20.8.24

Fora da caixa

- É preciso pensar fora da caixa!
- Isso é para meninos. Experimenta viver fora da caixa.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 20-08-2024

A teimosia é muitas vezes vista como um defeito - e com razão. Convém porém não a confundir com a persistência, a qualidade que lhe está associada. A linha que as separa é muito fininha, quase não se vê. Só se distingue claramente a posteriori. O que de resto acontece com todos os defeitos e qualidades associadas. Resumindo: pedi ao David que procurasse de novo a porra do feeder e ele encontrou-o em dois minutos. Prometi-lhe uma cerveja - além da conta, claro - e gritei silenciosamente a plenos pulmões: Hallelujah! Allah uAqbar! Seja Deus louvado! Foi um grito que ressoou em todas as células da carcaça.

Infelizmente logo a seguir apanhei uma marretada valente. É preciso um certo estofo para resistir a esta montanha russa de emoções, não é? É.

19.8.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-08-2024 / II

Jantei a bordo nas a carcaça anda há semanas a pedir-me que lhe dê um mezcal e hoje fiz-lhe a vontade. Ou melhor: tentei. O 7 Machos estava cheio e o Alex não estava (lá. Cheio não sei). Fui-me embora e andei a bater à porta de vária capelinhas até acabar no Madre, plaza Patins. Novidade absoluta. Nessa praça só conheço o Sa Caravana, que está fechado para férias. O Madre propõe Matusalem 15 anos a menos de cinco euros o chupito e Cacique a menos de quatro. Escolho este. Não ando com paciência para runs a armar ao pingarelho. Nem para mim tenho paciência, quanto mais.

A senhora da mesa à minha frente é seca de carnes, fuma e tem a voz espessa de quem bebe, fuma e vive. Acertei no poiso.

Falam muito, ela mais do que o parceiro, que está de costas e fala baixinho. É como se fosse transparente. Transparência essa que me trespassa o sono, muito a esta hora.

Tento chamar a empregada, mas tenho de me levantar. Para quem acaba de passar três ou quatro meses na Martinica não é nada.

Neles?

Deixa que os dias passem por ti como estas nuvens que agora ocultam o Sol e logo o destapam: sem deixar marcas. É esse o dia ideal: não aprendeste nada e nada esqueceste. Não tocaste e não foste tocado. Da tua passagem pela Terra nada sofreu. Nem tu, sequer: sais intacto como as nuvens que taparam o Sol e logo o destaparam.

Estende-te por essa cidade fora, navega esse mar - é todo o mesmo, é só um. Limita-se a mudar de nome como a luz muda - ama essa mulher que um dia construíste na tua cabeça e se calhar nunca viste nem muito menos tocaste. [Já.]

Escreve, lê, fotografa, bebe, navega, ama: talvez haja outras formas de viver no mundo, mas quem se importa com isso? Calharam-te estas, foi o que a rifa te deu. Isso, um chapéu bonito, uma bicicleta, dois filhos, netos... Os dias passam como nuvens e neles - deles? - ficam estas marcas. 

Neles? 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-08-2024

Hoje é segunda-feira e até quarta de manhã já sei que vai ser esta luta entre ter vontade de comer, enjoar só de pensar em comida e não saber aonde fazê-los (enjoar e comer). Desta vez resolvi o problema logo de manhã, ainda antes de sair de bordo: vou à Bodega Morey, que não tarda ganha a categoria «primeiro nome» (Octávio). A ideia era preceder o almoço de uma horita no Mise en Place (ex-Daniela) a escrever, mas estava cheio a abarrotar e vim logo para aqui. Para além de um casal de alemães que almoça como se estivesse no país deles (é meio-dia e um quarto!) estou sozinho, o vermute é bom, o Octávio recebeu-me com a alegria habitual, o prato do dia é canelloni de marisco (acho que vou para as raciones), a Típika está fechada - ou seja, poupo dinheiro em postais e outras bugigangas - o vermute é excelente... Nâo é o vermute, estúpido. É a música.

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O dia começa com o post de uma senhora, numa página dedicada a assuntos do mar, que diz que vai «ancorar» não sei aonde. A maioria das pessoas que anda em barcos acha desnecessário aprender o vocabulário marítimo. Ou então elas sabem que não são marinheiros e não o usam para não passarem pelo que não são. Os sentimentos que o post induz são múltiplos, contraditórios e vão longe. Penso, por exemplo, no meu Pai que levou dois anos a deixar de dizer que ia atracar, que era preciso guinar a bombordo ou que ia fazer marcha a ré - quando conduzia o automóvel familiar e falasse com quem falasse. Nos jantares segurava o prato da sopa na mão, só o pousando quando percebia que quem lhe estava a dar pontapés debaixo da mesa era a minha Mãe e não a vizinha. Por pouco não assinalava as «guinadas» do carro com os respectivos sinais sonoros (um curto para estibordo, dois para bombordo e três para marcha a ré, se por acaso houver curiosos a ler isto).

