20.5.22

Diário de Bordos - Road Harbour a Ponta Delgada, 03 a 18-05-2022

Este post é dedicado ao meu amigo Manuel Monteiro, que reclama quando a dose de Don Vivo tarda. Com um abraço, grande e grat, claro.


Não é por acaso que o charter nasceu nas Ilhas Virgens Britânicas (BVI para os amigos): o arquipélago tem tudo para transformar um cruzeiro de uma semana numa viagem de sonho. Ilhas lindas e próximas umas das outras, praias maravilhosas, bons restaurantes, fundeadouros em tudo quanto é canto, protegidos e bonitos.

Não há, porém, bela sem senão. Em Road Town (nos outros portos passa-se o mesmo, mas em menor escala) os funcionários públicos são de uma arrogância insofrível. Deve haver uma lei que os proíbe de ser simpáticos, amáveis e bem educados. Além de que esta cidade é, ela também, feia e agressiva, mas deixemos os senãos e concentremo-nos no que é bom: as tripulações são impecáveis e os barcos em excelente estado. Tudo indica que a travessia vai ser calma, sobretudo agora que já se decidiu pôr de lado a nvegação de conserva. Manter juntos quatro barcos - para mais, tão diferentes - é um delírio sem pés nem cabeça. Enfim, já está posto de lado.

No mar (28º 05’N, 061º 20’W)

Comecemos pelo meio, uma vez não são vezes. Como se começássemos pelo cume da montanha e depois fôssemos às encostas que a ele levaram. Mesmo não sabendo ainda se estamos no cume ou que vales nos reservam os dias que aí vêm. Comecemos portanto por este dia magnífico, dezasseis a dezoito nós de vento a um largo que o DREAM agradece e retribui, voando baixinho e docemente a oito, nove, por vezes dez nós. Rumo directo, qui plus est. Vento SSW a vinte e oito graus de latitude? Os deuses resolveram compensar-me, aposto. Entre muitas outras coisas, da lamentável peça de auto-sabotagem que ontem pus em cena. Bem podia começar com um daqueles apresentadores de circo, chapéu alto e smoking de fantasia: «Senhoras e senhores, eis mais uma obra do genial Luís Serpa, mestre incomparável em tudo o que lhe provoque danos, sejam eles quais forem. Podem aprender com ele tudo sobre a auto-sabotagem, dos simples começos às teses mais avançadas. Teoria e prática» Enfim, nada que possa fazer a esse respeito, terei que viver com este meu dom até ao fim, como sempre vivi. Já nem me chateio muito. Só um bocadinho.

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Talvez. Ou dos lamentáveis inícios de toda esta viagem, o salário de merda que aceitei por uma mistura de razões nenhuma das quais me parece válida agora (excepto talvez a perspectiva de dia assim. Será?), as chatices com a agência que me paga... Não sei e pouco me importa. Aceito de bom grado a compensação que os deuses me enviam e espero que venham mais. Largámos há quatro dias, estamos todos amarinados – enfim, quase todos. O V. continua enjoado como uma pescada, mas cada vez menos. A. revelou-se uma pessoa impecável e um tripulante aceitável, o DREAM tem alguns problemas mas nenhum deles muito sério – o mais chato sendo a falta da bomba de água doce. Felizmente todos conseguimos viver sem água corrente, como «antigamente». Entre aspas: antigamente a vida não era melhor. Era igual, só que mais chata. Isto é: menos confortável.

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Estamos a seiscentas milhas de Tortola. Nada mau para quatro dias de mar, sobretudo se considerarmos que estas milhas são em VMG. Para chegar aqui navegámos pelo menos umas setecentas. Estes Lagoon são um achado, não há dúvida: rápidos, bem construídos, bem concebidos. Se alguém souber de um sessenta ou sessenta e cinco à procura de skipper, conheço um disponível.

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Tenho a felicidade melancólica. Sorte para aquela e azar para esta.

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Não se pode mentir ao mar, não se pode mentir no mar. Ele é um grande revelador, seja de mentiras seja de verdades. Já aqui o disse uma vez e repito-o agora: nunca é demais.

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Falemos das encostas: Road Town continua a ser a cidade agressiva, feia, pouco hospitaleira de sempre. Pelo menos no que toca aos funcionários públicos, Coitados, devem ser objecto de uma lei que os obriga a ser antipáticos, rudes, pouco colaborantes (isto é um eufemismo: onde puderem pôr um obstáculo põem três). Chamar-lhes Pequenos Hitlers é uma ironia de peso: são todos gordos obesos, arrogantes, mal-criados. Bati o meu recorde: um dia inteiro para fazer uma clearance de saída. Um dia! Das ilhas, nada a dizer senão bem: Jost van Dyke, Virgin Gorda... Até Peter Island tem o seu charme. Mas de Road Harbour livre-nos Deus e todos os santinhos.

Excepção: devia estar no plural, são muitas. Entre as quais avulta o Pusser’s, um velho clássico da ilha, onde comemos e bebemos bem.

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Reflexões mundanas de um marinheiro vagabundo: o mundo está cada vez mais feminino, é ponto assente. Há cada vez mais feministas, outro ponto assente. A questão sendo: há mais feministas porque o mundo está mais feminino, ou ele está assim por haver cada vez mais daquelas? Tendo para a primeira mas no mar não posso investigar muito. E se pudesse provavelmente não o faria: o dia está realmente demasiado bonito para perder tempo com futilidades.

A única coisa que me chateia é isto de os barcos serem cada vez mais casas e menos barcos, mas também a isso resolvo não prestar atenção. A verdade é que uma bomba de água doce torna a vida mais agradável. Isto é, mais feminina.

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O meu corpo faz-se sentir cada vez mais. À primeira reacção – corpo que se sente não é boa gente –, contraponho a segunda – corpo que se faz sentir é porque quer partir. Nenhuma delas é verdadeira, mas a verdade é que dispensava bem este estúpido formigueiro no braço esquerdo, as «enxaquecas oftálmicas» (aspas porque cito) e as dores no ombro direito que ainda não apareceram mas não tardam, eu sei. Estão aí mesmo ao virar da esquina. Este trabalho é físico. Não sei se também, se sobretudo. Mas entre marear panos e ir buscar água com o balde o raio do braço não pára. Isto além de ter de o usar para me agarrar quando me desloco. E Deus (mai-los marinheiros todos, mai-los arquitectos navais, mais toda a gente ligada a isto) sabe como os movimentos de um cata são bruscos, violentos, deselegantes e desagradáveis.

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08-05-22, 29º 20’N 058º 51’W

Os crepúsculos estão consideravelmente mais longos, o que é normal; o vento S mantém-se, o que é um milagre. Refrescou, inclusivamente: agora anda pelos dezoito a vinte. Resultado: cento e oitenta milhas por dia. Estamos a mil e seiscentas da Horta. «É fazer as contas» (aspas porque cito). Claro que isto não se vai manter, mas tudo o que contribuir para encurtar a viagem é bem vindo.

Paradoxo que estou longe de ser o primeiro a relevar: gostamos do mar, mas queremos sempre chegar depressa. Quem diz o contrário ou mente ou não é marinheiro. Não há homem do mar que não goste de ver o seu bote a dar o máximo. Está-nos no código, desde que as velas existem e com elas os piratas ou os negócios: o primeiro a chegar ganha mais do que o segundo e este mais do que o terceiro. Na verdade, esta vida tem duas componentes: o mar e a vida em si. Estamos a simplificar, quando dizemos que gostamos do mar. O que realmente amamos é o conjunto: estar e não estar, ser e não ser. Para a mais ambivalente das personalidades – a do marinheiro – esta duplicidade só pode ser atractiva. Antigamente dizíamos que um dia bom (no mar) vale por nove maus. A proporção mantém-se, mas somos mais realistas: quão maus terão de ser os que aí vêm para compensar estas duas maravilhas, às quais acresce o bónus da surpresa? Dois dias perfeitos... Vou deixar de falar nisto, ainda falta muito até à Horta e não quero chamar o azar. O filho da mãe responde sempre a estas provocações. A beatitude atrai-o.

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A relação com os espanhóis não está a correr muito bem. Estou a desobedecer-lhes frontalmente. Seguir ordens não me é difícil, desde que façam sentido. A tal hierarquia do saber, a única a que um marinheiro obedece. Às outras pode fingir que obedece, mas respeitá-las não.

A verdade é que dos cinco barcos iniciais já só estamos três. Um veio por cargueiro e o outro teve de voltar para trás e ficar em Road Harbour por manifesto mau estado. As tripulações são porreiras, mas estão mais perto de escuteirinhos do que de marinheiros. Daí as dificuldades com a agência: não sabe lidar com a sua própria ignorância, por um lado; e atribui demasiado peso ao dinheiro, por outro. Os escuteirinhos lá vão dizendo que sim ou tentando contemporizar. Pela primeira vez na vida, tive de dizer «ou me pagas o que deves ou não saio». Pagaram, claro. Quase tudo, vá. Deixei-lhes uma folga: toda a gente sabe que um cabo demasiado caçado parte. A ver se eles sabem. Na Horta reajustaremos as amarrações, se for caso disso. Trabalhar a meio preço chateia-me, mas está digerido. Agora fazer palhaçadas não. Queriam que eu esperasse pelo monocasco, para lhe fazer companhia, coitado. Dizem que por causa dos seguros. A minha avó também dizia que era malabarista num circo. Não era.

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09-05-2022 (30º 37’ N 056º 11’ W)

O milagre continua, mas hoje já há sinais de que vai acabar em breve. Talvez amanhã, talvez depois, mas este mar cruzado não engana. Se tudo correr bem, vai rondar a leste e vou poder subir para norte sem usar o motor. A ver, como dizia o ceguinho. E nos trinta e oitos estarão os canónicos Oeste à minha espera e ooops, num ápice estaremos todos no Peter a beber gin, que isto das tradições tem que se lhes diga e são de respeitar.

O DREAM é um barco misterioso. A. diz que é feminino (todos são, A.). De repente e sem que nada se tenha feito para isso o anemómetro começou a funcionar. Foi posto de novo em Road Harbour, mas continuou a não dizer peva sobre o vento. Agora diz. Também as baterias rejuvenesceram e aguentam muito mais tempo do que nos primeiros dias. São animais misteriosos, estas. Caprichosas. Ignoro que Deus interveio em meu favor, mas a verdade é que estou a usar o gerador muito menos (PS – talvez os painéis solares com Sol ajudem, não?). A bomba de água doce é que não há maneira. Já pedi ao V. para encomendar uma nova na Horta, se bem esteja longe de seguro de que o problema venha daí. Mas mais vale gastar dinheiro numa bomba e ficar com ela de reserva do que passar dias e dias à espera caso seja mesmo essa a razão. Navegar é a arte de conciliar opostos, aposto que já alguém o disse. E se não disse pensou.

