2.4.21

Variações apologéticas em torno do absinto Angélique

Absinthe rima com absente (enfim: quase, mas a diferença é tão pequena que nem um teste PCR a detectaria), coisa que só por si demonstra uma série de coisas importantes, todas elas conducentes ao mesmo: as razões para não o beber estão ausentes.

Se o absinto fosse a rainha das bebidas alcoólicas, o absinto Angélique, feito artesanalmente no Val-de-Travers, Jura suíço, por um senhor chamado Claude-Alain Bugnon seria a rainha-mãe. É.

A beleza do absinto começa no cheiro quando se abre a garrafa, continua na cor quando se o põe no copo (para quem não sabe: põe é como coloca, mas em melhor), prolonga-se quando se lhe junta a água e se o vê mudar de cor e acaba na explosão de sabores campestres, históricos, poéticos e profundamente inspiradores. A arte moderna deve muito ao absinto e o senhor Claude-Alain Bugnon (que ainda não conheço - sublinho ainda) e todos os que o antecederam na nobre arte de distilar plantas como (cito) grande absinthe, angélique e outras dez (fim de citação) deviam ser erigidos patronos das artes e grandes encorajadores da vida no campo.

O pastis está para o absinto Angélique como uma prostituta de rua para Mata Hari. 

Ao primeiro gole de absinto a vida muda para (muito) melhor. Os goles seguintes não fazem mais do que prolongar essa mudança; afiná-la, por assim dizer. Refiná-la. Dar-lhe um sentido, uma direcção, uma razão de ser. Quem não acredita no progresso nunca bebeu absinto Angélique.

O simples facto de o senhor que faz este absinto pôr o seu nome no contra-rótulo diz tudo: as obras de arte assinam-se.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 02-04-2021

Vou passar o fim-de-semana a casa do J. no cantão de Berna. Jura Bernois, para ser mais preciso. As temperaturas caem para níveis relativamente baixos: a máxima dos três dias vai ser um grau positivo. O resto dos dias têm todos o tracinho antes do algarismo. A ver se isto me arrefece o entusiasmo pelo Jura (sei que não, mas na verdade estou a marimbar-me para a temperatura, desde que tenha roupa para ela). O que me impressionou foi o processo de compra dos bilhetes de comboio. Os CFF adoptaram métodos de estabelecimento de preços dignos de uma companhia aérea. Não vejo razão nenhuma para os privatizar - não há ideologia que valha uma coisa que funciona - mas estas variações nos preços (acoplada a uma panne de informática que me fez ir duas vezes à estação) deixou-me pensativo.

Os correios também estão a avaliar a privatização do banco postal. Sabiamente escolheram um socialista para gerir o projecto - às papas e bolos alguém devia acrescentar as palavras, às quais a modernidade atribui poderes mágicos. Suporíferos, na verdade.

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Na Migros da estação exigiram-me que pusesse gel nas mãos para entrar. Mandei-os passear e vim-me embora. Prefiro um colombo sem fenogrego a pactuar com idiotices. Disse ao homem que sou alérgico, mas ele insistiu na «obrigatoriedade». Não insisti: estava muita gente na fila para entrar e de qualquer foma de nada teria servido precisar-lhe que a minha alergia é à connerie, não ao gel. De qualquer forma o colombo vai ser um exercício de flexibilidade, tolerância e criatividade. Mais fenogrego menos fenogrego não mudaria grande coisa.

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We belong together, cantado pela Ricki Lee Jones, é uma canção que não me larga. É tão bonita. Era dedicada ao Tom Waits, diz-me o google. 

Apologia do cepticismo

Não sou arqueólogo, mas estou pronto a apostar que o cepticismo já vem dos primeiros tempos da hominização: sem dúvida não há progresso.

1.4.21

A tentação securitária

As latas de conserva já não têm bordos cortantes. Alguém se preocupou em torná-las inofensivas. Alguém nos tratou como crianças? Não. As crianças aprendem e aprendem depressa. Basta cortarem-se uma vez ou duas  numa lata e aprendem. Alguém se preocupou em tratar-nos como idiotas; alguém pensou que não se consegue suportar um corte num dedo nem aprender a evitá-lo.