A verdade é que me horroriza ver termos como ancorar, janelas, paredes, cordas e muitos outros usados a respeito de um barco e pergunto-me se este horror é exclusivamente pedantismo ou se tem outras raízes. Quando chego a um país tento aprender a sua língua e não vejo razão para que os «elefantes» (é assim que os franceses chamam a quem não navega, por causa do barulho que faz ao andar num convés) não façam o mesmo quando vão para bordo de uma embarcação. Cada profissão tem o seu léxico e mesmo não querendo eu atribuir poderes mágicos às palavras - não os têm - acho que o mínimo é aprendê-lo. Ninguém passa a ser marinheiro por dizer fundear em vez de ancorar, mas talvez seja um bom começo.

Para lá do pedantismo, da pertença e dessas coisas, há outro aspecto a considerar: se lamentamos - e com razão - o desaparecimento de línguas, porque não fazer um esforço para manter todo um léxico que além de tudo ainda tem razão de ser? A cultura não é feita só de quadros de Picasso em casa. O vocabulário marítimo, num «país de marinheiros» como Portugal (aspas porque é irónico) faz ou devia fazer parte do saber colectivo. É uma pena que os termos náuticos tenham saído tão completamente da nossa memória que já nem quando devem ser usados o são.

Linhas

A linha que separa a loucura da estupidez é muito fina.

18.8.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 18-08-2024

Penso: «Pouco a pouco, reaproprio-me Palma» e logo a pergunta que assombra todas as relações vem-me ao espírito: «Tu reaproprias-te Palma ou é ela que se reapossa de ti como se tivesses acabado de chegar?» Quem ama, quem é amado, quem manda quando se ama e se é retribuído? Venho ao Born 8. Deve ser a terceira ou quarta vez. Peço um vermute, esse sim é a primeira vez que o provo: Quintinye, um vermute francês que fica algures entre o agradável e o bom, leve e saboroso. Não vale é o preço que custa - nem o Born 8 vale o que pedem pelos preços, mas isso compreende-se O Paseig des Born não é para tesos.

Almoço: mais uma descoberta, mais uma semi-decepção: Trattoria Amayó, «descoberta» no Google Maps.

Antes do jantar: Ginger, também no Paseig des Born, «cocktail bar, fresco y natural». Para já, não falo nem dos cocktails nem da frescura, mas de que o serviço é muito assim-assim, é. Entre o assim e o assim, para ser mais preciso. Também só têm Quintinye e peço um Negroni, pior do que o vermute sozinho não fica de certeza.

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O raio da bicicleta anda cada vez mais devagar.

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O Negroni está francamente bom. Já nem reclamo contra a maldita palhinha: limito-me a usá-la para mexer a bebida e ponho-a de lado.

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O Ginger é bem mais bonito do que o Born 8, apesar de ter a música alta de mais. Mas tem ar condicionado, a música está alta mas não é horrorosa - é só medíocre - e um Negroni destes aposto que põe a burra a galopar por essas ruas fora.

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A empregada do Born 8 era estonteante. Deve ser venezuelana ou colombiana. Se eu fosse exagerado diria que aquilo foi um desafio que a evolução se pôs a si própria - até onde aconsegue ir para fazer mulheres bem feitas (este blog não cai em vulgaridades e acha que bom é o milho, não as senhoras e que o milho não deve ser usado para comparações e de qualquer maneira não passaria pela cabeça de ninguém - nem de um canibal - pôr aquela jovem senhora num churrasco a assar como se fosse uma maçaroca).

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Sacana do Negroni está bom . É feito com o tal vermute Quintinye, o que só comprova - como se fosse preciso - que a minha intuição raramente me engana. Já enganar-se, engana-se muitas vezes, mas isso é outra história.

16.8.24

Corações partidos

A vantagem de um "coração partido" (aspas porque traduzo) é que podemos passear entre os estilhaços, explorá-los todos, um a um e assim ficarmos a conhecê-lo melhor do que se estivesse inteiro.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-08-2024

Os meus esforços para ir a sítios "novos" (aspas porque não são novos. São só menos frequentados) continuam. Hoje com uma pequena variante: vim à charcutería selecta La Crème, que merece nomes e apodos e em vez de comer a habitual e magnífica sandes de presunto comi um fatia de pâté au poivre (a tradução é minha. Estava em espanhol) e uma de queijo San Simón fumado - tem a forma do Provolone fumado mas não lhe chega aos calcanhares, como de resto a senhora teve a gentileza de me avisar -, bebi uma quantidade razoável, nos dois sentidos do termo, de vinho tinto e fui iluminado por uma ideia.

