14.9.22

Diário de Bordos - Macinaggio, Bastia, Genebra e Palma, 14-04-2022

Vai-se de Macinaggio a Bastia por uma estrada rente ao mar, cortada na encosta da montanha, sinuosa e estreita como todas as estradas de montanha. O piso é óptimo e o condutor do autocarro escolar conhece-a de cor e salteado, claro, como conhece os jovens estudantes que vão embarcando ao longo do percurso. O dia está lindo, a vista é de cortar a respiração.  A Leste, o Sol nasce entre as ilhas de Capraia e Elba. Entre nós e ele uma fila continua de nimbus deixa cair uns aguaceiros dispersos e que se adivinham fracotes. Para cá dos nimbus, uns poucos cumulus, céu azul e a Lua, mentirosa. A mistura é cinzenta, melancólica - para a frente só vejo a nebulosidade, para a esquerda o mar em dois tons de cinzento: escuro debaixo dos nimbus, mais claro, quase azul, para cá. Toda a gente sabe que a Córsega é bela (não por acaso os franceses chamam-lhe Île de Beauté) mas uma coisa é sabê-lo e outra percorrê-la.

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O idioma corso está muito menos presente do que o maiorquino em Mallorca. Parece-se com o italiano, mas cheio de u, a vogal mais feia das cinco, para mim.

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Ainda não são sete e meia da manhã e há montes de cafés abertos nas aldeias por onde passamos; e trânsito na estrada: de camiões a ciclistas vê-se tudo. Terra para matinais, ao contrário de Espanha, que o é de vespertinos.

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Tomei o pequeno-almoço na praça Saint-Nicolas, como o P. me sugeriu. É uma praça grande, rectangular, com duas estátuas e muitas árvores. Comi pão com manteiga, muita manteiga até pelos meus padrões. Já não podia com os doces que o P. tinha. Devia ter-lhe dito logo no princípio, mas não disse e depois é tarde. Não vi de quem eram as estátuas. Do outro lado da praça estavam atracados três ferries. Um dia disse a alguém que cresci a ver navios, mas não é inteiramente verdade: toda a minha vida foi passada a ver navios.

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Aeroporto de Genebra 

As três horas de espera no aeroporto de Genebra acabaram por passar depressa: esperarpela bagagem, fazer outro check in, ir à Migros do aeroporto comprar uma pasta e escovas de dentes, beber um copo de vinho e eis-me de novo na fila para o filtro de segurança. A língua que mais ouvi até agora foi português; as mulheres continuam magras e bonitas, mas não tantas nem tanto como na cidade. Deve haver um filtro para elas também. 

É doloroso estar tão perto daqueles que amo e não poder ficar uma noite sequer, mas a verdade é que não fazia sentido nenhum. Demasiado caro para demasiado pouco tempo. De qualquer forma, não tarda estou aqu. Questão de ter a vista a ver de novo.

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Cedo piaste. O avião tem hora e meia de atraso e o copo de vinho no sítio onde costumo esperar aqui no aeroporto custa nove euros e vinte e sete cêntimos. Duas verdades dificilmente conciliáveis, tanto mais que este bar é o mais barato do Aeroporto, mera coincidência, claro.

Aqui não posso fazer o que faço em Lisboa:--------- (apagado a pedido de várias famílias). Na Suíça a pobreza não faz amigos. Quando muito, suscita aquela mistura de desprezo e compaixão que não suporto e à qual nunca me submeteria.

De maneira lá vou tentando fazer durar o vinho, com uma taxa de insucesso bastante elevada porque é bom como o raio que o parta. Se ao menos fosse mau.

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Às vezes pergunto-me se os aeroportos não serão como as mulheres: não se pode viver com elas, mas sem elas é pior ainda.

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Palma, finalmente! Vim ao Lo Divino, Estou cansado, desde manhã a andar de um lado para o outro e a esperar em aeroportos. O Lo Divino está cheio. Infelizmente têm música ao vivo, mas estava cheio de saudades da Núria e do Roberto. É uma mistura frequente em mim, esta: saudades e fome. A Núria está resplandecente, o vinho que me recomendou é óptimo - desde que lhe disse de que tipo de vinhos gosto nunca se enganou - e se tudo correr bem a rapariga (que por sinal não canta mal mas podia cantar infinitamente melhor) vai calar-se daqui a pouco. 

O problema disto tudo é que cada vez mais me apercebo de que quero viver em Portugal. Não perguntem.

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Não se calou e agora dedica-se a assassinar canções da bossa nova. A última que reconheci era uma das minhas favoritas, cantada pela Maria Creuza, «eu sem você não tenho porquê». Dou graças pelo cansaço, que me permite alhear-me completamente do que me rodeia, ruído incluído. 

(Cont.)

Eternidade, morte

Ali chegada, o seu maior sonho era que os últimos anos de vida fossem poucos, curtos e começassem depressa, mas o seu código genético não lhe fez a vontade e viveu até aos noventa, cheia de energia. Para ela, saber quem obedece a quem - se nós aos genes, se eles a nós - deixou de fazer sentido. "Separaram-nos à nascença', dizia. "É um diálogo de surdos, o nosso. Digo-lhes uma coisa e eles fazem outra, querem forçar-me a fazer isto ou aquilo e eu faço o que me apetece." Pouco antes de morrer - teve uma morte feliz, rápida e indolor - deixou uma nota: "o tempo é a parte da eternidade que se atrasa (Milorad Pavić, in Dicionário Khazar). Pois eu fiz a eternidade esperar e fiz muito bem."

Árvore seca, palavra

"Quem não tem dinheiro não tem palavra", dizia-me já não sei quem. É verdade. Tendo massa, é fácil respeitar o que se diz. Difícil é fazê-lo quando se está à sec de toile.

13.9.22

Casa, dias, vida

Procuro casa, de novo. Quem não me grama diria talvez que procuro vida, mas quem não me grama estaria enganado, se o dissesse. Procuro casa para os meus livros, que são muitos e para os meus dias, que espero poucos e curtos. De vida estou cheio, obrigado. 

Diário de Bordos - Macinaggio, Córsega, França, 13-09-2022

Voltei ao U Culombu (e não Culombo, como escrevi ontem, não tarda corrijo). O jantar foi magnífico, uma espécie de carpaccio mas morno e com as fatias de carne mais grossas. Não consigo perceber porque é que fora de Portugal se pede carne muito mal passada e ela vem muito mal passada e no nosso país vem hiper cozida. Enfim, o nosso vinho é melhor do que o corso, que mais parece uma mistura de vinagre com açúcar mascavado.

Mas a parte interessante do jantar não foi essa. Foi ficar a saber pelo dono lui-même que é casado com uma senhora portuguesa de Braga e que no fim do Verão fecha o restaurante e vai para Portugal, onde passa seis meses por ano. Acha aquilo "muito melhor, mais aberto, apesar de ser corso". Confesso que concordo com o homem. As sociedades mediterrânicas não são um modelo de abertura, por um lado; por outro, se há coisa de que gosto em Portugal é da nossa tolerância, do nosso laisser-faire. Bastante erodidos, é verdade (a modernidade tem o dom da ubiquidade), mas o que sobra chega para dar cartas.

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Último dia de trabalho com o P. Amanhã vou-me embora. A psicologia da forretice é uma coisa que me fascina - já fui ajudado por pessoas extremamente forretas, coisa que acho mais extraordinária do que sê-lo por quem é naturalmente generoso. Hoje assisti a uma cena que não tem a ver com ser agarrado ao dinheiro, mas que é ilustrativa. 

Tratava-se de subir, esvaziar e arrumar o dinghy, que estava amarrado à proa (estamos no Mediterrâneo, as amarrações são de popa para o  cais). Do outro lado do cais e dois lugares para o lado está um lugar vazio. Foi lá que pusemos o bote na água, novinho em folha. À tarde, o lugar ao lado de nós ficou vazio e quando se tratou de tirar o coiso da água pensei que usaríamos esse lugar, mesmo ao nosso lado. Não. P. foi dar a volta ao cais. Os franceses têm um termo para isto, chamam-lhe psico-rigidez. Numa pessoa inteligente, educada, amável como ele não deixa de ser surpreendente. 

Isto dito, continuo a achar a alta-burguesia francesa muito mais interessante do que a nossa. O equivalente português do P. teria comprado no mínimo um cinquenta pés e teria vindo o caminho todo a dar-me explicações de navegação. P. comprou um trinta e um (pés, não chatices) e veio todo o caminho a tomar notas do que eu lhe dizia.

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Telefone de A. Diz-me que tem possibilidade de trabalhar num Swan 68 e pede-me algumas informações. Já não sei quem dizia que não é o talento que paga, é a perseverança. A esta deve acrescentar-se o talento para se vender. Deus sabe que não sou invejoso, mas porra, bem podia ter-me dado um bocadnho mais de jeito para a conversa. Ou para o dinheiro: verdade seja dita, entre o meu P. e um Swan 68 escolheria o primeiro, sem sombra de hesitação. A liberdade não tem preço, por muito cara e chata que seja.

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Vou ter de ir ao Porto tratar da vista e das amizades, duas coisas igualmente importantes.

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Gosto de Setembro: acabou o calor e não chegou o frio. Amanhã levanto-me às cinco e meia da manhã e tenho de pôr o casaco de lã que comprei em Barcelona. Mas nas pernas levo os calções. É uma boa mistura. Ainda não sei onde vou basear-me nas Caraíbas este Inverno, mas se for em Saint-Martin terei muitas noites assim.

Adenda: afinal o casaco foi para o saco e isso deixa-me contente. Va savoir.

12.9.22

Diário de Bordos - Macinaggio, Córsega, França, 12-09-2022

Jantar com P. no restaurante U Culombo. Pazes feitas com a gastronomia francesa: uma araignée sublime, ultra mal-passada e um colonel que a esta hora deve ter sido promovido a general, de tão grande e bom. A forretice manifesta-se e eu dou-lhe uma volta, se bem hoje um pouco maior do que o habitual: o que eu queria mesmo era um copo de vinho. Optei pelo colonel pelas razões simples e criticáveis de que a) era mais caro e b) P. escolheu por mim a bebida inicial (cerveja) em vez de me perguntar o que eu queria (pastis). Ficou-lhe ligeiramente mais caro, mas um gajo que colecciona casas e tem cavalos pode bem com a diferença. Amanhã é o ultimo dia. Quarta-feira saio daquk às seis e meia da manhã, para Bastia. 

A viagem é estúpida: vou passar três horas no aeroporto de Genebra porque a diferença de preço para lá passar uma noite era demasiado grande.

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A falta de visão está a tornar-se chata. Preciso mesmo de ir ao Porto tratar disto. Mas agora põe-se-me o aniversário pela frente. Nunca liguei nenhuma ao dia de anos, verdade seja dita. Este só é importante por causa das circunstâncias. E porque sessenta e cinco é uma idade bonita,  vá. É quando um gajo começa a ter descontos nos comboios. (Pena não acontecer o mesmo nos aviões.)

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A viagem de Loto para aqui é uma maravilha. Ao contrário de Mallorca, as costas não estão construídas. Macinaggio é minúscula (hoje pareceu-me que a marina - ou, mais correctamente, o porto de recreio - é maior do que a aldeia) mas fica-se com vontade de cá passar mais tempo. Desvaneceu-se a má impressão que tinha da Córsega, provocada pelo incidente de há quarenta anos, pela violência política e por pensar que do sitio onde Napoleão nasceu não se pode esperar  nada de bom. A verdade é que as pessoas são simpáticas e hospitaleiras. 

(O vinho ainda não me convenceu, mas isso é outra história.)

