Figs
8.8.24
Figos, D. H. Lawrence
7.8.24
Diário de Bordos - Palma, etc., 08-08-2024. Era: Limites do método empírico
Sempre fui distraído. Deixo tudo em todo o lado, esqueço-me da roupa suja quando saio para a lavandaria, dos óculos, da carteira, do telefone. Esta incapacidade de viver o momento é misteriosa. Porém, algo hoje me intriga mais do que no passado: fico muito mais triste e zangado, furioso comigo, quando me esqueço de qualquer coisa do que ficava dantes. Hipóteses:
1 - Sempre fiquei tão zangado como agora fico e não me lembro;
2 - Esqueço-me mais vezes ou de coisas mais importantes;
3 - A velhice é menos tolerante do que a juventude.
Vou pôr estas hipóteses à prova, se bem nenhuma seja passível de alguma experiência empírica. Só o método dedutivo-analítico funcionará.
Se até lá não me esquecer, claro.
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ADENDA
Para esquecer os esquecimentos (desta vez o saco dos cabos e carregadores) levanto-me com o objectivo de ir ao 7 Machos beber uma margarita. A meio do caminho vem-me o bar Lisboa à memória, penso "Que bom! Afinal ainda me lembro de algumas coisas" e paro aqui para uma piña colada (no meu caso, pila desconada, mas passemos). Já não são os mesmos e a "pila conada" (aspas porque cito) é demasiado doce e cheia de gelo - que não passa de água, como toda a gente sabe. A música tão pouco é grande coisa e decido esquecer-me da carrer de Sant Magí, apesar da beleza da parte feminina da clientela. A do 7 Machos também é bonita, a música mais suportável e porra, penso eu, se aos trinta não ligava a ponta de um chavelho a estas coisas porque raio ligo agora? Nessa altura pensava que lhes faltava qualquer coisa e agora dou graças a Deus por lhes faltar qualquer coisa e vai daí perco-me pelos carreiros, caminhos e atalhos do pensamento e da memória - andam sempre juntos, como as autoestradas e as estradas "alternativas" e decido que o mau gosto tem limites, pago e vou setemachar, neologismo adequado para quem só não se esquece da cabeça por causa do pescoço.
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A margarita do Alex é melhor margarita do que a piña colada do outro é piña colada, a música melhor e com um volume mais aceitável, o bom gosto mais presente e o mau ausente e apercebo-me de que por vezes é bom esquecermo-nos do que é bom para sabermos (ou confirmarmos) o que é bom.
Termino a noite com um mezcal, bebida que - toda a gente sabe - tem propriedades mágicas, dr entre as quais a menos importante não é seguramente fazer-nos esquecer aquilo que o esquecimento se esquece de nos fazer esquecer.
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A noite recompõe-se. À margarita seguiu-se um mezcal, a este uma tequila de vinte e três anos (oferta da casa, mas prefiro o mezcal), o Alex faz-me de novo pagar um preço do qual me envergonho (ma non troppo), estou pronto a apostar que a BH Glasgow Vintage me levará direitinho a casa.
Estou igualmente pronto a apostar que o sono estará à espera da bicicleta mal ela chegue a bordo. Abençoada burra.
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Ganhei a primeira aposta. Agora só preciso de não adquirir o hábito de apostar.
A vida e a fome
Pois sim. Há muitas coisas para e outras tantas por contar. É assim a vida: vive-se metade e fica a outra metade na travessa. Já ninguém tem fome.
Não sabem o que perdem.
6.8.24
Diário de Bordos - Cala Mitjana, Mallorca, Baleares, Espanha, 05-08-2024
3.8.24
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 04-08-2024
Prepara-se a noite para entrar, pé a puxar pé e eu deixo-me puxar por cada um dos pés, devagarinho, como se não quisesse nada com ela. Quero, claro. Abraçá-la, beijá-la, acolhê-la nestes braços sequiosos de sono e que em vez disso escrevem (disparates, ainda por cima). Amanhã tenho de acordar cedo - ou seja, à hora habitual - fazer o saco e arrancar. É preciso lavar o mastro, está infecto e envergar a grande para acabar de vez com o lazybag. E a genoa, ver se esta merda pode pelo menos navegar. Depois há os acabamentos, mas esses vão ser poucos. No meu dia de anos isto estará pronto. Vai ser a melhor prenda de aniversário da minha vida.
Hoje recusei um overnight de uma semana por causa dos day-charter. Que se lixe. É preciso pôr o P. a funcionar e andar põe essa ilha fora não ajuda.
Herdei do meu Pai esta incapacidade absoluta de não pôr o trabalho à frente de tudo o resto. O trabalho e a palavra, as duas prisões.
(Cont.)
Chapéus, dores e outras coisas
Fui à farmácia, mas claro que Tramadol nem pensar nisso. À mistura de Paracetamol com Ibuprofeno fui eu que disse não, obrigado. Ando a tomar essa merda há muito tempo. Que se lixe, a dor acabará por passar. Depois pensei nos chapéus de Verão. Tenho três: o que comprei hoje, o panamá de saída e o panamá de trabalho. "Chapéus há muitos..."
Tivesse eu mulheres como tenho dores - e chapéus.
