20.8.24
Fora da caixa
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 20-08-2024
19.8.24
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-08-2024 / II
Jantei a bordo nas a carcaça anda há semanas a pedir-me que lhe dê um mezcal e hoje fiz-lhe a vontade. Ou melhor: tentei. O 7 Machos estava cheio e o Alex não estava (lá. Cheio não sei). Fui-me embora e andei a bater à porta de vária capelinhas até acabar no Madre, plaza Patins. Novidade absoluta. Nessa praça só conheço o Sa Caravana, que está fechado para férias. O Madre propõe Matusalem 15 anos a menos de cinco euros o chupito e Cacique a menos de quatro. Escolho este. Não ando com paciência para runs a armar ao pingarelho. Nem para mim tenho paciência, quanto mais.
A senhora da mesa à minha frente é seca de carnes, fuma e tem a voz espessa de quem bebe, fuma e vive. Acertei no poiso.
Falam muito, ela mais do que o parceiro, que está de costas e fala baixinho. É como se fosse transparente. Transparência essa que me trespassa o sono, muito a esta hora.
Tento chamar a empregada, mas tenho de me levantar. Para quem acaba de passar três ou quatro meses na Martinica não é nada.
Neles?
Deixa que os dias passem por ti como estas nuvens que agora ocultam o Sol e logo o destapam: sem deixar marcas. É esse o dia ideal: não aprendeste nada e nada esqueceste. Não tocaste e não foste tocado. Da tua passagem pela Terra nada sofreu. Nem tu, sequer: sais intacto como as nuvens que taparam o Sol e logo o destaparam.
Estende-te por essa cidade fora, navega esse mar - é todo o mesmo, é só um. Limita-se a mudar de nome como a luz muda - ama essa mulher que um dia construíste na tua cabeça e se calhar nunca viste nem muito menos tocaste. [Já.]
Escreve, lê, fotografa, bebe, navega, ama: talvez haja outras formas de viver no mundo, mas quem se importa com isso? Calharam-te estas, foi o que a rifa te deu. Isso, um chapéu bonito, uma bicicleta, dois filhos, netos... Os dias passam como nuvens e neles - deles? - ficam estas marcas.
Neles?
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-08-2024
Hoje é segunda-feira e até quarta de manhã já sei que vai ser esta luta entre ter vontade de comer, enjoar só de pensar em comida e não saber aonde fazê-los (enjoar e comer). Desta vez resolvi o problema logo de manhã, ainda antes de sair de bordo: vou à Bodega Morey, que não tarda ganha a categoria «primeiro nome» (Octávio). A ideia era preceder o almoço de uma horita no Mise en Place (ex-Daniela) a escrever, mas estava cheio a abarrotar e vim logo para aqui. Para além de um casal de alemães que almoça como se estivesse no país deles (é meio-dia e um quarto!) estou sozinho, o vermute é bom, o Octávio recebeu-me com a alegria habitual, o prato do dia é canelloni de marisco (acho que vou para as raciones), a Típika está fechada - ou seja, poupo dinheiro em postais e outras bugigangas - o vermute é excelente... Nâo é o vermute, estúpido. É a música.
18.8.24
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 18-08-2024
Penso: «Pouco a pouco, reaproprio-me Palma» e logo a pergunta que assombra todas as relações vem-me ao espírito: «Tu reaproprias-te Palma ou é ela que se reapossa de ti como se tivesses acabado de chegar?» Quem ama, quem é amado, quem manda quando se ama e se é retribuído? Venho ao Born 8. Deve ser a terceira ou quarta vez. Peço um vermute, esse sim é a primeira vez que o provo: Quintinye, um vermute francês que fica algures entre o agradável e o bom, leve e saboroso. Não vale é o preço que custa - nem o Born 8 vale o que pedem pelos preços, mas isso compreende-se O Paseig des Born não é para tesos.
Almoço: mais uma descoberta, mais uma semi-decepção: Trattoria Amayó, «descoberta» no Google Maps.
16.8.24
Corações partidos
A vantagem de um "coração partido" (aspas porque traduzo) é que podemos passear entre os estilhaços, explorá-los todos, um a um e assim ficarmos a conhecê-lo melhor do que se estivesse inteiro.
