8.11.21

Pérolas da sabedoria marítima

- «Se uma asneira é possível, já a alguém a fez. Se é impossível, algum idiota a fará um dia.»
- «A mais bonita das manobras é a que está na fronteira da asneira.»
- «Um marinheiro sabe fazer tudo, vírgula, mal.»
- «Si tu veux vivre vieux, marin, arrondis les caps et salue les grains.» (Se queres chegar a velho, marinheiro, dá um bom resguardo aos cabos e riza nos aguaceiros.)

7.11.21

Diário de Bordos - Lisboa, 07-11-2021

A bicicleta desliza velozmente rua de S. Bento abaixo. Não vai mais depressa por causa do piso. A CML só tem dez mil funcionários e portanto não tem mão-de-obra que chegue - e menos ainda fundos - para manter em condições as ruas da cidade, limitando assim seriamente o prazer de todos os ciclistas e a segurança dos mais desatentos. O ar cheira a frio, a Sol, a Outono; há pouco passei pela Passos Manuel e vi o sol brincar às escondidas com as folhas das árvores (as que resistiram à sanha arboricida dos últimos tempos). Esta mistura de cheiros, luz e Sol é demasiado boa para ser estragada com pensamentos tristes e evacuo a CML e respectivas merdices do pensamento. No fundo da rua esperam-me o talho O Naco (bendito seja), um pastis no Arthur e depois uma bifana no Triângulo da Ribeira, estabelecimento de que eu não falaria se tivesse bom senso. Isto é, se fosse menos altruísta. A casa é minúscula e faz as melhores bifanas dos universos todos, o nosso e os paralelos - coisa que de resto é conhecida por toda a gente que trabalha nas imediações, portanto o meu altruísmo é bastante relativo.
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Dizer que o jantar correu bem é manifestamente insuficiente para o prazer que me deu cozinhá-lo, comê-lo e partilhá-lo com um daqueles grupos de amigos que me faz pensar que quem tem amigos assim não pode ser má pessoa. De entrada abrimos com uma carne de porco marinada em gengibre e soja, panada e frita; daí seguimos para o Mediterrâneo com umas lulas em rouille; regressámos ao Oriente com um frango em leite de coco e gengibre. A sobremesa foi uma mousse de lima, obra da jovem senhora que para  minha indizível felicidade partilha os dias (e noites) comigo. Bebeu-se muito vinho, falou-se muito, rimo-nos muito - os três muitos que compõem um bom jantar.

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Recebi a capa do "M/V RIO CUANZA e outras histórias de vida e de mar". Têm de me amarrar uma filaça ao pé, de tão contente estou. A «apresentação» (aspas porque o termo me irrita profundamente e não lhe encontrar alternativa ainda mais) vai ser feita dia vinte e três de Novembro na Casa Independente, em Lisboa. Convido todos a marcarem já a data na agenda. Quanto à hora, por enquanto só sabemos que será por volta das sete da tarde. 

5.11.21

Casa

A CASA 

A história é antiga e conhecida. Há milhares delas, todas iguais, por esse mundo. Um pastor deita distraidamente duas sementes à terra vazia. Inesperadamente, essas sementes vingam e transformam-se em duas árvores à sombra das quais outros pastores vão plantando as suas tendas. Um dia um deles constrói ali uma casa, uma estrutura frágil, de passagem. Ao longo dos anos essa casa vai, ela também, crescendo e solidificando-se. Hoje é uma velha construção, sólida, que alberga uma família cujos antepassados, um dia, ali ergueram uma frágil casota de terra e palha. À sua metafórica sombra outras casas se foram erguendo; as árvores – hoje centenárias – deram origem a outras árvores. De passagem o lugar transformou-se numa aldeia, numa vila cujos habitantes alimentam e negoceiam com os povos que por ali passam e buscam sombra, água, comida. Não sabemos o nome dessa vila, mas podemos imaginar que as árvores são carvalhos, de tão sólidas. Da casa, pessoas partiram e a ela regressaram. Algumas guerrearam-se, outras ajudaram-se, amaram-se, odiaram-se. Bebés nela nasceram, velhos morreram. 

Foi nessa casa que Armando nasceu, faz agora mais de setenta anos. Deixou-a há muito tempo, para a tropa, então obrigatória. Uma vez esta terminada fixou-se na cidade e só muito esporadicamente voltou à sua aldeia natal. Hoje a casa pertence-lhe, mas ele não lhe pertence. Está habitada por dois dos seus sobrinhos que nunca dali saíram. Armando conhece-os mal. Provavelmente não os reconheceria, se por acaso – pouco provável – se cruzasse com eles na rua. Há muito deixaram de lhe pagar renda, mas ele sempre insistiu na propriedade: a casa era dele. As árvores eram as da sua infância, a elas trepou, delas caiu, ao pé delas acariciou o primeiro seio, deu o primeiro beijo. Os sobrinhos foram para lá viver com uma missão: manter a casa, repará-la, não a modificar. É suficientemente grande e sólida para albergar duas famílias. Armando quer recuperá-la, passar os seus últimos anos na casa onde nasceu mas hesita: não tem filhos e a perspectiva de a casa ficar vazia depois da sua morte desagrada-lhe. Pensa num acordo com os sobrinhos: dá a cada um deles um sítio para viverem e quando morrer ficam proprietários da casa de família, sem possibilidade de a venderem. Eles não estão muito pelos ajustes: querem «desenvolvê-la». Isto é, ampliá-la, transformá-la em apartamentos e vendê-los um a um. 

Armando acredita na linearidade do tempo. Imaginou a história dos pastores e da da casa só sabe que pertenceu ao seu bisavô, mas vê, quando olha para trás, uma linha recta que começou nesses longínquos pastores e hoje termina nele. É um fim móvel, um fim que se desloca no tempo, com o tempo. Contudo, sem filhos não tem para onde ir. Os sobrinhos – engenheiros como ele – vêm o tempo como as subidas e descidas de um gráfico, as mudanças de direcção de um rio ou o vento, que hoje está norte e amanhã sul sem por isso deixar de ser vento. A casa caiu-lhes no colo há muitos anos, vêem-na como sendo deles. O tio Armando não passa de um velho que quer parar o tempo, impedi-lo de os tornar ricos. 

Armando hesita em ceder, apesar de saber que a casa já passou por inúmeros conflitos, que é hoje o resultado de muitos «desenvolvimentos». O passado só nos parece estático porque não o podemos mudar – ou melhor, só através das palavras o podemos mudar. Nele, não podemos agir. Na verdade, o passado é apenas uma sucessão de presentes dos quais alguns são tão tumultuosos como o actual. «Talvez, no fundo, a melhor forma de respeitar o passado desta casa seja deixá-los mudá-la uma vez mais», diz para si próprio. «Mas só depois de morrer. Eles que construam o futuro com os meus ossos, não com os meus olhos.»

II 

«Caros Mário e Pedro, 

Uma pequena nota para vos informar que chegarei a Querquais dentro de duas semanas. Preparem-me o anexo do fundo do jardim e marquem uma reunião com o notário. O solar vai ficar para vocês, mas só depois de eu morrer. Até lá, terão de esperar. Um desenvolvimento que não se faça esperar não é digno desse nome. O tempo é um privilégio, um luxo e como todos os privilégios requer tempo para sedimentar e como todos os luxos tempo para ser devidamente apreciado. 

Farei de vocês meus herdeiros universais: tudo o que tenho - com excepção dessa casa - foi feito por mim, mas é a ela que o devo, tal como a última folha de uma árvore deve a vida à raiz. Pouco me interessa o que farão com o que vos deixarei. Já cá não estarei e o que fiz, fiz para mim, não para o tempo. O futuro nunca me interessou e não é agora que vou mudar. Nem eu nem ele, de resto. 

Vosso 

Tio Armando» 

(Cont.)

3.11.21

Anti-thanatos?

Desço a rua de S. Bento e entro no mercado, quase mecanicamente. As salsichas «100% biológicas» da jovem austríaca que lá tem uma tasquinha são francamente boas, a moça é simpática e - não estraga nada - gira. Bebo uma cerveja ou duas e sou assaltado por uma dúvida terrível: o contrário de «salsichas biológicas» é «salsichas tanatológicas»? E das salsichas passo para tudo o mais «biológico» que nos assombra os dias. Ele é a carne, o vinho, os legumes, os queijos, o pão. Thanatos tem um par em tudo, um pouco como a matéria e a anti-matéria?

Raízes, outra vez

Lisboa anoitece e eu com ela. Calcorreio-lhe as ruas - ainda não sabem se hão-de estar secas se molhadas, a chuva hesita entre cair e ficar queda lá nas alturas das nuvens, (nimbus para quem não sabe) - acompanhado pela minha melhor amiga. Procuramos um sitio para jantar, a chuva decide não nos molhar, não escorrego no pavimento mais seco do que molhado e penso na beleza desta amizade, vasta como a idade (se bem ligeramente mais recente).

Lisboa anoitece, a amizade resplandece, a chuva guarda-se para depois, o vinho é esplêndido e volto para casa a pensar na portabilidade das raízes. Talvez não seja tão grande como a penso, ou desejo.

1.11.21

Viver não é estar vivo

A senhora tem oitenta e um anos, sempre fumou (dois maços por dia) e bebeu o seu copito de tinto. Agora, a filha restringiu-lhe os cigarros e proibiu-lhe o vinho. Diz que é para bem dela (isto é, da senhora).

A qual senhora passa os dias num anseio permanente, a tentar arranjar um bocadinho de tinto e meia dúzia de cigarros.

A filha acha que infernizar os últimos dias da mãe é bom para ela, mãe. Não é. De boas intenções está o inferno cheio. Os últimos dias da senhora são um calvário que - feliz e provavelmente - a crueldade da filha não conseguirá prolongar.

Ideia para disfarce de Halloween: disfarcem-se de anjos. É um disfarce antigo e frequente para a maldade, mas não deixa de ser eficaz. E a mim, pelo menos, assusta-me mais do que a mais feia das bruxas.

Prazos

Acabo a primeira volta da revisão da continuação do Avenida. Com sorte, daqui a uns (largos) meses estará cá fora; em breve, o «RIO CUANZA e outras histórias» estará publicado e nas livrarias. Foi escrito em 2017. Com excepção dos blogues e da imprensa, escrever é uma actividade de prazos longos. Como o amor, o vinho e os filhos.

(Para o T. e a H., com todo o amor do mundo.)

Diacronicidades

Sinto-me na Genebra dos squatters, a que tantas festas fui. Ainda serão assim, hoje? Ainda haverá bares de squatters?

A música era outra, a iluminação idem. Só as pessoas são as mesmas Um bocadinho mais velhas...) 

Raízes portáteis

Homens, árvores, enguias, tartarugas... Somos tantos a ter raízes. A diferença é que as nossas são portáteis. Levamo-las connosco para onde quer que vamos. E elas seguem-nos, gratas. As raízes gostam - e precisam - tanto de nós como nós delas. Devíamos era poder transferi-las, emprestá-las, oferecê-las a outros.