Confesso que a história das latas me é relativamente indiferente. Cortei-me como toda a gente umas poucas de vezes e nunca atribuí a isso grande importância - como não atribuo às que agora têm bordos que não cortam. O que me inquieta verdadeiramente é que essa preocupação não acaba nas latas. Estende-se, por exemplo, à falta de fé na capacidade de o sistema imunitário da esmagadora maioria das pessoas responder por si a um vírus que se sabe ser-lhes inofensivo. E a muitas outras coisas: a desresponsabilização atingiu níveis inconcebíveis. Ele é atravessar uma rua: há sinais para peões, porque estes obviamente não têm olhos para ver e cabeça para julgar. Ele é o aviso sobre a temperatura elevada do café nos recipientes (pelo menos nos EUA); ele é um sem número de situações nas quais alguém pensa sistematicamente que somos incapazes. 

O que me inquieta é a aceitação bovina desse statu quo, como se fosse normal. Como se fôssemos todos incapazes e irreponsáveis. Como se? A continuar assim, em breve sê-lo-emos, todos.

Misantropia prática

Tal como uma das grandes dificuldades que os darwinistas tiveram foi fazer aceitar o acaso como motor da evolução - a girafa não tem o pescoço comprido para comer as folhas mais altas das árvores. Come-as porque tem o pescoço comprido - compreendo que esta vastíssima e profundíssima mistura de acaso, incompetência, histeria, estupidez, ignorância e zeitgeist seja mais bem absorvida se lhe for atribuída um objectivo, uma necessidade. Não sou historiador, mas penso não me enganar se disser que nunca na História se viveu tão inverosímil e abrangente mescla. 

Não, caros colegas cépticos: não há ninguém a coordenar isto, não há objectivos escondidos, não há um diabo a manipular o Costa, o Macron, o Johnson ou o Sanchez. A menos que por diabo designem, claro, a incapacidade deles, a pequenez, a miséria, a capacidade que as pessoas têm de trocar a liberdade por um ersatz de segurança, a inimaginável aceitação do absurdo (suponho que mesmo os mais ferrenhos apoiantes das «medidas» reconhecerão o absurdo delas) e - sobretudo - a incalculável reserva de maldade que se esconde na maioria dos seres humanos. A haver um diabo, talvez seja a crueldade com que se aceita o que se está a fazer a crianças impedidas de brincar e aprender, a velhos impedidos de abraçar quem amam e os ama, a adultos impedidos de trabalhar e reduzidos à categoria de pedintes. 

A misantropia ontológica é uma coisa; vê-la mais do que justificada na prática outra, bem pior.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 01-04-2021

Saio do Halle de Rive e esqueço-me de tirar a máscara. Só dei por ela já no Jardim Inglês. Isto assusta-me de várias formas:

1- Não gosto de dar maus exemplos na rua;

2- Não quero que a malta dos Governos pense que tem aqui um adepto;

3- Estarei a ficar tão habituado que...? (A mera hipótese assusta-me tanto que não a enuncio. Sei perfeitamente que é impossível.)

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Encontrei Red Stripe, na Drinks of the World. Já de Moynt Gay barato nem sombras. Só há XO a uma pipa de massa - e muitos outros runs, a muitas pipas de massa. «O rum está na moda», diz-me S. Pergunto-me porque nunca ninguém me reconheceu o papel de trendsetter que sou desde a mais tenra infância... Quando aqui cheguei havia três marcas, ou se calhar nem isso. Paciência, para fazer molho picante vai de Baccardi. Fica pelo menos a garantia de que vou poder fazer muito mais molho. Encontrei um tipo no Halle de Rive que mos quer comprar. Isto não se inventa: vender os meus piripiris é um futuro de sonho - e penso na A., que em Palma me disse «Tu podes fazer uma pipa da massa com isto» (a transcrição é de memória; ou de vontade, não sei). Imagino-me bem no campo a fazer molho picante - seria bastante semelhante a isto da escrita, que toda a gente diz ser muito boa mas pagá-la tá quieto. Ou da reciclagem, eu tão bom cidadão a separar o vidro escuro do transparente, o plástico do papel, o alumínio das  cascas de banana e ninguém quer reconhecer o enorme valor desse tempo.