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-08-2024
Os meus esforços para ir a sítios "novos" (aspas porque não são novos. São só menos frequentados) continuam. Hoje com uma pequena variante: vim à charcutería selecta La Crème, que merece nomes e apodos e em vez de comer a habitual e magnífica sandes de presunto comi um fatia de pâté au poivre (a tradução é minha. Estava em espanhol) e uma de queijo San Simón fumado - tem a forma do Provolone fumado mas não lhe chega aos calcanhares, como de resto a senhora teve a gentileza de me avisar -, bebi uma quantidade razoável, nos dois sentidos do termo, de vinho tinto e fui iluminado por uma ideia.
Se uma senhora quer seduzir ou manter o homem que ama o método mais seguro e tradicional passa pelo estômago - isto é uma simples hipótese de trabalho - não deverá uma cidade fazer o mesmo? Isto é: Fidel, Joan, Xisco, La Crème, Pep e tantos outros não serão simplesmente braços de um desses deuses hindus enviados por Palma para me aprisionar aqui e me acorrentar pelo estômago (ou pelas papilas gustativas, mais exactamente)? Sendo que estas ruas, estas praças, estes prédios também reservaram uns braços.
.........
Estou sentado sozinho na mesa única da la Crème. Ao meu lado está a BH Glasgow Vintage. Revivo o meu espanto quando descobri que aqui a esmagadora maioria das lojas acha perfeitamente natural que se entre com a burra pela mão. Ao princípio era um dos meus critérios de escolha de lojas, mas deixou de o ser: quase todas deixam.
(Cont.)
15.8.24
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-08-2024
Por fim, DANA
Ainda meia dúzia de palavras a respeito do temporal nas Baleares. Espero que sejam as últimas:
Quando eu era miúdo a minha Mãe introduzia na oração da noite uma especificamente dedicada aos marinheiros. Isto mesmo quando o meu Pai já estava em terra - começou quando Ele ainda andava no mar - e reforçado por uma chamada de atenção quando estava mau tempo - fosse localmente fosse lá fora, quando Ela sabia.
Não me lembro dos termos da oração, claro. Já lá vai mais de uma época ou duas. Mas isto marcou-me.
Não que eu morra de amores pelas pessoas que andam em barcos. Ainda o ano passado um cliente acusou-me de desprezar os amadores e a verdade é que não sendo verdade não é totalmente mentira. Não os desprezo, é tudo.
Mas - e aqui reside o cerne da minha fúria - nós, marinheiros, sabemos uma coisa que essas pessoas não sabem: somos o elo mais fraco da cadeia. Não temos o direito de criticar os outros, igualmente frágeis.
Talvez até mais do que nós, marinheiros.
PS: DANA é o acrónimo de Depresión Aislada de Nivel Alto.
Diário de Bordos - Valência, Espanha, 15-08-2024
Pequena nota de viagem: o vermute caseiro da cervejaria Moonlight é esplêndido, o pessoal simpatiquíssimo e a comida excelente. Agradeço ao acaso, à sorte e ao señor Placido da Blablacar, que me deixou nas imediações.
CONT.
Hoje cheguei, passei os filtros, não me esqueci de tirar o computador do saco, não me esqueci de pôr a camisa fora dos calções para os seguranças não verem o cinto - se o virem dizem-me para o tirar, se não o virem não dizem. (Em todo o lado.) E depois é isto, simultaneamente:
a) O voo está três horas - três horas! - atrasado; e
E ainda há quem tenha inveja da minha vida.
13.8.24
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 13-08-2024
Há outros objectivos, mais pequenos mas não são dignos de nota.
12.8.24
Memórias despidas
E agora, que da memória o amor se foi, que fazer destas recordações assim despidas da roupa que as fez nascer, tão despidas como tantas vezes te vi? Que dizer-te, agora que «amo-te» não cabe? «Lembro-te»? Alguma vez te esqueceria, alguma vez te esquecerei? Não, claro.
Mas voltarei a dizer-te amo-te, um dia, quando as memórias tiverem frio e quiserem vestir-se.
11.8.24
O prometido é devido - Antonio Moresco, Los comienzos
(Não traduzo. Em primeiro lugar porque sou um péssimo tradutor; em segundo, porque não me apetece; em terceiro, porque toda a gente percebe espanhol.)
