A cidade está cheia de sol e de gente. É tão bonita! O sol divide-se igualmente por tudo e todos: ruas, praças, gente, rio, prédios, as velas de dois ou três gajos do day charter. Dá-lhes vida, luz e paz: o calor apazigua, pacifica. Tudo se torna menos frenético, mais calmo, como se a luz e o calor fossem obstáculos sólidos a precisar de ser afastados a cada passo.
4.3.19
3.3.19
Miragem
Algures perante mim uma planície, um largo rio tranquilo, searas que onduleiam ao sol, uma camponesa de faces rosadas, estantes cheias de livros (os meus). Pode ser miragem, mas é bonita, não é?
Vida, escrever
A desvantagem de escrever pouco é que requer mais medronho, ponchas, rum, whisky do que escrever muito. Ou até mesmo, imagine-se, vida.
Vida, muro
Constróis um muro. Chegas ao fim e descobres que ficaste fechado no lado errado. Chama-se vida, não é?
[Há uma porta nessa parede. É a música.]
[Há uma porta nessa parede. É a música.]
O infinito e os círculos
Estas coisas acontecem nos círculos? Não. Acontecem em círculos: andamos-lhes às voltas. como se tivéssemos um faro de cachorro. Não temos e os nossos círculos não são perfeitos. Parecem oitos deitados, como o infinito.
Lamento do solipsista
Talvez o mundo exterior tenha alguma coisa a dizer; não sei. Ou eu tenha algum comentário sobre ele; ainda menos. Tudo o que acontece acontece em mim e o que não acontece em mim não existe. Nada que não seja eu existe e sou tão pouco. Espalho-me pela vastidão do que sinto, penso, imagino e perco-me na selva de tudo o que é fora de mim, tão pequena.
Os leões estão em mim, as panteras, os leopardos e as serpentes. Fora só vejo o sol, o cálido vento que mo traz e o mar que os deixa passar.
Os leões estão em mim, as panteras, os leopardos e as serpentes. Fora só vejo o sol, o cálido vento que mo traz e o mar que os deixa passar.
Ler, escrever
Quem escreve gosta de tecelagem, quem lê não gosta de crochet. Parece uma contradição, mas não é.
28.2.19
Livros, cama
Um post no Facebook faz-me procurar referências a Alejandra Pizarnik aqui no DV. Não ter os meus livros comigo é como estar apaixonado e sozinho na cama.
Mais lágrimas, um Pai e uma Senhora
Mais uma história de choros: cada vez que entro na Galileu, em Cascais, desfaço-me em lágrimas, que consigo mais ou menos conter, esconder, disfarçar. Hoje pedi para me reservarem um livro, a senhora pergunta-me o nome, digo-o e ela responde "Ah, o senhor Serpa. Era tão boa pessoa! Um doce", referindo-se, claro, ao meu Pai. Tive de fingir um súbito e avassalador interesse pelos livros que me faziam virar costas ao balcão.
Há pouco menos de quarenta anos - muito pouco - resolvi que os meus conhecimentos de poesia portuguesa eram insuficientes e fui à Galileu (na altura a única livraria de Cascais) comprar livros de poesia. Comprei um monte deles, não sei quantos. Lembro-me contudo perfeitamente da conta: vinte e seis contos de réis. A senhora (que na altura ainda não sabia, mas se chama Caroline Tyssen, a quem estarei para sempre grato e reconhecido, tanto mais que à pilha sugeriu eu acrescentasse Pedro Tamen) ficou surpreendida e perguntou-me se queria pagar em duas ou três vezes. Não me conhecia; se aquela não foi a primeira vez que entrei ali terá sido a segunda ou terceira, não mais. Eu acabara de chegar da Suíça e estava a trabalhar em Aveiro, numa draga de sucção holandesa onde trabalhava setenta e duas horas por semana. Não ia frequentemente a Cascais. Disse-lhe que não, obrigado e ela insistiu. Voltei a agradecer e a dizer que não era preciso. Depois deste episódio disse ao meu Pai "a Bertrand não é a única livraria do país, contrariamente ao que tu pensas: há uma em Cascais à qual deves ir". O meu Pai - como de resto qualquer pessoa que goste de ler - passou a considerar Caroline a melhor livreira do Universo: "Não há um único livro que ela me sugira de que eu não goste, percebes?" perguntava-me frequentemente.
Percebo, Pai, percebo perfeitamente. Ainda hoje não consigo lá entrar sem pensar em ti e sem pensar na quantidade de autores que descobri graças à Caroline.
Há pouco menos de quarenta anos - muito pouco - resolvi que os meus conhecimentos de poesia portuguesa eram insuficientes e fui à Galileu (na altura a única livraria de Cascais) comprar livros de poesia. Comprei um monte deles, não sei quantos. Lembro-me contudo perfeitamente da conta: vinte e seis contos de réis. A senhora (que na altura ainda não sabia, mas se chama Caroline Tyssen, a quem estarei para sempre grato e reconhecido, tanto mais que à pilha sugeriu eu acrescentasse Pedro Tamen) ficou surpreendida e perguntou-me se queria pagar em duas ou três vezes. Não me conhecia; se aquela não foi a primeira vez que entrei ali terá sido a segunda ou terceira, não mais. Eu acabara de chegar da Suíça e estava a trabalhar em Aveiro, numa draga de sucção holandesa onde trabalhava setenta e duas horas por semana. Não ia frequentemente a Cascais. Disse-lhe que não, obrigado e ela insistiu. Voltei a agradecer e a dizer que não era preciso. Depois deste episódio disse ao meu Pai "a Bertrand não é a única livraria do país, contrariamente ao que tu pensas: há uma em Cascais à qual deves ir". O meu Pai - como de resto qualquer pessoa que goste de ler - passou a considerar Caroline a melhor livreira do Universo: "Não há um único livro que ela me sugira de que eu não goste, percebes?" perguntava-me frequentemente.
Percebo, Pai, percebo perfeitamente. Ainda hoje não consigo lá entrar sem pensar em ti e sem pensar na quantidade de autores que descobri graças à Caroline.
"É prá poncha"
Aposto que vos acontece a todos: um gajo volta para casa, tranquilamente na sua bela pasteleira (ou na veloz Vitus). O dia foi bom, mau, assim assim ou não cabe sequer nessas categorias. A noite está fria ma non troppo, ou cálida ou mesmo quente. Um gajo vai pensando no dia de amanhã, evitando pensar no dia de hoje ou vice-versa e quando chega ali a Santos salta-lhe um bar ao caminho. Isto pode parecer uma fórmula retórica, mas não é: o bar salta-lhe literalmente ao caminho, oferece-lhe uma árvore para amarrar a bicicleta ("oferecer" não é o verbo adequado. "Impõe-lhe" está mais perto da verdade) e que pode um homem fazer se não descer da sua burra, amarrá-la à dita árvore e entrar no bar?
Chama-se É prá poncha e pertence ao meu amigo Elmano e ao seu irmão Manuel, que também é meu amigo mas que conheço menos. Com o Elmano fui a La Rochelle, cidade conservadora s'il en est.
Não falo do bar: não é por isso que lá vou. Falo da Poncha, um cocktail que rivaliza com o Painkiller do Soggy Dollar em Jost van Dyke, com o Alexander do Luís do Procópio (e só com este; os outros não são bem Alexanders), com o Dry Martini do Sr. Miguel do Pavilhão Chinês ou com o medronho que neste momento bebo, dádiva do Nuno: todos eles são provas de que Deus existe, escolhe caminhos inesperados para se manifestar e não se importará muito se acabarmos por Lhe preferir as manifestações à existência.
O caso da poncha tem um bónus: ver o Elmano fazê-las. Há uma forma de beleza no trabalho bem feito e esta é particularmente difícil de atingir: gestos rápidos, precisos e por conseguinte belos não estão ao alcance de todos. Uma poncha demora mais tempo a fazer do que qualquer das bebidas que citei, o que lhe demonstra a superioridade. Feitas pelo Elmano ou pelo Manuel não são bebidas: são obras de arte sacra.
Chama-se É prá poncha e pertence ao meu amigo Elmano e ao seu irmão Manuel, que também é meu amigo mas que conheço menos. Com o Elmano fui a La Rochelle, cidade conservadora s'il en est.
Não falo do bar: não é por isso que lá vou. Falo da Poncha, um cocktail que rivaliza com o Painkiller do Soggy Dollar em Jost van Dyke, com o Alexander do Luís do Procópio (e só com este; os outros não são bem Alexanders), com o Dry Martini do Sr. Miguel do Pavilhão Chinês ou com o medronho que neste momento bebo, dádiva do Nuno: todos eles são provas de que Deus existe, escolhe caminhos inesperados para se manifestar e não se importará muito se acabarmos por Lhe preferir as manifestações à existência.
O caso da poncha tem um bónus: ver o Elmano fazê-las. Há uma forma de beleza no trabalho bem feito e esta é particularmente difícil de atingir: gestos rápidos, precisos e por conseguinte belos não estão ao alcance de todos. Uma poncha demora mais tempo a fazer do que qualquer das bebidas que citei, o que lhe demonstra a superioridade. Feitas pelo Elmano ou pelo Manuel não são bebidas: são obras de arte sacra.
