10.12.16

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 10-12-2016

Nada é simultaneamente mais simples e mais complicado do que uma espera. É simples porque não há nada que fazer; é um martírio porque não só não há nada que fazer como dependemos de terceiros.

W., o barco onde estou foi atingido por um raio antes de eu chegar. O equipamento eléctrico foi todo para o galheiro, claro, bem como a electrónica, as ferragens dos diamantes (dos dois lados) e talvez - não sabemos - o mastro e os brandais. Na melhor das hipóteses - se não tivermos de mudar o mastro - cem mil dólares; na pior duzentos. Os armadores tinham previsto gastar quinze mil.

Fiz um protesto aos seguros, claro. O caso era límpido: um raio na Flórida está muito longe de ser raro - é uma das regiões com mais raios do mundo, a seguir a uma ilha na Costa Rica - o barco estava atracado, os sintomas de raio não enganam. Os seguros começaram por aceitar, seguiram-se os trâmites habituais e toca de esperar uma resposta que só podia ser positiva.

Não foi: o barco estava seguro para as Caraíbas e portanto na Flórida estava fora da área de cobertura. Ou seja: não estava seguro.

Os armadores são inexperientes, não sabiam que um seguro marítimo tem áreas pela razão simples e irrefutável de que os riscos não são os mesmos em todo o lado. Lembraram-se, contudo, que a companhia de seguros lhes tinha exigido um Plano de preparação para ciclones (Hurricane Preparedness Plan em inglês, HPP daqui para a frente), o qual eles tinham naturalmente entregue e mencionava especificamente a Flórida como local onde o barco estaria durante a época dos ciclones.

É importante ver que a apólice tem a mesma data do HPP (23 de Junho. Isto é relevante porque a época de ciclones começa a 1 de Junho). Ou seja: a companhia de seguros vendeu um produto sabendo (ou devendo saber. Trata-se mais do que obviamente de um erro de um funcionário menor) que não era adequado às suas próprias exigências. Não há volta a dar-lhe: os seguros puseram o pé na argola.

Acontece que se há sector no qual a regra do caveat emptor se aplica sem a mais pequena flexibilidade é o dos seguros. Tem de ser assim: uma companhia de seguros que facilite sai do mercado em meia dúzia de meses.

Portanto neste momento o mar da companhia de seguros está a bater contra a rocha dos underwriters (que ainda por cima é a Lloyds de Londres, não muito conhecida por deitar dinheiro pelas janelas em casos em que não tem de o fazer). Duzentos mil dólares é uma pipa de massa para uma pequena companhia de seguros como a do W. Os armadores - que entretanto já gastaram o dobro do que tinham para gastar - disseram "acabou. Se quiseres ficar aí ficas com um per diem até se resolver o imbróglio dos seguros" (isto há aqui algumas elipses, mas o grosso da história é esta).

Decidi ficar por duas razões. Uma delas é que estes armadores já me tiraram de dois apertos e penso que agora chegou a altura de lhes pagar. O outro barco no qual trabalhei para eles acabou por ser vendido por uma soma ridícula devido à sua inexperiência (fazem-me pensar em focas bebés no meio de um bando de tubarões) e se tiverem de vender este ao menos que isso não se repita.

De modo agora só nos resta esperar que a companhia de seguros reconheça que errou. É como esperar que a Virgem Maria venha dizer aos pastorinhos que esteve numa orgia. Enfim, não tanto: ainda há uma probabilidade e é a essa que me agarro. Penso para a semana ter uma resposta definitiva.

Penso ou espero? Não sei. Para um marinheiro a clivagem entre pensar e esperar é muito muito ténue. Não haveria marinheiros se não fosse assim.

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Vou com o Ed do F.C. ao supermercado português de Pompano Beach. Uma hora de comboio (cada trajecto) para comprar morcela e vinho tinto decente. Há piores motivações.

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Quero definitivamente mudar de vida, mas a história do clima assusta-me. Não o aquecimento, benza-o Deus, que venha e depressa. Ao contrário: estão vinte e dois graus (diz a net) e tenho de pôr uma sweat shirt e meias porque estou cheio de frio.

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Ah, e café. Não esquecer o café.

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Ontem fiz beringelas recheadas no F. C. Ed diz-me que foi a melhor refeição do ano. Fiquei contente: é um gastrónomo, sabe de comida e tem sobretudo uma qualidade que aprecio cada vez que a encontro e infelizmente encontra cada vez menos - diz o que pensa. Quando cozinho e não gosta - ou não acha muito bom - diz-mo exactamente como me disse que aquelas beringelas estavam uma delícia.

Estavam: foram feitas com todos os éfes e érres, como se estivesse a fazê-las para uma senhora que me encantou. (Estava, apesar de ela não estar aqui. O encanto tem um raio de acção ilimitado, sempre teve).

A tapenade também não ficou má, mas sofreu um bocadinho com a má qualidade das azeitonas.

(Acrescentar azeitonas à lista).

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As previsões dizem que a frente vai ficar até segunda-feira, mas amanhã vem o sector quente e as temperaturas sobem. West Palm Beach fica a pouco menos de vinte e sete graus de latitude. Posso estar enganado, mas assim de repente devem ser uns dez a mais do que o que deviam ser. Ou então sou eu que tenho de me readaptar.

Não será difícil, penso. Ter frio é como não ter dinheiro: três meses suportam-se melhor do que três dias.

4.12.16

Morreu o Gotlib!

Diário de Bordos - Palm Beach Gardens, Flórida, EUA, 04-12-2016

Vim ao mercado (verde, naturalmente) de Palm Beach Gardens. Comprei aipo orgânico, claro, mais especiarias ao marroquino (chama-se Adriss ou lá perto), ovos directos da quinta. Há muita comida à venda e alguma deve ser boa (comi um dos melhores conch fritters de sempre), mas não se pode beber uma cerveja, beber um copo de vinho ou sequer provar um rum chamado Really Bad Rum de um produtor local (ou comerciante, não sei, não fui à página).

Para se habituar a viver aqui um gajo tem de se habituar a ser tratado como uma criança (hoje juro que vi escrito numa garrafa de água com gás num supermercado "product under pressure. Handle with care". Numa garrafa de água com gás das de três quartos de litro. "Handle with care". Não a comprei).

Fui comprar uma cerveja a uma loja perto do mercado e beber um café ao Dunkin´Donuts que lhe fica em frente. É sempre assim: uma coisa aqui, outra ali, uma terceira acolá. No fim tudo funciona: é um puzzle espalhado por quilómetros e quilómetros quadrados (o mercado fica a quase onze quilómetros da marina) e - como me dizia Del hoje de manhã -  pouco espesso, "ao contrário da Europa, onde tudo está muito perto e tem espessura".

O objectivo não é comparar a Europa aos Estados Unidos, obviamente. Seria como comer uma pera e achar que não sabe a ananás. É simplesmente habituar-me a isto, perceber os códigos, saber que o mais provável é ter de passar aqui mais dois ou três meses e mais vale saber ler o sítio onde estou.

Sendo que agora volto para bordo. Chega de leituras, descobertas e compreensões. Vou para terreno familiar. O resto é conversa de encher bexigas de porco.

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Já tinha ouvido falar de vacas e de galinhas felizes (aquelas numa garrafa de leite, estas numa embalagem de ovos). Hoje ouvi pela primeira vez a expressão "flores felizes". Eram girassóis, indubitavelmente bonitos, grandes, resplandecentes. Agora se estavam felizes ali em baldes em vez de na terra não sei, não tenho maneira de ajuizar.

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Alcatrão, cimento, palmeiras, relva, uma casa e um ou dois carros. É desta paisagem que Del e Steve dizem que não tem alma. Estão podres de razão. Nem alma nem corpo nem esqueleto nem ossos ou músculo. Não tem nada. Parece uma miragem, um desenho em três dimensões, um jogo de Lego, cenário para um filme de fantasmas, ilustração de um ensaio de Camus. Desde que não seja o Homem Revoltado, claro.

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 03-12-2016

Fiz finalmente o chilli con carne. Ficou bom: pelo menos tinha chillies, muitos e variados. Um dos tripulantes não conseguiu comê-lo por demasiado picante. Os outros gostaram. Foi um jantar bastante agradável. Falei de mais e eles também, o que sempre equilibra. Excepto o que não conseguiu comer: não abriu a boca o jantar todo. Não sei se por demasiado picada se por não ter nada a dizer.

Ao todo foi um bom dia. Confirmei a minha ideia de que "os americanos não sabem comer" é tão falso como "a terra é plana" ou "na América quem não tem dinheiro morre na rua". De manhã fui ao "mercado verde" (entre aspas porque a tradução é literal) de West Palm. Acreditem se quiserem, mas comprei meio Époisses, uma baguette e um pão com azeitonas (meio porque o preço era proibitivo).  Para quem não sabe: Époisses é um queijo francês da Borgonha. Se alguém um dia precisar de uma prova da existência de Deus (eu não preciso; sei que não existe, mas isso não é assunto que me preocupe particularmente) deve comprar um Époisses affiné au marc de Bourgogne. Não era o caso do que hoje comprei (felizmente, porque se fosse não teria podido comprar nem metade, a julgar pelo preço deste) mas um Époisses é um Époisses tal como eu sou marinheiro seja a embarcação à vela, a motor ou a remos. Comi-o no mercado, sentado no canteiro de uma árvore cujo nome desconheço mas que dava sombra, coisa bastante necessária por estas bandas. Depois fui beber um copo de vinho ao Palm Sugar, não fosse o diabo tecê-las. A posteriori é melhor do que numquam.

A seguir vim para bordo fazer o chilli. Comecei por fritar bacon, na gordura resultante refoguei os pimentos, os chillies, as cebolas, a carne (bifes que de tão ecológicos davam para vegans; estavam a preço de saldo e cortei-os aos bocadinhos). Tudo isto separadamente. Depois juntei tudo na panela, mai-los tomates e montes de salsa, os orégãos, paprika (fumada, comprada no mercado no stand de um marroquino) e cominhos comprados ao mesmo marroquino sorridente. Deixei cozer quatro horas. A inovação foram os cominhos: usei sementes em vez de moídos. Esta mutação vai ser adaptada.

Amanhã há outro mercado e é maior. Vou ter de lá ir, claro. Ainda por cima tem a vantagem de ser mais longe, qualidade não despicienda porque a) controla o peso do que trago, ou seja b) o respectivo custo e c) me faz ir mais longe.

Na bicicleta, quero dizer. Não sei quanto tempo se pode resistir sem carta de condução aqui.

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De maneira é isto: um gajo espera e desespera e de vez em quando deixa de desesperar mas não de esperar.

Não seria mau ver o fim da espera, com ou sem desespero.

2.12.16

Não quero saber

Não sei o que é a solidão e verdade seja dita: não quero saber.

Deve ser uma mistura do que foi e do que vai ser, não é?

Definição: idade

Idade: cada vez mais ossos a doer e menos carnes a dar prazer.

Outra vez

Não sei ser amado mas tenho quem mo queira ensinar.

Outra vez.

Morrer e continuar vivo

Beber de mais é bom: é como morrer e continuar vivo. 

Há quem discorde, claro: pessoas que não sabem nem o que é morrer nem o que é continuar vivo.

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 01-12-2016

Noites complexas. A ideia inicial era sair de bordo com a bicicleta, ir a Singer Island, daí passar a Palm Beach e depois voltar para bordo. Mal saí começou a chover. Pouco, mas a ameaçar muito. Fui a correr à loja de bebidas, comprei quatro miniaturas de rum e refugiei-me no Romana Pizza. Mal entrei começou a chover à séria.

A ideia (parte da inicial) era comer um Tiramisu, mas não havia. Havia Cannoli.

A chuva parou. Fui para Singer Island. Recomeçou a chover. Parei num bar. Aqui a cena do bar precisa de um post separado. Um americano obeso chef numa steakhouse - ou subchefe, precisou depois, quando lhe disse que ia lá visitá-lo u dia destes - cada vez que a polícia o manda parar (acontece parece frequentemente porque tem um Camaro SS, whatever that means) explicou-me que quando lhe pedem a carta de condução entrega-a juntamente com a sua licença de porte de arma escondida. "Eles têm que saber que estou à espera deles"). Isto e muito mais.