Que outros? Quem amamos ou quem detestamos? Quem queremos venha connosco ou quem preferimos deixar onde está?  Poderiam as raízes ser como acções de uma empresa, ao portador? Obrigações? Títulos de dívida?

Alguém devia organizar um congresso sobre «Raízes portáteis, raízes transferíveis».

Vícios e vícios

O rapaz era capaz de beber duas garrafas de whisky numa noite, sozinho. "Não era todas as noites", precisa. "Mas quando lhe dava era a sério." Deixou de beber álcool. Há três anos que só bebe água e refrigerantes. "Nem uma gota de álcool", explica orgulhoso.

A temperança também é um vício. 

31.10.21

Manatee: (mais um) auto-retrato - este é sucinto, valha-nos isso

Não é muito sofisticado,  eu sei - nada em mim o é - mas gosto de tascas. Não lhes vejo qualquer propósito salvífico, note-se. Raras são as tascas onde se come bem, mas derivado à minha natureza rustre e troglodita é nelas que me sinto bem.

Quando se juntam a qualidade da comida mai-la qualidade de tasca sinto-me no paraíso. Um almoço no Beira-Rio ou na Merendinha do Arco, para citar duas das minhas favoritas, deixa-me perto do êxtase. Comer é uma função básica, biológica,  fundamental (de fundamento), orgânica. Nos bons restaurantes a essas funções acresce a de ritual, com todas as obrigações que daí decorrem. Gosto do strip-tease gastronómico que é comer numa tasca. Gosto do strip-tease de tudo o que é primevo, de resto, seja comer seja beber, seja música. 

Na verdade, agora que penso nisto, os gostos não se excluem. Oiço os Carmina Burana ou os cânticos de Hildegarde von Bingen como oiço as Suites Inglesas de Bach, Thelonious Monk, Sonny Rollins ou Miles Davis, Salif Keita ou as Mandé Variations de Toumani Diabaté, as vozes divinas de Sandy Denny ou Maddy Prior, Nico ou Marianne Faithful. Como na tasca como no Gambrinus (infelizmente, com frequências muito díspares). 

Gosto do Outono como gosto de todas as outras estações do ano, de uma mulher em especial como de todas em geral (gostar é diferente de amar, fica a nota não vá o diabo tecê-las), da aguardente que o J. M. (abençoado sejas, J.) me ofereceu como do melhor whisky ou rum. 

Sou um panhonha da vida, é o que é. Um panhonha feliz e sortudo, mas panhonha. Como as lontras do aquário ou os manatee da Florida. Se me virem reagir energicamente a qualquer coisa é porque me enganei. Não sou muito sofisticado, eu sei - mas sou o que me calhou na rifa genética e contra isso não posso fazer nada senão ouvir os Carmina Burana e beber a aguardente do J., abençoado sejam eles e ela. 

29.10.21

Diário de Bordos - Lisboa, 29-10-2021

A questão - única - é saber se não escrevo por ter chegado ao meu momento "fim da história". Será que a partir de agora os meus dias não serão mais do que uma simples réplica daqueles que já vivi? Tudo igual, excepto os pormenores? Hoje fui ao médico, ao hospital de Cascais. Não é a primeira vez. Fui de carro e chateei-me com os condutores que se metem à minha frente nas filas, aproveitando-se do facto de eu não gostar de andar a cheirar o rabo aos outros. Fiz uma carne guisada que não ficou mal e bebi vinho de Foz Coa, de que cada vez gosto mais. Avancei umas páginas - poucas - no livro que estou a ler, uma coisa apaixonante  sugerida pelo V. P.

Pois, isto é muito bonito, mas que tem de novo? Quantas vezes fiz cada uma destas coisas? Talvez seja isto a velhice.

Espero que não. Se for, é verdadeiramente horrível. 

20.10.21

Diário de Bordos - Lisboa, Portugal, 20-10-2021

Hoje fiz uma coisa que não fazia há muito tempo: comprei um pasquim e sentei-me a lê-lo num café. O pasquim chama-se Público, ficou conhecido por ter «despublicado» um artigo de opinião. Tem por missão promover as opções do governo (se este for socialista, claro. Se for do Pedro Passos Coelho a missão muda para defender o PS). Não vale muito a pena comentar as «notícias»: não são notícias, são publicidade (paga, verdade seja dita). Mas enfim, passei um bom momento e creio que estou pronto para mais dez anos sem gastar dinheiro em feuilles de chou. (Mentira: amanhã compro o outro quotidiano de Lisboa, para comparar as raivas que cada um deles me proporciona.)

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Almoço rápido no Pirata, renascido das cinzas. Agora é na Morais Soares. Lisboa é um incêndio que não pára de se reavivar.

Adenda para quem gosta de pica-pau: o do Pirata é estupendo.

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Aviso à navegação: o Continente Bom Dia da Carlos Mardel diz que tem seiscentos metros quadrados. Não pedi para ver a planta: a dois minutos de bicicleta há um Auchan onde ninguém põe em dúvida a desnecessidade total do uso de açaimos por pessoas civilizadas.

Os nomes das cores do amor

Não sei que nome dar ao amor fruto do sonho risonho de um deus feliz e livre. Sei as cores: rosa, minha canoa; azul, meu azul tão céu e tão mar; laranja, do Sol que nasce a leste e ateia o dia em chamas. 

A cor do amor é todas as cores, o nome do amor és tu.

13.10.21

Imagem, palavra, equivalência

Uma imagem vale mil palavras? Sem dúvida. (Enfim, isto discute-se. Compare-se os filmes com os livros e ver-se-á que não é assim tão líquido. Mas passemos.)

Mas tal como numa imagem o que conta é o que ficou de fora, num texto o que interessa é o que não foi dito. Aí já não sei se  equivalência se mantém.

Mil não-vistos valem um não-dito? Duvido. 

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 13-10-2021

Ontem passei à frente da Coop (uma das duas cadeias suíças, identitárias, de supermercados) às sete e dez da noite. Estava fechada. Não ia fazer compras, vinha de casa de um amigo, mas percebi que uma das coisas que sempre impossibilitou a minha vida em Genebra é esta discrepância entre horários internos e horários externos. É como eu dançar com uma senhora que dança extremamente bem: não há maneira de acertar os passos. A verdade é que me adaptei à maioria das coisas, mesmo aos preços, eterno tema de piadas familiares - não é a Suíça que é cara, eu é que sou um teso. Mas este permanente desajuste de relógios era - ainda é - difícil. 

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Fui fazer um teste antígeno (mais um...). Foi de manhã, por volta das onze e meia. Acabo neste preciso instante (seis da tarde) de receber uma mensagem do médecin cantonal (a DGS do cantão). O laboratório onde fiz o teste enviou-lhes o resultado. É de certeza obrigatório. Esta é outra das coisas que sempre detestei. A eficácia da burocracia é um pau de dois bicos. Se tivesse de escolher, prefiriria uma burocracia inapta, incompetente, anedótica como a portuguesa. Dou-me melhor com o caos do que com a ordem, apesar de esta ser bastante atractiva, esporadicamente. Felizmente posso alterná-las. E acrescentar-lhes a total ausência dos dois que é o mar. Alternadamente.

Mentira: o mar não é a ausência de ordem e de caos. É o seu (deles) ponto de confluência, onde se encontram, onde jogam às escondidas, onde fingem ser cada um deles o outro, um loop contínuo que depois se desfaz em terra, como um aguaceiro: de um lado a ordem, do outro o caos. No mar tudo é ordem e tudo é caos.

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Último jantar desta estadia em Genebra (solitário, S. foi trabalhar a França): carne guisada «à casa» (sinónimo de mixórdia super-picante), absinto, Leonard Cohen (sinónimo de melancolia), impaciência, saudades e uma Syrah «biológica e sem sulfitos», a seu tempo. Ao desenraizamento vou acrescentar uma categoria: o dilaceramento. (Exercício inútil: não saberia viver sem ele. Sem eles.)

E ao caos um território: as emoções.

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Projecto para o futuro: ler e escrever. «L'intendance suivra.»

9.10.21

Ou de como a poesia encontra sempre uma forma de se esgueirar para as nossas vidas

«com aquele punch inicial (Dom Pedro de Purtugall partindosse delle o corpo)

sei que vou ter uma velhice assombrada
provavelmente como a velhice das gentes
que percorreram muitos caminhos
ou como aqueles que não saindo de si
voaram séculos à volta de um quarto fechado

sei que vou ter uma velhice assombrada
por dias intensos vindos da juventude
e pelo momento eterno em que fiquei
suspenso na
mellencolia
perdido entre os cães do indefinido

anos inteiros de apatia sangrenta
noites de folguedo estenuante e gago
sobreviveram a esses rápidos tempos
de
Iffante de mui grande rancura
coração dilacerado
arrancado do peito e mostrado ao povo
como um molusco vermelho e latejant


Rosa Oliveira, in Desvio-me da bala que chega todos os dias, ed. não (edições)

Ziguezagueante

Foi numa noite assim que morri. Calma, silenciosa, delicadamente passei de uma noite para a seguinte. A noite é um arranha-céus com centenas de andares. A morte é simplesmente um deles. Nada de sustos. Morrer não passa de apanhar o elevador para o topo do prédio. Podes escolher um com música ambiente, groom fardado a rigor, se quiseres. Ou ir a pé, pelas escadas. Eu apanhei um elevador que funcionava mal, sempre aos solavancos, para cima e para baixo. Fiz uma parte do trajecto a pé, subi escadas até não poder mais. Finalmente cheguei. A morte é parca recompensa para a vida. A única coisa que conta é o trajecto até aqui acima. Tenta torná-lo o mais interessante possível,  o mais ziguezagueante. 

8.10.21

Diálogos de bistrot

- Bebes demais.
- Eu sei. Vá lá que ao menos bebo devagar. Esta garrafa levou três horas a ser bebida.
- Tu até o devagar fazes depressa.
- Verdade. Saio de ti devagar, por exemplo.
- Vais levar anos.
- E chamas depressa a isso?
- Chamo. 
...
...
- Esta música é de fazer chorar um bloco de basalto.
- É a adequada. O basalto é como tu, só chora por dentro.
- Viste-me chorar muitas vezes.
- Porque te conheço. Se não te conhecesse, pensaria que tinhas uma alergia qualquer nos olhos.
- Chorar é uma alergia.
- Palavras. É a única coisa de ti que dás a ver. Para o resto, é preciso conhecer-te.
- Tu conheces-me?
- O suficiente para te ver as lágrimas. Já é muito. Demais.
- Há lágrimas bonitas e lágrimas feias, mas não sei como as distinguir.
- ...
- Aprende a não as misturar.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 08-10-2021

S. e H. foram a França, usufruir de um prémio qualquer que uma delas ganhou; T. tem a sua vida de sexta-feira e eu estou sozinho em casa, a ouvir na rádio um concerto de Angélique Ionatos (Delémont, 2012, para quem possa interessar) e a beber um tinto bastante bom, Grenache e Syrah das Côte du Rhône, seis euros a botelha na Coop (idem). Saí para ir fazer fotografias ao Jet d'eau. Ficaram péssimas: esta porra destas máquinas digitais são difíceis de amestrar. Gosto do imediatismo do digital mas detesto a complicação. Ainda vou acabar a comprar uma máquina analógica. O que sonho com a F2...

