19.12.24

Macacos, automóveis e armas

Pergunto-me - e de caminho pergunto sos meus amáveis e tolerantes leitores - qual a percentagem de automobilistas portugueses que é contra a venda de armas de fogo nos, por exemplo, Estados Unidos.

Quantos deles se opõem à venda a atrasados mentais, símios e outras bestas dessa arma letal que é o automóvel?

Muitos gostariam, aposto, que as buzinas expelissem balas e não apenas sons.

Claro está que uma acção musculada das autoridades ajudaria a resolver uma parte do problema. É contudo ocioso pensar que símios vão educar os seus semelhantes. Estamos portanto condenados a viver num jardim zoológico povoado por macacos armados. Não de Colts, de Walter PPK ou de Glock mas de BMW, Opel, Fiat ou Peugeots.

Palavras, calçadas

Não gosto do surrealismo. A palavra tem de ser trabalhada.

Sem trabalho uma palavra não passa de uma pedra na calçada, sobre a qual passam e cagam os cavalos. 

Prisão, paráfrase

A minha prisão é a língua portuguesa. 

18.12.24

Poesia, sentimentos

Apresentação de um livro de "poesia". Com aspas: por uma razão que eu - lamentavelmente - não percebo,  há quem pense que a poesia se faz com sentimentos. Isto é, que entre a matéria-prima e o resultado final nada há de permeio.

Ora a poesia - e todas as artes, suponho - precisam de ser mediadas. Precisam de um passe-vite, por assim dizer. Alguém disse uma vez que a literatura não se faz com bons sentimentos. 

Nem com bons nem com maus, pá.

Em louvor da CP

O que é que a TAP e a CP têm em comum?

Ambas são horríveis ate se entrar nos respectivos veículos e em ambas a simpatia do pessoal transforma o que se antevia com horror numa agradável experiência de viagem.

Por uma razão a que a razão recusa aceder, não se pode comprar um bilhete de primeira classe quando se viaja com uma bicicleta. Nem online nem nas bilheteiras, quando as há.

Essa falha pode ser corrigida no comboio pedindo aos até agora sempre amabilíssimos revisores um suplemento para a classe desejada. Mediante um pequeno pagamento a burra segue no seu lugar e quem a monta muda para o dele.

Só é pena não se poder fazer a mesma coisa nos aviões. 

17.12.24

Viva Portugal! - II

Nada e criada numa grande aldeia dos macacos, a maioria dos portugueses conduz como os macacos. De estranhar seria se assim não fosse.

Ontem li não sei onde que somos o terceiro país da Europa com mais mortes rodoviárias. a) Não aceito que nos contentemos com este mísero terceiro lugar. Devemos lutar - é um esforço colectivo, dos macacos e das suas vítimas - pelo primeiro lugar. b) Não sei quem ocupa os dois primeiros lugares mas vou averiguar. Prefiro de longe morrer num acidente de viação a morrer no mar. Tem mais sangue, mais ruídos, mais gente a assistir e a comentar. A morte no mar é demasiado solitária. 

2 - (Pelo nenos) uma das escadas rolantes da Estação Rodoviária da Campanhã não funciona. Por sorte é a que sobe. Se fosse a descendente teria menos impacto.

A casa de banho dos homens do café aonde espero o meu amigo V. não tem sabão. 

Isto tudo é, obviamente, culpa dos imigrantes. Impõem-nos os seus hábitos pouco civilizados, a nós que somos uns ícones da civilização. 

15.12.24

Viva Portugal

Almoço à portuguesa. Começa com demasiada comida e acaba com demasiados gritos. 

14.12.24

Diário de Bordos - Seixas, Minho, Portugal, 14-12-2024

É sábado e está frio. A fina flor de Caminha reúne-se no café Riviera, por sinal o que frequento também. É o meu preferido, pelo menos enquanto não conhecer outros. 

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L. vê na Netflix uma adaptação dos Cem Anos. Vejo um bocadinho. Parece-me bem feita, mas o livro falta-me cruelmente e venho deitar-me.

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Trouxe a Coluer para aqui e já fiz duas vezes o trajecto Caminha - Seixas. É mais fácil do que à priori pensei. Ou seja: da trilogia livros, bicicleta e eu só faltam os livros. Sem eles o tripé não está completo, por muito que o pântano dos sentimentos - a que os romances de cordel e as telenovelas chamam coração - o esteja. A razão sendo simples: sem esse tripé não há pântano que se aguente. 

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Mentira: o caminho está tomado. Os livros seguirão, como a intendência do general (ou dos generais, parece que a frase é apócrifa).

Caminho esse que redescubro com espanto e submissão. Penso naquela detestável história do caminho que se faz enquanto se caminha. É mentira, mais uma. Há uma lanterna que aponta o caminho e essa lanterna tem um nome. Começa por A e acaba por tracinho te.

12.12.24

Diário de Bordos - Lisboa, Portugal,

Noite de poesia "amadora".  Ponho aspas em amadora, mas deviam estar em poesia. Foi uma tortura. Não consigo compreender o que leva as pessoas a não ser capazes de avaliarem a esmagadora falta de qualidade daquilo que escrevem "brut de coffrage" [se alguém souber como se diz isto em português ficar-lhe-ia grato se mo dissesse], sem qualquer espécie de mediação. 

Digo que não compreendo, mas na verdade é inveja pura. Quem me dera ser capaz de não me morder os dedos a cada sílaba e deitar lá para fora tudo o que me passa pela cabeça (estejam os meus leitores descansados, amanhã não será a véspera desse fatídico dia).

Inicialmente a minha surdez selectiva funcionou às mil maravilhas mas pouco a pouco a indigência levou a melhor e deixei de conseguir evitar a derrocada. Ouvia tudo.

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Uma bióloga e um antropólogo unem-se para fazer vinho (e uma família). O vinho é inquestionavelmente bom. O resto parece-me irrelevante. Podiam ser os dois biólogos, antropólogos ou especialistas em doenças dos peixes-espada.

Podiam? Não sei.

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Passei pela luvaria Ulisses. Felizmente não comprei o par de luvas de que tanto preciso (por sinal bem bonito). Gastei a massa na A., que está doente e triste e no vinho da bióloga. Não menciono a "poesia", claro. Não teria sido gastar dinheiro. 

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Li um pouco de Li Bai, Omar Khayyam e E.E. Cummings. Gosto tanto de ler poesia em público! E pelo menos poupo aos outros os meus disparates.

(Os quais, para dizer a verdade, quando comparados àquilo - por exemplo - que hoje ouvi perdem  logo esse estatuto. Mas mesmo assim teriam de decantar muitos anos, antes de ser lidos perante uma assembleia desprovida de tomates e ovos podres.)

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Belém - Alvalade pela Infante Santo nas calmas. Ao menos isso.  Hoje fui ver preços de bicicletas eléctricas e isso sim, é um disparate completo. Custa o mesmo que um carro em segunda mão, tem as desvantagens todas das burras e tem poucas das vantagens. 

Enquanto as pernas funcionarem é essa a electricidade que usarei.

11.12.24

Sol, Terra

Basta um dia de sol no Paredão para nos reconciliar com a terra. Com a Terra. 

10.12.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 10-12-2024

Por norma não gosto de utilizar os duches das marinas. Só o faço quando absolutamente forçado a isso, como agora. Há excepções claro: Denia, por exemplo. Aquilo é um luxo e quando lá vou uso os duches do porto mesmo sem uma razão forte.

Não se aprende muito nos duches ou só raramente. Em Brighton vi um tipo a barbear-se como eu, ainda todo ensaboado e completamente nu, o que me levou a pensar que enrolar uma toalha à cintura nem sempre é má ideia. Ali andava tudo nu na casa de banho e os mastros estavam cheios de bandeiras com as cores do arco-íris, verdade seja dita. Em Denia não é preciso andar em pelota nos espaços comuns: cada duche é um apartamento em miniatura, exagerando pouco.

Hoje - contudo, porém, todavia - o meu duche matinal foi uma experiência notável, alegre e uma novidade. Na cabine ao lado da minha um senhor pôs o telefone a tocar música aos berros e começou a cantar ainda mais alto, uma espécie de karaoke duchal, tão mau como o outro mas muito mais rico em novidade. O homem elevou o conceito de cantar no duche a um nível difícil de igualar (nível nos dois sentidos: o sonoro e o da qualidade do acontecimento.  O do canto nem tanto).

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Último dia como skipper do P. Fiz o handover (termo técnico. Não tem tradução para português,  M.) ao R., que me vai substituir, acolhi a A. que vai fazer boat sitting (ditto), deixei a burra no armazém e vim comer à Cantina.

M. não gosta deste clube. Eu adoro-o. É verdade que com a possível excepção de Cascais - a pior marina do hemisfério norte e arredores - nunca estive tanto tempo no mesmo porto. Os amores correspondidos são os melhores, não são? São. 

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(Continuação)

Avião Barcelona - Lisboa

Reacção! Reacção! Jacto! Estes aviões andam a passo de caracol, essa é que é essa. E cada vez mais devagar, ainda por cima. Por cima de Espanha, que nunca acaba qualquer que seja o meio de transporte: carro, barco ou avião este raio deste país demora uma eternidade até acabar.

Dá tempo para os hospedeiros venderem perfumes, relógios e outras bugigangas. Só não vendem é sono, a única coisa que me apetece. Nem um minuto. A porcaria dos bombons comidos no aeroporto pesa-me no estômago. Porcaria é maneira de dizer, claro. São bons que se fartam. Vêm de um stand chamado Chocolate Factory, em catalão moderno. Comi cinco, se não estou em erro. Pergunto-me se a explosão de açúcar foi equivalente às de Hiroshima e Nagasaki combinadas e concluo que não. 

A rapariga do lado também não consegue dormir. Tem nas orelhas aquelas coisas que fazem as pessoas assemelhar-se a elefantes anões mas sem a inteligência dos bichos. Deve estar a ouvir música porque de vez em quando acende-se uma luz azul, a piscar como as luzes dos carros da polícia. Olho para ela de soslaio, furtivamente, não vá ela fazer-me aquilo que pus a personagem de um conto que estou a escrever a fazer. Espero acabá-lo depressa. É um conto pedagógico. 

Pela janela vejo aldeias, relativamente próximas umas das outras. Irrita-me não saber aonde estou mas não pago para ter wifi a bordo. Só faltam quarenta minutos para chegar. Gosto de seguir os voos nos ecrãs, mas estes aviões de pequenas distâncias não os têm. Quando penso no que me chatearam por não desligar o telefone!

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Lisboa

Recepção tradicional: um chauffeur de táxi que tenta enganar-me - debita-me um euro e sessenta cêntimos pela mochila. Pago-lhe a totalidade do que ele me pede e explico-lhe que ficou a perder: nestes trajectos curtos costumo deixar uma gorja maior. "Mas já que o senhor se auto-atribuiu a gorjeta, fica assim." Estes gajos não aprendem, nada a fazer. E eu entrei no carro a mencionar a Uber, para o ajudar a perceber. Não percebeu. Devo dizer que até tenho um certo respeito - ou será inveja? - pela profissão de taxista.