Deus sabe que não gosto de governos, mas daí até andar com armas porque "eles" vai um passo. Eles somos nós. Pelo menos nas sociedades democráticas.

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É um erro andar de bicicleta quando se está grosso, a partir dos cinquenta e nove anos de idade. Ou cinquenta e oito, vá.

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Esperar é pior do que morrer. Sei porque já experimentei os dois.

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Não há uma ponte entre Singer Island e Palm Beach. Ainda bem que choveu.

1.12.16

Confrangimentos e sem frangimentos

Há uns anos tinha uma série de posts nos quais brincava com algumas das minhas obsessões: o excesso de duches, a insuficiência de lavagem de dentes, o engraxar dos sapatos (sim, houve tempos em que andava com sapatos de engraxar), as gravatas (ditto).

Os posts eram mais ou menos assim (só encontrei este, mas há muitos mais):


Normas básicas de higiene

Aquando do douche trimestral não se deve esquecer, nunca, de se ensaboar bem a parte de trás dos pavilhões auriculares. Aliás, já o meu irmão mais velho dizia, sempre disse: "só há dois sítios que não te deves esquecer de ensaboar, nunca: o outro é a parte de trás dos pavilhões auriculares" (quando eu lhe retorquia que isso totalizava quatro sítios a ensaboar e não dois ele fazia um gesto largo com a mão - que muitas vezes encontrava, infelizmente, a minha cara no caminho - e perguntava teatralmente "que importa?". Deve ser daí que vem a pouca atenção que atribuo aos pormenores).

Ensaboar a parte de trás dos pavilhões auriculares é uma operação delicada que exige algum treino - a menos, claro, que a pessoa não se importe de misturar champô com sabonete; atitude essa que eu condeno, absolutamente: para além de ser uma espécie de pleonasmo emulsivo, indiciador sem dúvida de uma histeria latente, o sabonete pode, em alguns casos bem ilustrados pelo saudoso prof. Pfeiffer (sim: bisavô da Michelle) anular o efeito do champô -.

Dado que o regime de 4 douches por ano não fornece uma base prática suficiente para se treinar, sugiro aos meus digníssimos leitores que treinem os movimentos a seco duas ou três vezes antes de entrar na banheira. Em seis meses (ou dois douches) terão adquirido a capacidade básica para executar correctamente esta fundamental operação. Também se pode praticar em macacos, claro: aliás, até combina muito bem com o pentear dos bichos. Infelizmente esta prática está limitada aos guardiães de jardim zoológico e (de certa forma) a quem cuide de adolescentes, políticos, parlamentares e pessoas desocupadas.

Tenho uma extensa prática de douches (posso garantir que já tomei mais de uma centena, ao longo de toda a minha vida - se incluirmos os da infância, claro - ) e domino relativamente bem a técnica de ensaboamento da parte de trás dos pavilhões auriculares; contudo, como a minha aprendizagem foi empírica tenho uma certa dificuldade em transmiti-la. Sugiro se adopte o método físico mas eficaz do meu irmão mais velho, que Deus tenha e guarde com Ele bem guardado.

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Acreditem se quiserem, mas a um desses posts (não foi este, mas o tom era o mesmo) uma leitora reagiu no primeiro grau: acreditou que eu realmente só tomava quatro duches por ano (apresso-me a esclarecer os leitores - e sobretudo as leitoras - que não é verdade. Tomo pelo menos cinco, alguns anos até seis).

Orgulhosa, segura do seu valor de guardiã da higiene pública linkou o post (era na época pré-FB); poucos dias depois tinha uma série de comentários e trocas de mail que iam do furioso ("seu porco, não tem vergonha?") ao altruísta ("Luís Serpa, você devia lavar-se mais vezes, um duche de três em três meses pode trazer-lhe complicações para a saúde").

É confrangedor, não é? É.

Adenda: editei ligeiramente o post inicial.

Diário de Bordos - West Palm Beach, Flórida, EUA, 30-11-2016

Hoje pus, outra primeira vez, uma bicicleta no suporte de bicicletas do autocarro. Não é uma experiência por aí além, é de uma simplicidade assustadora. Experiência, essa sim, é andar nos autocarros americanos (enfim, americanos não. Em S. Francisco não eram assim). A primeira coisa que se vê é a clivagem racial: 95% dos passageiros são negros. A segunda é da ordem da saúde mental: tanto dos noventa e cinco como dos cinco restantes uma grande parte ou é doente mental ou tem problemas de droga, bebida ou sei lá, de relacionamento com o mundo exterior. O resto refugia-se nos telefones portáteis, abençoados sejam.

Eu olho, gosto de olhar. Hoje entrou um branco com a camisola de uma marina que fica entre a minha e a cidade. É uma marina reservada a mega-iates, mega-cara, aposto que o homem - cabelos encaracolados, tímido, olhos castanhos grandes, bonito - chegou aqui há pouco tempo e ainda não comprou um carro ou porque está ilegal ou porque ainda não recebeu o primeiro salário. Também gostei da condutora do autocarro, tão simpática, esperou que atravessasse a rua e deixou-me pagar só um dólar em vez dos dois habituais porque eu não tinha troco. Quando me vim embora disse-lhe "gostaria que os seus colegas fossem todos como você" e ela respondeu "obrigado, sir" e sorriu.

Não gosto de West Palm Beach, não sei se algum dia gostarei - espero que não, seria sinal de que estaria num lugar ainda pior - mas gosto destes momentos de empatia, de humanidade.

Que bom é andar de autocarro.

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O ping-pong com os seguros continua. Esta tarde mandei um puxanço ao qual eles não vão conseguir responder. Quem me dera fosse definitivo. Esperar é uma tortura, com ou sem fogão.

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Hoje não fui ao Catch, vim ao Sugar Palm, de onde escrevo. É mais barato e mais feio e a comida não é tão boa, mas na verdade tudo isso importa pouco. A única coisa que importa agora é pôr aquele barco em condições.

Gosto de refits, de trazer à vida barcos que parecem mortos.

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Comecei a trabalhar nas fotografias. Faltam-me dezenas delas, incompreensivelmente. Pode ser que um dia eu perceba porquê. Isto é: porque é que entre mim e a fotografia há esta ponte partida.

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"Em todos os casais há um que ama e outro que se deixa amar", dizia não sei quem. Às vezes pergunto-me se nessa dicotomia não serei dos que nasceu para amar e não sabe ser amado.

É possível, embora não desejável. Sou.

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Sonho com a simetria como um cego com a luz.

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Isto dito, sou o que sou. Detesto o que sou mas não saberia não o ser, mesmo que quisesse. Não quero: prefiro os diabos que conheço.

E Deus sabe que aos meus conheço-os bem, tão bem como se os tivesse feito.

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De uma coisa não tenho dúvidas: estou sozinho há demasiado tempo. São oito da noite e bocejo como se fossem quatro da manhã.

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Uma coisa mágica nas casas de banho dos restaurantes americanos é: nunca falta papel para as mãos. Não sei como é que eles fazem isto. Em Portugal quando há papel para as mãos num enrolador um gajo faz uma festa e chama o rei de Espanha ou o Papa (o que estiver mais à mão de semear). Aqui nunca falta.

30.11.16

Primeira vez

Esta noite o vento rondou a sul. Apercebi-me quando acordei a meio dela: os estores do camarote estavam bombados para dentro. É a primeira vez que tenho sul desde que cheguei.

A temperatura subiu bastante e voltei a adormecer.

Acaso?

Não é - não pode ser - de certeza por acaso que perplexo rima com sexo.

Fotração

Sempre tive uma relação complicada com a fotografia, desde o início.

Mas nada se compara à sensação de querer uma determinada foto e não a encontrar em lado nenhum.

Benguerua


Deixa-me explicar-te

Bom, deixa-me então explicar-te.

Nunca sei por onde começar. As palavras chegam aos molhos, impossível pegar-lhes uma a uma: dinheiro, chuva, solidão, rum. Acabei por ir comprar uma garrafa de rum, mas devia ter começado pelo silêncio, não é?

Ou pela chuva: voltei devagar para bordo, a bicicleta não tem guarda-lamas e de qualquer forma não estava com pressa, ia a pensar se comprava o rum ou não; depois meteu-se o dinheiro, com o rum e o vinho no Catch foi-se o ganho do dia, uma porra. A solidão tem um preço.

Chuva, dinheiro, solidão, desejo, palavras que vêm por aí fora descambadas, por muito devagar que um gajo pedale elas vêm destrambelhadas e tu a dizeres-lhes não quero nada com vocês, vão para a puta que vos pariu e elas nada, catapumba, aí vêm feitas chuva ou rum. Isto é: saltam-te para o colo sem tu saberes por que raio de carga de água não te obedecem.

Nada te obedece, não é? A chuva: cai quando quer; as palavras: não te largam; o dinheiro: deixa-te sem dizer água vai; a solidão; a liberdade; o vento. Essas merdas todas de que é feito o dia e se lhes juntarmos mais uns vislumbres disto e daquilo as noites também: tu, esta porra desta vontade de parar e esta impossibilidade de parar, como se entre ti e a vida houvesse outra merda qualquer e não há, só há a vida, a chuva, o dinheiro, a solidão, as palavras, uma bicicleta que volta devagar para casa, como se viesse sozinha e eu pendurado nela como por vezes me pendurava em ti, lembras-te?, a pedalar a pedalar a pedalar devagar, devagar, devagar para que nunca mais acabasse o pedalar.

Nunca mais acabou, verdade seja dita: estou para aqui numa rua de merda de uma cidade de merda e pedalo contigo em mim como pedalava quando estava em ti.

Penso numa fotografia que tirei há muitos anos em Inhambane, de maneira fui comprar uma garrafa de Flor de Caña, quatro anos, é a mais barata da loja e verdade seja dita não é mau, o rum. Sobretudo se não tiveres massa para o Mount Gay. Quero dizer: isto é uma metáfora para a vida. Pedalar devagar, amar devagar, gastar devagar e agora escrever de fugida, as palavras não te largam devagar.

Silêncio devagar.

Coitadas. Enganaste-as, não é? Como se tivesses alguma coisa a dizer.

Imagina as ruas lisas, direitas, sem princípio nem fim como o tempo, os carros a passar sem parar, vummmm, vummmm, vummmm, chuva (não chove; é água da chuva que está nas ruas) e tu a pedalar devagar.

Devagar. Devagar. Nada de precipitações. Olha para esta rua interminável, imagina que vês seja o que for como se fosse dia e diz-me: tens vontade de te precipitar?

Tenho.

(Para a R.)


Vazio

A esperança é um saco vazio que vamos enchendo. O desespero é o oposto: um saco cheio que não se esvazia.

Sou fraco. Prefiro o vazio.

Parecendo que não é esmagador

Parecendo que não o optimismo cansa muito. Mas o pessimismo ainda mais.

(O mesmo se pode dizer da luta: lutar cansa imenso; não lutar ainda mais. É esmagador).

Amanhãs

Foi num dia assim que ela pegou na vassoura e se foi embora. Isto pode parecer uma contradição: é noite, já o dia passou e passou depressa, montado numa vassoura ele também. Foram-se os dois, o dia e ela cada um na sua. Eu fico. Fico sempre. Não há vassoura que me carregue.

Mas há noites como a de hoje, quentes e ventosas. O vento é um afago, uma festa, uma carícia, uma promessa. O calor também. Juntam-se os dois e vão-se as bruxas e os dias ao som da música.

Sentei-me no canto da varanda que diz "No wake zone". Zona sem esteiras, sem vagas, sem perturbações.

Com bruxas e dias e vassouras, mas sem merdas. Só com amanhãs.

29.11.16

Fado, fácil

Porra, isto continua assim e acabo a gostar de fado. Alguém me daria uma vida mais fácil, por favor? Com menos fado, sei lá. 

Murros, aprender

É sempre assim: um gajo leva um murro, cai, levanta-se e responde.

Agora só falta aprender a não cair ou a levar murros mais fracos.

(Ou então deixar de gostar de responder, mas isso leva mais tempo. É coisa que só se aprende morrendo).