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Mais três dias de castigo no Facebook por ter escrito num comentário que os portugueses são um povo de cobardolas e merdosos. Transcrevi para um post, não usei a palavra portugueses e desse lado não levei sanções. Não há censuras inteligentes, mas há-as mais estúpidas do que as outras todas juntas.

11.9.22

Loto, Lua

Estou fundeado numa baía do norte da Córsega. Chama-se Loto. Em si mesma não é particularmente bonita. O que é lindo de morrer são as montanhas ao longe, a Lua que acaba de nascer, cheia, feliz, radiante, por trás de uma delas. D. desembarcou, estou sozinho com o P. e a verdade é que estou a gostar da sua calma, da sua parcimónia. É simpático, nada chato. 

Contudo, é-me impossível não pensar nas pessoas que gostaria de ter aqui, em vez do P. A primeira que me vem à mente - terá dela alguma vez saído? - é a R., cuja alegria e vitalidade são iguais à da Lua, nascendo cheia e sorridente, sensual e longe. A noite está muito clara, não há uma nuvem no céu, P. diz-me que se vê nitidamente a cara  na Lua. É verdade, mas a cara que eu vejo é a de uma miúda loira, linda, com quem um dia sonhei e que me fez sonhar muitos mais. Penso na R., na Lua, em mim, na baía de Loto: trajectórias imutáveis que um dia a vida juntou e separou, com o sentido de fatalidade que lhe é próprio. 

Gosto desta ideia de inevitabilidade. A Lua cheia vai subindo, o mar reflecte-lhe a luz como se fosse um caminho, eu olho para essa estrada prateada: tudo previsto, previsível, impossível de mudar. O carreiro que a Lua agora acendeu tem um princípio, mas não tem fim: os grandes amores são assim, nascem e crescem na beira de um precipício. Um cai, o outro segue, o precipício acolhe os dois, separados e juntos. Como é aquela canção da  Charlotte Gainsbourg, "les grandes amours n'ont pas d'adresse / quand l'un part et l'autre reste"? É tão bonita, essa canção... Oiço-a agora, enquanto escrevo e o homem na Lua começa  chorar, como de cada vez que a ouve.

O F. balança suavemente, preso ao ferro pela corrente, como a R. estava presa à sua vida, à sua cidade e eu à minha vida, ao mar. Dois planetas que um dia se aproximaram, tocaram e a gravidade afastou, como esta Lua que agora se afasta da montanha de onde saiu, feliz e cheia. 

Perdi a R., ganhei-a no Loto: abençoada gravidade, que afasta mas não separa, que separa mas não nos deixa largar quem já uniu. Num precipício, bem sei. Num abismo. Na Lua. No mar.

(Para a R., claro. Com um beijo redondo e límpido como esta Lua.)

10.9.22

Serviço publico - Restaurante em Calvi, Córsega

Restaurante A Piazzetta, place Marchal, Calvi.

Boa comida, bom serviço, preço correcto. Decidi retomar o controlo das operações restaurante.

Diário de Bordos - Calvi, Córsega, França, 10-09-2022

Força seis e sete à popa arrasada não é a situação mais confortável para se passar uma noite, sobretudo quando o camarada não sabe navegar. Chegámos a Calvi às duas da tarde, já com força oito. São dias destes que me fazem reposicionar o conceito de cansaço: pode ir sempre um pouco mais longe. 

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D. desembarcou em Marselha. Foi a melhor ideia que teve, no meio de um monte delas. Teria sido necessário enchê-lo de comprimidos para dormir e fechá-lo num camarote. Ao princípio o mar ainda estava bastante regular, mas a partir das cinco começou a ficar cruzado. A depressão não se mexe há duzentos anos, começámos a receber mar de norte e a coisa ficou francamente chata. O bote tem trinta e um pés,  é pouco.

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F. queixa-se de que "ça bouge vraiment beaucoup".  Ben oui, F., sept dans le cul n'est pas de tout confort, penso mas não digo. O homem não é má pessoa, mas está longe de ser o meu cliente favorito desta época. Quando penso - é raro mas acontece  - vejo que não é a sua forretice que me incomoda. É outra coisa, talvez resumida no seu jantar solitário de hoje, a bordo, com a desculpa de que pensou que eu ia dormir seguido, sem acordar até amanhã. Nem sequer é ascetismo, é parcimónia. De tudo: dinheiro, prazer, gratidão (é mais uma incapacidade de expressão do que ingratidão.)

Enfim, a regra universal e perene do "que se lixe" aplica-se de novo, como sempre e a tudo. Quarta-feira volto para Palma, sábado começa outro charter e a mulher de calças brancas e camisola cor de rosa na mesa ao lado atrai toda a minha atenção. 

Esta sim, é uma teoria conspirativa da qual tenho provas: Deus (e quem O  substitui quando está de folga) criou mulheres assim para me envenenar o juízo. Como? Activando os mecanismos da teoria da selecção natural com que presenteou Darwin. Para quê? Para me chatear, toda a gente sabe. Tenho provas, apesar de agora não estar chateado, Deus nem sempre acerta e eu nem sempre sigo o guião.

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O século vinte acabou, a última apagou a luz et en avant pour le suivant. (Já tinha acabado, em dois mil e um em Nova Iorque, mas a senhora demorou a sair.)

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Isto dito, a noite foi magnífica: a Lua quase cheia, céu limpo, o bote a andar bem, eu sozinho no poço. Venham muitas mais.

9.9.22

Diário de Bordos - No mar, entre Marselha e Córsega, França, 09-09-2022

O jantar de ontem foi uma merda. É incompreensível como duas pessoas com tanto dinheiro e tanto gosto (pelo menos o D.) acordam tão pouca importância à escolha de um restaurante. Ainda por cima o D. convidou-nos, como despedida. Resolveu desembarcar, por causa do enjoo. Por muito que gostasse da companhia dele - imenso - encorajei-o. Passar o dia todo deitado no salão sem sequer poder levantar-se não é vida.

Depois do jantar - num desses buracos para turistas sem ponta de interesse -  fui em peregrinação ao café des Arts beber um rum. O rum era Trois Rivières, estava sozinho: deliciei-me. A seguir vim para bordo. Discussão agradável com P. Começou já não sei onde e acabou na eutanásia e na - quanto a mim - necessidade de zonas cinzentas no direito, quando os assuntos são demasiado pessoais e, sobretudo, dependem da moral de cada um para se encaixarem na arbitrariedade da lei. P. discorda, claro. O argumento é o habitual: o que não está legislado é passível de abuso. Sim, é. O ser humano é imperfeito e temos de viver com essa imperfeição. Querer corrigi-la leva-nos mais depressa à ditadura do que a ausência de lei em algumas áreas nos leva à anarquia.

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Largámos cedo, ao nascer do dia. É tão bonito, este porto. Sou um trans: levo uma vida de rico com um porta-moedas de pobre. Um milagre com pernas.

(Esclareço rapidamente que isto é auto-ironia. Um rico não anda num trinta e um pés, rumo à Córsega, a cinco nós.)

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Até nos pontos cardeais há hierarquias. As pessoas podem estar desnorteadas ou desorientadas, mas não des-suladas ou des-ocidentadas. O Sul e o Oeste deviam ter a possibilidade de serem referentes, tanto quanto os outros dois. Espero que os wokes se interessem rapidamente por este flagrante cado de injustiça cardeal.

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Gosto de andar no mar. Ponto. Não há barulho de motor nem ausência de vento que me consigam convencer de que estar no mar não é agradável. 

Enfim, agradável não é o termo adequado. 

Et ceteris paribus

A semelhança entre um marinheiro e um escritor é que ambos só fazem o que os faria morrer se não fizessem.

7.9.22

Paz, merecida paz

Sentado à beira da vida vejo-me no carrossel. O vento continua furioso e de proa, eu sem casa e sem dinheiro, o mar sem paz, fustigado por esta incessante lestada. Esta noite ronda a noroeste, dizem os oráculos. Com esta fúria, custa a acreditar. Como eu e a casa para os meus livros: os cavalos sobem e descem mas não saem do mesmo sítio. Os miúdos montam-nos, tão contentes quanto enganados. Estou farto do vento: dêem-me a brisa ligeira, térmica, da noite, a que nos empurra docemente para o mar, para o fim.

Beberei tranquilo o último gole da cicuta, não farei barulho nem reclamarei, prometo. Mas parem-me este vento, peguem fogo ao carrossel, ponham os miúdos em casa da avó, prometam ao mar a paz que ele merece.

E eu também. 

Diário de Bordos - Saintes-Maries-de-la-Mer, Camargue, França, 07-09-2022

As Saintes-Maries-de-la-Mer de que me lembrava estavam a quarenta anos-luz destas que agora visito e onde espero que o vento mude para continuar viagem. Pensando bem, não é necessário acrescentar luz aos anos: de uma tranquila e pitoresca aldeia da Camargue ao buraco negro turistico de hoje quarenta anos chegam largamente. É de tal ordem que nem fora de época deve ter o menor interesse.

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Cheguei a França sábado e desde esse dia até hoje ainda não comi uma refeição decente. Bebi dois copos de um vinho excelente em Montpellier e é tudo. Das Saintes então não se fala. Horror atrás de horror. La France foût le camp, diz D. Discordo, mais para não perder o hábito do que por convicção, mas é forçoso compreendê-lo.

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Não é só o vento que nos retem neste mini-inferno. Temos também um problema com a bomba de água salgada do motor, uma junta que precisa de ser mudada. E outro com as baterias domésticas. Estão mortas. A ideia inicial era parar em Marselha para reparar isto tudo, mas com o tempo como está decidimos tentar fazer as reparações aqui, com uma empresa de Port-Camargue, a meia hora das Saintes. Estou à espera da chegada do orçamento. Ontem quando saíram as previsões e vi que não poderíamos largar (íamos sair à noite, para chegar a Marselha de manhã) fiquei chateado, coisa que não me acontecia há muito tempo. O lugar é verdadeiramente horrível. Vá lá, tenho sorte com os clientes, dois homens de negócios / quadros superiores franceses e simpáticos, engraçados, Parece um remake da dupla P. / P. do BLANCA, mas em melhor: ali, havia um gajo porreiro e um chato. Aqui são dois porreiros, apesar de muito diferentes - D. vem da publicidade, era dono de uma grande agência, P. é financeiro e vem da indústria. Ao menos isso. 

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Confusão para encontrar fornecedores. O de Port-Camargue não envia o orçamento, o de Marselha (com quem me chateei hoje de manhã) diz que não vem às Saintes. Lá consegui convencê-lo, mas em contrapartida não pode vir hoje, só amanhã. Curiosamente, é um dos lados deste trabalho (e dos outros) de que mais gosto. Acho que sou bom a adaptar-me à mudança e às circunstâncias, a desenrascar-me, a resolver problemas. 

3.9.22

Noite em Palma

É quase uma da manhã e daqui a três horas tenho de acordar. É bom ter amigos como o N., que em pouco tempo passou de amigo a amigo. Não sei onde pôr o itálico, se no primeiro se no segundo amigo. Fica para o segundo, pronto. Amigo. Tapas no Toni, jantar no Fidel, gelados no Cláudio. O Antiquari estava fechado. Voltámos todos para casa. O pessoal do sono há-de acabar por dar cabo das cidades e ainda o hão-de lamentar. Por mim, podiam ir já todos para a puta que os pariu. Se não gostam de barulho mudem-se. Não nos impeçam de viver.

2.9.22

Marretadas

Um gajo leva uma marretada na cabeça, uma daquelas marretas que pesam dezenas de quilos e são manejadas pelos gajos das obras com a energia que a merda de vida que levam lhes dá. Porém, um gajo sabe que não foi um desses tipos a manejar a marreta e pergunta-se quem terá sido.