27.2.19
Elogio da desobediência
Esta história de que "Um homem não chora" é uma violência imposta aos homens, uma injustiça que as feministas - e, sejamos justos, a maioria das mulheres - esquece de incluir na conta.
Felizmente há homens corajosos, desobedientes, que fazem o que querem quando querem.
Incluindo chorar.
Felizmente há homens corajosos, desobedientes, que fazem o que querem quando querem.
Incluindo chorar.
Uma grande porra!
O meu telefone portátil, que há dias me enviava sinais por via onírica ficou insatisfeito com a minha assumidamente equívoca reacção e resolveu desaparecer. Desaparecer de todo, misteriosamente, sem um som, um aviso, um adeus. Num momento tinha-o na mão e cinco minutos depois chego a bordo e não o tenho. Se tivesse sido abduzido por marcianos o desaparecimento seria assim, mas ter-se-ia visto uma luz qualquer, quiçá verde pairar sobre a minha pobre cabeça.
O abençoado Nokia, que resistiu à passagem dos automóveis não resistiu à do tempo e foi, de certeza, para o céu dos telefones portáteis.
O abençoado Nokia, que resistiu à passagem dos automóveis não resistiu à do tempo e foi, de certeza, para o céu dos telefones portáteis.
26.2.19
25.2.19
Sonhos, telefones e automóveis
Ontem sonhei com seis ladrões muito estúpidos. Não me lembro dos pormenores do sonho, mas lembro-me da conclusão jungiana a que cheguei: os ladrões personificam as diferentes formas da minha estupidez. Só não sabia que eram tantas.
Já o sonho de hoje foi mais fácil e não recorri a Jung para o interpretar: uma viagem pelo Tejo acima com o telefone no bolso dos calções. Ia a pé e estava sempre a chafurdar na água (devia estar muito longe da foz, tinha pé em todo o lado): preciso de comprar um telefone portátil novo. O meu (o real) desta vez não caiu ao mar, caiu em terra, estava a consultar o Google Maps na bicicleta e o maldito telefone saltou-me das mãos sem razão nenhuma (pelo menos aparente), um carro que vinha atrás de mim passou-lhe por cima. Ainda funciona (isto passou-se em Palma) mas dá alguns sinais de desconforto. Deve ter alguma ferida interior.
Gosto deste cuidado que os meus sonhos tiveram: primeiro uma introdução ao tema, depois a explanação. Pergunto-me qual será o desfecho, já que para mim comprar telefones é ainda mais difícil do que comprar roupa, derivado aos números.
Uma coisa é certa: vão ser necessários muitos mais sonhos para trocar este, magoado ou não. É um Nokia barato mas resistente à passagem dos automóveis.
Já o sonho de hoje foi mais fácil e não recorri a Jung para o interpretar: uma viagem pelo Tejo acima com o telefone no bolso dos calções. Ia a pé e estava sempre a chafurdar na água (devia estar muito longe da foz, tinha pé em todo o lado): preciso de comprar um telefone portátil novo. O meu (o real) desta vez não caiu ao mar, caiu em terra, estava a consultar o Google Maps na bicicleta e o maldito telefone saltou-me das mãos sem razão nenhuma (pelo menos aparente), um carro que vinha atrás de mim passou-lhe por cima. Ainda funciona (isto passou-se em Palma) mas dá alguns sinais de desconforto. Deve ter alguma ferida interior.
Gosto deste cuidado que os meus sonhos tiveram: primeiro uma introdução ao tema, depois a explanação. Pergunto-me qual será o desfecho, já que para mim comprar telefones é ainda mais difícil do que comprar roupa, derivado aos números.
Uma coisa é certa: vão ser necessários muitos mais sonhos para trocar este, magoado ou não. É um Nokia barato mas resistente à passagem dos automóveis.
24.2.19
Diário de Bordos - Ericeira, Portugal, 24-02-2019
"Are you talking to me? Are you talking to me?" Não sei a quem dirijo a pergunta. A minha esquizofrenia, tão apregoada (por mim) é virtual. Não oiço vozes, a menos que as crie eu.
Estou ao sol, na esplanada de um australiano (sei pela lista). O vinho é óptimo, a empregada bonita e o calor embala-me, pega-me ao colo, acaricia-me, envolve-me e pergunta-me quem sou. Deve ser a ele que respondo se é comigo que está a falar.
.........
Isto foi há pouco. Agora como na Mercearia da Amélia (ou coisa que o valha), uma garrafa de Baga do Luís Pato, presunto, chouriço e paio, uma empregada que é uma delícia, lá fora o calor e em breve a sesta.
Vou amanhã para Lisboa, directamente daqui. Quarenta e três quilómetros e uma pergunta: "Are you talking to me?"
É que se é a mim que estás a falar, antes dizeres de uma vez o que queres, quem quer que sejas.
Estou ao sol, na esplanada de um australiano (sei pela lista). O vinho é óptimo, a empregada bonita e o calor embala-me, pega-me ao colo, acaricia-me, envolve-me e pergunta-me quem sou. Deve ser a ele que respondo se é comigo que está a falar.
.........
Isto foi há pouco. Agora como na Mercearia da Amélia (ou coisa que o valha), uma garrafa de Baga do Luís Pato, presunto, chouriço e paio, uma empregada que é uma delícia, lá fora o calor e em breve a sesta.
Vou amanhã para Lisboa, directamente daqui. Quarenta e três quilómetros e uma pergunta: "Are you talking to me?"
É que se é a mim que estás a falar, antes dizeres de uma vez o que queres, quem quer que sejas.
23.2.19
Dispersas do dia
A minha Vírus Velox (designação dada por mim, mais do que merecida) é leve e rápida. Basta-lhe não estar a subir para me fazer pensar que estamos a descer.
Pensar em qualquer coisa - uma situação, um projecto, um problema, a vida - tem similitudes com pedalar numa estrada: há subidas, descidas, pequenas contrariedades, grandes alegrias.
Este fim-de-semana é dedicado a pensar num dos aspectos da minha vida. Não digo qual, pouco importa. Mas é algo que precisa de atenção e reflexão.
Pedalar ajuda o cérebro a funcionar. Sugiro fortemente que adaptem este método: uma bicicleta veloz, um bom almoço, dois ou três incidentes desagradáveis (há demasiado trânsito automóvel, porém tive poucas manifestações de simpatia da parte dos condutores: as razias e buzinadelas escassearam. A esmagadora maioria dos veículos afastava-se amplamente. No incidente do cruzamento, o condutor do veículo que estava atrás do da jovem saiu do carro e vociferou qualquer coisa durante muito tempo, mas não percebi o que era ou a quem se dirigia).
Esta mistura de muito prazer e poucas chatices é frutuosa, profícua, prenhe de resultados.
Tal como uma boa refeição tem efeitos positivos num vasto arco de sentimentos, mas principalmente no tempo: torna-se mais gentil, mais lento, como se também ele estivesse a digerir.
Na Ericeira fui jantar ao restaurante Gafanhoto, um clássico daqueles em que numa mesa está um senhor parecido com François Hollande, noutra um homem gordo vestido com umas calças de fato de treino cinzentas e um sweat shirt cor de rosa e noutra ainda uma jovem mãe muito bonita acompanhada por uma criança. É visivelmente o seu fim de semana com a filha.
Come-se bem e barato, mas aquilo de que mais gostei foi da simpatia do serviço. Há tanto tempo que não vejo tantos sorrisos e tanta amabilidade num restaurante... Para quem vem de Palma, habituado a ser servido com duas pedras na mão e três no sapato, isto parece outro planeta.
Longa e interessante conversa com T., ontem. Apetece-me continuá-la por escrito. Talvez seja tarefa para amanhã, vá lá saber-se. Esta ausência de plano é um campo de tiro sem limites e sem alvos. Há um objectivo, mas não há um itinerário traçado para lá chegar. Como diz aquele estafado e algo chato verso, "o caminho faz-se caminhando".
Pensar em qualquer coisa - uma situação, um projecto, um problema, a vida - tem similitudes com pedalar numa estrada: há subidas, descidas, pequenas contrariedades, grandes alegrias.
Este fim-de-semana é dedicado a pensar num dos aspectos da minha vida. Não digo qual, pouco importa. Mas é algo que precisa de atenção e reflexão.
Pedalar ajuda o cérebro a funcionar. Sugiro fortemente que adaptem este método: uma bicicleta veloz, um bom almoço, dois ou três incidentes desagradáveis (há demasiado trânsito automóvel, porém tive poucas manifestações de simpatia da parte dos condutores: as razias e buzinadelas escassearam. A esmagadora maioria dos veículos afastava-se amplamente. No incidente do cruzamento, o condutor do veículo que estava atrás do da jovem saiu do carro e vociferou qualquer coisa durante muito tempo, mas não percebi o que era ou a quem se dirigia).
Esta mistura de muito prazer e poucas chatices é frutuosa, profícua, prenhe de resultados.
Tal como uma boa refeição tem efeitos positivos num vasto arco de sentimentos, mas principalmente no tempo: torna-se mais gentil, mais lento, como se também ele estivesse a digerir.