Pior

Vou ler Lucia Berlin. Há sempre quem esteja pior do que nós.

Descanso

Talvez seja altura de ter um bocadinho de descanso.

Não é. Nunca será. Aposto que quando estiver no crematório as chamas vão falhar.

Ninguém imagina

Quem me conhece sabe a admiração que tenho pelo regime político suíço. Essa admiração não nasce de um espanto com tudo o que é estrangeiro. Nasce de um facto simples: os políticos suíços não têm poder.

E isso é tão bom, tão bom que ninguém imagina.

28.11.16

Serviço público - restaurantes em Palm Beach

Voltei ao The Catch, de longe o meu sitio preferido em West Palm Beach. Não é um restaurante barato - foi depois de cá vir que me resolvi a escrever um post que há muito estava pensado sobre o custo (monetário) da solidão - mas a qualidade da comida, da vista, do local,  da música e o acolhimento bastante bom, honesto (agora, depois de ter escrito uma crítica não muito favorável no Tripadvisor) mais do que o justificam.

A crítica tinha a ver com o facto, para mim - e para todos os americanos a quem perguntei - tão inédito como desagradável de me terem debitado o piripiri que pedi (admitidamente muito, consequência a) de ser bastante bom e b) de não ser, na minha opinião, tão picante como a jovem empregada mo garantiu).

Ontem ou anteontem, não me lembro, a senhora prometeu-me que me faria um piripiri picante. Palavra dada, palavra honrada. Ontem  (ou anteontem) perguntei se podia cá vir ao fim da tarde só para beber um copo. Que sim, absolutamente, claro. (Este "só" merecia dois quilómetros de aspas, mas enfim). Hoje, a acompanhar o copo de vinho branco tenho rodelas de banana fritas e o molho picante mais delicioso e justamente forte que ne foi dado provar em muito tempo.

Não há sítios, como não há pessoas, animais ou coisas absolutamente maus. A questão é saber se os há absolutamente bons. Não creio. Mas tão pouco me importa muito. Poder apreciar o que se tem - sem cair na tentação baba cool do tout le monde il est gentil tout le monde il est beau e sem perder a energia de procurar melhor - é uma dádiva.

Que demorei muito tempo a apreciar - ou melhor, que só intermitentemente soube apreciar - mas isso é outra história, para outros locais com outras pessoas. (Ou com pessoas...)

Restaurante The Catch,
766 Northlake Boulevard,
Lake Park
Flórida, EUA.
+1 561 842 2180
www.thecatchseafoodsushi.com

27.11.16

Almoço improvisado - filetes de peixe em polme de ervas

O raio do peixe não havia maneira de descongelar. Pu-lo agora na frigideira. A receita vai já, ab ante, para não me esquecer. Se não ficar bom paciência.

Comecei por fazer um polme com coentros frescos, aneto, farinha (integral), um ovo, sumo de limão e um bocadinho pouco de vinho branco... Espera, não. Não foi por aí que comecei. Foi por fritar gengibre às rodelas num azeite esplêndido que tenho aqui a bordo (era tão bom que fui comprar outro mais adequado à cozinha).

Depois sim, fiz o tal polme e ao que está escrito em cima acrescentei paprika fumada (uma paprika fumada da McCormick que me faz adorar essa empresa para todo o sempre) e pimenta.

Agora está a fritar no azeite de gengibre. Quando acabar deito-lhe as rodelas do dito fritas, tomate e pimento verde cortados aos bocadinhos pequenos e ligeiramente salteados por cima e oops...

Aí vai. Já cá volto.

Estados Avisados

O pacote de bacon, vi hoje de manhã ao abri-lo, tem um aviso sobre como manusear bacon. O fogão (isso já tinha visto antes) vem com um aviso a avisar que pode estar quente.

Que seria dos pobres consumidores sem estes avisos? Uma mortandade, aposto.

Adenda: pergunto a mim mesmo se os boletins de voto vinham com avisos também. "Votar em Trump pode provocar-lhe um desgosto", "Hillary é má mas sempre é menos má do que Trump", "Votar em Jill Stein é inútil".


Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 27-11-2016

Ontem consegui finalmente comprar um fogão eléctrico. É uma porcaria de dois bicos [é pouco mas aqui entre nós seja dito é mais do que eu tenho] e aquece uma panela de água em menos de uma hora (se a panela for pequena. Grande não sei, ainda não experimentei). Resultado:  já vou na quarta chávena de café, Folie Noire que veio da Martinique, 100% Arábica do qual ainda tenho um pacote cheio, para além deste quase a acabar e o W. cheira finalmente àquela mistura de bacon, ovos estrelados e café que torna fisicamente impossível um gajo olhar negativamente para o dia que aí vem. Ainda não tenho luz no salão, de maneira ontem limitei-me a aquecer uns raviolis que o Ed me deu. Hoje o jantar vai ser igualmente simples mas já estou a afiar o dente para o almoço. Não quer dizer que tenho a vida normalizada, ainda não está. Enquanto não chegar a confirmação dos seguros nada estará normal. Mas bolas, um fogão de dois bicos é um gigantesco passo em frente.

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Morreu o Fidel Castro. A malta que defendia Mussolini por os comboios andarem a horas e Salazar por não haver regabofe está toda triste. Fidel encheu Cuba de escolas e médicos (que ultimamente usava como trabalho escravo para ganhar divisas, mas isso é outra história) e só por isso merece um lugar na história. Um lugar bom, entenda-se, na ala dos mártires da revolução, de quem sofreu horrores pelo seu país. Há muitos: para além dos já citados Benito e António temos o Pinochet, outro mártir, uma série deles na América do Sul, o Pol Pot... Tudo gente que melhorou imenso os respectivos países e fez frente à ira internacional (o do Pol Pot até foi invadido, veja-se).

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Não sou muito de acreditar em castigos divinos (ou seja o que for divino) mas por vezes pergunto-me se uma estadia em West Palm Beach não será castigo por não ter gostado de Galveston.

Aplico-me a ver tudo o que isto tem de bom, não vá o próximo ser pior ainda.

26.11.16

Objecções

Objecção contra a solidão: é caríssima.

(O mesmo se poderia dizer do altruísmo, mas seria uma tautologia. Se não fosse caro não seria altruísmo, seria outra coisa qualquer).

Pequeno manual das interacções sociais no séc. XXI

  • Proselitismo: expressão de opiniões com as quais não concordamos.
  • Tolerância: aprovação das opiniões das quais não discordamos.
  • Tolerante: diz-se de uma pessoa que aprova a expressão de opiniões com as quais concorda.
  • Democracia: sistema político aceitável quando os resultados são favoráveis ao lado que pensamos ser o melhor. Discutível no caso contrário.
  • Inteligente: uma pessoa que pensa como nós.
  • Burro, desonesto intelectual, estafermo: pessoa que tem opiniões contrárias às nossas.
  • Diálogo: conversa interessante que se tem com pessoas inteligentes (cf. supra).
  • Monólogo: tentativa geralmente falhada de explicar a quem não pensa como nós que está enganado (ditto).
  • Neo-liberalismo: ideologia professada por quem quer o mal de outrem. Um neo-liberal pensa (isto é, se um neo-liberal pensasse pensaria) que a humanidade deve ser constituída por ricos, cuja riqueza proviria única e exclusivamente da apropriação indevida dos bens de outrem, sendo outrem os noventa e nove por cento de que falaria a Bíblia se a Bíblia falasse de percentagens e - sobretudo - não fosse o livro favorito dos católicos, cristãos e outros reacionários crentes. (Os muçulmanos são crentes e reaccionários mas isso é compreensível e aceitável porque são muçulmanos). 
  • Liberalismo: forma aceitável (e anterior) do neo-liberalismo. Infelizmente os liberais transformaram-se todos em neo-liberais, provavelmente uma noite de Lua Cheia. Ou Nova. Ou assim.  
  • Liberdade: aquilo que as pessoas inteligentes (cf. supra) pensam que é bom para todos os outros, excepto os burros (ditto).
  • Ler, aprender, compreender: antigas técnicas de persuasão, desenvolvidas por pessoas que não percebem o que é a liberdade (cf. supra).
  • Conversar: actividade apaixonante quando partilhada com pessoas que pensam como nós e maçadora quando os interlocutores não partilham as nossas opiniões.
  • Pessoas: seres humanos ou outros animais que pensam como nós.
  • Animais: pessoas que não pensam como nós.
  • Cultura: diz-se da aprendizagem de ideias correctas. Exemplo: "Aquele gajo é culto": aquele gajo pensa como eu.
  • Ideias correctas: as nossas ideias. 
  • Ideias incorrectas: todas as outras.
  • Oxímoro, redundância: conceitos demasiado complexos para os tempos modernos. Grosso modo pode definir-se um oxímoro como a expressão de duas ideias contraditórias na mesma oração e redundância como o seu contrário. Por exemplo (oxímoro): aquela pessoa não pensa como eu. Ou (redundância): aquela pessoa é inteligente.

Diário de Bordos - West Palm Beach, Flórida, EUA, 25-11-2016

Esperar é um horror; e quando da nossa espera dependem outras esperas pior ainda. Não posso fazer nada: é como estar no meio de uma calmaria da qual só sairei quando entrar vento. Não posso fazer nada.

Excepto pedalar, claro. Farto-me de pedalar por esses passeios fora (o sítio habitual para as bicicletas aqui é o passeio, o que calha bem porque a) nunca têm ninguém e b) são largos e bem pavimentados. Infelizmente são também uma seca sem qualquer espécie de interesse, mas isso fica para depois ou já vem de antes, não sei).

Seja como for pedalo. Mais de vinte quilómetros por dia, na burra de montanha de bordo (outra seca: dupla suspensão e guiador com um metro de largura. Paciência. Mais vale isto do que nada).

As ruas são chatas, monótonas, intermináveis e vazias como a cabeça de uma mulher burra ou um homem sem amor.

En attendant, j'attends. Horror dos horrores, desespero dos desesperos.

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A espera é um buraco negro: aspira tudo o que lhe passa perto. De que falar, quando se espera?

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Jogo ao gato e ao rato com a solidão; quem ganha?

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Quarenta e um anos. O vinte e cinco de Novembro foi há quarenta e um anos. Não sei o que pensar: acabou um circo, mas o circo não acabou. Continua cheio de palhaços.

25.11.16

Maçadas

O tempo está maçadoramente bom. Já nem frio faz.

Perguntas velhas, respostas recentes

Tenho pensado nisto muitas vezes e há muitos anos, mas só hoje sinto que dei um passo em direcção à resposta.

Cheguei a Lisboa em Outubro de setenta e quatro e pouco tempo depois - digamos um ano - tinha um grupo de amigos cujas opiniões políticas iam da extrema-esquerda à extrema-direita. Encontrávamo-nos regular, frequentemente. Para jantar, para passar fins-de-semana juntos, para ir ao cinema ou a um concerto.

O grupo durou até para lá dos anos oitenta. Chegou aos noventa, antes de nos dispersarmos todos demasiado (ou pelo menos eu).

As divergências políticas entre setenta e quatro e noventa e poucos só não eram resolvidas a murro porque éramos amigos. Eram resolvidas a gritos, insultos, murros nas mesas, mais insultos, mais gritos, mais murros nas mesas, mais insultos. Quando o tema se esgotava diluíam-se numa imensa amizade e naquilo que nos unia (eram muitas, as coisas que nos uniam. Iam da comida à filosofia passando pelo vinho, literatura, miúdas e essas coisas todas que fazem da vida vida e da morte uma merda).

A primeira vez que me apercebi de que o mundo não era todo assim foi quando me mudei para Genève, em oitenta e três: as pessoas agrupavam-se em função de afinidades políticas e a minha visão das coisas - já então liberal - era mal vinda (por razões que agora não vêm ao caso a maioria das pessoas que conhecia era de esquerda). Mas o grupo em Portugal - onde vinha frequentemente - ajudava-me (ou enganava-me): a convivência com opiniões divergentes é não só possível mas também desejável. Afinal de contas aprendemos mais com quem de nós discorda do que com quem pensa como nós, quanto mais não seja quantitativamente (isto é ironia, não vá dar-se o caso de alguém não perceber).