Se uma senhora quer seduzir ou manter o homem que ama o método mais seguro e tradicional passa pelo estômago - isto é uma simples hipótese de trabalho - não deverá uma cidade fazer o mesmo? Isto é: Fidel, Joan, Xisco, La Crème, Pep e tantos outros não serão simplesmente braços de um desses deuses hindus enviados por Palma para me aprisionar aqui e me acorrentar pelo estômago (ou pelas papilas gustativas, mais exactamente)? Sendo que estas ruas, estas praças, estes prédios também reservaram uns braços. 

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Estou sentado sozinho na mesa única da la Crème. Ao meu lado está a BH Glasgow Vintage. Revivo o meu espanto quando descobri que aqui a esmagadora maioria das lojas acha perfeitamente natural que se entre com a burra pela mão. Ao princípio era um dos meus critérios de escolha de lojas, mas deixou de o ser: quase todas deixam. 

(Cont.)

15.8.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-08-2024

Chegada a Palma, chegada a casa. A primeira coisa que noto é a temperatura: vinte e três graus, segundo o comandante do avião (e eu acredito). É a fronteira do frio, para mim. Menos do que isso vence mangas compridas e calças. Felizmente amanhã sobem de novo e voltam aos trinta, aonde deveriam andar sempre e em todo o lado, se Deus existisse. (Isto não é inteiramente verdade mas não estou a fazer uma prelecção sobre a metafísica das temperaturas atmosféricas). Depois houve o episódio dos táxis vs. autocarros. Há muito tempo que não vejo uma fila para os táxis tão longa. A do autocarro - não é propriamente uma bicha, é um magote - idem. Volto para os táxis - na verdade aquilo avança bastante depressa - e lá vim, confortável como a idade exige (e ao arrepio do status social, mas isso é outra história).

O P. estava bem. Na verdade aqui em Palma houve pouco mais de trinta nós, força que ele já suportou galhardamente, e mesmo essa durante muito pouco tempo. 

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Jantar no Bar Coto, a solução de facilidade. Têm um caril tailandês que costumava ser bom. Desta vez não foi. Perguntei se mudaram de cozinheiro e a miúda disse-me que não. Deve ser partida da memória, respondo-lhe. Mas tem a vantagem de ser perto, barato e geralmente bom, três qualidades apreciáveis. Além de que com esta quantidade de gente esperar que uma cantina do tipo do Coto prepara comida com o nível habitual é sonhar com ladrões ou com génios dentro de lâmpadas.

Venho para bordo, troco a garrafa de vermute pela de rum, começo com a Anette Peacock e logo passo para o Keith Jarrett - Köln, claro - e deixo-me embalar pelo cansaço, pela memória da D. que tanto gostava deste disco, pelos ruídos do pontão, pelo balançar do P. Isto é: deslizo gentil e suavemente para o meu estado habitual de felicidade melancólica ou melancolia feliz. O feeder do enrolador caiu à água e vai ser praticamente impossível recuperá-lo - o mergulhador já tentou, mas agora tenho de lhe dizer para insistir e com estas vagas ele vai dizer-me que não vale a pena e eu sei que ele tem razão e isto revolta-me de uma revolta profunda, violenta, tectónica, tsunâmica. Vai ser preciso esperar por Setembro para ver se encontramos um igual, mas o modelo é antiquérrimo e... Bebe mais um rum, Luís, bebe um rum e ouve a música e esquece o feeder e lembra-te de que o P. não sofreu com este tempo e que um dia tudo estará no seu lugar e de vez em quando a M. tem ataques de razão, é só uma questão de apanhar a Lua no sítio certo.

Dá-lhe, Keith. Dá-lhe. Esmurra-me esse piano e bufa-lhe para cima que não há melancolia que resista ou felicidade que se deixe vencer.

Por fim, DANA

Ainda meia dúzia de palavras a respeito do temporal nas Baleares. Espero que sejam as últimas:


Quando eu era miúdo a minha Mãe introduzia na oração da noite uma especificamente dedicada aos marinheiros. Isto mesmo quando o meu Pai já estava em terra - começou quando Ele ainda andava no mar - e reforçado por uma chamada de atenção quando estava mau tempo - fosse localmente fosse lá fora, quando Ela sabia.


Não me lembro dos termos da oração, claro. Já lá vai mais de uma época ou duas. Mas isto marcou-me. 


Não que eu morra de amores pelas pessoas que andam em barcos. Ainda o ano passado um cliente acusou-me de desprezar os amadores e a verdade é que não sendo verdade não é totalmente mentira. Não os desprezo, é tudo.