Foi ele próprio, claro. Não vale a pena procurar mais longe. Ninguém é capaz de acertar tão em cheio na nossa cabeça como nós próprios. A analogia só falha porque a marretada do gajo das obras é quase imediata e a nossa levou anos a apontar-nos para a tola.

Um gajo e as piranhas

Um gajo está a ser comido vivo por uma picanha e deixa-se comer. Um dia a picanha ir-se-á embora. Basta a carne acabar.

Enfim, não é uma. São muitas. Quando se forem estas embora, outras virão. 

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Um gajo nada entre piranhas e agradece-lhes cada vez que o mordem. Não fossem elas, estaria sozinho. Nem mordido seria.

Não tarda, paga para nadar num tanque cheio delas. 

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Não tarda?

1.9.22

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-09-2022 / II

As opções pós-prandiais são muitas, mas acabo por vir para bordo (bordo tendo aqui o sentido de casa). Penso que se o beliche me rejeitar posso sempre ir para outro lado qualquer. E que devo tomar o sacana do comprimido, já agora. Montei a ventoínha num instante, dois bons goles nas hierbas da Pamboleria (como é que ele se chama?)  e estou pronto para enfrentar o beliche.

A luta é desigual, eu sei, mas é dessas que eu gosto, não é?  Não. São essas que eu não sei evitar, o que é diferente. E como não sou gajo de não ir à luta, o resultado está à  vista.

Excepto, claro, nas lutas que se evitam com dinheiro, ou cujo adversário é a irracionalidade. Dessas afasto-me: ou seja, vou ao 7 Machos beber uma margarita. Ou uma tequila. Não se pode chamar a isto conceder a derrota. É antes reconhecer a superioridade do medo ou da raiva ou dos dois sobre a razão. 

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Peroro sobre estas coisas, olho para o meu P. e penso em quanto o amo, em quão irracional é este amor  e pergunto-me: há amores racionais?

É como se vivesse numa cave, vindo de um palácio. O I. até máquina de fazer gelo tinha. E máquina de lavar loiça  - nunca usada, diga-se em defesa das senhoras. Mudar dali para aqui é como mudar de galáxia.

Como se pode gostar disto, depois de um Verão naquilo? Que pergunta mais estranha, não é?

Gostamos do que somos e somos coisas diferentes. 

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Há anos havia um teste de personalidade do qual uma das perguntas era se o sujeito preferia uma fotografia de mar revolto ou de mar chão.  Confesso que nunca me interessei o suficiente por esse tipo de testes para pensar muito no assunto. Hoje, todavia, voltava para casa e o mar estava liso como o ventre da mulher que amei aos dezoito anos e pensei que cada vez me sinto mais atraido por estes mares lisos, espelhos, chãos. Não sei se é a idade, se o bom senso que finalmente penetra nesta cabeça dura. 

Espero que seja da idade. Continuo a ter sérias dúvidas sobre o bom senso.


Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-09-2022

Há vários tipos de melancolia. Hoje vinha a pensar em como qualificá-las, mas acabei reduzido ao ponto de partida: a boa e a má. Aquela sendo a de que se desconhece a causa, a ou as desta sendo conhecidas. Uma melancolia cuja nascente é conhecida sem explorações à la Livingstone não merece esse nome. É má. Só as melancolias que não se sabe de onde vêm têm um mínimo de qualidade e merecem sê-lo. É, portanto, má. Péssima. No limite do suportável. Sei de onde vem, sei o que devia fazer para acabar com ela - que vale uma tristeza de que se almeja o fim? - sei que o farei mal possa: pagar. Trabalhar para acabar com a melancolia? Querem melhor prova de que é da má? A boa não se deixa convencer seja pelo que for.

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Os clientes confirmaram com números o que me diziam com palavras; ou, dito de outra forma, puseram o porta-moedas onde tinham a boca. Cada vez mais acredito em números e menos em palavras, consequência sem dúvida da idade e das experiências. 

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Acabei no Vi Vermell, que se junta definitivamente à lista. O empregado (ou patrão) que no outro dia chorava quando falava de um jogador do Sporting hoje parece-me completamente bêbedo. Os outros, contudo, asseguram. Os secretos estavam óptimos, o vinho é francamente bom apesar de não estar suficientemente frio, o sítio está vazio no interior, pelo que posso escrever à vontade.

Ainda pensei jantar no Glória, que substituiu a gloriosa Quinta Puñeta. Glória coisa nenhuma. Um dia vou lá explicar-lhe como receber clientes solitários e dizer-lhe que volta e meia um gajo sozinho lhe traz cinco ou seis clientes cheios de guito.

Tudo isto precedido por um palos sifonado na Bodega Bellver, onde pela primeira vez fui recebido com um sorriso - pelo filho / empregado, riscar o que não é verdade. O dono continua carrancudo como sempre. Um dia arranquei-lhe um sorriso, mas não me lembro da tecnologia que usei. Pouco importa. O sítio é bom e o resto é conversa de encher chouriços.

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A vida que eu levo não tem rigorosamente nada a ver com aquilo que as pessoas pensam que ela é, excepto num ponto: seria incapaz de viver outra. Mesmo que quisesse e nada está mais longe da minha vontade do que mudar de vida, excepto eventualmente por breves períodos.

Como a residência literária à qual me candidatei, por exemplo. Isso sim, atrai-me. Ser pago para escrever, mesmo que seja num mês o que ganho aqui numa semana.

De qualquer forma, o que ganho aqui entra por um lado e sai pelo outro, intocado. Se entrar menos, sai menos, é tudo.

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Este charter foi-me arranjado por um alemão chamado Thomas (o nome vai por extenso porque é pareceido com o do meu filho). Thomas tem uma qualidade: é um dos poucos alemães joviais que encontrei na vida. Já tinha outro charter engatilhado, mas infelizmente estarei no sul de França, a atravessar para a Córsega. Para o ano é provável que trabalhe o Verão todo para ele. Aposto que a minha melancolia será da boa. A má já estará paga.

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Entrou Setembro, o mês mais terno. O meu mês, o que traz com ele o fim do horrível Agosto.

Agosto é um mês de boçais. Com algumas excepções, das quais os meus clientes são geralmente a prova viva.

31.8.22

Diário de Bordos - Puerto de Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 31/08/2022

A trattoria pizzeria La Dolce Vita já foi um excelente poiso em Puerto de Andratx. Era isso mesmo: uma trattoria onde se comiam umas pastas decentes, uns saltimbocca correctos. Se bem me lembro, tinham Chianti - mas isto deve ser aquela mistura de imaginação e memória (que em mim subsitui uma e outra) a funcionar. Não sei. E quem sabe: teriam limoncello?

Sei que os senhores italianos que eram donos disto venderam a casa a uns indianos simpatiquíssimos mas que de cozinha italiana percebem as raspas que provavelmente lhes ficaram dos antigos donos. Vim cá jantar sabendo o que me esperava: ando meio chateado e não quero pretextos nenhuns para me tirar deste estado, nem mesmo um bom jantar. 

De maneira a minha escala em Puero de Andratx consistiu num almoço na Cantina (entre o assim-assim e o assim-assim, como sempre) e uma lasagna no La Dolce Vita, que está algures entre uma boa merda e outra boa merda. Entre os dois dormi uma sesta inquieta e «lavei» o bote (aspas porque o que fiz não foi lavar, foi dar-lhe uma mangueirada decente e mais nada).

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Continuo a não saber falar com a pequenês e a tentar substituir essa incapacidade por dinheiro. No caso presente é um bocadinho pior porque a pequenês não o é bem, porque a minha lendária paciência (ou tolerância, ou compreensão ou o que quiserem) está constantemente nos limites e eu, que gosto de viver nas fronteiras, gosto igualmente de estar confortável em certos territórios. A tolerância, a paciência, a compreensão - empatia, se preferirem - sendo um desses territórios, nos quais gosto de me sentar refastelado num sofá do qual não há força capaz de me arrancar.

Há. Este mal-estar manifesta-se de todas as formas possíveis e imaginárias e todas elas juntas têm muita força. Prefiro canalizar a indisposição para um jantar medíocre misturado com boas memórias. Incluindo voltar a comer na Cantina, da qual me afastei in illo tempore por questões de má-educação do dono e não de insuficiências culinárias.

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A minha saga a bordo do I. continua.

Não é saga nenhuma, é um charter banal, com gente que não é excepcional nem num sentido nem noutro, Um deles foi embaixador da Colômbia na Rússia, teve quatro vezes com Putin (circunstâncias não elucidadas), conheceu «muito bem» Gorbachev, outro teve as mais altas condecorações que o governo colombiano jamais ofereceu a um estrangeiro (nasceu na Galícia e aparentemente criou um império farmacêutico na Colômbia, com o qual «contribuiu para acabar com o narcotráfico» naquele país - circunstâncias ditto), o terceiro foi administrador e CEO e semi-deus e mais não sei que mais de bancos em tudo o que o mundo conta de países hispanófonos, Flórida incluída. Mai-las respectivas. Tudo muito simpático, é preciso dizê-lo - se bem isso só amanhã, quando o charter acabar se poderá quantificar. Mas ando em baixo de vontades e de conversas, consequência do mal-estar supracitado, sem dúvida. Tudo e todos me aparecem banais, com a possível excepção da lasagna que acabo de comer, que de banal não tem nada.

A banalidade está nos olhos de quem a observa.

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Sexta-feira vai ser dia de «folga». Estas aspas mereciam ser cortadas em quatro, porque o trabalho que vou ter não me vai ocupar nem metade do dia. Sábado parto para França e ninguém pode imaginar quão feliz eu estaria por voltar ao sul de França se não estivesse a meio gás como estou. Já tenho idade para saber que o dinheiro não compra tudo e que usá-lo como abafador de problemas não resolve nada, mas continuo a insistir: não tenho vocação para a acção. 

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«Summer's almost gone / where will we be / when summer's gone?» No Porto, a re-reoperar o olho esquerdo, sem dúvida. Em Lisboa, para montar mais duas ou três estantes e enchê-las com os livros que comprei este Verão. Em Genebra, para ver o neto & cia. Em Palma, para acabar o «meu» P. e pôr-me a andar para as Caraíbas. Em Jost van Dyke a beber painkillers ou em Fort-de-France a comer accras de morue. Prefiro o futuro ao passado: este sou eu quem o faz e aquele é-me feito - ou desfeito - por outrém.

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Apercebo-me agora, tardiamente, que cheguei a Andratx no dia dez de Março de 2018. Ou seja, precisamente quatro anos antes do nascimento do meu neto.

Há por aí alguém que não acredite em coincidências?

30.8.22

Assimetrias

Não acredito na existência de Deus. Já na do Diabo acredito piamente. 

28.8.22

Diário de Bordos - Colonia San Jordi, Mallorca, Baleares, Espanha, 29-08-2022

De novo em Cabrera. O que eu sonho com fazer tudo isto um dia com uma tripulação de sonho, para mim, num barco meu... Clientes como estes, que «sabem» e «querem ajudar» dão-me mais trabalho do que os que me dizem logo de início que não sabem, não querem saber e confiam imenso em quem sabe. Ontem, por causa das «ajudas», pus o cabo do bote no hélice; hoje para amarrar a uma bóia foi uma tourada. Pergunto-me como seria se um dia eu fosse navegar de passageiro com um skipper responsável por tudo. Seria capaz de me calar e deixá-lo trabalhar em paz? Duvido. Mas também duvido que o atrapalhasse. 

Enfim, a verdade é que este charter veio a calhar, caiu do céu, os passageiros até são simpáticos, o barco parece uma casa flutuante - ar condicionado, gerador, dessalinizador, não há nada que o bote não tenha - e com um bocadinho de sorte até vamos ter vento.