Na Ericeira fui jantar ao restaurante Gafanhoto, um clássico daqueles em que numa mesa está um senhor parecido com François Hollande, noutra um homem gordo vestido com umas calças de fato de treino cinzentas e um sweat shirt cor de rosa e noutra ainda uma jovem mãe muito bonita acompanhada por uma criança. É visivelmente o seu fim de semana com a filha.
Come-se bem e barato, mas aquilo de que mais gostei foi da simpatia do serviço. Há tanto tempo que não vejo tantos sorrisos e tanta amabilidade num restaurante... Para quem vem de Palma, habituado a ser servido com duas pedras na mão e três no sapato, isto parece outro planeta.
Longa e interessante conversa com T., ontem. Apetece-me continuá-la por escrito. Talvez seja tarefa para amanhã, vá lá saber-se. Esta ausência de plano é um campo de tiro sem limites e sem alvos. Há um objectivo, mas não há um itinerário traçado para lá chegar. Como diz aquele estafado e algo chato verso, "o caminho faz-se caminhando".
Ericeira, emoções, planos e outras coisas insignificantes
Ou seja: cheguei à Ericeira. O cozido à Portuguesa do ex-café do Zé não se revelou um obstáculo, muito antes pelo contrário: pôs-me asas nos pés.
Já sobre a aguardente "especial de corrida" é legítimo ter dúvidas. Tive um pequeno incidente com uma jovem condutora num cruzamento e se bem seja difícil (e totalmente supérfluo) atribuir culpas é inegável que um pouco de atenção da minha parte teria evitado o dito incidente.
Do qual, claro, fui eu a vítima: o pedal esquerdo desapertou-se e vi a minha ausência de plano seriamente posta em risco. Mas isto das bicicletas é como as embarcações de vela: um gajo acaba sempre por encontrar uma solução (a diferença sendo que no mar essa solução é interna e nas burras externa). Uma chave sextavada interior número oito (que os íntimos conhecem por chave Allen) encontrada quatro ou cinco quilómetros depois do acontecimento, no armazém de um senhor que carregava um veículo com destino ao Porto resolveu o assunto. (Quinhentos metros depois comprei um pequeno jogo de chaves Allen, só para deitar a língua de fora ao diabo.)
Depois destas vastas emoções foi só voar, chegar à Ericeira, beber uma água, reservar um quarto num hotel onde em 1974 dormi (e ainda há quem pense que eu sou um homem volúvel, dado a repentismos) e cair numa sesta abençoada.
Ele há não-planos que se revelam melhores do que muitos sim-planos.
Já sobre a aguardente "especial de corrida" é legítimo ter dúvidas. Tive um pequeno incidente com uma jovem condutora num cruzamento e se bem seja difícil (e totalmente supérfluo) atribuir culpas é inegável que um pouco de atenção da minha parte teria evitado o dito incidente.
Do qual, claro, fui eu a vítima: o pedal esquerdo desapertou-se e vi a minha ausência de plano seriamente posta em risco. Mas isto das bicicletas é como as embarcações de vela: um gajo acaba sempre por encontrar uma solução (a diferença sendo que no mar essa solução é interna e nas burras externa). Uma chave sextavada interior número oito (que os íntimos conhecem por chave Allen) encontrada quatro ou cinco quilómetros depois do acontecimento, no armazém de um senhor que carregava um veículo com destino ao Porto resolveu o assunto. (Quinhentos metros depois comprei um pequeno jogo de chaves Allen, só para deitar a língua de fora ao diabo.)
Depois destas vastas emoções foi só voar, chegar à Ericeira, beber uma água, reservar um quarto num hotel onde em 1974 dormi (e ainda há quem pense que eu sou um homem volúvel, dado a repentismos) e cair numa sesta abençoada.
Ele há não-planos que se revelam melhores do que muitos sim-planos.
Obstáculos e preocupações de um dia de Verão
Preparo-me para afrontar a segunda parte dos obstáculos entre mim e meu não-destino: a Ericeira. Os excessos cozídicos (pequenos, é preciso dizê-lo) foram compensados por um semi-frio de pêssego (semi-bom) e por um "especial de corrida", enternecedora, correcta e adequada designação da aguardente caseira do estabelecimento.
Há coisa de vai para quarenta anos vinha aqui jogar snooker. Mudou pouco, prova indubitável de que eu mudei muito. (As doses são mais pequenas).
........
Há um livro do Beckett que começa com a personagem principal a ser corrida de um prédio sem o seu chapéu, coisa que o preocupava mais do que o pontapé que recebera e fizera cair pelas escadas abaixo. Não me lembro do título. Textos para nada, será? Não sei.
Mas sei que estou preocupado com o meu chapéu e considero seriamente a possibilidade de deixar de o usar quando uso a Vitus Velox, desprovida de cesto.
Há coisa de vai para quarenta anos vinha aqui jogar snooker. Mudou pouco, prova indubitável de que eu mudei muito. (As doses são mais pequenas).
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Há um livro do Beckett que começa com a personagem principal a ser corrida de um prédio sem o seu chapéu, coisa que o preocupava mais do que o pontapé que recebera e fizera cair pelas escadas abaixo. Não me lembro do título. Textos para nada, será? Não sei.
Mas sei que estou preocupado com o meu chapéu e considero seriamente a possibilidade de deixar de o usar quando uso a Vitus Velox, desprovida de cesto.
Diário de Bordos - Fontanelas, 23-02-2019
"É preciso ter um plano, se quiseres não o respeitar" diz a máxima. Hoje provo que se pode não respeitar um plano inexistente. Almoço no café do Zé (Coreto, para os não íntimos) em Fontanelas e duvido fortemente de conseguir chegar à Ericeira: o almoço é cozido, coisa que tragicamente não como há pelo menos uma semana.
Está um calor insuportável: fui obrigado a pôr o chapéu na mochila, coitados (ele que sofre e eu que o paguei).
(Dizer "está um calor insuportável no dia 23 de Fevereiro é um luxo, não é? É)
........
A minha ausência de plano consistia vagamente em vir pedalar para a zona de Sintra, com a vaga possibilidade de chegar à Ericeira, se nada se interpusesse entre ela e mim. O primeiro obstáculo apareceu agora na mesa. Venham os próximos.
Está um calor insuportável: fui obrigado a pôr o chapéu na mochila, coitados (ele que sofre e eu que o paguei).
(Dizer "está um calor insuportável no dia 23 de Fevereiro é um luxo, não é? É)
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A minha ausência de plano consistia vagamente em vir pedalar para a zona de Sintra, com a vaga possibilidade de chegar à Ericeira, se nada se interpusesse entre ela e mim. O primeiro obstáculo apareceu agora na mesa. Venham os próximos.
Retratos inexistentes
Mulher bonita, inteligente acima da média. Portuguesa, claro: há mais sexualidade numa das suas células do que numa excursão de duzentas norueguesas com cio a um país africano. Usa e abusa dela, como um queniano usa e abusa das suas fibras musculares para ganhar maratonas: com um objectivo pensado e explícito, definido, legítimo.
É difícil resistir a esta combinação até se encontrar a chave, momento que se passará a amaldiçoar até ao fim dos tempos.
É difícil resistir a esta combinação até se encontrar a chave, momento que se passará a amaldiçoar até ao fim dos tempos.
22.2.19
Sim
"... and then I asked him with my eyes to ask again yes and then he asked me would I yes to say yes my mountain flower and first I put my arms around him yes and drew him down to me so he could feel my breasts all perfume yes and his heart was going like mad and yes I said yes I will Yes."
"Sim" é indubitavelmente a palavra mais bonita de todas as línguas faladas no planeta; e estas linhas a mais bonita homenagem que jamais lhe foi feita.
"Sim" é indubitavelmente a palavra mais bonita de todas as línguas faladas no planeta; e estas linhas a mais bonita homenagem que jamais lhe foi feita.
Capacidades, possibilidades e vontades
É forçoso reconhecer que talvez, quiçá, um dos grandes prazeres de se estar grosso seja simplesmente poder-se estar grosso. Isto é: poder financeira, física e intelectualmente.
Lisboa, superlativos
Escrever independentemente na Comida Independente; escrever devagar na Ler Devagar; escrever por aqui na Ler por Aí (em breve); escrever em tijolos no Brick Lisboa; ouvir música no Irreal; viver na Cossoul. Beber ponchas no Number Two. Comer chamuças nos Primos.
(Só falta o Tati. Café Tati).
Escrever-te, Lisboa, sem saber onde nem porquê nem quando nem quem. Escrever-te simplesmente, a tua desordem na desordem do papel. Talvez.
Se te descrevesse, Lisboa: haveria adjectivos no léxico? A havê-los, teriam graus suficientes? Bom melhor óptimo não chegam para ti, Lisboa. Teríamos - se quiséssemos descrever-te, o que está longe de ser garantido - de inventar novos adjectivos e novos graus para eles. Um superlativo lisboeta, superlativo ad Olissipo.
(Só falta o Tati. Café Tati).
Escrever-te, Lisboa, sem saber onde nem porquê nem quando nem quem. Escrever-te simplesmente, a tua desordem na desordem do papel. Talvez.
Se te descrevesse, Lisboa: haveria adjectivos no léxico? A havê-los, teriam graus suficientes? Bom melhor óptimo não chegam para ti, Lisboa. Teríamos - se quiséssemos descrever-te, o que está longe de ser garantido - de inventar novos adjectivos e novos graus para eles. Um superlativo lisboeta, superlativo ad Olissipo.