Mas - e aqui reside o cerne da minha fúria - nós, marinheiros, sabemos uma coisa que essas pessoas não sabem: somos o elo mais fraco da cadeia. Não temos o direito de criticar os outros, igualmente frágeis.


Talvez até mais do que nós, marinheiros.


PS: DANA é o acrónimo de Depresión Aislada de Nivel Alto.

Diário de Bordos - Valência, Espanha, 15-08-2024

Estou sentado numa cervejariazita de bairro de Valência. Acabei de almoçar, pus as fotografias de ontem no Instagram e no FB, preparo-me para beber um vermute caseiro. O almoço não foi mau, antes pelo contrário: alcachofras com presunto, duas gyozas de porco com laranja bastante apreciáveis, uma fatia de melão. Entretido com as fotografias e a máquina e o Instagram levanto os olhos e vejo mesmo à minha frente um par de pernas que chega ao céu. A priori parecem-me nuas mas como não acredito em milagres olho melhor. A rapariga tem calças da cor da pele? Não, as pernas vão desnudas até àquilo que me parece ser as orelhas e não são. São as nalgas, que continua ainda lá para cima, como se o meu olhar tivesse de apanhar um elevador.

Eu gosto de ver um par de pernas bonito. Só não tenho a certeza de que uma cervejariazita de bairro seja o sítio apropriado. E no fundo, no fundo só precisava de ter menos quarenta anos (eu, não ela).

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Regresso a Palma a pensar no raio do azar que tive: esta viagem coincidiu com a merda de depressão nas Baleares e não consegui tirar aquilo da cabeça, pelo menos até saber que o «meu» P. e a malta amiga estava bem. 

Não consigo porém deixar de ficar furioso com a merda dos comentários dos «navegantes» (aspas porque não passam de pessoas que andam em barcos e de navegantes não têm nem a sombra do cheiro). Tal como detesto quando vejo comentários sardónicos a respeito de encalhes ou acidentes diversos. Em primeiro lugar, aquilo pode acontecer-te a ti, no dia em que decidires finalmente sair do bar do clube; em segundo, não fales se o que disseres não servir para transmitir informação. Os teus comentários não interessam nem a um canguru perdido na Groenlândia.

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Pequena nota de viagem: o vermute caseiro da cervejaria Moonlight é esplêndido, o pessoal simpatiquíssimo e a comida excelente. Agradeço ao acaso, à sorte e ao señor Placido da Blablacar, que me deixou nas imediações.

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CONT.

Os aeroportos começam a misturar-se-me nas diferentes memórias que deles tenho. O de Valência, por exemplo, tão simpático, tão pequenino. Cheguei cedo demais para o meu voo, mas isso está a transformar-se num hábito e já nem reclamo contra mim próprio (pelo menos até chegar a um café e pedir um copo de vinho tinto, mas isso é outra história).

Hoje cheguei, passei os filtros, não me esqueci de tirar o computador do saco, não me esqueci de pôr a camisa fora dos calções para os seguranças não verem o cinto - se o virem dizem-me para o tirar, se não o virem não dizem. (Em todo o lado.)  E depois é isto, simultaneamente:
a) O voo está três horas - três horas! - atrasado; e
b) Um copo de vinho neste café custa sete euros e está quente.

E ainda há quem tenha inveja da minha vida.

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1 - Cheguei demasiado cedo ao aeroporto, isto considerando o horário normal do voo;
2 - O qual voo está atrasado três horas;
3 - O aeroporto está cheio pelas costuras;
4 - No café aonde havia um bom lugar para me sentar um copo de vinho tinto e quente custa sete euros;
5 - Poder-se-á aplicar aos aeroportos aquele velho dito: "Deixai toda a esperança, vós que entrais"? Pode e deve-se.

(Não sei se Dante escreveu ditos, mas deve ter dito.)

A pergunta que me invade os dois neurónios que me restam é: por que raio de carga de água a Air Europe não me disse isto enquanto eu ainda estava na cervejaria Moonlight, aonde o excelente vermute custa três euros e cinquenta cêntimos? (Se calhar disse e eu não vi...)

13.8.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 13-08-2024

Pequenas notas sobre a vida urbana em Palma, dignas de nota. (Quanto mais não seja, para os pinguins austrais.)

Ontem falei com o señor Tomeu Arbona, o tal arqueólogo da gastronomia local, ou coisa que o valha. O senhor é uma simpatia, o que por um lado demonstra que nem todos os maiorquinos são antipáticos (coisa que já toda a gente sabe) e por outro prova outra coisa que toda a gente devia saber: as generalizações levam-nos muitas vezes a becos que dão para vastos jardins. Tomeu explicou-me que a massa da ensaimada não precisa de fermentar dois dias - um chega - e quando me viu a comer uma ensaimada «individual» (aspas porque cito) deu-me a provar uma enorme ensaimada, uma trança de ensaimada. É o dia da noite. Ou seja: a partir de agora pede-se uma porção de ensaimada e não uma individual. (O que não deixa de levantar algumas questões interessantes.)