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A glicemia continua a cair. Acho que nem vou dizer ao médico, não vá o homem «proibir-me» de tocar numa gota de vinho ou de rum. E encho-me de doces, ainda por cima. Brincadeira, claro. Na verdade já estávamos à espera disto, ele e eu, e até vinha com instruções para cortar nos comprimidos caso baixe demasiado. Um já foi e o outro não tarda. O stock que tenho na caixa fica para a Horta, que bem vai ser necessário.

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Cada vez que ralho contra a modernidade vem-me o GPS à mente. Quando lhe dou o uso que dou aqui, penso que só um idiota diz mal de um tempo que nos trouxe tal ferramenta. Saber em permanência a posição, o rumo e a velocidade é o sonho de qualquer marinheiro desde que há marés.

Este é um B&G igual ao que pus no P.

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Falo no P. de propósito: posso sair dele, mas não há quem o tire de mim. Estava a precisar de vir para o mar, essa é que é essa. Quatro anos em terra é muito tempo. Tenho de o pôr a navegar, presto. (Para não mencionar a glicemia, naturalmente, para a qual o mar é o melhor remédio).

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Não tentar aproveitar ao máximo o potencial do barco é desperdiçar vento. Ou seja: é pecado mortal. De todos os desperdícios, o de vento é o pior.

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O aquecimento global continua a ter uma concepção muito particular e exclusiva de «global»: é onde eu não estou. Tem estado um frio de rachar, agravado agora por estarmos de vento sul e nem assim ele ser quente.

De todos os mitos do nosso tempo, este é o que mais me irrita. Supor que o clima muda por causa do homem é de uma húbris insuportável. Mesmo aceitando que sim, que é antropogénico e que são os puns das vacas, os escapes dos automóveis e as pegadas ecológicas que fazem o clima mudar – ignorando olimpicamente o facto lhano e inegável de que o clima sempre mudou (talvez devido aos puns dos dinossauros, vá lá saber-se) – a verdade é que querer alterar a nossa vida de alto a baixo tem custos infinitamente superiores. E quem vai pagá-los, quem é? Adivinharam: não são os ricos.

O anticapitalismo provoca mais miséria do que o dito cujo que pretende combater.

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Estou com dois cobertores dobrados e mesmo assim a noite tarda a aquecer-me. A mim e a ela de resto. Ó dona Noite, veja lá isso, senhora. Chegue-se a mim, aconchegue-se, aqueça-nos dos pés às almas. Se tanto é que tem vocemecê uns e outra.

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(12-05-2022, 35º 37’ N 48º 36’ O)

Hoje passámos a barreira dos quatro dígitos na distância ao objectivo. Daqui a novecentas milhas só teremos dois; noventa milhas mais tarde, um. O declive da encosta acentua-se, para contrabalançar o dito chinês (já aqui tantas vezes mencionado): «Metade de uma viagem de cem li não são cinquenta li. São noventa.»

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O marinheiro tem dois mundos: o mar e o outro. Não se tocam, nem de perto. Basta ver as minhas preocupações de momento:
- A minha R., rosa de vida, minha canoa;
- O meu neto Leonardo (adoro este nome), mai-los daquele lado;
- O meu P.;
- Guerra na Ucrânia – o Putin já se apercebeu de que tem de levar nas trombas? Pena que sejam precisos tantas mortes.
- A mascarada. Os meus amigos pró-Covid que fui perdendo ao longo desta pantomimada já se aperceberam de que foram engrolados? Perdi tantos e de quem gostava tanto.
- Mértola & Moura...

Isto em terra. No mar:
- Onde raio de carga de água estão os fluxos de Oeste? (Repetir três vezes);
- Vou aguentar o gasóleo até Gibraltar? Espero que sim. Mesmo quando o dinheiro não é meu, pagar impostos altos e mal utilizados é imoral;
- O sacana do puto é mole como melaço. Já o médico é porreiríssimo;
- Quando é que entra o raio do noroeste? (Repetir três vezes);
- A electrónica vai aguentar?
- Terei lugar na Horta? Deixar-me-ão ficar de braço dado? (Reservar uma amarração);
- Está a entrar norte. Não tarda tenho aí o noroeste (repetir três vezes);

O marinheiro – também já aqui o tenho dito – é o equilíbrio entre um conjunto vasto de opostos: é sociável e egoísta, é gastador e poupado, cobarde e valente, gosta de prever tudo e adapta-se a tudo, sabe que é o elo mais fraco da cadeia e é também o mais forte, «sabe fazer tudo vírgula mal». Um equilíbrio? Talvez mais um desequilíbrio. Este é só mais um: não se pode dizer que seja «um pé no mar o outro em terra». É «os dois pés no mar e os dois em terra, simultaneamente.»

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O noroeste entrou, um bocadinho mais cedo do que o previsto e fraquinho, ainda. Que longe estamos do Mediterrâneo, com as suas mudanças bruscas e definitivas. Aqui tudo é gradual, tanto as subidas como as descidas.

(50 nós previstos para Domingo ou Segunda. Que seria de uma travessia sem badanal?)

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Mudança de rumo: afinal vamos para Ponta Delgada e não para a Horta.

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13-05-2022 (35º 53’ N 046º 22’ O)

Arrastamo-nos a três nós e a cinquenta graus do rumo. O que me trouxe aqui? Uma série de más informações. Telefone satélite sim, sem dúvida. Mas para ser utilizado por mim. Isto é, usá-lo eu para procurar informação e não para a receber vinda de quem não sabe dá-la.

Estou furioso. Desliguei os motores: só estávamos a gastar gasoil, do qual vou precisar para a chegada. Quarta-feira dezoito estarei atracado no porto de Ponta Delgada, se as porras das previsões todas se confirmarem. Se não se confirmarem, não estarei. Mas pelo menos fui eu que as fui buscar, não fulano ou sicrano.

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Não vai haver badanal nenhum. Falso alarme. Isto é, aparentemente. Por estas bandas nem o passado é garantido, quanto mais previsões incertas.

Com a possível excepção do frio: está um briol do caraças e isso sim, é garantido. Alguém ligue o aquecimento global, por favor. Ou pelo menos o local, que com o mal dos outros posso eu bem.

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Entretanto (são duas da tarde) entrou vento. Infelizmente de SO; sempre é melhor do que nada. Vinte nós pela alheta. Estamos a avançar bem, mas a trinta graus do rumo. As coisas são o que são.

O barómetro continua a baixar, tão depressa como ontem ou anteontem subiu. Vamos ver quem tem razão, se o Garmin – diz que não vai refrescar muito mais, mas vai rondar a NNO -, se o D., que prevê trinta e dois nós no domingo. Infelizmente não me dá a direcção. Esta malta da Tripulaciones é tudo muito boa gente, mas de marinheiro tem pouco. Em Road Harbour pareceu-me um bando de escuteirinhos.

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Ansioso por chegar e dar um beijo à minha R.

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14-05-2022 (N 36º 47’ O 46º 13’)

O que me vai ficar desta viagem? Até agora: o frio e o sacana deste mar desencontrado que temos desde ontem. O cata é horrível nestas circunstâncias. Anda bem, é certo – mas mesmo assim menos do que o que deveríamos para este vento.

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16-05-2022 (N37º 27’, O 35º 07’)

O badanal passou. Ficou o frio e este NO lindo, vinte e cinco nós, céu limpo, mar ligeiramente menos caótico. O DREAM chama-lhe um figo, claro: galopa por aí fora a mais de dez nós. Ainda vou ser capaz de ganhar a minha aposta e chegar quarta-feira? Depois de amanhã? Parece-me difícil, sobretudo porque o vento vai cair de certeza. Fica a esperança, que nunca é feia.

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As baterias ressuscitaram, definitivamente. Não chego a fazer quatro horas de gerador por dia, o que para os frigoríficos e para o piloto nestas condições é bastante bom.

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Ontem, A. perguntou-me se havia ar quente a bordo, para secar o oleado. Se tivesse que resumir a atitude do homem – de resto adorável – durante esta viagem usaria este momento de alta dissonância cognitiva. É certo, e aí dou-lhe razão, que o barco parece uma casa: três frigoríficos, um congelador, gerador, dessalinizador (nunca usado), ar condicionado (idem – terá ar quente?) As pessoas querem uma casa no mar, não querem barcos.

PS – A pergunta não é de todo absurda. Absurdo sou eu e a minha mania de que o mar é o mar e a terra terra e não se misturam, excepto nos portos e nas praias. (Gosto muito daqueles e pouco destas, mas isso fica para depois.)

Tê-lo de quarto ou a ajudar a uma manobra ou ter a fotografia dele seria a mesma coisa. Mas é simpático, adorável, boa companhia. Já rizámos e desrizámos algumas seis ou sete vezes e continua a perceber patavina do que se passa, a não saber o que é uma escota ou uma adriça. Decorou o amantilho, vá lá.

Há pouco a escota da genoa rebentou porque... Porque estava velha, pronto. Fica assim e fica bem.

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Vou fazer pão. O último antes de Ponta Delgada. Até agora têm ficado bons. Pena é a manteiga que temos a bordo ser uma merda. Quase tudo o que comprámos em Road Harbour é. O leite de leite só tem a cor. lhas francófonas, meu caro. Francófonas.

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18-05-2022 (50 milhas a Oeste de S. Miguel)

Quatro horas debaixo de chuva. Há muito tempo que não tinha as mãos tão engelhadas como tenho agora. E molhadas: já as sequei duas ou três vezes à toalha, mas cinco minutos depois voltam a ficar molhadas, como se a água lhes tivesse passado para o interior e agora jorrasse através da pele. Felizmente o Henry Lloyd faz jus ao nome. As Dubarry também. Isso sim, foi um presente, Vasco. Mudam a vida, como me disse o biólogo marinho que há anos veio comigo para Copenhaguen. Obrigado, mil vezes mais vezes.

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Afinal vamos chegar mais cedo do que pensei: este dezoito nós de vento ajudaram bastante, apesar de terem começado em SSO e já estarem em SE. Desde que não fechem mais, tudo bem: às oito ou nove da noite estarei atracado e com a minha canoa nos braços.

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O post vai como saiu do forno. Um dia será editado, corrigido, revisto, polido, limado e até, quem sabe?, pintado. Mas agora vai assim, tem urgência em sair, em fazer aquilo que fazem as palavras: exporem-se. E exporem-nos, de caminho. Como feridas a sangrar, fragilidades, pontos de ruptura ou de fricção com o mundo real. Pelo menos as palavras de um diarista. Mas aqui entre nós: qual é o escritor que não é diarista?