As coisas mudaram em Portugal e no resto do mundo e a pergunta que me aparecia sem que eu a convocasse era sempre a mesma: o que mudou? Porquê?

Creio que há várias respostas, como sempre. Paradoxalmente, uma delas é a internet. Quando eu discutia com os meus amigos éramos um grupo relativamente fechado, limitado. Quando muito acontecia juntarem-se a esse grupo, ou a parte dele, amigos de um de nós e a conversa estava sempre limitada a esse conjunto. A internet alargou o âmbito do diálogo: todos falamos com todos. O Facebook alargou o conceito de amigo - tanto que o diluiu, de resto, mas isso é outra história -.

Por mim tudo bem. Choro mais facilmente pelo futuro que aí vem do que pelo passado que se foi. Mas não deixa de ser agradável encontrar a resposta a perguntas velhas de décadas.

(Se bem, admitidamente, o assunto não esteja fechado. Porque é que na Suíça dos anos oitenta, quando não havia internet, as pessoas se agrupavam em função das afinidades ideológicas e não aceitavam - salvo raras e honrosas excepções - opiniões divergentes? Fica para outra vez).

23.11.16

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 22-11-2016

Não sei se é isto ser velho. Se for é bom. Já não consigo ver uma mulher com metade das mamas à vista, apertadas num soutien que tem metade do tamanho que devia ter e o decote como os calções dos idiotas que os usam abaixo das nádegas. A vulgaridade horroriza-me cada vez mais. E coroada pela voz mais irritante que me foi dado ouvir nos últimos duzentos e trinta anos: aguda, alta, histérica, estúpida.

"Que queijo quer no seu cheeseburger?" pergunta-me a voz.
"Que queijos tem?"
Debita uma lista de queijos entre os quais "Swiss cheese".
"Que queijos suíços tem?"
"Não percebo a sua pergunta. Queijo suíço é queijo suíço". Sublinha o é, não fosse eu não perceber.

O bar - é de um tamanho regular, nem demasiado grande nem demasiado pequeno - tem dez ecrans de televisão à volta, dos quais um gigantesco, um grande (imediatamente por cima daquele) e oito "normais" (espero que ninguém me pergunte o que é um écran de televisão normal. São os que não me parecem nem gigantescos nem minúsculos).

A mulher ao meu lado - sozinha, bonita, trinta e muitos ou quarenta e poucos, vestida correctamente - bebe cerveja pela garrafa.

Tirem-me daqui! (mas não me perguntem onde é aqui).

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A temperatura à noite e de manhã cedo tem sistematicamente estado abaixo dos vinte graus. Pouco abaixo, é certo (dezoito, dezanove) mas o suficiente para eu ter de pôr uma manta por cima do lençol e ter frio de  manhã quando vou tomar o pequeno almoço.

Será que estou com o frio como estou com a ordinarice? Espero que não.

18.11.16

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 17-11-2016

Fui ao Publix comprar rum, cigarros e chocolate. Não vejo razão para poupar o corpo quando o resto está na merda.

Enfim, seria preciso acertar os pormenores, se quisesse ser preciso: o que é o resto? (Não sei). O Publix vende rum? (Não, mas perto há uma loja que sim). O rum é merda? (Não. É Flor de Caña 4 anos, a coisa decente mais barata da loja).

Estes pormenores parecem insignificantes, irrelevantes mas não o são. Verdade seja dita: tão pouco quero ser preciso. O chocolate era uma merda mas arrefinfei-lhe rum e ficou melhor. Os cigarros são assim assim. De qualquer forma não sei distingui-los. O rum é rum, tal como merda é merda.

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Nunca gostei de doxas, mas a actual parece-me a pior de sempre. Cada vez me sinto mais longe da horda. Não sei se sou eu ou ela quem está errado e pouco me importa. Nunca fui de rebanhos, nem quando eles eram quase aceitáveis. Pelo menos comparados aos de hoje, insuportáveis, fedorentos, a cheirar a cueiros mal lavados.

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Fui parar a um site que fala de especialidades israelitas "para além do hummus". Uma delas é a boureka (a qual como o hummus não é israelita, é mediterrânica, de passagem seja dito).

Mas que saudades, meu Deus, que saudades das börek (como ele as grafava) de um bar de Carouge cujo nome esqueci onde ia buscá-las quando trabalhava no Marchand. Recheadas com espinafres e queijo, finas e estaladiças, uma delícia.

Mare nostrum? Não: mar de todos, mar da vida, mar de sempre.

(O que me leva a pensar nos sítios que são de per se uma viagem, como é Genève ainda hoje e era há trinta anos.)

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Oiço os Carmina de Orff mas o computador não tem volume, que substitui a essência na música que a não tem. Ou lhe esconde a ausência.

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Tudo isto porque hoje comi um hummus bastante aceitável num bar em West Palm onde fui com o Ed. E tacos de carne, com os acessórios todos, incluídos nos preços das bebidas, as quais tinham uma redução de um dólar por ser happy hour. Jantámos lá, tacos e hummus e em prémio bebi duas pint de Smithwicks, a melhor cerveja do mundo e arredores.

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Devo ter nascido a gritar "Tirem-me daqui"; mas não sei se era do ventre de onde tinha acabado de sair se do quarto de hospital ao qual acabara de chegar.

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Leio finalmente A Manual for Cleaning Women, de Lucia Berlin. Pergunto-me como consegui chegar a esta idade sem nunca sequer ter ouvido falar dela. A literatura devia ser assim toda: quanto maior o horror que descreve melhor se passa de adjectivos.

Nunca me interessei muito pelas biografias dos autores de que gosto (salvo excepções: Jack London, Beckett, Hemingway). Mas de Lucia Berlin gostava de saber mais. Como é possível descrever o ódio tão singela, linearmente, tão sem floreados, sem digressões?

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A audição atenta da terceira composição das Vésperas de Rachmaninov (na versão de Paul Hillier, a minha favorita), Blessed is the Man não responde cabalmente à pergunta anterior mas ajuda a preencher o vazio da ausência de resposta.

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É provável que uma boa definição operacional de amor seja "quando não há diferença entre amar e amar-te". Talvez. Não sei. Sou homem de poucas certezas.

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Lembro-me de The Sea, The Sea e quero relê-lo. A mistura de rum, chocolate, cigarros e Rachmaninov não substitui a ausência dos livros e de um corpo.

Corpo? Cheira-me a sinédoque. A minha figura de linguagem favorita é o oxímoro, convém não me esquecer.

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O meu corpo já não é o que era? Não. Mas o resto está melhor.

(Continuo sem saber o que é o resto. Tal aquela parte de mim à qual o chocolate não chega e a música sim).

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Hoje numa discussão facebookiana mencionei John Stuart Mill e a senhora com quem discordava (gentilmente, na minha opinião) respondeu-me com Bruno Nogueira. É de uma violência inaceitável, não é?

17.11.16

Memorandum

Pelos tempos que correm não é infelizmente supérfluo lembrar às hordas, às polícias do pensamento, aos guardiães da doxa que um senhor chamado John Stuart Mill escreveu no séc. XIX - foi publicado em 1859, já lão vão mais de cento e cinquenta anos - um livro chamado On Liberty. Em português chamou-se Ensaio sobre a Liberdade, se não estou em erro.

A leitura desse livro devia ser fortemente sugerida por qualquer pai que tenha filhos adolescentes aos ditos cujos.

A quem já passou a idade e não teve pais assim: ainda vai a tempo. Corra para o seu computador e faça o download aqui (em inglês legível. Por sorte deles os ingleses não têm acordos ortográficos).

País de plástico

Um gajo vai almoçar. Começa com um bocado de fruta no Walgreen's. Está numa embalagem de plástico. Depois vai ao fast food em frente: pratos, copos, talheres, bandeja: tudo em plástico.

É um país de plástico. Deviam começar por aqui, antes e se preocuparem com o plástico no Pacífico. 

Pequenos pormenores sem importância

- Está frio. Tenho de me tapar. Felizmente um lençol chega. Descobri que os lençóis com elástico são ainda melhores para cima do que para baixo. Não nos deixam destapados. (O plural não é majestático nem adequado. Talvez empático. Ou enfático).

- Os ciclistas circulam pelos passeios. Faz sentido: há poucas faixas para bicicletas e nos passeios não há peões. É raro cruzar-me com alguém a pé .

Mas ontem passei por um cavalo. Ia pelo passeio, como eu. Monta western, elegante, confortável, com estribos que pareciam plataformas de petróleo e uma sela que não ficaria  mal numa sala de estar à frente de uma lareira. O bicho era um bocadinho magro de mais para o meu gosto. Ultrapassei-os, disse-lhes olá, como é habitual aqui entre ciclistas (os do passeio. Os que andam pela rua cobertos de Lycra não dizem nada a ninguém). O cavaleiro respondeu-me com um aceno e um sorriso.

- Jantar no F.C. Carne de porco no forno com mostarda e salsa.O Ed gostou e eu que ele tivesse gostado. Falamos de tudo mas acabamos sempre na cozinha. Ed trabalhou muito em restaurantes, de empregado de mesa a cozinheiro. Cada vez que me lembro que "Os americanos não sabem comer" penso em Ed. Tem bom gosto, estudou teatro, cantou em coros, é um amador e conhecedor de vinhos. "Além de não saberem comer são incultos". Além de tudo cozinha bem.

Posso estar farto desta vida, mas enquanto me der a conhecer pessoas como o Ed estou-lhe grato. Para sempre.

- Ontem caí da bicicleta. Nada de grave, mas aterrei nos braços (felizmente. Significa que não caí desmaiado, como em Lisboa). Hoje mal os consigo mexer. Caí mais em 2016 do que nos anos todos entre 2000 e 2015: quatro vezes. Duas eu e duas a burra. Estas últimas não podem sequer classificar-se de quedas. Falhas de equilíbrio, digamos. Estava parada e desequilibrou-se. Eu caí porque estava em cima dela. Hoje não foi bem assim .

Travei bruscamente com os dois travões, a bicicleta parou e eu continuei. O arco de círculo que descrevi deve ter sido perfeito.

Um hino à inércia.

16.11.16

Certezas, dúvidas.

Tenho algumas certezas, poucas; é nelas que vêm ancorar as minhas inúmeras dúvidas.

O que ela me dizia

"Sobretudo não te apaixones por mim", sussurrava-me enquanto fazíamos amor. Desobedeci-lhe parcialmente: apaixonei-me por outra.

Devia ter feito tudo o que ela me dizia e não só metade.

De que é feito um dia?

É um cimento feito dos dias que foram, do dia que é e daquilo que esperamos dos dias que vêm. Cimento frágil, incerto, inseguro mas cimento: é ele que segura os dias de que a nossa vida é feita.

15.11.16

Milímetros de raio

Quando se vive ao milímetro o mais pequeno raio pode mandar todos os planos por água abaixo.

História de um raio

Esta tudo alinhavado. Veio um raio e desalinhavou tudo.

Raio de história. Raio de vida. Raio de raio.

Há coisas que um homem faz sozinho

Por exemplo, dilapidar dinheiro a construir um céu onde ardem os demónios.

É óbvio que isto não é dilapidar dinheiro.  É saúde, é como queimar calorias, ginástica - mas para a alma. Ou para a tristeza, vá. A alma é outra coisa. Queimar demónios. Como os demónios vivem no inferno ardem no céu.

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Entrei no Hullaboo por causa da voz da cantora. A qual senhora é o contrário da outra. Tem mamas pequenas e o cabelo todo quase da mesma cor. De resto é magra e canta muitíssimo bem, com uma voz rouca, quebrada. Às vezes não percebo bem o que canta, mas não faz mal. Ninguém quer perceber tudo o que lhe dizem, muito menos o que lhe cantam.

Quando se cala para uma pausa vêm Cohen, Dylan e outros cuja música reconheço mas de quem esqueci os nomes.

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O meu Pai dizia que se deve beber sempre um número par de bebidas, sob pena de se voltar a coxear para casa.

Está frio no bar. Não sei se lhe vou seguir o conselho.