Estou a dar uma volta à minha Palma: vou a sítios que ou já conhecia e não frequentava (o Fornet de la Soca é um exemplo, mas há outros), uso percursos diferentes dos habituais - é um pouco como os meus princípios em Palma, com um bocadinho de batota - tudo isto intersticiado por visitas às «âncoras»: hoje jantei no bar Rita, comi o habitual (inevitável é mais adequado) gelado no Claudio e vim escrever disparates e beber rum ao Antiquari. Não se pode dizer que seja como andar perdido, que não é. É redescobrir uma cidade que adoro, é como convidar uma velho amor para jantar, é como dizer ao tempo que ele pode tudo mas eu também: posso mesmo fazê-lo andar para trás. (Ele ri-se, o tempo, mas ri-se baixinho e discretamente.)

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O «meu» P. pregou-me mais uma partida das dele. Fiquei abananado - acho que vou mudar o termo para Apandanado, é mais justo - mas já absorvi o choque. Isto é uma guerra entre mim e ele. Perde o que desistir primeiro. Como não serei eu....

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Amanhã vou a um porto perto de Múrcia para ver um barco e daí, provavelmente, a Ayamonte ver outro. O primeiro é um Nauticat, marca pela qual sempre nutri mixed feelings. O outro um Elvstrom, marca que faz parte das Marilyn Monroe do meu coração náutico. As pessoas que invejam a minha vida - há muitas - invejam-na pelas razões erradas.

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Continuo cansado. A BH Glasgow Vintage arrasta-se penosamente por estas ruas de que tanto gosta. O grande objectivo do momento é poder atribuir este cansaço ao calor.

Há outros objectivos, mais pequenos mas não são dignos de nota.

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Digno de nota é eu estar a escrever no Antiquari, aonde escrevia quando pela primeira vez cheguei a Palma, vai para doze anos ou mais. O tempo que se ria. O último a rir ri melhor.

12.8.24

Memórias despidas

E agora, que da memória o amor se foi, que fazer destas recordações assim despidas da roupa que as fez nascer, tão despidas como tantas vezes te vi? Que dizer-te, agora que «amo-te» não cabe? «Lembro-te»? Alguma vez te esqueceria, alguma vez te esquecerei? Não, claro.

Mas voltarei a dizer-te amo-te, um dia, quando as memórias tiverem frio e quiserem vestir-se.

11.8.24

O prometido é devido - Antonio Moresco, Los comienzos

(Não traduzo. Em primeiro lugar porque sou um péssimo tradutor; em segundo, porque não me apetece; em terceiro, porque toda a gente percebe espanhol.)

        «En cambio, yo estaba cómodo en aquel silencio.
     Nos despertaba antes del amanecer una oración que flotaba en los dormitorios aún oscuros, y muchos se quedaban con los ojos muy abiertos y la cabeza un poco lebantada de la almohada, en eso ligero mareo que se produce al pasar de golpe del sueño al silencio. Volvía a cerrar los ojos un instante, como si quisiera dar marcha atrás y pasar del silencio al sueño, antes de abrirlos otra vez en el dormitorio aún aturdido. Alguien habia empezado a ponerse los pantalones debajo de las mantas, moviendo brazos y piernas como un molino, sin hacer ruido, arqueando con esfuerzo la espalda hasta formar un puente con la coluna vertebral.
     Yo también me vestía debajo de las mantas, sin prisa; sacaba los pies de la cama, me ponía los calcetines, abría el cajón de la mesilla de chapa y, después de destapar la lata de betún, mojaba la punta del cepillo, metía una mano en el zapato y empiezaba a untar la crema. Alargaba la operación infinitamente para captar el instante en que el betún se extendía hasta desaparecer, perdía consistencia y solo quedaba una luz reluciente, desprovista de cuerpo y de color.
     Me entretenía con este y otros juegos de la eternidad.»

Antonio Moresco, in Los comienzos (incipit), ed. Impedimenta, 2023, Madrid.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 11-08-2024

A livraria está fechada, como previra. Fica para amanhã. De qualquer forma já fiz o luto da massa, não tenho sequer a certeza de que tenha ficado lá, não sei para onde foram os euros do troco do livro. Venho ao café que fca da outro lado da entrada, o café CaixaForum - tanto o café como a livraria ficam no edifício assim chamado, o braço cultural do banco La Caixa. Usufruo do conforto, da vista, do tratamento por señor em vez do irritante tuteio ou do pedante caballero, do ar condicionado - é cedo mas a «terceira vaga» não perdoa. Peço um americano. A marca é Illy, que é boa mas não é a minha preferida. Qual é essa? Não sei. Aqui em Palma o meu café favorito é o da Molienda, porque é pouco torrado, mas na verdade estou-me nas tintas e espero que os meus leitores também.