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Quarto de noite: três horas a olhar para o horizonte e para um ecrã cheio de números, alternadamente. Isto não significa que o ritmo seja rápido: um desses números é um relógio e toda a gente sabe quer o tempo é tímido. Não aguenta miradas frequentes ou insistentes. Se se olha demasiado para ele, pára congelado e não se mexe até o esquecermos.

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Está um tempo abominável. Parece que estou no norte da Europa. A diferença sendo que naquelas bandas chegaríamos a um café e ele estaria aquecido e aqui vai estar tão frio como no exterior. Enfim, na cidade estará de certeza mais quente. É o chamado aquecimento urbano, ou aquecimento bem educado. Daqui a três ou quatro horas terei rede GSM. Vou finalmente regressar ao outro mundo, o mundo secundário.

19.4.22

Diário de Bordos - Palma Mallorca, Baleares, Espanha, 19-04-2022

O dia cai. As luzes da noite misturam-se com as do dia; os sons de um e outra fazem o mesmo (um saxofone no canto do Bornéu mai-los autocarros, automóveis, motas e ruídos anexos). Já não é dia e ainda não é noite. A minha hora favorita. Dantes,   quando ainda bebia a bordo e se podia navegar em solitário, a esta hora sentava-me no poço, a olhar para ré, whisky na mão. Era a minha hora mágica. Hoje isso acabou - a bebida e a navegação sozinho - mas a hora continua a minha preferida. Mais do que o seu equivalente matinal  apesar de esse também ter os seus prazeres (por exemplo,  começar a descascar a última camada de roupa para a noite).

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Saio da Babel com dois livros. A minha admiração pelo J. cresceu mais uns pontos: estava com uma antologia do Goytisolo na mão - trinta euros - e ele insistiu para que levasse a Olvido García Valdés, dezasseis. Estou-lhe duplamente agradecido: pelos quatorze euros que me fez poupar e pela descoberta de uma poetisa extraordinária. Descoberta - choque, diria um francês (se falasse português). A senhora tem um vastíssimo de imagens e de referências e ao mesmo tempo tem uma poesia extraordinariamente profunda, como se lavrasse um campo enorme com um bisturi.

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Última ceia no Jaume. Nem vale a pena começar a descrever: o sublime dispensa comentários. 

Olvido García Valdés

Como se lavrasses um vasto campo com um bisturí.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-04-2022

Já fiz secretos em casa e até gostei. Hoje como-os no Cisco e penso a) não devia dizer que cozinhei secretos e b) menos ainda que gostei deles. 

Cisco tem uma loja no Mercat de l'Olivar. É uma loja grande, onde numa metade ele vende produtos e na outra serve-os feitos (as metades são desiguais). Os secretos (e muitos mais) fogem à regra do "só posso servir o que vendo". Não entro em pormenores. No Mediterrâneo estes são labirínticos e o risco de um homem se perder neles é grande, por muito prevenido que vá. Limito-me portanto a apreciar o vermut del grifo e o vinho tinto, respectivamente antes e durante os supra-mencionados secretos. Por mais que faça nunca hei-de compreender o Islão. (Tão pouco me dou ao trabalho.) Os judeus também não comem porco mas pelo menos bebem vinho e eu gosto deles. Não comem marisco. Não comem nada que venha do mar e não tenha escamas. Estou-me nas tintas. Os caprichos dos deuses não passam disso mesmo: caprichos. Só se lhes verga quem quer. Eu não quero: nem aos meus obedeço, quanto mais aos de um gajo que muito provavelmente nem existe, nunca existiu e não existirá tão cedo. Só não percebo é a mente tortuosa que inventou esses interditos todos. Mentes: foram muitas.
São três da tarde, o mercado já fechou, mas o Cisco diz-me que não há pressa. Termino tranquilamente o tinto de que me servi e penso que sou o ansioso mais estúpido do mundo. Ou o estúpido mais ansioso do mundo.


18.4.22

O nome do poço

O poço tinha um nome. Chamava-se tristeza. E um apelido, mas esse nunca lhe ocorria. Como o poço era profundo, chamava-lhe "tristeza sem fundo", apesar de saber que não era o nome verdadeiro, era só uma aproximação. Ou a manifestação de um desejo, vá lá saber-se.

Quase todos os dias o eléctrico

Vivia do lado de fora da vida, como aqueles miúdos que dantes se penduravam no exterior dos eléctricos, deles saltavam em andamento e empurrados pela inércia corriam, corriam. Corriam até pararem e o eléctrico continuava sem eles. Não os esperava.

Por vezes, à noite sozinho na cama, dizia-se "mas o wattman do eléctrico sou eu." Depois corrigia para "era eu", e corrigia, corrigia até acabar em "fui eu". "O condutor do eléctrico fui eu. Hoje conduzo a minha corrida ao lado dele e já é um pau por uma pedra."

Só acontecia quando estava sozinho na cama, mas como o estava quase sempre, acontecia quase todos os dias.

A estreia

Tinha tratado toda a sua vida como uma obra de arte. Enfim, uma não. A. Agora que a hora da estreia se aproximava assustava-se. Não sabia o que fazer: achava a obra tosca, incompleta, incompreensível, desorganizada. Quase um rascunho, no fundo. Porém, uma vez estreada não havia segunda chance. Uma das suas grandes fontes de angústia sendo que não tinha forma de saber quando seria a estreia - a menos que a convocasse ele mesmo, claro, hipótese que não punha de lado. O seu corpo fazia-lhe sinais incessantes, mas ele resistia. Nenhum lhe parecia suficientemente sincero para ser levado a sério. «Na melhor das hipóteses», pensava, «tenho vinte anos para acabar o trabalho. Mas desses, quantos terei de lucidez? E de força, já que esta faz parte da obra? Não sabia. Por enquanto, limitava-se a ignorar a questão. Deixava que a obra se fizesse a si própria, de certa maneira, limitando-se a dar um pequeno toque aqui e ali. Nada que a pusesse fundamentalmente em causa. «Uma obra de arte é o resultado de uma luta entre ela e o artista. Já lutei que chegue. Agora faço um intervalo e deixo a vida dirigir o trabalho. Depois logo se verá. A data da estreia ainda está longe.»

Fétido...

 ... eis o termo que busco há que tempos para definir o futuro.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16/18-04-2022

Estou cheio de fome. Um gelado não faz um almoço, mesmo que seja dos do Claudio, cujos competem com quaisquer uns do Universo e frequentemente ganham. Claudio é um apaixonado pelo que faz e cada vez que lá vou - em média, dia sim dia não - oiço uma prelecção sobre os seus últimos progressos. A de hoje foi sobre a decisão de trocar os chocolates banais que até agora usava por chocolates «de origem». Equador, Gana et alia. Deu-me a provar o do Equador, provavelmente o melhor gelado de chocolate que comi desde que como chocolates e gelados. Era tão bom que não resisti e fui ao Giovanni, umas dezenas de metros à frente, mergulhar o que restava da enorme bola num copo de rum. Foi isto o meu almoço, que faria as delícias de uma nutricionista (só conheço mulheres nesse digno mas infrutuoso trabalho) ou do médico que me receita medicamentos contra a diabetes.

(Nb: Claudio decidiu criar a sua própria marca. Tudo o que dizia Doce Freddo está a ser substituído por «Claudio». Não dou muitos anos para que a marca seja conhecida em todo o lado. Se não for, é porque Todo o lado está enganado. Acontece muitas vezes.)

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De maneira à noite cheguei ao Gustar cheio de fome, agradável novidade. Há muito tempo que não só não fico agoniado mal penso em comer, mas ainda tenho fome. É precisdo dizer que foi lautamente recompensada, se não em quantidade pelo menos em qualidade. Como sempre, claro, é inútil  acrescentar.

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Entre o chocolate do Equador e a espetadas de vitela encontrei-me com a P. Vinha a correr, como sempre: a senhora é antropóloga, tem um programa de rádio, escreve, pinta e faz música, para além de ser mãe dedicada e dedicada esposa de um farmacêutico que nunca aparece porque «somos muito diferentes», explica. «Mas agora já é tarde para mudar», acrescenta. (Na verdade vê-se perfeitamente que o ama, mas isso é história dela e dele, não me diz respeito). Conheci P. por intermédio de um passageiro da viagem Blablacar mais alucinante da minha vida, de Lisboa para Madrid. O homem era antropólogo, fotógrafo, cineasta, professor universitário. Não nos calámos um minuto durante as seis horas que a viagem durou, almoço incluído. Foi ele que me falou na P., que tinha sido sua aluna em Palma. Esta interessou-se pela minha estadia no Burundi e levou-me à rádio - creio que foi a minha estreia nesse medium - e daí ficámos amigos. Conheço-a pouco, mas aprecio-a bastante: é uma das excepções à regra de que os maiorquinois são feios, antipáticos e ignoram totalmente tudo o que não venha do seu círculo mais próximo. (Esta regra tem mais excepções do que confirmações. É daquelas que se desfaz mal se passa a barreira.)

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Enfim, tudo isto porque estava com fome. Há muito tempo que não sentia tal coisa e não sei se deva regozijar-me ou não - ainda tenho alguns quilos a perder.

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18-04-2022

O dia começa noutro dos meus refúgios: o café Mise en Place, na Plaça Mayor, que antes da pandemia era o meu escritório. A Daniela continua bonita, sorridente e eficaz, a decoração e o mobiliário agradáveis, a música boa. Durante os anos de loucura não podia tabalhar aqui - não queriam ter uma mesa ocupada duas ou três horas com dois cafés, por caros que estes sejam (são). Agora já posso ocupar de novo «a minha mesa», no canto da janela, com vista para a praça e para a bicicleta Órbita, que nem fechada está.

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Leio o jornal, exercício penoso pela mediocridade hodierna. Esta vertigem, esta voragem legislativa é aterradora. Pergunto-me onde parará. Ele é legislação contra a sazonalidade, a favor de folgas menstruais para as mulheres (a qual requer, precisa o jornalista, mais legislação para impedir que as mulheres sejam prejudicadas), mais investigação contra os preços excessivos nos apartamentos com limitações de rendas, mais legislação contra oa chiringuitos, com o pretexto de «poupar o ambiente»... É enjoativa, esta modernidade. Entretanto, a primeira página do Diário traz uma chamada para um artigo de duas páginas que devia fazer pensar sobre as consequências psicológicas da gestão da pandemia. 

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Ao chegar à praça vi os senegaleses todos a embrulharem precipitadamente as quincalharias que vendem: estava a chegar a polícia. É uma peça bem coreografada, faz-me pensar naquelas peças de marionetas em que entra o polícia pela esquerda, sai o malndro pela direita, sai o polícia, volta o outro e assim por diante. Vivem numa extorsão permanente, nas mãos vorazes, gananciosas e inumanas dos «importadores» das bugigangas, com mínimos de facturação, sempre a fugir da polícia. As independências africanas são uma das histórias de «sucesso» dos tempos modernos. 