(Além de que preciso de um tripé, mas isso é outra história.)

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Há em Genebra uma série de fornecedores de falsos certificados de vacinação. Quatro acabam de ser apanhados. Não quero entrar nesse jogo porque é aceitá-lo, de certa forma. Sou contra esta palhaçada. Falsificar um certificado é ceder-lhe. Continuarei a beber os meus copos de vinho nas esplanadas e a não ir ao teatro ou ao cinema. Esta palermice já foi longe de mais. A solução não é falsificar certificados, é recusá-los.

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Não tarda estarei em Lisboa de novo. A minha geografia é uma geografia de solidões.

Tempestades, amores

É no mau tempo que se vêm os bons marinheiros, sem dúvida. E se julgam os amores: os que não resistem a uma tempestade não resistiriam à paz podre do bom tempo.

Roupa velha

Soller, 27-10-2021

Os grupos sucedem-se e não se parecem, os charters sucedem-se e são totalmente diferentes. Um dos passageiros partiu uma perna. Passei três horas no hospital de Palma (Soller não tem, o que se compreende porque por estrada está a trinta quilómetros de Palma) e do meu bem amado porto vi raspas. Raspas boas, é preciso dizê-lo: jantar no La Sal, rum no bar da marina. É penoso ver Soller vazio às onze da noite, mas forçoso é reconhecer que é melhor assim, depois da época. Ou antes, em Junho, mas o grupo aponta-me imediatamente um senão: a água está mais fria. Como raramente nado - e quando o faço é pouco, a maioria das vezes para ir ver as obras vivas dos botes - aceito o reparo mas acho-o pouco importante. 

(Isto é mentira - na Grécia começava o meu dia com um mergulho. Não há regra sem excepção, muito menos para quem, como eu, recusa liminarmente o fundamentalismo.)

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A época chega ao fim. Não me posso queixar. Ou posso, mas de mim mas essa é inútil, de tão antiga.

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Soller faz-me lembrar uma mini-Funchal mas mais charmosa, mais doce e nostálgica. 

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 08-10-2021

Sempre admirei os escritores que escrevem para debelar a tristeza. A mim, esse monstro, essa cadela preta, essa cabra ata-me os braços e cobre-me a mente com um manto de betão armado, intransponível como se aquilo fosse uma central nuclear em vias de explosão. Consolo-me pensando naqueles aparelhos que monitorizam a saúde dos pacientes no hospital e vemos nos filmes: enquanto a linha está aos altos e baixos há vida, quando fica uma linha recta é porque chegou a morte. Talvez pudesse, pergunto eu, era haver uma linha com altos e baixos, sim, mas menos baixos (e quiçá menos altos, mas desta parte não tenho a certeza), não? E com uma frequência mais espaçada? Talvez pudesse, mas agora é tarde. A minha vida vai continuar o que tem sido até aqui: um carrocel de emoções, uma montanha russa, um temporal no qual às vezes ponho de capa e outras corro com o tempo. 

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A bise desistiu. As previsões diziam que ficaria três dias, mas abandonou. Em consequência, o tempo voltou à cinzentez habitual. Ficou a temperatura: onze graus. Vou dar um passeio, ver como o cinzento invade tudo, como, de vez em quando, o amarelo / encarnado de uma árvore o vence, como estas ruas, cinzentas ou não, continuam para mim um dos pés do tripé. Daqui a uns tempos terei de cá voltar, receber o neto. Em Lisboa deixo um livro (dois em breve), aqui uma vida. Árvores, no mar, só conheço a árvore seca com que, por vezes, resistimos a um temporal. Foram raras as vezes que tive de tirar o pano todo de um mastro, mas já me aconteceu. Às vezes precisamos de nos despir para sobreviver, de nos quedarmos imóveis, enrolados como um caracol na sua casca.

Talvez. Eu vou desenrolar-me, pegar na máquina fotográfica e olhar para o que vejo. E para o que não se vê - é para isso também que serve a fotografia, não é? É.

6.10.21

Escrito em 1938, validado de novo em 2020

"Logo que o espírito aceita o carácter substancial de um fenómeno particular, deixa de haver qualquer escrúpulo em defender-se contra as metáforas."

"Um dos mais claros sintomas da sedução substancialista é a acumulação de adjectivos sobre um mesmo substantivo (...)"

(Gaston Bachelard, La formation de l'esprit scientifique, éd. Vrin, pág. 134, tradução minha.)

Vírus, veneno

S. e B. (a sua melhor amiga) falam na cozinha. Refugio-me na sala. Inevitavelmente, a conversa descambou no tema proibido. Sempre foi assim: B. vem aqui jantar cada primeira quarta-feira do mês. Quando aqui estou, deixo-as sós para falarem dos seus assuntos e venho para a sala.

Hoje não venho sozinho. Trouxe a maldita doença comigo. É muito mais do que um vírus, esta merda. É um veneno.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 06-10-2021

Hallelujah! Graças ao «pass digital» acabo de poupar vinte e cinco francos suíços (mais coisa menos coisa vinte e cinco euros): para ir ao teatro necessito dessa coisa. Pergunto-me se os comboios de putas cujos filhos andam por essas ruas a exigir tais coisas (ou a exigir que as exijam) também pedem passes, sejam eles digitais sejam de outra natureza. Voltei para casa amuado e frustrado, combinação de emoções que só serve para me alimentar a teimosia - um dos traços do meu carácter que dispensa alimentação - e decidido, mais do que nunca: ponham a cultura no cu. Não me vacinarei por uma peça de teatro, nem por um prato de lentilhas, nem por uma refeição no interior do restaurante. Não farei parte desta palhaçada até ter uma pistola apomtada à têmpora. Vão para a puta que os pariu, se conseguirem apanhar o comboio e nele encontrar as vossas mães.

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Não fossem estes episódicos episódios, diria que esta estadia em Genebra está a ser um sonho. Fiquei a saber que vou finalmente entrar no selecto clube dos avôs, passeio-me por estas ruas limpas, calmas, sem buzinadelas excessivas, com montras bonitas e mulheres idem, compro livros como se tivesse mais três vidas para ler tudo o que tenho para ler, bebo vinho bom a preços excessivos e vinho assim assim a preços razoáveis, falo, zango-me e rio-me com S., confirmamos ambos que nunca poderíamos voltar a viver juntos mas que estar juntos é um prazer sem fim, pergunto-me que nacionalidade escolheria se hoje tivesse de escolher entre a portuguesa e a suíça (a resposta é: nenhuma. Só não sou apátrida porque não sei como se faz para o ser e para viajar com esse estatuto e de qualquer forma o assunto não me interessa o suficiente para perder tempo com ele).

Durmo em Genebra como não consigo dormir em mais lado nenhum, apesar de dormir num sofá chato de fazer e desfazer. Isto deve ter um significado, mas não sei qual é. Sei que ontem descobri finalmente o tripé do meu futuro: Lisboa, Genebra e mar. Parece-me bastante sólido: amor numa, amizade e família noutra, eu no terceiro. A ver, como dizia o ceguinho (à mulher que era surda).

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Comprei a revista Egoïste. Não sei se tem alguma coisa a ver com a portuguesa. No formato não tem, isso é seguro. Na qualidade da fotografia não sei. Há muitos anos que não via fotografia deste nível. Vou ver os artigos, mas duvido muito que me interessem: um deles é sobre a palerma da miúda sueca. Não percebo. Todas as proporções guardadas, é o equivalente daqueles restaurantes que capricham na carne e servem batatas fritas congeladas.   

5.10.21

Epistemologia, rebanho e outras observações

Já dei uma volta ao mundo, navegando sempre para Oeste (e às vezes para Norte ou para Sul, mas comparativamente pouco). Também já tive Covid. Na altura - Fevereiro de 2020 - ainda se chamava gripe, mas dados os sintomas penso que posso crismá-la a posteriori com o nome da doença da moda. Ter dado a volta ao mundo e ter estado uma semana de cama com uma gripe devastadora não me fez ter a certeza de que a Terra é redonda - já a tinha antes -; igualmente, ter sobrevivido à Covid não me fez saber que é uma doença cuja perigosidade varia não só com a faixa etária, mas também com outros factores de risco - a obesidade, a depressão / bipolaridade, a diabetes, o estado cardio-vascular, etc. Isso soube-o depois, tal como só depois soube que o que tive foi Covid e não «gripe» (uso aspas em gripe porque penso que a Covid é uma forma dessa doença, tal como o paludismo cerebral é uma das formas do paludismo). Podemos aprender de várias formas. A experiência directa não é de longe o único caminho para o conhecimento - e nem sequer é suficiente, muitas vezes.

As pessoas que pensam que usar uma máscara, paralisar a economia de um país, õbedecer a regras absurdas, criar situações horríveis de solidão e sofrimento para os mais velhos e os mais novos, acabar com as liberdades mais elementares são medidas adequadas, eficazes e proporcionais ao perigo da Covid poderiam muito bem acreditar que a Terra é um cubo, se fossem suficientemente matraqueadas pelos media, pelos governos e depois pelos fabricantes de globos e cartas. Deitariam fora, como deitaram, séculos de conhecimento (no caso da virologia o plural é admitidamente exagerado: foi só um e meio), rendidas à histeria. 

Resisto à tentação de trocar o r de rendidas por um v: as pessoas não se venderam. Ofereceram-se. Deram-se de corpo e alma ao medo e à respectiva irracionalidade. O medo não é pessoal e intransmissível. É colectivo e transmissível. Um homem sozinho com medo não passa disso mesmo: um homem sozinho com medo. Junte-se-lhe uma multidão e ele tem um andaime por baixo, está protegido, não é o único. Tem razões para ter medo: a prova é o facto de não estar sozinho. Daqui vem o carácter proselitista do medo: precisa de números, de quantidade, de «toda a gente sabe». 

Os diferentes métodos que a epistemologia reconhece como válidos para a aquisição de conhecimento foram postos de lado: a infusão substitui-os a todos. Acreditar que a Terra é um cubo é validado não por observação, dedução ou teoria, mas pelo simples número de pessoas que acreditam que a Terra é um cubo.

Sou optimista e sei que isto não vai durar sempre, que não vai ser o «novo normal».  Mas sou pessimista e temo que a nossa civilização leve muito tempo a recuperar o ponto onde estava. A censura aos cientistas que não alinham na narrativa colectiva é mais do que inquietante. É aterradora.

4.10.21

Entre dois nadas

Tiraste-me as palavras todas da boca excepto uma, mulher, a do tracinho. Agora ando por aqui às aranhas, longe daquele te que se lhe segue como amor e vida se seguem, ou ontem e hoje. Uma vida sem palavras, sem te, sem nada senão o maldito hífen pendurado entre dois nadas.

Desperdício - 2

Há várias maneiras de desperdiçar um silêncio. Falar sem dizer nada é apenas uma delas; não ter nada para se dizer é outra.

3.10.21

Readaptação - Desperdício

Desperdiçar é sempre criticável, mas desperdiçar um silêncio é imperdoável. 