Palma vista daqui é bonita, esta zona é linda, sinto-me como se estivesse dentro de um aquário na sala de um palácio a olhar para fora, a sala está quase vazia mas começa agora a animar-se, passo a passo. Já não há «noite» em Palma, nem aqui nem em lado nenhum, boémia zero bem-estar dos vizinhos um, querem cidades mortas e a luz do domingo de manhã fica assim, suave, transparente, quase melancólica.

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Saio do Caixa e venho devagarinho pela Rambla. Penso no que tenho aqui que não tenho em Lisboa, no que tenho em Lisboa que não tenho aqui, no que tem Genebra que nenhuma das outras tem e pouco a pouco pedalada a pedalada rendo-me à evidência: a única coisa que Lisboa tem que as outras não têm é a língua. Mas sem a nossa língua somos seres incompletos. 

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Mais um gajo lindo na rifa (salvo seja). Este tem os olhos azuis como o outro e os maxilares em forma de cubo. Uma bomba de testosterona. Falta-lhe o sorriso iluminante. Deu-me uma grande ajuda para envergar e depois dobrar a grande. Terá mais trabalho a bordo do «meu» P., se entretanto não encontrar um barco que lhe pague a sério. É pouco provável mas sonhar não custa.

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L., o day worker sul-africano que me faz alguns trabalhos a bordo tem até quinta-feira para encontrar um barco que o possa «tirar» da UE. Estas estúpidas leis da imigração deviam ser repensadas. Para além do facto simples (e discutível) de que uma pessoa deve poder viver aonde quer e não só aonde pode, a verdade é que a Europa devia pagar a gajos como este para imigrarem. Não expulsá-los.

A Europa tem muitas culpas no cartório no que toca a países africanos. (Admitidamente, isto não se aplica à África do Sul, mas isso fica para depois). Demos-lhes as independências sabendo a catástrofe que seria, fechámos os olhos e para os manter fechados inundámo-los de dinheiro que todos sabíamos no que seria usado, deixámo-los degradarem-se e não fizemos nada e aqora fechamos-lhes as portas? Há dias houve aqui mais uma «operação policial» para prender vendedores ambulantes. Na sua maioria são senegaleses, vítimas de horrorosas redes de tráfico humano. Porque é que para ganhar honestamente a sua vida um homem tem de se pôr nas mãos desses bandidos?

Abrimos a torneira do dinheiro e com ele lavámos as mãos e as consciências.

10.8.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 10-08-2024

Comprei um livro, o que em si é uma coisa banal. Compro um - ou mais - quase todos os dias.  Mas é este é especial. Começa assim:  "Em contrapartida, eu estava cómodo naquele silêncio." Chama-se Los Comienzos e o autor é Antonio Moresco. Nunca tinha ouvido falar nem de um nem de outro. Agora estou a escrever no telefone, mas quando tiver o computador transcrevo todo o incipit. É impossível não conhecer um livro assim. 

Em contrapartida, estou convencido de que o paguei com uma nota de cem e deixei o troco na livraria. Quase setenta euros. Bem vindos ao mundo encantado do Luisinho Serpa. Quando voltei à livraria já tinha fechado. Creio que amanhã estará aberta, mas não tenho a certeza. Aborrece-me muito, esta minha distracção. [ADENDA: Afinal tinha pago o livro com o montante certo.]

Vim folhear os Começos à Lorién, apetecia-me uma cerveja. Agora não sei o que fazer. Vou delegar na burra, ela que decida. Tenho os alforges cheios de compras e ou vou para bordo deixá-los - e provavelmente deixar-me - ou vou comer qualquer coisa para não acordar esfomeado a meio da noite.

Na mesa ao lado da minha sentou-se uma miúda dos seus trinta que não é linda linda. É só bonita. Mas tem uma coisa que muitas belezas não têm: é o tipo de mulher com quem eu queria namorar quando tinha a idade dela. (Hoje não quero, claro. Deus me livre.)

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Boas notícias do lado da carcaça. Tudo não pode correr mal ao mesmo tempo. Deus delegou no Diabo uma grande parte do Seu trabalho mas guardou umas pontinhas. Por mais que se aplique, o Diabo nunca consegue pôr a mão em tudo. As garras.

