8.12.18

Quase

Foi numa praça deserta, só estávamos ela e eu, noite cedo (quase se via o dia ainda), eu bebia um vermute e ela dizia-me "estou comovida".

- Descomove-te, mulher - respondi. - Não há quem não tenha um amor assim, antigo e eterno como a dor nas costas. Aprende-se a viver com ele, é como ser um bocadinho surdo, muda o mundo mas pouco, ouve-se tudo na mesma, quase tudo e o meu amor por ti é esse quase, é o que me falta para ter o mundo todo, o que falta para que esta noite seja noite, para que esta praça se encha de miúdos a andar de skate ou de jovens senhoras trintonas a comentar as últimas compras que fizeram ou os últimos engates que aceitaram, falta pouco, não passa de um pequeno quase, habituamo-nos a viver com ele (ou sem ele, se preferires), é como ter fome e saber que o jantar está quase apesar de saber que o teu amor não está quase, se te descomoveres é mais fácil apreciar a beleza desta praça tão pequena, tão elegante, bem proporcionada e acabarmos o vermute em paz.

Enfim, quase paz. 

6.12.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 06-12-2018

A história é muito complexa, um verdadeiro puzzle. Começa por o Antiquari estar aberto apesar de hoje ser feriado. Acabei por lá parar a beber um vermute ou dois. Este café é o equivalente do Tati em Palma, infelizmente sem o jazz do Gonçalo. À frente está uma igreja, importante e imponente, há pouco promovida à categoria de basílica. É uma das mais importantes e antigas de Palma. Um senhor activa-se a lixar, com um utensílio eléctrico, a porta das traseiras, a que dá para o café. Saí de casa com a intenção de trabalhar e o raio do barulho da lixadeira desconcentra-me mais do que os vermutes me concentram.

Faço uma observação (bonacheirona) à empregada:
- O homem vai ficar ali o dia todo?
- Espero que sim. - Poucas coisas há que aprecie mais do que uma ironia bem colocada. Ela tem razão: rir é o melhor remédio, claro. Pouco tempo depois a rapariga volta e explica-me  que os trabalhos são devidos à vinda de um "padre" (aspas porque cito, traduzido do espanhol cura) de Roma e querem ter a igreja em condições.

Bem, isto acontece em todo o lado, até na Santa Madre Igreja: não se mostra a outrém a merda em que vivemos.

- Mas não lhe deram as tintas. O homem não sabe o que fazer. - Ora se há coisa de que a dita Santa Igreja não tem falta em Palma (e provavelmente no resto do Universo todo inteiro) é massa, guito, carcanhol. Houve ali incompetência, simples esquecimento ou o cura de Roma não é assim tão importante que justifique uma demão de tinta na porta das traseiras da Basílica?

Não sei, obviamente. Assim que de repente me lembre nunca sequer lá entrei, quanto mais privar com o manda (ou troca)-tintas. Sei que o barulho continua até o N. entrar no café, em cuja casa vivi quando pela primeira vez estive em Palma. É do outro lado da rua, mas não falamos da porta da Igreja ou dos déboires do pintor sem tinta. Falamos do trabalho dele (é restaurador de móveis, mas agora evoluiu para restaurador de tudo e mais alguma coisa, desde cerâmicas do Picasso a adagas do século XIX), do meu trabalho, de bicicletas - N. é um ciclista amador a sério -. Tem uma bicicleta para vender que a priori me parece melhor do que a minha Órbita Estoril II (que os senhores da Órbita me perdoem, mas não é difícil). Amanhã vou experimentá-la. N. ajuda-me a vender a Órbita, pelo que em princípio a operação será neutra de um ponto de vista financeiro, se não contarmos o período de sobreposição das duas burras.

A ver, como dizia o nosso amigo velhinho.

A verdade é que com a conversa do N. deixei de ouvir o barulho do pintor e hoje é feriado e quando lá cheguei (ao Antiquari) pensei que a Igreja estava a fazer pessoas trabalhar a um feriado, mas depois lembrei-me de que a Igreja trabalha especialmente aos domingos e feriados e portanto para ela isto não é nada de excepcional. "Espera, é", diz-me um dos muitos narradores que se escondem nas traseiras das minhas sinapses: "o feriado é político, não é religioso". Começa um diálogo: "no código genético da Igreja não todos os feriados são religiosos". "Certo, mas não se deve fazer barulho aos feriados à frente do melhor café da cidade quando alguém lá vai para trabalhar". "Pois. Mas define barulho: mal começaste a conversar acabou o barulho".

Bom, despedi-me do N., montei na minha bicicleta "elástica" (adoro esta expressão tanto quanto detesto aquilo que ela designa) e vim passear. Encontro a L., que no Inverno deixa de vender bijuteria e vende camisolas, xailes, luvas, gorros e por aí fora em lã ou em alpaca. Ficamos à conversa - conseguiram finalmente um apartamento longe de Palma, o D. tem um carro, o G. (o músico que conheci em Antigua há sete anos e por intermédio de quem conheci esta malta toda) esteve em Palma - e acabo, finalmente a beber um vermute ou dois no Ca na Chinchilla. O tablet está configurado e funciona, tenho ficheiros e programas e posso, portanto, escrever disparates.

Os quais me faltam muito, isto tem andado um bocadinho escasso, não por falta de vontade de os debitar, longe disso, mas sei lá, por outras razões quaisquer que agora não me saem, talvez por não serem disparates.

De maneira agora bebo os meus vermutes na Chinchilla, salvo seja e penso como seria Palma se tivesse um bocadinho mais de cultura, só um pouco, um café Tati, uma livraria Snob, uma Ler Devagar, um Procópio (está encavalitado em duas categorias: Bares e Cultura), um Povo, as Primas Terças e por aí fora.

Imagine-se uma cidade onde não há um terço do barulho de Lisboa, onde as bicicletas são bem vindas - até nas lojas, um gajo entra com a bicicleta e toda a gente acha normal - mais pequena do que Lisboa, limpa, com os pavimentos das ruas em bom estado, cosmopolita - e a tudo isto junte-se-lhe a oferta cultural de Lisboa.

O que me leva a pensar que nunca me tinha apercebido desta minha necessidade de cultura, mas enfim. venha um vermute, Angel.

(Não é bem verdade, eu sei. Mas o DV não é um registo histórico. É ficção.)

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Hoje é feriado e a Rambla começa a encher-se de gente. A porcaria das compras de Natal espanta-me: gosto de dar presentes, de oferecer bugigangas, livros, roupa, flores, o que for. Por que raio de carga de água fazê-lo só numa altura do ano? É um pseudo-potlatch sem a dignidade dos verdadeiros (suponho. Nunca assisti a um). Vá lá que pelo menos as pequenas são giras, ao menos isso, desviam-me o pensamento das fealdade dos stands.

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I. foi trabalhar hoje, ver se conseguimos acabar a primeira demão até ao fim-de-semana. Uma coisa que eu pensava ia demorar três ou quatro dias (não por excesso de optimismo, mas porque seria o normal) já vai em mais de duas semanas. Deixei de fazer previsões de datas. As coisas fazem-se e quando estão prontas estão prontas. Nunca pensei que o meu amado P. fosse um tão bom professor de Taoísmo.

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E. e eu estamos a pensar organizar um jantar literário na Volta Dos. Há vários problemas a resolver, entre os quais o dos idiomas. Só inglês, ou inglês, francês e espanhol? Se pomos francês temos de pôr alemão também. Só inglês e alemão?

Temos de encontrar um autor e livros para todas as línguas? Fazemos uma mescla? Se for só inglês tem de ser relativamente acessível para todos os não-anglófonos.

Enfim, hoje ocorreu-me que seria mais fácil fazer um só em espanhol no Antiquari. A H. não deu pulos com a ideia de o fazermos no Smack (em francês). Não sei, estas coisas parecem uma agulha magnética à procura do Norte: andam de um lado para o outro até acertarem.

Pelo sim pelo não comprei duas versões do Khayyam em espanhol. Na livraria (a Babel, claro) comento a quantidade prodigiosa de traduções que os espanhóis têm. "É verdade", responde-me o mais velho dos dois vendedores. "Vocês em Portuga falam muito mais línguas. A vossa burguesia é muito mais culta do que a espanhola. E então da catalã nem se fala!"

Aos olhos dos outros, deixámos definitivamente de ser o país de onde vêm as mulheres a dias e os pedreiros.

4.12.18

À porta da vida

Ia deitar-me um bocadinho, só um bocadinho, esperava não tropeçar em ti num canto qualquer do sono ou do sonho, têm as mesmas portas, os mesmos cantos mas é inútil: estás sempre lá, à porta de um e do outro, mal eu entro saltas-me à garganta e não vejo mais nada se não tu. Isto acontece sempre, seja no canto do sono seja no do sonho. Às vezes até nos dois, estás num e no outro logo a seguir. Depois acordo e é a mesma coisa, saio e dou contigo ali à espera, à porta da vida.

Concorrência

Anos antes de se casar comigo, Marie-Thérèse teve uma aventura com um padre. Foi uma história longa para os os padrões dela da época, explicou-me. "Durou quase um ano. A mim, acabada de sair de uma relação completamente desequilibrada com o Édouard pareceu um casamento." "Uma relação com um padre não deve ser um modelo de equilíbrio", respondi. "Que raio te passou pela cabeça?"

"Bem, o homem era lindo. Parecia o Alain Delon de sotaina. Mas o que na verdade me atraiu não foi isso. Nem sequer o risco, quem o corria era ele, não eu. O que me deixava louca era a ideia de estar a fazer concorrência a Deus."

"Concorrência desleal... Na cama nem Deus te ganha."

2.12.18

Luz

A luz de Lisboa é um gouache; a de Palma uma aguarela.

Perder-se, encontrar-me

E se me perdesse? Como seria perder-me, eu que nunca me encontrei? Onde me perderia - em ti? No mar? Na vida? Numa rua dessa cidade de que tanto gostamos os dois? Numa nota de música? Na sombra de uma nuvem no oceano?

