8.6.22

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 08-06-2022

Uma tortilla, uma caña e um copo de vinho no bar Dia: nove euros e sessenta cêntimos. Sanchéz, é na estratosfera que vais ter de procurar a tua inflação este ano.

A menos, claro, que a meças só no bar España: a palomita continua ao mesmo preço, com um bónus: fico a saber que sou o único cliente que a bebe. Acho que me fica bem, esta função de guardador de tradições, sejam elas de onde forem. (Nunca me esquecerei da interjeição do Joan, uma das vezes que lhe pedi um Palos: "¿Pero tu eres campesino [o estranjero]?" (Este "estrangeiro" acrescento-o eu agora: conheço melhor o Joan.)

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07-06-2022

O Gustar está cheio a abarrotar, pessoas de pé à espera de mesa. O Tom deu-me uma no porche, uma para quatro pessoas apesar de lhe ter dito que só lhe poderia pagar ou quinta-feira ou no fim do mês. Respondeu-me com aquela expressão de que tanto gosto: «Faltaria más!» e ali fiquei, a perceber que nunca compreenderei os vegetarianos e que esse é um problema que pouco me afecta: cada um come o que quer (aonde é outra história). O que faria este cozinheiro com a carne do leste do Zaire, se com esta faz esta maravilha?

Relermbro os inícios desta amizade - eu morava na praça ao lado da plaza Mayor e passava por eles todas as noites a caminho de casa, comecei a parar para uma grappa, depois uma grappa e um cigarro e depois - muito rapidamente - uma grappa, um cigarro e dois dedos de conversa. 

Se um dia eu tivesse um restaurante seria assim: pequeno, bonito e excessivamente bom. E situado na praça mais bonita da cidade. (O facto indesmentível e singelo de que esta cidade conta com duzentas e cinquenta praças que são, cada uma delas, «a mais bonita da cidade» deve ser mantido onde merece: no armário dos realismos).

Nunca terei, claro: um restaurante é affaire de profissionais, não de amadores como eu. A nós cabe-nos frequentá-los, saboreá-los e usufruir deles como se o mundo fosse acabar logo a seguir ao jantar.

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(Regresso a hoje)

Vim ao Jaume. Fez-me descobrir um novo vermute. Chama-se Rumbo e é de Mallorca. O meu projecto de me engrossar avança bem. Infelizmente, é um projecto que nunca posso verbalizar: quando digo «Vou engrossar-me» isso nunca acontece. Aquele polícia que temos no cérebro (segundo o tio Segismundo) interfere no metabolismo do álcool e acabo sempre por me ficar nos entremeses. Hoje, porém, pensei que sim, queria engrossar-me, mas não verbalizei interiormente. A ver se funciona. As palomitas do bar España  foram uma boa pista de lançamento. Talvez o resto da noite colabore em tão nobres desígnios.

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O Jaume acaba de me servir umas patatas bravas que são, sem sombra de hesitação, as melhores da cidade. Penso no trabalhão que vou ter quando o C. F. vier visitar-me. O Jaume vai ser um dos primeiros sítios aonde o trarei.

(Cont.)

PS - O vermute chama-se Rumbo, um nome que, espero, não terei muita dificuldade em relembrar.

PPS - A Chinchilla fechou. Menos uma para ti, Carlos. Não te falo de mim: é como se me tivessem amputado.

Cont.

Jantar no Divino: carpaccio de polvo. O Roberto é sobrinho de um produtor de azeite siciliano e tem sempre uns azeites magníficos. Este não destoou. Acompanhei com um desfile de vinhos, prineiro tinto e depois branco. A Nuria conhece-me, dá-me vinho como gosto. Nada a dizer, se não que os mejs objectivos para hoje estavam quase quase.

Dalu fhi ao Antiquari beber um rum.  Fui pelas escadas, com a burra na mão.  Quase?

Palma-a-abençoada.

6.6.22

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 06-06-2022 / II

"Jantar" no Toni. Vai com aspas: comi duas tapas, uma de salada russa e outra de pimento de Padrón. Esta minha nova frugalidade não cessa de me maravilhar. Se há um ano alguém me dissesse que um dia conseguiria comer duas tapas, nenhuma delas de carne ou peixe e considerar-me comido eu ter-me-ia rido. Compensei com tintos de verano, para mim os melhores - e mais baratos - de Palma. Dos vários mistérios no pricing das coisas ha dois que me sideram: o dos bilhetes de avião e os do tinto de verano em Palma. Aquilo é uma mistura de vinho tinto (normal e naturalmente a pior zurrapa da casa) com gasosa.  Nos sítios mais sofisticados leva uma rodela de limão. É vendido uns trinta, às vezes cinquenta por cento mais do que um copo de vinho. 

Claro que é raríssimo beber um sem ser no Toni. Hoje fiz-lhe uma observação sobre isso, mas ele não percebeu e desatou numa litania sobre o aumento de preços. A inflação em Espanha vai ser linda, vai.

Votem socialista, votem. A felicidade está ali ao virar da esquina, somos todos iguais, braços dados ou não e por aí fora.

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A bomba da retrete está a funcionar, mas do advogado nem uma palavra. Não é um empate técnico: este é muito mais importante do que a bomba. A ver amanhã, mas estou pessimista.

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Vários telefonemas e o Facebook absorveram-me durante o "jantar". Mal olhei para a praça de Santa Eulália, de que tanto gosto. Amanhã voltarei lá só para olhar.

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O P. precisa de algum trabalho para sair perfeito. Deixar o refit inacabado seria como levar uma beleza para a cama e no fim não terem um orgasmo (os dois, é importante. Não precisam é de ser simultâneos, mas isto são areias de outras praias).

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Ver se amanhã faço enfim as recensões para o P1. Porém, primeiro vou à Dream Yachts, claro. Ainda só tenho quatro semanas de trabalho e isso não chega. Isto dito, estou contente por três delas serem numa lancha a motor. Gostava de mudar, não radicalmente mas comecar a diminuir a vela e aumentar o motor. Paga melhor e dá menos trabalho. (Em compensação, os clientes são geralmente mais chatos. Tudo se paga, neste meio.)

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 06-06-2022

Compro duas brevas no mercado. Dois euros e noventa e cinco cêntimos. Um e meio cada. As pessoas que não distinguem uma breva de um figo não sabem a sorte que têm. Provavelmente passa-se o mesmo com o salmorejo e o gaspacho andaluz. Provavelmente passa-se o mesmo com tudo. Até com as pessoas se passa: há brevas e há figos. Prefiro as brevas, nada a fazer.

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Encontro com J. W., surveyor emeritus do meu P. Comecei por não o reconhecer: teve Covid e perdeu "dez por cento do [s]eu corpo". Não precisavas de perder tanto, J. A minha memória nunca foi boa e o tempo não a afinou. Estamos ambos doidos por navegar no P. e ambos felizes por nos reencontrarmos. É como se dois homens amassem a mesma mulher e em vez de terem ciúmes se sentissem irmanados nesse amor.

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X. vai mandar um dos seus funcionários ao P. para ver o que se passa com a bomba da retrete. A vida é feita destas vitórias. Bem sei que parecem minúsculas - são, de certeza - mas quando se sobe uma montanha cada passo conta, por pequeno que seja.

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"Problemas de dinheiro resolvem-se com dinheiro, não com palavras", dizem os argentinos. Estou a tentar resolver aqueles com estas. Não muda a altura da montanha, mas modifica a inclinação das encostas.  Oh se modifica.

Póstuma

Ocupado que estava a fazer da sua vida uma obra de arte, descobriu que não tinha tempo para mais nada. Aquela obra absorvia-o inteiramente. Morreu e não deixou obras póstumas. 

O que tens à mão

Por ordem: Geraldo Vandré, Mercedes Sousa com um grupo de cantores beasileiros, Simone, Sandy Denny, Maddy Prior, Virginia Astley, Beckett. O Flexiban acabou, meu caro. Agora és tu, a noite e o diabo. Não há música que te valha. Não há nada senão esta noite que insiste em intrometer-se. O sono devia deixar-te em paz. O que tu ouvias ou lias quando ouvias ou lias não interessa a ninguém. Nem a ti devia interessar, de resto. Que pensas vais levar do passado quando fores a enterrar? Ou a queimar, melhor ainda. Ficam as cinzas e essas não têm memória, nem servem para plantar flores. Deixa a noite em paz, não a vasculhes, ela retribuirá e o perdedor serás tu. És sempre tu, na verdade, faças o que fizeres.  Aliás devias deixar as dores em paz  também. Tudo, devias deixar em paz tudo o que te rodeia.

...

Que estejam dentro de ti, tanto faz: dá-lhes paz. Não as chames ao caminho, só servirá para o prolongar. Para prolongar a agonia. A paz é a melhor forma de a abreviar, de a tornar suportável. Imagina o discurso funebre: "Morreu em paz". Queres melhor?

Não há melhor, meu caro. É o que tens à mão. 

5.6.22

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 05-06-2022

Não sei aonde vão os economistas buscar dados para calcular a inflação. Aos restaurantes de Palma não é certamente: seria duas vezes superior ao que anunciam.

Vim jantar ao mini-restaurante Casa Julio. Também aqui os empregados mais antigos se lembram de mim e me cumprimentam com um sorriso franco de alegria. Não consigo deixar de achar infantil e risível este prazer e tão pouco consigo deixar de o sentir.

Na Casa Julio a inflação foi comparativamente baixa: doze e meio por cento. Metade (ou menos) da da Bottega Bolognese, por exemplo, que - verdade seja dita - estava estupidamente barata. Pois bem, agora já não está. Quando muito, passou à categoria "barata".

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Valente esfrega no P. De tal forma que a escova se mandou ao mar, exausta. Nem flutuar conseguiu: afundou-se de seguida. Felizmente já estava no fim.

Está outra vez a meter água pelos gualdropes. O P. gosta de uma boa luta. Eu também. P., vamos a isso, meu caro. Não penses que me ganhas por KO técnico (seja lá isso o que for). Posso não saber dar murros, mas sei domar embarcações selvagens. 

Às vezes até penso que nasci para isso, vê lá tu.

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Palma está cheia de turistas. Parece que o calendário se enganou de mês e estamos em Julho e não em Junho. Nho, Palma. Nho. Hoje chegou o primeiro voo directo de Nova Iorque (na verdade, de Newark). Algo me diz que a inflação não vai ficar por aqui.

A língua mais ouvida continua a ser o alemão, seguido do francês. Depois inglês e espanhol. Maiorquino vem no fim: só falam entre eles quando longe da "multidão enlouquecedora", suponho.

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À tarde fui de passeio ciclista até Portixol, aqui ao lado. A ciclovia passa mesmo por cima da praia. A moda do topless passou, está visto e revisto. Já a dos malditos fatos de banho que se metem rabo adentro veio para ficar. Um horror nunca vem só, como aquelas nádegas desgostosamente expostas e os seios frustrantemente escondidos demonstram. Só as senhoras mais avançadas no tempo resistem a uma e outra, prova de que a nossa geração tem um saudável relação com o bom gosto. 

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Continuo a encomendar livros que nunca lerei, a menos que uma abençoada doença me ponha de vez em casa, para sempre.

("Para sempre tendo aqui o prosaico valor de "até acabar os livros todos que tenho para ler". Nada de extrapolações líricas, por favor.)