Segui. Gosto desta ideia de criar um céu para queimar demónios. São coisas que se fazem sozinho, não são?

Estados Avisados

Não há um objecto, um lugar que não tenha um aviso sobre os perigos que encerra - o café está quente, o chão escorregadio, a comida mal cozida pode provocar doenças -.

(Excepto, suponho, as armas. Não as imagino a serem vendidas com avisos do género "não usar nas escolas nem em lugares públicos. Podem matar crianças e inocentes").

Sub-café, diluições

Qualquer homem normal (isto é objectivo - piada privada) gosta de mulheres magras com mamas grandes. É como o grão de café no cappuccino, a rodela de ananás num bife de fiambre ou um bocadinho de brandy na mousse de chocolate.

Mas a que acabou de passar é de mais nas duas: demasiado magra e mamas demasiado grandes. O que é de mais enjoa, querida. E esse cabelo louro platinado com as raízes pretas não ajuda.

Menos silicone e mais bom senso, diluídos em menos tinta para o cabelo teriam feito milagres.

Rir, chorar

É a história de uma palhaça que tinha dois parceiros no circo: um pedia-lhe dinheiro e o outro amor. Ela não tinha nem este nem aquele, pelo menos nas quantidades que os parceiros queriam. O espectáculo construía-se em torno de uma escada e de um espelho: quanto mais a palhaça descia mais parecia subir; quanto mais subia mais descia.

Foi despedida do circo. Os palhaços servem para fazer rir e não chorar.

Diário de Bordos - West Palm Beach, Flórida, EUA, 14-11-2016

O Google Earth diz-me que andei seis quilómetros. Eu que andei uma vida ou duas. Não sei qual de nós terá razão. As vidas não se medem aos passos. Acabei no Clematis Pizza a comer uma lasanha no limite do suportável e no Subculture a beber um café demasiado curto para ser bom. E sem pires, ainda por cima. Detesto que me sirvam o café numa chávena sem um. Não o faço em casa, como gostar que mo façam num sítio onde pago três dólares por um expresso?

Enfim, verdade seja dita: não pago três dólares pelo café. Pago talvez um e meio. O resto é o hype: a boa música, as miúdas giras, as pessoas agarradas cada uma ao seu computador (Apple, esmagadoramente), o professor que à minha frente corrige provas.

E pago também uma desculpa para não ir de autocarro para a marina. Acabo de o perder. Agora só táxi.

Parecem os de Lisboa: cheiram mal, roubam, são mal-criados. Qualquer dia tenho uma conta da Uber, não tarda.

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Seis quilómetros  em hora e meia. Não admira que tenha gostado tanto do passeio.

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A cidade é horrível. Ou há eixos principais com cinco faixas de rodagem, passagens de peões de vinte em vinte quilómetros (e nas quais a luz fica verde vinte milisegundos) ou ruas residenciais, sem iluminação para além da luz dos alpendres das casas que as ladeiam, todas iguais e sem o menor interesse.

Hora e meia de marcha que me puseram as ideias quase no lugar. Têm sido difíceis, os dias. Chatos, destrutivos, longos. Ainda bem que não trouxe a bicicleta, como tinha pensado fazer. Era de andar que estava necessitado.

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Infelizmente já não posso dizer que o clima me é indiferente nas escolhas de vida. Não é. Morro de vontade de conhecer melhor a Escócia, de a conhecer a fundo. Cinco meses.

Mas depois vem-me à memória aquele dia de princípios de Agosto em que sa´í do avião em Inverness e a temperatura era de nove graus centígrados. Nove. Dia poucos de Agosto. Faz pensar, não faz?

14.11.16

Aprender

As pessoas não aprendem. Passo a vida a ouvir isto: as pessoas não aprendem. Claro que não. Se aprendessem ninguém perceberia Aristóteles, as tragédias gregas ou os clássicos latinos.

E isto porque os gajos das cavernas não sabiam escrever.

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 13-11-2016

Um gajo sabe que as coisas estão mal quando prefere as Carmina Burana do Orff  (preferir não é o verbo adequado. Precisar é) e sabe que tudo está no lugar quando acha aquela merda perfeitamente enjoativa e volta às do Clemencic.

Tive de fechar as portas do salão porque há um concerto na marina e a música é indescritível de má e alta. Má música nas marinas devia ser proibida. Por má música entendo, nos dias como o de hoje, tudo o que tenha sido composto depois do Séc. XII.

Excepto se acompanhado pelas porções correctas de rum, mas isso é coisa que só daqui a bocado se verá. Tal como: quanto tempo aguentarei o calor?

.........
Passeios de bicicleta, finalmente. Muitos, de dia e de noite. Não é bem que isto seja feio. É mais ser entediante. Aborrecido. Chato como a potassa.

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Estou-me nas tintas para o Trump, Fiz um amigo aqui que tanto se me dá ser americano (do Utah) como chinês ou mexicano. É um gajo porreiro, ponto. Tenho comido muito mal quase sempre e por vezes muito bem. Hoje paguei oito dólares por uma cerveja medíocre. Estou há cinco semanas em West Palm Beach e qualquer dia sou daqui.

Não sou. Nunca serei. Sou europeu. A Europa é o meu planeta, Portugal o meu satélite. O resto nem paisagem é sequer.

12.11.16

Distância

A única mulher que me aguenta - ou eu aguento, vá saber-se - é a distância. Tem pelo menos a vantagem de nunca se afastar muito de mim.

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 11-11-2016

É preciso começar por dizer - dirigido sobretudo àqueles que gostam de viajar, coitados - que West Palm Beach é uma cidade detestável. Talvez não seja bem a palavra, mas não devemos embrenhar-nos por essas veredas. Explorá-las não leva a lado nenhum excepto talvez ao horror, se lhes encontrarmos o fim.

Fui jantar com o Ed ao Bar Louie e até ver a conta o jantar foi uma merda. Depois ficou a coisa mais perto da abominação total que comi em muitos muitos anos. O poder mágico dos números. Pensámos que um café resolveria talvez a coisa e levei-o ao Subculture, onde ele nunca tinha estado.

Fiquemo-nos por aqui. Não quero começar uma espécie de Apocalipse Now gastronómico.

Mais vale voltar para bordo, retomar a garrafa de Flor de Caña onde ontem a deixei (quase cheia) e Leonard Cohen onde ele ficou: no princípio, no meio e no fim.

"O you've seen that man before
his golden arm dispatching cards
but now it's rusted from the elbows to the finger
And he wants to trade the game he plays for shelter
Yes he wants to trade the game he knows for shelter.
"

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Foi Leonard Cohen quem me fez ver que há mais no amor do que aquilo que está à vista. Ou melhor: que se o amor se resumir àquilo que está à vista não vale nada.

Daí para a vida não custa. É uma evidência.

........
A empregada do Kafe Hub (sic) - o sítio onde tive o privilégio de beber o pior café expresso da minha vida, uma proeza para quem, como eu não gosta muito de café expresso - não pode levar os cafés à mesa. "Está quente", explica. Alguém um dia definiu a loucura como sendo a razão levada ao extremo. Não sei se a loucura é um extremar da razão, mas o ridículo é sem dúvida nenhuma.

O excesso de bem é uma palermice, o de mal uma tragédia. Antes aquele. E que a mulher não se queime, coitada. É jovem e gorda, duplo desperdício.

........
O progresso, o bem e a razão são a Santíssima Trindade do mundo moderno. Apesar de não ser religioso prefiro a original. Feitas as contas terá de certeza feito menos mal.

11.11.16

Amizade

Gosto demasiado dele para lhe dizer o que penso dele.

Flor de Caña, Leonard. Para quem é nada chegaria, fosse o que fosse; não é, Jacques?

Fui comprar rum. Uma bicicleta a funcionar muda a vida e a morte, está a ver-se agora. A  liquor store do Walgreens fecha às nove da noite. E ainda chamam eles àquilo uma farmácia. Ontem fui lá comprar Voltarene e disseram-me que só com receita médica.

Acabei na store ao lado. Flor de Caña quatro anos. Não vale um Mount Gay mas a diferença de preço é mais do que justificada. E de qualquer forma a ideia é beber um rum, não é beber vinte. O sacana do Leonard finou-se.



Não estamos na Primavera, estamos no Outono. E sim, vais de certeza tomar boa conta da minha mulher, quando ela for para onde estás agora. E sim, vamos rir e dançar e ir pró buraco, Jacques.

Did you ever go clear?

Até que enfim que o sacana morreu, porra. Estava à espera deste dia há tanto tempo.

Eu também tentei e posso dizer que consegui. Graças a ti, em grande parte.



Like a bird on the wire
Like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free
Like a worm on a hook
Like a knight from some old-fashioned book
I have saved all my ribbons for thee
If I, if I have been unkind
I hope that you can just let it go by
If I, if I have been untrue
I hope you know it was never to you
For like a baby, stillborn
Like a beast with his horn
I have torn everyone who reached out for me
But I swear by this song
And by all that I have done wrong
I will make it all up to thee
I saw a beggar leaning on his wooden crutch
He said to me, "you must not ask for so much"
And a pretty woman leaning in her darkened door
She cried to me, "hey, why not ask for more?"
Oh, like a bird on the wire
Like a drunk in a midnight choir
I have tried in my way to be free

Goodbye, Leonard

Não costumo ligar muito às manifestações de pesar (por vezes quase parecem de regozijo) pela morte de alguém. Todos nós morremos, até o meu Pai e a minha Mãe (por esta ordem).

Acabo de saber que Leonard Cohen morreu. Tenho passado por dias dificeis e estou talvez hiper-sensível, vulneràvel, frágil (se alguém me puder dizer quando não estive assim durante, digamos, um período superior a três meses agradeço).

Leonard Cohen morreu. Todos sabíamos que estava quase. É uma má notícia, não é uma surpresa. É pior do que uma surpresa, é uma certeza. A confirmação de uma certeza. E logo hoje, que não tenho rum a bordo, a única coisa que ajuda a diluir surpresas e certezas.

Ficam duas canções para uma senhora que provavelmente não me lerá e se ler não saberá que são para ela.



Sugestão

Uma forma particularmente violenta de tortura é tirar a vítima das tenazes, do fogo, da roda, da - para os mais cinéfilos ou maratonistas - cadeira do dentista e deixa-la sem nada.

Nada: sozinha, sem frio nem calor, sem fome nem desejo, sem luz e sem frio, sem certezas nem - oh quão pior - dúvidas, sem sede, vinho, luz, vontade, café ou uma pele que substitua a sua, magoada e vazia.

9.11.16

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 08-11-2016

Cheguei a Lisboa há mais ou menos seis meses. Vinha de Cabo San Lucas, de uma viagem horrível, decidido a mudar de vida. Ao princípio tudo correu bem, demasiado bem. Foi em Setembro que as coisas se complicaram. Depois ficaram bem outra vez; depois mal; depois bem; mal; bem; mal... a série parece não ter fim e oscila entre estes dois pólos, não como um pêndulo que passaria por todos os pontos intermédios, mas como dois gatos de Schrödinger assanhados, vivos e mortos ao mesmo tempo, sem estados intermédios. Ou três, ou quatro gatos, como os Vietnam do outro.

Estou exausto. Começo finalmente a ver uma luz ao fundo do túnel. Ainda é pequena e tremelica, mas é luz. Estou exausto.

........
Ontem fui jantar com a N. S., uma das poucas pessoas que admiro realmente. Veio a Miami fazer uma palestra sobre a sua experiência. N. é alemã; era responsável pelo marketing de uma dessas empresas do Mittelstand. Um dia comprou barco no Panamá que estava num estado mil vezes pior do que lhe tinha sido dito. Reparou-o todo, ela própria porque não tinha dinheiro para pagar a quem lhe fizesse o trabalho.

Somos amigos. Há três mulheres no mundo que amo de amor amigo, de amor amado. N. é uma delas. Com ela um dos gatos está vivo.

.........
Trump está à frente. Ainda é muito cedo, claro e estes resultados não querem dizer muito.

Enfim, dizem: há milhões de americanos mais saloios do que o mais saloio dos portugueses.

6.11.16

Subir, cair

É verdade que para quanto mais alto apontares de mais alto cais. E mais tempo duram a subida e a queda.