Se me perdesse seria em ti, só em ti: foi em ti que me encontrei.

Vida, aqui tão perto

Não me digas nada. Ouve comigo Gould maltratar Bach (e percebe que maltratar pode ser amar, às vezes). Bebe comigo um Limoncello, é demasiado doce mas não faz mal, bebe-se. Vive comigo este dia, tão perto do fim, dia que mais parece uma vida, um oceano.

Ouve-o espraiar-se em ti como se aqui estivesses, azul fosforescente que és como foi hoje o céu. Ouve-me: nunca estarás tão perto da vida.

Mar-oceano

De que é um dia feito? De peças, como um puzzle? Tijolos, como uma casa? Vagas, como o mar?

Ao contrário das peças e dos tijolos as vagas não se adicionam. Sucedem-se mas não se sobrepõem. Ninguém sabe para onde vão (isto não é mentira, é licença poética. Toda a gente sabe.) Ou seja: um dia como o de hoje foi um puzzle, uma casa ou um mar-oceano?

Pergunta

O barroco é o rock n'roll da música erudita, não é?

In/dependências

As coisas são como são; não como nós queremos que elas sejam. Contudo, por vezes as coisas e a nossa vontade coincidem. Tenho estudado o fenómeno por várias razões: a) é raro; b) é imprevisível; c) é inesperado: acontece sem intervenção do nosso querer, tão maltratado, ninguém - nada - lhe liga nenhuma.

Enfim, tudo isto para dizer que cozinhei uma carne que "não ficou mal" e ouvi E. ler-me os seus textos com fundo de Schubert. Há, acreditem, algumas formas melhores de fechar um dia. Mas são poucas e não dependem só de mim.

A biblioteca na internet - Li Bai

"Calcorreei todos os caminhos
e nenhum lugar me retém.
Parto de novo sem rumo certo,
entre as folhas que caem sobre a terra."

[Preferiria "Percorri" a "Calcorreei", mas deixo a versão traduzida por quem sabe (António Graça de Abreu)]

"Viajante do mar cavalgando ventos,
levando sua escuna para terras distantes,
deixando o rasto de
um pássaro entre as nuvens."

Presente, futuro

- Estou a fazer aquilo que não foi feito em trinta e cinco anos - menciono a um amigo em conversa.
- Não. Estás a fazer o que não foi feito e a corrigir o que foi mal feito em trinta e cinco anos.

Não há melhor súmula do que são os meus dias. E do que é o meu futuro - um presente destes é um presente em todos os sentidos do termo. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-12-2018

O dia está lindo, bonito de mais para deixar a constipação prender-me em casa. Que vá para o diabo que a carregue, mai-los espirros, tosse e assoos constantes. Pego na bicicleta e venho passear. O céu está azul vivo, azul quase fosforecente mas a luz é pálida, tímida. Ou seja: subtil, elegante, fina como esta esplanada do Passeig d'es Born onde bebo cappuccini e escrevo cartas e postais a eito.

Deixo a melancolia dissolver-se lentamente, por entre letras e corpos bonitos, até dela nada ficar se não aquilo que a une à felicidade, aquela estreita ponte que à alegria traz densidade e a matiza e à melancolia ligeireza.

Em breve vou ao almoço dominical do Smack; hoje blanquette de veau. O céu está cada vez mais azul, mas a luz continua igual. A Rambla e a Plaza Mayor estão cobertas de stands natalícios. O Born escapou, felizmente.

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Mas não escapou ao acordeonista que toca mal e porcamente música péssima. Escapo eu, pela esquerda baixa.

1.12.18

Porquê?

"Que não ficou mau..." Referia-me ao hummus que fiz há pouco; mas também ao frango do almoço; ou talvez até ao sábado todo, que foi de festa e não foi mau.

Espero é que ninguém me pergunte porque foi o sábado assim tão bom. Não saberia dizer-lhe.

O que só faz o dia melhor ainda: estar feliz sem razão especial não tem a gravitas de estar triste pelo mesmo motivo (ou ausência dele) mas é infinitamente melhor: um gajo não tem de se preocupar com o porquê.

30.11.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 30-11-2018

Que dia... E ainda só vai a meio.

Encontro a bordo com S. e J. para discutirmos o apoio da sapata do pé do mastro. S., diz-me J. (o surveyor) é um génio da fibra e uma excelente pessoa. Combinamos para sexta-feira que vem, apesar de ser feriado. Não pode vir antes e assim fica com o fim-de-semana para acabar. Pelo menos a segunda parte de descrição de J. é verdade. Não é todos os dias que se encontram nesta ilha pessoas dispostas a abdicar de um dia feriado, sendo que ainda por cima pensa prolongar pelo fim-de-semana, se for caso disso.

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Estou outra vez constipado. "Outra vez" sendo mentira: é sempre a mesma constipação, mas quando reaparece vinga-se e deixa-me de rastos. Não é a primeira vez que estou doente nesta casa de hóspedes, mas da outra tinha pelo menos alguém a quem me queixar. Quando se está sozinho uma constipação é a coisa mais inútil do mundo.

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Fui almoçar à Bodeguita del Centro. Sublime bife com molho de pimenta. Nunca perceberei porque é tão difícil aos portugueses fazer um bife mal passado, entre o cru e o mal passado. Não custa nada, basta saber contar até três: Uma frigideira perto do ponto de fundição, põe-se o bife, um dois três, vira o bife, um dois três, serve.

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Grande conversa com J., de quem me aproximam duas ou três coisas essenciais: o amor pelos barcos, primeiro; pelo trabalho bem feito, segundo; não sermos movidos a dinheiro, terceiro. Não sei como é nas outras profissões, mas esta tem isto de particular: ganha-se bem, é certo. Ou mal, é igualmente certo. Alternadamente. A única coisa que permanece é esta espécie de adoração irracional por coisas que flutuam com linhas bonitas: um barco, pensava eu hoje pela milésima vez, é a coisa mais perene da história da humanidade. Se hoje no P. entrar o primeiro homem que teve a ideia de pôr um pedaço de pano num pedaço de pau, aposto que ao fim de cinco minutos ele se entende.

No fim, decidimos que a armadora merece tudo: "a indústria precisa de pessoas assim", diz J. E nem eu lhe disse da missa a metade, claro: fiquei-me pela sorte que é poder refazer este barco "pondo quanto sou no mínimo pormenor", passe a paráfrase desajeitada.

Obrigado, M.

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Nunca, que me lembre, fui simultaneamente tão feliz e tão ansioso como agora. As crises de ansiedade - herança da minha querida Mãe - são intensas, aproveitam-se dos motivos mais delirantes. Já a felicidade é difusa, indefinível, está em todo o lado e só se manifesta um pouco mais fortemente quando de manhã chego a bordo e vejo aquelas linhas finas, elegantes, de braços estendidos a dizerem-me "despacha-te".

Despacho-me, sim, P. Mas olha que mais vale fazermos isto como deve ser do que depressa: depressa em breve estará esquecido. Como deve ser nunca passará. 

29.11.18

De chofre?

Assim dito de chofre, "amo-te" é um palavrão e "amas-me?" uma pergunta estúpida. Melhor seria um interregno, um espaço entre as duas.

Sei lá, dez anos? Quinze?

Revelações

Do egoísmo no amor:

Revelaciones

En la noche a tu lado
las palabras son claves, son llaves.
El deseo es rey.
Que tu cuerpo sea siempre
un amado espacio de revelaciones.


Alejandra Pizarnik

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 29-11-2018

Por exemplo. Conto isto para mim, confesso: tentar ver claro através desta névoa. A sapata do pé do mastro estava apoiada nuns blocos de chumbo que me impediam o acesso aos fundos. Não os queria ali por três razões: a) Não tinha acesso aos fundos; b) não queria quinhentos quilos (como se veio a verificar mais tarde) de chumbo numa superfície de menos de meio metro quadrado, mesmo que apoiados em Chockfast, como estavam; c) não gosto de carregar pesos inúteis.

Perguntei ao arquitecto, ele disse-me que o chumbo estava ali para rating e não para estabilidade (coisa de que depois duvidou, mas demasiado tarde). Tirei-o e vendi-o, tudo no mesmo dia. Há coisas mais difíceis do que vender quinhentos quilos de chumbo. Agora, claro, é preciso um apoio para a sapata. Na minha cabeça era fácil: duas peças de alumínio e hey, presto, ecco, signore. O A.  (rigger) viu aquilo e pensou exactamente a mesma coisa. Uma vez as nossas duas brilhantes mentes juntas e a cantar em uníssono chamei o J. (surveyor). Afinal tratava-se simplesmente de validar a opinião de duas mentes brilhantes, não é?

Não. O J. disse que não queria alumínio ali; queria fibra de vidro. A posteriori é forçoso reconhecer que o J. não tem só razão de um ponto de vista físico - não quer mais parafusos nas cavernas - mas também que a sua solução é infinitamente mais elegante, mais bonita, mais mais do que a das tais duas brilhantes mentes.

Contado assim parece simples: em vez de se fazer os acrescentos em alumínio (marítimo, ça va de soi, mas isso encontra-se) faz-se as bases em fibra e hey, presto, ecco, signore. Bem, não. O homem que conheço para fazer o trabalho começou por dizer que estava muito apertado em tempo mas que sim, poderia vir fazer o serviço. Depois que estava muito apertado em tempo e faria a maior parte da coisa na sua oficina; hoje disse-me que nada, niente, nix, não tem tempo, não pode, está infinitamente sorry.

Amanhã vem outro, sugerido pelo J. Mas para a semana há montes de feriados e pontes e mai-los raios que os partam a todos. Entretanto continuamos - graças à chuva dos últimos dias e ao facto de o I. estar a lixar (literalmente) o interior para depois o pintar - a descobrir que ainda há montes de pequenas entradas de água (a que os franceses chamam fuites, nome muito mais adequado. O lugar da água é no exterior, não no interior). É que não páram.