Até ter vontade de fazer 'ti ponches, o Baccardi chegará para muito molho.

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S. fala-me de uma componente das relações amorosas, a «pertença». Diz-me que é - ou pode ser - independente das relações que subtende: uma relação amorosa não existe (ou não é sustentável) sem essa «pertença», mas esta pode sobreviver-lhe. Passo alguns pormenores, mas gosto da conclusão a que chegou. 

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A França reconfina, a Finlânia não. Este vírus é claramente cultural. E político: quanto mais democrático o país, menos poder o vírus tem.

30.3.21

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 30-03-2021

Pouco a pouco, nos supermercados o verde substitui as outras cores todas. As pessoas querem «natureza» e é na secção «bio» das super-lojas que a vão procurar, embrulhada em todas as espécies de plástico - mas na caixa já só têm sacos de papel, o «verde» começa quando se vai para a rua. Antes disso, impera o transparente. Não se pode dar um passo sem dar com iogurtes «bio», leite «bio», carne «naturaplan», alfaces «sem glúten», fruta «sem fosfatos» - tudo embrulhado em plástico. Salva-se o peixe - é preciso perguntar e auscultar cada etiqueta cuidadosamente para se saber se a peça é de piscicultura se de pesca. Ninguém se preocupa com o salmão - um dos grandes crimes ecológicos da nossa época, sobretudo o da Noruega, esse país que se prepara para proibir nos fiordes embarcações a combustíveis fósseis. Não tenho nada contra a hipocrisia - sem ela não se viveria em sociedade e não haveria supermercados - nem contra os mitos - cada época tem os seus, grand bien leur fasse. Tenho contra a ignorância, contra a mentira, contra o holier than you que invadiu esta porra deste tempo, contra esta esquizofrenia dicotómica, maniqueísta.

Vá lá que a meio da tarde de uma terça-feira o supermercado está praticamente vazio, as caixeiras - quase todas obesas, até nisto o tempo apanhou a cidade desprevenida - aproveitam um erro qualquer do planeamento para olharem os tapetes vazios e de caminho as unhas ou os telefones portáteis. 

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Já o verde que vejo da janela é outro, melhor e menos invasivo: as árvores aproveitaram estes dias de calor para se vestirem de folhas novas. Por enquanto pequenas e poucas, mas mais e maiores a cada dia. Não tarda vem frio outra vez, mas as jovens folhas resistirão e depois disso as ruas, parques e jardins estarão cheias de verde e de flores. Genebra no Verão é menos austera - ou parece, pelo menos.

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As «coisas» avançam, as bolas continuam a girar no ar. Parece-me que descobri finalmente um porto onde amarrar os dias que faltam até tudo se transformar num pasto de insectos e bactérias variadas, castanho escuro ou negro. A ver. Um monitor do tamanho de uma piscina, filmes, livros, música, ervas na horta - se alguém um dia me tivesse dito que sonho ter ervas plantadas por mim ter-lhe-ia respondido para se ir tratar com urgência, eu que mal olho para uma planta a faço morrer, coitada - e viagens com bilhete de ida e volta, como toda a gente. 

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Enquanto espero, apareceu no horizonte uma luz fraquinha de um transporte para o Canadá. Está muito longe e é mesmo fraca, mas estou tão sedento de mar que é suficiente para me fazer sonhar.

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Entretanto, vou cozinhando, dormindo e fazendo muito menos do que queria fazer. «Aproveita». diz-me S., cujos dias estão cheios como um ovo. Gostaria de aproveitar muito mais, sim, mas ainda não estou capaz. A encosta está cada vez menos íngreme e verde, a pedra cada vez menos pesada e a Lua ontem estava fascinante, de tão branca e brilhante. O resto virá por acréscimo, degrau a degrau.