4.11.16

Impossível, vida

A convivência comigo próprio nunca foi fácil; quando as condições exteriores se aliam a mim com o objectivo de me fazer a vida impossível a coligação ganha.

En passant

Pequena nota de passagem: o bar Louie fica à frente do teatro onde agora se apresenta a peça "The Night of the Iguana". A qual peça tem bilhetes a sessenta e seis dólares. Sessenta e seis.

Bolas, a realidade não precisa de se exibir tão provocadora e trocistamente cada vez que venho jantar.

3.11.16

Velhice

Um dia envelheço e não aceito trabalhos em barcos com menos de setenta pés.

Vida, verdade, exagero

Verdade seja dita que aqui não se diz a verdade. Só mentira. Sem uma não existe a outra, de qualquer forma. Como se o mar não tivesse barcos ou o céu nuvens. Como se a música existisse sem Karen Dalton, que exagero. A vida.

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 02-11-2016

Várias coisas há que é preciso reconhecer.

Todas elas brevemente:
-A política portuguesa é uma escolha entre aldrabões e castrados. Ou se se preferir, entre gestores de quintinhas. Algumas são mais caras, outras mais baratas. No fim, todos mentem e ninguém tem tomates;
- Hoje comi um dos melhores pestos da minha vida e arredores; o que só demonstra que a minha vida e arredores merecem mais pestos (sem alho. Sou contra o alho no pesto);
- Foi também um dos melhores jantares desta vida, apesar de insuficiente para perceber porque gosto tanto dela;
- Hoje falei com um gajo que começou pr me perguntar, depois da resposta à sacramental pergunta "De onde és?" se Portugal era na América Latina. Quando lhe disse que não perguntou-me se era perto da Itália. Disse-lhe que era ao lado da Espanha disse "Ah", como se lhe tivesse dito que era o país onde fica o jardim da Dona Etelvina.
- Jantei com outro que nunca tinha comido pesto na vida mas já esteve no Pólo Sul e na cabana de Shackleton.
- Continuo a perguntar-me o que tem esta vida que a faz ser impossível de deixar. É como amar uma mulher bonita, inteligente e sexy. Ou feia, inteligente e sexy. Ou bonita, inteligente e assexuada. Ou... agora entram as variações inteligente / burra.

Talvez seja como não amar, no fundo.

- Amanhã tenho a inspecção dos seguros, mas hoje não tenho cigarros e bem precisava de um. Paciência. Amanhã já não terei a inspecção, terei cigarros e não precisarei  - espero - nem de uma nem dos outros.
- Está longe de ser tudo, mas é o que me ocorre. Sorte ter a cabeça pequena.

PS
- A estação de serviço tem um novo cozinheiro. Chama-se John e sabe fazer malassadas e chouriços porque viveu no Hawai. Tenho finalmente pequenos-almoços de ovos estrelados e bacon.

PPS
- Amanhã vai um rigger fazer uma inspecção ao mastro. Deus ele-prórpio sabe que não existe, mas se existisse faria com que o mastro esteja bom.

PPPS
- Inscrevi-me na Biblioteca. Aqui não preciso de ser residente para isso. Trouxe o Manual das Mulheres a Dias, mas ainda não consegui ler-lhe nem a capa. Soube também que posso abrir uma conta no banco. Não tarda estou a tirar a carta e a ficar como toda a gente.

PPPPS
-Já falei do rum? É uma merda infecta. Felizmente no domingo estávamos todos demasiado grossos para nos apercebermos disso e a garrafa está a um terço. Nao tarda está no lixo.

Que se fodam os P e os S
- Gasto quase oito amperes com os frigoríficos. Pergunto-me "para quê?" e apago-os. Agora só me resta perceber onde estou a gastar dois vírgula seis com tudo apagado. Tenho mil e duzentos, devia estar-me nas tintas. Infelizmente não consigo. Aposto que é do inversor, mas isto está num estado tal que não consigo chegar-lhe ao interruptor.

Por vezes pergunto-me se a resposta não será esta mistura quase mágica de impotência e omnipotência, tão vizinhas e imiscíveis como azeite e vinagre na mesa da sala de jantar.

Um marinheiro é um gajo que vive nos pólos opostos de cada vida. Se houvesse só uma seria enorme. Infelizmente não há.

- Sempre pensei que amamos quem nos ama, mas não é verdade. Amamos quem queremos amar. É como escrever ou navegar: por muito frágeis que sejamos somos nós que nos fodemos ou decidimos quem nos fode, que palavras, que mares. Ou seja: uma pele precisa de palavras? Ou seja: se um dia disser "Amo-te" estou enganado, mas não estou a enganar-te.

- Ignoro se preciso mais de mar do que de um barco, se mais de um corpo do que de amor.

Pergunta tola ou esperançosa: como separá-los?

1.11.16

Reedição - Necessidades súbitas, súbitos silêncios

Esconder nas fissuras do silêncio a dolorosa e súbita necessidade de silêncio.

30.10.16

Adenda - 28-10-2016

Quem me veio trazer à marina foi Lee, um albanês que viveu dois anos e meio em Genève antes de vir morar para os EUA . Tinha sete anos quando cá chegou. É o rapaz das entregas no italiano onde fui jantar. A comida era péssima mas as pessoas todas de uma simpatia inexcedível .

Lee ouviu-me chamar o táxi , viu o tempo que esperei, ouviu-me ligar de novo para a empresa de táxis e ser corrido a música. Houve ali uma troca de piadas sobre quem é que me vinha trazer e Lee acabou por se chegar à frente e dizer-me "vamos. O meu carro está um bocado desarrumado. Não te importas?" "Claro que não" e pronto, estou a bordo, com um insuportável cheiro a verniz, os cabos a ranger como se não tivessem sido feitos precisamente para o que estão a fazer e uma vontade de dormir que nem a perspectiva de continuar o Yourcenar que estou a ler consegue superar.

Lee vai à Albânia todos os anos no Verão. Pergunto-lhe como está aquilo é responde "a mesma merda de sempre. E tudo muito bonito mas não há dinheiro ". "Como Portugal". "Como a Europa toda. A Europa está fodida. Não há dinheiro".

Diário de Bordos - North Palm Beach, Flórida, EUA, 29-10-2016

Se alguém me quiser torturar tem um método fácil e legal, se bem um bocadinho lento: basta pôr-me num barco - ou numa casa, é a mesma coisa - onde eu não possa cozinhar. Se se pretende sofisticar essa tortura põe esse barco - ou essa casa, longe vá o agoiro - numa marina da Flórida. É verdade que a dor só aparece ao fim de duas ou três semanas. Mas é uma dor simultaneamente pungente e ilocalizável, disseminada pelo corpo todo. É tão insuportável que hoje pensei sucessivamente em tirar uma carta de condução (parece que são particularmente baratas, aqui) comprar um fogão eléctrico para ter a bordo (inútil. O problema não é só a inoperacionalidade do fogão. É que o barco parece um carrossel do qual todos os parafusos se tivessem partido quando rodava a toda a velocidade).

Quando a mesma coisa aconteceu à Nike - que vou ver em breve, sorte - convidei-a para utilizar a cozinha do barco onde estava, o A. F.. Fiz um acordo com ela: um dia comprava eu a comida no dia seguinte comprava ela. Funcionou lindamente e proporcionou-me uma estadia aceitável em Shelter Bay (Shelter Bay é uma tortura per se, com ou sem fogão). Uma companhia agradável, inteligente e bonita (não estraga nada), com discussões interessantes e óptima comida transformaram a estadia numa coisa agradável e de que hoje, esquecidos os maus momentos, só me lembro dos bons (e quase me comovo).

Mas aqui não tenho ninguém com a mesma perspectiva. Ed está lá perto: amanhã vou fazer o almoço (frango em molho de leite de coco, gengibre e pimentos) e hoje comi lá um frango que comprámos no CostCo, a Macro local. Era gigante, custou menos de seis dólares e ainda vai dar outra refeição.

("Sob o signo do frango": acabo de comer uma quesadilla de frango assassinada por um italiano. Deve estar a vingar-se de não ter pedido uma pizza. Comi mais pizzas (quem pensa que sou pedante repare, por favor, que não disse pizze) nestas três semanas do que nos quarenta anos desde Veneza. Quesadilla, um dos meus pratos mexicanos favoritos, a seguir aos tamales, nachos, tacos e mais meia dúzia de coisas que agora não me ocorrem, como a galinha com molho de mole, o guacamole e por aí adiante. Exagero. Uma boa quesadilla é tão boa como qualquer taco. Tudo é bom na comida mexicana, de qualquer forma. Por exemplo, se eu estivesse lá sem cozinha não seria uma tortura. Se calhar até antes pelo contrário).

Perco-me.

Retomando o fio à meada: hoje fui com Ed ao CostCo e a uma loja de vegetais cujos donos devem ser vietnamitas. A loja era boa, barata, com produtos que exigiam uma escolha mas enfim. CostCo é um grande armazém de venda por atacado que faz a Macro passar por uma mercearia de esquina.

Detesto grandes lojas e tive de acelerar a saída. É sábado e aquilo estava cheio. Acabei as compras a correr e precipitei-me para a loja de bebidas que lhe está ao lado (e lhe pertence) para comprar uma garrafa de rum.

Sou contra a violência, todas as formas dela, incluindo a dos preços. A loja só tinha duas marcas: Captain Morgan e um outro de St. Croix que não conheço (de qualquer forma é uma marca branca). São os dois spiced rum, de que não sou particularmente fã. Mas um litro vírgula setenta e cinco (repito: 1,75 l) custa quinze dólares. Quinze dólares um litro e setenta e cinco de um rum que não é nada mau (comprei o de St. Croix. Morgan já conheço e custa vinte).

O café Centro vai perder um cliente. Cliente teso, é certo; mas cliente. Nunca mais lá ponho os pés, salvo imprevistos improváveis.

........
O almoço foi bom. O frango era gigante, o barco uma maravilha e Ed (um capitão profissional ligeiramente mais velho do que eu) partilha muitos dos meus gostos: vinho, cozinha, navegar à vela, etc. Passámos o almoço a falar de receitas. É melhor do que falar de barcos, tema que deito pelas orelhas cada vez que a malta dos ditos se encontra.

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Está vento e chuva. A temperatura arrefeceu um bocado - vinte e seis graus agora, oito e meia da noite. Espero que amanhã o vento caia e a chuva páre para ir ao galope do mastro. Tenho de fazer uma inspecção cuidadosa, ver se o mastro sofreu com o raio. Não sou particularmente religioso, mas se fosse estaria a rezar em voz alta e rodar o terço como um muçulmano a misbaha.

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Para além do clima (um sítio em que um gajo pensa que está frio porque estão vinte e seis graus não pode ser totalmente mau) há uma coisa de que gosto aqui: a água. Há água em todo o lado e quem diz água diz barcos e marinas e mais barcos e mais água. Parece que alguém entornou um jarro gigante dela e ela se meteu por tudo quanto é canto.

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Anda por aí um boicote à cerveja Yuengling porque o dono apoia Trump. Acho errado misturar misturar cerveja com política e não adiro. De qualquer forma já boicoto todas cervejas de que não gosto, é um monte de boicotes, seja quem for que os respectivos donos apoiem.

As eleições são dia oito de Novembro. Recebo dois SMS por dia a dizer-me para ir votar ou em quem devo votar. E o Youtube está cheio de publicidade do Trump (mais do que da Clinton, não sei porquê). São os únicos efeitos das eleições na minha vida. Não ter televisão (ou ter e não a acender) faz um gajo viver noutro planeta. Na net ainda conseguimos escolher mais ou menos o que vemos. Na televisão (e vejo agora, no telefone) não.

29.10.16

Diário de Bordos - 28-10-2016, outra vez. Em West Palm Beach.

Pagar nove euros (dez dólares e antes da gorjeta) por um rum é uma violência em qualquer parte do mundo menos nos Estados Unidos (e na Suíça e no Reino Unido e na Dinamarca e em mais meia dúzia de países que conheço). A verdade é que estava a precisar de um rum, se possível Mount Gay que já sei aqui não há .

