apesar de insuficiente para perceber porque gosto tanto dela;
- Hoje falei com um gajo que começou pr me perguntar, depois da resposta à sacramental pergunta "De onde és?" se Portugal era na América Latina. Quando lhe disse que não perguntou-me se era perto da Itália. Disse-lhe que era ao lado da Espanha disse "Ah", como se lhe tivesse dito que era o país onde fica o jardim da Dona Etelvina.
- Jantei com outro que nunca tinha comido pesto na vida mas já esteve no Pólo Sul e na cabana de Shackleton.
- Continuo a perguntar-me o que tem esta vida que a faz ser impossível de deixar. É como amar uma mulher bonita, inteligente e sexy. Ou feia, inteligente e sexy. Ou bonita, inteligente e assexuada. Ou... agora entram as variações inteligente / burra.
Talvez seja como não amar, no fundo.
- Amanhã tenho a inspecção dos seguros, mas hoje não tenho cigarros e bem precisava de um. Paciência. Amanhã já não terei a inspecção, terei cigarros e não precisarei - espero - nem de uma nem dos outros.
- Está longe de ser tudo, mas é o que me ocorre. Sorte ter a cabeça pequena.
PS
- A estação de serviço tem um novo cozinheiro. Chama-se John e sabe fazer malassadas e chouriços porque viveu no Hawai. Tenho finalmente pequenos-almoços de ovos estrelados e bacon.
PPS
- Amanhã vai um rigger fazer uma inspecção ao mastro. Deus ele-prórpio sabe que não existe, mas se existisse faria com que o mastro esteja bom.
PPPS
- Inscrevi-me na Biblioteca. Aqui não preciso de ser residente para isso. Trouxe o Manual das Mulheres a Dias, mas ainda não consegui ler-lhe nem a capa. Soube também que posso abrir uma conta no banco. Não tarda estou a tirar a carta e a ficar como toda a gente.
PPPPS
-Já falei do rum? É uma merda infecta. Felizmente no domingo estávamos todos demasiado grossos para nos apercebermos disso e a garrafa está a um terço. Nao tarda está no lixo.
Que se fodam os P e os S
- Gasto quase oito amperes com os frigoríficos. Pergunto-me "para quê?" e apago-os. Agora só me resta perceber onde estou a gastar dois vírgula seis com tudo apagado. Tenho mil e duzentos, devia estar-me nas tintas. Infelizmente não consigo. Aposto que é do inversor, mas isto está num estado tal que não consigo chegar-lhe ao interruptor.
Por vezes pergunto-me se a resposta não será esta mistura quase mágica de impotência e omnipotência, tão vizinhas e imiscíveis como azeite e vinagre na mesa da sala de jantar.
Um marinheiro é um gajo que vive nos pólos opostos de cada vida. Se houvesse só uma seria enorme. Infelizmente não há.
- Sempre pensei que amamos quem nos ama, mas não é verdade. Amamos quem queremos amar. É como escrever ou navegar: por muito frágeis que sejamos somos nós que nos fodemos ou decidimos quem nos fode, que palavras, que mares. Ou seja: uma pele precisa de palavras? Ou seja: se um dia disser "Amo-te" estou enganado, mas não estou a enganar-te.
- Ignoro se preciso mais de mar do que de um barco, se mais de um corpo do que de amor.
Pergunta tola ou esperançosa: como separá-los?
1.11.16
Reedição - Necessidades súbitas, súbitos silêncios
Esconder nas fissuras do silêncio a dolorosa e súbita necessidade de silêncio.
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