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 03-08-2024
Pus a bicicleta a reparar - precisava de uma afinaçãozita nos travões e nas mudanças - comprei um chapéu na sombreria Juliá e vim comer ao Infame. Há dias assim, dias harmoniosos como uma peça de música de Mozart, as coisas encadeiam-se como se fossem fruto do acaso, ou da necessidade, ou da inevitabilidade ou de uma mistura de tudo isto. Toujours est-il: gosto do meu chapéu novo, que me custou menos de metade do chapéu novo que comprei em Lisboa e de que estou farto e aproveitei vim ao Nafi comer umas beringelas recheadas e pensar que amanhã tenho de estar em Portopetro às dez da manhã (ou seja: nove) e pensar que a conversa com o Carl correu bem e vou conseguir recuperar a cana de leme que ele fez e está um simples horror - opinião com a qual ele concorda - e depois vou pedir ao Jaime para cobrir aquilo de couro e depois, ainda depois, vou conseguir dormir, que desde ontem - quando vi aquilo - não consigo.
Resultado: bebo um vinho esplêndido enquanto olho para a BH e como uma beringela recheada num brevíssimo leito de húmus e me deixo invadir por este sentimento de serenidade. Invadir? Não. Inundar.
Cada vez me interessa menos saber o que é a felicidade e cada vez sou mais capaz de avaliar estes momentos.
Avaliar? Não. Absorver.
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Os dilemas que um homem tem de resolver:
a) Como um sobremesa aqui ou vou directamente ao Claudio?
b) Se for ao Claudio, ponho-me na fila ou vou directamente à janela do lado?
c) Se comer a sobremesa aqui e depois for ao Claudio: vou para o Inferno dos diabéticos ou para o céu dos bem-aventurados?
Tenho de fazer uma árvore de decisões, enquanto acabo o vinho e encomendo a sobremesa.
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P.: Como resolver dilemas?
R.: Vir ao Otaku beber sake.
2.8.24
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-08-2024
Jantar no Celler de Sa Premsa, mais cantina do que recordava mas bom como tinha na memória. O restaurante é bonito e o serviço também, no sentido em que ser servido por um senhor dos seus cinquenta anos que visivelmente gosta do seu trabalho é bonito. Depois fomos ao Claudio, ponto de paragem pós-prandial obrigatório. Começo a ter vergonha de saltar a fila desta maneira mas o raio dela está cada vez maior e eu não tenho paciência e vou à janela do lado e o Cláudio serve-me à frente de toda a gente e eu perco a vergonha toda.
(Cont.)
Diário de Bordos - Cala ses Hortigues, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-08-2024aleares
Um bimbo é um bimbo é um bimbo? Sem dúvida. Mas é forçoso reconhecer que um bimbo francês endinheirado (estes são provavelmente mais do que endinheirados) tem pelo menos a vantagem de ser simpático, engraçado - mesmo que o humor francês não seja o meu favorito - e, neste caso particular e raro, não ser pedante. Ou seja, não tenho de fazer esforços hercúleos de hipocrisia. A da boa educação chega.
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Surgiu-me a possibilidade de fazer uma semana de charter à partida de Marselha e como era de esperar todas as boas resoluções sobre não fazer mais overnight voaram em estilhaços. Hyères, Porquerolles, rever la Bonne Mère e la Cannebière e ainda por cima com clientes portugueses, que são os melhores? Só me falta arranjar quem me substitua nos três dias de day charter que tenho nessa semana.
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Os meus franceses são donos - entre muitas outras coisas, suponho - de um enorme restaurante, mini-brasserie, mais de quinhentos couverts por dia. Hoje usei o termo prandial com um deles, só para tirar dúvidas. Não sabia o que era.
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Pertenço a um grupo de pessoas que se comove quando vê a luz de um farol.
31.7.24
Reclamação. Abaixo as minis!
Quero deixar aqui uma reclamação, alta e clara, contra a ou as pessoas que inventaram as cervejas em garrafas mini. É o maior atentado ao bom senso, ao bom gosto e ao planeta (tema que me preocupa bastante, como é sabido) de que tenho memória. Aquela merda acaba-se num instante, as garrafas acumulam-se, um gajo quer beber cerveja e não pode estar constantemente a abrir o frigorífico. Além disso, estou pronto a apostar que quatro minis saem mais caro do que três médias, apesar de a diferença de quantidade ser ínfima.
Abaixo as minis! Viva as médias. No meio está a virtude! Nem litrosas nem minis!
Diário de Bordos - Sa Calobra, Mallorca, Baleares, Espanha, 31-07-2024
Ando farto de comer saladas, que é o que todos os clientes comem, naturalmente. Não está tempo para um coq au vin.
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Hoje ouvi os clientes mas eles não me ouviram. Resultado: ferro e corrente presos, aquele numa rocha e esta noutra. Tive de chamar mergulhadores de Soller. Trezentos e cinquenta paus. Propus-lhes pagarmos a meias porque em última análise o responsável sou eu. Recusaram e assumiram a totalidade. Franceses mas vivem na Bélgica por motivos fiscais. São simpáticos e a mulher de um deles, romena, é gira que se farta, o que não estraga nada. O outro veio sozinho. Ao todo, cinco: a família de quatro e o amigo / sócio. Ou seja: tenho um camarote! Com o calor que está não me vejo a dormir no peak de vante (detesto chamar coelheira àquilo, apesar de a alcunha ser merecida).
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Depois da "aventura" (aspas porque é irónico) viemos para Sa Calobra, mas estou demasiado exausto até para dormir, quanto mais para ir à terra.