21.2.19
Notas do Irreal
1 - Falta humor à música electrónica. (Com excepção do Swayzak, claro). Mas isso sabe-se desde as capas dos Kraftwerk.
2 - O não-verbal dos músicos (bonito, não-verbal dos músicos) diz tudo: dobrados sobre os seus instrumentos como um artesão sobre a sua mesa de trabalho. Não tocam música, fazem sons.
3 - Quatro músicos, dos quais dois são DJ (se percebi bem, coisa que raramente acontece). O único cujo som claramente perceptível (isto é, percebia-se o instrumento que o produzia) era o sax. O concerto termina e oico-os conversar. O saxofonista está zangado porque o seu micro não estava a funcionar. Isto é, a sua música não era parte do conjunto. Era clara.
........
4 - És tão boa, Lisboa. Na mesma noite ouvi música de Cabo Verde (Funaná, mas qué vaya), electrónica e agora na Poncha do meu amigo E. música de merda, enquanto bebo o melhor cocktail à face da terra (depois do Alexander, claro). A saber, uma Poncha à Pescador. A vida é uma sequência de certezas intercaladas de dúvidas.
Quanto mais certezas e quanto mais dúvidas melhor é a vida.
5 - Acabo de perceber (oh tão tarde) que existencial e palhaçada são sinónimos.
A dúvida era: devo pedir mais uma poncha? O existencial: se pedires, vais grosso para bordo.
A palhaçada: o caminho para bordo, felizmente longe.
2 - O não-verbal dos músicos (bonito, não-verbal dos músicos) diz tudo: dobrados sobre os seus instrumentos como um artesão sobre a sua mesa de trabalho. Não tocam música, fazem sons.
3 - Quatro músicos, dos quais dois são DJ (se percebi bem, coisa que raramente acontece). O único cujo som claramente perceptível (isto é, percebia-se o instrumento que o produzia) era o sax. O concerto termina e oico-os conversar. O saxofonista está zangado porque o seu micro não estava a funcionar. Isto é, a sua música não era parte do conjunto. Era clara.
........
4 - És tão boa, Lisboa. Na mesma noite ouvi música de Cabo Verde (Funaná, mas qué vaya), electrónica e agora na Poncha do meu amigo E. música de merda, enquanto bebo o melhor cocktail à face da terra (depois do Alexander, claro). A saber, uma Poncha à Pescador. A vida é uma sequência de certezas intercaladas de dúvidas.
Quanto mais certezas e quanto mais dúvidas melhor é a vida.
5 - Acabo de perceber (oh tão tarde) que existencial e palhaçada são sinónimos.
A dúvida era: devo pedir mais uma poncha? O existencial: se pedires, vais grosso para bordo.
A palhaçada: o caminho para bordo, felizmente longe.
No fundo, palavras
Dizer das palavras fundas como fodas como aquele aparelho para atirar pedras como a fossa das Marianas, fundas como os sentidos todos que cada uma delas tem, mesmo as mais simples. Sim, por exemplo. Não: o mundo derruba-se. Está vento: vamos chegar depressa. Palavras que se me afundam na carne: quero amar-te, amor Lego construído peça a peça, umas por cima das outras, impacientemente. Palavras fundas como este sono em que te afundas, reparador, justo como a nega da senhora a quem há muitos anos prometeste não amar, sono de sentidos: ulmeiro, por exemplo. Tu não sabes como é um ulmeiro, sabes que é uma árvore, tem raízes fundas que buscam na terra o que tu buscas nas palavras, num ou outro corpo que te recebe, num dia de tempestade no mar. Palavras fundas, por muito leves ou lisas que te pareçam, lisas como notas de banco, elusivas e fugazes como o sorriso da mulher no metro ao homem que a acompanha.
Palavras fundas que em ti afundo por essa pele sem carta, por ti espalho, por ti invento como se me habitasses, como se em mim vivesses.
No mais fundo de mim.
Palavras fundas que em ti afundo por essa pele sem carta, por ti espalho, por ti invento como se me habitasses, como se em mim vivesses.
No mais fundo de mim.
20.2.19
Venham mais
Compro café (mistura Arábica) na Pérola do Chaimite, almoço na Versailles. Para um homem da minha idade, fazer parte do decile mais jovem da clientela de uma loja ou um restaurante é uma fonte de esperança, tanto quanto um privilégio, sorte ou prazer: venham mais vinte, que eu pago já.
PS - Mas não venham de uma assentada. Venham devagar, um a um.
PS - Mas não venham de uma assentada. Venham devagar, um a um.
19.2.19
Concorrência
- A mulher colonizou-me a memória, percebes? Monopolizou-a. Não há espaço para mais nenhuma. Deixou-me há cinco anos e ainda hoje quando fodo é ela que fodo. - Silêncio. Silêncio. Silêncio.
António é padre e usa-me como confessor, incluindo a gestão dos silêncios. Ao fim de uma longa pausa continua.
- Não te choca que eu vá para a cama com mulheres, eu sei. Sabes que por vezes tenho crises de consciência avassaladoras. Mas estes últimos anos têm sido terríveis. Sinto-me como se estivesse a enganar a ela e a Deus.
Silêncio. Silêncio. Silêncio.
- Antes de a conhecer não tinha muitos problemas com o sexo. Sempre fui contra o celibato dos padres e sempre quis ser padre. Deixei de confessar as fodas que dava, tão pouco me pareciam pecado.
- Não era dela que tu dizias que concorria com Deus?
Silêncio. Silêncio. Silêncio.
- Sim, mas estava enganado. É Deus que concorre com ela.
António é padre e usa-me como confessor, incluindo a gestão dos silêncios. Ao fim de uma longa pausa continua.
- Não te choca que eu vá para a cama com mulheres, eu sei. Sabes que por vezes tenho crises de consciência avassaladoras. Mas estes últimos anos têm sido terríveis. Sinto-me como se estivesse a enganar a ela e a Deus.
Silêncio. Silêncio. Silêncio.
- Antes de a conhecer não tinha muitos problemas com o sexo. Sempre fui contra o celibato dos padres e sempre quis ser padre. Deixei de confessar as fodas que dava, tão pouco me pareciam pecado.
- Não era dela que tu dizias que concorria com Deus?
Silêncio. Silêncio. Silêncio.
- Sim, mas estava enganado. É Deus que concorre com ela.
18.2.19
O tempo e os genes
Jantar com a fratria. É o tempo que nos une. Não há fonte de amor mais poderosa, mais perene, mais profunda do que esta conjugação mágica de tempo e de genes.
17.2.19
As diferentes formas da riqueza
Há duas maneiras de se ser rico: a primeira (e melhor) é ter muito dinheiro; a outra é não ter dinheiro nenhum.
Universos
Sou tão imperfeito, não sou? Todos os dias acordo e me arrepenho com tanta insuficiência que vejo em mim, tanto defeito.
Só me espanta é como ainda consigo, ao fim destes anos todos, descobrir asneiras novas por fazer. O Universo deve ser um catálogo ilimitado de disparates.
Pelo menos o meu.
Só me espanta é como ainda consigo, ao fim destes anos todos, descobrir asneiras novas por fazer. O Universo deve ser um catálogo ilimitado de disparates.
Pelo menos o meu.
Nome, véu de
Se tu quiseres imaginamos um véu. És tu quem decide: se quiseres pensar noutra coisa pensamos. Por mim, é um véu muito amplo, claro, transparente, leve como se não tivéssemos nada por cima. Nem história nem - muito menos - futuro. Imaginemo-nos assim, nus de tempo, sem ontem nem amanhã. Nus, tu e eu num planalto, daqueles que se vêem nos filmes sobre o Tibete ou a Mongólia.
Um véu cobre a paisagem. Que nome lhe daremos?
Um véu cobre a paisagem. Que nome lhe daremos?
16.2.19
Retratos do quotidiano imaginário
Era um casamento algo assimétrico: ele dava-lhe amor, ela retribuía com amizade. O que o mantinha era a esperança de cada um deles de que um dia o outro trocaria.
Princípio, fim
O que me desagrada nas trotinetes não é vê-las abandonadas pelos passeios. Essa é uma irritação minúscula, passageira.
Tenho pena é de que elas anunciem o fim das Segway, esse prodígio da técnica, inefáveis e bonitas.
Tenho pena é de que elas anunciem o fim das Segway, esse prodígio da técnica, inefáveis e bonitas.
Exclusões matinais
I
Amar-te e amar esse amor não se excluem mutuamente. Antes pelo contrário: completam-se.
II
Voltava ao amor como um jogador de rugby ao jogo, depois de uma placage particularmente violenta: com determinação e desconfiança.
Amar-te e amar esse amor não se excluem mutuamente. Antes pelo contrário: completam-se.
II
Voltava ao amor como um jogador de rugby ao jogo, depois de uma placage particularmente violenta: com determinação e desconfiança.
15.2.19
Geografia
Uma noite começa por um pequeno riacho chamado desejo e acaba numa ampla planície chamada vida.
14.2.19
Tentativa de definição
No fundo a boa música é isto: acertar as notas com o tempo e tudo isto com as emoções.