30.9.21

Diário de Bordos - Cabrera, Baleares, Espanha, 30-09-2021

O dia começou em Colonia de San Jordi e vai acabar em Cabrera. Tive bastante sorte com os passageiros esta época e é portanto natural que me espante com a que tive com este grupo: praticamente impossível pedir melhor, uma vez aceites as limitações habituais (têm trinta anos, conhecem-se desde a faculdade, as pessoas que gostam de música não alugam barcos) e uma específica: vieram sem as mulheres. Estas são as duas razões - suponho - que me fizeram esperar com impaciência o meu aniversário. Têm uma capacidade de beber que me faz lembrar a minha quando tinha a idade deles: todos as noites são de farra até às tantas. A desta noite foi especial e juntei-me a eles. Um tipo decente não pode passar meses a beber água (quase só) e não ceder perante tão razoável pretexto como é celebrar a entrada nos sessenta e quatro anos. A festa foi de arromba, apesar de a provecta idade me ter feito ir para a cama antes dela acabar. Só me apetece dar graças, cantar laudas e esperar muitos mais assim. Reforma? No cemitério terei muito tempo para ela.

«Nous avons toute la vie pour nos amuser
Nous avons toute la mort pour nous reposer», 

cantava o Moustaki, se bem me lembro. Podre de razão, tanto mais que «diversão» e trabalho se sobrepõem como um fato feito à medida no corpo ginasiado de um yuppie.

Esta época deu pano para mangas em novidades e felicidades: desde a maior gorjeta (relativa) de sempre ter vindo de portugueses (realidade um - preconceitos zero, o que põe cada um deles no seu devido lugar. Digo isto tendo em mente que os preconceitos são úteis, necessários, imprescindíveis mesmo. Quanto mais não seja, para serem derrotados pela realidade) e continuando com os grupos que tive, as razões de queixa são poucas. Isto se quisesse queixar-me, claro, coisa que dispenso de alma e coração. Viva la vida, coño y dejate de quejas que no ganas nada con ellas, diria se fosse espanhol. Como não sou mas falo a língua, digo-o na mesma: que se lixem as queixas. Apresenta-as ao teu sindicato, ele está aí para te defender das agruras da existência.

(Cont.)

25.9.21

Tudo o que vejo, tu

Vejo fotografias lindas deste mundo e pergunto-me como seriam contigo nelas, nele.

Concluo que pouco mudariam: estás em tudo o que vejo.

Quantidade, qualidade et alia

Há quem treine em ginásios, em tapetes rolantes, bicicletas fixas, halteres. Eu treino no passado e no futuro. Corro com um e faço o outro, milímetro a milímetro. Ambos me são gentis, como se tivesse sido eu a fazer um e a esperar o outro, braços abertos e mente fechada. É mais ou menos isso: fiz o meu passado tanto quanto modelo o que aí vem.

Só não é inteiramente isso porque o passado também me fez, tal como o futuro: sou o que fiz e o que serei.

Em partes iguais? Não sei, mas espero que sim. Não é a quantidade, meu caro. É a qualidade que conta.

Presente, passado, futuro?

Ainda agora estávamos deitados, não é? Um ao lado do outro, ou dentro (se preferires) e eis-nos aqui agora de repente deitados a milhas um do outro, ligados apenas pela memória e pelo desejo. Separa-nos o presente, miserável presente. 

Enfim, verdade seja dita: prefiro estar separado de ti pelo presente a estar longe no futuro, ou a não ter sequer estado perto no passado.

24.9.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 24-09-2021

Lá vamos nós de novo a escorregar por este rinque de patinagem no gelo, sem patins e sem objectivo. Sem nada em frente, digamo-lo já, de seguida. E com tudo atrás: anos de patinagem no gelo, figuras lindas, confusas, mistas como as tostas nos cafés: queijo e fiambre, mas nem um nem outro têm sempre a mesma qualidade. As combinações são várias: bom queijo, bom fiambre, bom pão. Assim de repente creio que há nove delas mas não as vou enumerar todas: falta-me paciência e sabedoria para tanto.

Não sei nada (saber que nada sei é mais do que o que sei). Ou melhor: sei pouco e o pouco que sei é imediato: estou cheio de dores, por exemplo. Estou meio grosso. Estou em Palma. Oiço Lou Reed (Magic and Loss). Quero que as dores se fodam, que vão para longe. Gostaria de ter uma capacidade ilimitada de absorção de vinho tinto, coisa que não tenho, apesar dos anos de treino, note-se. Gostaria de muitas coisas: que o meu P. estivesse pronto, por exemplo. Que todas as cidades do mundo me fossem como Palma. Que o meu amor estivesse aqui (está. O que está longe é o objecto desse amor).

Gosto demasiado de Palma para dizer bem ou mal de Palma: como dizer bem ou mal de mim?

Amanhã largo para Ibiza e Formentera. Forçoso é dizer que podia ser pior: não gostar de uma ou outra é um luxo ao qual me entrego com voluptuosidade, consciente de que é um luxo quase a roçar no pedante. Quase. Entre mim e a pedantice a fronteira é fluida.

Que se lixe a pedantice.

Nada sabemos do que fizemos, quanto mais do que vamos fazer.

Comoção, reclamações

Não consigo, por mais que tente, deixar de me comover quando leio automobilistas reclamar contra as ciclovias. As quais existem, nunca é demais relembrá-lo, devido a esses mesmos automobilistas. Reclamam contra uma coisa que pediram, o que não deixa de me trazer à memória aquele velho provérbio não sei de onde segundo o qual "Deus te proteja de teres aquilo que pedes". Ou coisa que o valha. 

Por mim, trocava todas as ciclovias do mundo pelo fim de buzinadelas, razias, insultos, gritos etc. e poder usufruir das ruas, como os reclamantes.

Bar Rita

Não consigo vir ao bar Rita - uma das minhas casas em Palma - sem pensar numa senhora de nome muito parecido por quem um dia me apaixonei. Foi há muito tempo, há mais vidas do que as que os meus poucos dedos podem contar. Foi um daqueles amores possíveis, impossíveis e belos que nos acontecem poucas vezes em cada vida. Ou no conjunto das várias vidas que cada um de nós vive. Acabou bem: o que começa mal acaba pior, o que começa bem acaba melhor. Ainda penso nela frequentemente, apesar de ter acabado há muito tempo: os amores antigos são como a comida da avó: não voltam e nunca nos deixarão. 

Tal como a comida da avó nos constrói as bases do gosto, os velhos amores constroem as bases dos presentes: nada como uma boa plataforma de velhas dores para edificar - ou evitar - as novas.

O amor durou pouco, mas foi infinito enquanto durou. A prova é que o bar Rita mo traz à memória, como se na cicatriz bem fechada a memória - esse sádico cirurgião - se entretivesse com um bisturi.

23.9.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-09-2021

Fui buscar um copo de vinho para tomar os comprimidos da noite. Os da manhã tomo com leite. Evito beber água, faz-me pedras nos rins e pedregulhos na cabeça. 

Enfim, o tema do parágrafo anterior não são os líquidos mas os comprimidos que agora tenho de tomar quotidianamente. Vejo isto como uma ingratidão do meu corpo, a quem sempre alimentei muito e bem. Doses enormes de álcool, hidratos de carbono e gorduras animais (os três pilares da minha dieta), poucos legumes e vegetais (tenho sérias dúvidas quanto à clorofila, não acredito numa coisa que torna as plantas verdes como os marcianos ou os enjoados), pouca água (sempre associei sede à cerveja). Além da alimentação: deixei muito cedo de fumar cigarros, um pouco mais tarde de fumar outras substâncias, sempre fiz pouquíssimo exercício - o menos possível, diga-se; enfim, sempre tratei bem a carcaça e que ela agora me retribua com comprimidos de manhã, à tarde e à noite acho repugnante. Tentei, verdade seja dita, dissuadir os médicos que me receitaram tais horrores mas não consegui. Foram taxativos: ou isso ou uma punição que não consigo sequer nomear, de tão infame. Resignei-me às coisas e aconchego-as o melhor que posso.

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Acabei a noite no 7 Machos a beber tequila picante. Três euros e cinquenta o cálice, convenientemente acompanhado de sumo de tomate, sal e limão. A tequila é para lá de boa e reconcilia-me com tudo o que me perseguiu esta noite. A saber, a não-pertença. Isto é, a pertença a um sítio ao qual não pertenço. De todas as cidades às quais não-pertenço, Palma é aquela a que mais me entrego, porque é quase como se fosse minha. Não é, mas é como se fosse. Este debate chateia-me porque foi o tema da minha crise dos quarenta anos, só que nessa altura falava de países e não de cidades - Moçambique, Portugal e Suíça. Hoje falo de cidades: Palma, Genebra e Lisboa, se bem a primeira pudesse ser - e se calhar será - substuída por muitas outras. Espero que não, sei que sim, espero que sim, sei que não: ele há turbilhões que nem o mais poderoso dos tremores de terra fará desaparecer. Vá lá, pelo menos vão reduzindo o alcance: hoje falo de cidades onde antes falava de países. Não tarda falo de bairros, que é o que na verdade menciono quando falo de Palma, Lisboa ou Genebra: bairros, no sentido de arrondissements em Paris (XIII, XIV e XV, se por acaso).

¡Qué vaya!: vivi até hoje como viverei a partir de hoje, com a possível excepção dos livros, que quero perto de mim. Que nunca mais me deixem. Eu retribuirei, prometo. O que não daria para ter agora um livro do Cavafys na mão, em vez de ter de me chatear com o Google. E daí saltar para o Quarteto de Alexandria percorrendo lombadas de livros... Puta que pariu o que vivi até hoje: tenho a morte inteira para morrer. Até lá, continuarei a viver. A prova é que estou enamorado, coisa que aos sessenta e quatro anos não sabia possível.

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Tudo é possível. Basta quereres, poderes e teres tempo. De uma simplicidade arrebatadora, eu sei. Mas gosto da simplicidade, cosa fare?

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Sempre gostei de focais longas em fotografia e agora apercebo-me de que as grande-angulares são importantes também. Muito mais do que sempre pensei, o que só demonstra que «sempre» tem uma duração limitada, como os iogurtes, o leite e o pão.

22.9.21

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-09-2021

Não tenho nem nunca tive uma mulher em cada porto, mas tenho uma bicicleta. Enfim, em cada um dos que frequento mais. A saber, Lisboa e Palma. Na verdade em Lisboa tenho duas: uma de estrada e outra de cidade. Aquela, vou vendê-la. Pouco a uso. Já a Coluer, só a troco por melhor e à vista não está nada melhor (mentira: uma Alps Vintage está no horizont. Porém, como este vai-se afastando à medida que avanço, é como o Teide que se vê três dias antes de se chegar à ilha).

Em Palma tenho uma Órbita branca, bonita e confortável, embora não tanto como a Coluer. Não percebo o suficiente de bicicletas para saber de onde vem esta diferença - isto é, sei que vêm do quadro, mas não sei o que as origina. Interesso-me pouco pelo tema. Não quero saber nada sobre a mecânica das bicicletas, por exemplo. Se uma mudança não entra bem, levo-a ao Ivo (em Palma) ou ao Fernando (em Lisboa). Ajo com as burras como os armadores comigo em relação aos botes: quero que isso ande e é tudo.