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Está muito calor e a cidade está vazia. As pessoas preferem ir para as praias, coisa que eu parcialmente compreendo: um dos componentes das praias é o mar (excepto quando são fluviais, claro) e estar dentro de água com estas temperaturas e as correspondentes aquáticas é agradável. Falo por experiência própria, apesar de raramente tomar banho quando tenho clientes a bordo. Mas isso só é suportável um momento. Depois torna-se monótono e maçador. É de resto por isso que alguém inventou os barcos: para evitar os inconvenientes da outra metade das praias, que são muitos. A areia, as pessoas, as bolas, as toalhas, a areia - ou pedras, quando não há areia - a longa distância entre o mar e o xiringuito (em Espanha. No resto do mundo seria a longa distância entre o mar e o bar da praia), a areia.

¡Vaya! Agradeço silenciosamente às pessoas que me deixam a cidade vazia e me dão a oportunidade de comprar uma empanada de cordeiro e ervilhas no Fornet de la Soca e comê-la no Bocalto, mesmo ao lado, acompanhado por um vermute Muntaner (já quase a resvalar para o segundo). O Fornet de la Soca pertence a um senhor que se vende como «arqueólogo da gastronomia local» ou coisa que o valha. É um dos sítios mais bonitos de Palma, entre o Paseig des Born e a Rambla, muito mais bonito do que qualquer praia salvo excepções, como as do Parque Nacional Manuel António, uma outra em Bocas del Toro cujo nome não recordo e mais duas ou três. O mundo está cheio de excepções.

Neste quadro o vermute adquire qualidades que noutros sítios não tem. É por isso que raramente acredito nos críticos de comida ou de bebida (incluindo os de croquetes e chamuças): isto está tudo ligado, a objectividade não existe senão na cabeça disfuncional da maioria dos jornalistas actuais. Não muito longe daqui fica La Rosa, que já foi uma grande casa e hoje se deveria chamar The Rose (o empregado do Bocalto está de acordo comigo, o que só comprova, como se necessário fosse, a justeza das minhas opiniões). Antigamente teria ido ao Rosa tirar teimas mas agora não vou.

Pode argumentar-se que dezassete euros por um copo de vinho tinto e dois vermutes é caro, mas a questão não é essa. É: deve-se? Não. não deve. Não deve fazer-se nada que não tenha um efeito sobre o que a acção se exerce. Reclamar contra os preços em Palma é como reclamar contra «a terceira vaga (de calor, recordo)». Reclamar pode-se, claro. Não há quem não o faça. O que não impede o calor de se instalar como se estivesse em casa, depois de um lauto jantar, refugiado num whisky e num bom livro enquanto os miúdos se pegam na sala ao lado. 

9.8.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 09-08-2024

Da Colômbia só conheço Cartagena de las Índias e o restaurante Sabor Criollo, em Palma. Recomendo ambos. As arepas e a simpatia são iguais nos dois lados e o restaurante tem uma ligeira vantagem: está ao alcance da minha bicicleta. Não é preciso meter-me num avião. 

Ou num barco, que vontade não me falta. 

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Hoje lembrei-me - ou melhor, fui lembrado - de que tenho sorte de ter uma amiga chamada Maria. Digo o nome porque é bonito, tão bonito como ela é. A Maria é médica e vai fazer aquilo que o SNS não pode ou não quer fazer: olhar para os resultados das minha análises, exames e ecografia (é só uma) e traduzir-me-los, que daquilo não percebo nem as vírgulas. 

Amizade, amor, ternura, bondade, fraternidade, altruísmo substituem qualquer SNS, incluindo o melhor do mundo. E não me venham com histórias: todos temos uma Maria nas nossas vidas.

Quem não tem devia ter. O SNS não tem, por exemplo. Devia ter. Não uma, mas milhares delas.

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Posso estar enganado. Estou muitas vezes. Mas diabos me mordam se amanhã o "meu" P. não der mais um salto para a frente. Preciso tanto como ele, de passagem se diga.

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De todos os sentimentos, aquele que mais amo é o amor. É o mais completo e versátil e satisfatório de todos. Não precisa sequer de ser retribuído. Basta-lhe existir...

Corto aqui. Execro pieguices. Obrigado Maria.

8.8.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 08-08-2024 / II

Venho almoçar ao Pep, metade por preguiça - está ao lado do P. - , metade porque é bom, metade porque tem ar condicionado e metade - a última - porque o gajo está uma simpatia. 

São muitas metades, eu sei mas não me importo. A matemática é uma ditadura e há que resistir-lhe, desobedecer-lhe, opor-lhe as palavras. Vem-me à memória aquela frase do Lacan que vi ontem no FB (nunca consegui ler dele mais de dois parágrafos seguidos ou três alternados): «Se um homem que pensa que é um rei é maluco, um rei que pensa que é rei também o é.» Hesitaria em aplicar esta ideia à matemática, mas não deixa de ser tentadora.