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Jantar no Portofino, pela primeira vez. Pode talvez argumentar-se que o acto inaugural é o melhor - hipótese que não compro - mas algo me diz que as próximas vezes (haverá muitas, Deus querendo) serão tão boas como esta.

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Portugal: no táxi vim a ouvir um programa de futebol. Não quis pedir ao homem que mudasse porque o trajecto era curto. No restaurante, uma mesa próxima fala de futebol.

Depois admiram-se de ser governados por Costas,  Montenegros, Marcelos e afins.

(Cont. ?)

Sim, continua.

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Acabo no Távola. Não sei se é inevitável - aceitá-lo seria aceitar que não tenho juízo nenhum, coisa que essa sim, me parece inevitável - mas sei que chegar a Lisboa e não parar aqui a caminho de casa é pecado mortal.

Uma cantora excepcional, o puto do baixo - Romeu ou Romão ou coisa que o valha cada vez melhor (conheço-o desde o glorioso café Tati no Cais do Sodré) - um guitarra tão bom como os outros. O bateria não me seduziu por aí além. On s'en fout.

"Ladies and gentlemen, you are floating in space", dizem os Spiritualized. "Luisinho, estás a flutuar em Lisboa", digo eu, que me conheço de gingeira e sei vet quando a árvore está carregada de frutos maduros, pulposos, a rebentar de sumo.

Está. 

9.12.24

Magia, paz

Aquele momento mágico do dia em que a noite e a paz se encontram.

Ou: aqueles momentos mágicos da vida em que os dias e a paz se encontram, se sentam num banco do jardim, namoram, vão passear à beira-mar, jantam e decidem que deviam passar juntos o resto das suas vidas?

Receita - vinho quente à moda da casa

O jantar acaba com Sonny Rollins e uma valente canecada de vinho quente, feito à minha maneira. Fica a receita, para próximas referências:

Vinho tinto;
Rum;
Açúcar mascavado;
Canela em pau;
Alcaravia;
Cravinhos;
Anis (estrela).

Põem-se todos os ingredientes menos o rum numa panela e aquece-se lentamente - esta é a palavra-chave: lentamente - mexendo de vez em quando.

Quando está bem quente serve-se, acrescentando o rum para quem gostar. Escusado é dizer que nem o vinho nem o espirituoso devem ser de alta qualidade. Baixa chega perfeitamente.

Dilui tudo, até a raiva provocada pela imbecilidade de um Papa woke que cede ao zeitgeist, esquecendo que a Igreja deve ser imune a essa peste. O zeitgeist é pestilento. Cheira mal. Não é só o nosso, de hoje - são todos, desde sempre. A Igreja Católica devia ser-lhes indiferente.

Nacionalidade

Venho ao bar España (o da carrer Oms, preciso) e sou recebido com um abraço e uma pergunta: ¿Palomita

Não tarda dão-me a nacionalidade.

8.12.24

De garfo e faca, fora da caixa

Às vezes fico desolado com a quantidade de coisas que me passam ao lado. Ou ao lado das quais eu passo,  dependendo de aonde se quer pôr o sujeito. Não é coisa de que me envergonhe e muito menos orgulhe, regra geral. Mas não deixa de ser aflitivo. É como se estivesse à côté de la plaque em tudo. O problema sendo que quase nada do que interessa a maioria das pessoas me chama sequer a atenção, quanto mais interessar. Hoje no El Corte Inglés passei por um mostrador da marca Façonnable e lembrei-me de que antigamente era uma das minhas marcas favoritas. Tinha camisas e provavelmente calças dessa marca. Agora pergunto-me: quando foi antigamente? Já nem me lembrava daquilo. Não me lembro das outras marcas de roupa de que gostava. Mentira. Lembro-me de mais uma: Burberry. Tinha pullovers da Burberry. E tinha sapatos bonitos, pretos, com os quais ia trabalhar. Também gostava de escolher gravatas. Orgulhava-ne muito da minha colecção delas. E usava perfume: Fahrenheit. Esse nunca esqueci. Ainda hoje, quando passo pelo walk through do aeroporto de Palma esgueiro-me até ao mostrador da Dior para me borrifar um bocadinho com aquilo, de que continuo a gostar um monte. A última vez que comprei um frasco - enorme - foi no duty free de Colón. Custou metade do que custava um frasco normal na Europa. Durou mais de um ano e ficou no aeroporto de Lisboa porque o levava na bagagem de mão. Ainda implorei ao segurança que ficasse com o frasco e não o deitasse fora. Não é exagero, prometo. Implorei. O homem disse-me que não podia. Aquilo tinha mesmo de ir fora. Espero que estivesse a mentir e que no fim do seu turno tenha ido ao saco buscá-lo.

Mas na verdade essa caixa - a das camisas, gravatas, pullovers, sapatos Oxford - tão pouco era a minha. Saí dela com uma facilidade desconcertante porque na verdade eu usava aquelas coisas por razões puramente estéticas. Achava-as bonitas, simplesmente. Nunca fiz parte da tribo, mesmo que lhe vestisse os uniformes. Não era para copiar, imitar e muito menos para me integrar que o fazia. Apercebo-me regularmente da distância entre mim e a plaque quando leio no FB uma senhora que sabe tudo sobre moda e sobre os sinais de distinção social e sobre tribos sociais. 

Já nem das marcas me lembro, quanto mais do que elas transmitem. Pior: não me lembro sequer de transmitir seja o que for. Penso em Baudrillard para compreender a função das marcas mas não para conhecer cada uma delas em pormenor. 

Digo que sou um troglodita e apercebo-me sem orgulho mas não sei se sem vergonha de que é cada vez mais verdade. É que já nem sequer posso dizer que sou um troglodita bem vestido. Apesar de saber a diferença entre uma mala e uma carteira, entre tratar os filhos por tu ou por você,  entre prenda e presente. 

Ah, sei comer de garfo e faca e abrir a porta do carro às senhoras. Não deixo de ser um troglodita fora da caixa, mas pelo menos não estou tão longe dela como temia no início deste post.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 08-12-2024 / II

Vendo bem, eu tinha comida a bordo; vendo melhor, não tinha pâté de campagne, queijo Camembert au lait cru nem chiapatta, esta ainda quente e tão boa que lhe comi quase metade enquanto deambulava pelo supermercado El Corte Inglés, o único capaz de suprir tão gritantes falhas ao domingo.

Comido quase metade do pão tive uma inapelável vontade de beber um chocolate quente, de que o ex-meu P. está igualmente desprovido. Da cave ao quinto andar foi um pulo de elevador, até descobrir que o cacau não é grande coisa levou um bocadinho mais de tempo mas sentado à janela com metade da chiapatta já comida, com as peças do puzzle a encaixarem-se se não da forma ideal pelo menos da expectável, com a ideia de que tenho com que fazer vinho quente a bordo, com um amor que está a deixar de ser nascente e se transforma a passos largos na nascente do amor, com a ideia de que a carcaça já conheceu melhores dias mas enfim, não está tão mal como gosto de pensar, com tudo isso - o peso relativo de um cacau medíocre e indigno do El Corte Inglés desaparece.

A bordo como o meu camembert e o pâté (em pães separados), o vento caiu, a chuva fez saber que só mais logo ou amanhã. Não é caso para dizer que está tudo bem no melhor dos mundos mas já não estar tudo mal no pior deles é apreciável e deve ser celebrado. Nem que seja com um cacau medíocre no quinto andar do El Corte Inglés. 

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Amanhã é dia de encaixotar o que tenho a bordo e tratar seriamente do seu repatriamento, terça faço a passagem de testemunho e os últimos adeuses. Sem o P. Palma vai mudar. Não será a mesma. Nem eu. Deixarei de ser um «residente» e passarei à categoria de turista, pelo menos até voltar aqui para trabalhar, lá para Abril.

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Dia calmo, este. Cada vez há menos probabilidades de que o transporte de Janeiro não se faça e Fevereiro cair-me-á nos braços como... como quê? Não sei. Ainda há muitas milhas, até lá e de milhas só gosto de falar das que já me passaram pela quilha, não das que aí vêm.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 08-12-2024

Como previsto o badanal acalma mas não acaba. Daqui a pouco, para alegrar o quadro, entra chuva. A noite foi longa - até às cinco da manhã foram os tais ciclos de meia-hora; depois lá consegui dormir mais ou menos correctamente. E ainda há quem se admire da minha capacidade de adormecer em qualquer sítio - agora até nos aviões consigo dormir... O cunho aonde estão os cabos dos muertos está mesmo por cima do meu camarote e o ranger dos cabos, mai-los barulho do vento nas mastreações e do oscilar do barco atingiam um nível relativamente elevado de decibéis. Mas lá está: se há coisa importante no mar - ou numa embarcação - é a gestão da fatiga. 

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Os «empresários» portugueses são gente curiosa. Têm uma gestão do tempo fantasiosa. Uma coisa que se resolve com um telefonema de dois minutos deve ser tratada por e-mail. Depois admiram-se de nossa produtividade. (Além de não ser sequer capaz de assinar uma mensagem com o apelido. É só o nome, como em África e nas creches.)

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Almoço: frango frito. Comecei por marinar a perna de frango em sal fumado, azeite picante e sumac (não tenho limão a bordo). Ainda está na marinada. A seu tempo darei notícias. É imperativo encontrar forma de transpor a loja do Cristian para Portugal. E o Xisco; e Fidel & Tom; e a bodega Bellver; e a bodega Can Rigo; enfim, quase tudo.

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BINGO! Nunca mais poderei dizer que não sei fazer frango frito.

- Marinar numa mistura de sal fumado e sumac e juntar um pouco de azeite picante;
- Envolver em farinha de grão-de-bico;
- Fritar.

Ficou uma maravilha. Agora falta assegurar o fornecimento de sal fumado em Lisboa, Porto, Caminha ou Seixas do Minho. Sumac há de certeza.

7.12.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 07-12-2024

O badanal que estava previsto entrou mais tarde do que as previsões previam mas entrou com a mesma força. Perdi o chapéu de vento, ia caindo da bicicleta, o P. chia por todos os lados, mudei defensas de sítio, o frasco com sabonete que a A. aqui deixou entornou-se e foi pelo cano (vá lá, ao menos isso) e eu pergunto-me a) se vou dormir esta noite e b) se sim, como?