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O bar Bog Foot não faz parte das minhas deambulações habituais, mas devia fazer. Descobri-o porque numa das minhas estadias airBnb fiquei num quarto ali à frente. Boa música, decoração decente, vinho bom e barato e - isto vale por tudo, naquela zona - sempre vazio ou quase. Fica perto do Corner Bar, o poiso dos yachties, gente por quem não nutro nem respeito nem afecto por aí além. 

Bolha, solidão

Vivia numa bolha de solidão que de vez em quando era furada.  Nunca se esvaziava: simplesmente alguém entrava nela e ali ficava até descobrir que a bolha era impenetrável e que na verdade estava do lado de fora. E se por qualquer razão conseguia entrar era ele que a expulsava: na bolha só havia lugar para um.

Assim foi passando os anos, como se desse ao mundo a volta num barco a remos: devagar, laboriosamente, contrariando os elementos. "A solidão constrói-se",  pensava a cada remada. "Estar sozinho é mais trabalhoso do que estar acompanhado."

4.6.22

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 04-06-2022

Qualquer pessoa com mais de dezoito anos sabe que o mundo é injusto; aos vinte aprende a aceitar esse facto singelo e irremediável. A vida é injusta, ponto. Saber viver limita-se a tentar estar no bom lado da injustiça, ou pelo menos num dos pontos do círculo em que se sofra pouco - a roda não está dividida em duas metades; a pizza do real tem muitas fatias. De tamanho desigual, é certo, mas quem as cortou fê-lo ao sabor do acaso e não segundo um plano premeditado. Nada a fazer senão tentar não apanhar a mais pequena de todas ou - ainda menos - aquelas em que te pedem para colaborares na farinha, no tomate e no queijo.

Uma das injustiças deste mundo é a Bottega Bolognese, sita no Mercat de l'Olivar (não fazem pizze, aviso) não poder servir comida a quem quer comer sentado. Regras do mercado: aquilo não é um bar nem um restaurante nem um snack nem nada que se pareça. É simplesmente um stand onde se fazem as melhores pastas do mundo e pouco mais. Quem quiser comer ali come de pé, «como os cavalos» (aspas porque cito o meu Pai).

(Outra injustiça é o brutal aumento de preço das ditas pastas, mas isso fica para depois.)

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La Cuadra del Mano é uma máquina de imprimir dinheiro que tem a forma de um restaurante (uma churrascaria, para ser mais exacto). Apresso-me a esclarecer os meus leitores do Bloco de Esquerda - se tiver alguns - que raramente tenho visto máquinas de imprimir dinheiro tão justo, tão merecido como esta. É uma empresa familiar. Helena (a mãe) e Luis e Dany (os filhos) dirigem a coisa, com a ajuda de Karina e uma outra jovem com cara de tutsi cujo nome desconheço. Penso que já aqui falei muitas vezes deste restaurante. Não sei. Sei apenas que para mim deixou há muito de ser um restaurante: é uma casa, uma das minhas muitas casas em Palma.

A carne não é a melhor que já comi na vida - a de Lubumbashi não tem rivais - mas é grelhada pelo Luis com amor, com ternura, com saber, com mão de mestre; e servida pelo Dani ou pela Karina com amizade, com ternura (a ternura é importante, mesmo quando se está soterrado em trabalho). O Luis grelha, o Dani serve e a Helena gere - isto dá para um artigo sobre empresas familiares, não dá?

Já aqui contei, disto lembro-me, que a última vez que lá fui e pedi uma dose pequena o Dany me perguntou:
- Onde está o Luís que eu conheci?

Hoje limitou-se a dizer que sim, realmente estou mais magro. Respondo-lhe que como menos mas bebo o mesmo, ele sorri-me aquele sorriso cúmplice e rápido de quem está muito ocupado, eu janto meia dose (feita à medida, não está na carta) de picanha. Isto de beber o mesmo é uma pequena mentira, aceitável dadas as circunstâncias. Não bebo o mesmo. Bebo menos, muito menos. Pouco menos, às vezes. Mas sempre menos. O sorriso de Dani é de amigo - amigo de balcão, mas amigo. Aquilo está sempre cheio a abarrotar, eu felicito-me silenciosamente por não precisar de reservar - ela encontra sempre um lugar ao balcão para mim - e penso nas minhas casas. Em Lisboa tenho uma, agora, finalmente; em Palma tenho muitas; em Genebra tenho um sofá e uma família. No mundo tenho sorte.

A sorte é uma casa que leva muito tempo a construir. O mundo é uma sorte que já está quando a ele chegamos.

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Decididamente não consigo compreender os vegetarianos. Esta carne está sublime. O que não faria este homem da carne do leste do Zaire? Esta vem «de onde lhe parece boa».

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De passagem. Estou de passagem. Todos estamos. O que muda é por onde passamos, nada mais. Isso é pouco, bem pouco.

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Os sistemas eléctricos das embarcações mudaram de tal forma que hoje olhei para o interruptor da bomba da retrete e limitei-me a fechar os olhos (ou seja: a tampa do quadro). Não percebo nada daquilo. Pergunto-me se a mesma incompreensão não se aplicará ao resto da realidade? É possível. 

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A minha relação com Palma continua a ser a de um paisano com a sua comunidade: vou jantar à Helena porque o Toni está fechado, bebo tinto de verano no Giuseppe, depois de jantar vou à Cantina porque o Jaume está fechado (que raio se passa nesta cidade? Está a abarrotar de turistas).

É um prazer inesperado (isto é um understatement) vê-la assim, carregada como as tetas de uma vaca que não foi ordenhada.

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Dormir no P. é outro prazer inesperado. Como será, navegar aquilo? Recuo quarenta anos no tempo. Ainda não parei de dar cabeçadas em tudo quanto é sítio. É o barco a entrar, dizem os franceses. E os anos a sair, respondo eu.

Simetria?

Um franciscano ganha o totó-milhões; um bilionário perde subitamente tudo o que tem e encontra-se de um dia para o outro numa situação de pobreza absoluta: estas situações serão simétricas?

3.6.22

Teimosia, estupidez

A linha que separa a estupidez da teimosia não é apenas muito ténue. É também muito sinuosa, muito flexivel. A teimosia é capaz de levar qualquer pessoa inteligente a fazer uma estupidez e - o que é muito pior - a prolongá-la para lá do razoável.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 03-06-2022

O Cabriz e o Flexiban fizeram bem o seu trabalho: dormi até às nove da manhã. São três da tarde, fui comer sushi ao alemão do mercado - ainda se lembrava de mim. Ele há coisas que não deixam de me surpreender - beber vinho e vermute ao Cisco... enfim, uma primeira manhã em Palma igual a todas as prévias primeiras manhãs nesta cidade, de que contiuo a gostar como gostei quando cá cheguei pela primeira vez. 
Comi um gelado no Claudio (estão cada vez melhores? Sim, estão), quase encontrei um trabalho num Oyster (mas ainda não está completamente perdido), estou em paz comigo e com o mundo. Agora vou completar a segunda parte dos objectivos: tornar o P. habitável. Passo a passo. Hoje são os lençóis. Os mais baratos são no Ikea, ao qual é difícil chegar. Passeio devagar pela cidade, faço fotografias e olho para as mulheres. Palma partilha com Genebra o privilégio de serem as cidades com o mais elevado ratio de mulheres bonitas / mulheres. Que encontrou Deus nestas cidades para as abençoar de tal forma? Será Ele sensível à beleza feminina, também? Ou tê-la-á espalhado pelas duas cidades de que mais gosto  e mais frequento (depois da Lisboa) para me compensar da solitária e míope vida que levo?

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A única coisa que me aborrece é este maldito cansaço. Não me larga. Não sei se é resultado dos comprimidos que ando a tomar para a maleita-sabor-da-semana se é um bicho que me rói do interior. Como hoje é o último dia dos ditos comprimidos, daqui por dois ou três dias terei a resposta. Saio da cama e meia hora depois mal posso com uma gata pelo rabo.

Talvez seja um demónio, dos muitos que albergo, cada um mais tarado do que o seguinte.

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Vim ao IKEA. Deve ser a primeira vez que entro num sozinho. O processo de compra foi rápido. Pior foi percorrer o interminável labirinto para sair. Aguentei o stress como um homenzinho e agora bebo uma cerveja para ter combustível até à cidade. Para cá chegar, pedalei mais do que o necessário, sinal seguro de que a sesta foi demasiado curta ou de que o meu cansaço é pervasivo. Não atinge só os músculos. 

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Hoje fui averiguar as possíveis causas da "fatiga crónica" (aspas porque cito). São tantas e tão variadas em gravidade que resolvi esquecer o assunto.

2.6.22

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-06-2022

Forçoso é reconhecer que isto é uma infantilidade indescritível: bebo vinho às escondidas no avião da Vueling. Porém, a história começa com uma preocupação bem adulta: poupar dinheiro. No Hediard pediam-me cinco euros e noventa cêntimos por uma minúscula garrafa de uma zurrapa qualquer (manifesta injustiça: não faço ideia se o vinho é bom ou mau); no Duty Free uma botelha normal de Cabriz Reserva custa seis e trinta. Claro que com as demoras atinentes aos diferentes processos só consegui beber um copo sentado - e sentido - enquanto comia a correr o que pude da sandes de panado de frango (sete e não sei quanto. Um roubo). O resto da garrafa veio para bordo, bem rolhada e ensacada.

Como os preços do vinho no avião não são muito diferentes dos da Hediard e como hoje, excepcionalmente, vou dormir numa camarata (mais uma preocupação de pessoa crescida, os airbnb e os hotéis em Palma estão pela hora da morte) achei que valia a pena correr o risco de ser apanhado pela hospedeira - a que tem o cabelo em forma de lódão ou de queda de água num rio africano na estação das chuvas, espero - e aqui vou no meu terceiro copo aviónico.

A cada um penso no ex-presidiário com quem trabalhei em Genebra. Todos os dias me trazia um exemplar do Journal de Genève surripiado da caixa. Uma vez disse-lhe que não precisava de roubar o jornal para mim e ele respondeu:

- Preciso de fazer uma malandrice todos os dias.

O homem passara seis anos na prisão (e isto suspeito que fora só a ultima pena. Deve ter havido mais antes), fartava-se de me contar histórias sobre a vida encarcerado - eu não sobreviveria - e consolo-me pensando que o que faço não passa de uma infantilidade, como as malandrices do outro, por muito nobres que sejam as minhas motivações. 

De maneira vou no terceiro copo, suspeito que a garrafa de Cabriz já só tem o rótulo ou lá perto e imagino que vou dormir bem. Isto chega para me consolar.

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Satisfaço-me com pouco, é verdade. Vinho no copo, comida no prato, amor na vida, livros nas estantes ou na mesa de cabeceira, luz bonita para fotografar, um barco para navegar, tudo isto embrulhado em solidão, aquela solidão boa, da Bayer, que nunca me larga mesmo qando estou acompanhado e à qual regresso feliz entre cada companhia ("feliz" nem sempre é verdade, mas é mais bonito do que "resignado", por exemplo).

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Daqui a meia-hora aterro em Palma-a-suave. Não sei quanto tempo lá ficarei porque depois vou a Genebra ver a descendência. Integrei finalmente o clube dos avôs, momento esse que era para mim,  até lá chegar, fonte de inquietação e interrogação: como seria, ser avô? Sou o último dos meus amigos próximos a fazer parte desse grupo e tudo o que eles me diziam sobre a grande-paternalidade (?) me parecia clichés de velhos ou clichés tout court. É uma coisa e outra, dois prazeres bem escondidos num galicismo. Ou seja: deve ser reacção biológica, coisa darwiniana, talvez aquele gajo das formigas não estivesse assim tão enganado (não estava. Só estava incompleto.)