Antonio Moresco, in Los comienzos (incipit), ed. Impedimenta, 2023, Madrid.
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 11-08-2024
L., o day worker sul-africano que me faz alguns trabalhos a bordo tem até quinta-feira para encontrar um barco que o possa «tirar» da UE. Estas estúpidas leis da imigração deviam ser repensadas. Para além do facto simples (e discutível) de que uma pessoa deve poder viver aonde quer e não só aonde pode, a verdade é que a Europa devia pagar a gajos como este para imigrarem. Não expulsá-los.
10.8.24
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 10-08-2024
9.8.24
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 09-08-2024
Da Colômbia só conheço Cartagena de las Índias e o restaurante Sabor Criollo, em Palma. Recomendo ambos. As arepas e a simpatia são iguais nos dois lados e o restaurante tem uma ligeira vantagem: está ao alcance da minha bicicleta. Não é preciso meter-me num avião.
Ou num barco, que vontade não me falta.
.........
Hoje lembrei-me - ou melhor, fui lembrado - de que tenho sorte de ter uma amiga chamada Maria. Digo o nome porque é bonito, tão bonito como ela é. A Maria é médica e vai fazer aquilo que o SNS não pode ou não quer fazer: olhar para os resultados das minha análises, exames e ecografia (é só uma) e traduzir-me-los, que daquilo não percebo nem as vírgulas.
Amizade, amor, ternura, bondade, fraternidade, altruísmo substituem qualquer SNS, incluindo o melhor do mundo. E não me venham com histórias: todos temos uma Maria nas nossas vidas.
Quem não tem devia ter. O SNS não tem, por exemplo. Devia ter. Não uma, mas milhares delas.
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Posso estar enganado. Estou muitas vezes. Mas diabos me mordam se amanhã o "meu" P. não der mais um salto para a frente. Preciso tanto como ele, de passagem se diga.
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De todos os sentimentos, aquele que mais amo é o amor. É o mais completo e versátil e satisfatório de todos. Não precisa sequer de ser retribuído. Basta-lhe existir...
Corto aqui. Execro pieguices. Obrigado Maria.
8.8.24
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 08-08-2024 / II
Venho almoçar ao Pep, metade por preguiça - está ao lado do P. - , metade porque é bom, metade porque tem ar condicionado e metade - a última - porque o gajo está uma simpatia.
São muitas metades, eu sei mas não me importo. A matemática é uma ditadura e há que resistir-lhe, desobedecer-lhe, opor-lhe as palavras. Vem-me à memória aquela frase do Lacan que vi ontem no FB (nunca consegui ler dele mais de dois parágrafos seguidos ou três alternados): «Se um homem que pensa que é um rei é maluco, um rei que pensa que é rei também o é.» Hesitaria em aplicar esta ideia à matemática, mas não deixa de ser tentadora.
Enfim, tudo isto porque estou cansado, estou cansado de estar cansado, cansado de dizer que estou cansado e por aí fora, numa cansativa e infinita espiral que só daqui a pouco parará, quando for dormir a sesta, apesar do calor. É «a terceira vaga», dizem os jornais, para quem a verdade não é de todo uma ditadura e que gostam de a adornar com fórmulas. Julgam que isso os ajuda a vender, apesar de essa mesma realidade os desmentir quotidianamente. Claro que podem sempre dizer que se se limitassem à verdade venderiam ainda menos, mas eu não acredito. Ou então venderiam, mas pelo menos poderiam andar na rua de cabeça levantada, que hoje não podem. Ou não devem.
.........
O «meu» P. deu hoje um grande passo em frente. Como sempre, o que deveria ter levado um mês já vai quase em três. A cada passo parece que estou a levantar ferro e que a corrente está presa numa rocha e é preciso chamar uma armada de mergulhadores mas eles ou não estão ou não respondem ao telefone ou estão doentes ou a estudar ou o raio que os parta. Como se o rochedo do Sísifo resvalasse mas não até ao fundo, a cada descida fica um bocadinho mais alto, mais perto do cimo. Pouco, mas mais alto.
(Cont.?)
Figos, D. H. Lawrence
Figs