Experimentei tudo o que sei para safar o ferro, mas os mergulhadores - dois sul-africanos simpáticos e eficazes, passem os pleonasmos - confirmaram: sem mergulhadores teria sido impossível. Como o ferro estava a vinte e cinco metros de fundo... A única coisa que consegui foi comprovar que a carcaça não merece todas as críticas que lhe faço. Só algumas. Ainda está aí para as curvas.
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Não me lembro quase nada do meu SCARLETT, um Casamance que trouxe sozinho de St.-Malo para Lisboa. Posso contudo afiançar que os Fontaine-Pajot actuais são uma merda. Por exemplo: o ferro está colocado de tal forma que não se lhe pode pôr um arinque sem o bote (forçoso é reconhecer que pela descrição dos saffas de nada teria servido).
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Dêem-me por favor clientes que não sabem. Os que "sabem" (ditto) deviam pagar um suplemento e caro.
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As baterias não aguentam a noite, de maneira tenho de fazer uma hora de motor antes de adormecer e uma a meio. O marido da senhora romena precisa de um aparelho para respirar quando dorme e tenho de deixar o inversor ligado porque aquilo só funciona a duzentos e vinte.
Só lamento é que com uma mulher tão bonita tenha de usar máscara... (Lamento nada. Só tem de usar aquela coisa para dormir.)
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A semana que vem só tenho três dias de day-charter. O meu P. precisa de mim. Ganho menos de metade mas trabalho um quarto do tempo, de maneira as álgebras equilibram-se.
30.7.24
Queres apanhar outra?
Esta mistura de pele lisa e fresca, acabada de sair do duche e uma dor de cabeça mediana faz-me pensar em ti. Nunca me disseste que te doía a cabeça, sorte a minha e sempre tiveste a pele assim, de se lhe pôr a mão em cima e não se ser capaz de a tirar, alquimia física. Um dia tinhas os cabelos todos espalhados pelo meu baixo-ventre enquanto um polícia te multava o carro, nem ele sabia o que fazias nem tu o que ele fazia nem eu, que acabava de acordar e só via essa vaga de cabelos negros espalhados por tudo quanto eu tinha de coxas e barriga e quando chegámos ao carro vimos a multa e rimo-nos. "Foi merecida", disseste-me. E eu perguntei-te: "Queres apanhar outra?"
O fim
Os orgasmos acontecem no fim e não no princípio. Não é por acaso: a vida deixa o melhor para quando tudo está a acabar.
Vida, o que quiserem
Vou abandonar aquelas ideias tontas do "isto é que é vida", "saber viver é...", "a vida é assim."
Não sei o que é a vida e de viver só tenho uma noção muito empírica. Nada conceptual. Viver é aquilo que faço todos os dias, pela razão simples e irrefutável de que não quero deixar de o fazer (os: o que faço e viver). Ando por sítios bonitos, às vezes aborreço-me outras não, às vezes tenho dinheiro (quando chove), a carcaça ora reclama ora me leva de Cascais a Lisboa de bicicleta sem um ai. Nada disto me parece complicado porque a nada disto atribuo qualidades mágicas. É certo que gostaria de escrever mais e melhor, como fotografar, de resto. Há imensas coisas que gostaria de fazer e outras que adoraria não ter feito. Ou dito, sei lá.
Mas estão ditas ou feitas ou pensadas e contra isso não há filosofia que valha. É isto a vida? Não sei. É o que faço quotidianamente: misturo erros e acertos e as proporções por vezes saem certas, outras erradas.
Chamem-lhe o que quiserem.
29.7.24
Diário de Bordos - Sant Elm, Mallorca, Baleares, Espanha, 28-07-2024
Outra vez em Sant Elm. Os milagres continuam. Não sei se se pode chamar milagres ao que nos acontece porque o esperávamos e procurámos. Desta vez almocei no Flexas. Bom, correcto sem mais. Isto é: se não contar com simpatia da Malena, uma maiorquina da minha idade (mais coisa menos coisa) que herdou aquilo da mãe. A carta não é nem enorme nem particularmente original, mas é honesta - tal como a jovem filha, que me disse que o peixe vinha todo da piscicultura, tal como eu pensava. Prometi-lhes que para a próxima vez tentaria levar lá os clientes. Jantar no Es Raor, a convite dos clientes. O arroz negro continua o melhor que já comi nesta vida e nas outras. Gelado de manga no Tigy's com o milagre do rum a acontecer de novo - um gajo vai comer um gelado e na mesa aparece-lhe o dito e um copo de rum. O vento caiu completamente, como previa a previsão, o que por um lado é chato por outro não. O sono está aí a abanar-me o ombro, quer que eu pare de escrever. Clientes impecáveis. Dores diversas controladas com uma mistura de paracetamol e ibuprofeno.
Não sei que nome dar a uma sequência de milagres. Não sei sequer se são milagres.
28.7.24
Idade, je m'en foutisme
Idade confortável: a carcaça reclama mas lá vai andando e a cabeça não só funciona mas também atingiu um nível de paz, autoconfiança e tranquilidade (numa palavra: estar-se nas tintas, em português. Em francês seria je m'en foutisme, termo de que sou grande apreciador) que só pode degradar-se, não melhorar.
Sorte a minha. Nunca ninguém viu a idade regredir.
26.7.24
De empréstimo
Vim ao Gambrinus beber um homónimo (epónimo?) e pensar que quem veste Vilebrequin de empréstimo bem pode vir de empréstimo ao restaurante da rua das Portas de Santo Antão. Antigamente vinha aqui muitas vezes, mas sempre de empréstimo. Comia uns croquetes, uma vez uma fatia de uma coisa de perdiz que eles têm e é uma maravilha, bebia uns gambrinus, um café, às vezes um porto (como hoje, Casa das Carvalhas, maravilha). Nunca me sentei a uma mesa, que me lembre. Estava aqui de empréstimo, como hoje, como sempre, como partout. Como quando ponho calções de banho da marca Vilebrequin, de empréstimo.