Hoje fui jantar ao Alfredo, um galego que tem bons vinhos, boas tapas e bons preços. Também tem uma mulher bonita, mas isso indifere-me. Só penso que o homem tem um bom gosto abrangente (ou circular, se preferirem).

Fui finalmente buscar a máquina fotográfica e o The invention of yesterday, uma sugestão do V. P. que a julgar pelas primeiras páginas parece bastante interessante. Verdade seja dita que do V. não seria de esperar outra coisa: com a excepção das opiniões políticas, tudo o que dali vem é ou bom ou excelente. Sendo estas, regra geral, a faceta menos importante das pessoas, pouco interesse lhes dou. Com a possível excepção de um bom debate intelectual, sem pretensões de convencer ninguém, o que as pessoas pensam sobre um partido qualquer é-me tão indiferente como o que pensam sobre o pão-de-ló de Arraiolos.

Mesmo que esse partido seja de esquerda.

19.9.21

Diário de Bordos- Lisboa, 19-09-2021

Estou numa esplanada a beber vinho tinto fresco e a apanhar sol quente. O vinho custa oitenta cêntimos o copo e é honesto, sem pretensões mas correcto. O Sol não custa nada, antes pelo contrário: recebo dele mais do que lhe dou. Costumo dizer que a saúde é a única área da minha relação com o meu país em que sou claramente o ganhador, mas não é verdade: também fico a ganhar na minha relação com o clima e com os preços dos copos de vinho (isto é uma sinédoque, se por acaso). Agora poderia também dizer que fico a ganhar em relação às mulheres: o país tem-mas dado claramente melhores do que eu tenho para troca. Enfim, isto é um tema delicado - ou pelo menos sujeito a variações tão labirínticas como as Variações Mandé que agora oiço, cheio de sol, amor e vinho tinto, tudo coisas que recebi do meu país e não retribuí à altura.

As Mandé Variations levam-me de passeio, de divagação em divagação. É um dos meus discos favoritos, já aqui o tenho dito muitas vezes. Não é de música africana, é música, ponto. Prova provada - como se fosse necessário - de que a música é como as pessoas: não tem passaporte. Classificá-las por origens é uma facilitação de linguagem e de raciocínio e como tal deve ser tomada. Não mais. Não há chineses: há pessoas que nasceram na China, ou são de ascendência chinesa. Não há portuguesas: há uma mulher que eu amo e nasceu em Portugal, nos Açores, ilhas encantadas s'il en est.

Uma mulher que eu amo e esse amor vai subido como sobe a maré. Qual maré, pergunta o marinheiro em mim: a do Mont Saint Michel, mais rápida do que o galope de um cavalo? Ou a do Mediterrâneo, invisível? Fiquemo-nos pelas marés abstractas, «normais», semi-diurnas. Fiquemo-nos pelos amores concretos, os que dia a dia sobem como sobe a maré abstracta. Fiquemo-nos pelo amor, o que não tem passaporte nem carimbos nem renovações: é uno e sempre uma viagem, com a Lua por companheira, como as marés.

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Antes do sol e do vinho tinto fresco o que me apetecia era uma imperial e um croquete na Portugália. Felizmente pediram-me o «certificado» e face à sua ausência não me deixaram entrar. Fiquei a ganhar com a troca - o meu país é generoso, no fundo - mas lembrei-me da minha adopção da bicicleta como meio de transporte. Foi em Genebra, cidade que tinha um grave problema de tràfego automóvel e resolvera resolvê-lo. O método escolhido foi simples: tornar insuportável a vida dos automobilistas. É o que as nossas autoridades estão a fazer com estas regras: forçar as pessoas a vacinarem-se pelo cansaço, já que os benefícios das «medidas» são risíveis e os malefícios da doença são pouco visíveis, contrariamente aos problemas de trânsito automóvel na cidade de Genebra. 

Haveria talvez de fazer um distinguo entre os problemas automobilísticos de Genebra e os «problemas» ligados ao vírus Sars-CoV-2 (as aspas não são um acaso): pergunto-me (e já agora pergunto a quem sabe) quantas das dezoito mil pessoas que até hoje morreram com Covid em Portugal teriam morrido no prazo de um ano, sem vírus? Talvez este não tenha passado de um catalisador, um acelerador, não? 

Claro que é preferível morrer um ano mais tarde a morrer um ano mais cedo, não ponho isso em causa nem um segundo. A questão não é essa. É: o preço que pagámos todos (e ainda estamos a pagar) é proporcional a essa vantagem? Justifica-a? Respectivamente: não e sim, mas só muito parcialmente. Eu estou disposto a ceder uma parte da minha liberdade para que o meu vizinho viva mais seis meses, sem dúvida. Não estou é disposto a pagar tudo o que paguei para isso - tanto mais que as autoridades poderiam ter tratado melhor do meu vizinho velhinho, em vez de concentrar a sua fúria benfeitora em mim, homem são e sem grande temor da morte (não por valentia, por estatística).

NÃO SEI - LISTA NÃO EXAUSTIVA

Estou no restaurante Zebras do Combro, sito à calçada do Combro e penso que tenho de ir para casa. A Coluer espera-me, amarrada a um poste. Contudo, o cansaço e o ziguezagueante raciocínio levam-me pelos carreiros da vida, forma simpática de me manter aqui sentado. Para fazer qualquer coisa - seja o que for - é necessário um misto de tempo, vontade e meios. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, estes são fundamentais: procurem levar um contentor de Lisboa a Nova Iorque num barco a remos ou numa prancha de SUP e verão o resultado, por muito tempo e vontade de que disponham. «A boa ferramenta faz o bom operário», diz um provérbio judeu aplicável qualquer que seja o sentido que se dê a ferramenta.

Ou seja: ponhamos provisoriamente de lado o terceiro termo da equação. É uma constante, não é uma variável. Tenho os meios para ir para casa: a supramencionada Coluer, bicicleta preta, quadro clássico feminino, sete velocidades, cesto dianteiro e gira como o dono, acabo de explicar a uns senhores cabo-verdianos que ma gabavam há pouco. Tenho os meios, tenho tempo, falta-me a vontade, é tudo. Tendo dois dos três ingredientes, exploro nos tais ziguezagueantes labirintos todas as outras coisas que tenho de fazer.

O restaurante Zebras é horrível. As únicas coisas que o salvam são a cozinha, a simpatia do pessoal, a decoração - toda de azulejos - a localização (perto do Largo Camões) e a dimensão (pequeno). Além disso, nada. As favas, por exemplo: sublimes. Quem faz favas assim no Verão vai para o céu na Primavera (alegoricamente falando, claro. Espero vivamente que seja daqui a muitas primaveras). O igualmente sublime bagaço da casa. O preço deste frugal jantar: qualquer calvinista o aceitaria sem ser submetido a tortura. Que tenho de fazer, além de pedalar até casa, confortavelmente sentado numa poltrona com duas rodas, dois pedais e um guiador? Escrever estes textos, por exemplo. Tudo me falta, mas à vez: ora é o tempo, ora a vontade. Os meios não: papel, caneta, telefone portátil e computador há sempre, por atacado ou a retalho. Tenho de responder à D.: falta-me o tempo. Tenho de... Falta-me a vontade. Enfim, não quero maçar os leitores com as minhas divagações pelos labirintos do dever: a lista é interminável. Ora me falta isto, ora aquilo, ora tudo ao mesmo tempo.

Retomemos o caminho, antes de parecemos formigas ébrias com um ataque de solipsismo: não sei por onde vou, mas sei que não vou por aí. Pergunto-me o que levaria uma formiga a perder-se? Primeiro, como seria possível em termos físicos. Segundo, que sobraria da psique de uma formiga se se perdesse? Nada, claro. Nem da psique nem de mais nada. Uma formiga perdida perde-se em todos os sentidos do verbo perder-se: nada sobra, no fim. Não é o nosso caso: perdemo-nos por estas veredas mas encontramo-nos algures na Baixa para um último copo, espero, se possível na ginjinha da rua das Portas de Santo Antão.

Raio do texto está a fugir-me, como a formiga individualista. Problemas de quem leu Sterne em jovem, o que não foi o meu caso, prova provada de que a minha infância não foi tão feliz como a imagino. Falava simultaneamente de dois temas: o restaurante Zebras do Combro – está arrumado: é excelente; e a mistura de componentes de que se necessita para fazer qualquer coisa: tempo, vontade e meios. Creio também que algures aí pelo meio falei da fatiga – a que outros chamariam exaustão, mas esses são ou exagerados ou meninos urbanos poliamorosos. Não sou nem uns nem outros. Exaustão tem para mim o significado que sempre teve: vazio, cheio de coisas para fazer. Talvez não fosse má ideia rever o conceito. Se não tiveres nada que fazer, não podes estar exausto, porque a exaustão tem a ver como futuro e não com o passado. Não estás cansado porque fizeste, mas sim porque não podes fazer mais nada. Só se está exausto ab ante: antes de fazer qualquer coisa, não depois.

Bom, passemos. On s’en fout. O que é importante, no fundo?

Resposta: importante é o que queres e consegues fazer depois de estar exausto. Depois de estares morto, de não saberes como te chamas, onde nasceste ou onde queres morrer. Não há melhor critério para delinear «importante»: o que fizeste depois de morto. (Antes disso tudo foi secundário, aceita-o de uma vez por todas.)

Por que caminhos andarão as formigas a direito?

Estamos a falar de carreiros labirínticos. De coisas que partem de um restaurante na calçada do Combro e acabam na exaustão, no cansaço – nos cansaços: o físico e o metafísico, do qual tão bem falou o Álvaro, amigo meu íntimo do coração.

« Estou cansado, é claro,

Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.

De que estou cansado, não sei:

De nada me serviria sabê-lo,

Pois o cansaço fica na mesma.»

 

Depois, vem o verso chave:

«E a luxúria única de não ter já esperanças?»

Reconheçamos: ele estava menos cansado do que eu. «Esperança» é uma palavra banida do meu léxico. Já «Luxúria» não sei. A luxúria ou é destemperada ou não é. Nada espero e consigo que isso seja diferente de «De tudo desespero.» Como naqueles quadros do Klee, eu sei: a relação entre o nome do quadro e o que ele dá a ver é muito ténue e reclama grande participação de quem o vê.

Bom, tentemos ordenar isto: os bons jantares terminam num labirinto fantasmático, cansaço metafísico, carreiros ondulantes ou simplesmente na espera pela senhora que decidiu agraciar-nos com o seu amor e receber o nosso?

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Não sei.

As discussões devidas à minha recusa em usar máscara diminuiram em quantidade e aumentaram de alacridade. Suponho que do meu lado há cada vez menos paciência; do lado de quem tenta implantar regras absurdas também, porque há cada vez mais pessoas a recusar cumprir as tais regras.

Isto não é o resultado de um estudo «científico». Talvez seja apenas a minha esperança a parir, uma vez mais. Parece um peixe de que todas as ovas dão origem a um descendente: a minha esperança tem uma prole infinita, pare ao menor pretexto, emprenha por autogénese, não pára.