Fui jantar com Ed e John (respectivamente Capitão e armador do F. C.) e Dave, veterano de uma ou várias guerras, namorado da capitã ou armadora, não percebi, de um Leopard 48 que ate há dois dias ou três arvorava um pavilhão Trump.

O jantar foi pizza e simpático, duas coisas que nem sempre estão juntas, o que só prova que a comida não é o jantar. É parte dele, só .

Depois fui trabalhar, com um copo de Malbec horrível. Tinha que escrever um e-mail ou dois. Quem ganhou com a má qualidade do vinho foram os destinatários: nada como um vinho mau para dar asas à brevidade.

Por fim, em vez de chamar um carro de praça fui andar. Andarilhei até aterrar numa rua pela qual já passei várias vezes nos ditos carros. Tem bares, restaurantes, música  e rum Myers a dez dólares  (antes da gorjeta) a dose.

Chama-se café Centro. Se por acaso passarem em West Palm e quiserem ver um bocadinho da trivia americana classe média aborrecida como um dia de morte venham aqui. Não perdem nada, se bem tão pouco ganhem.

Tem uma vantagem: não é a Clematis Street.

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Dormi uma sesta, a primeira em muito tempo.

É sexta-feira e trabalho amanhã e domingo. Não sei o que é um fim-de-semana. De todas as coisas que desconheço é uma das que me preocupa menos. Também não sei o que é uma semana, de resto.

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A música do café Centro está um bocadinho alta de mais.

(É como dizer que o sol é amarelo: não é mentira mas está longe de ser a verdade toda).

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O W. está com um problema grave nos sistemas eléctricos - levou com um raio, já não tenho dúvidas - mas em tudo o resto está a ficar melhor.

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Esta gente veste-se como se tivesse lido os guias "Como vestir-se para sair sexta-feira à noite" numa revista de escuteiros.

Vá lá, pelo menos não andam mascarados como na Clematis. Hoje é Halloween - uma espécie de Carnaval triste daqui - mas aparentemente os escuteiros não sabem.

Andam mascarados o ano todo. Deve ser por isso.

28.10.16

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 28-10-2016

Tenho duas imagens: montar um cavalo bravo numa trip de ácido e coca (esta é a analogia realista); ou fazer uma bebinca com fatias alternadas em West Palm Beach e Santos (a versão gastronómica).

São as duas, alternadamente.

27.10.16

Diário de Bordos - West Palm Beach, Flórida, EUA, 26-10-2016

Acabo no Hullabaloo a ouvir uma pianista medíocre, beber rum Mount Gay e apanhar com um ar condicionado hiper-activo.

Tudo isto está bem para o dia: passei-o a dançar o tango com parceiros em trip de ácido. Acho piada porque normalmente o instável dos filmes sou eu. É uma sensação nova - e não sei se agradável se desagradável - estar no outro lado da barreira. Poder dizer - podre de razão, vejam o anagrama - que os outros mudam como andorinhas entontecidas por milho fermentado.

É uma falsa questão. Desde muito novo sei para onde quero ir. Só lá não estou - ainda - porque gosto de desvios e tenho azar com os atalhos.

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Contratei um filipino. É uma versão acessível, humana, simpática do super-homem. Estou longe de ser o Clark Kent mas sei reconhecer um quando o encontro.

Não, não é bem isto. Sei reconhecer a sorte mesmo num pântano de azares.

Não são azares, estúpido.

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A mulher toca piano tão mal que é enternecedor. O Mount Gay é tão bom que enternece.

A ternura vem de todo o lado, não é? Parece um fogo de artíficio.

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Sem carro e sem Uber West Palm é uma seca, ou uma angústia. Os preços são alucinantes. Há porém uma vantagem: já perdi peso desde que cheguei, apesar de só comer merda.

Ou porque só como merda. É impressionante o que consigo comer pouco daquela coisa.

26.10.16

Verdade, mentira

A merda é pesada, por isso vai para o fundo. A verdade é leve e vem ao de cima. 

25.10.16

Noite, devagar.

"Lenta como as árvores,  o vinho, alguns rios, o amor - assim a noite deve ser -" dizias-me um dia no comboio, debruçada à janela. Estávamos na Alsácia? Na Borgonha? Na Toscânia? Não sei qual o rio para o qual olhavas quando me dizias "a noite deve ser lenta porque é na lentidão que a verdade nasce". "Na ou da? perguntei. "Na da... que importa?" É  assim: "       " e dançaste uma árvore. Mostraste-me como dançam as árvores e com quem: um rio, um comboio, uma voz, se for lenta. Um olhar.

"Devagar como as árvores dançam".

É assim que me lembro de ti: como dançam as árvores. Lentamente, folha a folha, ramo a ramo, vogal a vogal, passo a passo, poro a poro.

(Na casca um canivete cruel lembra-nos outros rios, outros tempos.)

O vento. Um rio caudaloso. A areia na pele, a cascata no olhar. A mão que lentamente afaga; a mão; a pele. Isto é: arvores, mãos e olhos à flor da pele. Um rio caudaloso é lento se lento for o olhar que o olha.

A lentidão é uma árvore cujas raízes embalam o mundo. Devagar, como o desejo e o olhar se misturam antes de dormir.

É noite, lentamente. É verdade. 

24.10.16

O ângulo dos dias

Em fotografia uma solarização consiste em misturar na mesma imagem o positivo e o negativo. Isto é: parte da imagem é positiva e parte negativa (para quem estiver interessado: isto obtinha-se, quando se fazia fotografia analógica, expondo a imagem a uma luz branca forte durante a revelação do positivo).

Parece-me uma excelente analogia para os dias, mas a verdade é que isto me ocorre porque oiço música no Youtube e quando me inclino para trás na cadeira a imagem aparece perfeitamente solarizada.

Os dias também são uma questão de ângulo, claro.

Citação (resumo)

«Pour savoir lire, il faut savoir vivre»

(Guy Debord)

PS - Que de passagem seja dito escrevia como um deus.

Do que um dia é feito

Interessa-me pouco de que os dias são feitos: trabalho, um copo e muita conversa com Ed, skipper do cata que está no fundo do pontão, dor de cotovelo (literal e lancinante, não da metafórica e quiçá ainda mais lancinante), salsichas seis meses fora da data (na estação de serviço - "no outro dia comeste e não te aconteceu nada". "Não, mas não tinham a cor destas") Nico precedida de Marianne Faithfull, Pietra Montecorvino e uma indescritível maravilha chamada Silvia Pérez Cruz (uma rapariga, diz-me a Wikipedia nascida em 1983 e ainda há quem pense que o mundo vai para pior), um copo de vinho solitário, californiano e sofrível mas barato, vento fraco a moderado (diria um meteorologista português) a terrível memória do barco que se incendiou e do qual não resta nada se não a parte do casco que a água protegeu, a minha terceira transacção Bitcoin e a suspeita de que vou aderir àquilo - uma entidade que me guarda dinheiro sem querer saber quem sou, onde vivo e quanto pago de água não pode ser má - a revisão permanente do que vou fazer amanhã porque não o escrevi. De que são feitos os dias? De que se foda, ou fodam, em noventa por cento.

Interessa-me pouco de que são feitos, na verdade. Mais o que deles faço, o que deles fica. Cada dia é um ontem no futuro.

I'll be your mirror
Reflect what you are, in case you don't know
I'll be the wind, the rain and the sunset
The light on your door to show that you're home.


(A luz na minha porta para mostrar que chegaste.)

I find it hard to believe you don't know
The beauty that you are
But if you don't let me be your eyes
A hand in your darkness, so you won't be afraid

When you think the night has seen your mind
That inside you're twisted and unkind
Let me stand to show that you are blind
Please put down your hands
'Cause I see you


(Não vês nada. Vês-te a ti. Ver-te-ias, se eu não fosse cego. Mas sou e não vês. Ver é ser visto, como viver. Morrer é o contrário, já o outro o dizia e ele percebia de ver como ninguém. E de ser. Seres. Se estivesses aqui estarias a ver o mesmo que eu. Não é a ver, estúpido. É a ser. estarias a ser o mesmo que eu).

Enfim, que se lixe o de que os dias são feitos. Fetos. Qualquer coisa assim: amanhã.

........
Frank Zappa. Acabamos sempre por acabar onde começámos. Como os dias.

23.10.16

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 23-10-2016

Acabei de ler o Garden of Evening Mists. O livro é uma longa, lenta, sublime e belíssima história dos amores da personagem principal: pelo seu mestre quando aprendiz de jardinagem, pela sua irmã, morta num campo de concentração, pela memória, pelas palavras.

De caminho aprendemos sobre chá,  jardins japoneses, tatuagens e mais um rol de coisas. Imagino o trabalho de pesquisa que este livro exigiu, admiro a maestria técnica no controlo dos diferentes tempos narrativos e penso, sobretudo, na montanha de emoções em que fiquei.

Consegui não chorar, vá lá.

........
O vento caiu faz alguns dias, as nuvens passaram e as noites frigorificaram. Tenho de me habituar ao frio. Não é difícil: basta lembrar-me das palavras de Tom, o armador noruguês para quem levei o bote (e ele) a Copenhaga: "Não existe frio. Existe tu não teres roupa suficiente".

........
Esta noite ardeu um barco na Marina. De alto a baixo. Não ficou nada. Ouvi as sirenes, mas não me levantei: já sou papalvo de coisas que cheguem não preciso de me tornar num de fait divers (verdade seja dita que não sabia ter sido um incêndio a razão do alarido). Hoje Ed mostrou-me um filme. É horrível, aterrador.

"Não perguntes por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti".

........
Daqui a pouco o W. fica com a sua nova cara: lavada, arumada, em ordem. Não ter sido capaz de fazer aquilo sozinho "interpela-me" (aspas porque detesto o termo, leva-me de volta aos anos em que nos deviamos sentir "interpelados" por tudo e mais alguma coisa).

Pergunto-me se é da idade ou - mais provavelmente - do bom senso que com ela vem.

.........
Está um dia lindo outra vez. Espero que este inverno não seja muito mau. Gosto de transições suaves e progressivas.

Diário de Bordos - West Palm Beach, Flórida, EUA, 22-10-2016

Um café e uma barra de chocolate pequena custam o mesmo que uma refeição barata em Lisboa. O café é indubitavelmente bom; está um bocadinho torrado de de mais para o meu gosto, mas é bom. O chocolate está para além do bom, para além do óptimo, para além de tudo o que provei até hoje. Uma mistura de chocolate e ghost pepper (aparentemente o piripiri mais potente do mundo. Vale a pena ir ao Google). Tudo orgânico, minúsculo e caríssimo. Compreende-se porquê: todas as mesas estão ocupadas por uma pessoa (ou duas, raras) cada uma com o seu laptop e um consumo, um.

O sítio é tão bom e bonito que consigo vencer a repulsa cada vez que penso no preço. E não vou buscar outro café, prova de que o bom senso quando não sai a bem entra a mal.

.......
O trabalho avança, devagar. Contratei uma deckhand. Deve ter sido o dinheiro mais bem gasto dos últimos dez dias. Esperava tê-la dois dias, mas não tenho a certeza de hoje termos feito metade do que queria. A desordem no barco é um Everest ao contrário, um Everest que se esparramou pelas montanhas vizinhas, um Everest partido em milhões de bocados e cada um deles num sítio diferente. A electricidade é outro desastre. Se conseguir largar daqui a uma semana já me dou por feliz.

Para não falar das baratas.

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Parou de chover. O dia hoje esteve lindo, abençoado: quente, ventoso e ensolarado, mistura divina s'il en est. Só me falta ter energia e o fogão a funcionar, para poder cozinhar.

Não sei quando será a véspera desse dia.

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PS - o café chama-se Subculture. Fica na Clematis Street, 509. Se um dia ganhar o Euro totó volto cá.

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PPS - Voltei a passar à frente do Teatro. Estão a apresentar A Noite da Iguana. Ontem fui perguntar o preço dos bilhetes. Sessenta e seis dólares. É desta que vou conseguir ler o livro, juro.