A corrente de terra foi-se abaixo mas um dos vizinhos ensinou-me aonde a repor e tenho aquecimento. O P. dança tão desajeitadamente como eu. A chinfrineira na marina é enorme. E eu só penso que prefiro estar aqui a estar no mar. Paras estes dias a minha Mãe tinha uma oração especial cujo texto infelizmente esqueci. Duvido muito que a rezasse se me lembrasse, mas de que a apreciaria não tenho dúvidas. O lugar é para barcos maiores e os cabos dos mortos são demasiado grandes. Hoje pus o motor a ré a toda a força e a coisa aguentou-se, mas agora as defensas que pus no painel da popa trabalham. São quatro, espero que nenhum rebente. E que se aguentem, o pior vem amanhã. [Parece que não, afinal. Vai acalmar a partir das oito ou nove.]

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Dois gajos no princípio do pontão têm os mastros alinhados. Fico sempre na dúvida sobre o que fazer mas a minha irremediável propensão pedagógica acaba por ganhar. Disse-lhes que deviam desalinhar os paus. É uma coisa básica, porra. É o b do abc: não amarres ao lado de um gajo com os mastros alinhados porque se entra badanal eles podem tocar. Encolheram os ombros. Eu não. Acho que fiz o que devia fazer, mesmo que eles pensem que estou a meter-me aonde não sou chamado.

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Vou deitar-me. Dormir é outra coisa. Tenho sorte: não enjoo e as baterias recuperam depressa. Meia hora de sono e ei-las prontas. A noite vai ser assim: uma sucessão de meias horas.

6.12.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 06-12-2024

A ideia original era comprar café no mercado de Santa Catalina; juntou-se-lhe a de ali beber um copo com a I. e o A. A taxa de realização foi de cinquenta por cento: o mercado estava fechado pois hoje é feriado. Passei um bom momento - bom nos sentidos de bom e de largo - com o A. É a pessoa que mais subavaliei nos últimos duzentos e cinquenta anos e mais injustamente. I. estava preocupada pois perdeu um xale e foi procurá-lo. Resultado: duas horas de conversa em português na Madeleine de Proust, uma pastelaria francesa, contrariamente ao que o nome levaria a supor. Fica ao lado do mercado e vou lá de vez em quando. Finda a conversa venho complementar o almoço ao Jonny's Dhaba, história de preparar a cama para a sesta.

(Fecha-se uma porta e abrem-se muitas outras, como reza a piada sobre os carros franceses. Quantas se abrem, pergunta o céptico que há em mim? Tantas quantas o futuro conta de dias, responde o optimista.)

O Jonny está cheio. Gosto da clientela desta casa, é gente boa e faz-me sentir assim também. Como restaurante indiano deixa um pouco a desejar, é certo, mas como restaurante é soberbo. Os restaurantes, tal como as cidades, são feitos das pessoas que os frequentam. A comida não é tudo. 

No Jonny encontro o D., o «meu» rigger, ucraniano, um tipo que para ir ao galope de mastros até vinte metros não precisa de grua nem de cadeirinha: chega lá com as mãos e não precisa sequer de se pôr em bicos dos pés. D. tem trabalho em todo o lado: Filipinas, Singapura, Caraíbas... Este ano até à Austrália foi, um país onde toda a gente sabe não haver riggers capazes. Fala-me da guerra e dá-me informações absolutamente horrorizantes. É a favor da entrega dos territórios à Rússia, opinião sustentada pelas tais informações - que no caso dele vêm em primeira mão. Não respondo, claro. Limito-me a dizer que sim e a confirmar que numa guerra não há bons nem maus. Há os que têm razão e os que a não têm.

Dali venho à Cantina beber um rum. Para quem não gosta de despedidas esta arrasta-se até mais não ver. 

E disto se faz um dia. Verifico se o P. está pronto para o badanal que aí vem - está, mas de qualquer forma estarei a bordo - espero por segunda que é quando poderei ir buscar as caixas para a mudança, por terça, quando apanharei o avião e durmo a sesta, bendita sesta.

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Ao contrário de Coimbra Palma não tem mais encanto na hora da despedida. Bem sei que em breve estarei cá de novo, mas não será a mesma coisa. Palma fica uma cidade triste quando ouve alguém dizer-lhe adeus.

5.12.24

Escondo-me

Escondo-me no canto da noite que fica mais perto de ti. É ali que o sono me procura e me encontra, quando quer encontrar-me. É o canto mais quente, o canto de onde melhor se vê a Lua, de onde melhor se sente a manhã. Amanhã. 

Sismos à porta

Não é de certeza por acaso que a imagem do sismógrafo não te sai da cabeça. Um sismógrafo priápico, excitado com a quantidade de sismos com que deve lidar simultaneamente. Sismultaneamente, dirias se alguma coisa pudesses dizer  e não fosse fácil de mais, tantos os tremores que te abalam as fundações. Lou Reed canta a agonia de um amigo que lhe era próximo, hoje conseguiste não pensar na tua agonia e pensas que devias um dia erguer um altar a todas as mulheres que não te levaram para a cama, ver se o sismógrafo acalma, se sabe nadar num largo rio tranquilo. 

Sabe, claro que sabe. É um sismógrafo sensível e adaptável. Sente a mais leve das vibrações e adapta-se a todas. Até à de uma noite sem sono e sem frio, sem luz e sem amanhã, noite de noites, noite fugida do calendário, escondida entre sismos, mergulhada em medos e em coragens, noite contraditória: tudo e o seu contrário (que não é nada, lembra-te. O contrário de tudo é tudo).

Cavafy: que faremos sem os bárbaros? Quando regressares a Ítaca pede que o caminho seja longo.

Pizarnik: Que haré con el miedo / que haré con el miedo ¿Qué haré conmigo?

Borges: Sólo una cosa no hay. / Es el olvido.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 05-12-2024

Só a quem tenho mesmo de dizer digo que me vou embora do P. Não é fácil, quando ainda por cima tenho de mentir sobre as razões. Ou semi-mentir, pelo menos. Hoje foi à R., a melhor shipchandler com quem me foi dado trabalhar. Há quem trabalhe numa dessas lojas como se trabalhasse numa loja de roupas ou de chupa-chupas. Um shipchandler é outra coisa. Em português diz-se loja de aprestos marítimos, expressão essa que não exprime nem metade do que a outra, a inglesa, a original expressa. É a componente ship, - barco, navio, embarcação, lancha, iate, paquete, graneleiro, vaso de guerra, cimenteiro, petroleiro, arrastão, cargueiro... Ship é um universo, um planeta, uma vida, um meio de transporte, uma aproximação ao infinito. Marítimo é tudo isso, mas menos.

Um bom shipchandler está para um marinheiro como um bom padre para um católico, suponho. R. é isso e muito mais. Agora trabalha num rigger - um dos melhores de Palma, como se houvesse acasos - e ela, que já foi marinheiro (o masculino é propositado) continua a saber o que um marinheiro é e aquilo de que precisa. Longa vida à R., três hips e um hooray a todos os que trocaram o mar pela terra e não deixaram o mar.

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Almoço no Sabores Criollos: cerveja Aguila, arepa de carne, rum Viejo de Caldas. Ninguém me pode acusar de não me despedir como deve ser.

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Chego a bordo e oiço os Cânticos da Liturgia Eslava pelos monges de Chevetogne. Quando se está no céu convém não descer muito depressa.

Tudo menos viver como se estivesse morto

O conceito base de quem «desobedece» aos médicos - diabéticos que comem e bebem como se o pâncreas produzisse insulina para dar e vender, asmáticos que fumam, coxos que insistem em fazer os cem metros barreiras - é o de que a vida vale mais do que a morte.

Podres de razão. As coisas ou se fazem bem feitas ou não se fazem e viver faz parte dessas coisas.

4.12.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 04-12-2024

Triste, miserável? Hesito. São duas bolas de malabarista, na aparência juntas mas na realidade separadas? Ou estão ligadas por um elástico e são inseparáveis, por mais que se afastem?

Não sei. Sei que hoje pedalei ou triste ou e miserável pela cidade e que também ela estava como eu, hesitante. Sete anos é o ano do diabo para muitos casamentos, isso é certo. Mas porra!, ainda me faltam três meses. E não estava casado,  além disso. 

Enfim, pouco interessa. Verbiage verbiage. Paroles, paroles. Pouco a pouco, pedalada a pedalada digo adeus ao meu P., sabendo pertinentemente que não estou a dizer adeus a Palma. É a uma parte de mim que digo adeus, não a esta cidade que se tornou, ela também, parte deste gajo que circula montado numa bicicleta BH Glasgow Vintage branca, de jeans, anorak e chapéu, sapatos de camurça e miséria na alma. Ou tristeza, só?

Não sei. Jantei o melho vitello tonnato do universo, almocei uma pita shawarma correcta no israelita do mercado, bebi um vermute no Tulsa, avancei trabalho em todas as frentes e terminei o dia a conversar com este amor cada vez menos nascente. Conversa essa que me apagou do dia as duas palavras do início deste post. Tiveram de se refugiar na memória, coitadas, que na experiência já nem cheiro delas ficou.

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O E. do clube disse-me hoje que sou "un hombre cabal", entre outros encómios. Não faço ideia do que isso seja e venho ao Google. "In Spanish the word CABAL means precise or exact, thorough and on point."

Pelo menos não foram anos perdidos. 

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O caudaloso rio da minha vida encontrou finalmente um afluente tranquilo, penso. E logo a seguir digo-me que talvez seja ao contrário e o meu rio seja o afluente do outro e não este do meu.

Talvez. Sonhar não custa. O que custa, exige esforço, vontade e tenacidade é transformar os sonhos em realidade. 

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Vénia, chapeau bas e roupa de combate: tantas palavras para dizer Hallelujah! Ou, mais laicamente: Obrigado!

3.12.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 03-12-2024

Devido a um certo número de restrições orçamentais venho de autocarro do aeroporto. Palma cheira a despedida, um cheiro que não lhe fica de todo bem. Não lhe corresponde, por assim dizer. Para compensar, venho à San Jaime beber um Caravajales. O equilíbrio é a fonte da harmonia. O que se poupa de um lado deve gastar-se no outro, sob pena daquilo a que os ingleses chamam imbalance, termo chique para desequilíbrio.

Como vermuteria o San Jaime deixa um bocadinho a desejar - tem pouca escolha - mas como razão para descer do autocarro uma paragem antes tem argumentos sólidos: a música (cançonetas pop inconsequentes), o serviço (miúdas novas, giras, simpáticas, sorridentes e competentes), a localização (a caminho do clube), o conforto e sei lá que mais. Sei que desci uma paragem antes, bebi um Caravajales e um Padrón e a caminho de bordo ainda parei na Cantina porque tinha de esperar pela bicicleta, que está fechada num local e para o abrir é preciso chamar um marinheiro e por conseguinte beber um copo de tinto e brincar com a empregada e pensar «porra, isto está a acabar?» Tudo indica que sim.