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Note-se que sei muito bem que uma sociedade precisa de mitos e nada tenho contra eles, excepto o facto singelo de serem tão necessários. As boas vontades seriam muito mais eficazes se enfrentassem a realidade. Refugiando-se na mentira e na ilusão mais não fazem do que perpetuar a maldade e dificultar que se corrijam injustiças flagrantes e desumanidades inúteis. Os cavaleiros da bondade causam mais sofrimento do que aqueles que invectivam.

16.4.22

Lutar contra o emagrecimento

Estou cada vez mais magro, porque como cada cada vez menos. Contudo, luto arduamente contra o adelgamento de que toda a gente me fala: bebo o mesmo.

Memória, fotografia

Se a memória não interessa, para que serve a fotografia?

15.4.22

Vómitos

A minha peregrinação pelos amigos continua. Bar Rita - poucos apertos de mão me dão o prazer que o do Joan dá -, Toni na praça Santa Eulália - provavelmente uma das dez praças mais bonitas de Palma - e agora o Dani e o Luís da Cuadra del Maño. "Pensei que fosses tu, quando telefonaste", diz o Dani com um sorriso vasto como o Nilo. Digo-lhe que quero comer pouco. "Onde está o Luís que conheci?" "Isso pergunto-me eu, Dani". Luís, o assador, vem ver-me. Acordamos um bocadinho pequeno de picanha e uma batata ou duas. Lá fora continuam o rufar dos tambores e os desfiles de gente vestida das formas mais estranhas. De romanos a KKK já vi de tudo.

Onde está o Luís que detestava multidões, Dani? O Luís que comia carne como se não houvesse mais nada que comer para todo o sempre?

Engolido, meu caro. Digerido e não tarda vomitado.

Inundações

Palma está a abarrotar de gente e eu nunca pensei que gostaria tanto de ver esta cidade de novo inundada em multidões.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-04-2022

O quarto onde fico é «do outro lado das avenidas», aquilo que em Paris se chamaria extra-muros. A cidade muda por completo. Desapareceram as cabeleiras loiras e a mistura de línguas do centro, substituídas por cabelos pretos, espanhol ou maiorquino (uma variante do catalão, do qual não sei distingui-lo pelo menos ao ouvido). Há mais mulheres gordas, mais velhos e os bares e cafés não são gourmet, bio, fusion, green, vegan mais essa colecção de tonterias de que todas as modernidades são feitas. Tivemos azar com a nossa? Não sei. Talvez. 

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As dores desapareceram todas. Olho esquerdo, ombro direito, anca direita cederam à química (enfim, a da anca não cedeu a nada se não possivelmente ao cansaço. O melhor SNS do mundo marcou a consulta com uns largos meses de espera e a dor desvaneceu-se, não lhe apetecia esperar tanto tempo. Tanto melhor. Isto de me sentir uma farmácia ambulante não quadra bem comigo). A única que permanece é uma monstruosa e permanente dor de cabeça, mas esa com um Paracetamol também se desvanece. Basta não me esquecer deles em casa.

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Trabalho, trabalho e trabalho. Se um dia fizer a história da minha relação com o P. a história vai ser uma mistura de drama, tragédia, comédia, opereta, farsa, melodrama, stand-up comedy e por aí fora. Se vejo o pano cair sobre este refit... Não vale a pena sonhar. Nunca verei.

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Às vezes pergunto-me se estas dores e maleitas todas que arrasto comigo não serão pedidos do corpo para lhe pôr fim. Ou avisos de que o fim está próximo. Ou assim.

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Palma está cheia de gente, apesar do tempo. Ou melhor: por causa do tempo. Não está convidativo para a praia, de forma as ruas estão cheias a abarrotar. Pelo menos as do centro. Cada vez acredito menos no turismo como pretexto para a viagem. Lembro-me das filas para apanhar o 28 ou o elevador de Santa Justa em Lisboa e a descrença passa a incompreensão absoluta. 

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A fraude da «pandemia» não é uma fraude: é uma colecção delas que encaixam umas nas outras como matrioscas: abre-se uma e logo outra sai de lá de dentro. A última, a mais pequena(em tamanho), a que está lá no fundo é a do número de mortes. Quantas delas foram realmente devido à Covid? Mas em redor dessa toda uma série de mentiras se enrosca, até chegarmos à ultima, a casa delas todas: «por causa da pandemia...» A verdade é «por causa da gestão da pandemia...» Pergunto-me quanto tempo demorará até sabermos a verdade?

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Rendo-me sem condições à estética: as mulheres do centro são mais bonitas do que as dos bairros «de fora». 

Corpo, amor

A vontade de escrever impede-me de dormir e a vontade de dormir não me deixa escrever. No meio, feita fiel da balança, está a estúpida dor no olho esquerdo, que hoje estupidamente reacendi. É curioso: uma dor num olho incapacita o corpo todo, mais do que se fosse  um braço ou numa perna. Tudo tem um fim e este calvário tê-lo-á também. Só espero que venha em breve - um corpo que se faz sentir não merece respeito e muito menos amor.

14.4.22

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 14-04-2022

Regresso a Palma, a minha Palma, Palma dos meus dias, Palma à qual regresso feito filho pródigo. Selecciono os reencontros: Pepe, Aurélio, François, Jaume, Núria e Roberto, por ordem cronológica directa. Amanhã é sexta-feira santa e não haverá muitos mais, mas sábado outros se lhes seguirão. Os meus amigos de Palma são donos de cafés, bares e restaurantes, o que diz muito sobre o que me interessa na vida. (Também conheço livrarias e lojas de objectos bonitos, não vão os leitores pensar que só me interesso por vermutes e vinhos.)

Palma: a Núria tem a casa cheia e pede-me para me sentar à mesa de uns amigos dela (que não são donos de restaurantes, mas são chefs em iates. Um destes conta-me uma história magnífica: um amigo dele arranja um trabalho num iate nas Caraíbas. O processo de recrutamento é complicado, cheio de segredos e NDA (non-disclosure agreement, se por acaso). O homem é contratado, vai trabalhar e ao fim de um mês despede-se. O barco pertence a Nicolás Maduro e o chef tinha constantemente um guarda-costas atrás a ver o que punha na comida. Não é propriamente que isto me surpreenda. A minha surpresa vem mais da dimensão da credulidade de muita gente do que do facto de o herói da esquerda ser um corrupto. Há muitos, quase todos. A esquerda sempre atribuiu mais importância ao que se diz do que ao que se faz.

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Hoje é dia de procissão. Cruzo-me na rua com imensa gente vestida das mais estranhas formas, mas todas remetendo para fardamentos religiosos. Alguns fazem-me pensar em bruxas e penso que entre a bruxaria e a religião a diferença é pequena. Segundo um linguista alemão cujo nome esqueci, uma língua é um dialecto com uma armada e um exército. A diferença entre uma religião e uma seita, uma crença ou uma superstição é exactamente a mesma. Isto dito, prefiro o catolicismo ao voodoo ou ao islão, por exemplo. Talvez por familiaridade, não sei. 

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Este prazer infantil de ser recebido com alegria, abraços e grandes exclamações não tem comparação com nada, se não eventualmente o prazer de voltar ao mar para uma viagem longa. A diferença sendo que aí quem recebe sou eu e não ele a mim. Chegar aonde nos querem ou aonde queremos não é muito diferente, no fundo: para onde vai ou de onde vem o amor pouco importa, desde que faça parte da viagem, desde que esteja presente e inclua a mescla de sentimentos de que a viagem é composta.

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Apesar de conhecer esta cidade relativamente bem, continuo a perder-me em Palma. Creio - mas não tenho a certeza - que é uma das razões pelas quais gosto tanto de aqui estar: é melhor perdermo-nos num amor do que numa indiferença.

Em Palma, duas ruas que começam perto uma da outra e vão na mesma direcção não acabam perto uma da outra. Acabam a léguas uma da outra.

12.4.22

Diário de Bordos - Porto, Portugal, 11-04-22

Em condições normais não teria entrado no Thamel Restaurant & Cocktails nem com uma pistola encostada à têmpora. Não tarda o Porto estará como o resto do mundo ocidental cheio de bio, organic, gourmet, fine food, fusion e por aí fora. Não há razão nenhuma para acelerar o que já de si é inevitável. Mas hoje as condições não são normais (apesar de tão pouco serem raras, infelizmente) e tinha a pistola da fome e a metralhadora da falta de paciência apontadas uma à têmpora e a outra às pernas, de maneira entrei no supra-mencionado Thamel, atraído pelo preço dos mo-mo, cinco euros e - comprovei posteriormente - bastante bons. Claro que a conta final foi substancialmente superior, prova (como se fosse necessária) de que o melhor momento de um preconceito é quando morre e é substituído pelo seguinte.

Do Thamel vim ao bar Pipa Velha, onde amanho estas linhas. Não tem natas frescas. Já nenhum bar as tem, com a possível excepção do Procópio, que não é bem um bar propriamente dito, é a sala de espera para um dos paraísos ou um dos céus ou do que quiserem. De modo bebo um LBV, simultaneamente caro e barato para a função que lhe proponho: manter-me acordado o tempo de... Enfim, pouco importa. Duas coisas a reter: o restaurante Thamel (um dos seus cocktails é bom, apesar de se chamar Dancing Monk)... Não interessa. Ao meu lado estava uma senhora sozinha que lia o seu telefone enquanto comia. Trouxe-me à memória os tempos em que fazíamos a mesma coisa com jornais, livros ou revistas. Uma modernice que se queira imprescindível precisa apenas de prolongar o passado: fazer o que sempre se fez, de uma forma mais prática, mais leve

Uma das paredes do bar Pipa Velha está coberta de posters de espectáculos; a outra, em face, de retratos (medíocres) de artistas e actores famosos. O senhor que fez isto quer visivelmente garantir aos seus clientes que estão a caminho da intelectualidade, de se tornarem famosos. Estão no sítio certo para isso. Estão. Não sou famoso por coisa nenhuma, nunca o fui nem serei, não sou nem quero ser artista ou intelectual e apesar disso tudo sinto-me bem aqui. Gosto da música - rock - da decoração clássica (estou de costas para os retratos), meio pub inglês meio irlandês, das madeiras, do arco de pedra, de tudo incluindo ficar muito perto do hotel San Marino, a minha casa, refúgio, abrigo no Porto.

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Objecção à modernidade: a falta de natas. O Irish coffee saiu de moda. O único sítio onde se pode beber um decente é no já mencionado Procópio.

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«Modernices»... Que bizarra relação tenho com a modernidade, eu que sempre disse (às vezes ironicamente, verdade seja dita) il faut être moderne. Agora escolho as «modernices» como escolho as cerejas do prato que a dona da casa generosamente traz para a mesa. É mal-educado? Sem dúvida. Privilégios da idade.