Entretanto agora os riggers já têm as peças todas e continuam tranquilamente o seu (deles) trabalho, sabendo que enquanto a sapata não tiver apoio eles têm uma apólice de seguro do tamanho do mundo.

E é assim. Não sei como é nas outras, a minha experiência de gestão de projectos está limitada à área náutica: navios (dois product carriers na Rússia de Gorbatchev primeiro e Ieltsin depois) e várias embarcações de vela. É sempre igual: os factores que não controlamos são infinitamente mais do que os que controlamos e esta situação propaga-se aos nossos fornecedores e - obviamente - aos fornecedores dos nossos fornecedores. Junte-se-lhe as condições meteorológicas, a situação afectiva dos senhores (já tive um que não podia trabalhar porque ia para o Uruguai ver a namorada, depois não podia porque a namorada veio do Uruguai; outro não pôde fazer o trabalho no dia combinado porque lhe morreu o sogro - foi uma semana de atraso, entre o enterro do sogro e o apoio à sogra - e as coisas que se vão descobrindo porque se está a trabalhar... E o Natal está aí, eu aqui e vamos os dois encontrar-nos em Palma, disso já não há dúvidas.

Tudo isto quando eu pensava que já não havia mais surpresas, o stock estava de certeza esgotado. Não estava.  Nunca está.

Se calhar é por isso que este trabalho é uma droga (no bom sentido do termo).

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(Isto dito, uma coisa deste trabalho que mais uma vez me maravilhou: quando, depois de discutir com o A. - um senhor mais velho do que eu, primeiro rigger a trabalhar em Palma, homem de experiência e saber seguros - lhe disse que ia chamar o J. para validar as nossas conclusões a resposta foi: "Claro. Quanto mais opiniões melhor". Por sorte o surveyor podia vir a bordo, falámos os três e a evidência foi aceite sem qualquer espécie de resistência.

Não conheço muitas áreas de trabalho das quais a humildade seja o pilar principal.)

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Hoje ha leitura de poesia no Antiquari. O tema é "a poesia sensual" (cito de memória).

Não há relação, eu sei.

... Não? A sério?

27.11.18

Fragmento

"...
Só fui ateu até te conhecer
..."

Fragmento

"O problema é simplesmente esta vontade de entrar em ti pelo meio e só sair quando tu me amares e eu a ti. É uma questão que parece simples, não é? Vamos para a cama e de entre quecas, cambalhotas, trepas alguma coisa nascerá.

Pois é o contrário: essa "alguma coisa" nasceu antes e agora trata-se de não a deixar morrer."

Fragmento

"...
Levo-te, mulher, de coxas nos ombros até ao céu e nele mergulho como um adolescente na vida ou um velho feliz na morte: sem hesitar, até ao fundo - de ti, do céu. O crepúsculo adensa as cores e o desejo: vens-te com ele e eu contigo. O fim de um dia é o princípio de uma vida, talvez duas. Comer e comer-te, comer-me e morder-te, penetrar-te por cada poro. Receber-te de caralho aberto, feliz como um Papa em dia de fumo branco.
..."

26.11.18

Fragmento

"Escrevo-te de ... , cidade na qual já fui tão feliz que hoje não tenho saudade nenhuma desse tempo. Os verdadeiros amores têm tendência a regressar; já os tempos felizes não, bastam-se a si próprios, fazem de saudade uma palavra desnecessária. (Talvez até se tenha mais saudade do tempo em que se foi infeliz, não é? Apetece lá voltar e trocar-lhe as voltas, usarmos nele o que desde ele aprendemos, como faríamos se à felicidade se pudesse acrescentar o que quer que fosse.
..."

24.11.18

Alguém, ninguém

- F. foi alguém muito importante para mim.
- Foi? E hoje?
- Hoje é ninguém.
- Passa-se de alguém a ninguém com uma facilidade desconcertante.

22.11.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-11-2018

Apanhado na rua no meio de uma multidão, por causa da inauguração das iluminações de Natal. Não percebo por que raio de carga de água sociedades laicas celebram o Natal. Das duas uma: ou não são laicas ou não é o Natal que se celebra. Opto por uma mistura das duas.

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Amanhã, encontro com o surveyor e o rigger (fico grato se me indicarem os termos em português) para discutirmos o apoio da sapata do pé do mastro. Depois, viagem relâmpago a Lisboa, para tratar de alguns assuntos. Hoje senti-me pela primeira vez preso numa ilha. Resultado: Driiveme

O estabelecimento de preços das companhias aéreas é ridiculo.

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Expressão brilhante de E., companheiro de casa de hóspedes: Panda Conservation Company.

Eu chamar-lhe-ia Panda Waltz Company: um passo à frente dois atrás, mas estaria a ser injusto. É inegável que estamos a avançar.

Talvez Panda pé de chumbo companhia de dança?

Para a semana acabamos de pintar o primário no interior e arvoramos, se não houver muitos atrasos com o raio da sapata.

A qual é de alumínio, não de chumbo.

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Com a combinação de barco vazio e chuva copiosa têm aparecido algumas surpresas. Pensava que já tinham terminado, mas são como loiça para lavar: há sempre um prato que aparece depois de tudo lavado.

Enfim, só uma é potencialmente chata. O resto não passa de pequenas contrariedades, coisa de dar um tabefe ao bote, mais para aliviar do que para o corrigir.

A verdade é que estamos a fazer de uma vez só o que devia ter sido feito em trinta e cinco anos e não foi. E a corrigir erros feitos ao longo desse tempo todo.

Ele merece, ao menos isso.

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Creio que nunca conheci um barco tão bem como este, o INDOMÁVEL e o DON VIVO.

É como conhecer uma pessoa intimamente, penso. Por coincidência, devem ser três as que conheço assim, também.

19.11.18

Curiosidades

Separavam-nos cinco milhões de coisas e uniam-nos duas ou três, singelas: a independência, a liberdade, a sensualidade, a noção de que o que se tem para dizer deve ser dito.

Curiosamente, estas prevaleceram.

O que parece nem sempre é

A história sai na sequência de uma troca com a A. V. e com F.V.F., mas anda para ser contada há muito tempo. Só me faltava encontrar-lhe o ângulo, por assim dizer. Cá vai:

Poucos anos depois de chegar a Genebra abri uma empresa de charter nos Açores. Passava lá metade do ano e aqui a outra metade, a fria. Nesses invernos só fazia trabalhos temporários, encontrados através da Manpower, se não estou em erro (isto passou-se há muitos anos e alguns pormenores falham; mas o essencial está correcto). Um dia fui parar a uma empresa que fazia reinserção de pessoas recém-saídas da prisão. Não me lembro de qual a sua actividade, mas lembro-me do que fiz nas duas ou três semanas em que lá trabalhei: preparar stands para o salão do Automóvel de Genève. Éramos seis ou sete, dos quais metade saídos recentemente da prisão. Na minha equipa havia dois desses, o "Paul" e o "Richard". Paul era alto, esguio, viscoso. Tinha o corpo e o comportamento de uma enguia. Richard tinha uma estatura média, largo de ombros, forte; era o tipo de pessoas com quem só um cego se mete na rua. Transpirava maldade, brutalidade por todos os poros.

Tratava-se porém de um homem correctíssimo, que levava com modéstia o seu papel de herói da empresa - era o que tinha feito mais anos de prisão -; quando se apercebeu de que eu lia jornais todos os dias levava-me um ou dois, roubados nas caissettes. Uma vez fiz-lhe ver o absurdo de ele roubar jornais que eu podia ler gratuitamente no café; respondeu-me "Tenho de fazer um pequeno delito ("larcin") todos os dias, se não não me sinto bem". Richard contava-me muitas histórias da prisão, mas nunca me disse porque tinha sido preso (nessa altura confirmei o velho adágio de nunca perguntar a alguém porque esteve preso). Designava as cidades pelo nome das respectivas prisões: Genève era Champ-Dollon, Lausanne Bois-Mermet e por aí fora.

Tanto Richard, com quem eu me entendia bem, como Paul tinham o cuidado de todos os dias deixar os contentores varridos, arrumados, limpinhos. Hábitos que teriam provavelmente trazido da prisão, mas que levariam um observador externo a pensar que estavam a concorrer para o concurso de empregado-modelo do ano.

Adenda: esses trabalhos temporários deram-me a ver uma parte da humanidade que por vezes nos escapa. Quando trabalhei numa empresa de reparação de elevadores tinha como colega um tipo que estava a regressar ao trabalho depois de um ano de baixa: o elevador onde estava a trabalhar tinha caído de um décimo quinto andar. Perguntei-lhe onde é que ele ia buscar coragem para voltar a fazer a mesma coisa. Encolheu os ombros e disse-me "Estas coisas nunca acontecem duas vezes".

Outra das minhas favoritas: uma empresa de montar andaimes. O nome era TPH - Toujours Plus Haut. Isto não se inventa... - Um dia vou com o meu colega e chefe de equipa fazer um trabalho atípico: montar um andaime no interior de um prédio, por cima da cage d'escalier, para se poder reparar a clarabóia. Chegámos cedo e o homem passou a manhã toda a olhar para aquilo; não conseguia encontrar uma maneira de montar o andaime. Depois do almoço disse-lhe para ficar a beber um café, eu tentaria encontrar uma solução. Ele não me tinha em muito alta consideração e deixou-me ir, provavelmente na esperança de que eu caísse e ele se visse livre daquela missão. Quando voltou, uma hora depois, o andaime estava praticamente pronto, seguro, utilizável. Voltámos para a empresa e ele foi a correr para o escritório. Não sei o que disse de mim, mas fui despedido nessa tarde. Já não sei porque razão o patrão falou com a S. e explicou-lhe que eu não era feito para aquele trabalho.

18.11.18

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 18-11-2018

Um raio de sol, um só e Genebra muda. Nesta altura do ano parece que Midas andou a passear por aí, tocando inadvertidamente aqui e ali e com o sol o que era amarelo fica dourado. (Na Primavera gosto do dia em que subitamente as miúdas descobrem que se podem descobrir, mas isso é outra história).