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Chego a bordo e começo a arrumar as minhas coisas. É preciso fazer a cama. Os lençóis estão húmidos - tudo está húmido. Tenho coisas demais, eu sei. Paciência. Quem não tem jeito para a frugalidade tem braços, pernas e sacos de supermercado. E um aquecimento no máximo, ver se esta humidade desaparece.

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Reencontro a minha burra. Palma desliza sob mim. Suspeito que a ideia do tapete voador veio de um ciclista.

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O trajecto para jantar foi no mínimo ziguezagueante. Como de costume não sabia aonde ir mas desta vez à indecisão habitual juntava-se outra, a do início deste post. Estou de saída e a questão resume-se rapidamente ao Antiquari e ao Bar Rita - aquele porque foi a minha primeira casa em Palma, este porque foi aonde Palma - ou Mallorca, para os preciosistas - me abriu a porta. De caminho bebo um vinho quente e como um cachorro idem na Rambla, que está linda como sempre. Acabo por escolher o Antiquari, motivado mais pela comezinha necessidade de escrever do que por esotéricas ideias de chegadas e partidas, casas e portas.

Um gajo sabe que está no café de um francês quando diz à empregada «preciso de uma mesa para comer e para escrever» e ela aponta para a sala de trás e diz: «ali está mais tranquilo para escrever.» Ainda oscilo um bocadinho mas acabo efectivamente na sala de trás, porque tenho mais luz do que na da frente.

Esta sala parece um décor de cinema. Não é por acaso que uma das minhas fotografias favoritas foi feita aqui.

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E assim saio de Palma: como entrei. Com espanto e amor, como se cada dia fosse o primeiro e o último.

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Primeira nota importante: o La Rosa não tinha fila à porta e consegui entrar sem esperar. Ainda me lembro de quando se podia entrar ali como noutro sítio qualquer. Bebi um Noilly Prat tinto porque estava a precisar de um vermute seco. O Noilly Part branco é o vermute do dry martini e o tinto é o vermute de quem precisa de um copo de Descartes. Descartes em copo, por assim dizer.

Segunda nota importante: se as clientes do Antiquari abrissem uma agência de matrimónios ter-me-iam como aspirante a todas e cada uma delas. (E se fossem mais velhinhas, coitadas, que assim novas são um imbalance). Para restabelecer o equilíbrio peço mais um copo de vinho, outra vantagem de se frequentar o café de um francês. O vinho é bom. Palma é uma cidade cheia de equilíbrios. Ou melhor: fácil de equlibrar.

Terceira nota importante: Luisinho...

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Contesto vigorosamente o nome Palma de Mallorca. Prefiro-lhe Palma de Mim.

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ADENDA: A caminho de bordo salta-me o Jaume, mais conhecido por Bodega Can Rigo, ao caminho, que Deus me perdoe a repetição da palavra caminho. É inverno, tenho lugar, o Jaume está disponível e dá-me um abraço sorridente, a Picki lembra-se do meu nome, o outro Jaume quase esboça um sorriso. Há algo na reserva deste povo que me atrai, me seduz, me encanta e me faz suportar passar uma hora ao balcão sem trocar uma palavra pela razão simples de que não é preciso.

Sou um homem de palavras e vivo bem sem elas. Nós, os marinheiros, somos tudo e o seu contrário.

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Encontro o V. (e a H., acho que nunca os vi um sem o outro) e lembro-me de que queria fazer uma festa com ele quando o P. ficasse pronto. Nunca ficará e nunca haverá festa. Com um pouco de sorte pedir-lhe-ei para tocar meia hora no bar Rita. É um sax e um flauta extraordinário. Com sorte.

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Já estava a bordo. Cama feita, olhar olhado sobre o desolo de ter tudo (enfm, um largo quase tudo) em sacos de supermercado e a imperiosa necessidade de um taco no 7 Machos arrancou-me a essa doce (ou amarga) contemplação. A mistura é sempre a mesma: Modelo, Mezcal, Pastora. Não sei que ordem dar a isto, de maneira fica assim. Isto para não mencionar as clientes. Se o fizesse, as do Antiquari ficariam zangadas, aposto.

Ou seja: Palma acolhe-me e eu esparramo-me por ela abaixo, goelas e braços abertos, pernas para pedalar e sentidos alerta, antenas no ar que a vida não perdoa a quem não lhe presta atenção. 

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O mezcal do 7 Machos é da marca Banhez, se por acaso. 

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Agora sim, posso ir deitar-me. A escada para a cama tem um monte de degraus e já subi metade deles.

Semi-paráfrase

Je suis contre le verbiage.

2.12.24

Definição: wokismo

A quem precisa de saber o que é o wokismo: imagine que se proibiam todas as palavras terminadas em ona por causa da rima. Ou alho, idem.

1.12.24

Diário de Bordos - Caminha, Minho, Portugal, 01-12-2024

Transformar a nascente de um rio num largo rio tranquilo leva o seu tempo. O mesmo que leva um amor nascente a transformar-se num largo amor tranquilo? Não sei. A minha experiência em largos amores tranquilos é reduzida. Deles só sei que é isso que quero e suspeito que é isso que me espera. Não é tarde. Nunca é, para ter o que sempre se quis ter.

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Fui a Valença, pela primeira vez. Última em fim-de-semana de período natalício. É espantoso como as "Festas" conseguem dar cabo de tudo o que tocam.

Com algumas excepções, admitidamente. As luzes de Natal de Palma são bonitas, por exemplo. Mas essas excepções são raras. A visão daquele castelo a cheirar a churros, cheio de gente, de música horrorosa e de lojas todas iguais permanecer-me-á na memória enquanto houver natais. E memória, claro.

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Felizmente estava com o meu largo rio tranquilo e encontrámos um café quase vazio aonde nos espraiámos tranquilamente em conversa. O espírito de rebanho dos turistas é invariavelmente uma bênção. As ruas ao lado da que está cheia estão vazias. Acontece em todas as cidades que recebem essa admirável espécie.

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Hoje vi no programa de Ricardo Araújo Pereira uma cena que o Chega fez com uns panos pendurados nas janelas da A. R.

O ponto a que os políticos tradicionais deixaram a nossa civilização chegar (está longe de ser um problema português) para que haja mentecaptos a defender estas "manifestações" é extraordinário. 

Se bem seja forçoso reconhecer que os idiotas das tabernas também merecem ser representados. Os políticos tradicionais deviam tê-los ouvido. Agora é tarde. Estamos nas mãos dos Venturas e dos Pintos deste mundo.

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Aviso à navegação: a Adega Cooperativa de Vila Real faz o melhor vinho que oito euros podem comprar. 

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Terça-feira vou para Palma. 

Saudades antecipadas

Dos vários tipos de saudades que existem o pior são as saudades antecipadas. Saudades adiantadas, por assim dizer. Sentimo-las agora porque sabemos que daqui a uns dias as vamos ter, avassaladoras. É como se já nos tivéssemos ido embora e ainda aqui estamos, como o objecto das saudades sentada à nossa frente, sorridente e linda. Esquartejados.

Olho-te e sei que em breve no teu lugar não estarás tu e sim o lugar que a recordação te atribuirá, um lugar que ocupará o espaço todo da memória, porque a saudade é assim: invasora e monopolística.

29.11.24

Diário de Bordos - Caminha, Minho, Portugal, 28-11-2024

A linha que separa a loucura da estupidez é muito fina, quase invisível. Aquele tipo é louco, ouve-se muitas vezes dizer, quando na verdade aquele tipo é simplesmente estúpido. Isto acontece porque loucura e estupidez são dois ramos da mesma árvore: a irracionalidade. Não ser capaz de usar a Razão ou não a ter de todo.

Infelizmente, a estupidez é mais frequente do que a loucura e eu sou melhor a lidar com esta do que com aquela. Duas infelicidades. Juntas não fazem uma felicidade, contrariamente ao que os meus amigos da álgebra poderiam ser levados a pensar.

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Ao contrário do amor, que se alimenta de duas felicidades. E as alimenta, louvado seja.

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Amor esse que tem sobre a Razão o efeito que os halteres têm sobre os bíceps dos atletas (pelo menos sobre uma que eu conheço).

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Dias felizes com uma sombra poderia ser o título destes dias. A sombra chama-se P., como não podia deixar de ser. Felizmente Caminha (aonde de resto agora chove copiosamente) tem sol todo o dia e toda a noite. Ou um particular e local alinhamento de astros, que apontam todos na boa direcção.

Os que interessam.

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Só lamento a total ausência de leitura. Vá lá, pelo menos continuo a comprar livros. Poderei lê-los na pirâmide.

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Para a série Conselhos às novas gerações:
  • De dia, amor e gratidão não devem andar juntos. São  diferentes, passam o tempo a querelar-se e mais tarde ou mais cedo comer-se-ão um ao outro.
  • À noite convém equilibrar entusiasmo e técnica.

28.11.24

Já por aqui o disse, mas este blogue anda em circunvalações, espirais, às voltas e outros modos de se enrolar sobre si próprio

O verbo amar não tem pretéritos e a ter um seria o imperfeito. Tão pouco tem condicional. Só tem presente do indicativo e quem é o indicado, quem é? (Há presentes perfeitos? Não, só imperfeitos.) A declinação correcta do verbo amar implica o uso constante da forma interrogativa. Ah, só tem duas pessoas - a primeira e a segunda. Do singular. 

Ponhamos de lado as circunvalações conjugativas de verbos que de nascentes passam a torrentes impetuosas cheias de quedas, cascatas, barragens, inundações e desaguam em fozes desconhecidas. Somos aquele canal estreito entre os bolbos da ampulheta? Somos o que fomos? Estamos constantemente a encher a ampulheta de mais areia, impedindo-a assim de medir correctamente o tempo e dando-nos a impressão errónea de que somos eternos? Se sim, quem põe a areia? O amor, claro. Que outra mão haveria para o fazer?

Somos uma mistura de areia que cai e água que corre e essa mistura tem um nome.

26.11.24

Três fragmentos e meio

O amor e a saudade andam sempre juntos, como se fossem irmãos siameses. Não são ou não deviam ser.

Escrevo-te com vontade de te dizer muito, tudo, de te esgotar com e nas palavras como se o mundo fosse tu. É.

Mas que me importa o amanhã se de hoje, já o dia vai no fim, só sei o que vejo: o amor e tu, juntos como se fossem um. São. 

Objecção contra a tua beleza: só com palavras a consigo retribuir e estas não lhe chegam nem à sombra.

Diário de Bordos - Lisboa, 25-11-2024

Soberbo jantar no Tentações de Goa com o V. da C. P. Há amizades assim. Parecem sair do nada - já não me lembro de como o conheci, sequer - não requerem quilómetros de estradas comuns, alimentam-se de coisas poucas: um excelente jantar, um gosto comum por duas ou três coisas, um reconhecimento do outro, um telefonema de vez em quando. "Estou a ligar só para saber como estás." O que define e resume a amizade é este "só". É muito, só para saber como estás. "Estou bem, obrigado. E agora estou melhor, porque tu me telefonaste só para saberes como estou."