Ando emprestado à vida. Espero que ela me devolva no mesmo estado em que me recebeu.
25.7.24
Amizade, evolução
As amizades começam por ser uma celebração da similitude e evoluem para se tornarem sobretudo uma gestão das diferenças.
[Adenda: pensei acrescentar "cuidadosa" a gestão, mas não o fiz. Por um lado seria um pleonasmo; por outro um oxímoro. A amizade não precisa de ser gerida.]
24.7.24
Diário de Bordos - Lisboa, 24-07-2024
Apesar de todos os esforços que faz em contrário, Lisboa continua a cidade encantadora que sempre foi. O calor não é culpa dela, claro; os buracos nas ruas tão pouco; nem o barulho, a sujidade, os mendigos, os prédios modernos e asquerosos, passe o pleonasmo. Nada disso consegue vergar esta cidade, nada nem ninguém conseguirão tornar banal esta cidade. Não tem nada a ver com a pastelaria aonde tomei o pequeno-almoço, com as livrarias Snob ou Palavra de Viajante por onde passei como quem vai a Fátima de joelhos (isto é um exagero só literariamente aceitável), com o quisoque S. Paulo aonde comi dois pastéis de bacalhau como não os há em mais parte nenhuma do mundo (nem de Lisboa, quanto mais), nem com o restaurante Tentações de Goa, um dos dois melhores goeses da cidade. Não tem nada a ver com nada de preciso - pastelarias, livrarias e restaurantes são como chapéus - mas sim com o que lhes fica de permeio. Ou dentro, não sei. Faço parte daquele grupo de gente que pensa que uma cidade é feita sobretudo de pessoas e não apenas de monumentos, arquitectura ou história e Lisboa tem o melhor conjunto dessas coisas todas que conheço. Queixam-se do turismo? Credo! Lembrem-se de como era a cidade antes dos turistas e calem-se.
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-07-2024
Já a Rambla é. Adoro esta avenida, mais pequena e bonita do que a de Barcelona. O vento ainda não caiu, está fresco, o meu cansaço espairece e espalha-se por estas filas de plátanos fora enquanto vê a cidade passar por ele, por mim, por este domingo suave em Palma-a-calma.
(Era para ter continuado, mas não continuou. Paciência.)
21.7.24
Diálogos
- O futuro não existe. Só há hoje e a eternidade.
- E o passado, aonde o pões?
- No presente, claro. Não passa de uma acumulação de passados.
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 21-07-2024
Coisas que se encontram quando procuramos coisas que não se encontram
CINCO MICRO-CONTOS
Desejo
Onde é que ia? Ah, na Ângela. Era uma miúda pequena, nervosa, seca, com umas mamas muito grandes (tudo era pequeno nela. Só as mamas eram grandes). Quando estava a iniciar a minha segunda ou terceira história (parece-me. Se calhar foram mais) ela disse-me "ainda vais contar muitas, antes de foder? Estou a marimbar-me nos crocodilos e nos hipopótamos que mataste não sei onde. Podes calar-te e foder-me, por favor?"
Era muito grande, mais alta que eu; loira, com um corpo ginasticado, tenso, elástico. Foi muito difícil convencê-la a ficar comigo mais do que a primeira ou segunda vez de cama. Todas as nossas conversas iam invariavelmente parar à política - até que eu tomei a decisão de não tocar no assunto, nunca mais. Anabela tinha um certo ascendente sobre mim, reconheço-o sem dificuldade de maior. Era eu que a amava; ela deixava-se amar.
Uma noite estávamos na cama e fui-me abaixo. Fiz-lhe uma observação - é verdade que totalmente gratuita, inútil, não provocada. Mas inócua; qualquer coisa do género "este palerma do [segue-se o nome de um sindicalista qualquer] só diz asneiras". "Imbecil", retorquiu.
Madalena viveu comigo dez anos. Sei que não vale a pena contrariá-la, sobretudo quando tem razão. E não, não é médica: é dona de uma agência de publicidade. "Consegues levantar-te?"
Vamos voltar atrás e recomeçar onde ficámos, queres? Eu chego a casa, ponho
o chapéu no sítio do costume, tiro o sobretudo; tiro os sapatos. Vou à cozinha
dar-te um beijo; pergunto-te se queres ajuda e tu dizes "não, obrigada,
está tudo pronto. É só pôr no forno". Volto para a sala e vou ao bar
preparar um whisky. Pouco depois tu vens para a sala, ainda a limpar as mãos ao
avental. Dizes-me:
- Vais-te embora?
- Vou.
- Não percebo. Vais-te embora como, porquê, para onde, como? Quando é que
voltas?
- Não volto. Vou-me embora. Vou deixar-te. Como sabes não gosto de lutar
contra o que é, quando me parece que é e não pode ser de outra forma.
- Está bem. Adeus - e continuei a beber o meu whisky.
- Está bem. Adeus.