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Muda, mas nem tudo. Há obras em todo o lado. Não me lembro de ter vivido um dia, um que fosse em Genebra sem que houvesse obras num sítio qualquer. Refiro-me a obras importantes, nada de mariquices como re-pavimentar ruas, que se faz aos fins-de-semana e à noite. Agora estão finalmente a fazer o aterro perto da Nautique, um projecto velho de para aí uns vinte anos e que só não avançou antes por causa da oposição do WWF (e provavelmente de outros "ambientalistas", a quem tudo o que cheire a trabalho, dinheiro e melhoramentos cheira mal).

Muito mais divertida é a oposição dos donos de cães do quarteirão onde S. agora vive. É um quarteirão chique, de casas velhas e dinheiro mais velho ainda. Há um terreno vago, inacabado, vazio, feio, cuja única utilidade é servir de urinol aos cães das redondezas. A Câmara quer fazer ali um pavilhão de dança (ou escola de dança? Não sei) mas os proprietários de cães das redondezas opõem-se. S., ela mesma proprietária de uma cadela Leelou, ri-se: "neste bairro há cinquenta advogados por metro quadrado. Não é amanhã que a Câmara vai fazer o pavilhão de dança". Isto de os políticos não terem poder tem vantagens e desvantagens. Para o pavilhão de dança estou-me nas tintas: que os meninos dancem ou os cães mijem não muda grande coisa. Já o aterro da Nautique é importante, é uma obra de que Genève vai beneficiar sem dúvida nenhuma (e a Nautique também, daí a oposição de muitos dos verdes-melancia). Tudo bem pesado, é melhor que eles não possam fazer o que querem: antes a merda escolhida do que o bem imposto.

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(No seguimento de uma troca com F. V. G.) A Suíça é um país paradoxal. Quando se é jovem é impossível apreciá-lo correctamente. Começa por não ser um país: são vinte e seis (tecnicamente, vinte e três cantões e três meios-cantões) que num território mais pequeno do que Portugal têm em comum a moeda e o exército. O resto é diferente, tudo: o sistema escolar, a polícia, a legislação, a carga fiscal, a saúde. Quando aqui cheguei alguns cantões impunham tarifas aos produtos dos outros. Isso acabou, como acabou a proibição de uma polícia entrar no terrítório de outro cantão ou nuns o ano escolar começar em Março e noutros em Setembro (para não mencionar, claro, a abertura da Landsgemeinde às mulheres, mas isso releva mais do folclore do que da política).

É preciso crescer para se perceber a Suíça e sobretudo apreciá-la ao seu justo valor: é o melhor país do mundo, o mais equilibrado, o que deixa mais espaço ao indivíduo, porque é uma espécie de vulcão do qual a superfície é calma e ordenada e o que está por baixo fervilha e só não explode porque se pode manifestar, organizar e votar. Não é por acaso que a Suíça foi o primeiro país do mundo a legalizar a homossexualidade, tema que me interessa tanto como a mija dos cães ou a dança dos meninos, mas é ilustrativo da capacidade inovadora de um sistema que visto de fora parece mais rígido e bloqueado do que uma mulher frígida.

Ao contrário do que muita gente pensa os Suíços não são diferentes de nós. Não é por civismo que os automóveis não passam nos sinais encarnados: é porque estes têm radares e fotografam quem não espera pelo verde. No fundo, "civismo" é simplesmente a capacidade que uma sociedade tem de reconhecer as falhas de quem a constitui e organizar-se em função dessas falhas e não em torno de míticas e inexistentes qualidades como o "civismo", a educação ou respeito pelos outros. Se não respeitas a vida em sociedade és punido (e a punição é pesada e não falha). Se a respeitares fazes o que queres.

Quando se é jovem isto parece opressivo e pesado; quando se cresce percebe-se-lhe a ligeireza. Claro que há contras, mas não há nada que não se possa resolver nas urnas.

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Amanhã volto para o meu P. Não pensei muito nele estes dias. Quem acha que eu só penso em barcos tem aqui um desmentido formal, comprovado (hoje o passeio foi à beira lago para ver os barcos, mas isso é diferente. Sempre foi o meu passeio favorito em Genebra).

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Esta cidade tem mulheres lindas, já aqui o tenho dito muitas vezes. Hoje fui com a minha filha H. à Ferblanterie beber um copo e conversar sobre um breve serviço que terei em Abril e apercebi-me de que não me fica bem mencionar isto: contribuí para isso. Modestamente em quantidade, mas não em qualidade.

17.11.18

Família, famílias

Durante muito tempo reclamámos contra "a família", sem nos apercebermos de que há pelo menos duas famílias: a que herdámos e a que construímos.

Porra

Parcimónia nas metáforas, porra.

16.11.18

Diário de Bordos - Genève, Suíça, 16-11-2018

Regresso a Genebra e reencontro o prazer concentrado de cada um dos meus regressos de há vinte anos. É bom voltar a Genebra: os autocarros a horas, tudo a funcionar impecavelmente, desde a aplicação dos TPG (a Carris local) no telefone à máquina dos bilhetes, aos autocarros, às ruas. Hoje fui mesmo um bocadinho mais longe: por distracção apanhei o autocarro errado e tive que mudar mais vezes. Esperas quase inexistentes, autocarros e eléctricos uns atrás dos outros, tudo em silêncio e sem solavancos, sem espinhas, fluido como mel a escorrer de um pote.

Depois do almoço venho à Livresse, livraria cum café (ou vice-versa) na minha zona favorita da cidade. Está frio, um café custa três euros e é péssimo, mas nos primeiros dias tudo passa. Se cá ficasse mais de três ou quatro semanas lembra-me-ia de que na Suiça tudo o que não é permitido é obrigatório e tudo o que não é obrigatório é proibido; que se em cada cidadão há um polícia adormecido, na Suíça ele está acordado (isto diz-se aqui do cantão de Vaud, mas pode extrapolar-se, mutatis mutandis); que esta camada de nuvens não se irá embora até Abril.

Mas os livros, meu Deus, os livros! Caríssimos, é verdade; mas tantos, em todo o lado, tão apetitosos, escritos na língua mais bonita da Galáxia. Felizmente na Livresse posso lê-los sem os comprar.

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O mundo é um lugar estranho, passe o lugar-comum: chego a casa do T., amigo de há quarenta anos, parceiro de navegações e regatas, onde vou ficar este fim-de-semana. Falo-lhe no P. e digo-lhe o nome do arquitecto, Hugh Welbourn. "Estive com ele ontem em Amsterdm. Encomendei-lhe um barco", responde.

T. deixou a vela "lenta" há muitos anos e agora dedica-se exclusivamente a barcos voadores, de que de resto é um pioneiro no Léman. Welbourn especializa-se num sistema revolucionário de foils - pôr Welbourn e revolucionário na mesma frase é um exemplo perfeito de pleonasmo -, daí o encontro dos dois.


15.11.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-11-2018

Hoje ganhou ele a primeira volta: descobri que o suporte do rail da escota da grande está podre e precisa de ser mudado. Fiquei chateado, quase lhe dei um tabefe. Tínhamos combinado que não haveria mais grandes surpresas. Depois vi que não é uma grande surpresa: desaparafusar o rail, tirar a madeira, aproveitar para selar um dos sítios por onde estava a entrar água, fazer um suporte igual e pôr no sítio. Segunda está pronto, se entretanto daqui até lá ninguém pedir ao A. um serviço urgente, se o fornecedor tiver madeira adequada, se o sogro do A. não engravidar a vizinha, se o despertador tocar à hora certa, se o Sol não se enganar no percurso, se não chover, se o galo cantar a horas, se e se.

Em contrapartida ganhei a seguinte. Temos os encanamentos instalados. Pouco a pouco o quadro macro vai-se fechando. Ficam a faltar pormenores que o I. e eu poderemos fazer, como as carícias de depois do amor.

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Entretanto, primeiros contactos directos com a burocracia espanhola. Quem não gostar da portuguesa (eu não gosto) pode vir até aqui. Isto é patético. Estava tão bem em cima do muro e de repente sinto-me a cair para dentro de um poço fundo e negro.

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O Verão prolonga-se. As máximas andam acima dos vinte. Infelizmente amanhã em Genebra o aquecimento global vai desligar-se. Nada que uma boa fondue de queijo e um banho de imersão familiar não resolvam.

Pergunta inocente

Que fazer deste corpo, com o teu tão longe?

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 14-11-2018

Podia ter sido um dia como os outros, mas não foi; foi ainda mais como os outros. Que se lixem os dias. O único que não é igual aos outros e interessa é o de amanhã.

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No Alqueva vai começar qualquer coisa que intuí pela primeira vez vai para alguns quinze anos. Não retiro daí nenhum particular orgulho, antes pelo contrário: ver as coisas cedo de mais tem o mesmo valor operacional do que vê-las demasiado tarde. A única mudança positiva foi provavelmente ter  encontrado as pessoas certas para dar corpo às ideias. Fica aqui o meu obrigado ao N. F. e ao meu irmão V. As coisas sendo o que são estarei na Suíça, num banho de família, amigos e fondue de queijo. As ideias são como os filhos: crescem e vivem a sua vida. Crescem e desaparecem.

Está outra, da mesma altura, no forno. Vamos ver, como dizia o ceguinho à mulher, que era surda. Essa não quero que me deixe.

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Para a semana arvoramos. O P. vai ficar com as duas pernas ou quase: ainda faltam os trapos. Hoje dizia ao director da marina que a minha sorte é gostar de Palma. Pensava no martírio que foram os quatro meses na cidade do Panamá  a fazer o refit do A. F., que ficou uma merda. Não mencionei o P., porque não posso usar o verbo gostar, há coisas demasiado íntimas para serem expostas assim à luz do dia. Isto é como um casamento com uma mulher tão forte como nós e nada contemporizadora: todos os dias são uma guerra civil. Um dia ganha ela, outro nós.