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Por razões demasiado longas para explicar aqui ainda não sei se regresso amanhã a Caminha se na quarta de manhã. O mesmo se aplica com o regresso a Palma: ainda não sei se vou na sexta, no sábado ou quando vou. Isto não é só funambulismo em corda bamba. É não ter corda.

Não me queixo. Constato, simplesmente. (O verbo constatar está quase a adquirir a nacionalidade portuguesa. Devemos deixar de o tratar como se fosse estrangeiro.)

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Recorrendo às pernas, a táxis, Uber, autocarros e metros consegui fazer tudo o que tinha previsto para hoje. Só falta o que não depende inteiramente de mim. A tal corda bamba que não é corda.

24.11.24

Ausência, espaço

Deixo  que seja a noite. É domingo, dir-me-ás. Está tudo fechado, não tens a bicicleta contigo, terás de ir a pé ou de táxi. Para onde? Lado nenhum. Ou seja: mergulho em ti, nesta tua presença que apesar de ausência é presença. 

Não sei que alquimia transforma ausência em presença, não sei que dor me faz sentir-te a meu lado estando tu tão longe, ignoro o que me tira o sono tendo eu tão pouca vontade de dormir.

A tua ausência preenche este espaço. Qual espaço?

Objecção

Objecção contra a Internet: não só deu voz à imbecilidade mas também validou-a.

Portugal, incesto

Uma parte de Portugal não passa de um imenso incesto. A outra é o resultado.

Comboio Porto Lisboa

Um senhor sente-se mal e vomita no bar. O cheiro é infecto.

A senhora do bar - admirável produto da natureza e da evolução - não tem nada para limpar o chão e defende que o resultado deve ficar aonde está.

Maravilhoso país, que fornece simultaneamente razões para o amar e para o detestar. 

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ADENDA: A cena prolonga-se. A senhora do bar, que de repente perdeu o estatuto de prodígio da natureza, diz aos dois acompanhantes do vomitado que ele não tem de se envergonhar. "Estas coisas acontecem". Os rapazes limparam o chão, verdade seja dita, talvez devido à minha indignação. Não sei. 

Sei que não percebo este grau de tolerância. Refugio-me no vinho tinto e no meu amor barra felicidade. É a melhor armadura contra os ataques do mundo barra Portugal.

Cannes, Marselha, Porto, comboio, etc. - 24-11-2024

Cannes: Às duas da tarde a temperatura era de catorze graus centígrados.  Breve alívio para esta maldita constipação, que desde Amsterdão não me larga.

Não vi nada da cidade, claro. Tão pouco tenho a certeza de que seria necessário.

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Marselha: Execrável jantar numa cantina italiana. Salvou-o a companhia do R. e família. É difícil encontrar um grupo de quatro pessoas (dois adultos e duas crianças) tão agradável. 

Não são apenas as cidades que são feitas de pessoas. O mundo também é. 

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Porto: almoço com a L. Tenho de alugar um coração maior. O que tenho está pequeno para tanto amor e tanta felicidade.

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Comboio Porto - Lisboa: uma garrafa de vinho tinto de três decilitros e setenta e cinco custa quatro euros e vinte cêntimos. Pergunto-me se posso alugar um assento aqui ao mês, na carruagem bar.

(E com esta senhora a servir, porque a natureza é a coisa mais bonita que Deus nos deu. Ou teria dado, se existisse.)

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Passei Aveiro. Em breve chegarei a Coimbra-R.

Gostaria de pensar que a minha vida é feita de portos e de estações de caminho de ferro. Não é. Também há aeroportos. Um dia debruçar-me-ei sobre o assunto.

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Resultados provisórios das votações na Suíça: nada de muito animador, até ver. Os suíços então a virar à esquerda. A feminilizar-se, mais coisa menos coisa.

"La femme est l'avenir de l'homme." Não sei se é propriamente elogioso.

23.11.24

Diário de Bordos - Marselha, França, 22-11-2024

Jantar no Mas, copo pós-prandial no Café des Arts. Mudaram os dois de proprietários há pouco tempo. Continuam quase iguais: no Mas a comida estava porreira e a música muito alta, no outro toda a gente dançava e a escolha de runs é limitada. Bebi tequila e pensei que o Mediterrâneo é o berço daquela verdade absoluta "é preciso que tudo mude, etc."

Marselha continua o condensado de Mediterrâneo que há séculos é e assim continuará ad seculum seculorum

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As réplicas do terramoto sucedem-se. Hoje ao aterrar apaguei o telefone e ao ligá-lo não atinei com os PIN. Resultado: tive de vir de táxi do aeroporto para o hotel e de comprar um cartão novo. Cem paus pelo cano. O R. tinha ido buscar-me ao aeroporto e veio de lá furioso, claro. Felizmente o cartão novo reintegrou-me no mundo. Isto é, na net, como o andar novo da anedota. Agora preciso dos PUK dos dois cartões,  tarefa para a qual vou ter de mobilizar alguém. Há dias em que me detesto muito e outros pouco. 

Infelizmente aqueles em que não me detesto de todo ainda estão por nascer.

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Ao que parece a moussaka ficou boa. Há dias em que me acho suportável.

22.11.24

Diário de Bordos - Caminha, Portugal, 21-11-2024

Chove felicidade e eu não tenho chapéu de chuva.

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É preciso passar algum tempo sem ouvir a Ressurreição de Mahler para perceber o que é a ressurreição. «A quelque chose Mahler est bon.» A quelque chose aimer est bon.

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Jantar amanhã para me apresentar à boa sociedade caminhense. Não estarei: vou a Marselha ver dois barcos para um cliente. A minha vida é uma antologia de ausências.

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No fim da linha dessa viagem está um transporte Marselha Santander. De um porto que conheço bem a outro aonde nunca estive. A minha vida é uma antologia de descobertas. De ressurreições, por assim dizer.

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Resta esperar que a moussaka fique boa e valha a ausência. 

18.11.24

Diário de Bordos - Aeroporto de Genebra, Suíça, 18-11-2024

Passado o filtro ainda me resta uma hora e quarenta e cinco minutos de espera.

Qe saudades tenho das intermináveis filas do aeroporto de Lisboa.

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Na mesa ao lado senta-se um casal de portugueses. Ele de camisa cor-de-rosa, que achou por bem complementar com um cachecol preto; ela com uma coisa inidentificável por um ignaro da moda, estampada com desenhos que fazem lembrar pegadas de leopardo, talvez por causa da cor. Ambos aterradoramente feios e gordos (ela muito mais do que ele).

Duas vítimas da injustiça fundamental da vida, penso, tentando não me lembrar de que não sou propriamente um sósia de Apolo. 

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Tempo de sono esta noite: exactamente zero horas e zero minutos e tenho um lugar na coxia. Desta vez os malabarismos para ser o último a embarcar destinam-se a arranjar um lugar à janela, ver se consigo dormir. "Raio do homem nunca está contente", oiço alguém reclamar. "Quando tem lugar à janela quer a coxia, e agora que tem quer o contrário".

"Quando as circunstâncias mudam eu mudo de opinião. V. não faz o mesmo?", dizia um economista famoso. 

Neologismo, falta de educação

A ideia final, também conhecida por objectivo, era orgasmar-te, claro. Mas para isso há que ir passo a passo. De chofre não se consegue nada. Muitos caminhos levam a essa grande finale. Os meus começam invariavelmente nas palavras. Aliás, na verdade são elas que apontam, que escolhem o alvo, que me dizem quem se esconde por trás do pronome lá de cima. As palavras decidem e eu vou atrás delas, não à frente. Por vezes são simpáticas e sinalizam-me o caminho: um jantar, um passeio, uma ida ao cinema, uma sessão de leitura, um copo de vinho (para mim. Para ti pode ser outra coisa qualquer). Outras vezes não me dizem nada. Deixam-me ali no sopé da montanha, tal alpinista a escolher a melhor via para chegar ao cume. Já me aconteceu várias vezes ficar a meio do caminho, já me aconteceu chegar ao fim e ficar desapontado, quase sempre por causa de um desequilíbrio qualquer. Já me aconteceu de tudo, menos desistir antes de começar. 

Seria uma enorme falta de educação para com as palavras, não achas?

17.11.24

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 17-11-2024

Passeio tardo-melancólico por Genebra. A primeira coisa que noto ao sair de casa é que está menos frio. (Chegado confirmo. Estão onze graus.) A segunda é que há mais trânsito do que era habitual aos domingos. Penso muitas vezes num comentário de um americano sobre Lausanne que eu transpunha para Genebra: "Lausanne é uma cidade ligeiramente maior do que o cemitério de Chicago mas com menos vida" (transcrição de memória). Genebra já não é assim. Lausanne não sei, não vou lá há uma data de anos. Deambulo devagar, entro num café porque tenho de pôr um pouco de ordem nos dias (ou seja, na cabeça - dois cafés: dez euros e cinquenta cêntimos. A ordem nos dias só não se estilhaça porque já estou aclimatado aos preços, como às temperaturas), continuo a andar, no caminho de regresso vejo uma tascazinha a vender falafel a um preço convidativo. Entro, os falafel são óptimos,  as cervejas é que são caras mas estou-me nas tintas, a melancolia que leve a melhor, a melancolia e o tanque de tintas aonde estou, bem sei que em casa tenho cerveja e vinho mas esses ficam para depois (isto é, agora). Penso em tudo o que tenho de fazer - escrita, fotografia - pergunto-me se tenho de é o verbo adequado e a resposta vem bífida: metade de mim diz sim, a outra diz não, que não é ter de, é querer ou quando muito quando muito dever. A fronteira entre o abulismo e a preguiça é transparente de tão fina mas a agulha acaba por cair naquele, sempre é mais nobre.

Amanhã saio de casa de madrugada. Estive aqui uma semana e um dia e vi os netos duas vezes. É como quando nos jogos de basket pedíamos um minuto de pausa, indicador direito vertical contra a palma da mão esquerda na horizontal, um minuto de pausa, senhor árbitro. Neste caso foram dois.

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Pouco a pouco o "meu" P. vai deixando de ser meu. Só me apetece vergastar-me e dizer-me "É bem feita! É bem feita!" Não o faço. Mais vale perder do que não tentar. Não tenho de me envergonhar do que fiz, erros e asneiras incluídos.

E muito nenos do que não fiz.

Passado, futuro

Estamos no Outono, faz frio, fecho-me nos cobertores e penso nos versos de Baudoin sobre a Primavera:

"Mais l'air du printemps est une chose souple et tendre;

Les pores s'ouvrent, l'air entre en nous 

et nous, nous répandons délicieusement en lui."

(A citação é de memória, a versificação também.)