O sistema de reservas de lugar em Cabrera é de uma ineficiência monumental. Utilizo este termo no sentido literal: é um monumento à incompetência do Estado. Os espanhóis não são grande coisa no que toca à net. Os formulários são imensos, tortuosos, pedem-nos o nome do papagaio do avô e do gato da avó e não perdoam o menor erro: a cada um é preciso recomeçar do zero. Em Cabrera, por causa disso, aposto que dez a vinte por cento dos lugares ficam vazios cada noite. Prencher aquilo no computador é chato e laborioso. No telefone, é uma versão moderna e digital do mito de Sísifo. Esta noite vou ter de voltar para Es Trenc, quase de certeza. Talvez amanhã esteja em Sant Elm a jantar no Es Raor... O charter termina quinta-feira, vou ter um dia de folga até ir para la Grande Motte. Este Verão está excelente. Só falta poder ficar com um bocadinho da massa que ganho.

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Cabrera faz-me lembrar um bocadinho a Horta: quando lá chegava mandava os clientes passear e ia tratar do barco e ou de mim. Aqui só trato de mim. Sento-me no xiringuito e escrevo, não faço nada ou então combino as duas coisas. Hoje infelizmente os senhores voltaram demasiado cedo e tive de interromper a escrita. Acabo-a em Colonia de San Jordi, onde cheguei feliz (sou um rapazinho pouco complicado): força quatro pela alheta durante duas horas é o suficiente para me pôr num estado de exaltação.

Pelo que vim comer à Pamboleria, o meu fornecedor de hierbas. O homem tem um prato chamado Devil's meat (o meu menu estava em inglês), com um aviso de que é muito picante. Bom, resumindo: a última vez que me aconteceu isto foi na Jamaica. Não consegui acabar o raio do prato, apesar de estar francamente excelente. Fiquei a meio. Vou começar a mandar vir aqui os indianos de Palma. E vou começar a vir aqui mais vezes, se bem não forçosamente para a carne do diabo.

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Os clientes são porreiros. Este Verão foi - ou está a ser - uma maravilha. Muito trabalho e clientes na sua maioria simpáticos. Mas lá que preciso de uns bons dias seguidos de mar, preciso. Isto está a ficar preocupante. Há três meses acabei uma travessia, bolas. Já só sonho com a próxima.

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«Um jornalista é um tipo que fala do que não sabe e não nos diz o que sabe», costumava o meu Pai dizer. Deixou de ser verdade, pelo menos completamente: agora, só a primeira oração da frase é verdadeira. A segunda desapareceu: os jornalistas deixaram de saber.

25.8.22

Modernidade, já

Não sou, por assim dizer, um grande fã da modernidade. Reconheço-lhe a inevitabilidade, claro; e algumas qualidades: o GPS, por exemplo. O S/Y MALTESE FALCON, que é uma das descrições de obra-prima moderna; os motores marítimos que já não avariam ao primeiro canto da segunda vaga. Reconheço, também, que estamos na fase descendente de um pêndulo gigantesco, o qual voltará, sem dúvida, a subir. Aquela lei da física segundo a qual a qualquer acção corresponde uma reacção não desapareceu. O movimento descendente do pêndulo provocará, sem dúvida, uma movimento equivalente no outro sentido.

Isto dito, há coisas na modernidade que me custam a aceitar e uma delas é este retorno à religiosidade, ou melhor: à atitude religiosa. A ausência de razão é vista como uma virtude. A crença, o sentimento, a emoção valem  de per se. «Se eu estou zangado tenho forçosamente razão». «Se tu te enganaste foi por maldade, porque és isto ou aquilo». «Enganar-se é um pecado mortal (já não há pecados veniais, ninguém sabe o que são. Os pecados ou são mortais ou não são pecados)».

Isto dito, a modernidade foi feita por nós, pela minha geração. Acusar os mais novos deve acabar. Já.

23.8.22

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-08-2022

O tempo tem estado tem-te não caias, com (pequenas) ameaças de (pequenas) chuvas e os veraneantes desertam as praias e afluem a Palma. O resultado é óbvio e nada inesperado: ruas cheias, lojas cheias, restaurantes cheios, cafés e bares idem. Felizmente tenho de ir pouco ao centro e a enchente passa-me um bocadinho ao lado, mas agora que me chegam o Leonardo & cia. vou ter de lhes mostrar alguns dos lugares por onde a turba de turistas passeia. Não tenho nada contra turistas, note-se: se as enchentes fossem de locais aborrecer-me-ia na mesma. Enfim, o sacrifício é como as ameaças de chuvas: pequeno e largamente compensado por os ter aqui. Aliás, só tenho pena é de ser tão pouco tempo.
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O P. pregou-me mais uma partida. Enfim, a culpa não é dele, é de tudo o que lhe está a montante. Quando isto acabar vou escrever um artigo a explicar o funcionamento da Câmara Municipal de Oeiras e vou fazer como Lutero: pespegá-lo na porta da Igreja. Tanta pesporrência é inadmíssivel. Claro que tudo isto acontece por causa do povo de enrabados mansos que somos. Esta mistura de um clima porreiro com um medo omnipresente é uma espécie de bálsamo que pomos no cu enquanto as autoridades nos enrabam. Esta passividade, aceitação bovina de abusos diversos, subserviência, respeitinho são um vomitivo (um emético, para quem prefere termos técnicos).

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O transporte de La Rocelle continua em banho-maria. Ontem fartei-me e encontrei outra coisa qualquer. «Coisa» devia ser «hipótese». A ver se se concretiza. O programa é giro e a efectuar-se far-me-á regressar à Córsega, aonde já não vou há tantos anos.  Se... Título para a minha biografia: Uma vida em se maior. 

A Córsega não é sítio que me atraia particularmente, mas é bonito e representa uma mudança de Mallorca. 

22.8.22

Salvem-me dos salvadores

Nunca vi tanta gente preocupada a salvar tanta coisa como agora. Vivemos uma época de salvadores. Há que salvar o planeta, a natureza, os ursos polares, as joaninhas, as lagartixas, os maricas, as fufas, os "não-binários" (aspas porque gozo), o clima e sei lá que mais. Tudo pode e deve ser objecto de salvação. 

O mundo estaria muito melhor se os preocupados com esses salvamentos todos se preocupassem em proteger-se da estupidez vigente. E da que aí vem, que suspeito seja ainda maior.

Advsersidade, desafio

Face à adversidade, duas atitudes possíveis: a precaução e o desafio. Prefiro este último. Não sou toureiro nem tenho jeito para andar à porrada na rua, mas na arte de desafiar a sorte ninguém me bate.

21.8.22

Cansaço

Um gajo sabe que está cansado quando chega ao beliche e vê o cansaço sair-lhe pelos poros. Se o cansaço não for visível, não passa de uma falsa impressão. 

Irritações

Uma das razões pelas quais o uso despropositado do inglês me inquiquina é que ao contrário do que muita gente pensa, o português não é uma língua particularmente rica. Temos muito menos vocabulário do que, por exemplo, o inglês ou o francês. 

Por que raio havemos de reduzi-li ainda mais, empregando termos ingleses quando os temos em português?

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 21-08-2022

A Plaza Drassana é uma praça que podia ser bonita e interessante de um ponto de vista sociológico. Infelizmente está sempre cheia de automóveis estacionados. A sociologia é melhor: oscila entre o Corner Bar, insofrível (é o bar dos yachties, gente que está para o mar como um lutador de sumo está para a elegância masculina), o café Arenas, o bar Coto e por aí fora. Gosto do Coto e do Arenas, o bar «local» onde hoje comi por dez euros.

Demasiada sociologia cansa, contudo. De maneira peguei na burra e vim por aí até um café me chamar. Foi o Vi Vermell (significa vinho tinto en catalão). Complementei o jantar do Arenas com um sublime gaspacho de pepino e menta e dois copos de rosé bastante aceitável. Algo me diz que o preço do jantar não se fica pelos dez euros e vai apanhar o elevador, mas paciência. O que acabo de viver justifica tudo: um dos empregados - ou mais provavelmente, um dos donos - ouviu-me falar e dirigiu-se-me em portguês (do Brasil, mas português). Fez-me a pergunta da ordem: 

- És português ou brasileiro?
- Português.

Vai daí, diz-me que o clube dele é o Sporting Clube de Portugal e pergunta-me se conheço um gajo qualquer com nome de Europa do leste. Digo-lhe que não, ele responde-me que é o melhor jogador do .... (aqui não percebi ser era do clube, do país ou do mundo, o rapaz tinha a voz embargada pela comoção), benzeu-se enquanto me dizia isso e foi-se embora, ainda comovido.

Que Portugal entrou para o top ten dos países cool já sabia, até me habituei a essa para mim estranha ideia e - ó milagre - até a compreendo. Também estou habituado a que mencionem os nomes de jogadores de futebol - Eusébio, Figo, Ronaldo, por ordem cronológica. Agora que vão buscar um búlgaro (ou romeno ou lá o que é) e se benzam porque joga no SCP, isso é a primeira vez. O Vi Vermell vai para a lista, categoria A.

20.8.22

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 20-08-2022

O plano é basicamente o mesmo: encontrar um restaurante perto da marina que não esteja a abarrotar, não seja demasiado caro e tenha doses pequenas. A primeira coisa que me veio à cabeça foi eliminada: não me apetece pedinchar uma meia dose de bife, nem comer ao balcão, nem estar apertado como numa lata de sardinhas (a má-fé é uma coisa muito bonita e deve ser acarinhada. Está muito longe e tem uma subida e as minhas pernas não dão para tanto). A seguir tentei o cubano da rua Caro. Cheio. O Naan, logo à frente. Ditto. Em Agosto Palma muda-se para a Alemanha e essas bandas e é preciso reservar mesa até para nos lembrarmos de um sítio para comer, quanto mais para lá ir jantar. Acabo na rua dos moinhos, numa coisa que não tem estrangeiros e tem bastantes mesas vazias. O empregado - um velho da minha idade - trata-me por cariño, demora horas a trazer-me o menu (levanto-me e vou buscá-lo, o que me vale um «estás com pressa» quando vem finalmente à mesa), torce o nariz quando peço duas tapas, propõe-me picanha, digo que não e acabamos nuns secretos. Preveni-o de que não como muito mas o homem deve estar perdido de bêbedo. Traz-me um prato enorme. A carne não é má mas não vale a do Xisco, no Mercat de l'Olivar. O homem esqueceu-se do chimichurri e os secretos já vão a meio, isto é, estão perto do fim. Pergunto-me como conseguia comer tanto, nos tempos em que comia. Para o preço não se pode dizer que estaja mau. O lugar é feio como uma cirurgia estética falhada. Peço mais um copo de vinho tinto e deixo de pensar no jantar. Vou com o fluxo. Eles que demorem o tempo que quiserem. O chimichurri chegou, finalmente, com o copo de vinho e a minha mudança de disposição. Entrego-me tranquilo aos braços do tempo. Se quiser fazer cinquenta quilómetros por dia vou ter de treinar muito, muito com M maiúsculo, mas isso só atiça a minha vontade de o fazer.
O prato vai meio para trás, o que é pena, o restaurante (chama-se qualquer coisa do Paisi) vai para a lista, categoria B e não tarda eu vou para bordo dormir, tenho as pernas que parecem duas centrais nucleares prontas a explodir.

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Segunda-feira comprarei óculos para ler, está decidido. Este Inverno vou para as Caraíbas, digo-o com a firmeza de um alpinista que espeta uma bandeira no cume da montanha ou a do toureiro que mata o touro. As melhores decisões nascem nos sítios mais improváveis. Vou percorrer as ilhas todas desde Grenada até às Ilhas Virgens, ilha a ilha, como se fosse um adeus. E vou às ABC e se calhar a Trinidade e a outras onde nunca fui.