12.2.19
Um desejo chamado tempo
Que se lixe o tempo, que se lixe o rio que por ele corre sem margens. O tempo é o rio e ambos não passam de uma insuficiente cópia do desejo, onde desaguamos cada dia ao nascer, cada noite quando chega: tu em mim e eu em ti, sem margens nem para dúvidas nem para mais nada. Somos um rio sem limites que se espraia pelo tempo.
Às escuras, ADN, dupla hélice
É sempre assim, não é?
Não. É sempre mais ou menos assim: deixamo-nos escorregar pela vida e deixamo-la escorregar por nós, como um miúdo escorrega num escorrega que é ele. Somos um, dois e muitos. Somos as palavras que fazemos e o que elas fazem de nós, dizem-nos para onde apontar o olhar porque para lá olhámos quando as dissemos. Talvez por isso o ADN seja uma dupla hélice: fazemos a vida que nos faz ser o que somos.
Talvez no fundo seja isto o amor: esta vontade de ser o outro e sermos nós, feitos pelo outro. Dupla hélice: tu e eu juntos e separados, enredados e livres, soma para sempre incompleta e para sempre única. O dia chegará em que diremos "Amo-te" e o eco não dirá "Tenho medo", em que diremos "Não tenhas medo, eu amo-te" a duas vozes.
Amor, medo: dupla hélice. Amor, vida: outra dupla hélice. O amor não se enrola em si próprio, precisa do outro. Amor: outro, vida, medo. Num pacote, foi assim que veio da loja. Amor, amo-te, temo-te, tenho-te, temo-me, vivo, vivo-te, vivo-me, vida. A hélice não é dupla: é múltipla, infinita. É o universo. Somos um universo.
Metade desse universo pensa em ti, como se tu o pensasses: processo borgesiano, biblioteca de espelhos, Alephes um do outro: contigo e por ti reifico o mundo que em mim recrias, que comigo recrias. Fazemos, refazemos: fazemo-nos, refazemo-nos fazendo e refazendo. Duas agulhas fazem uma camisola de lã. E duas vidas, que fazem? Que tecem?
Acontecem, como ontem e hoje fazem um amanhã que não é um nem outro, mas é um e outro. Uma vida vive-se a dois, duas vidas a um. O mesmo se poderia dizer da noite, de resto: uma noite faz-se a dois. Se não, não é noite: é o tempo a passar às escuras.
Não. É sempre mais ou menos assim: deixamo-nos escorregar pela vida e deixamo-la escorregar por nós, como um miúdo escorrega num escorrega que é ele. Somos um, dois e muitos. Somos as palavras que fazemos e o que elas fazem de nós, dizem-nos para onde apontar o olhar porque para lá olhámos quando as dissemos. Talvez por isso o ADN seja uma dupla hélice: fazemos a vida que nos faz ser o que somos.
Talvez no fundo seja isto o amor: esta vontade de ser o outro e sermos nós, feitos pelo outro. Dupla hélice: tu e eu juntos e separados, enredados e livres, soma para sempre incompleta e para sempre única. O dia chegará em que diremos "Amo-te" e o eco não dirá "Tenho medo", em que diremos "Não tenhas medo, eu amo-te" a duas vozes.
Amor, medo: dupla hélice. Amor, vida: outra dupla hélice. O amor não se enrola em si próprio, precisa do outro. Amor: outro, vida, medo. Num pacote, foi assim que veio da loja. Amor, amo-te, temo-te, tenho-te, temo-me, vivo, vivo-te, vivo-me, vida. A hélice não é dupla: é múltipla, infinita. É o universo. Somos um universo.
Metade desse universo pensa em ti, como se tu o pensasses: processo borgesiano, biblioteca de espelhos, Alephes um do outro: contigo e por ti reifico o mundo que em mim recrias, que comigo recrias. Fazemos, refazemos: fazemo-nos, refazemo-nos fazendo e refazendo. Duas agulhas fazem uma camisola de lã. E duas vidas, que fazem? Que tecem?
Acontecem, como ontem e hoje fazem um amanhã que não é um nem outro, mas é um e outro. Uma vida vive-se a dois, duas vidas a um. O mesmo se poderia dizer da noite, de resto: uma noite faz-se a dois. Se não, não é noite: é o tempo a passar às escuras.
Palavras magnéticas
Talvez "Ritual" seja um bom ponto de partida. As palavras são magnéticas, já to disse tantas vezes. Procuram o Norte. Não: indicam o Norte. É por elas que sei o caminho. Poderias talvez troçar e dizer-me "O teu caminho é tão ondulante"; eu responder-te-ia "As palavras enganam-se". Ou "O Norte magnético das palavras não coincide com o Norte verdadeiro". Ou: "Estás desnorteado?"
Nada disto interessaria. Falamos de uma palavra que te busca como eu te busco. Na verdade, todas as palavras apontam para ti, todas as palavras te buscam, como eu te busco.
(Para a R., com um beijo).
Nada disto interessaria. Falamos de uma palavra que te busca como eu te busco. Na verdade, todas as palavras apontam para ti, todas as palavras te buscam, como eu te busco.
(Para a R., com um beijo).
11.2.19
Stendhal e o amor, a virtude e os demónios
"Fora-se-lhe a virtude, agora que se lhe eclipsara o amor", diz Stendhal algures no Vermelho e o Negro. A citação é duplamente traiçoeira: de memória e de uma tradução não sei de quem.
Pouco importa: esta oposição entre o amor e a virtude é muito bonita, mas só é possível no séc. XIX. No XX o amor é desvirtuoso por natureza e no XXI virtuoso porque os demónios regressaram à esfera pública, de onde tinham sido escorraçados.
No séc. XXI o amor é virtuoso. Todo ele: o amor, o poli-amor, as relações abertas, as relações fechadas, as relações tout court... tudo banha em virtude. O amor lava mais branco, como o Tide, o Omo ou os sabonetes artesanais.
O amor de hoje tem asas brancas resplandecentes e cai do céu, tal Gabriel a anunciar à Virgem que não tardaria um fósforo deixaria o ser.
Pouco importa: esta oposição entre o amor e a virtude é muito bonita, mas só é possível no séc. XIX. No XX o amor é desvirtuoso por natureza e no XXI virtuoso porque os demónios regressaram à esfera pública, de onde tinham sido escorraçados.
No séc. XXI o amor é virtuoso. Todo ele: o amor, o poli-amor, as relações abertas, as relações fechadas, as relações tout court... tudo banha em virtude. O amor lava mais branco, como o Tide, o Omo ou os sabonetes artesanais.
O amor de hoje tem asas brancas resplandecentes e cai do céu, tal Gabriel a anunciar à Virgem que não tardaria um fósforo deixaria o ser.
10.2.19
Diário de Bordos - Lisboa, 10-02-2019
Dia oblíquo...
"O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol..."
(Chuva Oblíqua, Fernando Pessoa)
Para mim é o contrário: o dia é sombrio e pálido e eu sonho com portos cheios de sol.
II
É tão fácil ser piegas, não é? Tão tentador. Que se lixe a pieguixe. O dia começou oblíquo mas acabou bem, vertical, fixe, com o Gonçalo Marques no Mercado de Campo de Ourique, um bocadinho mais terno do que é habitual mas sempre bom, sempre um prazer, uma viagem para portos cheios de sol e de luz e de miúdas giras.
..........
Um abade e um filósofo combinam encontrar-se para almoçar. Espargos, de que um (o abade) gosta com azeite e o outro com molho. Acordam que fica metade com azeite e a outra metade com molho. Antes do almoço o abade morre de apoplexia, o filósofo salta do seu lugar na mesa, sobe as escadas a correr e grita para a cozinha "Façam todos os espargos com molho! Todos os espargos com molho!"
Leio a história num livro chamado Comimos y Bebimos, Notas de cocina y de vida, de Ignacio Peyró, ed. Libros del Asteroide, Barcelona 2018. Sugiro forte e intensamente que o leiam, é uma pérola, uma jóia, uma obra de fineza e finura, amor e humor, uma declaração à comida e à bebida. Ou seja, à vida.
.........
Lisboa, irritante Lisboa, impossível amar-te e mais ainda não te amar. Velha gaiteira a prometer as melhores sopas em panelas novas e vai a ver-se as panelas não são nada novas, são as de sempre só que limpas e areadas, ao contrário das ruas e das paredes, pareces um mictório gigante a céu aberto.
........
Dia oblíquo.
"Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...
Não sei quem me sonho... "
"O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol..."
(Chuva Oblíqua, Fernando Pessoa)
Para mim é o contrário: o dia é sombrio e pálido e eu sonho com portos cheios de sol.
II
É tão fácil ser piegas, não é? Tão tentador. Que se lixe a pieguixe. O dia começou oblíquo mas acabou bem, vertical, fixe, com o Gonçalo Marques no Mercado de Campo de Ourique, um bocadinho mais terno do que é habitual mas sempre bom, sempre um prazer, uma viagem para portos cheios de sol e de luz e de miúdas giras.
..........
Um abade e um filósofo combinam encontrar-se para almoçar. Espargos, de que um (o abade) gosta com azeite e o outro com molho. Acordam que fica metade com azeite e a outra metade com molho. Antes do almoço o abade morre de apoplexia, o filósofo salta do seu lugar na mesa, sobe as escadas a correr e grita para a cozinha "Façam todos os espargos com molho! Todos os espargos com molho!"