Começou com a noite: os poros abrem-se à noite e ela entra em mim; mas não, não era isso. Continuei a procurar o que poderá ser, já que o ar da Primavera não é de certeza. Tentei o tempo. Qual tempo - o que foi? O que será? Há sem dúvida qualquer coisa que entra em mim e na qual eu me espalho,  em paz, uma paz tão perto da felicidade que quase se confundem. Quase.

É o presente, a parte do tempo que se esquiva, fugidia, escorregadia. Quando se aperta um balão que está mal cheio uma parte do ar vai para um lado, a outra para o outro e o que nos fica na mão é um bocadinho de borracha sem nada, um anel que nem anel é - o presente. Passado e futuro estão de cada lado desse vazio, o ar escapa-se de um para o outro e não se demora no meio.

Espalho-me deliciosamente no ar do presente: sou a parte do balão que separa o que foi do que será. 

16.11.24

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 15-11-2024

Genebra é uma cidade oblíqua. "É uma cidade pequena que tem as vantagens de uma grande e não tem as desvantagens de uma pequena", dizia o meu amigo J.-L. de P. É verdade. A oferta cultural é gigantesca mas posso fazer quase tudo sem usar os transportes públicos.  Ou seja: a pé, que ainda não tenho cá uma bicicleta. Os quais transportes públicos funcionam de tal maneira bem que me fazem acreditar na possibilidade de utopias: autocarros pontuais e frequentes, mudanças de linhas sincronizadas, veículos em bom estado - o que aliado à ausência de buracos nas ruas proporciona viagens confortáveis. A título de curiosidade: um dos pontos a votos no dia vinte e quatro é tirar ao governo do cantão a fixação de tarifas e dar aos TPG (Transports Publics Genevois) mais autonomia nessa área. A esquerda opõe-se, será preciso dizê-lo? Diz que os preços vão subir. A direita e os TPG contrapõem que sim, provavelmente, mas que serão criadas muito mais ofertas de preços reduzidos. A discussão é patética. Em PPP os bilhetes custam muito menos do que em Lisboa. E se na equação incluirmos a qualidade aquilo fica a milhas do serviço da Carris, do Metro e do resto. A perder de vista. De fazer-nos pensar que estamos noutro planeta.

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Ainda não estudei todos os "objectos" de voto (aspas porque cito) mas passo quotidianamente pelas fileiras de cartazes pró e contra os diversos temas e a minha convicção de que isto é o melhor sistema político do mundo sai reforçada a cada passo. 

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Isto dito: as utopias positivas existem, mas eu estou impaciente de voltar para a minha distopia nacional. E ainda há quem pense que o homem é um animal racional. (Homem devia levar caixa alta.)

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Esplêndido jantar: goulasch e costeleta de vaca com molho de pimenta maison. Desta vez não juntei natas ao goulash e ficou muito melhor. A excelência das carnes ajudou, claro. É carne que a S. traz da montanha, de pequenos produtores locais e é indescritível de boa. Melhor sô a que comia na saudosa hamburgueria do H. F. e do A. G.,  à rua de Sta. Catarina, no Porto. A maravilhónica "gestão" da "pandemia" deu cabo dela. Quem pegasse num bocado de carne de merda (ou só de merda) e a esfregasse nas fuças de certo políticos (e não só, mas isso é tema mais vasto) iria direitinho para o céu dos "activistas".

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Durante o jantar vi as minhas fotografias (os postais da caixa De Passagem) dissecadas, analisadas e elogiadas por um espírito crítico e conhecedor. Um bocadinho de graxa no ego também é ingrediente essencial de uma boa refeição entre amigos.

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Hoje é dia de caldo verde com a família, para fechar a maratona gastronómica.

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A minha relação com Genebra mantém-se como sempre foi: gosto tanto de cá chegar como de me ir embora.

14.11.24

Paciência, outros

Todos nós temos na sacola várias ferramentas para lidar com os outros. Quando precisamos de tirar a paciência é chato.

13.11.24

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 13-11-2024

Na Holanda vejo três coisas: as bicicletas, os barcos e a água. Passa toda a gente a pedalar, uns depressa outros não; velhos, jovens, meia-idade, quadros, estudantes, operários, velhinhas que um gajo se pergunta se conseguirão andar a pé quando desmontarem, bicicletas de carga com crianças, cães, hoje vi uma com outra burra no porta-bagagens. Uma meta-burra, por assim dizer. Fico com vontade de alugar uma e fundir-me naquela massa fluida, regular, ordenada pela mão invisível do bom-senso e da experiência. E os barcos. Amarrações a cada esquina, barcos de todo o tamanho e feitio, como as bicicletas, só que em vez de estarem nas ruas estão entre elas. E a água. Água em todo o lado.

É uma mistura que acompanha perfeitamente uma genebra, mesmo jonge. Velha não bebi nem uma.

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Genebra (a cidade, não a bebida):

Chego a casa e não faço nada do que devia fazer. Amanhã também é dia. Roma e Pavia, etc. Além de que a noite cheio de frio me espetou uma constipação de caixão à cova. A S. acendeu a lareira e venho para a sala enquanto elas conversam - a B. veio cá jantar, não sei se vem todas as quartas se uma por mês. É a melhor amiga da S., uma logopedista simpática. Trouxe "pimentos de Padrón" (eram de França), uma garrafa de espumante e salsichas com bacon. E kale, uma verdura igual às outras em pior. Ela e a S. conhecem-se e são amigas desde a universidade. Fazem regularmente férias juntas. O espumante vem da semana que acabam de passar em Tours. Eu fritei os pimentos, as salsichas e ajudei a acabar um vintage que a S. trouxe de uma dessas semanas no Douro, este Verão. Depois retirei-me, em busca de outros calores. Gosto desta liberdade. Elas não só não se importam mas ainda me agradecem e eu tenho os odores da lareira e dos amores nascentes, dois aquecimentos que vão bem um com o outro.

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Amanhã é dia de fondue de queijo, especialidade minha que se apoia em dois simples pilares: o queijo de chez Oberson e a ausência de maizena (ou fécula de batata, o ingrediente tradicional). Vem a G., que jura a pés juntos que esta é a melhor fondue do mundo. Tendo a concordar com ela, atropelando um pouco a minha inabalável e inquestionável humildade.

Verdade seja dita, o mérito é escasso.  Mas isso fica para depois. Deixemos a humildade atropelada na rua, coitada.

12.11.24

Diário de Bordos - Amsterdão, Holanda, 12-11-2024

Exceptuando a espera no aeroporto de Genebra e o sobressalto à chegada a Amsterdão a viagem foi fluida, sem interrupções nem surpresas. Cinco minutos a pé - autocarro -  avião - comboio - metro - dez minutos a pé e estou no hotel, que é porreiro. Isto de deixar os proprietários fazer as reservas é sempre agradável. Pelo menos quando não são chungas, claro.

Aterrei aterrado: mal tive rede chega um e-mail da companhia de seguros: precisam de mais papéis, "clarificações" e do raio que os parta. A raiva só se me acalmou no hotel. "Tu já sabias que ia ser assim, Luisinho, não sabias?"

Sabia, claro. As companhias de seguros não servem para nos pagar aquilo que nós pensamos que nos devem pagar em troca do dinheiro que lhes damos mensalmente. Acreditar nisso é ingenuidade ou estupidez. Servem para tentar não nos pagar a ponta de um chavelho. Fazê-las falhar nesse intento é obrigação nossa, não delas.

De maneira lá passei o jantar a trocar mensagens com o banco.

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Jantar esse que não foi mau. Escolhi o restaurante porque é na Herengracht, o nome do hotel aonde fiquei a primeira vez que fui a Cape Town depois da viagem no Príncipe Perfeito (ou seja: a primeira vez que lá fui com olhos de ver), hotel esse palco da minha primeira bebedeira com Alexanders, de que ainda hoje guardo gratas recordações. Além disso, o restaurante é também um local de provas ou parte de uma fábrica de genebra ou qualquer coisa no género e na minha cabeça os neurónios genebra e Pai estão ligados e é impossível separá-los. Ou seja: triângulo isósceles Pai - Genebra - Cidade do Cabo. Impossível evitá-lo.

O restaurante chama-se A. v. Wees. É metade um buraco para turistas e metade um lugar porreiro, tem uma extensa e excelente colecção de genebras e fica muito perto do Café Zwaart, aonde bebi a bica e a genebra finais, acompanhadas por uma terrível sensação de déjà vu.

Que não é totalmente falsa: já por cá andei várias vezes. Mas é aborrecida. A última vez que aqui estive fiquei de tal forma desiludido que nem um sítio bonito e tradicional me entusiasma?

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O centro de Amsterdão já tem a iluminação de natal. O calvinismo só se dá mal com o prazer. Com os negócios sempre se deu bem. (Em Amsterdão habituou-se ao hedonismo: é pragmático.)

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Sensação esquisita no metro: pela primeira vez ofereceram-me o lugar. Comecei por recusar mas depois lembrei-me do furioso que fico quando uma senhora a quem ofereço um lugar sentado recusa e aceitei. Era uma jovem, provavelmente magrebina, bonita e o gesto tornou-a ainda mais bonita a meus olhos. Ia com o namorado e levantaram-se os dois. Vinte anos, talvez. 

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O barco que vou ver amanhã é um Sharky. Nunca fui grande fã dos Amel, mas com a idade comecei a reconhecer-lhes qualidades. Há coisas que só a vida ensina a apreciar. A Suíça também é assim.

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Há pouco lembrei-me de uma conversa em St. Martin com o amigo do J. Disse ao cliente deste trabalho que ia apanhar o metro e ele respondeu-me:
- Vai de táxi, não percas tempo em metros (a inspecção é amanhã. Hoje não tenho nada que fazer. Vim de metro). 
O amigo do J.:
- Fartei-me de trabalhar para proprietários tesos, daqueles que discutem duas cervejas. Agora só trabalho para malta com dinheiro. 

Outra coisa que vem com a idade: a sageza. Ou o amor-próprio, ainda não sei distingui-los bem.

11.11.24

Diz-me, sonho

Diz-me era a única palavra que lhe chegava aos ouvidos, ritmada como o balde de uma nora. Diz-me. Diz-me. Mas ele não percebia se ela queria que lhe dissesse qualquer coisa ou se queria que ele a definisse. Diz-me o que sou, diz-me como sou, diz-me.

Olhava para o longo corpo dela na cama, destapado e nu, seios caídos cada um para seu lado, cabelos pretos espalhados pela almofada e ouvia-a:

- Diz-me.

Mas não conseguia mais do que imaginá-la.  Dizer-lhe ou dizê-la eram - também - um sonho. 

10.11.24

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 10-11-2024

À chegada a Genebra a temperatura é de sete graus. Felizmente S. chega exactamente quando passo a porta para a rua. Não tenho de esperar: saio do aeroporto e entro no carro. O frio não tem sequer tempo de me ver; muito menos de me fazer senti-lo. Durante a semana que aí tão pouco me fará sofrer. Tenho um aquecedor que resiste a qualquer baixa de temperatura. É da marca Família & Amizade.