Hoje ficámos com os encanamentos de águas limpas, amanhã teremos os das águas negras. O mastro vem para a semana. Até lá teremos o interior pintado. Faltam dois ou três pintelhos na electricidade. No motor também. Depois temos de pintar o convés, fazer o cardan para o fogão, reforçar os beliches de meia-nau, distribuir as bombas de fundos, dar a segunda demão nos fundos, tratar do material de salvamento. Não parece, mas a verdade é que está quase.

O problema é quase ser uma palavra que nunca mais acaba, nunca mais.

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Concerto de piano no Door 13. Se os bares se avaliassem pela qualidade dos produtos este seria o melhor bar do mundo. Não é. Esse lugar está e continua reservado para o Procópio. Sem nobreza um bar não passa de um bebedouro.

Mas lá que os Dry Martini e os Dark n'Stormy estvam excelentes estavam.
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As mulheres eram bonitas, mas cada uma tinha oito pernas e mais braços do que Shiva. Refugiei-me num canto do bar e na música. O resto não passou de epifenómenos. Depois fui ao 5ª Puñeta e ao 7 Machos: gosto de progressões numéricas, ordenadas. Uma noite sem método é um simples desvario.

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U. portou-se como uma estúpida, que não é. Ou será? Aqui está uma dúvida que não vou trabalhar muito. Mais vale deixá-la resolver-se sozinha, porque na verdade o resultado é-me indiferente. Curioso, não é? Quanto mais se conhece alguém mais esse alguém se torna ninguém.

Nem sempre, seja Mendel louvado.

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A grande vantagem dos preconceitos é que podemos trocá-los, como as árvores trocam de folhas ou os marinheiros de futuros.

Ou de passados, vá lá saber-se.

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Se vivesse outra vez não mudaria nada senão uma coisa. Ou é uma tragédia ou uma arrogância insuperável: a única coisa que mudaria na minha vida seria aprender música.

Satisfaço-me com pouco, está visto.

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Banho de imersão na família, in situ. Não sei que dizer, juro. Talvez afinal não seja pouco aquilo com que me satisfaço.

12.11.18

Ansiedades crescentes

A hipótese de juntarmos as nossas ansiedades é atraente, claro. Há sempre a esperança de que elas tenham sinais contrários e se anulem, soma algébrica de ansiedades. Ao contrário por exemplo da tua beleza, que a minha fealdade faz mais bela ainda.

É pouco provável. As ansiedades tendem a acrescentar-se, propagam-se como sons debaixo de água, ninguém os vê ou ouve mas vão longe, não se perdem no caminho. Tu ficarias mais ansiosa e eu mais ansioso e a cada ciclo as ansiedades cresceriam, cada vez que déssemos as mãos ou nos beijássemos.

Pode, repara, fazer-se da vida uma luta contra as probabilidades, fazer dela aquilo que nós queremos que seja: duas liberdades que um dia se encontram e criam uma terceira, independente.

Pode fazer-se da vida o que se quer. Basta querer (e saber fazer operações algébricas).

11.11.18

Classe

Não há melhor prova de classe do que ser capaz de empobrecer com "graça e majestade".

Figuras da beberagem

Um bom Dry Martini é o exemplo perfeito de uma sinédoque; mau, não passa de uma metáfora de mau gosto.

Cheiros

Olho para trás e digo-me "Isto não anda"; olho de novo e vejo que sim, anda, andou. Já estamos a falar de interior, da navegação, da limpeza dos forros dos coxins.

Ora cheira a mar ora não, é um cheiro como toucinho entremeado recheado de amor e frito em impaciência.

10.11.18

O voo de uma grua encadeada

E se por acaso um dia voltares a ouvir-me dizer que te amo, não ligues. Isto não foi mais do que o voo rasante de uma grua sobre a água calma de um lago, de manhã cedo, à espera da primeira brisa do dia, a luz do sol nascente a traçar na água uma linha que em breve se desfará. A grua encadeada desvia-se do seu caminho por um breve instante, tu vês-lhe as plumas na hesitante claridade da hora, pensas que ela se dirige para ti, fascinada talvez pelo reflexo dourado do nascer do dia nos teus cabelos, pela esperança que nos teus olhos ela toma erradamente por uma certeza. Deixa-a voar, seguir o seu caminho, não lhe ligues, ela voltará ao rumo, o espelho da água em breve se quebrará, o raio de luz transformar-se-á numa parede, as plumas cairão levadas pelo vento.

Imagina um dia de inverno, frio mas ensolarado. Pões os óculos escuros e pensas "que contradição, este sol e tanto frio, que desvario" e lago, grua, aquela voz que um dia sonhaste ouvir dizer-te "Amo-te" desaparecem, desvanecem-se, diluem-se numa grande chávena de tempo.

Que alguém um dia beberá, quem sabe?

9.11.18

Tu não podes

Hoje fiz escalopes panados, aquela receita em que se mistura o pão com queijo ralado. Ficaram bons, pensei que gostarias se aqui estivesses, mas tu não podes, pois não? O vinho era bom, o tinto da casa da Sifoneria, mas tu não podes.

Amanhã é sábado e só trabalho de manhã, tenho o I. a bordo a pintar os vaus e à tarde têm de secar; mas tu não podes.

Não poder viver é horrível, sabes muito bem. Mas não podes. Faltas-me muito, tanto como o ar, mas não podes.

Se pudesses, encher-te-ia a pele de poemas - tu és um poema escrito pela genética, poema de carne sangue olhos e desejos, o teu e o meu, poema sem fim de cantar, amar, louvar, acção de graças à vida.

Mas tu não podes.

6.11.18

Dúvida existencial

Se, como dizia Joshua Slocum (para quem não sabe, um dos maiores marinheiros de todos os tempos) "são os capitães demasiado seguros de si próprios que perdem os seus navios" (ele tinha acabado de perder o seu, numa viragem de bordo falhada, demasiado perto de terra), então os capitães inseguros levam os navios a bom porto?

O frio e as mulheres

Ao fim destes anos todos ainda estou para perceber se o frio é uma mulher feia que se oferece ou uma bonita que se recusa.

5.11.18

Pedaço de terra, pedaço de mar

Deve haver uma razão pela qual se diz "vou comprar um pedaço de terra e plantar couves" mas não se pode dizer "vou comprar um pedaço de mar e pescar sardinhas".

3.11.18

Turismo de Outono

Se um dia eu for um turista a sério, daqueles que dormem em hotéis e se queimam nas praias para poderem contar uma aventura no regresso a casa não seria desses. Seria um turista de Outono: têm melhor aspecto, não andam em cardumes nem de tronco nu (seja por causa da temperatura ou por outra razão qualquer) e falam mais baixo nos bares, cafés e restaurantes.

O turismo de Outono nem parece turismo: dá mais a impressão de senhores que se enganaram na estação do comboio ou na paragem de autocarro e aproveitaram para descobrir as imediações.

Estão a brincar, sem dúvida

Chego a Palma e está sol. A minha pergunta a quem de direito é "Mas vocês estão a brincar comigo ou quê?"

O elo fraco da cadeia é o mais forte, no fim

O dia amanheceu radioso, lindo, azul. I. e eu chegámos a Andratx comentando a beleza da ilha e de como o sol muda tudo, esta ilha etc. e tal e coiso. A previsão era que sim, sem dúvida, fantástico, dois dias seguidos de sol. Meia hora depois estava a chover. Vai chover o dia todo, aos bocadinhos. Comprei lonas para não estragar a tinta que já estava feita - de qualquer forma podem servir quando formos pintar o convés -. Pusemo-las e o I. diz: "Felizmente hoje não há vento". Mal acabou a frase veio uma rajada.

Alguém falou em capacidade de adaptação, flexibilidade, jogo de cintura, teimosia e por aí fora?

[Adenda: o mastro está uma beleza.]

2.11.18

Dia, vida

As miúdas têm vinte e poucos anos e são belas como o nascer do dia.

Ou será o nascer da vida?

Où es-tu, Tati?

Hoje é dia de romaria. Bodega Belver, Ca la Seu, Moltabarra, Sifoneria, Bar Rita. Acabei na Tasquita.

Para que Palma deixe de ser simplesmente amável e se torne habitável só falta uma coisa: o café Tati.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-11-2018

Palma é uma mulher bonita e inteligente que ora se mostra uma ora a outra, mas nunca as duas ao mesmo tempo.

Para a ver totalmente il faut montrer patte blanche, ser paciente, esperar, ter sorte.

Por vezes entrevejo-a como é, visões um pouco fugazes de uma cidade que se recusa, não por coquetterie nem por timidez, mas por arrogância, altivez.

O meu namoro com a cidade entrou numa fase nova: quero desesperadamente deixá-la, nunca mais a ver, esquecê-la; e sei que isso não passa de um voto piedoso, fracassado antes mesmo de ser formulado em voz alta (que só é nos momentos de praguejo, raiva impotente e frustrada).

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Esta chuva ajuda à raiva, mas ao mesmo tempo atenua-a: uma semana de quase repouso, trabalho de escritório, mudança de casa (mais uma!) Quarta-feira fui a bordo as cinco da manhã, estava um badanal de merda, fui hoje para ver que está tudo tão bem como parado (não é verdade, mas é quase) e volto amanhã se o tempo melhorar como eles dizem que vai.

O tempo nunca lê as previsões.

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Quanto mais oiço Mallorquín (basicamente catalão) menos gosto. Lido parece que quem o escreveu se esqueceu de metade das letras; ouvido, é o contrário: onde foram eles buscar tantas sílabas, vomitadas mais do que faladas (com sotaque espanhol, ainda por cima)?

31.10.18

De ti

Se pudesse escrever-te um só palavra; se essa palavra pudesse ter uma letra apenas; se dessa letra só um traço me fosse permitido, esse traço seria eu, inteiro: parte de uma letra, de uma palavra, parte de ti.

30.10.18

Beleza

Nunca fui grande coisa a matemática mas sempre lhe apreciei a beleza. A resposta do senhor Jonathan Lang a esta pergunta explica em grande parte porquê.