(Cont. Talvez)

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Sim, continua. Cheguei ao albergue e a minha reserva - confirmada e tudo - não estava lá. O porteiro da noite já tem experiência na situação. Esconde-se atrás de "yo soy solo el nochero y no puedo hacer nada", repetidamente - a cada exclamação minha, que verdade seja dita não são muitas. É óbvio que a) aquilo já aconteceu muitas vezes e b) não há nada a fazer, excepto ir para o P. e esperar que me deixem lá dormir. 

Deixam.

É portanto da sublime embarcação que agora escrevo, comprimidos da noite tomados com a réstea de Cabriz - não daria para mais -, luzes encontradas - as etiquetas dos interruptores estão quase todas ilegíveis - bomba da retrete inoperacional. O beliche não tem lençóis, o tempo está quente e amaldiçoo a minha vaidade: trouxe o casaco em pele de carneiro que comprei em Gibraltar (por cem euros em vez de trezentos) e tive de o tirar ainda antes de entrar no táxi do aeroporto. Vai para as caixas que estão aí para ir para Lisboa. Amanhã será um dia de trabalhos: tornar o P. mais habitável, preparar a mudança de armazém, procurar trabalho para o que me resta de Julho e Agosto, tentar encontrar uns dias de trabalho já para encher o mealheiro, quase vazio. Nada de inesperado, em suma. Até de vir acampar no P. estava à espera, como esperava a noite que me espera. 

Apesar de tudo, não consigo invejar os mangas-de-alpaca, prova de que no fundo tenho aquilo que quero ter. Às vezes mais, outras menos, mas o que tenho é o que fiz por ter. 

Claro que não me importaria nada de trabalhar para um armador menos peculiar, é verdade. Mas isso paga-se, não com noites desconfortáveis mas com outras coisas. É simples: não se pode ter tudo ao mesmo tempo. E eu tenho aquilo que mais prezo na vida: liberdade. 

Liberdade. É cara? Sem dúvida. Mas é a única coisa cujo preço estou disposto a pagar. Seja em que moeda for, desde que não seja dessas emitidas por bancos centrais ou por computadores,  claro. Por ela, sujeito-me a noites mal dormidas, a não saber do que amanhã será feito (não sei sequer de que fiz o ontem...), a ser "incompreendido" (entre aspas porque é gozo. Poucas coisas há que me interessam menos do que a "compreensão" dos outros. Nem o conforto me interessa tão pouco).

Estou rodeado de gente que está "bem na vida": amigos, familiares, todos passam os natais em família, recebem e dão prendas, vão de férias em Agosto, têm trabalho todos os dias e tomam conta dos netos quando os filhos vão ao cinema. Por vezes estou aflito e recorro a esses estar-bem-na-vida. Mas são momentos fugazes e não põem em causa a minha liberdade. Ela é a fortaleza que construí e me acolhe desde muito jovem. Não conseguiria mudar de casa, mesmo querendo.

E assim entro na noite que me espera. A mistura de Cabriz e Flexiban fará certamente aquilo para que a química serve: melhorar a vida dos homens (e dos animais e das plantas  mas isso são outras histórias).

Trabalho

- Não trabalho para ficar rico, construir uma casa, guiar um carro potente ou ter mulheres-troféu, percebes? Trabalho para poder fingir que sou rico. Fico-me pelo fingimento, que ser rico a sério exige mais do que eu posso dar. Não me refiro apenas ao trabalho, mas a outras qualidades - ou defeitos? - que de todo não possuo.

- Pelo menos consegues fingir que és pobre.

- É mais difícil. 

- Difícil, sinónimo de penoso, não?

- Não. É muito mais dificil escolher.... sei lá,  por exemplo, uma garrafa de vinho bom e barato do que uma de bom e caro. O mesmo se passa com tudo. Fingindo que sou rico isso não acontece. Basta dares a entender que és forreta, como todos os verdadeiros ricos.

- Vives para fingir?

- Que queres, começa no trabalho. Finjo que trabalho para fingir que sou rico para fingir que sou forreta. Só não finjo que vivo: isso faço mais do que a maioria das pessoas com quem te cruzas na rua.

30.5.22

Os restos do passado

"Todas as cidades são geológicas e não podemos dar três passos sem topar com fantasmas, armados com todo o prestígio das suas lendas. Evoluímos numa paisagem fechada cujos pontos de referência nos puxam incessantemente para o passado. Certos ângulos moventes, certas perspectivas fugazes, permitem-nos entrever concepções originais do espaço, mas esta visão continua a ser fragmentária."

Gilles Ivain, in Relatório sobre a construção das situações e sobre as condições da organização e da acção da tendência situacionista internacional, ed. Barco Bêbado, pág. 47. 

O gozo de se ter mais livros do que aqueles que três vidas nos permitiriam ler é este: encontrar pérolas sem ter de mergulhar em apneia, revisitar o passado e com ele - com os pedaços dele que como restos de um naufrágio vêm dar à praia - construir a tenda onde hoje e amanhã dormiremos.

"A arte pode deixar de ser uma relação sobre as sensações para se tornar uma organização directa de sensações superiores. Trata-se de nos produzirmos nós próprios, e não coisas que nos subjugam."

Guy Debord, in ditto, pág. 58.

Angst

É como se uma mulher tivesse o melhor par de pernas do mundo e não encontrasse um homem para lhas abrir.

26.5.22

Diário de Bordos - Lisboa, 26-05-2022 / II

Jantar no quiosque da praça de S. Paulo. Conheço o dono daquilo e durante o confinamento tive uma pega com ele. Para mim, é o melho cozinheiro português. Devo-lhe alguns dos melhores jantares da minha vida, no saudoso clube de jornalistas, a descoberta de alguns vinhos e a do Maria Rapaz, que não sei de onde é e é sempre bom. É um sitio fantástico para se petiscar, sobretudo agora que o calor voltou. Os moços do serviço estão um bocadinho perdidos, a salada de polvo e os ovos verdes magnificos, o dia despede-se com uma vénia de joelho dobrado e mão ao peito. A esplanada está cheia - o que explica a desorientação dos jovens - a noite suave, a felicidade está ali ao dobrar da esquina, os carros (são dois) mal estacionados, o vinho tinto fresco acabou. 

Acreditem se quiserem, mas a tal esquina está mesmo aqui ao lado.

A língua que os barcos falam

Ainda falo a língua que os barcos falam. Ainda estou vivo.

Diário de Bordos - Lisboa, 26-05-2022

Das coisas da luz, do calor, de Lisboa, da sorte e do amor que as une todas, as rodeia como se fosse fita em torno de um ramo de flores. De todas essas coisas, que de tantas são palavras não encontro, fogem-me a cavalo na luz, esse cavalo chamado amor?, sorte?, não sei?

Não sei. Meia dúzia de telefonemas e as peças encaixam, engrenagens ovais, elípticas, em forma de sinusoidal, com altos e baixos, montanhas russas, nuvens (ausentes, não se vê uma única neste bocadinho de céu que agora me sai na rifa, luz não-filtrada, amor puro, calor simples).

Mulheres bonitas. O calor faz mais pela beleza feminina do que mil Coco Chanel com milhões de cremes nos bolsos.

O vinho branco ajuda, claro. Reflexos, palavras fugidias, escorregadias, passeio de mármore rosa - também. Tudo ajuda. Tudo se conjuga. Tudo colabora neste mecanismo tectónico, telúrico, vulcânico, excessivo, explosivo, obturador da máquina fotográfica das minhas sinapses hiper-sensíveis.

Calor. Há muito tempo que não via tanto. Sem calor nada feito. Como sem amor, sem luz ou - novidade - sem vento.

Sem nada disto nada feito.

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De passagem. Ando de passagem em todo o lado, mesmo na cidade que se diz minha (e é).

Sou um passageiro, mas não sei de quê.

21.5.22

Diário de Bordos - Ponta Delgada, Açores, Portugal, 21-05-2022

Regresso a esta terra que tanto amo, desta vez pela principesca mão da minha R., que é de cá. O cansaço é tanto que me sinto flutuar, parece que me passeio por estas ruas - das quais já nada recordo se não a beleza das calçadas e dos passeios - em cima de um colchão pneumático. Comemos bem - ando sempre com a tripulação, ficámos amigos e dos bons - bebemos melhor, eu sonho com vinte e quatro horas numa cama (sei que não as terei, é só um sonho) e - sobretudo - penso em quão necessitado estava de uns dias no mar. A viagem passou num ápice, saí ontem de Tortola, o jantar no Pusser's foi anteontem, estes quinze dias não passaram de dois ou três dias esticados. 

Com a óbvia excepção dos badanais. Foram dois, o primeiro com vento nos quarenta e rajadas a tocar os cinquenta, o segundo mais calmo - trinta e seis, trinta e oito, rajadas nos quarentas - mas mais violento por causa da chuva, foi um horror, não se via a ponta de um chavelho e a proximidade de terra e da chegada ainda piorava a coisa, quero chegar, quero chegar, esta merda não anda (mentira), estava encharcado por uma mistura alternada de água doce e água salgada.  

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A separação com os espanhóis foi rápida, cortez, cordial. Na verdade apercebi-me de que só aceitei este trabalho porque precisava de mar e acho um pouco egoísta da minha parte ter aceitado, mas enfim, estava mesmo a precisar, há quatro anos que só faço charters em Mallorca e isso não chega, de todo.

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O puto ontem redimiu-se e aqui lhe deixo a minha vénia. O rapaz tem matéria na massa cinzenta.

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Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Por um lado é uma sorte, a procissão é realmente bonita, mesmo para um ateu empedernido como eu. Por outro, azar: queremos alugar um carro e não há nada disponível.

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Não gosto de culturas populares: são demasiado barulhentas.

20.5.22

Diário de Bordos - Road Harbour a Ponta Delgada, 03 a 18-05-2022

Este post é dedicado ao meu amigo Manuel Monteiro, que reclama quando a dose de Don Vivo tarda. Com um abraço, grande e grat, claro.


Não é por acaso que o charter nasceu nas Ilhas Virgens Britânicas (BVI para os amigos): o arquipélago tem tudo para transformar um cruzeiro de uma semana numa viagem de sonho. Ilhas lindas e próximas umas das outras, praias maravilhosas, bons restaurantes, fundeadouros em tudo quanto é canto, protegidos e bonitos.

Não há, porém, bela sem senão. Em Road Town (nos outros portos passa-se o mesmo, mas em menor escala) os funcionários públicos são de uma arrogância insofrível. Deve haver uma lei que os proíbe de ser simpáticos, amáveis e bem educados. Além de que esta cidade é, ela também, feia e agressiva, mas deixemos os senãos e concentremo-nos no que é bom: as tripulações são impecáveis e os barcos em excelente estado. Tudo indica que a travessia vai ser calma, sobretudo agora que já se decidiu pôr de lado a nvegação de conserva. Manter juntos quatro barcos - para mais, tão diferentes - é um delírio sem pés nem cabeça. Enfim, já está posto de lado.