Leio a história num livro chamado Comimos y Bebimos, Notas de cocina y de vida, de Ignacio Peyró, ed. Libros del Asteroide, Barcelona 2018. Sugiro forte e intensamente que o leiam, é uma pérola, uma jóia, uma obra de fineza e finura, amor e humor, uma declaração à comida e à bebida. Ou seja, à vida.
.........
Lisboa, irritante Lisboa, impossível amar-te e mais ainda não te amar. Velha gaiteira a prometer as melhores sopas em panelas novas e vai a ver-se as panelas não são nada novas, são as de sempre só que limpas e areadas, ao contrário das ruas e das paredes, pareces um mictório gigante a céu aberto.
........
Dia oblíquo.
"Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...
Não sei quem me sonho... "
Lisboa?
Esta Lisboa toda grafitada, taggada, cagada que já não conheço e ainda amo, já não amo e ainda desejo, amor antigo revisto passada uma vida: que dele ficou do que dele amámos?
3.2.19
Revigorante / aconchegante
Fazer-lhe amor era como chegar num dia quente a uma sala com ar condicionado, não como entrar num quarto aquecido num dia frio.
Aterragem
Estava receptiva como uma pista de aterragem à noite, aquela longa linha de luzes a indicar o caminho, a direito até ao fundo.
2.2.19
Transformações
Poucas coisas excitam mais um homem do que uma mulher independente, senhora dos seus afectos e do seu corpo, livre e soberana.
O problema é que muitos deles não sabem o que fazer de tanta excitação, coitados e transformam-na em medo.
O problema é que muitos deles não sabem o que fazer de tanta excitação, coitados e transformam-na em medo.
Aventura ferroviária
Outra vez no aeroporto. Sonho com o dia em que ir para a estação de comboios de Carcavelos seja uma aventura.
Mecânica newtoniana, infinito
Um puzzle do qual todas as peças encaixam como um corpo noutro, pelo qual está apaixonado; e os dois no universo, porque o amor é retribuído. Uma física que deixou de ser quântica e é agora arrumada, newtoniana, mecânica da qual se sabe o lugar de cada peça, de onde vem para onde vai. Não sabemos quanto tempo vai durar este estado, mas sabemos que é bom como se fosse infinito.
Por muito caro que tenhas de pagar. Cada segundo destes vale uma hora de inferno.
Por muito caro que tenhas de pagar. Cada segundo destes vale uma hora de inferno.
Complementaridade, diferença
O que une as pessoas não é o que têm comum. É o que têm diferente e se complementa.
São duas condições e não uma, eu sei, quase contraditórias: se se complementam não são assim tão diferentes.
São duas condições e não uma, eu sei, quase contraditórias: se se complementam não são assim tão diferentes.
1.2.19
Funâmbulo, vida
É como a arquitectura, no fundo: linhas e planos que se cruzam, se interpelam, se juntam para criar sentido.
A diferença está no funâmbulo que se passeia com a sua enorme vara sobre essas linhas e planos. É ele que transforma tudo aquilo em vida. Nem sequer precisa de cair para insuflar emoção naquele árido quadro. Olha: é impossível não o veres. Está no espelho mesmo à tua frente.
A diferença está no funâmbulo que se passeia com a sua enorme vara sobre essas linhas e planos. É ele que transforma tudo aquilo em vida. Nem sequer precisa de cair para insuflar emoção naquele árido quadro. Olha: é impossível não o veres. Está no espelho mesmo à tua frente.
Cheguei
Espera. Não tenhas pressa. Calma. Há um corpo que te espera no palco. Há um palco que te espera no corpo. Não hesites: podes ter os dois, o corpo e o seu palco. Vai mostrar-se, vais mostrar-te, vais ver-te no outro corpo, no outro palco. Se tiveres sorte reconheces-te, o palco aceitar-te-á, o corpo também. Somos palcos com pernas e braços, dois olhos e dois ouvidos, um ventre e uma mente. É neles, no ventre e na mente, que se desenrolam as peças todas: dramas, tragédias, comédias e sobretudo - sobretudo - farsas. Tem calma. Espera. Vê primeiro qual a próxima peça e só depois te deixas arregimentar. Shangaiar, dirias.
Fecha os olhos, procura um corpo e respectiva mente. Quando os encontrares diz: "este sou eu. Estou em casa. Cheguei".
Fecha os olhos, procura um corpo e respectiva mente. Quando os encontrares diz: "este sou eu. Estou em casa. Cheguei".
Puzzle, paciência
Como se fossem as peças do puzzle a dizer-te qual o lugar delas. Encaixam-se sozinhas, sem qualquer esforço teu. Pensas: "já estive aqui", mas não é totalmente verdade. A estrada é a mesma mas o puzzle mudou, os cruzamentos são outros, tu és diferente do que eras.
Pensas: "o cenário também é outro" mas sabes que isso é irrelevante. So há um cenário: tu. És o campo de batalha das guerras todas que viveste, o cenário não tem nada a ver com a história. As peças encaixam umas nas outras e lembras-te do nome português para puzzle: paciência.
Pensas: "o cenário também é outro" mas sabes que isso é irrelevante. So há um cenário: tu. És o campo de batalha das guerras todas que viveste, o cenário não tem nada a ver com a história. As peças encaixam umas nas outras e lembras-te do nome português para puzzle: paciência.
31.1.19
Má-educação?
Bodega Bellver, Palma. O homem conhece-me há um ano e faz-me trombas como no primeiro dia. Faz a toda a gente, não é só a mim. Creio que o vi sorrir uma vez, talvez duas. Pode dizer-se dele que é mal-educado?
Panamá: os panamianos desconhecem o uso de fórmulas de boa-educação. Bom dia, boa tarde, olá, obrigado, de nada, por favor são-lhes expressões tão estranhas como à maioria dos portugueses o Tao Te-King no original.
Pergunto-me se isto é verdadeira má educação. Esta requer que se infrinja um código, de antemão conhecido e partilhado com o interlocutor. O semi-anão da Bellver, os panamianos não estão a infringir código nenhum. Estão a ignorá-lo, na melhor das hipóteses. Na mais provável, ignoram-no.
Não é má-educação, nem sequer falta dela. É outra coisa, outro código.
Panamá: os panamianos desconhecem o uso de fórmulas de boa-educação. Bom dia, boa tarde, olá, obrigado, de nada, por favor são-lhes expressões tão estranhas como à maioria dos portugueses o Tao Te-King no original.
Pergunto-me se isto é verdadeira má educação. Esta requer que se infrinja um código, de antemão conhecido e partilhado com o interlocutor. O semi-anão da Bellver, os panamianos não estão a infringir código nenhum. Estão a ignorá-lo, na melhor das hipóteses. Na mais provável, ignoram-no.
Não é má-educação, nem sequer falta dela. É outra coisa, outro código.
Há um médico na sala?
Doutor, o sintoma é permanente e recorrente: quero estar em qualquer parte do mundo, excepto no sítio onde estou. É grave, Doutor? Cura-se?
Palavras, frutos
(Espalha-se-me radicalmente a palavra pelo corpo todo, no sentido mais radical do termo: raízes).
Palavras que como raízes tu me espalhas pelo corpo, palavras regadas cada vez que respiras, cada vez que me olhas. Assim as palavras vão crescendo e delas os ramos, as flores, os frutos. Na azáfama da flor crescem sílabas, futuros, a mão hesitante de um amor nascente, um olhar que se interroga.
O que se constrói a dois, o que se diz, faz a dois? Que nome dar ao fruto da palavra?
Imagino a pele e nela a palma de uma mão, vejo-te simultaneamente fruto e raíz, palavra e silêncio. Espalhas-me silenciosamente raízes nas palavras. Frutos moldados a dois, digo-te, duram mais tempo, dispensam frigorífico, são mais apetitosos. Respondes-me com um rio, chuva e vento.
Talvez. As palavras dão frutos, é tudo o que agora sei.
(Para a R., com um beijo)
Palavras que como raízes tu me espalhas pelo corpo, palavras regadas cada vez que respiras, cada vez que me olhas. Assim as palavras vão crescendo e delas os ramos, as flores, os frutos. Na azáfama da flor crescem sílabas, futuros, a mão hesitante de um amor nascente, um olhar que se interroga.
O que se constrói a dois, o que se diz, faz a dois? Que nome dar ao fruto da palavra?
Imagino a pele e nela a palma de uma mão, vejo-te simultaneamente fruto e raíz, palavra e silêncio. Espalhas-me silenciosamente raízes nas palavras. Frutos moldados a dois, digo-te, duram mais tempo, dispensam frigorífico, são mais apetitosos. Respondes-me com um rio, chuva e vento.
Talvez. As palavras dão frutos, é tudo o que agora sei.