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Sinto-me um funâmbulo com uma enorme vara num arame fininho por cima de um abismo. Para um lado, a solidão. Para o outro, a não-solidão. O referencial é sempre ela, a solidão. Presente ou ausente, é ela que dá nome ao abismo sobre o qual avanço, balanceio, me desequilibro e me equilibro. Instável o equilíbrio, lento o avanço. No fim do caminho ela ganhará. Ganha sempre.

8.4.22

Oxímoro lusitano

Português, burguês e livre? Há aqui um oxímoro, salta aos olhos. Português e burguês existe há para aí cem anos, mais coisa menos coisa. Burguês e livre? Desde que a burguesia foi inventada os há e houve. Português e livre é que não se vislumbra. Povo amarrado ao medo, ao respeitinho e à pobreza: tripla prisão da qual poucos - muito poucos - escaparam.

Apologia (tardia) da burguesia

A burguesia é simultaneamente o melhor e o pior que as sociedades humanas produziram até hoje. Só vive numa sociedade sem burguesia quem não pode fugir para as que a têm. E destas só os burgueses - ou quem o quer ser - foge para as outras.

No meio está a virtude? Bênção e maldição, simultaneamente. Blake dizia que a estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria. Só é verdade se se pensar que excesso e erro são sinónimos - são, para a burguesia. Entalada entre a aristocracia e a grei (deixemos clero e militares de lado), a burguesia oscila permanentemente entre o desejo e o risco do excesso - que é a marca das sociedades sem burgueses. 

A burguesia não é o cemitério de ideias, paixões e cautelas que imaginam artistas, intelectuais (que de resto nela nasceram) e aristocratas (ou aquilo que hoje os substitui). Ou melhor: é isso mas não é só isso. Um burguês é a mistura de um aristocrata capado e de um homem do povo que aprendeu a ler, escrever e comer de garfo e faça. É desse encontro de poder cerceado e educado que nasce a civilização.

Civilização essa que permite excessos - e os transforma em virtudes.

6.4.22

Chave, mundos

Como a chave busca uma fechadura ele buscava um mundo no qual encaixasse. Um mundo ajustado, à medida, sem folgas. Gastou nisso uma vida, vida e meia.

Preguiçosamente, é preciso dizê-lo. Vagarosamente. A solução simples seria adaptar-se ele aos diferentes mundos que visitava. Porém, repugnava-lhe a ideia de alterar um simples ângulo que fosse do seu perfil. O mundo onde naquele momento se encontrava que encaixasse nele, se quisesse. Nada o impedia - excepto, ocorria-lhe de vez em quando, a sua (dele) pouca vontade de receber fosse quem fosse.

Mamo-realismo

Mais vale um par de mamas pequenas à mão do que um delas grandes à vista.

Portugalidades

O restaurante onde vou frequentemente almoçar é pequeno, bom e barato. Mesmo à frente tem dois lugares de estacionamento daqueles com restrições, creio que para aleijadinhos ou para descargas, algo assim. A clientela é sempre a mesma e inclui uma equipa da EMEL, que lá vai almoçar quase todos os dias, como nós. Quando acabam de comer e retomam o trabalho têm o cuidado de perguntar se algum dos outros clientes tem o carro estacionado nesses lugares. 

27.3.22

Luz, pó, vida, sombra. Rocha

Trata-se da luz e dos seus mistérios. O maior dos quais é a sombra, sem sombra de dúvida. Trata-se da luz que alternadamente cega e ilumina, dá a ver e ofusca. Trata-se da vida, a que te leva à morte e dela te arranca. És pó... Desse pó, antes de a ele voltares, farás rochas, obras, pontes, portas, muralhas. Desse pó far-te-ás homem, farás homens, dar-lhes-ás luz, iluminar-te-ás, iluminarás. Desse pó, dessa luz. Dessa vida, dessa sombra, inextricavelmente unidos. Como a dupla hélice que recebeste e deste em herança por essa janela a que chamaste - ou outros chamaram - vida. És pó e ao pó voltarás. Desse pó fizeste uma vida. Dessa luz, dessa sombra.

Dessa rocha.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 27-03-2022

Tradicional passeio dominical pelo campo. A luz esbranquiçada faz-me pensar em leite diluído, metade leite metade água. Neste país, o silêncio campestre é substituído pela ordem. Tudo é ordenado, mesmo o campo. 

É agradável no início. Depois cansa, torna-se rebarbativo. "É bom chegar a Genebra, mas ao fim de três semanas..." Passe a auto-citação: desta vez não fico cá três semanas e o único peso que levo é o da ausência dos que me são queridos, agora acrescido de um neto.

Entro hesitante nesta nova idade. Ser avô é como entrar numa nova idade adulta, não é? M. R. dizia que é como ser pai sem as responsabilidades de o ser. Mas ele sempre esteve perto dos netos. Eu não. A nossa comunicação vai ser assimétrica: posso ver-lhe as fotografias, mas ele não pode ver as minhas. E se pudesse nada lhe diriam, claro.

Outro clássico: a fondue de queijo, à qual só veio o T. Não estava grande coisa - o queijo e o pão vinham da Migros - mas tanto ele como a S. gostaram ou disseram que gostaram. Eu gosto sempre: estas tradições são como os ferros de um navio que o mantêm fundeado numa tempestade (para além da beleza do sítio onde hoje fomos passear, a S., eu e a cadela, que agora corre menos mas continua a apreciar os passeios).

Hoje percebi que a minha vida nunca será o grande rio tranquilo com o qual sonho há décadas. Quando muito, será as suas duas margens, divididas - ou unidas? - por um traço de união. Múltiplos traços de união. Múltiplos rios, uns mais tranquilos que os outros. Vogo no meio desses rios, por vezes tocando uma ou outra margem, só a maior parte do tempo. O tronco no qual me penduro vai-se degradando, pouco a pouco mas inexoravelmente. Cada vez depende mais de remédios, pílulas, injecções, operações. 

Tudo bem, enquanto o puder pilotar. Quando for ele a tomar o leme, a viagem acaba. Estes rios têm essa magnífica vantagem: a foz é móvel. É o rio que define onde acaba. Desaguam onde e quando querem desaguar. Só quero é ser pai irresponsável mais um bocadinho. E partilhar meia dúzia de fondues de queijo.

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E entrar em supermercados sem máscara, claro. (Em Genebra, as máscaras só são obrigatórias nos transportes públicos e nos estabelecimentos ligados à saúde. A irracionalidade é geral. Em Portugal limitamo-nos a prolongá-la no tempo e na abrangência.)

23.3.22

Frutas, vinhos

"Aroma profundo e muito completo onde realçam ameixas pretas, morangos maduros e cassis numa envolvência de grafite e especiarias." Hoje para ser enólogo há que tirar um curso de frutaria.

22.3.22

Praxes, civilização e incapacidade

Há dias ia a passar num parque da cidade e vi vários grupos envolvidos em praxes. Num dos grupos, uma rapariga soltava impropérios, insultos, palavrões no meio das ordens aos praxados. A praxe é uma das provas de que o valor da educação para a construção de uma sociedade melhor está infinitamente sobrevalorizado. Isto dito, continuo sem preceber como há alunos que se sujeitam àquilo, mas isso deve ser incapacidade minha.

19.3.22

Palavras, deserto

Sem palavras o mundo é um deserto sem oásis. 

16.3.22

Esperas injustas (isto está tudo ligado)

Que espécie de homem é capaz de fazer esperar uma senhora sozinha à mesa do restaurante, tanto tempo? Tão bonita? 

Adenda: um homem feio e que ainda por cima deixa a senhora servir-se de vinho. Não há coincidências. Isto está tudo ligado.

Diário de Bordos - Lisboa, 16-03-2022

O DV tem andado MM: meio morto. Ou MMQV. Mortiço. Os tempos não estão para escritas. Não estão para nada, de resto. Deixámos de depender da Câmara Municipal de Oeiras para depender de uma pessoa, a travessia parece estar a ser gerida por um bando de amadores («parece» é generosidade), o raio do Putin continua a não perceber que já perdeu a guerra - é típico dos ditadores: só percebem as coisas quando lhas explicam com uma arma apontada à cabeça. Boa notícia só há uma: sou avô de um neto que ainda agora acabou de nascer e já tem ar de ser um puto porreiro. Que chova em breve, para poder ir confirmar de visu. Uma vida sem novidades é como uma vida sem qualidades. Esperar é asfixiante.

Ou pelo menos esperar sem prazo. Quando tenho que esperar pela maré não me chateio nada: sei a que horas terminará a espera. Quando espero pelo vento tão pouco me exaspero. Na verdade, talvez não seja a espera que me põe neste estado de quase catatonia. É esta sensação de impotência, de dependência da palavra ou falta dela, da competência ou falta dela, da integridade ou falta dela de terceiros.

E há outra boa notícia: estou de novo na locomotiva de uma ideia que espero se venha a confirmar (passe a redundância. Se não esperasse não estaria sequer no comboio). Energia anímica. Ainda não estou morto. Estou meio-vivo, só. Espero que a ressurreição seja completa e não se fique pela metade que falta. 

11.3.22

Obrigado pelo conselho.

Uma das razões  - está longe de ser a única  - pelas quais detesto que me digam o que devo fazer: eu próprio, que me conheço há sessenta anos como se me tivesse feito, não sei.

10.3.22

Herberto, Leonard e eu

Talvez no fundo a luta pela civilização seja a luta contra o maniqueísmo. E contra a esperança no homem. "Nada esperar, não desesperar de nada", como creio que disse Herberto.

Mas isso só é dado aos marinheiros. "All men will be sailors then

Until the sea shall free them."

8.3.22

Verdades de base há dois mil e quinhentos anos

"O Mestre disse: "Quando toda a gente detesta um homem, é caso para nos interrogarmos. Quando toda a gente adora um homem, é caso para nos interrogarmos.""

"O Mestre disse: "As palavras servem apenas para comunicar."

Confúcio, in Analectos, ed. Biblioteca Editores Independentes.

6.3.22

"Oiça um bom conselho...

Conselho às senhoras que esperam pelo príncipe encantado: arranjem um desencantado.

São igualmente difíceis, mas muito mais interessantes.

Ventos, panos e outras coisas

Quando o vento está muito variável em força, com rajadas fortes num regime de vento fraco geral, o marinheiro prudente sabe que deve ajustar os panos para o vento fraco. Pode sempre folgar-se nas rajadas com pano a mais mas não se pode manter o controle do bote no vento fraco com pano a menos.

Isto pode servir de analogia para uma série enorme de situações, não pode? Pode.

4.3.22

Censura, espaços públicos

Reclamação contra o zeit: já não se pode entrar num café para folhear (ou acariciar, se preferirem) o livro que acabou de se comprar. 