19.10.16

Passado, cansaço

Por causa desta história do Dylan tenho estado a ouvir a música da minha adolescência. (Excluo Cohen. Não é da adolescência, é da vida).

O passado é tão maçador, não é?

Adenda: claro que podemos sempre contrapôr Zappa, Hendrix, Bowie e meia dúzia de jazzmen desta altura ou antes mas que eu só viria a descobrir depois. Claro. 

A renda na Av. da Liberdade

Moro desde sempre no nº 1 da avenida da Liberdade (Freedom Avenue, Avenue de la Liberté, Calle Liberdad, etc.) de todas as cidades do mundo. É a melhor morada do universo ou - talvez mais precisamente - a única onde poderia morar. Não é querer, é "inabilidade fatal".

Mas foda-se, a renda é cara.

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 18-10-2016

Fui jantar com B. Convidei-a. Levou-me a um restaurante chamado Blandey's, "de onde podemos ver a ICW [Intracoastal Waterway, para quem não sabe]." "Tens razão, B., não vemos água que chegue". B. foi capitã de mega-iates muitos anos. Agora vende barcos na Florida e pede-me dois dólares para dar de gorjeta ao arrumador de automóveis. Sempre gostei dela, mas hoje fiquei a gostar ainda mais. A primeira vez que a vi foi em Bocas del Toro, na marina de Red Frog, da qual era directora. Pouco tempo depois de eu chegar foi-se embora, farta do salário baixíssimo e de lhe terem mudado o escritório para as casas de banho. Reconheci nela uma irmã de mar. Não sei exactamente como descrever o que é uma (ou um, já agora) irmão de mar mas é isso que a B. e muitos outros são.

Tem muito para cima de sessenta anos e um corpo ingrato, mas foi uma mulher bonita, vê-se à légua. É claramente uma das coisas que a marafa. Explica-me que quando era jovem e bonita toda a gente a queria ter por perto, mas agora velha e feia ninguém lhe liga. Di-lo sem amargura aparente, mas sei que isso a magoa.

É um tema que por vezes vem à tona e durante o jantar digo-lhe "B., se um dia fomos bonitos sê-lo-emos sempre. A beleza migra, não se esvai. Antes estava fora, agora está dentro".

Foi um bom jantar. Falou-me de uma cantora chamada Sia, trouxe-me a bordo e pediu-me para falar dela aos armadores. Teve uma boa vida, disse-me várias vezes, como se precisasse de se convencer a si própria. Tiveste, B. Melhor do que a de muita gente. E não te preocupes com a que tens agora. Temos a sorte de com esta idade podermos viver como se tivéssemos um terço dela: vivemos três vezes mais do que toda a gente, já viste?

.........
A conversa com B. foi muito mais do que isso. Falámos de tudo, desde os sítios que amamos até à necessidade de mar. Mar é amar com menos uma letra. Talvez por isso não é a melhor coisa do mundo. É quase.

.........
Não foi isso que disse hoje ao meu armador. Descobri que precisamos de comprar um fogão novo e disse-lho. Perguntou-me "Porque existem barcos?" "Porque são a melhor coisa do mundo, C."

Passo dois degraus ou três.

"As embarcações são feitas para ser navegadas, bem pilotadas e cuidadas. Se fizermos isto tudo temos uma para a vida".  (Depois acrescentei "Reconhecidamente há que pôr um bocadinho de dinheiro na mistura, de vez em quando", mas isso é outra história).

.........
Às vezes ocorre-me que se vive dentro de um barco como dentro de uma mulher, mas calo-o imediatamente: fugiriam todas, não é?, se me ouvissem dizer isto.

Ou quase todas.

........
Consegui acelerar o ritmo de trabalho, mas não para onde devia estar. A flexibilidade num homem deve ser a mesma coisa do que a beleza numa mulher: não se esvai mas migra.

17.10.16

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 16-10-2016 / II

Não há muita volta a dar-lhe, pois não?, se não ouvir Hildegarde e pensar que fiz num dia o que podia ter feito num quarto de dia, trabalhando devagar; e pensar que amanhã será melhor, ou depois de amanhã, ou quando o diabo quiser. É sempre assim: às vezes mais valia ficar na cama com um bom livro e uma má companhia.

Até ao fim: mudei de antro para jantar. Já não posso ver a estação de serviço à frente. À tarde a senhora dissera-me que hoje, excepcionalmente, fechava às nove, mas normalmente fecha às dez. O que me chamou a atenção foram os hot dogs pure beef a um dólar cada. Qualquer gajo que tenha passado mais de meia hora nos Estados Unidos duvida. Alguma coisa não bate certo nesta história, mas que se lixe. Vamos aos hot dog a um dollar, pure beef .

Cheguei às oito e um quarto e o homem - já não era a senhora - estava a fechar. A máqina dos hot dogs estava desligada, mas ele "tinha acabado de tirar dois" que ainda "estavam mornos" (aspas porque cito). Vendia-me os dois por um dólar. Enchi-os de mostarda, levei um à boca, soube-me bastante bem (verdade seja dita que já não posso ver os burritos do outro) e catrapás. Cai-me tudo ao chão. Uma salsicha (pequena, muito pequena) e três quartos de outra (idem) perdidas, o chão amarelo de mostarda e eu vermelho de raiva incontida (não é verdade. Há muito que aprendi a não ceder à raiva quando estas coisas me acontecem. É a expressão de um desejo: gostaria de estar vermelho de raiva. Não estava). Fui comprar uma lata de mini-salsichas, enchia-as de mostarda e foi esse o meu jantar.

O homem não me debitou as salsichas que caíram ao chão e como prémio falei com a Barbara, amiga da ilha Bastimentos, no Panamá, a quem devo um daqueles momentos de solidariedade marítima que marcam um gajo. Convidei-a para jantar. Disse-me que tem um Jeep velho e pode vir até West Palm.

Oiço Hildegarde von Bingen: é a única música capaz de explicar isto tudo, de dar sentido a um dia que parece vazio e acaba com uma Lua cheia hipnotizante, a perspectiva de rever a Barbara e a certeza de que em breve terei de compensar isto tudo com um ritmo de trabalho que me vai limpar a alma, a consciência e a memória.

........
Todas as segundas-feiras recebo um e-mail do Statcounter a dizer-me quantas pessoas foram ler este blogue durante a semana precedente. É uma coisa à qual ligo relativamente pouco, metade por cepticismo metade por falta de interesse.

Hoje contudo a coisa diz-me que tive uma média de oitenta e três pageloads por dia. Média. Na segunda-feira passada, por exemplo, foram dezasseis. Mentiria se dissesse que não me dá prazer ver que a audiência do coitado do DV está a aumentar. Claro que dá. Mas mentiria tanto ou mais se dissesse que compreendo quem lê isto, com tanta coisa boa que há por aí para ler.

Enfim, seja pelo que for: aqui fica o meu obrigado grato e reconhecido a quem vai lendo estas coisas. Prometo que nunca mais pensarei que escrevo como faço xixi: não é bem por querer. É mais porque tenho de, quer queira quer não.

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Hildegarde, hilfe.

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Imensa gente pensa que ser skipper de uma embarcação de recreio (pelo menos destas pequenas, até setenta pés) é um trabalho cheio de glamour. Não é verdade, obviamente. Se fosse, eu não seria skipper. Seria mulher a dias.

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Por pouco que tenha feito (fiz) o barco está diferente, melhor. A noite magnífica, com o vento ligeiramente mais fraco mas ainda fresco, a lua cheia (acho que já aqui o mencionei; está tão bonita que não é de mais), um cata lindo de morrer pela proa. Chama-se FAT CAT (acho que posso dizer o nome). Começou a sua vida como uma plataforma de sessenta e quatro pés para day racing: dois cascos e um trampolim no meio. Hoje tem oitenta pés, um salão, camarotes e um poço a ré com um chapéu de sol. Parece uma ex-miss que envelheceu com "graça e majestade" (aspas porque cito: Pedro Tamen).

Amanhã ou depois o vento vai cair: as nuvens altas mal se mexem e as baixam andam,  mas devagarinho. Que bom seria se se mantivesse assim até eu largar daqui. Seria um voo, a viagem. Vai ser curta, com vento ou sem ele. Tenho tanta vontade de chegar às Bahamas...

........
Escrevo à luz de uma lanterna: não tenho luz no salão; troquei a Hildegarde pela Bartoli. Vou bebendo pequenos goles de rum Cruzan, um rum das USVI (de St. Croix, mais específica e explicavelmente) que não é nada mau. Parece o Mount Gay em projecto, o que já é apreciável.

Vou lá para fora. O resto fica para amanhã. A noite está bonita demais. 

16.10.16

Descobertas

Outra coisa que acabo de descobrir: é impossível trabalhar e ouvir Leonard Cohen ao mesmo tempo. Descoberta tardia mas reveladora.

Perdão

"Sei que estou perdoado
Mas não sei como soube".

L. Cohen, um senhor a quem o Nobel fez o favor de poupar. (A tradução é minha, mas penso não estar muito longe do sentido).

Diário de Bordos - Riviera Beach Marina, Flórida, EUA, 16-10-2016

Fui almoçar. Isto não devia merecer reparos: todos nós almoçamos todos os dias; ou pelo menos quase todos nós quase todos os dias.

Mas este almoço - do qial voltei com uma mão cheia de histórias - fez-me ver porque quero mudar de vida. Ou então, pelo contrário, do que gosto nesta. Quero ir almoçar e voltar com um almoço no estômago, não com uma mão cheia de histórias na cabeça. É que são tantas que um gajo não sabe por onde começar.

Do mais simples para o mais complicado: hoje falei com o cozinheiro de um "restaurante" (as aspas são quase injustas, se comparadas à estação de serviço Marathon do outro lado da rua) italiano que nunca bebeu vinho na vida. É guatamalteco e pagou cinco mil dólares para vir da Guatemala para aqui, faz agora sete anos. Tem duas irmãs, um irmão que também está em West Palm e das duas irmãs tem oito sobrinhos. Oito. O rapaz tem trinta anos, quando muito. Já tem a sua casa na Guatemala "quase pronta". "Mas que não se pense que foi fácil. Não foi". "Uma vez no México passei dezoito horas imobilizado, de pé. Assim" e mostra-me: põe-se de pé, uma mão como se estivesse a agarrar uma pega  de um autocarro. "Não me podia mexer", explica. "O veículo estava cheio, cheio". Chama-se Ali (ou parecido) e está ilegal nos Estados Unidos. "As pessoas pensam que nós vimos para aqui porque gostamos. Não é. É porque precisamos".

Foda-se. Cinco mil dólares? E eu reclamo quando pago mais de mil para vir de avião e acho que viajar de avião é uma merda?

O "restaurante" - uma tasca infecta, mas estou farto da estação de serviço até aos cabelos - não serve álcool. Um dos funcionários da marina dissera-me que para comer devia ir ao Publix, que "tem um deli e tudo". Pensei que fosse um centro comercial, mas não é. É um supermercado. Comprei uma garrafa de vinho tinto - um Jacob's Creek dois terços Shiraz e um terço Cabernet Sauvignon que por nove dólares me pareceu a melhor opção (pelo menos era uma das mais baratas) - e voltai à Pizzaria Romana.

Pedi almôndegas à Parmigiana. Não estavam más, mas foram-me servidas num copo de styrofoam por uma empregada feia e mal-encarada, combinação mortal s'il en est. Tinha a garrafa de vinho embrulhada nos sacos de plástico do supermercado e ninguém me disse nada. Vá lá. Estava preparado para ir beber lá fora, como agora vão os fumadores fumar, mas não foi preciso.

Ali explicou-me que ela tem muitos problemas pessoais e não sabe fazer a diferença entre os seus problemas e o trabalho. Quero que a mulher se lixe, para dizer a verdade. Voltarei lá para falar com o Ali. É o meu lado missionário, estúpido ou masoquista, não sei. É um gajo porreiro e merece beber mais vinho.

.......
O trabalho não está a avançar e isso deve-se inteiramente a mim. Sou uma péssima mulher a dias, não há nada a fazer. O problema é que gosto de ordem e limpeza. Ou eu mudo ou mudo  as condições de trabalho.

Algo me diz que o mexilhão da história sou eu.