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A Covid tocou os fundamentos da nossa sociedade, minou-os (mas não de morte. Cf. supra). Infelizmente a verdade é que isto não começou com o maldito vírus, vai muito mais longe, muito mais atrás. O C. M. F. diz que vem do fim dos impérios. Não o creio, mas tão pouco sei onde começou o pêndulo a oscilar no outro sentido. Talvez na segunda guerra mundial, quando a ciência eclodiu em Nagasaki e em Hiroxima? Talvez na primeira, com o gás mostarda e a aviação?

Será que vai ser precisa uma nova guerra para pôr o pêndulo a mudar de direcção?

Pergunta: o pêndulo pára no seu ponto mais baixo. O que lhe garante que ele manterá o seu movimento? De onde vem a energia necessária para isso?

TPC – Descreva em menos de mil palavras o que sabe da entropia, da neguentropia e da vida sexual dos pêndulos.

.........
«A ciência tornou-se a nova religião», diz-me o C. Verdade, claro, mas num sentido secundário: é vista, seguida, ouvida como se fosse uma religião. A ciência não pode ser uma religião, pelas simples razões de que a) é amoral. «O nosso trabalho é inventar a bomba atómica. O seu é decidir se, onde e quando a usa», poderiam os cientistas do projecto Manhattan ter dito a Truman (atenção, isto não é uma lição de história. Houve demissões no projecto Manhattan por razões morais. Tão pouco tem a ver com teologia. Há moral sem religião, mas não há religião sem moral). b) Não há deuses e diabos na ciência. Que as coisas caiam a nove vírgula oito metros por segundo ao quadrado ou a cinquenta é indiferente. Já para as religiões é importante saber quantas vezes comeste carne à sexta-feira, bebeste álcool ou comeste marisco. A aceleração da gravidade é o que é; desejar a mulher do próximo uma vez é diferente de a levares para a cama todos os dias e serás punido diferentemente, se acreditares que é pecado (é, se pecado for sinónimo de errado, mas isso é outra história e fica para depois).

Sem Diabo Deus não existe, não é nada, é um verbo de encher. Sem um nem outro, a ciência vive muito bem; quem não suporta a sua (deles) ausência são os proto-religiosos do nosso tempo, os que queimam livros do Tintim e atribuem a escrever tod@s em vez de todos o poder da poção mágica do Panoramix. Ou acreditam que o vírus se transmite em função do comportamento das pessoas. «Portas-te bem, mascaras-te, limpas as mãos com hidromel e o vírus não sai de ti, ele gosta de rapazinhos bem comportados e de meninas fiéis. Já se andares por aí feito homem livre matas metade daqueles que te rodeiam e metade da metade que só de olhar para ti se vê com um tubo na boca, deitado de bruços numa cama de hospital».

Gosto de Deus e do Diabo mas só nas histórias aos quadradinhos e no pouco que me ficou da Bíblia. Na vida real exasperam-me, prendem-me os braços, asfixiam-me.

Pergunto-me se há verdadeiramente uma necessidade neurológica, evolutiva, darwiniana de religião, de medos fundamentais (no sentido dos que vão aos fundamentos, como o vírus, as alterações climáticas – dantes conhecidas por arrefecimento global primeiro e por aquecimento depois –, a bomba atómica ou que o paquistanês da esquina já esteja fechado)?

Não sei.

Luís Serpa, Lisboa, 17-18/09/2021 (Texto para o Luso Magyar News)

15.9.21

Sugestão aos governos

As pessoas que - como eu - recusam a vacina deviam ser obrigadas a usar um sinal distintivo na roupa. Proponho a estrela amarela porque tem várias vantagens:

a) Já foi testada historicamente com óptimos resultados;
b) É bastante visível;
c) Tem uma conotação pejorativa forte e portanto uma boa capacidade de influenciar comportamentos;
d) É barata e fácil de implantar.

Os governos deviam pensar nisto, em vez de desbaratar o dinheiro dos contribuintes em publicidade estática.

Untermenschen

O vírus concretizou o sonho dos nazis: somos todos untermenschen. Mascarados, vacinados, confinados, com o cu que não lhe entra um feijão e convencidos de que estamos a fazer isto "para o bem de todos". A colectivização da cobardia. A terceirização da boa consciência. A mediocridade dá-se a ver e orgulha-se de si mesma.

Aceitacionismos, razão,liberdade et al.

Ser corajoso não é não ter medo. Isso é ser idiota. Ser corajoso é vencer o medo. Deixar-se vencer por ele é ser cobarde. Cobardolas. Medricas. Mariquinhas pé-de-salsa. Forçoso é reconhecer, contudo, que por vezes a cobardia ganha. Somos humanos imperfeitos, não somos máquinas perfeitas e infalíveis. Às vezes a cobardia ganha e compreende-se - isto é, aceita-se.

Já a estupidez - sobretudo quando vem de pessoas inteligentes - é mais difícil de aceitar. Os estúpidos - grupo do qual faço parte, com grande pena e revolta - têm pelo menos a desculpa da deficiência cognitiva. Os inteligentes - grupo no qual tento escolher os meus amigos, porque para sair com iguais ou piores do que eu basta-me sair comigo - quando fazem ou dizem uma estupidez não têm essa desculpa. Ficam ali, sozinhos no meio da estrada, vestidos (ou despidos) com os farrapos de inteligência que o medo, condescendentemente, lhes deixou.

Ver uma pessoa inteligente desperdiçar esse dom para ceder ao medo está para lá do que se pode aceitar. É desolador, como ver um mendigo nu e esfomeado à porta de nossa casa e não poder ajudá-lo.

Pensar que o livre arbítrio, a liberdade, a razão - tudo aquilo por que o século XIX lutou - vai para as urtigas com um vírus é revoltante. Para a maioria das pessoas a liberdade e a razão não são armas suficientes para lutar contra o medo. O irracionalismo - escola filosófica que fez as delícias da minha adolescência  e abandonei mal cresci um pouco - afinal estava certo. 

A esquerda já foi a ideologia da luz, da razão, da ciência,  da revolta e do progresso. Hoje está reduzida ao aceitacionismo irracional. Não é por acaso que a maioria dos «negacionistas» invoca a liberdade e usa dados objectivos para defender as suas opiniões. 

Volta, Friedrich. Esquece o supra-homem e volta. Estás perdoado.

Isco

À pesca do sono, o vinho nem sempre funciona bem como isco. Melhor tentar outros.

14.9.21

Parece que sim

Dois livros publicados não é o dobro de um livro publicado.  É mais. Não sei como explicar isto. Seria preciso um autor confirmado ou um matemático especialista em séries não lineares, suponho. Tanto mais que três livros publicados é o triplo de um. Há um espasmo qualitativo entre o primeiro e o segundo, creio, que desaparece depois.

Não sei. Só sei que tenho um segundo livro a caminho e que isso me deixa imensamente feliz, apesar de igualmente incrédulo. Alguém achou aquilo bom? Parece que sim.

Diário de Bordos - Lisboa, 14-09-2021

Circular em bicicleta na cidade tem inúmeras vantagens. Vou enumerar três. (Há aqui um subtil jogo de palavras - ou de vogais, para os mais preciosistas -: troca-se uma vogal e a palavra gira de cento e oitenta graus. Espero que tenham visto e apreciado.) As três qualidades da circulação em bicicleta que seleccionei para hoje são:

a) Podemos andar à velocidade que nos apetece. Não há sinais a limitar-nos a velocidade máxima ou mínima, não há filas de carros cujas velocidade temos de respeitar. Nada disso. Rolamos tranquilamente na ciclovia - ou na via, tout court - e aquela malta das caixas verdes ou amarelas com bicicletas eléctricas passa-nos como quer. Avisa-nos gentilmente com um toque de campainha ligeiro, nada agressivo e passa. 

b) Não precisamos de nos preocupar com a EMEL. Uma bicicleta estaciona-se praticamente onde se pode estacionar e ninguém - salvo os condóminos mais idiotas - nos vem chatear. E mesmo para esses há remédio: deixa-se a burra na rua ou subimo-la para o apartamento.

c) O prazer, o simples mas rigoroso prazer de pedalar pela - por exemplo - Baixa de Lisboa, ver lentamente prédios que vimos centenas de vezes, reconhecer apartamentos onde amámos ou deixámos de ser amados. Em espanhol pedalar diz-se pedalear e aquela vogal faz uma diferença enorme, prolonga a palavra e o prazer, adoça-os, por assim dizer. Prolonga-os. «Pedalar» é das raras palavras da nossa língua que podia ter mais dez sílabas e ficaria a ganhar com isso. 

Pedalar é uma das raras actividades físicas que acrescenta prazer à existência (são três, na verdade. A outra é a condução de uma embarcação de vela).

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Um dia terei tempo para ler todos os livros que compro. É para isso que os compro: para ter tempo de os ler, um dia.

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Continuo sem saber o que me faz ser desta cidade e não de outra qualquer porque não consigo definir o que sinto quando as ruas da Baixa desfilam por mim, parado na minha bicicleta e me olham, cumprimentam, dizem «Olá, Luís. Por cá de novo? É bom ver-te.» Como explicar este sentimento? Ficando calado, suponho. Retribuindo o cumprimento. 

Ouvindo Philip Glass enquanto se rememora o dia, que decorreu ao mesmo ritmo.

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A expressão francesa para «estou apaixonado» é «je suis tombé amoureux». Obviamente prefiro-a: «caí» transmite melhor a sensação de surpresa. Caí amoroso. Tropecei no amor. «Estou» é demasiado estático para este sentimento extático - mais uma palavra que muda completamente mudando-se-lhe uma letra. Êxtase. Amor. Espanto. Como traduzir isto?

Como supra: uma aflitiva falta de palavras. Ou então uma só: amo-te. O mundo que se arrepie. Eu já estou.

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Mais um almoço na Merendinha do Arco. Desde as pataniscas - as melhores de Lisboa e arredores, incluindo nestes arredores o Minho e o Algarve - até ao xiripiti tudo é perfeito. Desde a simpatia dos funcionários da casa até à companhia, levemente abordada no parágrafo acima deste, passando pelo bacalhau à Braz, arrozes de polvo e doce. Abençoada seja a D. Fátima, abençoada seja esta Lisboa de que sou, de que serei sempre, abençoada esta flor que me picou e prendeu como se dela eu fosse a cor. Ou ela o nome e eu o espinho, vá saber-se.

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A Ler por aí... mudou para a Casa Independente. De todas as livrarias pequenas que conheço - são muitas - é a mais bonita. De todas as livrarias bonitas que conheço - ditto - é a mais pequena. Duas poderosas razões para a visitardes. Das cinco às nove da tarde, quase todos os dias: faltam o domingo e a segunda-feira. 

(Esta apreciação é completamente objectiva, independente, não tem nada que ver com a intensa amizade que me liga à Margarida e muito menos com a admiração que tenho por ela.)

13.9.21

Imperfeição, tolerância

Sendo como sou um ser imperfeito - ou, provavelmente, mais imperfeito do que a média - habituei-me a aceitar a imperfeição nos outros. Evito julgar, excepto quando inevitável ou inescapável - tenho, por exemplo e como toda a gente um horror absoluto à pedofilia, apesar de o saber cultural (não tenho nada contra a minha cultura, antes pelo contrário); detesto a cobardia, embora por vezes a compreenda; a maldade gratuita; etc. 