Se fosse a favor da censura: abaixo a televisão nos espaços públicos. A televisão é para se ver em casa, quando se quer ser intoxicado e se prefere imagens a vinho, tabaco ou outras substâncias.

Waffen-depressão

A depressão é um nazismo e a ansiedade as suas Waffen-SS.

O lúmpen e a dialéctica

Continuo sem perceber por que raio de carga de água há neo-nazis mas não há neo-comunistas. Será que a dialéctica de Hegel deixou de funcionar e se ficaram pela síntese? Fim das teses e das antíteses? O comunismo não vai mais mudar?

De certa forma compreende-se. Aquilo é a perfeição ao alcance do lúmpen. Acabado este, aquela fixa-se como uma estátua grega:  cheia de mossas e metade quebrada, mas suficiente para imaginar como era.



Geopolítica à hora do almoço

Posso estar muito enganado  - estou muitas vezes - mas tenho a impressão de que desta vez o Putin teve mais olhos do que barriga. Talvez consiga comer o prato até ao fim, mas depois vai desta para melhor com uma indigestão. 

28.2.22

Virtude, Confúncio

"O Mestre disse: Os profissionais da virtude são ruína da virtude."

Confúcio, in Analectos, ed. Biblioteca editores Independentes

23.2.22

Viver, estar vivo

Viver não é estar vivo. A modernidade não só confunde os dois estados como privilegia o segundo em desfavor do primeiro.

Para nos manter vivos impede-nos de viver, apoiada na "ciência". Ou melhor, naquilo que hoje passa por tal: o fascínio em vez do cepticismo, a crença em vez da dúvida, o pensamento mágico em vez da Razão. "Não matarás" tornou-se "viverás", curiosa inversão semântica e civilizacional.

Nova Idade Média

Céptico e negacionista tornaram-se sinónimos. Vivemos de novo uma época de dogmas. Pergunto-me se os historiadores do futuro lhe chamarão «A nova Idade Média», como o «novo Coronavírus».

20.2.22

Medo, razão

O pior inimigo da razão não é a estupidez. É o medo, que anestesia a inteligência.

17.2.22

Desilusão e a sua ausência

O excesso de tolerância,  de compreensão,  de aceitação do outro nasce da simples ausência de esperança, de ilusões. Nada esperar seja de quem for é condição sine qua non para para não ser desiludido.

16.2.22

Basta

Chega a noite e tu maldize-la: "porque não entras de vez, para ficar e não mais partires?" 

- Noite entrecortada por finos lençóis de luz não é noite. Não passa de uma breve (talvez profunda, mas breve) ilusão de óptica. Tudo o que não vês à tua frente está lá e espera-te. O caminho é fácil. Basta seres tu (tom e sorriso escarninhos).

Retribuição

Enrodilhado na luz que te chega das trevas. Ou seja: não há trevas tão negras que não tenham uma ponta de luz. Ou seja: és um resistente. Não há negrume que te impeça de ver a luz, por ténue que seja. Um lençol  fino, leve, debaixo do qual te proteges, como se em redor nada existisse.

Nada existe senão essa estreita faixa da luz que te protege, que tu proteges.

14.2.22

O eterno, indestrutível talvez

É preciso começar por dizer a verdade: não conheço muitas abadias, nem muitos coros de monges e de ordens sei aquilo que me ficou de algumas leituras há meia dezena de decénios.

O mesmo se passa com a música e talvez por isso me fixe a duas ou três coisas, dois ou três refúgios. Apresso-me a esclarecer que a atitude é a mesma em tudo  ou quase tudo, desde o rum às mulheres, da poesia ao vinho, das bicicletas às cidades, da literatura ao café. 

(Não tem nada a ver com a falta de curiosidade. Isso fica para outro dia.)

É verdade: agarro-me ao que conheço, ao que me recebe de braços apertados, ao que sabe fazer perdurar o meu amor mesmo depois de ele se sedimentar em memória.

Por isso amo ainda algumas mulheres cujo nome mal recordo, por isso sou fiel ao rum Mount Gay ou ao El Dorado 15 anos (entre outros), por isso continuo a pensar que Beckett, Borges, Yourcenar, Garcia Márquez formam um quadrado quase impenetrável. E por isso revisito regularmente os cantos da liturgia eslava pelos monges de Chevretogne, as Vésperas de Rachamaninov por Paul Hilliez ou a música sagrada (e sacra, claro) de Hildegarde Von Bingen.

Hoje calhou escolher os monges de Chevretogne. Acredito que haja melhor ou pelo menos tão bom  outros coros, noutras abadias. Não duvido disso nem um segundo.

Duvido é que valha a pena perder muitos segundos a procurar. É como pensar que há uma mulher melhor do que aquela que nos ama e nós amamos. Talvez haja, mas esse talvez é daqueles que não merece, não precisa, não deve ser destruído. 

Deve ser um talvez eterno.

11.2.22

Náufrago, feto, carcaça

Agarro-me como um feto náufrago a um bocado de madeira na certeza de que a carcaça vai encontrar nestas mãos nestes ombros nestas pernas encolhidas até à espinha os recursos de que precisa para respirar.

Abençoado feto, abençoado náufrago.

Deus, música

Quando é que a música descobriu Deus? A hipótese oposta é irrealista: não foi Deus quem descobriu a música. Ter-se-ão descoberto mútua e simultaneamente? Como fizeram para que a sua relação fosse tão longa, tão profunda e tão profícua?

1.2.22

Descrição

À me faire bouffer le bide par des vers de terre.

29.1.22

A propósito de milagres

 https://www.youtube.com/watch?v=ToQQorOYDy4

A propósito de vírgulas

Para Fowler, a pontuação era um problema moral: «Any one who finds himself putting down several commas close to one another should reflect that he is making himself disagreeable, and question his conscience, as severely as we ought to do about disagreeable conduct in real life, whether it is necessary.»

(Rogério Casanova, no blog Pastoral Portuguesa, post Uma semicolonoscopia ao Orlando, 05-02-2008.)

24.1.22

Pergunta

Resumindo, aquilo que os cépticos dizem é:

  • Este vírus é menos letal do que a narrativa oficial propõe: a esmagadora maioria da população não é contagiada, a esmagadora maioria dos contagiados não precisa de ir para o hospital, a esmagadora maioria dos que vão para o hospital não vai para as UCI e a esmagadora maioria dos que vão para os cuidados intensivos não morre. Não tenho os números todos da cascata, mas em Portugal morreram 19 661 pessoas com Covid (cf. infra). Isto representa 0,2% da população e 0,87% dos infectados;
  • Os testes PCR, base de cálculo para o número de casos, podem ter uma alta taxa de falsos positivos. Os falsos positivos podem oscilar entre 30 e 90%, consoante a prevalência dos contágios no grupo testado. Isto aplica-se igualmente aos testes post-mortem;
  • A maioria das mortes Covid são mortes com Covid e não de Covid. Segundo alguns estudos, só cerca de 5% dos óbitos em Nova Iorque e na Itália foram de pessoas que não tinham mais nada senão a Covid. O secretário de Estado inglês disse recentemente que 40% das pessoas admitidas ao hospital e contabilizadas como Covid tinham dado entrada por outras causas que não o vírus;
  • Esta crise foi desencadeada por uma necessidade de manifestação de autoridade do poder central na China e os governos ocidentais - induzidos pelo frenesim mediático - copiaram os métodos chineses;
  • As vacinas não estão a corresponder ao prometido. O que era «95% eficaz» já vai na quarta dose;
  • A gestão desta pandemia, tal como está a ser feita, tem consequências graves tanto sociais, económicas e sanitárias que não têm sido devidamente tomadas em conta. A vida das pessoas que morreram ou sofrem devido à gestão da crise vale tanto como as das outras;
  • O diálogo sobre a Covid tomou um cariz religioso e abandonou há muito o campo da razão.
Confesso que me custa a perceber de onde vem o opróbio lançado sobre as pessoas que defendem isto.

23.1.22

No pasa nada

Mais uma vez impedido pelo Facebook de postar ou comentar. Agora foi porque postei uma proposta do Parlamento Europeu. Leram bem: uma proposta do parlamento europeu. A opinião de um membro do parlamento europeu vai contra os «padrões da comunidade».

Adenda: depois percebi porquê. Aparentemente, muitos membros da «comunidade» não sabem distinguir entre uma proposta e uma resolução. Vai daí, o FB decide que somos todos iliteratos.

O ESTADO DAS COISAS E OS AMANHÃS QUE CANTAM

Este texto começou por ser um pedido de desculpa ao Arnaldo Rivotti e aos leitores do Luso Magiar News pela minha prolongada e não anunciada ausência. Como sempre, evoluiu, tornou-se um rio com afluentes, desaguou noutra coisa. Mas a raiz manteve-se: é um pedido de desculpa.

Temos andado relapsos, a escrita e eu. Cada vez admiro mais aqueles escritores que escrevem quaisquer que sejam as circunstâncias, estejam a morrer de fome, de frio, atacados pela doença ou pelas infelicidades pessoais. Eu preciso de muito menos do que isso para ficar completamente paralisado, sinapses congeladas, neurónios a ferros.

Não é que as ideias tenham deixado de afluir, que a vontade de escrever me tenha abandonado. Não, nada disso. É muito mais simples: a comunicação entre o meu cérebro – ou aquilo que em mim faz de cérebro – e os meus dedos está interrompida. A ponte que os uniu ruiu, caiu, desmantelou-se, foi-se a martelo.

E tanto que há sobre o que falar: acabar a história da Casa, que me povoa muito mais do que eu a povoo; as eleições, pelas quais finalmente me interesso – estou num dilema e não sou homem de dilemas, gosto de caminhos direitos (sim, apesar de todas as bifurcações da minha vida); o maldito vírus, que não há maneira de deixar a cabeça de quem nos governa; o frio, o café onde venho escrever, os livros que tenho ainda por arrumar, a minha bicicleta... Enfim, exagero. Estou a esticar a corda para ver se no fim o balde traz alguma coisa de jeito. Não traz. Para além da Casa nada me entusiasma e esta não chega para pôr os dedos a funcionar coisa que se veja.

Lembro-me de uma passagem do Zen e da Arte da Manutenção de Motocicletas, livro de vida, livro semente, basilar, no qual a personagem, professor universitário, sugere a um aluno que não sabe o que há-de escrever que descreva a parede, tijolo a tijolo. Devia seguir-lhe o conselho, talvez: a parede tem centenas de tijolos à vista, irregulares, unidos por grossas camadas de cimento. Contudo, este tijolo tem um nome: tijolo-cego, ou burro, ou coisa que o valha e chegado aqui tenho de parar. Isto não é uma autobiografia.