No mar (28º 05’N, 061º 20’W)

Comecemos pelo meio, uma vez não são vezes. Como se começássemos pelo cume da montanha e depois fôssemos às encostas que a ele levaram. Mesmo não sabendo ainda se estamos no cume ou que vales nos reservam os dias que aí vêm. Comecemos portanto por este dia magnífico, dezasseis a dezoito nós de vento a um largo que o DREAM agradece e retribui, voando baixinho e docemente a oito, nove, por vezes dez nós. Rumo directo, qui plus est. Vento SSW a vinte e oito graus de latitude? Os deuses resolveram compensar-me, aposto. Entre muitas outras coisas, da lamentável peça de auto-sabotagem que ontem pus em cena. Bem podia começar com um daqueles apresentadores de circo, chapéu alto e smoking de fantasia: «Senhoras e senhores, eis mais uma obra do genial Luís Serpa, mestre incomparável em tudo o que lhe provoque danos, sejam eles quais forem. Podem aprender com ele tudo sobre a auto-sabotagem, dos simples começos às teses mais avançadas. Teoria e prática» Enfim, nada que possa fazer a esse respeito, terei que viver com este meu dom até ao fim, como sempre vivi. Já nem me chateio muito. Só um bocadinho.

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Talvez. Ou dos lamentáveis inícios de toda esta viagem, o salário de merda que aceitei por uma mistura de razões nenhuma das quais me parece válida agora (excepto talvez a perspectiva de dia assim. Será?), as chatices com a agência que me paga... Não sei e pouco me importa. Aceito de bom grado a compensação que os deuses me enviam e espero que venham mais. Largámos há quatro dias, estamos todos amarinados – enfim, quase todos. O V. continua enjoado como uma pescada, mas cada vez menos. A. revelou-se uma pessoa impecável e um tripulante aceitável, o DREAM tem alguns problemas mas nenhum deles muito sério – o mais chato sendo a falta da bomba de água doce. Felizmente todos conseguimos viver sem água corrente, como «antigamente». Entre aspas: antigamente a vida não era melhor. Era igual, só que mais chata. Isto é: menos confortável.

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Estamos a seiscentas milhas de Tortola. Nada mau para quatro dias de mar, sobretudo se considerarmos que estas milhas são em VMG. Para chegar aqui navegámos pelo menos umas setecentas. Estes Lagoon são um achado, não há dúvida: rápidos, bem construídos, bem concebidos. Se alguém souber de um sessenta ou sessenta e cinco à procura de skipper, conheço um disponível.

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Tenho a felicidade melancólica. Sorte para aquela e azar para esta.

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Não se pode mentir ao mar, não se pode mentir no mar. Ele é um grande revelador, seja de mentiras seja de verdades. Já aqui o disse uma vez e repito-o agora: nunca é demais.

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Falemos das encostas: Road Town continua a ser a cidade agressiva, feia, pouco hospitaleira de sempre. Pelo menos no que toca aos funcionários públicos, Coitados, devem ser objecto de uma lei que os obriga a ser antipáticos, rudes, pouco colaborantes (isto é um eufemismo: onde puderem pôr um obstáculo põem três). Chamar-lhes Pequenos Hitlers é uma ironia de peso: são todos gordos obesos, arrogantes, mal-criados. Bati o meu recorde: um dia inteiro para fazer uma clearance de saída. Um dia! Das ilhas, nada a dizer senão bem: Jost van Dyke, Virgin Gorda... Até Peter Island tem o seu charme. Mas de Road Harbour livre-nos Deus e todos os santinhos.

Excepção: devia estar no plural, são muitas. Entre as quais avulta o Pusser’s, um velho clássico da ilha, onde comemos e bebemos bem.

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Reflexões mundanas de um marinheiro vagabundo: o mundo está cada vez mais feminino, é ponto assente. Há cada vez mais feministas, outro ponto assente. A questão sendo: há mais feministas porque o mundo está mais feminino, ou ele está assim por haver cada vez mais daquelas? Tendo para a primeira mas no mar não posso investigar muito. E se pudesse provavelmente não o faria: o dia está realmente demasiado bonito para perder tempo com futilidades.

A única coisa que me chateia é isto de os barcos serem cada vez mais casas e menos barcos, mas também a isso resolvo não prestar atenção. A verdade é que uma bomba de água doce torna a vida mais agradável. Isto é, mais feminina.

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O meu corpo faz-se sentir cada vez mais. À primeira reacção – corpo que se sente não é boa gente –, contraponho a segunda – corpo que se faz sentir é porque quer partir. Nenhuma delas é verdadeira, mas a verdade é que dispensava bem este estúpido formigueiro no braço esquerdo, as «enxaquecas oftálmicas» (aspas porque cito) e as dores no ombro direito que ainda não apareceram mas não tardam, eu sei. Estão aí mesmo ao virar da esquina. Este trabalho é físico. Não sei se também, se sobretudo. Mas entre marear panos e ir buscar água com o balde o raio do braço não pára. Isto além de ter de o usar para me agarrar quando me desloco. E Deus (mai-los marinheiros todos, mai-los arquitectos navais, mais toda a gente ligada a isto) sabe como os movimentos de um cata são bruscos, violentos, deselegantes e desagradáveis.

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08-05-22, 29º 20’N 058º 51’W

Os crepúsculos estão consideravelmente mais longos, o que é normal; o vento S mantém-se, o que é um milagre. Refrescou, inclusivamente: agora anda pelos dezoito a vinte. Resultado: cento e oitenta milhas por dia. Estamos a mil e seiscentas da Horta. «É fazer as contas» (aspas porque cito). Claro que isto não se vai manter, mas tudo o que contribuir para encurtar a viagem é bem vindo.

Paradoxo que estou longe de ser o primeiro a relevar: gostamos do mar, mas queremos sempre chegar depressa. Quem diz o contrário ou mente ou não é marinheiro. Não há homem do mar que não goste de ver o seu bote a dar o máximo. Está-nos no código, desde que as velas existem e com elas os piratas ou os negócios: o primeiro a chegar ganha mais do que o segundo e este mais do que o terceiro. Na verdade, esta vida tem duas componentes: o mar e a vida em si. Estamos a simplificar, quando dizemos que gostamos do mar. O que realmente amamos é o conjunto: estar e não estar, ser e não ser. Para a mais ambivalente das personalidades – a do marinheiro – esta duplicidade só pode ser atractiva. Antigamente dizíamos que um dia bom (no mar) vale por nove maus. A proporção mantém-se, mas somos mais realistas: quão maus terão de ser os que aí vêm para compensar estas duas maravilhas, às quais acresce o bónus da surpresa? Dois dias perfeitos... Vou deixar de falar nisto, ainda falta muito até à Horta e não quero chamar o azar. O filho da mãe responde sempre a estas provocações. A beatitude atrai-o.

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A relação com os espanhóis não está a correr muito bem. Estou a desobedecer-lhes frontalmente. Seguir ordens não me é difícil, desde que façam sentido. A tal hierarquia do saber, a única a que um marinheiro obedece. Às outras pode fingir que obedece, mas respeitá-las não.

A verdade é que dos cinco barcos iniciais já só estamos três. Um veio por cargueiro e o outro teve de voltar para trás e ficar em Road Harbour por manifesto mau estado. As tripulações são porreiras, mas estão mais perto de escuteirinhos do que de marinheiros. Daí as dificuldades com a agência: não sabe lidar com a sua própria ignorância, por um lado; e atribui demasiado peso ao dinheiro, por outro. Os escuteirinhos lá vão dizendo que sim ou tentando contemporizar. Pela primeira vez na vida, tive de dizer «ou me pagas o que deves ou não saio». Pagaram, claro. Quase tudo, vá. Deixei-lhes uma folga: toda a gente sabe que um cabo demasiado caçado parte. A ver se eles sabem. Na Horta reajustaremos as amarrações, se for caso disso. Trabalhar a meio preço chateia-me, mas está digerido. Agora fazer palhaçadas não. Queriam que eu esperasse pelo monocasco, para lhe fazer companhia, coitado. Dizem que por causa dos seguros. A minha avó também dizia que era malabarista num circo. Não era.

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09-05-2022 (30º 37’ N 056º 11’ W)

O milagre continua, mas hoje já há sinais de que vai acabar em breve. Talvez amanhã, talvez depois, mas este mar cruzado não engana. Se tudo correr bem, vai rondar a leste e vou poder subir para norte sem usar o motor. A ver, como dizia o ceguinho. E nos trinta e oitos estarão os canónicos Oeste à minha espera e ooops, num ápice estaremos todos no Peter a beber gin, que isto das tradições tem que se lhes diga e são de respeitar.

O DREAM é um barco misterioso. A. diz que é feminino (todos são, A.). De repente e sem que nada se tenha feito para isso o anemómetro começou a funcionar. Foi posto de novo em Road Harbour, mas continuou a não dizer peva sobre o vento. Agora diz. Também as baterias rejuvenesceram e aguentam muito mais tempo do que nos primeiros dias. São animais misteriosos, estas. Caprichosas. Ignoro que Deus interveio em meu favor, mas a verdade é que estou a usar o gerador muito menos (PS – talvez os painéis solares com Sol ajudem, não?). A bomba de água doce é que não há maneira. Já pedi ao V. para encomendar uma nova na Horta, se bem esteja longe de seguro de que o problema venha daí. Mas mais vale gastar dinheiro numa bomba e ficar com ela de reserva do que passar dias e dias à espera caso seja mesmo essa a razão. Navegar é a arte de conciliar opostos, aposto que já alguém o disse. E se não disse pensou.

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A glicemia continua a cair. Acho que nem vou dizer ao médico, não vá o homem «proibir-me» de tocar numa gota de vinho ou de rum. E encho-me de doces, ainda por cima. Brincadeira, claro. Na verdade já estávamos à espera disto, ele e eu, e até vinha com instruções para cortar nos comprimidos caso baixe demasiado. Um já foi e o outro não tarda. O stock que tenho na caixa fica para a Horta, que bem vai ser necessário.

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Cada vez que ralho contra a modernidade vem-me o GPS à mente. Quando lhe dou o uso que dou aqui, penso que só um idiota diz mal de um tempo que nos trouxe tal ferramenta. Saber em permanência a posição, o rumo e a velocidade é o sonho de qualquer marinheiro desde que há marés.

Este é um B&G igual ao que pus no P.

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Falo no P. de propósito: posso sair dele, mas não há quem o tire de mim. Estava a precisar de vir para o mar, essa é que é essa. Quatro anos em terra é muito tempo. Tenho de o pôr a navegar, presto. (Para não mencionar a glicemia, naturalmente, para a qual o mar é o melhor remédio).

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Não tentar aproveitar ao máximo o potencial do barco é desperdiçar vento. Ou seja: é pecado mortal. De todos os desperdícios, o de vento é o pior.

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O aquecimento global continua a ter uma concepção muito particular e exclusiva de «global»: é onde eu não estou. Tem estado um frio de rachar, agravado agora por estarmos de vento sul e nem assim ele ser quente.

De todos os mitos do nosso tempo, este é o que mais me irrita. Supor que o clima muda por causa do homem é de uma húbris insuportável. Mesmo aceitando que sim, que é antropogénico e que são os puns das vacas, os escapes dos automóveis e as pegadas ecológicas que fazem o clima mudar – ignorando olimpicamente o facto lhano e inegável de que o clima sempre mudou (talvez devido aos puns dos dinossauros, vá lá saber-se) – a verdade é que querer alterar a nossa vida de alto a baixo tem custos infinitamente superiores. E quem vai pagá-los, quem é? Adivinharam: não são os ricos.

O anticapitalismo provoca mais miséria do que o dito cujo que pretende combater.

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Estou com dois cobertores dobrados e mesmo assim a noite tarda a aquecer-me. A mim e a ela de resto. Ó dona Noite, veja lá isso, senhora. Chegue-se a mim, aconchegue-se, aqueça-nos dos pés às almas. Se tanto é que tem vocemecê uns e outra.