Daí talvez a minha inextinguível tolerância: na sua génese está um defeito irremediável.

11.9.21

Amor, mundo

Amo-te. É espantoso como duas palavras e um tracinho chegam para preencher o mundo.

Amor em loop

Talvez pudesses também divagar sobre o inefável: fantasma flutuando sobre outro fantasma, ideia repousando sobre efabulações, amor apoiando-se noutro amor, tão simétricos quanto dois amores o podem ser. Isto é: nada. Não há amores simétricos: cada um deles é único, auto-referenciado. Amar-te é amar-me por teu intermédio. Amar-me é amar-te.

Cores, talvez. Hades. Vida

Talvez pudesses também divagar sobre cores: o efeito mirambolante que o azul marinho tem sobre ti, as dúvidas que o encarnado te provoca, a rejeição absoluta do cor-de-rosa em roupa masculina, o dourado de um rum ou de umas hierbas secas, o tinto profundo ou claro de um bom tinto (ou de um clarete).

Talvez. 

Talvez pudesses fazer muito mais do que o que fazes e talvez pudesses fazer menos. Deixa as cores em paz. Não depende delas. «Ele tinha tomado o autocarro local em Hades» (Anne Carson, Autobiografia do Vermelho). De que cor é Hades? Vermelho, diz o título. Que interessa, digo eu? Só interessam as cores da vida.

Uma cama

Andava a patinar pela vida fora como um paraplégico a quem alguém pusera patins nos pés e empurrara para a pista. Levantava os braços a pedir ajuda e os seus gestos desesperados e descoordenados eram interpretados como forma de se equilibrar: ningém acorria. Assim atravessou o ring de uma ponta à outra, sem aprender a elegância, caindo muitas vezes, mas chegando de pé, que era o que lhe interessava. Chegar de pé. Morrer de pé a olhar para a frente, como se para lá do horizonte ainda houvesse mundo. Como se lhe interessasse o que há para lá do horizonte. «Nem para cá, quanto mais para lá», dizia entre dois desequilibranços. Verdade: nada lhe interessava mais do que não cair, aqui e agora. Antes e depois eram automática e sistemáticamente relegados para o saco do lixo dos dias, um saco assíncrono e talvez por isso sempre cheio.Os marxistas, recordou, chamam-lhe «o saco do lixo da história», mas para isso é preciso acreditar na história. Acreditava, mas não lhe atribuía importância suficiente para o distrair das suas desajeitadas tentativas de não cair. «Imagina uma piscina na qual nadas sem direcção. A piscina é infinita: só tem dois limites - o princípio e o fim. Uma vez dentro dela, fazes o que queres, nadas para onde queres. Só há uma condição: não podes voltar atrás. Não podes voltar a de onde saltaste para a água. Podes tentar todos os estilos: crawl, bruços, costas, mariposa; podes mesmo inventar um estilo só teu. Podes fazer tudo o que queres menos voltar atrás. A piscina só tem uma direcção. Tem uma corrente e nadar contra ela é impossível. Podes divagar, podes perder-te, podes mesmo imaginar que não queres nadar e que vais à rola. Podes imaginar curvas - sinusóides. de Gauss, ciclóides, epiciclóides, parábolas, espirais, trissectrizes de MacLaurin (obrigado, Google). Podes imaginar um mundo plano, em forma de pera, de maçã oun de ananás. Podes imaginar o mundo como o queres - ele nunca deixará de ser o que é: o  ring de patinagem no qual alguém te deixou e no qual nadas ao sabor da corrente, tentando traçar curvas com nomes esquisitos enquanto ouves música com ritmos, melodias e harmonias esquisitas.

A vida não passa disso: um gigantesco desencontro onde por vezes e por acaso encontramos. Encontramos o quê? 

Um corpo, uma mente e uma cama onde juntá-los.

Diário de Bordos - Lisboa, 10-09-2021 / II

Melancólico e solitário jantar no Santa Marta, restaurante que não sendo bom nem mau - antes pelo contrário - tem várias vantagens e poucas desvantagens.

Penso nos vinte anos que me restam de vida - estatisticamente - e pergunto-me se serão iguais aos primeiros vinte. A minha vida uma curva de Gauss? Nunca tinha pensado nisso. Penso também numa «escola de felação para senhoras das classes média e alta» cuja ideia me ocorreu hoje à tarde. Teria êxito? Não posso dar aulas práticas porque nunca fiz nenhuma felação a ninguém, mas talvez pudesse orientar as senhoras alunas, baseado nas que já me fizeram. Não sei. Em Dunkerque a dona do bar do clube (náutico) perguntou-me se eu tinha experiência de bar, para me dar trabalho. Respondi-lhe: "Deste lado sim, muita. Desse não." Ela deu-me o trabalho e correu bem. Talvez com a escola de bicos acontecesse o mesmo, não? Talvez. Penso também na fantochada da Covid. Carmo Gomes, marionestista auto-apontado e malabarista apreciado começa a fazer marcha a ré. Oxalá não lhe caiam as bolas. Ou oxalá sim: não houvesse justiça esta gente pagaria o mal que fez. Mas há e não pagará. Sair-se-á airosamente do inferno em que enfiou o país e o meu estado de espírito, condenado a sonhar com escolas de broches, curvas de Gauss e os últimos vinte anos de vida, tudo isto admitidamente temas interessantes para opor à melancolia e apoiar a solidão. 

O empregado do restaurante percebe de vinhos e conversamos sobre o Porto que bebo, um vintage da Ramos Pinto. Quer vender-mo a seis euros, provo-o e ofereço-lhe três e meio, ficamos nos quatro. O vinho só precisava de arejar para ficar francamente bom e mesmo assim não é melhor do que um bom LBV, mas vá lá, salvou o jantar - um pica-pau decente mas não extraordinário - e o queijo, de Azeitão, agora numa caixa pronto para ser levado a domicílio. 

Não penso só nestas coisas, claro, mas fujo do risco de ser maçador e lembro-me do trajecto que me espera: subir pouco e fazer uma distância maior, subir muito e pedalar menos? Dilema constante na vida de um ciclista urbano, impossível de lhe escapar. Enfim, fossem todos os dilemas assim.

Decido que não quero ver a minha vida feita gaussiana. Da infância pouco recordo, mas por nada deste mundo reviveria a adolescência. Obrigado, Ramos Pinto.

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Acabei por subir a Duque de Loulé, não é assim tão difícil. Antevê-se sempre pior do que o que acontece na realidade, não é? É. O medo é uma droga que tanto pode ser doce como dura, tal qual outras coisas.

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A designação «Escola de felação para senhoras das classes média e alta» apresenta vários problemas: a) felação ou fellatio? b) Porquê só para senhoras? Muitos senhores apreciariam igualmente saber fazer bicos. c) Porquê só para classes média e alta? Os maridos das senhoras (e senhores) do povo também têm direitos, ou não? d) Quem pagaria o curso - as senhoras? Os maridos? «Olhe, se faz favor [ler com pronúncia de Cascais] o meu marido faz anos e quero oferecer-lhe um bom bico.» Ou: «A minha mulher morde-me todo quando me chupa o pénis. Gostava que vocês a ensinassem a não usar os dentes, ela não acredita em mim»?

A ideia parece-me pouco exequível e arrumo-a na gaveta das ideias à Braz: saborosas mas desfeitas. Sorte, porque entretanto chego à parte descendente do percurso e como a paisagem desfila mais depressa (e sozinha) tenho menos tempo para cozinhar fantasias.

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Olho retrospectivamente para o jantar e decido que o restaurante Santa Marta tem mais pontos positivos do que negativos. Há que repor a verdade e a justiça.

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Penso também nas vantagens da vida doméstica, sobretudo quando acoplada ao amor. São muitas, tantas que decido não pensar mais nelas e vivê-las, apenas. Uma e outro. São uma maravilha, quando andam juntos. Prémio Casal do ano? Não: casal da vida. O lado direito da curva andará por alturas que nem o centro sonhou.

10.9.21

Diário de Bordos - Lisboa, 10-09-2021

O meu ombro direito fez-me uma chantagem ignóbil: "Ou tratas de mim ou..." Atrás das reticências vieram dores insuportáveis que - percebi imediatamente - eram só para amostra. De maneira ontem lá fui ao melhor SNS do mundo. Atendeu-me uma médica colombiana e bonita, passe o pleonasmo. Além disso era competente (pelo menos pareceu-me). Saí dali com mais uma carga de remédios, ecografias, fisioterapias e a reconfortante informação de que só naquele centro de saúde há vinte e dois mil utentes sem médico de família. Estou a tratar de um cartão que me permitirá ser atendido em Espanha pelo SNS local, que apesar de não ser o melhor do mundo funciona infinitamente melhor do que o nosso, o melhor do mundo como toda a gente sabe. Aborrece-me um bocadinho que a única coisa na minha relação institucional com Portugal em que era eu o indiscutível ganhador se tenha degradado tanto. Em Espanha também não pago impostos, mas pelo menos tenho quase vontade de os pagar. Quase, claro. Nada de exageros. Não são assim tão melhores do que nós.

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O programa de viagens para as próximas semanas está definido: Lisboa, Palma, Genebra, Bordéus, Palma, Açores, Palma, Caraíbas. Xavier de Maistre não sabe a inveja que tenho dele. 

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Soberbo jantar no Qosqo com A. I. Ele há combinações imbatíveis. A comida peruana é sempre boa; quando é boa, é sublime.

4.9.21

Diário de Bordos - ao largo de Almerimar, Espanha, 04-09-2021

A viagem acabou. Estou de regresso a Portimão, deixar o bote. Curiosa, esta sensação de em breve poder dizer "estou de regresso a casa": há onze anos que não tenho uma. Mais um ciclo que acaba, mais uma vida que começa. Já vou em muitas, mas não deixa de ser excitante, apelativo. Recebo-a como ela me recebe: de braços abertos debaixo da mangueira. 

Vou com o VCP, por enquanto a motor. Amanhã entra o CD, que ainda não conheço mas vou conhecer. A previsão prevé vento, dez a quinze nós pela popa. Não sei se o vento a leu. Espero que sim. O bote anda bem à vela e estou farto deste barulho.

WISE

Wine induced siesta experience. E ainda penso que não tenho jeito nenhum para acrónimos! Até em inglês...

Diário de Bordos - Almeria, Andaluzia, Espanha, 04-09-2021

Passeio por Almeria como um cego por um labirinto de rosas: vim a esta cidade pela primeira vez há quarenta anos e desde aí tenho vindo esporadicamente. Não a conheço - hoje tive de perguntar onde é o casco viejo (à vinda descobri sítios dos quais me lembrava claramente. São rosas, senhor). 

O sherry é sublime. Não pergunto a marca: devemos resistir à tentação de tudo saber, de tudo cobrir com palavras.