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A demência continua, em todo o lado. Tento não pensar nela, mas depois ocorre-me que representa muito provavelmente noventa e nove por cento do peso da pedra e amaldiçoo-a de novo: que chovam asteróides sobre os malditos que nos condenam a esta sub-vida, como se fosse um substituto de vida, como se valesse a pena não-viver para sobreviver, como se um ano de palhaçada não fosse um ano a mais, um ano demais, um ano subtraído a uma vida traída. Que morram esmagados pela sua demência, exalto-me no sonho, como se os asteróides fossem teleguiados e não obra do acaso, o grande - o verdadeiro - mestre disto tudo.

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A vida não me deve nada, mas eu devo-lhe muito. Deve ser a única assimetria de que sou claramente ganhador.  

27.3.21

Holofote encarnado

Não sou pessimista, não acredito que vamos ficar confinados mentalmente para o resto dos tempos, mas cada vez que penso nisso tenho uma luz encarnada a acender-se e essa luz é cada vez mais potente. «Isto não pode ser senão passageiro» e o raio do holofote acende-se. Não vamos passar o resto do tempo a desconfiar uns dos outros, a não perceber como funciona um sistema imunitário, a ouvir - e acreditar em - charlatões, a respeitar governos para quem a lei ou a constituição valem menos do que o papel higiénico com o qual se limpam (refiro-me à merda não metafórica, a literal. Da outra, não só não se limpam como se orgulham), não vamos transformar a ciência numa sessão da IURD, o jornalismo vai corrigir-se e voltar a ter um módico de decência, deixar de ser o megafone dos governos...

Raio do holofote.

O circunflexo no a

 «Il n'y a pas d'âge pour être heureux», diz-me uma publicidade qualquer numa montra, não sei se com o circunflexo no âge - é cada vez menos usado, o AO90 é simplesmente um cume numa cordilheira de conneries, não é de modo algum uma colina isolada. Não reparo no acento - reparo apenas neste assalto constante - ou melhor, na minha hiper-sensibilidade a este assalto constante, permanente, insistente como o cheiro de um esgoto. A vulgaridade, a banalidade, o lugar-comum, clichés saídos da cabeça de gajos pagos a peso de ouro para descobrir o menor denominador comum, o ponto mais baixo que atinje mais gente - necessariamente, naquilo que têm de mais básico: o lugar-comum, o lugar comum. Cada vez suporto menos esta modernidade, eu sempre tão tolerante, tão «il faut être moderne», tão «não deixes atingir-te aquilo que não te toca», tão «não deixes tocar-te aquilo que não te atinge», tão ao lado deste mundo. Não é uma frase feita, sempre estive ao lado e de repente agora parece-me que deixo de o estar, uma frase idiota numa montra fere-me, as idas aos supermercado estão cada vez mais difíceis, cedo às promoções só para não me chatear e para me despachar mais depressa, para não pensar, não procurar - para sair dali o mais depressa possível. 

Isto seria um sinal do além, se acreditasse em aléns, mas não acredito. Acredito no aqui e agora, no que vejo e sinto e imagino e penso e adivinho, mas em aléns não sou grande crente. Aliás, não vejo sequer a modernidade como um inferno - não passa de um lugar cheio de merda com muitas coisas boas (cada vez menos? Não sei. Só quem tinha grandes ilusões sobre a humanidade pode estar desiludido com esta palhaçada toda. Eu tinha, mas não deviam ser assim tão grandes porque me apercebi rapidamente do que nos esperava. Pelo menos percebo melhor agora porque sempre estive ao lado, porque nunca fui «parte disto», nunca integrei um rebanho. Nem um grupo, sequer, quanto mais uma manada. Só não percebo porque me magoa tanto, como se estivesse em carne viva, como se o mundo se tivesse transformado em papel de lixa quarenta, como se isto tudo me fosse dirigido a mim, só a mim).

Enfim, não tanto. «Não há idade para ser feliz»? Não reparei sequer se tinha o circunflexo no a, quanto mais que empresa era... 

25.3.21

Acontece a todos

"Ler maus livros ajuda-me a detectar melhor as minhas falhas do que ler bons. Os bons livros reduzem-me ao desespero."

(William Gaddis, in ágape, agonia, ed. Ahab)

Um primário binário...