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(12-05-2022, 35º 37’ N 48º 36’ O)

Hoje passámos a barreira dos quatro dígitos na distância ao objectivo. Daqui a novecentas milhas só teremos dois; noventa milhas mais tarde, um. O declive da encosta acentua-se, para contrabalançar o dito chinês (já aqui tantas vezes mencionado): «Metade de uma viagem de cem li não são cinquenta li. São noventa.»

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O marinheiro tem dois mundos: o mar e o outro. Não se tocam, nem de perto. Basta ver as minhas preocupações de momento:
- A minha R., rosa de vida, minha canoa;
- O meu neto Leonardo (adoro este nome), mai-los daquele lado;
- O meu P.;
- Guerra na Ucrânia – o Putin já se apercebeu de que tem de levar nas trombas? Pena que sejam precisos tantas mortes.
- A mascarada. Os meus amigos pró-Covid que fui perdendo ao longo desta pantomimada já se aperceberam de que foram engrolados? Perdi tantos e de quem gostava tanto.
- Mértola & Moura...

Isto em terra. No mar:
- Onde raio de carga de água estão os fluxos de Oeste? (Repetir três vezes);
- Vou aguentar o gasóleo até Gibraltar? Espero que sim. Mesmo quando o dinheiro não é meu, pagar impostos altos e mal utilizados é imoral;
- O sacana do puto é mole como melaço. Já o médico é porreiríssimo;
- Quando é que entra o raio do noroeste? (Repetir três vezes);
- A electrónica vai aguentar?
- Terei lugar na Horta? Deixar-me-ão ficar de braço dado? (Reservar uma amarração);
- Está a entrar norte. Não tarda tenho aí o noroeste (repetir três vezes);

O marinheiro – também já aqui o tenho dito – é o equilíbrio entre um conjunto vasto de opostos: é sociável e egoísta, é gastador e poupado, cobarde e valente, gosta de prever tudo e adapta-se a tudo, sabe que é o elo mais fraco da cadeia e é também o mais forte, «sabe fazer tudo vírgula mal». Um equilíbrio? Talvez mais um desequilíbrio. Este é só mais um: não se pode dizer que seja «um pé no mar o outro em terra». É «os dois pés no mar e os dois em terra, simultaneamente.»

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O noroeste entrou, um bocadinho mais cedo do que o previsto e fraquinho, ainda. Que longe estamos do Mediterrâneo, com as suas mudanças bruscas e definitivas. Aqui tudo é gradual, tanto as subidas como as descidas.

(50 nós previstos para Domingo ou Segunda. Que seria de uma travessia sem badanal?)

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Mudança de rumo: afinal vamos para Ponta Delgada e não para a Horta.

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13-05-2022 (35º 53’ N 046º 22’ O)

Arrastamo-nos a três nós e a cinquenta graus do rumo. O que me trouxe aqui? Uma série de más informações. Telefone satélite sim, sem dúvida. Mas para ser utilizado por mim. Isto é, usá-lo eu para procurar informação e não para a receber vinda de quem não sabe dá-la.

Estou furioso. Desliguei os motores: só estávamos a gastar gasoil, do qual vou precisar para a chegada. Quarta-feira dezoito estarei atracado no porto de Ponta Delgada, se as porras das previsões todas se confirmarem. Se não se confirmarem, não estarei. Mas pelo menos fui eu que as fui buscar, não fulano ou sicrano.

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Não vai haver badanal nenhum. Falso alarme. Isto é, aparentemente. Por estas bandas nem o passado é garantido, quanto mais previsões incertas.

Com a possível excepção do frio: está um briol do caraças e isso sim, é garantido. Alguém ligue o aquecimento global, por favor. Ou pelo menos o local, que com o mal dos outros posso eu bem.

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Entretanto (são duas da tarde) entrou vento. Infelizmente de SO; sempre é melhor do que nada. Vinte nós pela alheta. Estamos a avançar bem, mas a trinta graus do rumo. As coisas são o que são.

O barómetro continua a baixar, tão depressa como ontem ou anteontem subiu. Vamos ver quem tem razão, se o Garmin – diz que não vai refrescar muito mais, mas vai rondar a NNO -, se o D., que prevê trinta e dois nós no domingo. Infelizmente não me dá a direcção. Esta malta da Tripulaciones é tudo muito boa gente, mas de marinheiro tem pouco. Em Road Harbour pareceu-me um bando de escuteirinhos.

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Ansioso por chegar e dar um beijo à minha R.

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14-05-2022 (N 36º 47’ O 46º 13’)

O que me vai ficar desta viagem? Até agora: o frio e o sacana deste mar desencontrado que temos desde ontem. O cata é horrível nestas circunstâncias. Anda bem, é certo – mas mesmo assim menos do que o que deveríamos para este vento.

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16-05-2022 (N37º 27’, O 35º 07’)

O badanal passou. Ficou o frio e este NO lindo, vinte e cinco nós, céu limpo, mar ligeiramente menos caótico. O DREAM chama-lhe um figo, claro: galopa por aí fora a mais de dez nós. Ainda vou ser capaz de ganhar a minha aposta e chegar quarta-feira? Depois de amanhã? Parece-me difícil, sobretudo porque o vento vai cair de certeza. Fica a esperança, que nunca é feia.

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As baterias ressuscitaram, definitivamente. Não chego a fazer quatro horas de gerador por dia, o que para os frigoríficos e para o piloto nestas condições é bastante bom.

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Ontem, A. perguntou-me se havia ar quente a bordo, para secar o oleado. Se tivesse que resumir a atitude do homem – de resto adorável – durante esta viagem usaria este momento de alta dissonância cognitiva. É certo, e aí dou-lhe razão, que o barco parece uma casa: três frigoríficos, um congelador, gerador, dessalinizador (nunca usado), ar condicionado (idem – terá ar quente?) As pessoas querem uma casa no mar, não querem barcos.

PS – A pergunta não é de todo absurda. Absurdo sou eu e a minha mania de que o mar é o mar e a terra terra e não se misturam, excepto nos portos e nas praias. (Gosto muito daqueles e pouco destas, mas isso fica para depois.)

Tê-lo de quarto ou a ajudar a uma manobra ou ter a fotografia dele seria a mesma coisa. Mas é simpático, adorável, boa companhia. Já rizámos e desrizámos algumas seis ou sete vezes e continua a perceber patavina do que se passa, a não saber o que é uma escota ou uma adriça. Decorou o amantilho, vá lá.

Há pouco a escota da genoa rebentou porque... Porque estava velha, pronto. Fica assim e fica bem.

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Vou fazer pão. O último antes de Ponta Delgada. Até agora têm ficado bons. Pena é a manteiga que temos a bordo ser uma merda. Quase tudo o que comprámos em Road Harbour é. O leite de leite só tem a cor. lhas francófonas, meu caro. Francófonas.

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18-05-2022 (50 milhas a Oeste de S. Miguel)

Quatro horas debaixo de chuva. Há muito tempo que não tinha as mãos tão engelhadas como tenho agora. E molhadas: já as sequei duas ou três vezes à toalha, mas cinco minutos depois voltam a ficar molhadas, como se a água lhes tivesse passado para o interior e agora jorrasse através da pele. Felizmente o Henry Lloyd faz jus ao nome. As Dubarry também. Isso sim, foi um presente, Vasco. Mudam a vida, como me disse o biólogo marinho que há anos veio comigo para Copenhaguen. Obrigado, mil vezes mais vezes.

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Afinal vamos chegar mais cedo do que pensei: este dezoito nós de vento ajudaram bastante, apesar de terem começado em SSO e já estarem em SE. Desde que não fechem mais, tudo bem: às oito ou nove da noite estarei atracado e com a minha canoa nos braços.

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O post vai como saiu do forno. Um dia será editado, corrigido, revisto, polido, limado e até, quem sabe?, pintado. Mas agora vai assim, tem urgência em sair, em fazer aquilo que fazem as palavras: exporem-se. E exporem-nos, de caminho. Como feridas a sangrar, fragilidades, pontos de ruptura ou de fricção com o mundo real. Pelo menos as palavras de um diarista. Mas aqui entre nós: qual é o escritor que não é diarista?

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Quarto de noite: três horas a olhar para o horizonte e para um ecrã cheio de números, alternadamente. Isto não significa que o ritmo seja rápido: um desses números é um relógio e toda a gente sabe quer o tempo é tímido. Não aguenta miradas frequentes ou insistentes. Se se olha demasiado para ele, pára congelado e não se mexe até o esquecermos.

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Está um tempo abominável. Parece que estou no norte da Europa. A diferença sendo que naquelas bandas chegaríamos a um café e ele estaria aquecido e aqui vai estar tão frio como no exterior. Enfim, na cidade estará de certeza mais quente. É o chamado aquecimento urbano, ou aquecimento bem educado. Daqui a três ou quatro horas terei rede GSM. Vou finalmente regressar ao outro mundo, o mundo secundário.

19.4.22

Diário de Bordos - Palma Mallorca, Baleares, Espanha, 19-04-2022

O dia cai. As luzes da noite misturam-se com as do dia; os sons de um e outra fazem o mesmo (um saxofone no canto do Bornéu mai-los autocarros, automóveis, motas e ruídos anexos). Já não é dia e ainda não é noite. A minha hora favorita. Dantes,   quando ainda bebia a bordo e se podia navegar em solitário, a esta hora sentava-me no poço, a olhar para ré, whisky na mão. Era a minha hora mágica. Hoje isso acabou - a bebida e a navegação sozinho - mas a hora continua a minha preferida. Mais do que o seu equivalente matinal  apesar de esse também ter os seus prazeres (por exemplo,  começar a descascar a última camada de roupa para a noite).

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Saio da Babel com dois livros. A minha admiração pelo J. cresceu mais uns pontos: estava com uma antologia do Goytisolo na mão - trinta euros - e ele insistiu para que levasse a Olvido García Valdés, dezasseis. Estou-lhe duplamente agradecido: pelos quatorze euros que me fez poupar e pela descoberta de uma poetisa extraordinária. Descoberta - choque, diria um francês (se falasse português). A senhora tem um vastíssimo de imagens e de referências e ao mesmo tempo tem uma poesia extraordinariamente profunda, como se lavrasse um campo enorme com um bisturi.

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Última ceia no Jaume. Nem vale a pena começar a descrever: o sublime dispensa comentários. 

Olvido García Valdés

Como se lavrasses um vasto campo com um bisturí.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-04-2022

Já fiz secretos em casa e até gostei. Hoje como-os no Cisco e penso a) não devia dizer que cozinhei secretos e b) menos ainda que gostei deles. 

Cisco tem uma loja no Mercat de l'Olivar. É uma loja grande, onde numa metade ele vende produtos e na outra serve-os feitos (as metades são desiguais). Os secretos (e muitos mais) fogem à regra do "só posso servir o que vendo". Não entro em pormenores. No Mediterrâneo estes são labirínticos e o risco de um homem se perder neles é grande, por muito prevenido que vá. Limito-me portanto a apreciar o vermut del grifo e o vinho tinto, respectivamente antes e durante os supra-mencionados secretos. Por mais que faça nunca hei-de compreender o Islão. (Tão pouco me dou ao trabalho.) Os judeus também não comem porco mas pelo menos bebem vinho e eu gosto deles. Não comem marisco. Não comem nada que venha do mar e não tenha escamas. Estou-me nas tintas. Os caprichos dos deuses não passam disso mesmo: caprichos. Só se lhes verga quem quer. Eu não quero: nem aos meus obedeço, quanto mais aos de um gajo que muito provavelmente nem existe, nunca existiu e não existirá tão cedo. Só não percebo é a mente tortuosa que inventou esses interditos todos. Mentes: foram muitas.
São três da tarde, o mercado já fechou, mas o Cisco diz-me que não há pressa. Termino tranquilamente o tinto de que me servi e penso que sou o ansioso mais estúpido do mundo. Ou o estúpido mais ansioso do mundo.