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O sacana do velho não vem levantar-me o prato. Queixa-se-me que não comi nada. Tenho a sensação esquisista de que vou acabar por gostar desta merda, um dia. Gosto das coisas que não são quadradas, que estão de viés, um bocadinho de lado. Das coisas e das pessoas, o que não facilita nada, mas enfim. Só é pena a comida não ser um bocadinho melhor, mas isto é a primeira vez que cá venho e portanto ainda pode mudar. A verdade é que ter níveis de comparação elevados dá nisto e os secretos do Xisco estão na categoria teológica «provas da existência de Deus».

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Vou contar até um e vou para bordo.

Diário de Bordos - Inca, Mallorca, Baleares, Espanha, 20-08-2022

De Port de Pollença a Palma são cinquenta e oito quilómetros, dizem-me uma placa rodoviária à saida da vila e o google maps. Desses, acabo de percorrer vinte e oito na minha Órbita, em pouco mais de duas horas. Os meus amigos que faze Lisboa Lagos ida e volta duas vezes por dia rir-se-ão e bradarão aos céus; pois que riam e que bradem. Eu estou tão orgulhoso como cansado. A cousa começou sem querer, como sempre: apanhar o autocarro na paragem seguinte. Saí do percurso do autocarro e a paragem seguinte foi substituída pela aldeia seguinte, até que Inca se impôs como destino. Os últimos três quilómetros foram difíceis, ó se foram. Mas enfim, já estão diluídos na caneca que bebi antes de me aperceber sequer que tinha cerveja dentro. Agora  ebo uma caña e acabo o trajecto de comboio.

A viagem é bonita: Tramuntana à direita, planície à esquerda, estradas boas e bem sinalizadas, zero razias e só uma buzinadela, já em Inca (o senhor devia sofrer dos nervos, coitado. Mas mesmo assim esperou para me ultrapassar à larga).

Um dia gostava de ir ao Algarve de burra. Cinquenta quilómetros por dia no máximo, paragens frequentes, muita cerveja e pouco vento (excepto se for nortada). Uma bicicleta leve.

Amanhã. 


Da parvalhonice vigente

Estou mesmo contente por Portugal estar cheio de rooftops. Antigamente só havia terraços. Rooftop é outra coisa. Por exemplo, antigamente iamos vestidos para o terraço. Agora vamos outfitted para o rooftop. Digam lá se não é much better.

19.8.22

Males que vêm por bem

Hoje é uma sexta-feira de meados de Agosto. Os sítios que conheço em Palma estarão intragáveis de cheios, de maneira peguei na Órbita e fui para os lados menos pedalados. Enquanto fazia uma curta sesta pré-prandial tive um acesso súbito e incontrolável de saudades de Portugal. A Tasquita d'Esquina não sobreviveu à "pandemia" (a Sandra voltou para Portugal e está a trabalhar numa cadeia hoteleira no Algarve, responsável por uma série de restaurantes). Fui ao Vinho: só têm "petiscos". Ao lado há uma freiduria andaluza, mas o cheiro a fritos... Passemos. Aterrei numa micro-cervejaria aonde bebi duas Irish Pale Ale bastante boas, mas de morfes só empanadas. Não, obrigado.  Fica para a próxima. Como plano Z tinha o Bonobono. Fechou de vez.

Há dias assim. Felizmente lembrei-me do Bastian Contrari, um restaurante aonde vim uma vez com a M. e a A., um casal de lésbicas do qual uma metade parece um camionista (no masculino) e a outra um modelo da Vogue (no feminino). Gosto imensamente delas e tenho pena de ainda não lhes ter ligado (parece que se separaram e estou sem energia para desgraças). Elas eram clientes habituais, arrefinfam-lhe no tinto de uma forma mais do que louvável, o restaurante é esplêndido e acabei a prometer aos donos da casa que lhes traria uma garrafa de vinho do Porto na minha próxima viagem a Portugal. (Estava para quase.) Trouxe a garrafa mas dei-a a outra pessoa (não perguntem, não me lembro) e nunca mais aqui voltei, avassalado pela vergonha.

Hoje as circunstâncias supramencionadas levaram a melhor sobre a vergonha. Sou escravo da minha palavra? Sem dúvida. Mas esta de vez em quando tem direito a uma carta de alforria e eu concedi-lha.

Resultado: o melhor jantar dos ultimos duzentos e cinquenta anos. Carrillera de porco ao Marsala com polenta frita (esta um pedido meu, o prato original é com puré de batata. O jovem diz que o vai adaptar e tem toda a razão. Assim considero o episódio da garrafa de Porto dirimido).

Caso eu não tenha tomado nota: Bastian Contrari, perto do antigo Bonobono. Este restaurante é o melhor italiano a oeste de Greenwich, dando a volta completa e voltando à origem. Pertence a uma família que já teve um restaurante no Mónaco ou lá perto e cujo patriarca trabalhou em Verbier. Não estou nada surpreendido: este nível de qualidade não se improvisa. Estou surpreendido: tanta qualidade a preços normais é absolutamente surpreendente. 

Resultado: voltarei para bordo de alma replena de serotonina e dormirei como não dormi durante a tal sesta. Ele há males que vêm por bem.

PS - têm hierbas Dos Perellons. E ainda há quem não acredite que isto anda tudo ligado.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-08-2022

Ao contrário do que eles pensam, os argentinos não têm a melhor carne do mundo. Têm uma carne excelente, o que é diferente. (Preciso é dizer que não são os únicos a pensá-lo.) O que eles têm, isso sim, é um molho para as carnes que está,  sem sombra de dúvida, no primeiro degrau do pódio, categoria molhos não picantes. Chama-se chimichurri e quando é bom é uma das raríssimas coisas (não picantes) que se pode juntar a uma boa carne. (Na categoria picantes é o molho da região dos Grandes Lagos, na África Central. Mas não falemos nisso agora, que ainda me faço chorar.)

Vim ao merendero Minyones comer um magnífico prego. Carne de Mallorca - estupenda - chimichurri da casa (descobri hoje que os dois irmãos são argentinos), vinho tinto fresco não sei de onde, esplêndido e generosamente servido, brisa a atenuar o calor e zero turistas, zero redondo como o vocábulo do outro. A comparação é má: aquela canção é uma seca. Vale pela forma do zero, redondinho. Nem um para amostra.

Quando terminará este horrível mês de Agosto?

Enquanto houver Merendero Minyone pode continuar (que não vá de férias, claro. A maneira de se distinguir os estabelecimentos cuja clientela é local dos outros é que estes não fecham em Agosto. Os locais fecham, porque os maiorquinos pura e simplesmente desertam a ilha em Agosto, no que de resto estão podres de razão. Esqueci-me de lhes perguntar. É um dos sítios aonde quero trazer o meu neto Leonardo, ver se ele já pode comer carne grelhada como deve ser, com chimichurri. Aos cinco meses duvido, mas nada como experimentar).

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Não é todos os dias que venho escrever para o Born 8. Se nestes últimos quatro anos entrei aqui meia dúzia de vezes já é muito. Hoje não resisti: a entrada das traseiras fica mesmo à frente do Minyones e passar asim numa ponte por cima do rio social, passar da margem baixa para a alta (baixa não é correcto. Local) é um dos prazeres de que não abdico. O meu Pai dizia que um bom marinheiro toca em todos os portos - o subtexto era um bocadinho diferente, mas isso fica para outro dia - e eu digo que um bom marinheiro está bem em qualquer mesa (subtexto idem, mas menos subtil. Continuamos dentro do mobiliário). 

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Hoje tirei a retranca do P., finalmente. Foi necessária a ajuda do B., que está cada vez mais P.T., Deus lhe valha. Foi convidado por um príncipe árabe para ir duas semanas ao Dubai treiná-lo, ou coisa que o valha. Como treinador pessoal o rapaz deve ser melhor do que como marinheiro, suponho. Não sei. Sei que o conheço, conheço-lhe os defeitos e as qualidades e gosto de trabalhar com ele. Não sei exactamente como é que o pessoal dos recursos humanos gere estas situações, mas eu prefiro um diabo que conheço ao rei dos diabos que nunca vi mais gordo. Talvez seja o meu lado cavernícola. Tenho imensa confiança nessa fase da humanidade: começámos em cavernas e acabámos em Veneza ou Nova Iorque? Isso sim, são fundações (as cavernas, claro).

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Tenho de comprar óculos para ler, compra essa que tenho feito passar para trás da lista cada vez que avança um passo. Por baratos e provisórios que sejam, a perspectiva de usar óculos outra vez congela-me. Mas a verdade é que me custa cada vez mais ter estas dezenas de livros (não é hipérbole) para ler e não o conseguir fazer. Ontem comprei dois Vila-Matas e um Ignacio Vidal-Foch (conselho da minha querida J.), para além de um estóico qualquer cujo nome não recordo e escreve sobre a arte de ser livre.

Se há liberdade que me parece ilusória é a dos estóicos - trocam algumas prisões pela prisão total, que é a pretensa ausência delas (não confundir com o mar, prisão absoluta e portanto liberdade absoluta) - mas como já tenho La vie heureuse de Séneca na pilha pareceu-me bem complementá-la com um texto sobre a liberdade do qual também pudesse discordar em paz e parcialmente.

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O serviço em Palma é francamente mau. Não haverá escolas de hotelaria por aqui?

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Os argentinos não precisam de um Marcelo a dizer-lhes que são os melhores do mundo, que tudo o que é argentino é melhor do que tudo o que não é, etc. Acho que devíamos mandar o nosso presidente para a Argentina. Coninuaria a ser irrelevante, mas ao menos encontraria ouvidos concordantes.


(Cont.)

18.8.22

Mediterrâneo

Afinal os terríveis badanais previstos não aconteceram. O Mediterrâneo é assim: só acontece o que não está previsto. O que se espera não. 

Shiva e um péssimo jantar

Tal como eu esperava, o restaurante Madras é uma merda. Isso não é complicado: é do conhecimento geral que não há bons restaurantes indianos em Palma e o Madras confirma alegremente o conhecimento geral. Prodigioso - realmente prodigioso - é que nem fornecedores de gelados conseguem escolher. Assim que de repente me lembre há anos não como um gelado de baunilha tão mau como o que acabo de comer.

O caril de «galinha» (galinha vai entre aspas para que ninguém pense que não sei distinguir uma galinha de um frango) Madras tinha tanto de caril, de galinha e de Madras como eu de astrofísico transgénero. Até aí, tudo bem. Não esperava melhor. Agora o gelado? Uma bola de baunilha com sabor a água?

Por amor de Shiva.

Religião, política

Se olharmos para a História, há duas grandes causas de mortícinios: as religiões e as políticas. Talvez fosse interessante fazer as contas a umas e outras - sem esquecer as partes em que se confundem.

A cidade e o mar

O que realmente nos atrai noutra pessoa não é a beleza, os olhos, as mamas, seja o que for que faça parte da «superfície». Tudo isso não passa de uma porta. O atraente está no interior, no que não se vê à primeira (ou segunda, ou terceira) vista. Como nas casas ou nas cidades, aliás. Uma pessoa é uma cidade que levamos anos a descobrir. «Uma casa da qual se conhecem todas as divisões não merece ser habitada» (Leopardo dixit). Baricco escreveu um livro que é uma cidade, as personagens ruas e as histórias bairros. Chama-se City (sei, acabei de confirmar). Viver não passa deste esforço contínuo de nadar entre a superfície e o «fundo» (sem aspas seria demasiado pedante).

Uma cidade descobre-se, deixa-se descobrir; como um corpo, como a pessoa que amamos e aos poucos vamos conhecendo. Como a vida: um ano é um anel no tronco da árvore, só que dessa não se vêem os anéis. Acumulam-se na pele, talvez. Nas rugas. Nos silêncios. No ar cálido e finalmente não abafador desta noite nesta cidade. 