20.7.24
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 20-07-2024
E provável que todas as cidades tenham uma rue Daguerre, uma rua que concentra tudo aquilo de que nelas (cidades) gostamos. Em Paris, para mim, é essa tal rua Daguerre. Tem uma queijaria que o Le Point classificou há anos - tantos que ainda os jornalistas não se vendiam por meia dúzia de amendoins - de "a segunda melhor de Paris"; tem um café/ cave à vins aonde se come, se bebe e se lê mais do que decentemente; tem uma livraria, que dantes se chamava Arbre à Lettres, para mim (repito-me, eu sei) um dos melhores nomes de livraria que conheço; dantes, ainda dantes, tinha a (para mim, ditto) melhor tasca da cidade, chamada apropriadamente Au Vin des Rues. Fechou, desgraçadamente.
Em Palma, a minha rue Daguerre chama-se carrer Arabi. É mais pequena do que a rue Daguerre - não é bem sequer uma rua, é mais uma praça - e só tem três lojas. Para grande desgraça minha, são as melhores lojas de Palma, na respectiva categoria. Começo por cima (a rua é inclinada): En mi maleta, uma loja de presentes. Pertence a uma senhora chamada Paloma. Não é uma loja de fancaria, de recuerdos à la bimba. Tem objectos lindos e hoje lá deixei outra vez uma pipa de massa porque quero levar presentes à família; a seguir vem a Biblioteca de Babel, que o FT classifica de "uma das vinte melhores livrarias do mundo" e eu concordo. Cada vez que lá vou sinto-me na Citylights, versão reduzida. A Biblioteca de Babel é uma daquelas livrarias em que um gajo entra e cinco minutos depois está a pensar "quero comprar todos os livros, por favor".
Este "por favor" é dirigido ao dono, um senhor que para além de perceber de literatura percebe muito de literatura e tem um pequeno e simples bar aonde se pode dar aos livros os preliminares que normalmente reservamos às senhoras. Livros e vinhos excelentes. Que mais se pode pedir? Um bom vermute, José Luis, por favor.
Ao lado fica o Antiquari, que hoje graças a Deus estava fechado.
São os cinquenta metros de rua mais caros de Palma. (Para mim, claro. Em cinquenta metros do Passeig des Born é possível gastar dez vezes o que hoje deixei na carrer Arabi. A diferença sendo que no Born seria deitar dinheiro à rua.)
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Segunda-feira vou a Lisboa ver a família e amigos, fazer uma ecografia e tentar ser visto por um médico do SNS. Aviso aos cépticos: eu acredito. (Refiro-me claro ao último objectivo. Os outros são do sector privado.)
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Bicha de vinte metros no Rivarena da Plaza de la Lontja. Penso: estes gelados são uma merda. Espero que os mentecaptos nunca descubram o Claudio.
18.7.24
Diário de Bordos - Portocolom, Mallorca, Baleares, Espanha, 18-07-2024
A noite foi fácil e os sonhos alegres. É espantoso a influência que tomar uma decisão difícil e penosa tem na qualidade do sono. Antigamente, durante os temporais alijava-se carga, prática essa que consistia em deitar carga ao mar para garantir a sobrevivência do navio. Hoje isso já não se faz: uns senhores resolveram criar normas e regulações para nos protejer, como se não tivéssemos o direito de morrer como e quando queremos. Espero que esses senhores - ou alguém por eles - não se lembrem de regulamentar as más decisões, quando se tomam e quando nos livramos delas, por mais pele que se deixe no processo.
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Os miúdos deste grupo são de uma boa educação notável. Pergunto-me até quando a América Latina resistirá.
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Soberbo jantar no Noray, Ses Covetes (praia de Es Trenc). Encontrei finalmente um arroz negro à altura do do Es Raor.
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O mar parece o lago de Genebra (ou Léman, consoante o lado da fronteira de onde se o considera), o EVE mal se mexe e como há muito espaço ferrei-lhe com quase trinta metros de corrente para menos de quatro metros de fundo, que ainda por cima é de areia da boa. Será preciso um tsunami para me tirar daqui.
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As minhas aventuras com (uma funcionária d)o SNS continuam. A formulação está um bocado bacoca - a senhora não representa o SNS. Representa-se a si própria e à parte da humanidade para quem ter poder é dizer não. O centro de saúde de Cascais tem pessoas adoráveis a trabalhar. Calhar-me esta senhora na rifa é azar, só azar. A ver se na semana que vem tenho mais sorte.
(A menos que o problema sejam médicos de férias, no que não acredito. Essas devem estar marcadas há tempo suficiente para... para... Enfim, para.)
[Adenda: não sei aonde foram buscar essa ideia de que a saúde é um direito. É, sem dúvida, mas para quem tem dinheiro para a pagar. Quem está sujeito ao SNS tem o direito de esperar e é um pau por uma pedra.]
16.7.24
Diário de Bordos - Portocolom, Mallorca, Baleares, 16-07-2024
A isto chama-se falhar redondamente. Tanto que vem-me à memória aquela canção do redondo vocábulo, do primeiro dia e por aí adiante. O objectivo era ir ao restaurante do Clube Náutico de Portocolom, o meu favorito (é um dos poucos que conheço, acrescento não vá alguém tomar-me por guia). Fechado. (Há dois anos, diz-me o S. R., que é maiorquino.) A cidade, vila, aldeia, seja lá o que for está cheia a abarrotar. É a sua festa, informa-me um segurança destacado para controlar os contentores de lixo (não é piada. Aqueles contentores - cheios e com o lixo já por fora - são unicamente para uso dos iates e ele está ali com uma lista de nomes dos barcos. O EVE não consta dessa lista mas o homem deixa-me, após uma breve conversa, depositar os sacos.) As ruas estão insuportáveis, cheias, intransitáveis. Encontro uma tasca que em dias normais deve ser óptima. Abrevio muito: hoje não é. O senhor que me serve tem cara de dono e está simplesmente esgotado e mal criado.