(Para a R., com um beijo)
29.1.19
Diário de Bordos - Barcelona, Catalunha, Espanha, 29-01-2018
De novo nesta cidade que já amei, odiei, amei, detestei (e agora amo e detesto simultaneamente), uma cidade onde vivi alguns dos monentos mais estranhos da minha vida (e Deus sabe se ela os tem), mais horríveis, uma cidade que me esmaga com a sua imponência que não consigo deixar de pensar falsa, como se fosse de cartolina e na qual ja fui esmagado pela solidão e pela tristeza, a cidade mais cosmopolita e ao mesmo tempo chauvinista do mundo, aldeia complexada e fechada cheia de estrangeiros, mediterrânica sem nada que a assemelhe por exemplo a Marselha, cidade enganadora - até agora: tinha jurado nunca mais pôr os pés num gastropub, encontro-me no Obama, desde há muitos anos um dos meus locais favoritos e que descubro? - Que se tornou um gastropub, cheio de televisões enormes em tudo quanto é canto; mas continua a ser um sítio lindo "English American Bar", com um painel à porta a anunciar jogos de futebol, como é que um sítio tão bonito pode cair tão baixo? No fundo é um bom resumo de Barcelona: aldeia que se crê cidade, rameira que se imagina senhora, pub que se anuncia gastropub. Desde quando? Terei eu vindo cá e isto já tinha estas televisões enormes? Penso que não, primeiro; depois fico-me nas tintas. Que importa? É Barcelona e o seu insuportável linguarejar, há restaurantes que já nem o menu têm em espanhol, puta que os pariu mai-lo catalão, parece uma língua falada por aldeões bêbedos de regresso de uma orgia com vacas e ovelhas.
Tive uma reunião de manhã que correu bem, muito bem, trouxe-me à memória aquele guru da gestão que dizia a Portugal "you have a brilliant future on your past", em inglês porque cito (de memória mas cito), pergunto-me quem era o homem, um daqueles consultores a quem demos milhões de euros para dizer baboseiras, evidências ou simples parvoíces. A mim ninguém me deu milhões de euros, claro, antes pelo contrário, só não fiquei de cuecas porque não as tenho, mas fiquei pior ainda. Aqui há uns tempos escrevi "tenho de ir ali pôr ordem no meu passado", ou coisa que o valha e sim, é verdade, é isso mesmo: tenho de pôr ordem no meu passado e esta reunião foi um grande passo nessa direcção.
Bom, mas nisto o melhor é sempre olhar para a frente e cagar no passado, de resto é assim que os respectivos orgãos estão organizados no nosso corpo, os olhos para a frente o cu para trás, alguma razão há-de haver para isso.
De maneira bebo um copo de Sirah e espero o senhor da reunião das seis, está quase a chegar, diz-me pelo whatsapp. Não olho para as televisões - uma está apagada, a outra estraga a decoração de uma parede inteira, isto chama-se Obama provavelmente porque tem uma decoração baseada em fotografias e objectos do período colonial em África. O Obama era preto, portanto compreende-se. A mesa onde estou sentado e as que estão ao lado até dizem The Metropolitan University of Mombasa, Cape Town and Durban, lá está, para fazer a ponte com o patrono do lugar, de quem de resto um gigantesco busto esculpido em madeira pintada de preto (não acredito que seja pau-preto) ornamenta a entrada.
Depois disto volto para o aeroporto. Apesar de tudo está mil Obamas abaixo disto. A menos que tenha tempo para ir a pé até à baixa e apanho lá o Metro, história de me esmagar mais um bocadinho.
Adenda - o busto do homem já lá não está. "Foi de férias", diz-me a empregada, que tem humor para dar e vender. E me explica o porquê das mudanças: o bar tem um novo dono. Não percebo por que raio de carga de água as pessoas compram coisas bonitas para as estragar. Antes comprá-las estragadas para as embelezar. Sim, consegui ir a pé até à Ciutat Vella e comer no La Viena Blanca, vermute soberbo, croquetes e lasanha idem, fica na Pintor Fortuny 10, caso precise de lá voltar. Precisarei de certeza.
Tive uma reunião de manhã que correu bem, muito bem, trouxe-me à memória aquele guru da gestão que dizia a Portugal "you have a brilliant future on your past", em inglês porque cito (de memória mas cito), pergunto-me quem era o homem, um daqueles consultores a quem demos milhões de euros para dizer baboseiras, evidências ou simples parvoíces. A mim ninguém me deu milhões de euros, claro, antes pelo contrário, só não fiquei de cuecas porque não as tenho, mas fiquei pior ainda. Aqui há uns tempos escrevi "tenho de ir ali pôr ordem no meu passado", ou coisa que o valha e sim, é verdade, é isso mesmo: tenho de pôr ordem no meu passado e esta reunião foi um grande passo nessa direcção.
Bom, mas nisto o melhor é sempre olhar para a frente e cagar no passado, de resto é assim que os respectivos orgãos estão organizados no nosso corpo, os olhos para a frente o cu para trás, alguma razão há-de haver para isso.
De maneira bebo um copo de Sirah e espero o senhor da reunião das seis, está quase a chegar, diz-me pelo whatsapp. Não olho para as televisões - uma está apagada, a outra estraga a decoração de uma parede inteira, isto chama-se Obama provavelmente porque tem uma decoração baseada em fotografias e objectos do período colonial em África. O Obama era preto, portanto compreende-se. A mesa onde estou sentado e as que estão ao lado até dizem The Metropolitan University of Mombasa, Cape Town and Durban, lá está, para fazer a ponte com o patrono do lugar, de quem de resto um gigantesco busto esculpido em madeira pintada de preto (não acredito que seja pau-preto) ornamenta a entrada.
Depois disto volto para o aeroporto. Apesar de tudo está mil Obamas abaixo disto. A menos que tenha tempo para ir a pé até à baixa e apanho lá o Metro, história de me esmagar mais um bocadinho.
Adenda - o busto do homem já lá não está. "Foi de férias", diz-me a empregada, que tem humor para dar e vender. E me explica o porquê das mudanças: o bar tem um novo dono. Não percebo por que raio de carga de água as pessoas compram coisas bonitas para as estragar. Antes comprá-las estragadas para as embelezar. Sim, consegui ir a pé até à Ciutat Vella e comer no La Viena Blanca, vermute soberbo, croquetes e lasanha idem, fica na Pintor Fortuny 10, caso precise de lá voltar. Precisarei de certeza.
28.1.19
Queda, tempo
Escorregamos pelo tempo, por aí abaixo sem termos onde nos agarrar excepto talvez às vezes, lá aparecem umas pegas: mar, nuvens, um sorriso que nos atrai mais do que os outros todos juntos, vá lá saber-se porquê, o trompete do Miles Davis ou os cânticos de Hildegarde, um olhar desajeitado, a ideia provavelmente falsa de que podemos adiar a queda.
Não podemos. Quando muito podemos dar-lhe sentido, o que já é muito e é uma sorte.
Não podemos. Quando muito podemos dar-lhe sentido, o que já é muito e é uma sorte.
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 28-01-2019
Hoje tive de ir ao STP. Cada vez que lá vou dou graças a Deus. O STP é o maior estaleiro de Palma. Recebe iates (poucos), super-iates e mega-iates (muitos). Os barcos estão fora de água e para quem gosta deles um passeio pelo STP equivale a um desfile de modelos para um tarado sexual.
Os barcos mais bonitos do mundo estão à vista, varados, a receber cuidados - refits, reparações, manutenção periódica -. Não os há feios: só bonitos, muito bonitos, belos e obras-primas. Centenas de pessoas afadigam-se em torno deles. O STP tem cento e tal empresas lá dentro, sem contar com as que vêm de fora. Recentemente adquiriu o maior travelift da Europa, pelo que daqui a uns meses estará a receber botes ainda maiores (a maioria dos quais ainda mais bonitos).
Infelizmente a missão que me levou ao STP não correspondeu ao prazer que tive a visitá-lo e saí da lá com as mãos a abanar. Paciência. A vida é assim, feita de sins e de nãos, de subidas e descidas - e todos sabemos que aquelas são mais do que estas.
........
Amanhã vou a Barcelona, falar com uma agência para ver se encontro um poiso para o P. no Verão. Continuo a acreditar que em breve estará pronto para trabalhar, apesar de ter poucos argumentos a favor desta ideia. É contudo inegável que os argumentos de nada valem contra factos e é por estes que devemos lutar. O resto não passa de esperança, que nem para encher chouriços é boa.
Os barcos mais bonitos do mundo estão à vista, varados, a receber cuidados - refits, reparações, manutenção periódica -. Não os há feios: só bonitos, muito bonitos, belos e obras-primas. Centenas de pessoas afadigam-se em torno deles. O STP tem cento e tal empresas lá dentro, sem contar com as que vêm de fora. Recentemente adquiriu o maior travelift da Europa, pelo que daqui a uns meses estará a receber botes ainda maiores (a maioria dos quais ainda mais bonitos).
Infelizmente a missão que me levou ao STP não correspondeu ao prazer que tive a visitá-lo e saí da lá com as mãos a abanar. Paciência. A vida é assim, feita de sins e de nãos, de subidas e descidas - e todos sabemos que aquelas são mais do que estas.
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Amanhã vou a Barcelona, falar com uma agência para ver se encontro um poiso para o P. no Verão. Continuo a acreditar que em breve estará pronto para trabalhar, apesar de ter poucos argumentos a favor desta ideia. É contudo inegável que os argumentos de nada valem contra factos e é por estes que devemos lutar. O resto não passa de esperança, que nem para encher chouriços é boa.