Enfim, tudo isto porque estou cansado, estou cansado de estar cansado, cansado de dizer que estou cansado e por aí fora, numa cansativa e infinita espiral que só daqui a pouco parará, quando for dormir a sesta, apesar do calor. É «a terceira vaga», dizem os jornais, para quem a verdade não é de todo uma ditadura e que gostam de a adornar com fórmulas. Julgam que isso os ajuda a vender, apesar de essa mesma realidade os desmentir quotidianamente. Claro que podem sempre dizer que se se limitassem à verdade venderiam ainda menos, mas eu não acredito. Ou então venderiam, mas pelo menos poderiam andar na rua de cabeça levantada, que hoje não podem. Ou não devem.

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O «meu» P. deu hoje um grande passo em frente. Como sempre, o que deveria ter levado um mês já vai quase em três. A cada passo parece que estou a levantar ferro e que a corrente está presa numa rocha e é preciso chamar uma armada de mergulhadores mas eles ou não estão ou não respondem ao telefone ou estão doentes ou a estudar ou o raio que os parta. Como se o rochedo do Sísifo resvalasse mas não até ao fundo, a cada descida fica um bocadinho mais alto, mais perto do cimo. Pouco, mas mais alto.

(Cont.?)

Figos, D. H. Lawrence

Figs

The proper way to eat a fig, in society,
Is to split it in four, holding it by the stump,
And open it, so that it is a glittering, rosy, moist, honied, heavy-petalled four-petalled flower.

Then you throw away the skin
Which is just like a four-sepalled calyx,
After you have taken off the blossom with your lips.

But the vulgar way
Is just to put your mouth to the crack, and take out the flesh in one bite.

Every fruit has its secret.

The fig is a very secretive fruit.
As you see it standing growing, you feel at once it is symbolic:
And it seems male.
But when you come to know it better, you agree with the Romans, it is female.

The Italians vulgarly say, it stands for the female part; the fig-fruit:
The fissure, the yoni,
The wonderful moist conductivity towards the centre.

Involved,
Inturned,
The flowering all inward and womb-fibrilled;
And but one orifice.

The fig, the horse-shoe, the squash-blossom.
Symbols.

There was a flower that flowered inward, womb-ward;
Now there is a fruit like a ripe womb.

It was always a secret.
That’s how it should be, the female should always be secret.

There never was any standing aloft and unfolded on a bough
Like other flowers, in a revelation of petals;
Silver-pink peach, venetian green glass of medlars and sorb-apples,
Shallow wine-cups on short, bulging stems
Openly pledging heaven:
Here’s to the thorn in flower! Here is to Utterance!
The brave, adventurous rosaceæ.

Folded upon itself, and secret unutterable,
And milky-sapped, sap that curdles milk and makes ricotta,
Sap that smells strange on your fingers, that even goats won’t taste it;
Folded upon itself, enclosed like any Mohammedan woman,
Its nakedness all within-walls, its flowering forever unseen,
One small way of access only, and this close-curtained from the light;
Fig, fruit of the female mystery, covert and inward,
Mediterranean fruit, with your covert nakedness,
Where everything happens invisible, flowering and fertilisation, and fruiting
In the inwardness of your you, that eye will never see
Till it’s finished, and you’re over-ripe, and you burst to give up your ghost.

Till the drop of ripeness exudes,
And the year is over.

And then the fig has kept her secret long enough.
So it explodes, and you see through the fissure the scarlet.
And the fig is finished, the year is over.

That’s how the fig dies, showing her crimson through the purple slit
Like a wound, the exposure of her secret, on the open day.
Like a prostitute, the bursten fig, making a show of her secret.

That’s how women die too.

The year is fallen over-ripe,
The year of our women.
The year of our women is fallen over-ripe.
The secret is laid bare.
And rottenness soon sets in.
The year of our women is fallen over-ripe.

When Eve once knew in her mind that she was naked
She quickly sewed fig-leaves, and sewed the same for the man.
She’d been naked all her days before,
But till then, till that apple of knowledge, she hadn’t had the fact on her mind.

She got the fact on her mind, and quickly sewed fig-leaves.
And women have been sewing ever since.
But now they stitch to adorn the bursten fig, not to cover it.
They have their nakedness more than ever on their mind,
And they won’t let us forget it.

Now, the secret
Becomes an affirmation through moist, scarlet lips
That laugh at the Lord’s indignation.

What then, good Lord! cry the women.
We have kept our secret long enough.
We are a ripe fig.
Let us burst into affirmation.

They forget, ripe figs won’t keep.
Ripe figs won’t keep.

Honey-white figs of the north, black figs with scarlet inside, of the south.
Ripe figs won’t keep, won’t keep in any clime.
What then, when women the world over have all bursten into self-assertion?
And bursten figs won’t keep?