Pensar que ia para o restaurante do clube escrever faz-me rir. A tasca esvaziou-se de repente, só fica a música, abominável. Os gritos foram-se. Consigo pelo menos pegar no telefone e esboçar - isto não passa de um rascunho - o fim falhado de um dia porreiro. Enfim, mais ou menos porreiro. Um dia do qual um gajo não pode queixar-se senão de ninharias ou dele próprio é um dia chato.
R., o puto mais puto da família, adiantado mental - tem onze anos, mais coisa menos semana e parece ter dezoito - pergunta-me de que gosto mais no meu trabalho vírgula no mar, acrescenta.
"Primeiro: da liberdade", respondo. "Apesar de isto" - aponto para o barco e para o mar - "parecer uma prisão. Segundo: da complexidade. O que faço parece simples e fácil e não é."
O puto fica convencido e eu também. Consegui resumir uma vida em duas frases.
Há dias em que me sinto o Cônsul do livro do Lowry mas agora não consigo explicar porquê. Nem uma burra tenho lá fora, quanto mais um cavalo morto. Não há veículo que nos livre de nós, Geoffrey.
Apercebo-me - só agora - de que Geoffrey é a combinação de Terra e Livre. Não reli o livro vezes suficientes.
A tasca está quase vazia. Ele há milagres, Geoffrey. Bastar-nos-ia não acreditar neles. Nas nós somos incuráveis, não é? Vá lá, estou em Maiorca e não no México. Não arrisco a vida, com ou sem burra.
Apesar de vazia, volta e meia irrompem gritos na tasca. Desta vez provocados por duas mulheres que, diga-se de passagem, os justificam. Foram recebidas por um dos empregados com um justificado entusiasmo. Felizmente compraram cigarros e foram-se embora.
E assim quase acaba um dia que acaba quase falhado. Quase é uma palavra que engana muito. Agora vou ter com o resto da malta e depois vou para bordo, quase dormir.
É quando me queixo
«É quando te queixas que és melhor», diz-me S. F. (mais ou menos, cito de memória). Que desafio! Só posso queixar-me ou de ninharias ou de coisas de que não serve de nada queixar-me, como eu, por exemplo. Queixar-me de mim é, de todos os exercícios que pratico, simultaneamente um dos mais antigos e o mais inútil: não mudei significativamente nos últimos cinquenta anos e é pouco provável que tenha mais cinquenta para experimentar-me noutro formato. Por significativamente quero dizer estruturalmente. Há pormenores que mudaram, claro. Algum uso haveria de ter a quantidade de erros, asneiras, disparates que fiz e por vezes ainda faço, verdade seja dita.
Melhorei, sem dúvida. Mas não mudei. Como uma pedra que rola: fica mais redondinha mas mantém a forma.
ADENDA: S. F. esclarece-me qyue não é quando me queixo. É quando estou «em dor». Fica queixo-me, desporto preferido da minha gente.
14.7.24
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 14-07-2024
Sempre desconfiei de homens que vestem cor-de-rosa, mas ontem vi o superlativo: um tipo dos seus sessenta e muitos setenta e poucos de calções cor-de-rosa e faixa do chapéu da mesma cor.
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Ontem falhei desastrosamente a manobra de atracagem. (Enfim, desastrosamente é um exagero. Não houve estragos, excepto no meu ego.) Foi a primeira vez em anos. Penso que de vez em quando nós, marinheiros, temos um anjo da guarda com um martelo na mão e quando começa tudo a correr demasiado bem ele dá-nos uma martelada na cabeça, para não nos enganarmos nem esquecermos.
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Mais uma semana de charter, mais uma semana de desespero. O ano de dois mil e vinte e três ainda não acabou, por mais que eu lhe implore que se ponha a andar de uma vez por todas.
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Hoje ainda há um jogo dessa merda desse campeonato, diz-me a A. I. Tê-lo-ia deduzido: as ruas começam a encher-se de gente com bandeiras de Espanha aos ombros. Acho insuportável, lamentável e desgostante esta manifestação de gregarismo, que não é senão um termo chic para carneirismo. Percebo a necessidade de pertença, mas não que ela se manifeste através de um jogo de futebol.
........
(Cont.)
13.7.24
Da escrita das gazelas
A escrita de Maria Belmonte é elegante, ágil e leve. Se as gazelas soubessem escrever, escreveriam como ela.
Felizmente não sabem e ela não tem concorrência.
12.7.24
Dispersos diversos
Sonhos de infância
Na lista de coisas a proibir urgente e absolutamente deve incluir-se os trabalhos dos quais é impossível não gostar, correctamente pagos e que provam que os sonhos mais verdadeiros e mais válidos são os da infância.
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Magia, beleza e dinheiro.
Três gatos pingados na cala Ses Ortigues: dois monocascos
pequenitos e eu, num cata idem. Garrei um bocado (cerca de vinte e cinco
metros, diz-me o GPS) e fiquei mais perto de um deles do que queria. Não é
suficiente para estragar a magia do lugar, a qual faz parte do meu
salário, juntamente com a beleza e a massa.
Nem os pilotos de avião podem dizer o mesmo.