18.4.22

O nome do poço

O poço tinha um nome. Chamava-se tristeza. E um apelido, mas esse nunca lhe ocorria. Como o poço era profundo, chamava-lhe "tristeza sem fundo", apesar de saber que não era o nome verdadeiro, era só uma aproximação. Ou a manifestação de um desejo, vá lá saber-se.

Quase todos os dias o eléctrico

Vivia do lado de fora da vida, como aqueles miúdos que dantes se penduravam no exterior dos eléctricos, deles saltavam em andamento e empurrados pela inércia corriam, corriam. Corriam até pararem e o eléctrico continuava sem eles. Não os esperava.

Por vezes, à noite sozinho na cama, dizia-se "mas o wattman do eléctrico sou eu." Depois corrigia para "era eu", e corrigia, corrigia até acabar em "fui eu". "O condutor do eléctrico fui eu. Hoje conduzo a minha corrida ao lado dele e já é um pau por uma pedra."

Só acontecia quando estava sozinho na cama, mas como o estava quase sempre, acontecia quase todos os dias.

A estreia

Tinha tratado toda a sua vida como uma obra de arte. Enfim, uma não. A. Agora que a hora da estreia se aproximava assustava-se. Não sabia o que fazer: achava a obra tosca, incompleta, incompreensível, desorganizada. Quase um rascunho, no fundo. Porém, uma vez estreada não havia segunda chance. Uma das suas grandes fontes de angústia sendo que não tinha forma de saber quando seria a estreia - a menos que a convocasse ele mesmo, claro, hipótese que não punha de lado. O seu corpo fazia-lhe sinais incessantes, mas ele resistia. Nenhum lhe parecia suficientemente sincero para ser levado a sério. «Na melhor das hipóteses», pensava, «tenho vinte anos para acabar o trabalho. Mas desses, quantos terei de lucidez? E de força, já que esta faz parte da obra? Não sabia. Por enquanto, limitava-se a ignorar a questão. Deixava que a obra se fizesse a si própria, de certa maneira, limitando-se a dar um pequeno toque aqui e ali. Nada que a pusesse fundamentalmente em causa. «Uma obra de arte é o resultado de uma luta entre ela e o artista. Já lutei que chegue. Agora faço um intervalo e deixo a vida dirigir o trabalho. Depois logo se verá. A data da estreia ainda está longe.»

Fétido...

 ... eis o termo que busco há que tempos para definir o futuro.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16/18-04-2022

Estou cheio de fome. Um gelado não faz um almoço, mesmo que seja dos do Claudio, cujos competem com quaisquer uns do Universo e frequentemente ganham. Claudio é um apaixonado pelo que faz e cada vez que lá vou - em média, dia sim dia não - oiço uma prelecção sobre os seus últimos progressos. A de hoje foi sobre a decisão de trocar os chocolates banais que até agora usava por chocolates «de origem». Equador, Gana et alia. Deu-me a provar o do Equador, provavelmente o melhor gelado de chocolate que comi desde que como chocolates e gelados. Era tão bom que não resisti e fui ao Giovanni, umas dezenas de metros à frente, mergulhar o que restava da enorme bola num copo de rum. Foi isto o meu almoço, que faria as delícias de uma nutricionista (só conheço mulheres nesse digno mas infrutuoso trabalho) ou do médico que me receita medicamentos contra a diabetes.

(Nb: Claudio decidiu criar a sua própria marca. Tudo o que dizia Doce Freddo está a ser substituído por «Claudio». Não dou muitos anos para que a marca seja conhecida em todo o lado. Se não for, é porque Todo o lado está enganado. Acontece muitas vezes.)

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De maneira à noite cheguei ao Gustar cheio de fome, agradável novidade. Há muito tempo que não só não fico agoniado mal penso em comer, mas ainda tenho fome. É precisdo dizer que foi lautamente recompensada, se não em quantidade pelo menos em qualidade. Como sempre, claro, é inútil  acrescentar.

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Entre o chocolate do Equador e a espetadas de vitela encontrei-me com a P. Vinha a correr, como sempre: a senhora é antropóloga, tem um programa de rádio, escreve, pinta e faz música, para além de ser mãe dedicada e dedicada esposa de um farmacêutico que nunca aparece porque «somos muito diferentes», explica. «Mas agora já é tarde para mudar», acrescenta. (Na verdade vê-se perfeitamente que o ama, mas isso é história dela e dele, não me diz respeito). Conheci P. por intermédio de um passageiro da viagem Blablacar mais alucinante da minha vida, de Lisboa para Madrid. O homem era antropólogo, fotógrafo, cineasta, professor universitário. Não nos calámos um minuto durante as seis horas que a viagem durou, almoço incluído. Foi ele que me falou na P., que tinha sido sua aluna em Palma. Esta interessou-se pela minha estadia no Burundi e levou-me à rádio - creio que foi a minha estreia nesse medium - e daí ficámos amigos. Conheço-a pouco, mas aprecio-a bastante: é uma das excepções à regra de que os maiorquinois são feios, antipáticos e ignoram totalmente tudo o que não venha do seu círculo mais próximo. (Esta regra tem mais excepções do que confirmações. É daquelas que se desfaz mal se passa a barreira.)

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Enfim, tudo isto porque estava com fome. Há muito tempo que não sentia tal coisa e não sei se deva regozijar-me ou não - ainda tenho alguns quilos a perder.

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18-04-2022

O dia começa noutro dos meus refúgios: o café Mise en Place, na Plaça Mayor, que antes da pandemia era o meu escritório. A Daniela continua bonita, sorridente e eficaz, a decoração e o mobiliário agradáveis, a música boa. Durante os anos de loucura não podia tabalhar aqui - não queriam ter uma mesa ocupada duas ou três horas com dois cafés, por caros que estes sejam (são). Agora já posso ocupar de novo «a minha mesa», no canto da janela, com vista para a praça e para a bicicleta Órbita, que nem fechada está.

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Leio o jornal, exercício penoso pela mediocridade hodierna. Esta vertigem, esta voragem legislativa é aterradora. Pergunto-me onde parará. Ele é legislação contra a sazonalidade, a favor de folgas menstruais para as mulheres (a qual requer, precisa o jornalista, mais legislação para impedir que as mulheres sejam prejudicadas), mais investigação contra os preços excessivos nos apartamentos com limitações de rendas, mais legislação contra oa chiringuitos, com o pretexto de «poupar o ambiente»... É enjoativa, esta modernidade. Entretanto, a primeira página do Diário traz uma chamada para um artigo de duas páginas que devia fazer pensar sobre as consequências psicológicas da gestão da pandemia. 

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Ao chegar à praça vi os senegaleses todos a embrulharem precipitadamente as quincalharias que vendem: estava a chegar a polícia. É uma peça bem coreografada, faz-me pensar naquelas peças de marionetas em que entra o polícia pela esquerda, sai o malndro pela direita, sai o polícia, volta o outro e assim por diante. Vivem numa extorsão permanente, nas mãos vorazes, gananciosas e inumanas dos «importadores» das bugigangas, com mínimos de facturação, sempre a fugir da polícia. As independências africanas são uma das histórias de «sucesso» dos tempos modernos. 

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Note-se que sei muito bem que uma sociedade precisa de mitos e nada tenho contra eles, excepto o facto singelo de serem tão necessários. As boas vontades seriam muito mais eficazes se enfrentassem a realidade. Refugiando-se na mentira e na ilusão mais não fazem do que perpetuar a maldade e dificultar que se corrijam injustiças flagrantes e desumanidades inúteis. Os cavaleiros da bondade causam mais sofrimento do que aqueles que invectivam.

16.4.22

Lutar contra o emagrecimento

Estou cada vez mais magro, porque como cada cada vez menos. Contudo, luto arduamente contra o adelgamento de que toda a gente me fala: bebo o mesmo.

Memória, fotografia

Se a memória não interessa, para que serve a fotografia?

15.4.22

Vómitos

A minha peregrinação pelos amigos continua. Bar Rita - poucos apertos de mão me dão o prazer que o do Joan dá -, Toni na praça Santa Eulália - provavelmente uma das dez praças mais bonitas de Palma - e agora o Dani e o Luís da Cuadra del Maño. "Pensei que fosses tu, quando telefonaste", diz o Dani com um sorriso vasto como o Nilo. Digo-lhe que quero comer pouco. "Onde está o Luís que conheci?" "Isso pergunto-me eu, Dani". Luís, o assador, vem ver-me. Acordamos um bocadinho pequeno de picanha e uma batata ou duas. Lá fora continuam o rufar dos tambores e os desfiles de gente vestida das formas mais estranhas. De romanos a KKK já vi de tudo.

Onde está o Luís que detestava multidões, Dani? O Luís que comia carne como se não houvesse mais nada que comer para todo o sempre?

Engolido, meu caro. Digerido e não tarda vomitado.

Inundações

Palma está a abarrotar de gente e eu nunca pensei que gostaria tanto de ver esta cidade de novo inundada em multidões.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-04-2022

O quarto onde fico é «do outro lado das avenidas», aquilo que em Paris se chamaria extra-muros. A cidade muda por completo. Desapareceram as cabeleiras loiras e a mistura de línguas do centro, substituídas por cabelos pretos, espanhol ou maiorquino (uma variante do catalão, do qual não sei distingui-lo pelo menos ao ouvido). Há mais mulheres gordas, mais velhos e os bares e cafés não são gourmet, bio, fusion, green, vegan mais essa colecção de tonterias de que todas as modernidades são feitas. Tivemos azar com a nossa? Não sei. Talvez. 

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As dores desapareceram todas. Olho esquerdo, ombro direito, anca direita cederam à química (enfim, a da anca não cedeu a nada se não possivelmente ao cansaço. O melhor SNS do mundo marcou a consulta com uns largos meses de espera e a dor desvaneceu-se, não lhe apetecia esperar tanto tempo. Tanto melhor. Isto de me sentir uma farmácia ambulante não quadra bem comigo). A única que permanece é uma monstruosa e permanente dor de cabeça, mas esa com um Paracetamol também se desvanece. Basta não me esquecer deles em casa.

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Trabalho, trabalho e trabalho. Se um dia fizer a história da minha relação com o P. a história vai ser uma mistura de drama, tragédia, comédia, opereta, farsa, melodrama, stand-up comedy e por aí fora. Se vejo o pano cair sobre este refit... Não vale a pena sonhar. Nunca verei.

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Às vezes pergunto-me se estas dores e maleitas todas que arrasto comigo não serão pedidos do corpo para lhe pôr fim. Ou avisos de que o fim está próximo. Ou assim.

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Palma está cheia de gente, apesar do tempo. Ou melhor: por causa do tempo. Não está convidativo para a praia, de forma as ruas estão cheias a abarrotar. Pelo menos as do centro. Cada vez acredito menos no turismo como pretexto para a viagem. Lembro-me das filas para apanhar o 28 ou o elevador de Santa Justa em Lisboa e a descrença passa a incompreensão absoluta. 