Aos sessenta e três anos descubro-me binário: gosto de portas ou abertas ou fechadas. Tudo, menos entreabertas.

Direito de cidadania

Não estará já na altura de conceder a «constatar» direito de cidadania plena? «Detalhe» concordo em manter no limbo dos estrangeirismos porque temos «pormenor», muito mais bonito. Mas «constatar» não tem equivalentes tão bons na nossa língua. Enfim, talvez «comprovar». Não sei. A verificar.

Ao engano

Metade de nós anda à ròla do tempo e a outra metade tem um leme e um rumo.

Ambas estão enganadas. É o tempo que passa por nós, imóveis como as colunas do Cais. São o rio e a luz, para cima e para baixo, que lhes dão forma e vida.

Estação terminal

A linha (de metro? De comboio? De autocarro?) "Amo-te" tem imensas paragens. Pergunto-me se terá um término e se sim, quando lá chegarei?

24.3.21

Baça, vida

A beleza baça de uma vida sem lustro. Talvez levá-la ao engraxador dos Restauradores, à frente dos correios. É muito bom e é surdo-mudo, uma vantagem para algumas vidas. Já o L. da rua das Portas de Santo Antão, ao lado da Ginginha Popular, fala que se farta; mas não engraxa mal. Não tão bem como o Surdo (é a alcunha do outro), mas enfim, merece gorjeta e tem a vantagem de podermos comer uma tira de  choco enquanto esperamos. 

Não sei. Talvez seja melhor manter baça a vida.

Falar do silêncio...

... Com palavras?

Redundância

Farto de transparência. Quero opacidade, obscuridade, certezas. Farto de dúvidas. Dai-me a escuridão da certeza, o seu caminho balizado, alcochoado, almofadado. Duvidar cansa. É tão bom, acreditar. Olhai bem para os olhos termos do crente, tão suaves. Quase mortiços. Creis que é por acaso, o "vida" de dúvida? Desenganai-vos. Será quando muito uma redundância. Cansativa, como todas as redundâncias.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 24-03-2021

Passeio grande por este fantasma no qual me sinto o único sólido. Tudo o resto são sombras, plasmas, sapatos Loubotin a mais de mil euros (e horrorosos, ainda por cima), um Rolls que parece um Porsche, relógios Franck Muller que nem o preço têm marcado, canetas no Brachard a mil e quinhentos francos. Bem vindo à terceira cidade mais cara do mundo, a cidade na qual se fundem Calvin, o Mediterrâneo e o resto do mundo - separados, antitéticos mas não conflituosos porque estamos na Confederação Helvética, ao fim e ao cabo - a cidade em cujas ruas os meus fantasmas se dissolvem a tal ponto que invadem o espaço e se transformam nele. 

As mulheres continuam lindas, mas agora menos porque têm de usar máscara nas lojas e nos autocarros; valem-nos as ruas, a nós estetas adeptos de Darwin. E vale-nos este dia lindo, azul do céu e branco da neve nos cumes do Jura, as ruas limpas, os tramways quilométricos, enormes tapetes voadores que de cinco em cinco minutos traçam silenciosamente um risco na cidade.

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Dia de B. vir cá jantar. Lulas recheadas e St. Saphorin. Parece-me uma boa mistura.

Monólogo do poço

- Isto da solidão é como um poço sem água.

- Não digas nada a quem não te ouve.

- A quem te ouve tão pouco digas o que quer que seja.

- Limita-te a cair por esse buraco abaixo.

- Um poço ao qual não sabes se caíste empurrado, se por acidente...

- ... Se por escolha. Não sei.

- O poço não tem água. 

- Isso já tu sabias, a meio da queda.

- Não sabia. Era uma hipótese.

- É bom confirmar hipóteses. 

- Deixei de te ouvir.

Primavera

Amanhã,  a temperatura vai subir para uns estonteantes dezassete graus. A mínima, porém, continua cá por baixo, nos dois ou três. O mar, esse grande atenuador, não chega cá. 

As máximas voltarão a descer, a subir, as mínimas também e um dia as mulheres sairão à rua sem os aprestos de inverno. Esse sim, será o começo da Primavera.