Continuo a ver montes de gente com máscara na rua. Também da tentação de me chatear fujo, feito cobardola das emoções. Se querem parecer idiotas - ou mostrar que o são - pareçam, mostrem. Só me aborrece que tantos sejam jovens. Que fizemos nós desta geração, nós agora velhos? Como nos transformámos de revoltados reichianos, debordianos, marcusianos em carneiros hiper-protectores, de bondade e medo hipertrofiados, carneiros a fazer carneiros?

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Estou no interior do bar do Hotel da Catedral. Se fosse sensato, alugaria aqui um quarto para dormir a noite, envolver-me-ia em sherry cujo nome ignoro e dormiria sem pensar em mais nada senão no meu próprio sono, sono que se enrola em sono. Mas não só não sou sensato como também sou um teso, apesar da gorja generosa e inesperada que recebi hoje. Quase uma semana para vir de Portimão a Almeria. Navegação soberba, apesar do excesso de motor, clientes impecáveis... «Nem parecem portugueses», penso e ao mesmo tempo «tenho de deixar-me destas fronteirices idiotas. Já tens idade para saber que não há portugueses, franceses ou espanhóis, há pessoas. Além de que tu gostas dele, desse teu povo que não te compreende e te regurgita cada vez que tentas fazer parte dele mas ao qual reconheces qualidades  (e não és o único, de passagem seja dito)». Algumas pessoas são porreiras e outras não, como os pimentos de Padrón. Não tem nada a ver com os passaportes, por mais que eles - os passaportes - tentem fazer-nos crer que sim.

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Será o meu cansaço solúvel em sherry? Sim e não: há muita vida para lá do sherry. Há a calma do bar, de que sou o único cliente (no interior. A esplanda está cheia); a sobriedade da decoração; há a solidão, a deliciosa, doce, apaziguante solidão.  Há o sono, que me espera a bordo, sorridente e de braços abertos, como se me dissesse «Vês? Não precisas do hotel para nada».

[Tinha razão.]

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Roupa velha:

No porto de Soller os restaurantes de que gosto ou me sugerem estão cheios. Meti-me num táxi e venho para Soller. O restaurante que o taxista me sugeriu também está cheio, tão cheio de gente como eu o estou de fome. Arranjo outro, ao acaso. O início não augura nada de bom: não tem palos e de vermutes só Martini. Vamos ver: quantas refeições começam mal e acabam bem? Muitas, mais do que as que posso contar.

Ainda é segunda-feira e já estou cansado. Verdade seja dita, não tenho muitas razões para isso. Os clientes são muito bons, uma família de franceses, judeus «semi-praticantes» (aspas porque cito), pai, mãe, duas miúdas de doze e dezasseis anos. Amanhã chega o filho de dezoito, vem de Chipre. Ele é matemático [não é, é engenheiro], deve trabalhar em finanças [é chefe de uma empresa familiar]. Ela, médica. Falamos de Covid, claro, uma conversa civilizada, polida, educada, interessante. Tristes os tempos em que se tem de assinalar ter-se conseguido manter uma conversa educada sobre opiniões divergentes. O único momento de ligeiríssima exaltação foi entre a senhora e ele. Ela é visceralmente contra a vacinação das crianças, não gosta de ouvir dizer «os números, etc.» que o marido usa amiúde, acha que não se deve fazer experiências com crianças e menos ainda se essas crianças forem os filhos. Disse-lhe que na minha opinião aí os governos tinham atravessado uma linha vermelha e que a maioria das pessoas reagiria como ela. «Talvez não», respondeu, vejo agora que cheia de razão.

(Porto de Soller)
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A carcaça está a reagir bem aos comprimidos todos que lhe dou a tomar [mentira]. Pareço uma farmácia ambulante. Já não aguentava as dores nas costas. Ando inquieto: daqui para a frente terei de andar de comprimidos às costas?

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São sete e meia da tarde. A luz fica densa e cor-de-laranja. A maioria das pessoas do dia foi-se embora, mas ainda há algumas a chegar, raras. Chegam também dois ou três veleiros, esperando encontrar alguma calma na cala agora quase deserta de nós. Espero que a encontrem e que as minhas histéricas não lhes defraudem as expectativas. Hoje apareceram-me de ar contrito. Uma delas - por acaso, a minha favorita - perguntou-me se estava zangado com elas. Perguntei-lhe porque o estaria? «Por causa do desastre». Respondi-lhe que não, claro. «Não sou vosso pai».

A verdade é que não me interessam. Resta saber se por questões de estética - a boçalidade é feia - se por ciumes, inveja, dor de cotovelo. (A pergunta é retórica, claro, mas não tenho nada contra a retórica.) As duas da semana passada eram mais calmas (estavam com os pais) e ainda mais pirosas. Alguém devia explicar às senhoras que um calção de bikini a entrar pela raia dentro passa a fronteira do bom gosto e é capaz de desentesar um elefante. (Refiro-me à peça de roupa conhecida por fio dental, designação abominável s'il en est.)

O cor-de-laranja invade tudo, à medida que o Sol se afunda por detrás das árvores. O azul do céu, o verde das árvores, o branco das rochas e a cor indefinida da água ligam-se como se o cor de laranja tivesse desbotado.

(Cala Torqueta)

29.8.21

Diário de Bordos - Vilamoura, Algarve, Portugal, 29-08-2021

A marina de Vilamoura está cheia de gente. É uma espécie de centro comercial gigante com um food court hipertrofiado. Noventa e nove por cento destas pessoas nunca viu um barco a menos de vinte metros. Do um por cento que resta, não vale a pena falar. Pouco me interessam, na verdade, tanto uns como outros. Cansado de andar entrei num bar. Apetecia-me um cocktail. A música é pavorosa, mas sair implica meter-me de novo no meio desta mole de gente feia, gorda e barulhenta. A minha agorafobia - que de resto sempre foi ligeira - não se tem manifestado. Obrigado à Covid. No mesmo bar mas do outro lado da rua um bando de adolescentes (creio, a julgar pelas vozes) canta karaoke. A mistura é insustentável. Prefiro a multidão, que de resto começa a diminuir.

O bar seguinte tem um senhor da minha idade a cantar. Podia fazê-lo pior,  verdade seja dita, apesar de não ser muito entusiasmante. Mas já só tem dez minutos e pode ser que tenham rum. Já me conformei a ideia de que vou passar a noite aqui. Perdi um soberbo dia de vela. Neste negócio aprende-se depressa a não nos chatearmos com o que não reage à nossa chatice. A quantidade de factores que não controlamos é de longe mais vasta do que aqueles sobre os quais temos algum poder. E praticamente nenhum deles reage àquilo que sentimos. Mais vale quedarmo-nos quedos e pensar neste Verão, está quase a acabar. Onde estaremos, quando ele acabar? 

Descobre-se que o Verão está a acabar quando pela primeira vez temos de nos tapar à noite. É um choque. Não foi hoje. A música acabou. Acabo o mojito e vou para bordo. Os passageiros vão chegar daqui por uma hora ou duas. Chego ao fim da vida a perguntar-me o que é ser marinheiro. Crise tardia de identidade? Ainda tenho muito tempo pela proa para encontrar a resposta, decido. Não controlamos a ponta de um chavelho e controlamos afincadamente a ponta do chavelho que nos escapa. Não tenho poder nenhum sobre o vento, mas tenho sobre o que fazer para o aproveitar. Quem diz vento diz corrente, profundidade, marinas de merda ou bares idem.

(Por que raio de carga de água anda tanta gente de máscara? Não terão vergonha, estes palermóides?)

Estou em carne viva outra vez. Suporto-me melhor na versão urso. Sou mais pesado para os outros e mais leve para mim. Infelizmente nunca duram muito, esses episódios. Ando sempre a esfolar-me.

Outro mojito e vou para bordo. É preciso dar tempo ao Verão para acabar em paz. 

Adenda: alguém pode iniciar uma petição para acabar com a merda das palhinhas nas bebidas? Que leva estes gajos a pensar que tenho seis anos? Não lhes falo senão para pedir a bebida...

28.8.21

Contra os "direitos"

Esta coisa dos "direitos" (aspas porque cito) intriga-me. Sera que nas sociedades canibais a alimentação é um direito? Se assumirmos que não há direitos sem deveres associados (assumpção defensável, todas as moedas têm duas faces), qual o dever associado à alimentação? Comer saudável? Se é o Estado que paga a saúde e quem paga manda, todos temos a obrigação de viver saudavelmente? Vamos começar a contar os copos de vinho que bebemos ou as colheres de açúcar que se põe no café? Quantos cafés posso beber por dia? E rum, posso beber? Porque é que o Estado me obriga a usar cinto de segurança num carro e não me obriga a fazer vinte minutos de exercício diário? Está mal.


27.8.21

Posso escolher?

(Declaração de interesses: tenho uma paixão insana por Sevilha, cidade que conheço muito parcialmente.)

O aeroporto de Sevilha é uma cópia em negativo dos de Madrid ou Barcelona. Parece que aterrámos na casa do guarda-linhas. Em quinze minutos estava cá fora, merdices sanitárias fintadas - sem grandes manhas,  há que dizê-lo.

Meto-me num táxi, peço-lhe para me deixar na Macarena e - resumindo imenso - como agora um Adobe absolutamente magnífico, peixe frito com uma interminável lista de ingredientes, seja Deus louvado. Vou ao balcão pedir outra tapa, o homem pergunta-me "confia em mim, señor?" respondo sim, claro. O marido da cozinheira é português de Leiria, digo-lhe que tenho lá família, pergunto-me se é de Sevilha que gosto se é do sitio onde estou, decido: é dos dois. 

A camisa branca de linho que pus há bocadinho dá mostras desta batalha. Já tenho uma condecoração. 

A segunda tapa está tão boa como a primeira. É de carne, porco, podre de boa. Carrillada, diz ele e eu acredito. Tudo isto por quatorze euros e vinte cêntimos, quantia com a qual em Palma teria direito a olhar para um prato vazio.

Agora, sentado na camioneta que me levará a Faro, pergunto-me porque não viajo mais vezes como turista, como toda a gente?

A resposta é simples: não sou toda a gente. E complicada: não quero ser toda a gente. Não sei é se se pode escolher, mas isso é outra história. 

Questões de gosto

Talvez devesse começar por dizer que não acho Portugal um país particularmente bonito. Com a excepção total dos Açores e parcialmente da Madeira não há uma região (das que eu conheça) da qual se possa dizer que é linda de morrer (ou viver, se preferirem).

Mas ninguém gosta de uma mulher só porque é bonita, pois não?

Dos voos à TAP num ápice

Se o amor faz milagres este foi um deles.  A tal ponto que o escrevo no ar, os aviões agora têm net. Só foi perigoso enquanto as companhias não aprenderam a facturar as ligações. Aprenderam depressa e agora não há voo que não a tenha. Ou quase: na TAP ainda não vi. 

A Alitalia foi para o galheiro. Há muito tempo que voava nas bordinhas, como a TAP. Para sorte dos italianos, eles não têm um Pedro Nuno. Ou azar, vá saber-se. Assistir ao descalabro de um país sentado no camarote da direcção, servido e impune deve ser muito bom. Para quem usufrui das benesses, claro. Para quem as paga é menos agradável.