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Os netos esticam-nos o tempo, como quando um banco adia por alguns anos o prazo de pagamento de um crédito.

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Há pouco saiu-me um pequeno trabalho na rifa: ir a Amsterdão ver um barco para um cliente. É só um dia de trabalho mas implica passar lá uma noite. Vou terça e volto quarta. Um dia transformar-se-á em transporte, dias de navegação e mais massa. Venham muitos.

8.11.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 08-11-2024

Bebo rum Flor de Caña, oiço música variada e boa (combinação difícil), sofro do ombro esquerdo e calo-me. (A dor no ombro vem do trabalho dos últimos dias, suponho. O esforço físico devia estar sujeito a uma apreciação prévia do bom-senso.)

Ou seja: retorno ao sistema de saúde desta ilha. Eu não quero viver aqui. Quero ser doente aqui.

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Das vontades contraditórias.

Planeei fazer um goulasch e para isso vou às compras. Faço-as e em vez de voltar para bordo acabo no bar Rita a falar com o Joan sobre o Jaume.

O Jaume estava para o Rita como o Gonçalo Marques estava para o café Tati no Cais do Sodré. Este na música, aquele nas exposições. 

Joan diz-me:

- Com a morte do Jaume tudo mudou. O bar e eu. Tudo.

Percebo-o. A minha relação com o Jaume seria talvez um milésimo da do Joan. Falávamos de política  - o desacordo era total - da língua catalã - quase total. Ele concordava que a politização do tema é um erro - de arte. Jaume tinha uma daquelas personalidades das quais é impossível não gostar a seguir às três primeiras trocas. Uma vez tive uma grande conversa com ele, sobre estes temas e outros. Foi ao jantar.

No dia seguinte o Joan telefonou-me a dizer que o Jaume tinha morrido.

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Não posso escrever sobre Palma sem escrever sobre o bar Rita, que ainda por cima tem o nome de um dos meus amores perenes, infinitos. Coincidência? Claro que sim. Bonita? Adivinhem.

Querem outra coincidência?

O apelido do Jaume era Salvadego. O meu Pai foi capitão de um rebocador salvadego.

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O goulasch coze devagarinho (mijote, dizem os franceses). Tudo indica que vai ficar bom. Vou esperar mais meia hora, apesar de estar cheio de fome e de sono. Hoje resolvi ou resolveram-se dois ou três assuntos que arrastava comigo há algum tempo. Os rios precisam de uma foz e enquanto não a encontram correm tristes. 

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O goulasch não é muito muito ortodoxo. Coitado.

PS - apesar ou por causa disso estava óptimo. A cozinha lenta é imbatível. Invencível, quero dizer.

De rios

Um rio sem foz é infeliz; sem margens é um rio sem personalidade.

3.11.24

Isto não é vulcanologia

Os vulcões que explodem de repente são os que vão mais longe;  os que explodem devagar deixam traços muito mais tempo.

Vamos explodir de repente devagarinho?

Acasos e rimas

Será por acaso que papel e pele rimam? 

Aparências?

Alguém me pode explicar a diferença entre uma aparência e uma transparência, por favor?

2.11.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-10-2024

O ano de dois mil e vinte e três, um dos piores da minha vida - que, de passagem seja dito, conta muitos muito maus - prolongou-se por dois mil e vinte e quatro, com algumas hesitações. No dia vinte e um ou dois de Outubro culminou - ou, se preferirem uma linguagem mais astronómica, atingiu o nadir - e suicidou-se. A partir de agora nada poderá ser pior, salvo duas ou três excepções que não quero sequer mencionar.

Pouco a pouco, penosamente, faço o luto daquela mochila e do que ela continha. Todos os dias sou confrontado com a sua falta e todos os dias encontro uma alternativa. Pouco a pouco vão aparecendo ideias, planos para o futuro, promessas - tal e qual como a decisão de publicar o Avenida nasceu de uma experiência horrorosa. É curioso: este tipo de situações devia dar origem a monstros e não dá. É mais parecido com uma mudança de agulhas numa linha de comboio. Dessas decisões, uma é importante: banir a palavra projectos do meu léxico. Náo há projectos. Há planos e ideias e seja eu cego, surdo e mudo se alguns desses planos e ideias não se concretizarem. Talvez uma melhor analogia seja a do tremor de terra: a baixa lisboeta é o que é hoje graças a um deles. Veremos, daqui a um ano.

Entretanto vou redescobrindo uma Palma de que já tinha perdido o hábito: procurar sítios aonde possa escrever sem ter o meu próprio acesso à rede. Exercício curioso, interessante. A net faz a uma cidade o mesmo que a bicicleta. Isto é, tal como a cidade muda consoante se está de carro ou de bicicleta.

Acabei no Capuccino da Sant Miquel, o café mais bonito de Palma. Tem tudo menos um wifi que funcione, pelo menos na mesa aonde eu estava, perto da porta para ver a burra. Acontece porém que tudo isto começa a ter datas. Dia dez terei de novo um cartão suíço. Dia vinte e tal terei um computador. Ou seja: o futuro próximo está balizado. É como entrar num porto que não se conhece com mau tempo: ir olhando para as bóias e ter calma, refrear a impaciência. 

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O epicentro da minha Palma é o Mercat del'Olivat e será esse também o do livro sobre Palma que decidi escrever. É fácil: basta ir ao blogue e a primeira metade já está feita. E às fotografias, antes que elas desapareçam da «cloud».

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Como um Rimbaud ao contrário.

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Alguém um dia perceberá a relação quási incestuosa que há entre o mar e o tempo.

E que eu sou um produto dessa relação.

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A quantidade de dinheiro que gastei hoje poderia ser qualificada de insensata, se não tivesse sido gasta em livros e comida (no sentido lato, muito lato).

O rum e a literatura competem afanosamente pelo meu dinheiro. É uma competição sem descanso. Os livros levam sistematicamente a melhor, o que de certa forma é compreensível: o rum é uma necessidade, os livros são um luxo. É portanto compreensível que gaste mais nestes do que naquele (apesar de conter um vasto leque de ingredientes, como vinho tinto, vermute, hierbas, palo, cerveja. Até ingredientes sólidos inclui!, como a maravilhosa sandes de morcela que hoje foi o meu jantar na bodega Bellver, bendito sejas, Cliff). Já de livros a variedade não é tão grande: três de poesia e um do Baricco sobre música cujo título é um sonho: El alma de Hegel y las vacas de Wisconsin.

Poesia: Sobre los placeres de la vida, Anonimo (Anacreonte); Libro del frío, Antonio Gamoneda; Rubayyat, Omar Khayyam (Jayyam, na versão espanhola). O programa também é vasto, poder-se-á dizer. 

Resta-me esperar que esta competição continue por muitos anos.

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XXIV

Otro erótico

Otorgó cuernos a los toros
Natura y pezuñas a los caballos,
raudas patas a las liebres,
a los leones dentadas fauces,
a los peces el nadar,

a las aves el volar,
a los hombres el pensamiento.
Para las mujeres nada tuvo.
¿Qué les otorga? La beldade
por todo escudo
y por toda lanza.
Pues vence tanto a hierro
tanto a llamas con ser bella.


VIII

Al vivir sin envidias

No me importa la riqueza de Giges,
de Sardes soberano,
ni aún la envidia me invade
ni ambiciono ser rey.
Proprio es de mi con perfumes
mi barba embardunar,
proprio es de mi con rosas
mi cabeza coronar.
Me importa el hoy.
¿Quién conoce el mañana?
Mientras aún haya tranquilidad,
bebe, lanza los dados
y alza ofrendas a Dioniso.
No sea que te alcance la enfermedad
y digan «te prohíbo beber».


Anacreonte, in  Sobre los placeres de la vida, Anonimo, ed. Los secretos de Diotima,

Espiral, tempo e outros lugares-comuns

Somos o que fomos e fomos o que seremos. O círculo só não é um círculo porque é uma espiral: também há o tempo.

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O tempo privilegia o exterior. No interior toca menos. Somos duas esferas concêntricas com ritmos cronológicos diferentes. 

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O tempo: um dia, Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin et al. estarão ao lado de Bach,  Vivaldi, Beethoven, Mozart, Gesualdo e outros nas estante "Música clássica".

1.11.24

Fragmento

Escorrego lentamente para dentro da noite. Não vou sozinho: tu acompanhas-me, guias-me, dás-me a direcção do porto aonde me acolherás. Aconchego-me nessa memória que o tempo - e a noite - se encarregam de construir. É uma memória feita de pequenos passos, de palavras, de sorrisos. 

De distância, como começam todas as minhas memórias, todos os meus futuros.

31.10.24

Fragmento

Se eu espremesse o dia, que dele sairia?

O teu sorriso.

28.10.24

Abismos e amores nascentes

A tentação é comparar um amor nascente ao nascer do Sol mas seria uma péssima analogia. Em primeiro lugar, porque ao Sol sabemos exactamente o que vai acontecer.  Posso prever com exactidão aonde estará às treze horas, vinte minutos e dezassete segundos,  de hoje ou de daqui a cem anos. Segundo, porque se a maioria - ou pelo menos uma grande parte - dos pores-do-sol são bonitos, isso raramente acontece com os pores-dos-amores.

Mais vale apreciar o amor nascente por aquilo que ele é: o lento e inseguro levantar de uma cortina sobre dois abismos separados dos quais nascerá uma montanha, se se juntarem. 

27.10.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 27-10-2024

O quiosque Alaska é uma instituição em Palma. Já esteve para ser deitado abaixo várias vezes, seja por ser um ponto de encontro da rataria urbana de Palma, seja por «remodelações urbanísticas». Rataria poderia entender-se na sua forma literal, de fauna ou de uma maneira mais metafórica, por assim dizer. Seria injusto. O kiosko Alaska recebia a boémia, os marginais, a burguesia do centro da cidade. Agora aburguesou-se e turistificou-se mas continua basicamente o mesmo: hambúrgueres medianos (suficiente), cachorros quentes ligeiramente melhores (suficiente mais), batatas fritas (não sei, nunca provei), cerveja - uma das melhores imperiais da cidade - e o sítio ideal para ver Palma passar por nós.

Não sou frequentador muito assíduo - ao lado está a bodega Bellver para o aperitivo do fim do dia e a meio dele estou mais para os lados do Olivar - mas de vez em quando lá me lembro. Ou as circunstâncias encarregam-se de mo trazer à memória, como agora.

«As circunstâncias» sendo a falta de um ficheiro, um, que tinha no computador e para a salvaguarda do qual acreditava na Dropbox - ainda não perdi a esperança, mas a verdade é que não está a ser o processo trigo limpo farinha Amparo que esperava - e a da máquina fotográfica, que andava sempre comigo, sobretudo em dias de luz prometedora como são estes.