O pior

O pior quando se chega a casa ao fim do dia não é pensar no que se fez; é pensar no que não se fez. Não há no mundo rum que chegue para diluir essa lembrança.

28.10.18

Resumo simplista

Resumo: o mar estava opaco e cinzento, fui a bordo e daí passear para a Tramontana, almocei em Banyalbufar num restaurante quente, bonito e desajeitado, bebi café e Hierbas noutro com vista para o dito mar, voltei para casa, comprei a coluna para o computador e vou adormecer a ouvir Steve Lacy.

Bolsonaro ganhou, mas só o soube agora, de modo não deu para estragar o dia. O camembert e o vinho sem sulfitos acabaram.

Viver é bom.

Vida?

Vi-te um dia nua no bosque e ouvi pela primeira vez falar de Maddy Prior num bar sórdido de Gibraltar.

Isto deve contar como "Vida", não?

Factor multiplicador

A solidão tem o estranho poder de dividir ou multiplicar por dois tudo o que se vê, tudo o que se vive.

Livros e outras coisas

Com o Outono veio a vontade de reler o Garden of Evening Mists, um dos melhores livros que li ultimamente.

Um livro é todos os livros, tal como uma mulher é todas as mulheres e um barco todos os barcos: falta-te um e faltam-te todos.

27.10.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 27-10-2018

Entrou o Outono pela porta dentro, trouxe com ele chuva, frio, vento e lembranças de França: Epoisses, Camembert, um bom Bourgogne sólido e sóbrio, rillettes de porco. Encontrei os queijos (mais Morbier). O Camembert e o Morbier estão prontos; o Epoisses vai ter de esperar.

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Fui a bordo; está tudo calminho. O pior chega na segunda, parece. Seca. Esta porra deste tempo atrasa-me uma semana a pintura do mastro. Aquilo que mais falta me faz agora é atrasos, sem dúvida. Isso e um bom copo de ácido sulfúrico para curar a constipação.

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Tempo de cama. Quando for para as Canárias dispenso-o, obrigado.

Populismo

Uma das grandes desvantagens dos políticos populistas, quando comparados aos profissionais, é não mentirem. Fazem o que dizem que vão fazer.

26.10.18

Não-vontades, não

Se fosse só falta de vontade seria tão bom... Mas não é. É falta de vontades, no plural. Não-vontades. Escolher o que não se quer fazer menos; ou seja, o que menos se quer não-fazer.

Hoje não-comprei as colunas, por exemplo. Não-saí depois de jantar (uma espécie de guisado de frango que não-ficou mau, por acaso mais do que por ciência). Não-li, não-escrevi. Agora vou não-dormir, amanhã trabalho-sim. Antes isso.

Talvez não-falar, simplesmente. Paralisado num bloco de silêncio, imóvel num pedaço de quartzo daquele usado nos relógios, rodeado de nãos-tracinho como focas refasteladas ao sol, não.

Não.

25.10.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 25-10-2018

Alguns acontecimentos sucedem-se; outros mantêm-se. A constipação continua, por exemplo. É daquelas que vai durar o inverno todo, está visto; ou pelo menos até ir para o mar. Aí não há uma que resista, desvanecem-se todas.

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Comprei calças. Tem sido uma orgia de compras: t-shirts, sapatos, hoje três pares de calças. Têm cores diferentes, talvez isso lhes prolongue o tempo de vida útil. Este é o maior inconveniente desta forma de comprar roupa: acaba tudo ao mesmo tempo. Com cores diferentes é possível que a prática me leve a usar mais umas do que outras. Três pares duram pelo menos três anos, talvez quatro (depende das latitudes onde viva durante o período). Ultimamente fartei-me de promover roupa a trapos, daí este espalhanço de compras. Vá lá, foi rápido: não passei um quarto de hora na loja. Talvez um dia perceba a expressão "terapia de compras". Devia ser "tortura de compras".

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O mastro continua a ser pintado. É uma trabalheira porque decidi não tirar as ferragens: não quero provocar os demónios, eles dispensam-nas. O Ian está a dar boa conta do recado - gosta tanto de barcos como eu e do trabalho bem feito. A verdade é que o pau está a ficar lindo, muito mais do que esperava -.

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A minha bicicleta Órbita Estoril Dois é uma merda. "Elástica", chama-lhe o gajo da loja onde reparo os furos e afino os travões e as mudanças. Mas há uma coisa de que gosto: conduzo direito, com o torso quase na vertical. É uma posição que favorece a observação e a condução pausada. O único inconveniente é que me distraio um bocadinho mais, com tudo o que vejo.

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O A. acabou finalmente por concordar comigo: a solução para o chão da casa de banho é levantá-lo um pouco. "Dez milímetros" disse-me hoje. "Nem se nota". Claro que não se nota, A. É o mais fraco de todos e o que requer mais atenção. Para falar com ele adopto una forma de maiêutica doce: começo por lhe perguntar porque não fazes {assim} (a solução que me parece indicada)? Depois sugiro mais duas ou três fáceis de refutar, sempre sob a forma de pergunta. Um dia digo-lhe "é pena que {assim} não funcione". No dia seguinte ou dois dias depois vem dizer-me "encontrei a solução ideal. Fazemos {assim}. Respondo "sim, super. Boa ideia" e acabo por ter a coisa como quero e bem feita, porque ele trabalha bem. Como há muito trabalho não se perde tempo - enquanto não faz uma coisa faz outra - e tenho um bom ambiente a bordo.

O que demonstra que cresci bastante: há vinte anos ter-lhe-ia dito "faz {assim}" e ao fim de uma semana ele ir-se-ia embora "de moto proprio". Não há em Andratx gente que chegue para brincar aos pequenos ditadores. Além de que na verdade ele trabalha bem, se for ele a encontrar as soluções. E eu não tenho feitio para isso.

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Ontem seria o aniversário da minha Mãe. Beijo, Mãe. Escrevo isto e oiço-te pensar (e dizer, nunca sofreste de mudez) "és igual ao teu pai". Quem me dera, Mãe. Quem me dera. Não sou. Ainda hoje o provei, uma vez mais. Que se lixe. Não perco o sono se o M. F. não gostar do e-mail que lhe enviei. A verdade é que hesitei bastante, isso chega para provar que aprendi qualquer coisa; e que não é só ao Pai que sou igual. É também a ti.

24.10.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 24-10-2018

Há muito tempo que não leio aquela frase tão frequente na blogocoisa: "get a life!" (nunca me foi dirigida, suponho que por distracção das pessoas que a utilizavam).

Como traduzir get a life? Arranja uma vida? Vai viver?  Prefiro esta: vai viver. Não sei se aquilo que faço conta como vida. De um ponto de vista biológico conta, claro.

Frase de ontem, ligeiramente retocada:

"I was planning to pass and say hello and all that. But some kind of signs make me believe that I am tired, too tired. Normally extra-sensorial signs do not make it to my will, but this time they are so real I can almost touch them. So I obey those stupid voices and lay down on my bed, hoping to find enough energy for a shower. ..." (Não encontrei energia para um duche. Ficou para hoje.)

Se alguém um dia me disser get a life responderei "Já encontrei. Amanhã".

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Nenhum refit avança nunca à velocidade que nós queremos. Este nós é colectivo, abrangente, vasto: começa no armador e acaba no primeiro degrau da pirâmide. Há uma coisa qualquer nos barcos que os faz brincar ao gato e ao rato com o tempo, com a vontade das pessoas, com o calendário. Penso todos os dias no F., que me disse em Maio: "Isso vai custar x e não sais daqui antes de seis meses".  Mandei-o bugiar, disse-lhe que estava a sonhar com ladrões (ou a fazer-se ao trabalho). Tinha razão nas duas asserções (ele). É suíço e vive aqui há pelo menos três semanas, duas qualidades que têm um efeito contraditório em mim: ser suíço é bom, conhecer Mallorca desta forma não.

[Penso no lado positivo da malfadada previsão: estou dentro dos valores que ele me deu. Não me enganei muito.]

A verdade é que o meu amor por Mallorca entrou numa nova fase. Não acabou, longe disso: continuo a gostar desta ilha, da cidade, das estradas que quotidianamente percorro, da exaustão com que chego a casa e me pergunto se isto é uma vida (é). Mas porra!, se vejo o bote pronto e me apanho a saber se paro em la Linea ou se continuo nem acredito.

(Terei de parar antes, eu sei. Deixem-me sonhar).

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Comprei quatro defensas, novas, brancas como uma noite de paixão. Este fim-de-semana entra badanal e quero ter o urso preparado.

(O gajo da meteo deve pensar que não trabalho o suficiente durante a semana).

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Descubro com horror que me falta música. Amanhã vou comprar umas colunas para o computador. Devem ser as vigésimas. Qualquer dia juntam-se e fazem uma parada: "Get a loudspeaker!".

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Uma vez escrevi que amar África é como amar uma mulher feia (ou uma que nos engana, já não me lembro). Amar o que faço é como amar a mulher mais bonita do universo: impossível ver-lhe os defeitos.

23.10.18

Espelhos, outros

Raramente me olho ao espelho. A opinião dos outros não me interessa o suficiente para me infligir tal sacrifício.

O preço do frio

Gostar de frio é coisa de ricos. Nós, pobretanas sem eira nem beira preferimos o calor. Suponho que seja uma questão de preço.

Diálogos imaginários

- A única razão válida para se acreditar na reincarnação é esta indesmentível verdade de que uma vida não chega.
- Não chega? Vive-a até ao fim e ao fundo e vais ver se chega ou não.

21.10.18

Gracia, Vida

O bairro da Gracia em Barcelona é o meu bairro favorito desta cidade. Faz-me pensar no Keramikos de Atenas: o bairro dos locais, o bairro refúgio. Não sei qual é - ou qual será - o equivalente em Lisboa. Tão pouco me interessa. Talvez a Graça? Alcântara?