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Cala Ses Ortigues, 10-07-2024
Diário de Bordos - Magaluf, Mallorca, Baleares, Espanha, 11-07-2024
11.7.24
Carta aberta a uma mulher casada (e fechada)
9.7.24
Diário de Bordos - Sa Calobra, Mallorca, Baleares, Espanha, 09-07-2024
Há coisa de alguns dias aprendi a falar biquiniquês. Agora procuro alguém para umas lições de monoquinês, se faz favor. Com aulas práticas, se possível.
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Outra vez em Sa Calobra, outra vez em estado de maravilhamento. O fascínio continua intacto, por mais que faça esta costa. Hoje lembrei-me da primeira vez que o fiz, a T. e eu sozinhos a bordo, ambos como viemos ao mundo.
Dois anos depois a miúda deixou-me e fiz a pior e mais longa depressão da minha vida. A felicidade paga-se caro.
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Mais uma semana de charter. Já só faltam duas para chegar ao meu objectivo de cinco. Com o transporte da Holanda para o Algarve fico com o Verão composto e algumas asneiras deste interminável ano de dois mil e vinte e três tapadas.
Gostaria de lhe pôr uma tampa em cima, das tantas que recebo.
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Fundeado e amarrado pela popa a uma rocha, no meu canto favorito da cala. Sorte? Ou será por causa do futebol? Se for, fica comprovado que mesmo da mais gigantesca das merdas alguma coisa boa pode sair. Como se fosse preciso.
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Esqueci-me do comprimido. Qual a relação disto com a sorte, a merda ou a capacidade que esta tem de a gerar?
Levanto-me ou deixo para amanhã? Estou na conejera, mas sim, levanto-me. Tenho de dar atenção à carcaça, que anda conflituosa, a cabra.
ADENDA: A ponte entre a merda e o comprimido foi a dor no joelho. Tenho a memória concreta.
8.7.24
Diário de Bordos - Palma e Sant Elmo, Baleares, Mallorca, Espanha, 06 a 08-07-2024
6.7.24
María Ángeles López e por aí fora
Sair à noite e coisas que ficam para amanhã
Jogos de palavras, eucaristias e outras coisas
5.7.24
Retratos possíveis
Tinha aquela forma de loucura que muitas vezes se torna impossível distinguir da estupidez.
Um dia ocorreu-me que se pode ser simultaneamente louco e estúpido. Por vezes os dois anulam-se e fica-se com a impressão de que a pessoa não é nem um nem outro. Outras adicionam-se - ou pior ainda, potenciam-se - e aí sim, fica-se com a certeza de que é os dois.
4.7.24
Hildegarde e a teologia
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 04-07-2024 / 2
Fui jantar ao 7 Machos. Fizeram-me de novo um desconto monumental. Saí tão comovido que ia caindo da BH (Glasgow Vintage). Às vezes pergunto-me se de um ponto de vista comercial isto é uma boa política: quase fico com vergonha de lá ir. Felizmente este quase cobre largamente a vergonha e sei pertinentemente que lá voltarei. Aqueles tacos e a Margarita são superlativos e eu não sou rapazinho para deixar passar essas coisas em branco. Só uma vez na vida bebi uma Margarita melhor do que esta. Foi em Puerto Vallarta, num bar cujo nome não recordo mas deve estar algures nos fundos do DV, coitado. E mesmo assim não me lembro se eram melhores por serem melhores se por serem ainda maiores. Aquilo não eram copos, eram aquários, mini-piscinas. Nessa altura ainda conseguia beber várias. Hoje não: estou reduzido a uma. Tenho pelo menos a sorte de ser sublime e ainda por cima não ser cara. Pelo menos a mim. Obrigado, todos no 7 Machos. Voltarei em breve e não apenas por causa do desconto.
Tive a A. I. aqui durante quatro dias e vi a ilha pelos seus olhos. Levei-a à Tramuntana (ou a parte dela), passeei-a por Palma, fomos a Colonia San Jordi (não exactamente a parte mais conseguida da viagem: a paella do Hostal Playa estava péssima), a Sineu e à praia de Son Serra de Marina. Tudo isto se resume em três palavras: Adoro esta ilha.
P. S. - Em Sineu recomendo vivamente o restaurante / café / bar Ca'n Paco.
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 04-07-2024 (Roupa velha e nova, misturadas)
Dei recentemente os primeiros passos no biquiniquês. Aprendi que os biquinis falam para tias, tias-avós, avós, com dourados ou sem dourados. Imagino que o façam também para outros grupos etários ou de parentesco.
Falo e escrevo relativamente bem - ou pelo menos aceitavelmente - quatro línguas. A junção de mais uma a este grupo é no mínimo enriquecedora. Além disso, é um indubitável passo na direccção desse mundo do qual me sinto tão auto-excluído. Isto dito, os fonemas de um biquini são inegavelmente mais interessantes do que os da palavra «sentido», por exemplo. É igualmente certo que do biquiniquês passarei não tarda para o camisês, sapatês ou - assunto que me apaixona - chapeusês. É toda uma nova gramática que me espera.
Não posso esperar o momento de lhe pôr os olhos em cima.
Não leio mas escrevo. Antes assim. Por mau que seja, sempre é melhor do que não fazer nem um nem outro.
Trago a A. a Colonia San Jordi e enquanto ela vai para a praia eu vou ao Es Cani, cujo empregado me parece mais antipático do que o habitual. Não é antipático, é só maiorquino. Ou seja, poupado: se sorri tem de pagar mais impostos. O lugar está cheio de turistas jovens e bonitas mas estão sentadas na esplanada do outro lado da rua e só as vejo quando por qualquer razão têm de ir ao balcão. Isto é: quando o rei faz anos ou o empregado esboça um sorriso, o que acontecer primeiro.