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A fraude da «pandemia» não é uma fraude: é uma colecção delas que encaixam umas nas outras como matrioscas: abre-se uma e logo outra sai de lá de dentro. A última, a mais pequena(em tamanho), a que está lá no fundo é a do número de mortes. Quantas delas foram realmente devido à Covid? Mas em redor dessa toda uma série de mentiras se enrosca, até chegarmos à ultima, a casa delas todas: «por causa da pandemia...» A verdade é «por causa da gestão da pandemia...» Pergunto-me quanto tempo demorará até sabermos a verdade?

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Rendo-me sem condições à estética: as mulheres do centro são mais bonitas do que as dos bairros «de fora». 

Corpo, amor

A vontade de escrever impede-me de dormir e a vontade de dormir não me deixa escrever. No meio, feita fiel da balança, está a estúpida dor no olho esquerdo, que hoje estupidamente reacendi. É curioso: uma dor num olho incapacita o corpo todo, mais do que se fosse  um braço ou numa perna. Tudo tem um fim e este calvário tê-lo-á também. Só espero que venha em breve - um corpo que se faz sentir não merece respeito e muito menos amor.

14.4.22

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 14-04-2022

Regresso a Palma, a minha Palma, Palma dos meus dias, Palma à qual regresso feito filho pródigo. Selecciono os reencontros: Pepe, Aurélio, François, Jaume, Núria e Roberto, por ordem cronológica directa. Amanhã é sexta-feira santa e não haverá muitos mais, mas sábado outros se lhes seguirão. Os meus amigos de Palma são donos de cafés, bares e restaurantes, o que diz muito sobre o que me interessa na vida. (Também conheço livrarias e lojas de objectos bonitos, não vão os leitores pensar que só me interesso por vermutes e vinhos.)

Palma: a Núria tem a casa cheia e pede-me para me sentar à mesa de uns amigos dela (que não são donos de restaurantes, mas são chefs em iates. Um destes conta-me uma história magnífica: um amigo dele arranja um trabalho num iate nas Caraíbas. O processo de recrutamento é complicado, cheio de segredos e NDA (non-disclosure agreement, se por acaso). O homem é contratado, vai trabalhar e ao fim de um mês despede-se. O barco pertence a Nicolás Maduro e o chef tinha constantemente um guarda-costas atrás a ver o que punha na comida. Não é propriamente que isto me surpreenda. A minha surpresa vem mais da dimensão da credulidade de muita gente do que do facto de o herói da esquerda ser um corrupto. Há muitos, quase todos. A esquerda sempre atribuiu mais importância ao que se diz do que ao que se faz.

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Hoje é dia de procissão. Cruzo-me na rua com imensa gente vestida das mais estranhas formas, mas todas remetendo para fardamentos religiosos. Alguns fazem-me pensar em bruxas e penso que entre a bruxaria e a religião a diferença é pequena. Segundo um linguista alemão cujo nome esqueci, uma língua é um dialecto com uma armada e um exército. A diferença entre uma religião e uma seita, uma crença ou uma superstição é exactamente a mesma. Isto dito, prefiro o catolicismo ao voodoo ou ao islão, por exemplo. Talvez por familiaridade, não sei. 

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Este prazer infantil de ser recebido com alegria, abraços e grandes exclamações não tem comparação com nada, se não eventualmente o prazer de voltar ao mar para uma viagem longa. A diferença sendo que aí quem recebe sou eu e não ele a mim. Chegar aonde nos querem ou aonde queremos não é muito diferente, no fundo: para onde vai ou de onde vem o amor pouco importa, desde que faça parte da viagem, desde que esteja presente e inclua a mescla de sentimentos de que a viagem é composta.

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Apesar de conhecer esta cidade relativamente bem, continuo a perder-me em Palma. Creio - mas não tenho a certeza - que é uma das razões pelas quais gosto tanto de aqui estar: é melhor perdermo-nos num amor do que numa indiferença.

Em Palma, duas ruas que começam perto uma da outra e vão na mesma direcção não acabam perto uma da outra. Acabam a léguas uma da outra.

12.4.22

Diário de Bordos - Porto, Portugal, 11-04-22

Em condições normais não teria entrado no Thamel Restaurant & Cocktails nem com uma pistola encostada à têmpora. Não tarda o Porto estará como o resto do mundo ocidental cheio de bio, organic, gourmet, fine food, fusion e por aí fora. Não há razão nenhuma para acelerar o que já de si é inevitável. Mas hoje as condições não são normais (apesar de tão pouco serem raras, infelizmente) e tinha a pistola da fome e a metralhadora da falta de paciência apontadas uma à têmpora e a outra às pernas, de maneira entrei no supra-mencionado Thamel, atraído pelo preço dos mo-mo, cinco euros e - comprovei posteriormente - bastante bons. Claro que a conta final foi substancialmente superior, prova (como se fosse necessária) de que o melhor momento de um preconceito é quando morre e é substituído pelo seguinte.

Do Thamel vim ao bar Pipa Velha, onde amanho estas linhas. Não tem natas frescas. Já nenhum bar as tem, com a possível excepção do Procópio, que não é bem um bar propriamente dito, é a sala de espera para um dos paraísos ou um dos céus ou do que quiserem. De modo bebo um LBV, simultaneamente caro e barato para a função que lhe proponho: manter-me acordado o tempo de... Enfim, pouco importa. Duas coisas a reter: o restaurante Thamel (um dos seus cocktails é bom, apesar de se chamar Dancing Monk)... Não interessa. Ao meu lado estava uma senhora sozinha que lia o seu telefone enquanto comia. Trouxe-me à memória os tempos em que fazíamos a mesma coisa com jornais, livros ou revistas. Uma modernice que se queira imprescindível precisa apenas de prolongar o passado: fazer o que sempre se fez, de uma forma mais prática, mais leve

Uma das paredes do bar Pipa Velha está coberta de posters de espectáculos; a outra, em face, de retratos (medíocres) de artistas e actores famosos. O senhor que fez isto quer visivelmente garantir aos seus clientes que estão a caminho da intelectualidade, de se tornarem famosos. Estão no sítio certo para isso. Estão. Não sou famoso por coisa nenhuma, nunca o fui nem serei, não sou nem quero ser artista ou intelectual e apesar disso tudo sinto-me bem aqui. Gosto da música - rock - da decoração clássica (estou de costas para os retratos), meio pub inglês meio irlandês, das madeiras, do arco de pedra, de tudo incluindo ficar muito perto do hotel San Marino, a minha casa, refúgio, abrigo no Porto.

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Objecção à modernidade: a falta de natas. O Irish coffee saiu de moda. O único sítio onde se pode beber um decente é no já mencionado Procópio.

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«Modernices»... Que bizarra relação tenho com a modernidade, eu que sempre disse (às vezes ironicamente, verdade seja dita) il faut être moderne. Agora escolho as «modernices» como escolho as cerejas do prato que a dona da casa generosamente traz para a mesa. É mal-educado? Sem dúvida. Privilégios da idade.

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Sinto-me um funâmbulo com uma enorme vara num arame fininho por cima de um abismo. Para um lado, a solidão. Para o outro, a não-solidão. O referencial é sempre ela, a solidão. Presente ou ausente, é ela que dá nome ao abismo sobre o qual avanço, balanceio, me desequilibro e me equilibro. Instável o equilíbrio, lento o avanço. No fim do caminho ela ganhará. Ganha sempre.

8.4.22

Oxímoro lusitano

Português, burguês e livre? Há aqui um oxímoro, salta aos olhos. Português e burguês existe há para aí cem anos, mais coisa menos coisa. Burguês e livre? Desde que a burguesia foi inventada os há e houve. Português e livre é que não se vislumbra. Povo amarrado ao medo, ao respeitinho e à pobreza: tripla prisão da qual poucos - muito poucos - escaparam.

Apologia (tardia) da burguesia

A burguesia é simultaneamente o melhor e o pior que as sociedades humanas produziram até hoje. Só vive numa sociedade sem burguesia quem não pode fugir para as que a têm. E destas só os burgueses - ou quem o quer ser - foge para as outras.

No meio está a virtude? Bênção e maldição, simultaneamente. Blake dizia que a estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria. Só é verdade se se pensar que excesso e erro são sinónimos - são, para a burguesia. Entalada entre a aristocracia e a grei (deixemos clero e militares de lado), a burguesia oscila permanentemente entre o desejo e o risco do excesso - que é a marca das sociedades sem burgueses. 

A burguesia não é o cemitério de ideias, paixões e cautelas que imaginam artistas, intelectuais (que de resto nela nasceram) e aristocratas (ou aquilo que hoje os substitui). Ou melhor: é isso mas não é só isso. Um burguês é a mistura de um aristocrata capado e de um homem do povo que aprendeu a ler, escrever e comer de garfo e faça. É desse encontro de poder cerceado e educado que nasce a civilização.

Civilização essa que permite excessos - e os transforma em virtudes.

6.4.22

Chave, mundos

Como a chave busca uma fechadura ele buscava um mundo no qual encaixasse. Um mundo ajustado, à medida, sem folgas. Gastou nisso uma vida, vida e meia.

Preguiçosamente, é preciso dizê-lo. Vagarosamente. A solução simples seria adaptar-se ele aos diferentes mundos que visitava. Porém, repugnava-lhe a ideia de alterar um simples ângulo que fosse do seu perfil. O mundo onde naquele momento se encontrava que encaixasse nele, se quisesse. Nada o impedia - excepto, ocorria-lhe de vez em quando, a sua (dele) pouca vontade de receber fosse quem fosse.

Mamo-realismo

Mais vale um par de mamas pequenas à mão do que um delas grandes à vista.

Portugalidades

O restaurante onde vou frequentemente almoçar é pequeno, bom e barato. Mesmo à frente tem dois lugares de estacionamento daqueles com restrições, creio que para aleijadinhos ou para descargas, algo assim. A clientela é sempre a mesma e inclui uma equipa da EMEL, que lá vai almoçar quase todos os dias, como nós. Quando acabam de comer e retomam o trabalho têm o cuidado de perguntar se algum dos outros clientes tem o carro estacionado nesses lugares. 

27.3.22

Luz, pó, vida, sombra. Rocha

Trata-se da luz e dos seus mistérios. O maior dos quais é a sombra, sem sombra de dúvida. Trata-se da luz que alternadamente cega e ilumina, dá a ver e ofusca. Trata-se da vida, a que te leva à morte e dela te arranca. És pó... Desse pó, antes de a ele voltares, farás rochas, obras, pontes, portas, muralhas. Desse pó far-te-ás homem, farás homens, dar-lhes-ás luz, iluminar-te-ás, iluminarás. Desse pó, dessa luz. Dessa vida, dessa sombra, inextricavelmente unidos. Como a dupla hélice que recebeste e deste em herança por essa janela a que chamaste - ou outros chamaram - vida. És pó e ao pó voltarás. Desse pó fizeste uma vida. Dessa luz, dessa sombra.

Dessa rocha.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 27-03-2022

Tradicional passeio dominical pelo campo. A luz esbranquiçada faz-me pensar em leite diluído, metade leite metade água. Neste país, o silêncio campestre é substituído pela ordem. Tudo é ordenado, mesmo o campo. 

É agradável no início. Depois cansa, torna-se rebarbativo. "É bom chegar a Genebra, mas ao fim de três semanas..." Passe a auto-citação: desta vez não fico cá três semanas e o único peso que levo é o da ausência dos que me são queridos, agora acrescido de um neto.