As coisas são como são e não como gostaríamos que elas fossem. Ao contrário, as cidades são como queremos que elas sejam: é assim que as vemos, primeiro; e as construímos, depois. As pessoas também. Os livros. O mar não; nem o vento; nem os baixios. 

A cidade e o mar talvez seja um título mais adequado do que a Cidade e as Serras, não? 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 18-08-2022

Um gajo sabe, daquele saber difuso feito da mistura de zeitgeist, leituras diversas et al. que esta coisa de viver «fora do sistema» não passa de um voto piedoso. O «sistema» sabe mais sobre mim do que eu, muito provavelmente. Porém, de vez em quando o saber difuso transforma-se em saber concreto, concreto como cimento ou vento de vinte nós mesmo no bico da proa. Hoje foi um desses dias.

Já me tinha sido dito ontem que a Western Union impõe um limite de envio de dinheiro e que não podia enviar o que queria porque excedia esse limite. Hoje voltei lá para enviar uma quantia menor. A resposta foi a mesma: niet. Limite excedido. Fui a outra loja de outra companhis (a Moneygram, para quem estiver interessado) e não consegui enviar porque me faltava um documento de identidade espanhol. Como sou teimoso, resolvo experimentar a) a RIA e b) um estabelecimento especializado. Explico a situação ao jovem que me atende, ele confirma que a minha escolha da RIA é adequada e fazemos a transacção. Esta feita, pergunto-lhe porque raio de carga de água a WU impõe tal limite. «Não é a WU. É o Banco de Espanha. E não é só pela WU, é por todas as empresas de envio de fundos. Com a RIA conseguiste porque excedeste de pouco o tal limite, mas se tivesse sido mais, provavelmente tão pouco terias conseguido. O limite aplica-se a todas estas empresas.»

Um gajo dá um pum e alguém num escritório longínquo tapa o nariz. Não se vive «fora do sistema». Vive-se «menos dentro do sistema». Diga-se de passagem que o meu maior desejo é que o «sistema» impluda, mas isso não vai acontecer antes de eu morrer, aposto. Até lá, continuarei aqui pelas margens, um pé fora outro nem por isso. E o Banco de Espanha que se divirta com as minhas transacções.

Se em vez de trabalhar traficasse droga (o que também é um trabalho, de resto) aposto que teria muito mais facilidade em transferir a massa.

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Palma está cheia a abarrotar, rebenta pelas costuras. Venho escrever para o meu petit Paris e as mesas estão todas reservadas. Felizmente deixam-me ocupar uma delas até à hora da reserva. Quem fica a ganhar são os meus leitores, claro: tenho de poupar nas palavras, nos disparates.

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O calor diminuiu, o que me deixa feliz e preocupado. Não é costume sofrer tanto com o calor e receio que isso não se deva a um burocrata qualquer, mas que seja uma influência directa da minha data de nascimento. Sobretudo aquela parte que tem quatro algarismos: não há cura para isso, tal como não há para os summertime blues.

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O rapaz que me serve no Antiquari é novo (nos dois sentidos so termo) e não me conhece. Deixo uma sugestão aos donos de cafés, bares, restaurantes e similares: criarem uma medalha para clientes habitués, como têm algumas páginas no FB. Isso permitir-nos-ia algumas brincadeiras, como por exemplo insistir em que ele continue a servir o vinho e a não parar na medida certa. Brincadeira inocente, claro, mas só passa se um gajo for conhecido de quem o está a servir. Se essa pessoa ignorar a quantidade de copos diversos que um gajo já ali consumiu, pensa erradamente a respeito do tal gajo. Na ocorrência eu.

Fica a sugestão, messieurs les cafétiers.

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Tudo indica que o transporte de La Rochelle (ou Sables d'Olonne) se vai concretizar. Ou seja, agora tenho dois relógios a correr ao contrário: a chegada do meu neto & séquito e a partida para França. Dez dias de mar, sem paragens previstas a priori (excepto a da Bodeguiya, obviamente. Por sorte fica mesmo ao lado de Gibraltar). Duas felicidades. Pergunto-me qual será a terceira (ainda não tenho a certeza da segunda... se isto não é excesso de optimismo não sei o que é. De realismo não é de certeza).

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Buvons un coup, buvons en deux 
A la santé des amoureux 
A la santé du Roi de France, 
Et merde pour le Roi d'Angleterre, 
Qui nous a déclaré la guerre.

A canção continua, é muito bonita, uma canção de marinheiros com mais de três séculos. Hoje só me apetece substituir amoureux por vivants, mas perder-se-ia a rima e deixo-a estar como está. Cantá-la-ei quando montar na minha bicicleta e descer a Costa de sa Pols a toda a velocidade, como se fosse um corsário (ai de quem confundir corsário com pirata. Espero que não esteja cheia de turistas).

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Porque leva tanto tempo a aceitarmo-nos como somos, Mr. Darwin?

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O Ca na Chinchilla fechou «definitivamente» (aspas porque cito) e faz-me uma falta cruel. Igaul à que ainda hoje me faz o café Tati do Cais do Sodré. As coisas mudam, nem sempre para melhor. Não é preciso ser muito crescido para saber isso. Mas há mudanças cruéis, inúteis, «gratuitas». O Café Tati e a Ca na Chinchilla estão nessa categoria. Lisboa e Palma não são as mesmas sem esses lugares.

O pior é que eu também não.

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Em Palma não há bons restaurantes indianos. (Nem chineses, de resto.) Hoje vim experimentar o Madras. Fica no Paseig Maritimo, o que já de si é um mau sinal. Ao meu lado sentou-se um jovem casal negro. Ela mais escura, ele mais claro, comme il se doît. Ela faz poses e ele fotografa com o telefone. A rapariga é bonita, tem uma daquelas caras tipo maconde, bantu ma non troppo. Têm pouco mais de vinte anos. São tão desinteressantes que dói. Se fossem brancos seriam ainda mais desinteressantes, não? Sim. Tento descobrir que língua falam, mas ainda não consegui. [Adenda: Francês, claro.]

17.8.22

Venham mais cinco

Diz que vai chover dilúvios, hoje à noite e amanhã. Rajadas de sessenta nós. É nestes momentos que gosto do trabalho que fiz no meu P. Se partir alguma coisa, não será do bote. Só não garanto (ainda) cem por cento de impermeabilização: mas anda lá pertíssimo. Venha ela!

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 17-08-2022

Li recentemente que o equivalente árabe - ou chinês? - do nosso «Era uma vez» é «Isto foi assim e não foi assim». É uma questão que ressalta muitas vezes no que escrevo: «Nada disto aconteceu». Ou: «Isto não aconteceu assim». Como é aquele dito, tantas vezes erradamente atribuído a Hemingway (é de Blake)? Tudo o que é possível é uma imagem da verdade? Tudo o que é possível de ser acreditado é uma imagem da verdade? É assim, mas a tradução está péssima. «Tudo aquilo em que se pode acreditar...» está errado. «Tudo aquilo em que se pode acreditar é uma imagem da verdade» Não. O original diz: «Everthing possible to be believed is an image of the truth.» Tudo aquilo passível de ser acreditado é uma imagem da verdade. O que transforma qualquer coisa numa verdade somos nós. Para um terraplanista, a Terra é plana. Para um político, a Covid foi uma catástrofe e só não foi pior graças à sua intervenção iluminada. Claro que tudo isto leva a dúvidas: a Terra não é plana; se os políticos tivessem feito menos a Covid ter-se-ia espalhado e teria tido as mesmas consequêncis do que teve com as «medidas». Talvez a solução seja dizer que a verdade não existe enquanto tal mas deve ser um objectivo. Não há uma verdade estável? Há. A aceleração da gravidade é de nove vírgula oito metros por segundo ao quadrado e desafio quem quer que seja a dizer que isto não é verdade. Não é: varia com o lugar e com a altitude. É possível acreditar que a aceleração da gravidade é de nove vírgula oito metros por segundo ao quadrado e isso faz daquilo uma verdade; e é igualmente possível acreditar que esse valor varia, o que é igualmente verdade. Paul Veyne escreveu um livro liminar sobre o tema, chamado Les Grecs ont-ils cru à leurs Mythes, onde fala dos diferentes tipos de crença e de verdade.

Não sou filósofo nem historiador: sou um marinheiro para quem a verdade é o que tem à frente dos olhos  - se o vento está Norte não está Sul e se o mar está desencontrado não está chão; e por vezes um escritor, para quem a verdade é o que tem na mente. São duas verdades com as quais me dou bem e coabitam facilmente. O resto deixo aos filósofos e aos «especialistas». 

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Fui à Babel. Já lá não ia há para aí um ano ou mais. Saí com quatro livros que não sei quando lerei. «Gastas o teu dinheiro todo em livros», diz-me a minha cunhada L. «Eu sei, L. eu sei. Mas é-me mais fácil viver sem dinheiro do que sem livros». Mentira, claro. Paciência. Isto é assim e não é assim.

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São cada vez menos, mas de vez em quando ainda vejo pessoas ´de máscara na rua. Aqui só é obrigatório nos transportes públicos e nos estabelecimentos de saúde. Não acredito muito (muito = nada) em teorias da conspiração e ainda acredito menos na estupidez de quem nos goverma. É óbvio que estas obrigações não têm nada a ver com a saúde pública. 

Um dia, esta «pandemia» será mais estudada em ciências políticas do que em saúde pública.

(Nota bene: uso aspas em pandemia não porque duvide que o tenha sido, mas porque não sei se o foi. Não sei, no sentido literal e básico do termo: não sei se foi ou se não foi. Sei - e disso só tenho as dúvidas que qualquer saber exige - que não foi o cataclismo que as autoridades nos querem fazer crer que seria não fosse a sua (delas) intervenção assisada. Crença essa, de resto, para a qual contribuem os pobres que andam por aí de máscara acreditando que aquilo os protege da morte certa.)

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Escrevo no Antiquari. Ao meu lado está um senhor parecido com o Tom Wolfe que também escreve à mão num bloco-notas, como eu, mas muito maior. O Antiquari é um bocadinho de Paris em Palma. O homem está bem vestido e visto assim de perfil parece bonito. Escreve mais do que eu, com menos interrupções. Não tem sequer um telefone à vista. Precisa realmente de um caderno maior do que o meu. Será que o Wolfe também escrevia em cafés, impecavelmente vestido?

(A inveja é tão bonita... Que pena tenho de não ser invejoso. Aposto que teria um livro escrito em menos de um fósforo.)

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Entre não acreditar em teorias da conspiração e não acreditar na estupidez de quem nos governa há um fino traço sobre o qual se deve andar com muito cuidado e muito equilíbrio. Igual ao que há entre a verdade e a crença, não é?

16.8.22

Civilização, caos e o pêndulo

Não consigo viver na Suíça - nem nas outras sociedades "civilizadas" -  porque me desapropriam do meu tempo; não consigo viver em Portugal porque me desapropria da ordem, isto é: da civilização. 

É entre estes dois pólos que o pêndulo oscila: o tempo e a ordem, o caos e a civilização, o eu e os outros.

Não há um lado melhor e outro pior. Os que hoje são bons amanhã serão maus e vice-versa. A única solução é sair do trajecto do pêndulo: o mar, o deserto, a montanha.

Visitas de paciente

Estas visitas de médico ao 7 Machos são exactamente o contrário do que parecem. É  como se fosse o paciente a visitar o médico e não este aquele.

O presente e os cães

Passam duas senhoras por mim. Estão a passear os cães. Não sei de que barco vêm: para mim, saíram directamente da Vogue. Uma delas traz um desses cães chiques pela trela, deve ser um afegão ou coisa que o valha. A outra traz o seu mini-cachorro ao peito, como se fosse um bebé ou uma medalha pesada.