Armando voltou a chamar-se António, nome com que nasceu, por imposição de Vanda (?), a senhora que o acolhia quotidianamente na tasca da aldeia para onde se mudou para morrer. Fiz-lhe a vontade e morri-o. A história passou para a tal senhora, que começou logo por me fazer exigências: não gosta do nome de Armando, gosta mais de António que é, diz ela, «nome de santo e de vagabundo». António é um e outro, verdade seja dita: passou a vida a tentar ser um gajo decente e aparentemente conseguiu-o. Claro que entre «decente» e «santo» há uma longa estrada, mas nada que a literatura não consiga percorrer. Faz o que quer, a literatura, leva-nos por caminhos de cabras, por carreiros, atalhos, auto-estradas, sobe escadas e desce a abismos. António não é santo nenhum, excepto aos olhos de Vanda (?). Talvez esta confunda paciência e santidade; ou sabedoria e santidade; ou, mais prosaica e provavelmente, desinteresse e santidade. O conto já tem destinatária – a alegria. Devo ser o triste menos triste do mundo, de tal maneira a alegria me atrai.

Entretanto o país arrasta-se, falido e enregelado, «infectado» e desesperado, para eleições cuja única dúvida é: o Costa vai-se mesmo embora? Jura! De vez? Promete! Não sei o que virá a seguir. Os «insiders» dizem que Costa vai ser substituído pela Mendes, que não sei o que vale. Pouco, provavelmente. Parece que também oficia na TV, o grande ascensor político deste país, função esta que rivaliza – e quantas vezes acumula – com a Câmara Municipal de Lisboa. Como não vejo televisão e de Lisboa só vejo o lixo e a sujidade nas ruas não estou muito a par. Vou votar dia 30 indeciso entre o voto contra a Covid ou o voto no longo prazo. A IL, embrenhada em politiquices? Pois. Não se pode estar no caldeirão e fora dele e a verdade é que do caldo é o único ingrediente que se aproveita. Mas é preciso sinalizar ao governo que o vírus não é desculpa para tudo, não é? Não sei. Isto não é fórmula: não sei mesmo e acho que não saberei até ter o papel à frente e a caneta na mão. Vou votar ao fim do dia, disso estou mais ou menos seguro: o governo quer reservar esse período aos «positivos» e podem acusar-me de tudo menos de ser negativo. [Nota: afinal já não quer. É só «recomendação». Ainda bem.]

Entretanto os «projectos» lá vão andando, a pé coxinho como tudo em Portugal. Pelo menos para quem não é da família. Moura, Mértola, a tradução do Avenida (essa não tem nada a ver com a família, verdade seja dita. Tem a ver com a chuva. Está a ficar fantástica, muito para cima do que eu esperava). «Projectos» leva aspas, claro: é palavra que já não posso ver à frente. Faço minha a expressão de absoluto desprezo e descrédito da advogada a quem o mencionei, há uns largos anos. Nunca me esquecerei do tom com que ela repetiu «Projecto? Projecto?» como se fosse acha ardente tirada da lareira, ou máscara suja apanhada na rua. O projecto «casa» (habitação, não o texto) também vai avançando no habitual pára-arranca. Como a tradução, depende da chuva e de momento esta anda escassa. Tudo comigo nasce a ferros, talvez para me lembrar de que também eu saí assim, já lá vão sessenta e quatro anos. O problema é que daquela vez foi um médico e agora sou eu quem manipula o instrumento e cada vez necessito de mais força, mais energia, mais vida, mais tudo e cada vez mais tudo isso me foge. Estou todo podre por dentro, essa é que é essa. E se até há pouco tempo a podridão era só da cabeça para baixo, agora está em todo o lado. Alzheimer da alma. Vá lá que ao menos tenho esta vista linda, estas cores às quais o fim da tarde dá a vida que me tira a mim. Vai tirando, pouco a pouco. Não sei é se é a luz. Talvez seja o tempo. E talvez não seja só a mim.

A ver vamos, como diz o ceguinho (à mulher, que é surda).

E depois, que dizer deste clima de suspeita, de destruição do tecido social, de ataque à liberdade, fraudulento, absurdo, absolutamente deletério no qual mergulhámos – ou antes, nos mergulharam – há dois anos e do qual não se vê o fim? Ver vê-se, mas tão longe. A cabeça da maioria das pessoas continua cheia de merda, não há outro termo; vazia de razão. Sinto-me como o único gajo são do manicómio, mesmo sabendo que somos muitos – e somos cada vez mais. Talvez daqui venha alguma esperança, talvez daqui venha o rio que vai alagar o resto todo. Não seria senão justiça, já que foi ele quem inundou isto tudo com o cheiro pútrido da loucura. Está na hora de recolher ao esgoto de onde nunca devia ter saído. A facilidade com que as pessoas trocaram a liberdade pela segurança é assustadora (e ainda mais se nos lembrarmos de que «segurança» é um exagero grosseiro). A facilidade com que se deixam enganar também: estamos muito mais à mercê do que sempre pensei.

É isto: tempos sombrios por dentro e por fora, como se persianas filtrassem a luz que chega, já de si pouca. Resta-me um consolo: as persianas abrir-se-ão e a claridade aumentará. Para alguma coisa serve ser optimista, não? E ter uma flor na lapela da vida.

Lisboa, 22-01-2022

É fartar, vilanagem

A noite apaga-se. O dia foi rico: pela primeira vez, participei numa manifestação. Só há dois temas que me mobilizam: a «pandemia» (aspas porque cito) e o AO90. Tudo o resto é amendoim a macacos no zoo. Em seguida fui jantar à Casa da Índia com a T. e o J., casal de que tanto aprecio tudo e depois conheci a F. S. N. Continuo a não escrever coisa que se veja, a não ler uma linha, mas pelo menos parece estar a aproximar-se o fim desta estação glacial: já sou capaz de falar sobre ela. Isto é, sobre a estadia no fundo do poço. Ainda vivo no meio de sacos e no meio de um deserto onde a chuva se faz esperar mais do que razoavelmente, no meio de uma maré mais seca do que vazia, Continua tudo na mesma e tudo mudou, porque mudou a luz que ilumina o tudo na mesma. Vemos o que somos, vemos o como estamos. O orgão da visão é o cérebro (ou o coração, diria a F.)

Sempre foi assim: o cansaço é o melhor anti-coiso. Um gajo fartar-se do poço vale mil pílulas, tal como um olhar vale mil olhos, uma cabeça mil corpos e um dia mil dias.

20.1.22

Turíbulos, estrelas e tambores

No dia trinta deste mês os confinados vão poder votar. Isto é claramente uma ameaça para a saúde pública. Venho aqui - cumprindo um dever de cidadania - propor às doutoras Graça e Marta que os obriguem a ir precedidos de uma pessoa para aspergir as imediações com água benta e sucedidos por uma outra (pessoa) munida de um turíbulo cheio de incenso especial. Devem também ser obrigados a usar uma estrela amarela ao peito. Pergunto-me se dois tambores, um de cada lado, não seriam um acrescento útil.

Os confinamentos têm sido um êxito espectacular: os «casos» caem a pique, a saúde mental - já de si um dos pontos fortes dos portugueses - melhorou a olhos vistos (e ouvidos ouvidos), a economia beneficiou  inequivocamente das economias forçadas. É incompreensível que deixem aquela gente ir votar sem que os restantes, os sãos, os normais não saibam quem têm por perto.

Só tenho uma dúvida: como é que gente mortalmente doente vai poder deslocar-se até às urnas?

Instantâneos, dias

Oiço a senhora da mesa do  lado queixar-se. Tem saudades - mais do que isso, necessidade - diz, de encontrar-se com gente, sair, falar, etc.

Levanto-me e vejo-os, ela e o interlocutor, de máscara até às orelhas. Ele tem um livro à frente: Prática e Contradição, de Mao Tse Tung.

........
O senhor sai do restaurante onde almoço todos os dias (e ele também). É alto, grande, preto até à medula, trabalhador da construção (provavelmente pintor, a julgar pela roupa). Cumprimento-o e ele entabula conversa. "Está frio", diz. Corroboro, ele explica-me que só se apercebem disso quando descem porque estão a trabalhar num andar.

Respondo que mais um mês e isto passa:
- Portugal tem o Inverno curto.
- É verdade. Portugal é o país mais fofo da Europa.

19.1.22

Ateísmo, esforço

No fundo, uma das coisas que esta pandemia veio provar é que a religião é muito menos estranha ao cérebro humano do que a ciência. Esta é construção, adição, acrescento, obra, trabalho, esforço. Aquela é natural, inata, intrínseca.

É por isso que há tão poucos ateus - exige muito esforço.

Terras do Demo

- Fragilidades do ateísmo: como é possível viver sem acreditar no Diabo?

- Povo e diabo só partilham a designação, ou têm algo mais em comum?

16.1.22

Chamuças

Abençoadas mudanças!

Recheio:

1/2 kg de carneiro ou galinha;
2 cebolas médias picadas;
1/2 colher de chá de gengibre;
1/2 colher de chá de canela;
1/2 colher de chá de caril;
1 molho pequeno de coentros frescos picados;
1 molho pequeno de cebolinho picado;
2 colheres de sopa de hortelã picada;^

Fritar a carne picada, juntando sal, gengibre, alho e malaguetas. Quando estiver seca, juntar a cebola e o caril e fritar até voltar a secar. Juntar um pouco de manteiga. A carne deve ficar solta. Juntar as verduras e misturar bem.

Massa:

Sal, manteiga derretida, farinha q.b.;
1 colher de chá de levedura;
1/2 chávena de leite;
1 chávena de água.

Ferver o leite e a água numa panela grande, juntar o sal, a levedura e a manteiga, fazer uma massa para o rijo.

3.1.22

Espelho

Quando se vê a forma como conseguiram condicionar o comportamento de homens, percebe-se o fascínio pelos espectáculos de orcas em oceanários. 

Ninguém resiste a um bom espelho.

Apologia do optimismo

Por detrás de um grande histérico esconde-se quase sempre um ser racional.

1.1.22

A menos que

A ideia começa numa grande planície branca na qual escorregam pessoas das mais variadas formas: patins de gelo, trenós, skis. Escorregar é  bom, melhor do que a imagem habitual que disso se tem: "escorregou e caiu", "a partir daí foi sempre a escorregar para baixo". Et coetera.

Nada disso. Acordem. Não há ideia nenhuma, nem planície branca, nem patinadores. Não há sequer horizontais nem verticais. Não há nada senão branco, queda e sono, muito sono, o que te acompanha durante esse longo escorrega para o azul do Índico - do qual não pensas emergir, nunca mais.

A menos que seja para ires ao mar das Caraíbas. A menos que. 