3.7.24
Dúvidas de vidas
Não sei se um dia terei biógrafos se hagiógrafos. Ambos terão muita dificuldade em fazer o seu trabalho.
Um por excesso de material, o outro por falta dele.
2.7.24
Cheias e vazios ou vazias e cheios?
A. diz a mesma coisa do que a S.: bebo muito. Inteligentes como são, não percebem duas coisas:
1 - Muito é diferente de de mais;
2 - A razão pela qual bebo muito (mas não de mais, insisto) é o altruísmo. Quero doar o meu fígado e o meu cérebro à ciência, ver se se consegue provar de uma vez por todas que as cabeças vazias aguentam melhor os fígados cheios do que as cheias os vazios.
(Além de que não se deve passar horas - nem sequer minutos - numa mesa de café com um copo vazio à frente.)
Cumes, vales e solidões
Acordo com dor de cabeça (leve e felizmente passageira), coberto de picadas de mosquitos (insuportáveis), triste e não consigo voltar a adormecer, o que dada a hora a que acordei ontem não é de espantar. Leio um texto bastante bonito do M. S. O. sobre Cristiano Ronaldo (só este nome seria suficiente para me fazer fugir a sete pés), Frank Sinatra e a "solidão das alturas", a perseverança, o esforço ou a obsessão que ela exige e penso que quem habita nos vales profundos desses cumes elevados precisa igualmente de muita força e teimosia para neles se manter. Só, tanto como os outros.
1.7.24
Números do futebol
Jesus tinha doze apóstolos e uma equipa de futebol onze jogadores. Apesar disso, qualquer jogo de futebol tem mais assistência do que uma missa e suscita mais reacções, paixões, emoções e outra tralha. O futebol tem um século de idade, a missa vinte.
A questão não está no jogador a menos e sim nos dezanove séculos a mais.
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-07-2024
Volto a Sant Elm como guia, mas desta vez de uma pessoa a quem quero muito. A cozinha do Can Verde só abre às duas. Ela foi para a praia e eu fiquei no café a beber cerveja e a "guardar a mesa". O objectivo era fazer o passeio habitual pela Tramuntana, mas a estrada está fechada por causa de um rally automóvel. Ainda hesitei uns segundos entre Peguera e San Telmo mas esta acabou por ganhar. Está a abarrotar, claro - à multidão habitual veio juntar-se a dos frustrados da Tramuntana.
(30-06-2024)
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Primeira visita à catedral. Resumo um: paga-se dez euros para ser esmagado por esta mistura de beleza e grandiosidade. Resumo dois: preciso de comprar um livro sobre a catedral e voltar cá depois de o ler.
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Jantar sublime no Fidel e no Tom, passe o pleonasmo. Acabou com um gelado no Claudio. Para a A., framboesa não sei de onde com pimenta idem e limão de Mallorca. Para mim, açafrão do Irão. Se alguém um dia me tivesse dito que um dia eu gostaria de gelados como gosto destes mandá-lo-ia para o Inferno dos mentirosos (e resolvi dar uma folga ao meu conservadorismo em matéria gastronómica: não pedi o de avelã, prova gelada não da existência de Deus mas da Sua bondade).
O jantar termina com a A. a ver atentamente o jogo de futebol e comigo a beber rum, divisão de tarefas que me parece justa. Só lamento que seja na Plaza Mayor. Merece melhor uso.
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Dia bom de trabalhos: um charter este sábado e um transporte confirmado da Holanda para o Algarve em Agosto. Não tarda estou a queixar-me de ter trabalho a mais. Bastar-me-iam umas semanitas mais de charter e uns transportes. Sei lá, das Seychelles para o Japão, por exemplo.
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O guarda-redes adversário defendeu um penalty do Ronaldo. Não sei que pensar. Estou de rastos. Felizmente já pedira mais um rum, não fossem estas emoções inundar-me de angústias.
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«Ganhámos», diz-me A. quando o jogo acabou. «Ganharam», respondo. «Eu não ganhei nada. Quem ganhou foram eles.» O homem é definitivamente um animal gregário. Tirem-lhe a missa, fica uma bola, as alterações climáticas ou outra crença qualquer. Esta até tem um demónio: dióxido de carbono. Pergunto-me quem será o demónio da bola? Deve ser a outra equipa. É um demónio flutuante. Variável. Oscilante.
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Começo a compreender toda a velha hesitação que tinha quanto a definições do amor. A ideia de que o amor é eterno e imutável sempre me pareceu dúbia. Hoje, final e felizmente, sei que não há amor, tal como não há liberdade, felicidade ou cerveja. Há amores, liberdades, felicidades e cervejas. E muitas outras coisas, claro: tudo na vida tem um plural. Nada existe no singular.
Excepto cada um de nós.
29.6.24
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 29-06-2024
Ressonâncias
Deveríamos aplicar o conceito de ressonância mecânica (ou vibratória, para quem prefere a precisão) ao amor. Com um caveat: a ressonância mecânica nem sempre é boa. Tem bastas vezes consequências negativas. A ressonância amorosa só tem / teria / terá consequências positivas. Dois corpos / almas / corações a vibrar em uníssono... É verdade que pode fazer quebrar uma ponte ou um motor, mas o que não fará a duas pessoas?