Ainda há quem pense - e diga - que eu sou maluco.

Sedutor, seduzido

Pergunto-me se todas as mulheres que andam pelo Facebook pensam que os homens que frequentam a coisa andam ao engate?

Espero sossegá-las:

a) Tenho quase sessenta e cinco anos e o tempo corroeu - feliz ou infelizmente, ainda está por decidir -  a maioria dos meus entusiasmos. Afagou-os, por assim dizer;

b) Apesar de ter tido uma vida afectiva da qual não me posso honestamente queixar, nunca fui um grande sedutor. Nem ser seduzido sei, quanto mais sedutor. (Na volta vamos a ver e é por causa disto que não me posso queixar, mas isso é outra história. )

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-08-2022

Regresso a Palma: regresso a casa. Larguei à sete da manhã de Pollença, como previsto; sem pequeno-almoço, ao contrário do que pensara. Fiz bem: duas horas e meia de navegação, mangueirar o bote, recolher roupas de cama e toalhas sujas para a lavandaria e hey, presto, uma pratalhada de bacon e ovos que me aguentou até agora, duas tapitas no Jaume depois de um duche no clube, de ir buscar a bicicleta ao Ivo, a roupa à 5 à Sec (pequeno milagre, ainda lá estava uma senhora). Nos entretantos, dois ou três pequenos pormenores a resolver. 

A isto chama-se um regresso activo. A qual actividdade não me impediu o habitual deslumbramento da todas as chegadas a Palma. As cidades, escrevi recentemente, são feitas de repetições (e de pessoas, a auto-citação é diacrónica). Ou seja: de reencontros. Com o Ivo falamos da incapacidade comum de viver sem uma bicicleta, com o Jaume da próxima vinda da minha filha e companhia (uma estadia de três dias em Palma é pior do que pôr o Rossio na rua da Betesga) e por aí fora. Passo os pormenores. Sei que tenho de os levar ao bar Rita, ao Gustar (reservado), ao Jaume, à Vermuteria Rosa, ao Divino, ao Antiquari, ao 7 Machos, à Cuadra de los Maños - a minha filha é pouco amiga de carne, talvez a faça mudar de ideia - à Tramuntana e improvavelmente à Catedral e ao museu Miró (isto é muito egoísta, mas não se diz a ninguém. Ando há anos para lá ir). Além de bares, cafés, restaurantes e montanhas há que ver a cidade e aproveitar as praias. Outro sítio indicado para quem não gosta de carne é o rodízio brasileiro de Portixol, que é magnífico. Enfim, um puzzle interessante, apaixonante e - principalmente - ansiógeno.

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Uma das origens do cansaço: atracar um bote como o WANDERLUST consome tanta energia como duas horas de pesos e alteres, apesar de a parte complicada não levar mais de cinco minutos. Na verdade, prefiro as lanchas maiores: sendo mais pesadas são menos parecidas com um sabonete em cima de um ringue de hóquei no gelo.

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O «meu» P. mantem esta sua irresistível capacidade de me fazer olhar para ele e em vez de ver um barco em trabalhos vê-lo pronto e a navegar. Suponho que a rivalidade ancestral entre as mulheres e os barcos venha daqui. É certo que conheço várias histórias de homens a quem as mulheres disseram «ou eu ou o mar» e optaram pela mulher. Esses homens - dos quais o meu Pai fez parte, mais ou menos (a formulação foi diferente) - são uma minoria, é preciso dizê-lo. Sacana do bote entranhou-se-me de tal forma que separar-me dele seria como amputar um braço.

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Isto tudo dito, só me resta esperar que o transporte do Lagoon de La Rochelle para Mallorca se confirme. Preciso de uns dias de mar a sério.

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O Ivo não quer vender-me a BH Glasgow que lhe tenho alugado durante estas breves passagens por Palma. Diz que demora muito tempo a pôr uma bicicleta como deve ser para a poder alugar.

Como eu o compreendo. A burra está perfeita. Até já conhece o caminho do 7 Machos.

15.8.22

Diário de Bordos - Port de Pollença, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-08-2022

Todos os dias passo à frente do restaurante La Llonja, que fica imediatamente antes do clube (para quem entra, claro. Para quem sai é depois). Está sempre cheio a abarrotar, tem toalhas de pano, copos bonitos, talheres de peixe e clientes bem vestidos. Ou seja, não é o sítio indicado para um pobre marinheiro longe de casa ir jantar todos os dias.

É, porém e sem sombra de dúvida o local adequado para celebrar o fim de um charter chato, longo, interminável, quotidianamente ou quase com duzentas e cinquenta crianças a bordo, movidas a energia nuclear e que rendeu a esperada gorja de zero euros e zero cêntimos. (Acho tão triste estas pessoas podres de ricas e patologicamente forretas que nem me chateio. Além disso, a verdade é que fiquei a conhecer bem o noroeste da ilha e descobri que o combustível nuclear de um grupo de crianças são as outras crianças. Aquilo alimenta-se a si próprio, cada uma delas activa a outra, numa reacção em cadeia sem fim. Não vale uma gorjeta decente mas um gajo agarra-se ao que pode.)

Ou seja: vim jantar ao La Llonja. As pessoas que enchem isto todos os dias estão prenhes de razão, como cantava o brasileiro bonitão. Só tenho pena de já não conseguir comer como antigamente: uns mexilhões em porção de entrada e não consigo acabar a sobremesa. Que desperdício...

Oops, no melhor pano cai a nódoa: só têm hierbas Tunel, uma mistela que está para as verdadeiras hierbas como o Nutella está para chocolate preto.

Claro que neste género de lugares a frugalidade não serve de nada. Aposto que por menos de cinquenta paus não saio daqui. Que se lixe. O vinho de sobremesa é demasiado doce - uma surpresa, tratando-se de um vinho de sobremesa - e este foi o melhor jantar desde que deixei o B., há duas semanas e pouco.

Tenho de escrever isto de novo e quando chegar a bordo vou verificar: duas semanas e pouco. É inacreditável. Parece que foram duas vidas e um bom pedaço de outra. Antes do B., com o casal de marroquinos também me deliciei. Não se pode dizer que esta época esteja a correr mal, do ponto de vista gastronómico. E se o transporte de La Rochelle se concretizar, vou continuar a comer bem. Mesmo que o vinho de sobremesa seja intragável. Mesmo que às nove e um quarto da noite só pense em ir para a cama dormir. Mesmo que este charter tenha sido uma tortura (enfim, sejamos justos: quase uma tortura).  Mesmo que. Esta época está a correr bem qualquer que seja o ponto de vista e a cereja sobre ela vai ser a chegada do Leonardo e respectivo séquito.

Bom, vamos a meças.

Perdi a aposta. 

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Esqueci-me de ir ao supermercado e de entregar a peça da água e o cartão da marina. Aparentemente, a ideia de largar de madrugada não apela ao meu eu interior. O problema é saber onde vou encontrar uma porcaria qualquer aberta às sete da manhã. A massa do cartão e da peça é recuperável noutro dia qualquer que cá venha. O pequeno-almoço não.

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A juntar às descobertas: a excelente qualidade do serviço do RCNPP (Reial Club Nàutic de Port de Pollença, em maiorquino no original).

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Enviei a candidatura à residência artística da Fundação Eça de Queiroz. A probabilidade de ser aceite é praticamente nula, mas prefiro perder a não tentar. Segui o meu lema: "Como sou me dou", que já serviu aquando da admissão ao Conservatório.  (Dessa vez, a probabilidade era de dez por cento. Quanto será desta?)

14.8.22

AO90, coluna

Jornalistas, escritores, televisões, professores... A quantidade de acéfalos que em Portugl aceitou e aderiu ao AO90 é aterradora. Como é que se diz coluna vertebral em português?

13.8.22

Modernidade, palavras

Uma das «curiosidades» da modernidade é pensar que as palavras mudam o mundo. Coitada dela - e dos que a alimentam -: não sabem que é o mundo que muda as palavras e não o oposto.

O passado (para o Iago)

Está na mesa à minha frente uma senhora a pôr gelo no seu rosé; ainda por cima, pega no copo pelo vaso e não pelo (generoso) pé. Penso imediatamente na minha irmã J., que também é muito bonita, como esta senhora, só que mais.

"Não tens saudades da tua família?", perguntou-me ontem o Iago, o meu miúdo favorito da fratria.

"Tenho, Iago", respondi. "Muitas." 

Sobretudo quando vejo uma senhora bonita a pôr gelo no seu vinho, ou quando penso no adorável sorriso da monha irmã R., ou quando falo com orgulho do meu irmão V., que conheço tão pouco comparado ao que queria conhecer. Tenho, Iago, quando penso nos meus primos, com quem ia passar férias à Meia-Praia, ainda os teus pais não eram nascidos. Tenho, Iago, tenho saudades da minha família toda, a próxima e a mais afastada, porque a família é a nossa primeira ligação com o passado e o passado é como aquela pedra que o outro tentava levar para cima da montanha e lá chegado rolava pela encosta abaixo: nunca te larga. Não há cumes de montanha onde arrumar o passado, Iago. Aproveita bem o presente: ele transforma-se em pedra e depois vem por aí abaixo e não te larga,  nunca mais.

Violência, religiões

Talvez se possa argumentar que as religiões são a forma que a humanidade inventou para justificar a sua violência, dar-lhe um sentido, canalizá-la. Com elas, a violência deixa de ser «animal» e passa a ter uma razão superior.

11.8.22

Diário de Bordos - Port de Pollença, Mallorca, Baleares, Espanha, 11-08-2022

Uma das coisas boas deste charter é fazer-me conhecer uma série de calas do noroeste da ilha, até agora todas elas lindas. 

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Por causa da porcaria do dinghy do Robert tenho apanhado o autocarro para ir comprar material. (Dou-me por muito feliz. Não ter que pagar o trabalho é uma sorte.)

Cada vez que entro no veiculo da TIB penso nos autocarros dos Estados Unidos (vá lá, da Florida. De West Palm Beach. Dos de S. Francisco não me lembro e em Galveston nunca apanhei nenhum) que não saíam da paragem enquanto houvesse alguém de pé. Na altura chateava-me e achava um excesso de precaução. 

Agora acho uma excelente prática. Sobretudo quando os autocarros são conduzidos por pilotos de corrida frustrados.

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Restaurante en Port de Pollença: Can Ferrá. É perto do porto e deve haver mais barato, mas a diferença de preço compensa largamente a diferença de qualidade com a cervejaria Albero.

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Acabam de me propor um charter de três semanas em Ibiza. Não posso. Primeiro porque teria de começar este sábado e segundo porque quero estar em Mallorca com a L., o Leonardo e o F. 

Na verdade, não penso noutra coisa.

9.8.22

Altos, vidas

Ao contrário do que muita gente pensa - ridícula, patética e lamentavelmente, de passagem seja dito - a vida não é feita de altos e baixos.

É de baixos, mais baixos, muito baixos e baixíssimos. Os altos só acontecem nos contos de fadas e nos discursos dos politicos.

Explicar, compreender

Esta ânsia de tudo explicar, de procurar uma razão para tudo cansa-me.

Quem tudo explica nada compreende.

Diário de Bordos - Pollença, Mallorca, Baleares, Espanha, 08 e 09-08-2022

Hoje tive mais um dia de folga inesperada e aproveitei a ausência de cansaço para explorar um bocadinho a cidade. Estou farto destes restaurantes perto do porto onde me pedem seis euros (!!!!) por um tinto de verano e só há menus very typical. Descobri a Cerveceria Albero, onde o tinto de verano custa dois euros e meio e os preços do resto são à escala.

[Adenda: hoje voltei cá. É a ultima vez. O dinheiro não é tudo.]