Do ano novo ao Índico, passando por considerações menos interessantes

Verdade seja dita, todos os dias são de Ano Novo, a cada um começa um, tão novo como o que acaba, todos os dias. A gente olhamos para trás  e a gente pensamos na sorte que recebemos das mãos de nosso senhor Jesus Cristo e companhia (são três) e logo a seguir a gente pensamos um monte de coisas que não interessam nem ao menino Jesus, entre as quais se devemos trocar aquelas primeiras pessoas do plural por outras, mais singelas e com o raciocínio apoiado num LBV de 2014 a gente diz: que porra de gente és tu? Que porra de gente sois vós?, que para falar usais os tempos verbais errados e para passar o ano pensais em calendários, em anos idos, em punhetas a grilos, em anos novos a cheirar a cueiros?

Interessante seria termos um ano novo a cheirar a Tanzânia, damas postas a um canto a fazer tricô,  o Índico ali à porta, o cheiro das especiarias a espelhar-se no cheiro da pele, na cor dos olhos, o Índico,  meu Deus, o Índico.  

Um gajo encontra uma rapariga bonita e pergunta-lhe: "qual o teu oceano favorito?" É só a partir daí se pode julgar o ano. E a pequena,  mas isso fica para depois.

Ano bala

Os anos começam todos como o comboio-bala dos japoneses. Alguns descarrilam logo a seguir, alguns levam mais tempo, outros não descarrilam de todo e levam-nos aonde queríamos ir logo no início da viagem. 

Que 2022 seja uma dessas balas directas ao destino para todos nós.

29.12.21

Receita - Gratin dauphinois

La recette pour 8 personnes 

Peler et laver 2 kg de pommes de terre à chair ferme. Les sécher dans un torchon. Les émincer finement à l’aide d’une mandoline et les sécher de nouveau dans le torchon, sans les rincer. 

Frotter l’intérieur d’un grand plat à gratin avec une gousse d’ail pelée. Beurrer généreusement le fond et les bords. Ranger les pommes de terre par couches successives, en assaisonnant chaque couche avec un peu de sel et de poivre noir (pas trop car le goût va ressortir en cuisant), et en ajoutant éventuellement une petite râpée de noix muscade. 

Verser environ 1 litre de crème liquide entière (ou 60 cl de crème fraîche épaisse mélangés avec 40 cl de lait entier). Veiller à ce que le liquide entre bien dans les interstices et arrive à la hauteur des pommes de terre, sans toutefois les noyer. Parsemer de petits morceaux de beurre.

Enfourner à 150 °C pour environ 1 h 30, en vérifiant régulièrement que le dessus ne brûle pas. Les pommes de terre doivent avoir « bu » le liquide et être bien tendres. Si le dessus n’est pas doré au terme de la cuisson, passer le gratin rapidement sous le gril.

Notas: Hora e meia / duas horas.

 

O circo desceu à cidade

O circo chegou à cidade e não há maneira de se ir embora. Começou na China faz agora dois anos. Uma província rebelde, um governo central a querer mostrar quem corta o bacalhau, uma imprensa às ordens. Este foi o ponto de partida da caravana. Dali, foi para Itália. A imprensa chinesa foi substituída pelos media ocidentais. Já não por dependência dos governos mas por simples e banais questões de tesouraria os jornalistas pegaram naquilo e usaram o arsenal todo: mentiras, omissões, exageros, distorções, fotografias falsas. Nada de novo, excepto que desta vez usaram o arsenal inteiro ao mesmo tempo. Não ficou uma arma, uma que fosse, em armazém. O pânico - o maior auxiliar de finanças da imprensa desde sempre (afinal, foi para noticiar invasões, inundações e outras desgraças que os jornais nasceram) instalou-se e propagou-se como chamas em pradaria seca. Instados a escolher entre meia dúzia de especialistas que diziam que as coisas não eram assim tão más e multidões histéricas os governos não hesitaram dois segundos, claro. Quem vota são as multidões. A escolha não chega sequer a sê-lo.

O circo já está bem avançado: temos a tenda, temos os músicos, temos os espectadores, temos os apresentadores a fingir que são eles que mandam quando tudo o que fazem é seguir os outros todos. Entram os palhaços: «especialistas» (desta vez com aspas) que se deixam inebriar com os holofotes, com aquele ruído todo, com os cavalinhos a dar voltas à pista. Têm todo o interesse - nalguns casos, tangível; noutros, intangível mas não menos real - para que o circo cresça e para isso contribuem com afã.

Já só falta a malta da caixa. Esta começou por ficar surpreendida com tanto maná, tão súbito e inesperado. Não há máscaras, não há testes, não há vacinas... Que fazer? A resposta é fácil: fazer isso tudo. E hey, presto, de repente eis que aparece uma parafernália para nos «defendermos». Ninguém consegue parar o circo. Muito menos, claro, os especialistas do início, os que tentaram resistir à avalanche de pânico. Alguns cederam-lhe, outros afastaram-se, simplesmente. Ficou uma pequena minoria a clamar no deserto.

Entretanto, a avalanche segue o seu caminho. Alguns governos começam a ver que aquilo é muito bonito, espectacular e tudo mas que se arriscam a perder votos quando a conta chegar. Outros, mais responsáveis, desidiram mesmo parar com a palhaçada, apesar dos riscos eleitorais (estes ganharam a aposta, mas ainda são poucos, infelizmente). Alguns dos palhaços cansam-se. Os espectadores começam a fartar-se do espectáculo, que acham pouco variado. Pouco a pouco, muito devagar - excruciantemente devagar, para quem não gosta de palhaçadas - o circo começa a fazer as malas e a preparar-se para sair da cidade. 

24.12.21

Curta história longa

Encontraram-se num café e ficaram retidos um no outro. Ela por falta de atenção, ele falho de intenção. Assim deixaram o tempo passar por eles, distraidamente e sem rumo. Ao fim de alguns anos descobriram atónitos que o amor tinha dado um sentido àquilo. Não o tinham visto chegar e só deram por ele quando já se amavam como as duas linhas de um caminho de ferro.

Tão pouco o viram partir quando chegou a hora. O comboio bem apitou, mas eles não o ouviram. Continuaram juntos: demasiadas travessas os uniam. Precisariam de muita atenção e de mais intenção ainda para desmontar o que o tempo e o amor tinham montado

23.12.21

Do meu amigo Ricardo Álvaro, Negacionismo da época

« NEGACIONISMO DA ÉPOCA


Negacionistas do Natal rejeitam a primeira dose de Bolo-Rei com frutos cristalizados.



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Cientistas da Lapónia esclarecem negacionistas do Natal e avisam que, historicamente, a variante da Páscoa é mais letal. 


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Em plena pandemia, foliões do Fim do Mundo compram champanhe Barqueiro e passas Caronte para a Passagem.


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Pangolim escaldado deixa aviso aos incautos e outras bestas humanas: «Depois não digam que foi o peru».


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Última Ceia cancelada depois de testes antigénio aos comensais: Judas assintomático diagnosticado como falso-negativo.


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Primeiro-Ministro envia a tradicional mensagem de Boas Festas e pede aos eleitores para retribuírem os Votos no dia 30 de Janeiro.»



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Ricardo Álvaro
Dezembro
2021

K4 - uma pergunta

"Tentar divinizar o homem é o primeiro sintoma da Amnésia. O homem é o contraste do divino", diz Almada Negreiros em K4, o quadrado azul.

Pergunto-me se os cultores da "guerra ao vírus" não deveriam ler este opusculozinho, pequeno só em tamanho.

22.12.21

Diário de Bordos - Ponta Delgada, Açores, Portugal, 21-12-2021

Estas casas pequenas, baixinhas, parece que encolheram com a chuva ou que foram esmagadas pelo «capacete açoreano». À noite as ruas estão iluminadas pelas decorações de Natal, bem bonitas. E desertas, frias, ventosas. Tenho de inventar uma escala de Beaufort para o chapéu. Será simples porque só terá três forças. Zero: posso usar o chapéu à vontade e sem quaisquer restrições; um: tenho de o enterrar bem enterrado na cabeça e estar atento; dois: devo levá-lo na mão. Hoje oscilou entre força um e dois.

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Passeio-me por estas ruas como se nunca cá tivesse vivido. De repente a moeda cai e apercebo-me de que nunca vivi nesta cidade. Vivi no seu porto, o que é bem diferente.

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A grande vantagem da velhice é ter um fim; a sua grande desvantagem - pelo menos actualmente - é que esse fim está cada vez mais longe. A medicina moderna equivocou-se completamente. Mais do que quantos anos viveremos importa como os viveremos. A qualidade antes da quantidade. 

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Todos nós chegamos a um ponto em que descobrimos que nos enganámos. Os que têm mais sorte ou mas perspicácia são mesmo capazes de definir onde, quando, como e porque isso aconteceu. Ou melhor: os ondes, quandos, comos e porquês - são sempre muitos, não são? Infelizmente esse ponto (esses pontos) chegam sempre tarde de mais. Temos de viver não só com, mas no erro, como se este fosse uma piscina na qual nadamos, pela última vez, os cem metros livres. Como se fôssemos mais uma encarnação desse erros ou desses erros. Não somos. Sim, somos. A vida é como as regatas oceânicas, que são ganhas não pelo melhor mas por aquele que comete menos erros. Ao fim de muitas regatas, o melhor e o que cometeu menos erros são o mesmo, é certo, mas o padrão é sempre o erro. O padrão contra o qual vais aferir a tua vida é o erro, meu caro, a quantidade e qualidade deles. (O problema sendo que regatas há muitas e vidas há só uma, mas isso faz parte da piscina.)

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Não reconheço o Café Central: foi «modernizado». A Igreja Matriz tem outra iluminação, a praça mudou. Tudo isto com um tempo abominável. Espero que a porra da frente passe depressa. E com ela o tempo.

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O arquipélago - enfim, pelo menos a cidade, ignoro o que se passa nas outras ilhas - tem três jornais quotidianos. É notável. Têm todos as mesmas notícias e Mota Amaral publica nos três (não sei se o mesmo texto). Igualmente em todos eles os comerciantes queixam-se do fecho de ruas ao trânsito automóvel em vésperas de Natal. Neste ponto têm razão. 

Pergunto-me se uma viagem aos Açores é, como era antigamente, uma viagem no tempo. Creio que sim. Espero que sim. 

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(Vivemos todos neste cruzamento, não vivemos? Onde os verbos esperar e crer se cruzam. Talvez não todos, mas pelo menos aqueles de entre nós que têm essa sorte.)

14.12.21

Que vemos, quando nos vemos pela primeira vez?

Um cego de nascença recupera a vista. Vè-se pela primeira vez ao espelho e detesta-se. Acha-se feio, contrariamente a todas as outras pessoas que agora vê, também pela primeira vez e nas quais percebe uma irreprimível beleza (às vezes injustificada, mas isso seria outra história: que vemos, quando vemos pela primeira vez?)