Em troca, uma arma contra as circunstâncias, comprei chocolates - Lindor, o melhor chocolate de leite do mundo, na minha humilde mas irrefutável opinião - e Milka Original, uma das formas de uma canção muito conhecida chamada Ó tempo volta para trás. Acompanho-os com rum Santa Teresa e um disco de Stan Getz e Bill Evans chamado - apropriadamente - But Beautiful. O título é um fragmento de uma longa frase que inclui it can't be but beautiful. E fui ao Alaska. Não há circunstâncias que resistam a tão massiva investida.

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O outono ainda agora começou. Traz com ele aqueles cheirinhos de Inverno e não nos deixa esquecer o Verão. Hoje pus uma camisola de gola alta (camisola não é o termo correcto. Não sei como se chama aquilo. SweaterJersey - isto é aqui em Espanha, não sei se em português é a mesma coisa). É bom para andar na rua, mas mal se entra num edifício é preciso tirá-lo. E também fui buscar a tornozeleira (???) porque ando de calças e não quero sujar o tornozelo direito com a corrente da burra.

Do Outono só detesto a chuva, mas como isso não tem muita solução evito dar-lhe pela presença. De qualquer forma, enquanto não tiver os seguros a andar e o problema do ficheiro resolvido não preciso de sair de bordo. Não preciso? 

Não posso.

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Se questo è un giorno poderia dizer, se falasse italiano e tivesse vontade de parafrasear o título de um livro que ainda não li. Nem um nem outro, mas digo na mesma: é isto um dia? Sim, é.

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Palma mudou bastante, claro, desde que aqui vim pela primeira vez, em dois mil e onze ou doze. [Fui ao DV procurar a data exacta. A quantidade de posts que falam de Palma daria para escrever um livro. Dois mil e doze.] Não importa. 

Palma mudou bastante, claro, desde que aqui cheguei pela primeira vez em dois mil e doze. Penso nisso muitas vezes, em todos os lugares que eu adorava e acabaram ou mudaram: o Ca na Chinchilla, o Divino, o Abracadabra e depois vem a pergunta fatal: se tivesses chegado hoje, ainda amarias Palma como amas? Sim.

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PS - Acabo neste preciso instante de decidir que sim, vou passar o Inverno em Palma. Assim de repente parece-me uma das decisões mais bonitas da minha vida. Aposto o braço direito em como as circunstâncias me darão razão. Sem precisar de comprar chocolates.

26.10.24

Diário de Bordos - Palma, etc. - parte 2

Então foi assim: a conferência foi suspensa. José Luis estava no pátio para acolher e informar as pessoas. Explica-me que a senhora está doente, blablabla e termina dizendo-me para desfrutar a cidade. É o que faço: vou à Zara Home comprar um moinho para a pimenta fumada que tenho a bordo e não quero que se estrague. Não têm (ou seja: é demasiado caro). Compro um frasco para servir o piripiri à mesa e vou à Culinarium. Têm o moinho. Daí a necessidade que desde o almoço tenho de um Fernet-Branca manifesta-se mais intensa. Pedalo pela cidade. No Kamaleonico sobrava um fundo de garrafa. Pedalo pela cidade amada. No Weyler têm Fernet. Os dois barmen são eficazes, profissionais. Um bar é a casa de um homem que não tem casa. Foi a primeira vez que entrei no Kamaleonico. Ao Weyler venho raramente, sobretudo à tarde, para escrever. Qualquer dos dois ganhou um cliente. Na bicicleta trago a roupa da lavandaria, as compras do Mercadona, as compras da Zara e da Culinarium. Fica tudo à vista enquanto bebo. Ninguém rouba nada, aqui. Excepto bicicletas. Um gajo não as fecha e num milésimo de segundo desaparecem. Até fechadas, em alguns sítios. Mas a sacos ninguém liga nenhuma. A reacção da Petra deu-me coragem para ir ao Joan confirmar a proposta de exposição. Disse-me "Quando quiseres, Luís", mas estava emocionado e não gosto de me aproveitar desses momentos. E já foi há muito tempo, meia dúzia de meses. A verdade é que custa-me expor no bar Rita sem o aval do Jaume Salvadego. Parvoíce, claro. E tão pouco tenho dinheiro para ampliar as fotografias. Nem para as emoldurar. O Weyler é mais barato do que o Kamaleonico. Palma é uma cidade-bruxa. Enfeitiça. Em cada esquina uma casa. Consegui finalmente digerir o almoço. Foram precisos três Fernet. Tenho de agradecer à A. Foi graças a ela que fui à Típika. Não sei vender-me. Se soubesse e soubesse poupar o dinheiro da venda seria um homem como os outros. A música do Weyler é enjoativa, lounge jazz mas vai bem com o meu estado de espírito. Este tem um nome. Chama-se O princípio de um amor. Ou: A mistura de amor, distância e tem juízo, Luís. A música é assim. Parece que estou num elevador. Piano e sax. Mais meloso é difícil. Sentei-me no bar do Weyler e vejo o barman trabalhar. É um trabalho nobre. Não sei para onde ir agora. Deixo a decisão à BH Glasgow Vintage. Essa nunca se perde. 

Diário de Bordos. Ou: Porque é qe todos gostam de Palma

Alguns leitores recordar-se-ão: fui à Típika vender caixas de postais De Passagem, a senhora - Petra, para futuras referências - ficou com duas e deu-me cinquenta euros. Isto seguiu-se a uma breve conversa sobre o preço, cujos pormenores passo por agora.

Fiquei contente, claro e fui-me embora. Mais tarde, já a bordo, penso - ela pagou-me uma ou duas caixas? O início da conversa tinha exactamente incidido no preço. Eu dissera-lhe que queria vendê-las (a caixa inteira) por cinquenta e lhe dava vinte, ela contra argumentou com metade metade, acedi e enquanto a conversa se desenrolava ela ia vendo as fotografias. ¡Qué ricoQué bello! e por aí fora. "Ainda vou mas é ficar eu com uma." (A tradução é minha.) A Petra explica-me que é melhor vender as fotografias separadamente, o que só muito medianamente me aborrece. Passo alguns pormenores. Ela pega nos cinquenta paus, dá-mos e eu saio dali com as pernas cheias de emoção. 

Contudo, a bordo lembrei-me de me perguntar: ela pagou-me uma caixa ou as duas? É que isoladamente ela vai vender cada postal a três ou quatro euros e as caixas têm quarenta e oito.

Hoje voltei lá. A loja estava cheia - é francamente boa - mas mal me viu tira cinquenta paus da caixa, vem ter comigo com um sorrisão e diz-me "Desculpa, ontem esqueci-me de te pagar a segunda caixa." Não quero saber a quanto é que ela vai vender aquilo. Quero apenas que ela me dê um valor que me parece justo. Não me importo que as fotografias sejam vendidas separadamente. O conceito que lhes está subjacente - De Passagem - está bem expresso em cada uma delas. São postais. Só quero é vender mais.

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Sou contra a pena de morte excepto em casos mais do que justificados. Sou igualmente contra a pena de morte a pessoas que roubam mochilas na via pública, sobretudo se essas mochilas contêm um computador, uma máquina fotográfica, um telefone portátil, um passaporte e são da marca Lockdo. A este último caso, a pena de morte deve obrigatoriamente ser precedida de tortura. Por exemplo: pôr o indivíduo num tanque até à cintura, com piranhas. Só depois de estes amáveis peixes se terem alimentado deveria o ladrão ser levado à guilhotina.

Hoje de manhã passou uma frente violentíssima em Palma.  Agora voltou o sol e esta luz pós-frontal, clara e densa, capaz de dar volume a uma folha de papel branco em cima de uma mesa de fórmica branca impele-me a fotografar a cada segundo.

Maldito sejas, filho de um comboio de putas sifilíticas.

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Cheguei cedo ao museu aonde será a conferência de Nazareth Castellanos e vi uma exposição cujo título me seduziu imediatamente: Todas as utopias passam pela barriga. Comprei o bilhete e lembrei-me de que tinha de ir ao Olivar. Perguntei à rapariga se podia voltar mais tarde. "Que sim, claro." Volto e a dita exposição estava fechada, por causa do temporal da manhã. Face à minha desilusão, pergunta-me se quero que me reembolse o bilhete. "Que sim, claro" e venho para a vermuteria San Jaime beber vermute Carvajales, um maiorquino que descobri recentemente, por coincidência aqui mesmo.

A nebulosidade voltou, a luz mágica foi-se, o Sol é substituído por vermute e deixo de sonhar com piranhas. Daqui a pouco vou ouvir a mais bela neurologista do universo e arredores, pergunto-me se é neurologista ou neuróloga e na dúvida peço um rum, porque é preciso cortar o doce.

25.10.24

A lã e o frio e tu

Estou cheio de frio e cubro-me com um monte de cobertores.

Não consigo deixar de pensar nas pobres ovelhas que perderam a lã só porque tu não estás aqui ao meu lado.

Amor, fantasma

Deixa o meu dedo escorregar-te na pele, o meu olhar nos teus cabelos, os meus ouvidos nos teus lábios. Aquilo que de nós se vê e se toca é uma ponte para o resto mas na verdade é esse resto que nos une e unirá. O amor não é o lençol que cobre o fantasma, é o que lhe está por baixo.

Das alegrias infantis. Ou: as pessoas sérias e adultas não devem manifestar as alegrias. Ou: não comprem os postais agora não

Gostaria de contar isto como exactamente se passou. Seria porém necessário que os meus neurónios (os dois ou três que restam) acalmassem, coisa que só acontecerá se eu escrever tudo como efectivamente se passou. Posso aceitar um compromisso ne resumir o que se passou ao cerne do que se passou?

Foi assim (resumindo): fui à Típika com três caixas dos meus postais «De Passagem». A senhora (sei agora que se chama Petra) olhou para eles, exclamou várias vezes ­­­Que rico, que bello, etc. Houve uma breve negociação de preços. Não sou muito bom a negociar. Saí de lá com cinquenta paus no bolso, mais uma caixa deixada à consignação. Dali fui ao Octavio (é só atravessar a rua) beber uma hierbas secas - ofereceu-mas - e a aventura (se é que se pode chamar assim) acabou no El Corte Inglés com uma garrafa de rum Santa Teresa. Como não gostar de Palma? 

Seria preciso explicar que a Típika vende postais muito bons, para além de objectos de artesanato idem? Sim, seria, mas agora acalmo os neurónios (e respectivas sinapses) com rum Santa Teresa e portanto não estou muito disponível para explicações desnecessárias. Basta virem conhecer a loja. Nada substitui a experiência directa.

Arte de viver para uso das novas gerações

O segredo para uma vida em comum longeva é simples: não levar o outro a pensar que sozinho estaria / estava melhor.