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A última vez que fiz danos num barco foi há dez ou onze anos, em St. Martin. Esta semana fiz dois. Basta perceber um bocadinho de estatísticas para ver que estou bom para vinte anos, não é?

[Adenda: isto não é inteiramente verdade, mas por agora fica.]

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O sacana do escocês a quem lixei o bote é uma mistura de gajo porreiro com um chato de primeira apanha. Percebo a segunda parte - é chato ver um bote que se construiu partido, seja por que razão for - e alegro-me com a primeira. Antes isso.

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Hoje fiquei a conhecer mais uma cala fantástica, no cabo Ferratxu. Pollença (ou, para ser mais exacto, o porto de Pollença) não é por assim dizer fascinante. Já as costas aqui perto são interessantíssimas. Passam para o roteiro, sobretudo fora de Julho e Agosto.

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Estes posts vão mudar a localização. Não estou em Pollença, mas sim em Puerto de Pollença. São sítios diferentes. 

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Viver no e do mar. Só falta uma preposição,  não é?

Para.

7.8.22

Cansaço

Estou tão cansado que nem deitado a fatiga desaparece. Sinto-me uma baleia encalhada na praia, com os órgãos a esmagarem-se uns aos outros. (Não é bem assim, mas pouco importa.)

Diário de Bordos - Pollença, Mallorca, Baleares, Espanha, 07-08-2022

Começa-se por dizer que:

a) Isto não é questão de trabalho físico e
b) tão pouco tem a ver com a idade.

O trabalho físico é pouco, quase nenhum; e a velhice - ou antiguidade, é melhor - não é a causa desta fatiga. Todos nos queixamos do mesmo, seja qual for a década que nos viu nascer.

O que me leva a concluir que há aqui uma forte componente de esforço intelectual, o qual cansa tanto ou mais do que o outro, como toda a gente sabe. Não deixa porém de ser verdade que quando me apanho na cama, luz apagada e telefone pousado, vejo a fatiga sair de mim como condensação num dia frio, ou como as almas a abandonar os corpos nas imagens da Idade Média. É um fumo branco que saúda a inactividade total. Às vezes tenho vontade de o seguir, de tão potente é a sensação. 

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Para quem raramente dá um toquedurante uma manobra, este charter está rico deles. À chegada, foi um toque na plataforma de popa do vizinho. Tenho uma desculpa, claro; ou mesmo várias: o espaço era pouquíssimo, não conhecia o bote, tinha  cliente à espera e cheia de pressa. Felizmente foi uma coisinha de nada. Estou à espera de que a dona do barco me diga quanto vai custar a reparação, mas sei que vai ser pouco.

Hoje dei mais um toque, mas desta vez a explicação é só uma: má sorte. A cala é pequena,  estamos todos encavalitados uns nos outros. À minha amura tinha um veleiro do qual não tirava os olhos. Estava pronto a arrear mais corrente, dois metros ou três, caso fosse preciso. Durante uma hora os botes giraram, mexeram-se, passaram perto mas nunca estiveram em situação de se pegarem. Nisto passa um semi-rígido propriedade de um amigo da cliente e começa a recolher alguns dos miúdos  dela. Não pára o motor, o que já de si é estúpido. Mas o pior veio depois: um dos miudos não subiu, o semi-rígido continuou e o miúdo fica a trinta centímetros do motor. Eu estava a seguir a cena - foram dois minutos se tanto - preocupado, claro (isto é um understatement, se por acaso).

Foram dois minutos, os únicos dois minutos em que tirei os olhos do veleiro; como é óbvio, foram estes dois minutos que ele e o meu escolheram para passarem a vias de facto e dei-lhe um toque no dinghy, que estava pendurado nos turcos. 

Bom, resumindo: aquilo repara-se com epoxi e uma camada de tecido, foi ele que construiu a chata e pode fazer ele o trabalho, é um gajo porreiro e vou outra vez safar-me com cinquenta euros se tanto.

Ou seja: dois toques numa semana. Isto é de fazer explodir as estatísticas todas, por muito baratos que me tenham saído.

Adenda: é pior do que parece. Mais más notícias amanhã. 

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O dia começou às sete e meia da manhã e está a acabar agora, nove da noite. Na volta vamos a ver e é por isto que ando cansado.

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Vá lá que as crianças estão muito mais suportáveis. Até já começo a gostar delas.

6.8.22

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 5 e 6-08-2022

A cliente decidiu que hoje não saíamos, eu agradeci e meti-me no autocarro para Palma. Fui ao Ivo buscar a bicicleta que lá tinha deixado a correr na segunda-feira. Algumas horas mais tarde estava no bar Rita a "jantar" (aspas porque ainda não me habituei a chamar jantar a uma quantidade de comida que deixaria um periquito cheio de fome). O Juan Carlos apareceu e passámos o tempo à conversa. Ofereceu-me um quarto para quando precisasse. 

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A Lua está em crescente. Eu também.  É bom saber-me bem acompanhado.

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O eixo Passeig des Born / Rambla foi repavimentado. Para Lisboa, aquilo estava em óptimas condições. A câmara municipal de Palma não tem, visível e justificadamente, a mesma opinião. Pergunto-me se não se poderia enviar os autarcas de Lisboa fazer estágios aqui. Poderiam tentar começar como varredores de rua, vulgo almeidas. Com um bocadinho de sorte talvez fossem aceites.

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Mais uma viagem de autocarro. A mascarada é obrigatória. Sinto-me um puto: mostro a máscara na mão quando entro e o chauffeur aponta imediatamente para o nariz dele (toda a gente está tansformada numa espécie de Lucky Luke das máscaras. Apontam mais depressa do que a sombra. Aqui e em todo o lado). Depois vou sentar-me ao fundo, arrumo o trapo e pronto: a minha viagem à adolescência está feita.

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Faltam dezassete dias para o meu neto Leonardo chegar a Palma com os pais. Pergunto-me quando começarei a contar os segundos.

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Chegarei a Pollença à hora a que a cliente me diz cada dia que quer sair. Até hoje, nunca saímos a essa hora. Espero que hoje aconteça o mesmo. 

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PS - A saída foi marcada para as quatro da tarde. A sorte é uma droga muito potente.

5.8.22

Séneca

"On est circonspect quand on veut préserver son patrimoine, et en même temps, s'il s'agit de jeter au vent son temps, le seul bien dont il serait honorable d'être avare, quelle prodigalité !" 

"Mais il faut apprendre à vivre tout au long de sa vie, et, ce qui peut-être t'étonnera davantage, il faut, sa vie durant, apprendre à mourir."

"...que je n'hésite pas à prendre à mon compte cette phrase prononcée comme un oracle par les plus grands poètes: <La partie de la vie que nous vivons est courte.> Tout le reste ce n'est pas de la vie, c'est du temps."

Sénèque, La vie heureuse, ed. Arléa, Paris 1988.

4.8.22

Diário de Bordos - Pollença, Mallorca, Baleares, Espanha, 03-08-2022

A pior maldade que se pode fazer a uma crianca é não a educar correctamente. As cinco de hoje, com idades entre os sete e os quinze (ambas aproximadamente) são o melhor exemplo disso. Ao mais velho - Modesto de nome, nunca vi um tão mal posto - só me apetece cobrir-lhe a cara de chapadas, cada vez que o vejo. As outras são novas demais para o que quer que seja excepto ensiná-las a dizer "por favor" e "obrigado". Já seria um grande passo em frente.

Tudo isto vem da avó, diz-me Anton, o galego que hoje veio comigo, é skipper do barco da dita avó e, acessoriamente, um dos homens mais adoráveis com quem me foi dado partilhar um dia de navegação.  Parece que a senhora é abominável de arrogante e mal educada.

Vão ser quinze dias disto. Na verdade, só há uma coisa que me enfurece: porque chego ao fim do dia exausto como agora estou?

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Jantar no Angelo. 

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(Isto terminou assim, cilindrado por um rolo compressor de cansaço. )


1.8.22

Diário de Bordos - Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-08-2022 / II

Basta começar com "estou gentilmente fechado em mim mesmo" e depois vai-se por aí abaixo, eixo vertical (é o paradigma ou o sintagma? Não me lembro): acaloradamente, solitariamente, tristemente, felizmente, sonhadoramente... É um nunca acabar de ...mente, advérbios de modo a cheirar a mofo. Estou gentilmente de volta ao beliche, deixo Palma à espera, sonho com uma ventoínha (ou com um ar condicionado,  não sejas pobre no sonhar), levanto-me podre de fome e de vontade de comer uma boa spaghetatta, o Bonobono está fechado e acabo ao lado, Cuccina Italiana Contemporanea.

Por que raio de carga de água fico ligo de pé atrás ao ver cozinha e contemporânea na mesma frase? É imediato e como agora justificado. Quase sempre justificado. 

Não se pode dizer que o spaghetti com polvo esteja mau. Não está. Mas não chega aos calcanhares da lasanha do Bonobono. Enfim, está comido. A música é boa, baladas de jazz bem escolhidas, o Makaria está demasiado longe para a fome, estou sintagmaticamente jantado. Agora é só acabar o vinho e voltar para o beliche, para os braços acolhedores do meu P., o sacana faz-me pagar bem caro essa hospitalidade.

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Amanhã, reunião de trabalho com o B., encontrei finalmente um gajo porreiro, sério, que sabe o que sabe e sabe sobretudo o que não sabe.

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As palavras voam em todas as direcções, andorinhas tontas.

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Hoje consegui o prodígio de pôr o cadeado da minha bicicleta na do vizinho,  três ou quatro burras ao lado. Ficou assim uma grande parte da tarde. Espero que ele não tenha precisado de sair. 

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-08-2022

Dois ou três dias de folga inesperada. Aproveito pata avançar um pouco - muito pouco, o possível - com o P. e para pensar devagar. Hoje aluguei uma bicicleta no Ivo mas ando tão distraído que a deixei ao pé do barco e vim no transfer que o clube organiza. A iniciativa é boa: um carro de golf que anda para trás e para a frente a levar pessoas de uma ponta à outra da marina. O único defeito é não serem dois. De resto, funciona à perfeição. 

Fui demasiado optimista e estou de maré vazia. Verdade seja dita, ando com as luzes encarnadas a piscar há mais de duas semanas. Não há maneira de deixar de confundir "piscar" e "piscar-me os olhos". Tenho dinheiro até amanhã, se hoje não comer caviar ao jantar. Nunca como.

Cheio de sono, outra vez. Assim que tiver massa compro uma ventoínha, ver se consigo dormir algo que se veja. Um psiquiatra disse-me um dia que eu preciso destes altos e baixos para gerir a minha vida emocional. É possivel. Não sei. Pouco me interessa. É tarde para encontrar outros modelos de gestão, mesmo que quisesse. 

Parece que em Portugal está frio. Desta vez o aquecimento global acertou em cheio comigo. Espero que os cientistas regressem em breve ao problema do arrefecimento e este com eles. Para os vinte anos que me restam de vida prefiro um pouco de frescura. Calor já tive que chega. (Será que vou viver para ver o Leonardo com vinte anos? Não posso crer.)

Penso pouco na minha casa de Lisboa, mas penso muito nos livros. Para compensar (suponho), continuo a comprá-los como se quisesse refazer a biblioteca do Cairo. Não quero. Só quero poder um dia folheá-los, lê-los, comentá-los, pensá-los. Um harém de livros, é o que é. Vou ensinar o Leonardo a gostar de ler. O resto, ele que aprenda por si.

A glicemia tem andado a cair para níveis baixíssimos. Talvez o tinto de verano seja a única vantagem do tempo quente. É o que tenho andado a beber, em doses razoáveis. (Como se fosse preciso dizer.)

(Cont.)