Não sei. Não estou em Lisboa. Estou em Barcelona, no bar La Trini. Venho do Salvatge, que só tem vinho. Este tem rum, Santa Teresa.

Santo rum. Santa Gracia. Santa Vida.

Restaurant La Trini
Carrer Verdi 30
Latrini30.com

Mar

Anoitece em Barcelona. Bebo um vermute caseiro, mais um (muitas casas tem o vermute, Deus o abençoe), agora numa esplanada barcelonesa, encafuada num quadradinho da cidade velha. Não está calor nem frio, a praça fica fora das rotas turísticas, a bicicleta que aluguei por dez euros languesce no respectivo estacionamento. Não trabalhou nem para metade do que paguei, felizarda.


Encontro com V. V., que só conhecia do Facebook. Encantador, poeta, viajante, jovem. Tudo o que não sou mas podia ter sido, não fosse esta imprevisível conjunção de mim e da vida ter-se intrometido entre mim e ela, a vida.


São horas de acabar o vermute e ir entregar a burra. Horas de acabar o dia e começar o próximo: avião, carro, Andratx, P.

Não é nada disso, P.

É Canarias. Las Palmas de Gran Canaria. Mar. 

Sem ti

O homem é preto como a noite sem trovões e sem lua. Sem ti.

Serviço público - bares Barcelona

Tasca El Corral
Carrer de la Mercé 17

(Gosto de sítios em que o empregado reclama porque acha a gorjeta grande de mais.

Não era. Uma tasca que me diz para pôr a bicicleta lá dentro porque não encontro sítio na rua para o cadeado não tem gorjetas demasiado grandes).

Além disso tem vermute caseiro esplêndido e chorizo a la sidra decente e é bonito.

Esquecimentos flutuantes

Nestas manhãs calmas, cálidas e ensolaradas quase me esqueço de não gostar de Barcelona. 

20.10.18

Espaço, palavras

Se neste espaço que nos separa fizeres uma estrada de palavras, eu percorrê-la-ei.

Caminho, carga

Vai o caminho longo e pesada a carga, dizes. Mas não fazes nada para abreviar um ou aligeirar o outro, seja por preguiça, inabilidade ou negligência.

Antes por falta de caminho e de carga: vais leve por essa estrada fora, guiado por estrelas invisíveis, atrás de cometas que só tu vês. Não te queixas: ninguém te ouviria.

A questão

A questão não é essa.

Ninguém põe em causa o desejo, ninguém duvida do seu poder devastador. A questão é saber de onde vem, como um tsunami nasce de um tremor de terra. Precisa o desejo de um terramoto? Sei lá, o amor? A solidão? Uma noite cálida de Outono? O teu olhar, a pele, essas coisas?

Não. O tempo e as palavras que lhe dão sentido. 

18.10.18

Perifrásico

Os portugueses gostam de perífrases. Preferem dar voltas ao penico a dizer as coisas directa e claramente. Somos um povo perifrásico.

Ou periférico, não sei.

17.10.18

Encontrou

Podia ser o fim de um dia como milhares de outros; mas não é. Sabe a fim de ciclo, como se a personagem do Amarcord em vez de gritar Voglio una donna gritasse Ho trovato. Um fim de ciclo bom, daqueles que abre portas, janelas, renova o ar, entra luz por todo o lado.

Que teria ele encontrado, pendurado na sua árvore? Pouco importa. Quem procura de verdade não sabe o que procura; sabe quando encontra, quando se apercebe de que a estrada que vinha percorrendo é isso mesmo: uma estrada. Não sabia o que era, não sabia sequer que aquilo tinha uma direcção, uma foz, como um rio de que os afluentes não se distinguissem do fluxo principal, rede de estradas sem hierarquias, estradas secundárias, caminhos, atalhos, auto-estradas, árvores grandes ou pequenas: tudo igual, tudo o mesmo valor.

O fim de um ciclo como um torniquete: entra por onde saiu. Vai à loja das tintas e pinta o mundo que aí vem. Arruma o puzzle na caixa e começa outro, maior e mais bonito, pintado de fresco. Escolhe a miúda mais bonita da sala e diz-lhe: encontrei.

Viver, cair

Não tenho onde cair morto mas tenho onde viver de pé, que é muito mais importante.

15.10.18

Diário de Bordos - Haría, Lanzarote, Canárias, Espanha, 15-10-2918

A ideia era ter um dia calmo e pensar. Na segunda parte tive bastante êxito. Pensei, repensei (e quase trespassei), cheguei a meia dúzia de pistas e tenho pelo menos uma direcção. Já a primeira foi mais ambígua. Primeiro, passei a manhã toda ao telefone com Mallorca; depois, resolvi meter-me no carro e perder-me pela ilha. Passei pertíssimo de alguns acidentes - se conduzir não pense - descobri que o carregador de telefone recém-comprado só deu para duas cargas e que as tomadas do quarto não aceitam a ficha do laptop. Fui carregar o telefone para uma tasca.

Ao menino, ao borracho e ao pensador põe Deus as mãos por baixo.

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O quarto é lindo, calmo, grande, bem decorado. Há quanto tempo não durmo num sítio assim? Tenho andado a pensar que estou farto de aircoisos e afinal sai-me isto na rifa.

Vim para a ponta Norte da ilha: quero calma, paz e sossego. Infelizmente amanhã lá terei de voltar a Arrecife, mas enfim. Este fim de tarde e esta noite compensam tudo.

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É a mesma calma de Mértola. Não é ausência de barulho, é silêncio pela positiva, afirmativo, de dentro.

O lugar chama-se Haría, a casa Casa das Vistas, se por acaso alguém aqui vier de passagem.

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Dormir? Tenho sorte: consigo dormir em qualquer sítio, em qualquer circunstância.

Até no meio de um silêncio estrondoso como este 

Parceria, selvajaria

A quantidade de cicloturistas é impressionante. Um gajo não anda três quilómetros que não veja um grupo de senhores e senhoras em Lycra, montados em bicicletas mais leves do que o ar (pelo menos na aparência, claro).

Em Portugal seria impossível: a falta de civilidade dos nossos condutores mandaria metade para os hospitais

Excepto talvez se se fizer um produto combinado: cicloturismo e turismo médico. Aí sempre se rentabilizaria a boçalidade.

14.10.18

Diário de Bordos - Arrecife, Lanzarote, Canárias, Espanha, 14-10-2018

A chegada a Lanzarote foi pouco auspiciosa. Felizmente não sou supersticioso nem acredito em sinais do além. O automóvel que tinha reservado para chegada não estava: dois erros, dois, numa só reserva; a senhora da casa aircoiso fez-me esperar mais de uma hora, metade da qual na rua (a outra metade foi passada num café simpático a comer frango frito execrável e batatas fritas que num mundo justo levariam quem as fez à prisão).

As desventuras continuaram: passei a manhã a tentar reencontrar o automóvel, uma das pessoas a quem eu tinha de telefonar uma vez aqui não respondia, esqueci-me do carregador do telefone em Barcelona e por aí fora. As catástrofes - verdadeiras catástrofes, sublinho -  sucederam-se até que peguei, finalmente, no veículo e comecei uma volta pela ilha. Que é inquietante: no meio destes campos de lava um gajo pensa que as erupções foram ontem e nada garante que não voltem amanhã. À medida que o passeio vai progredindo e a paisagem se entranha a pergunta fica "como é que esta gente extrai comida desta terra? Desta secura, desta violência? Como será esta gente para lá da máscara de simpatia e hospitalidade?"

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O automóvel foi uma fonte de chatices mas creio tê-las resolvido todas, à terceira cola (Superglue, a quem possa interessar).

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Primeira nota: quem pensar que o serviço em Palma é mau devia vir a Lanzarote.  Segunda: pelo menos ninguém fala catalão. Terceira: de onde raio de carga de água vêm estes bangladeshis todos?  (Depois descubro que alguns são filipinos. Devem vir de muitos lados).

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Lembram-se daquela experiência que fazíamos no Liceu com limalha de ferro? Um gajo aproximava um íman e tudo aquilo se ordenava? Deve passar-se o mesmo com algumas vidas.

Pelo menos a minha, o que já não é mau.

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Pergunto-me como é que se consegue dizer que isto é trabalho sem se desatar numa gargalhada sem fim. Eu consigo: é trabalho. Abençoado, mas trabalho.

A pessoa certa

- Arranjei uma namorada. É médica.
- Hummm... Para ti não seria melhor uma veterinária?

11.10.18

Argumentário

O meu argumento para ser conservador não é "dantes é que era bom".

É: dantes já era suficientemente mau.

Carta aberta com súplica

Querido Deus,

Tu podias matar-me de uma vez. Não é preciso fazeres-me passar por esta tortura.

Não achas?

Obrigado.

L.

PS - Não precisas de matar-me. Adormecer-me profundamente até esta merda passar seria suficiente.


PPS - Não te esqueças de que amanhã tenho o avião para Lanzarote.

Diário de Bordos - Barcelona, Catalunha, Espanha, 11-10-2018

O post era para ser de ontem, mas uma constipação colossal adiou-o sine die. Apanhei-o em voo para parte incerta, num restaurante "mexicano" de Barcelona (mexicano vai entre aspas porque o cozinheiro deve ser esquimó).

Venho do salão náutico, provavelmente a coisa mais prática que já foi inventada para quem precisa de encontrar fornecedores, clientes, potenciais parceiros e - sobretudo - sentir as tendências, saber para onde vai o vento.  Ainda me lembro das excitações dos anos oitenta em torno do salão de Paris; mais tarde foi o Boot, em Düsseldorf. Tantos outros: Londres, Grand Pavois, Friedriechshafen...