Entro hesitante nesta nova idade. Ser avô é como entrar numa nova idade adulta, não é? M. R. dizia que é como ser pai sem as responsabilidades de o ser. Mas ele sempre esteve perto dos netos. Eu não. A nossa comunicação vai ser assimétrica: posso ver-lhe as fotografias, mas ele não pode ver as minhas. E se pudesse nada lhe diriam, claro.

Outro clássico: a fondue de queijo, à qual só veio o T. Não estava grande coisa - o queijo e o pão vinham da Migros - mas tanto ele como a S. gostaram ou disseram que gostaram. Eu gosto sempre: estas tradições são como os ferros de um navio que o mantêm fundeado numa tempestade (para além da beleza do sítio onde hoje fomos passear, a S., eu e a cadela, que agora corre menos mas continua a apreciar os passeios).

Hoje percebi que a minha vida nunca será o grande rio tranquilo com o qual sonho há décadas. Quando muito, será as suas duas margens, divididas - ou unidas? - por um traço de união. Múltiplos traços de união. Múltiplos rios, uns mais tranquilos que os outros. Vogo no meio desses rios, por vezes tocando uma ou outra margem, só a maior parte do tempo. O tronco no qual me penduro vai-se degradando, pouco a pouco mas inexoravelmente. Cada vez depende mais de remédios, pílulas, injecções, operações. 

Tudo bem, enquanto o puder pilotar. Quando for ele a tomar o leme, a viagem acaba. Estes rios têm essa magnífica vantagem: a foz é móvel. É o rio que define onde acaba. Desaguam onde e quando querem desaguar. Só quero é ser pai irresponsável mais um bocadinho. E partilhar meia dúzia de fondues de queijo.

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E entrar em supermercados sem máscara, claro. (Em Genebra, as máscaras só são obrigatórias nos transportes públicos e nos estabelecimentos ligados à saúde. A irracionalidade é geral. Em Portugal limitamo-nos a prolongá-la no tempo e na abrangência.)

23.3.22

Frutas, vinhos

"Aroma profundo e muito completo onde realçam ameixas pretas, morangos maduros e cassis numa envolvência de grafite e especiarias." Hoje para ser enólogo há que tirar um curso de frutaria.

22.3.22

Praxes, civilização e incapacidade

Há dias ia a passar num parque da cidade e vi vários grupos envolvidos em praxes. Num dos grupos, uma rapariga soltava impropérios, insultos, palavrões no meio das ordens aos praxados. A praxe é uma das provas de que o valor da educação para a construção de uma sociedade melhor está infinitamente sobrevalorizado. Isto dito, continuo sem preceber como há alunos que se sujeitam àquilo, mas isso deve ser incapacidade minha.

19.3.22

Palavras, deserto

Sem palavras o mundo é um deserto sem oásis. 

16.3.22

Esperas injustas (isto está tudo ligado)

Que espécie de homem é capaz de fazer esperar uma senhora sozinha à mesa do restaurante, tanto tempo? Tão bonita? 

Adenda: um homem feio e que ainda por cima deixa a senhora servir-se de vinho. Não há coincidências. Isto está tudo ligado.

Diário de Bordos - Lisboa, 16-03-2022

O DV tem andado MM: meio morto. Ou MMQV. Mortiço. Os tempos não estão para escritas. Não estão para nada, de resto. Deixámos de depender da Câmara Municipal de Oeiras para depender de uma pessoa, a travessia parece estar a ser gerida por um bando de amadores («parece» é generosidade), o raio do Putin continua a não perceber que já perdeu a guerra - é típico dos ditadores: só percebem as coisas quando lhas explicam com uma arma apontada à cabeça. Boa notícia só há uma: sou avô de um neto que ainda agora acabou de nascer e já tem ar de ser um puto porreiro. Que chova em breve, para poder ir confirmar de visu. Uma vida sem novidades é como uma vida sem qualidades. Esperar é asfixiante.

Ou pelo menos esperar sem prazo. Quando tenho que esperar pela maré não me chateio nada: sei a que horas terminará a espera. Quando espero pelo vento tão pouco me exaspero. Na verdade, talvez não seja a espera que me põe neste estado de quase catatonia. É esta sensação de impotência, de dependência da palavra ou falta dela, da competência ou falta dela, da integridade ou falta dela de terceiros.

E há outra boa notícia: estou de novo na locomotiva de uma ideia que espero se venha a confirmar (passe a redundância. Se não esperasse não estaria sequer no comboio). Energia anímica. Ainda não estou morto. Estou meio-vivo, só. Espero que a ressurreição seja completa e não se fique pela metade que falta. 

11.3.22

Obrigado pelo conselho.

Uma das razões  - está longe de ser a única  - pelas quais detesto que me digam o que devo fazer: eu próprio, que me conheço há sessenta anos como se me tivesse feito, não sei.

10.3.22

Herberto, Leonard e eu

Talvez no fundo a luta pela civilização seja a luta contra o maniqueísmo. E contra a esperança no homem. "Nada esperar, não desesperar de nada", como creio que disse Herberto.

Mas isso só é dado aos marinheiros. "All men will be sailors then

Until the sea shall free them."

8.3.22

Verdades de base há dois mil e quinhentos anos

"O Mestre disse: "Quando toda a gente detesta um homem, é caso para nos interrogarmos. Quando toda a gente adora um homem, é caso para nos interrogarmos.""

"O Mestre disse: "As palavras servem apenas para comunicar."

Confúcio, in Analectos, ed. Biblioteca Editores Independentes.

6.3.22

"Oiça um bom conselho...

Conselho às senhoras que esperam pelo príncipe encantado: arranjem um desencantado.

São igualmente difíceis, mas muito mais interessantes.

Ventos, panos e outras coisas

Quando o vento está muito variável em força, com rajadas fortes num regime de vento fraco geral, o marinheiro prudente sabe que deve ajustar os panos para o vento fraco. Pode sempre folgar-se nas rajadas com pano a mais mas não se pode manter o controle do bote no vento fraco com pano a menos.

Isto pode servir de analogia para uma série enorme de situações, não pode? Pode.

4.3.22

Censura, espaços públicos

Reclamação contra o zeit: já não se pode entrar num café para folhear (ou acariciar, se preferirem) o livro que acabou de se comprar. 

Se fosse a favor da censura: abaixo a televisão nos espaços públicos. A televisão é para se ver em casa, quando se quer ser intoxicado e se prefere imagens a vinho, tabaco ou outras substâncias.

Waffen-depressão

A depressão é um nazismo e a ansiedade as suas Waffen-SS.

O lúmpen e a dialéctica

Continuo sem perceber por que raio de carga de água há neo-nazis mas não há neo-comunistas. Será que a dialéctica de Hegel deixou de funcionar e se ficaram pela síntese? Fim das teses e das antíteses? O comunismo não vai mais mudar?

De certa forma compreende-se. Aquilo é a perfeição ao alcance do lúmpen. Acabado este, aquela fixa-se como uma estátua grega:  cheia de mossas e metade quebrada, mas suficiente para imaginar como era.



Geopolítica à hora do almoço

Posso estar muito enganado  - estou muitas vezes - mas tenho a impressão de que desta vez o Putin teve mais olhos do que barriga. Talvez consiga comer o prato até ao fim, mas depois vai desta para melhor com uma indigestão. 

28.2.22

Virtude, Confúncio

"O Mestre disse: Os profissionais da virtude são ruína da virtude."

Confúcio, in Analectos, ed. Biblioteca editores Independentes

23.2.22

Viver, estar vivo

Viver não é estar vivo. A modernidade não só confunde os dois estados como privilegia o segundo em desfavor do primeiro.

Para nos manter vivos impede-nos de viver, apoiada na "ciência". Ou melhor, naquilo que hoje passa por tal: o fascínio em vez do cepticismo, a crença em vez da dúvida, o pensamento mágico em vez da Razão. "Não matarás" tornou-se "viverás", curiosa inversão semântica e civilizacional.

Nova Idade Média

Céptico e negacionista tornaram-se sinónimos. Vivemos de novo uma época de dogmas. Pergunto-me se os historiadores do futuro lhe chamarão «A nova Idade Média», como o «novo Coronavírus».

20.2.22

Medo, razão

O pior inimigo da razão não é a estupidez. É o medo, que anestesia a inteligência.

17.2.22

Desilusão e a sua ausência

O excesso de tolerância,  de compreensão,  de aceitação do outro nasce da simples ausência de esperança, de ilusões. Nada esperar seja de quem for é condição sine qua non para para não ser desiludido.

16.2.22

Basta

Chega a noite e tu maldize-la: "porque não entras de vez, para ficar e não mais partires?" 

- Noite entrecortada por finos lençóis de luz não é noite. Não passa de uma breve (talvez profunda, mas breve) ilusão de óptica. Tudo o que não vês à tua frente está lá e espera-te. O caminho é fácil. Basta seres tu (tom e sorriso escarninhos).

Retribuição

Enrodilhado na luz que te chega das trevas. Ou seja: não há trevas tão negras que não tenham uma ponta de luz. Ou seja: és um resistente. Não há negrume que te impeça de ver a luz, por ténue que seja. Um lençol  fino, leve, debaixo do qual te proteges, como se em redor nada existisse.

Nada existe senão essa estreita faixa da luz que te protege, que tu proteges.

14.2.22

O eterno, indestrutível talvez

É preciso começar por dizer a verdade: não conheço muitas abadias, nem muitos coros de monges e de ordens sei aquilo que me ficou de algumas leituras há meia dezena de decénios.

O mesmo se passa com a música e talvez por isso me fixe a duas ou três coisas, dois ou três refúgios. Apresso-me a esclarecer que a atitude é a mesma em tudo  ou quase tudo, desde o rum às mulheres, da poesia ao vinho, das bicicletas às cidades, da literatura ao café. 

(Não tem nada a ver com a falta de curiosidade. Isso fica para outro dia.)

É verdade: agarro-me ao que conheço, ao que me recebe de braços apertados, ao que sabe fazer perdurar o meu amor mesmo depois de ele se sedimentar em memória.

Por isso amo ainda algumas mulheres cujo nome mal recordo, por isso sou fiel ao rum Mount Gay ou ao El Dorado 15 anos (entre outros), por isso continuo a pensar que Beckett, Borges, Yourcenar, Garcia Márquez formam um quadrado quase impenetrável. E por isso revisito regularmente os cantos da liturgia eslava pelos monges de Chevretogne, as Vésperas de Rachamaninov por Paul Hilliez ou a música sagrada (e sacra, claro) de Hildegarde Von Bingen.

Hoje calhou escolher os monges de Chevretogne. Acredito que haja melhor ou pelo menos tão bom  outros coros, noutras abadias. Não duvido disso nem um segundo.

Duvido é que valha a pena perder muitos segundos a procurar. É como pensar que há uma mulher melhor do que aquela que nos ama e nós amamos. Talvez haja, mas esse talvez é daqueles que não merece, não precisa, não deve ser destruído. 

Deve ser um talvez eterno.

11.2.22

Náufrago, feto, carcaça

Agarro-me como um feto náufrago a um bocado de madeira na certeza de que a carcaça vai encontrar nestas mãos nestes ombros nestas pernas encolhidas até à espinha os recursos de que precisa para respirar.

Abençoado feto, abençoado náufrago.

Deus, música

Quando é que a música descobriu Deus? A hipótese oposta é irrealista: não foi Deus quem descobriu a música. Ter-se-ão descoberto mútua e simultaneamente? Como fizeram para que a sua relação fosse tão longa, tão profunda e tão profícua?

1.2.22

Descrição

À me faire bouffer le bide par des vers de terre.