Depois essa excitação desapareceu e ir a um salão náutico tornou-se uma seca, uma violação, passe o exagero: plástico e mais plástico, tudo muito brilhante; os senhores de blazer e as senhoras elegantes, gajos que do mar conhecem a cor nos dias de sol a falar, falar, falar... Tornei-me alérgico. O salão de Barcelona tem pelo menos a vantagem de se ter tornado uma coisa minúscula, desinteressante, "local" como me dizia há pouco o Samuel. Enfim, cumpriu a sua missão: encontrei quem tinha de encontrar (em parte; isto é pequeno); comprei duas peças de que precisava, poupando assim os quinze euros do transporte e vou para as Canárias a pensar que não perdi dois dias por uma unha negra (depois de cortada).

A seguir desaguei num restaurante Mexicano com os piores tacos Pastora que jamais comi na vida, incluindo os que me envenenaram no Cabo (esses pelo menos eram bons). Agora vou experimentar os frijoles puercos. A tequila é boa, valha-nos isso.

Barcelona é uma cidade fantasma. Ou de fantasmas?

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Vou afogar os vírus em tequila e em música pimba mexicana. Aposto que não sobrevivem. 

10.10.18

Serviço público - Bares, Barcelona

Can Paixano (o La Xampanyeria do Google é alcunha).

Carrer de la Reina Cristina, 7. Cava (bom) a 1.75, tapas (simples mas boas) a preços igualmente baixos.

Sempre cheio (pergunto-me porquê), mas o ambiente - pelo menos à tarde - é aceitável. À noite tem gente a mais. A pôr na lista daqueles sítios tradicionais que resistiram ao very typical.

A partir da segunda bebida é preciso comer; uma garrafa tem obrigatoriamente pelo menos duas tapas. Não sei quantas garrafas de cava vende o estacionamento por dia. Só no meu canto de bar o empregado abriu algumas quatro em menos de meia-hora.

(Uma sugestão da T. que perdurou).

9.10.18

Boa vida?

São duas da manhã e está na hora de dizer "foda-se", que é mais ou menos o equivalente de "boa noite". A razão é simples: amanhã é melhor do que hoje e pior do que depois de amanhã e convém despedirmo-nos dignamente de cada dia que passa.

Se formos a ver bem, "boa noite" é insuficiente.

Eufonias

É so a mim que "bar aberto" soa melhor do que "bar fechado"?

Combustíveis

A barmaid é magra, loira, calada e os óculos dão-lhe um ar intelectual. Ou pelo menos inteligente; nem sempre é o mesmo: saber falar é uma coisa, pensar outra. Olhem para mim.

Isto dito, é bom descobrir que há um bar aberto perto de casa quando os japoneses do sake estão fechados.

Um gajo precisa de combustíveis e já os chineses diziam que metade de uma viagem de cem li não são cinquenta li. São noventa.

8.10.18

Contradições e argolas no nariz

As empregadas de hoje no Moltabarra são todas maricas e usam argolas no nariz, como as vacas. A contradição é superficial, claro. Não passa da pele, das palavras.

Gosto delas: eficazes, simpáticas e feias. Quem não gosta de uma boa contradição?

A filosofia e os stocks

O Antiquari não tem mais Fernet-Branca. Vou ter de levar Popper a passear.

Consideranda filosóficas sobre a vida, o dinheiro e as ejaculações precoces

- Qual é o teu objectivo na vida?
- Um dia gostar mais de dinheiro do que da vida.
- Vais tarde, parece-me.
- Eu sei. A vida é uma ejaculação precoce permanente.

Abordagem popperiana do Fernet-Branca

Ando a testar a minha teoria sobre a quantidade de Fernet-Branca que se deve beber.

Era falsa. Agora trata-se de elaborar outra.

7.10.18

A vastidão da tua ausência

O dia acaba. Foi um vasto dia: passei-o na vastidão de uma cama sem ti.

Listas

Cinco razões para não andar com as calças pelo meio do cu; oito coisas que ignorava sobre as vantagens de beber cachaça ao pequeno-almoço; dez perigos de ler insanidades; quinze receitas de Coca-Cola com gelo e limão.

Os jornalistas deixaram de escrever. Elaboram listas.

6.10.18

Festa, pessoas

Todas as quotas estão preenchidas: gordos, pretos, artistas, vegetarianos, ricos e pobretanas (eu), cada categoria na proporção correcta. Deve haver um maricas ou duas, mas não os identifico.

E simpático. Celebramos o aniversário de S. em casa da ex-namorada (e se bem percebi dele também). A esmagadora maioria dos convidados são yachties; a preta gorda é filósofa (tem um curso de filosofia, não sei o que faz).

A expressão "preta gorda" (e brasileira, acrescente-se) é desagradável. A realidade é feia e descrevê-la literalmente torna-a mais feia ainda. Pior: as palavras não são inocentes. São filhas da puta. Torcem tudo o que descrevem, se nós não as torcemos antes.

A verdade é que a senhora é adorável, uma das minhas favoritas na festa. A artista chegou há pouco. É italiana e tem aquela beleza típica das italianas: uma coisa que transparece do interior, como se até os glóbulos vermelhos e as outras células fossem belos, como se a beleza não estivesse nas feições mas no que as sustém, como se a beleza fosse uma simples questão de tempo.

É.

Depois há a vista, fantástica; e o riso do S. Parece uma bola a saltitar, não pára, arranca em todas as direcções e enche o espaço todo.

É tentador classificar esta gente e é uma asneira: são pessoas, como eu. Capazes de mais do que eu: falar umas com as outras.

Diferenças

Um yachtie está para um marinheiro como uma cortesã para uma puta de rua. Fazem o mesmo, mas não é a mesma coisa.

4.10.18

Tempo, paz

Em caso de dúvida: é à beleza absoluta que me refiro. A beleza relativa não me interessa. Saber se A. é mais belo do que B. e este menos do que C. parece-me irrelevante.

Falo da beleza de um corpo, da fluidez de linhas. Muitos não sabem, mas o desejo escorre ao longo dos corpos como um líquido, um gás, um fluido. O desejo não é mais do que uma das formas da física: estás aqui, agora e eu quero-te. Estás aí, agora, eu quero-te mas o meu desejo adia-se porque a distância e o tempo são uma e a mesma coisa.

- O quê? Sem distância não existo?
- Sem tempo não existes. Deixa a distância em paz.

3.10.18

Ao contrário

Dizer "Amo-te muito" é igual a dizer "Amo-te pouco".  Amar não tem muito nem pouco.

É como morrer, ao contrário.

2.10.18

Quero dizer(-te).

"Nasci velha, sempre tive esta idade".

É curioso, eu sinto o contrário: nasci novo, sempre terei esta idade. A da vida, quero dizer.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-10-2018

Quem diz que Il Tano é a melhor pizzeria de Palma deve aferir a qualidade pelo tamanho e forma das mamas das empregadas, esquecendo a existência dos Wonderbra e similares, que levantam, recentram e basicamente lhes dão a forma que elas querem que tenham e não as que elas têm (e depois quando se tiram vem tudo por ali abaixo como um derrame de estupidez, mas isso é outra história).

Ou então comem pizze e não - como eu - lasagna medíocre.

E não bebem vinho Chianti a seis euros o copo.

Antes vir ao 7 Machos beber tequillas de sonho a cinco e cinquenta.

Talvez o sonho seja caro; a mediocridade é de certeza mais cara ainda.

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Cada vez que vou ao 7 Machos há um velho sozinho no canto a beber copos. Hoje, esse velho sou eu. É reconfortante saber que se faz parte de uma tribo, de um grupo, de uma classe sociológica, de um clã para quem as figuras da beleza nada são, se vierem acompanhadas.

Matinal

Minha palavra de mim: a mais bela de todas as palavras é para ti.

Energia, movimento

A principal energia motriz do mundo é a inércia.

1.10.18

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-10-2018

Está frio e é segunda-feira: o Moltabarra está vazio. Enfim, quase. É agradável, não aquela barulheira infernal dos fins-de-semana de Verão. Espero um dia ter um café, bar, qualquer coisa do género e deixar de gostar de bares vazios. Até lá continuarei a preferir sítios onde me oiço pensar.

Onde me ouviria pensar, se pensasse.

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O P. avança a olhos vistos. O último grande projecto são os brandais. Motor, electrónica / electricidade, carpintaria e fibra está tudo a andar em movimento acelerado. Não se vê, mas eu sei: estas coisas começam subterrâneas, ou submarinas - é mais apropriado, se bem não goste muito do termo. O P. é para a superfície - e depois nascem de repente, como naquelas gravidezes que ninguém viu, ninguém se não a senhora sabia.

Qualquer dia um gajo acorda e dá por ele a fazer provisões para a largada.

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O Moltabarra não tem televisão mas em contrapartida projecta na parede  uma imagem gigante. Paradoxalmente é menos agressivo do que a porcaria do aparelho, porque a imagem é mais terna. Agora estão a passar filmes de gajos a fazer macacadas em bicicletas. Não sei como se chama e interessa-me pouco. Pista de terra, piruetas, mortais, andam pelos ares como aviões; ou anjos, se os anjos forem todos jovens, bonitos e derem entrevistas depois das habilidades.

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Concentro-me nos pintxos, nas senhoras da mesa ao lado, no polimento do casco amanhã e em não poder esquecer-me de pôr as bombas antes de ir para o mar.

Arranjei uma marina mais barata. Não tarda deixo Andratx, finalmente. Para quarta uma bomba ou duas chegam. Depois vou precisar do sistema no qual ando a pensar há não sei quanto tempo: quero ser capaz de fazer face aos primeiros momentos de uma entrada grande de água sem ser pela bomba manual, que é uma aldrabice: imobiliza um tripulante e esgota-o num ápice. Ou seja: um gajo fica com um par de braços e uma cabeça a menos quando mais precisa. A esmagadora maioria das embarcações actuais não está preparada para fazer face a uma grande entrada de água durante digamos quinze minutos. E a verdade é que não custa nada, se não planeamento, dinheiro, trabalho e peças, que é o que me falta.

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O meu amor por Palma está a entrar numa nova fase.

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Esta frio. Não tarda terei de usar mangas compridas e calças, como no Inverno passado.

Que horror. Este Inverno traumatizou-me. Nunca mais um igual ou sequer parecido. (Obrigado, J.)