27.1.19
Palavras: esquadriada
Ouvi recentemente a palavra esquadriada. É uma palavra bonita: esquadriada. Referia-se a pedras cortadas em ângulos rectos, paralelepípedos perfeitos, regulares, do tempo dos romanos.
Infelizmente é uma palavra com certas limitações: só se pode aplicar a pedras, madeira, metal. Talvez à cerâmica também. Mas não se pude usar para qualificar uma vida, por exemplo. Uma vida esquadriada? Traçada a régua e esquadro? Há vidas assim?
Ou a amores: um amor esquadriado? Como seria, um amor só com ângulos rectos e arestas direitas, regulares, bem traçadas, tão bonitas que mal parecem arestas?
Infelizmente é uma palavra com certas limitações: só se pode aplicar a pedras, madeira, metal. Talvez à cerâmica também. Mas não se pude usar para qualificar uma vida, por exemplo. Uma vida esquadriada? Traçada a régua e esquadro? Há vidas assim?
Ou a amores: um amor esquadriado? Como seria, um amor só com ângulos rectos e arestas direitas, regulares, bem traçadas, tão bonitas que mal parecem arestas?
26.1.19
Von Bingen
Devia fazer-se uma lista da música que se quer ouvir quando não se sabe o que se quer ouvir.
Lou Reed
Patti Smith
Karen Dalton
...
Não vale a pena. Acaba-se sempre na Hildegarde.
Lou Reed
Patti Smith
Karen Dalton
...
Não vale a pena. Acaba-se sempre na Hildegarde.
Carne de porco frita à S/Y PANDA
No outro dia fiz uma mistura de pão ralado (fino), queijo ralado (idem, Grana Padano) e pimentão picante aqui da ilha (em pó, claro. É particularmente bom). Nessa mistura pus carne de porco cortada aos bocados e envolvi tudo muito bem. Depois fritei a carne em azeite e banha, acompanhei com batatas salteadas e comi. O vinho foi o de sempre: Intense, um vinho a granel que compro na ES20 (se algum dos meus generosos e tolerantes leitores vier a Palma, sugiro vivamente que vá a essa loja, quanto mais não seja para beber um vermute, ele também a granel).
Hoje reaqueço o que ficou do outro dia. Com uma rodela de laranja e salsa picada por cima teria sido um sonho. Assim simples como foi - a carne e vinho tinto - foi só optimo, o que já não é mau.
Hoje reaqueço o que ficou do outro dia. Com uma rodela de laranja e salsa picada por cima teria sido um sonho. Assim simples como foi - a carne e vinho tinto - foi só optimo, o que já não é mau.
Migalhas, penas, simplicidades
Se há coisa que agradeço (não sei a quem, mas agradeço) é esta capacidade de ser feliz em dias como o de hoje sem ter de perguntar porquê, sem me sentir a hiena da anedota.
Ser feliz com evidências, com migalhas: um dia bonito, uma bicicleta que é "um tanque" (aspas porque cito), um vermute no Aurélio (ou dois, vá lá), iscas de fígado, Ornette Coleman Dancing in [my] head, uma senhora a quem a distância não impede de pensar em mim (ou eu nela), o piscar de olhos da vendedora de legumes no mercado quando lhe chamo cariño, a ideia de que a vida é um conjunto de engrenagens e desde que elas funcionem tudo funciona, rum assim-assim, pensar que valeu a pena... O que é que valeu a pena? Tudo. E não no passado, mas no presente: Tudo vale a pena.
É de uma simplicidade exaltante.
Ser feliz com evidências, com migalhas: um dia bonito, uma bicicleta que é "um tanque" (aspas porque cito), um vermute no Aurélio (ou dois, vá lá), iscas de fígado, Ornette Coleman Dancing in [my] head, uma senhora a quem a distância não impede de pensar em mim (ou eu nela), o piscar de olhos da vendedora de legumes no mercado quando lhe chamo cariño, a ideia de que a vida é um conjunto de engrenagens e desde que elas funcionem tudo funciona, rum assim-assim, pensar que valeu a pena... O que é que valeu a pena? Tudo. E não no passado, mas no presente: Tudo vale a pena.
É de uma simplicidade exaltante.
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 26-01-2019
Um post dedicado às bicicletas:
- A vexata quaestio das quedas: o tema é delicado. Todos sabemos que a deslocação em bicicleta implica riscos acrescidos de queda, mas não é por isso que deixa de ser humilhante. Ontem caí. Foi uma queda pouco aparatosa, ia devagar num piso que sei escorregadio e a roda da frente derrapou. Nada em mim sofreu excepto o ego. Depois ocorreu-me que é a minha primeira queda em Palma, tanto quanto me lembro. Ou seja: em nove meses caí uma vez (talvez duas. Creio que uma vez a bicicleta bebeu de mais e se revoltou contra mim, mas não me lembro). Isto ajuda a matizar a humilhação, mas de forma alguma a anula.
- Ivo, o senhor que me repara as bicicletas está feliz com a Órbita. Reparou-a toda, pôs-lhe peças, fez trinta por uma linha. "Só não a vou limpar demasiado", explica-me, "para não chamar as atenções". (Refere-se aos filhos da puta que roubam selins, rodas e até bicicletas inteiras). Fico contente por ele. É verdade que também estava a gostar da velha Órbita Estoril II, mas apesar disso não me custou muito separar-me dela. Aqui entre nós, penso que estava a ficar um bocadinho farto; tenho é vergonha de o admitir. Infelizmente algo me diz que me vou fartar da Panter ainda mais depressa. Por enquanto ainda há o desafio de me habituar ao contra-pedal, mas estou curioso de ver o que vai acontecer quando o dominar.
- Enquanto isto, a burra de Puerto de Andratx languesce ao sol e à chuva. Coitada. Aborrece-me sabê-la ali tão pouco usada e sem cuidados.
- Hoje fui fazer compras. Está um dia lindo, cálido, azul, feito para a bicicleta e para Palmear.
- Se isto continua assim qualquer dia não sei andar a pé. Caio a cada esquina.
- A vexata quaestio das quedas: o tema é delicado. Todos sabemos que a deslocação em bicicleta implica riscos acrescidos de queda, mas não é por isso que deixa de ser humilhante. Ontem caí. Foi uma queda pouco aparatosa, ia devagar num piso que sei escorregadio e a roda da frente derrapou. Nada em mim sofreu excepto o ego. Depois ocorreu-me que é a minha primeira queda em Palma, tanto quanto me lembro. Ou seja: em nove meses caí uma vez (talvez duas. Creio que uma vez a bicicleta bebeu de mais e se revoltou contra mim, mas não me lembro). Isto ajuda a matizar a humilhação, mas de forma alguma a anula.
- Ivo, o senhor que me repara as bicicletas está feliz com a Órbita. Reparou-a toda, pôs-lhe peças, fez trinta por uma linha. "Só não a vou limpar demasiado", explica-me, "para não chamar as atenções". (Refere-se aos filhos da puta que roubam selins, rodas e até bicicletas inteiras). Fico contente por ele. É verdade que também estava a gostar da velha Órbita Estoril II, mas apesar disso não me custou muito separar-me dela. Aqui entre nós, penso que estava a ficar um bocadinho farto; tenho é vergonha de o admitir. Infelizmente algo me diz que me vou fartar da Panter ainda mais depressa. Por enquanto ainda há o desafio de me habituar ao contra-pedal, mas estou curioso de ver o que vai acontecer quando o dominar.
- Enquanto isto, a burra de Puerto de Andratx languesce ao sol e à chuva. Coitada. Aborrece-me sabê-la ali tão pouco usada e sem cuidados.
- Hoje fui fazer compras. Está um dia lindo, cálido, azul, feito para a bicicleta e para Palmear.
- Se isto continua assim qualquer dia não sei andar a pé. Caio a cada esquina.
25.1.19
Tempos, amor
Há malta que sobe as encostas com os skis nos pés, durante horas, para depois as descer num ápice; outros preferem deslocar-se de bicicleta, apesar de saberem que a subida de uma encosta é muito mais longa do que a respectiva descida. Cozinhar leva mais tempo do que comer o que se cozinhou - seja o que for que se coma, se se incluir em "cozinhar" o tempo da compra, preparação da comida e o da lavagem de loiça.
Subir leva sempre mais tempo do que usufruir da razão pela qual se subiu. Com a inesperada excepção do amor: dura mais tempo do que aquele que levou a construir, se tiver sido bem construído.
Subir leva sempre mais tempo do que usufruir da razão pela qual se subiu. Com a inesperada excepção do amor: dura mais tempo do que aquele que levou a construir, se tiver sido bem construído.
23.1.19
Do silêncio
Não basta saber escrever, cantar ou tocar um instrumento. É preciso ter alguma coisa a esconder, a calar.
Amor, memórias
De que são feitas as pessoas que amamos? Ou melhor, de que é feito o amor? Das memórias do passado, usadas e gastas ou de memórias novas, virgens, prestes a ser construidas?
21.1.19
Reedição - Isabel, uma continuação sem fim
Continuação sem fim (nada nunca tem fim, só princípio)
Encontrei a senhora no comboio. Ofereci-lhe um enorme ramo de flores. Ela não sabia que as flores não eram minhas: sou empregado de uma florista sem dinheiro, que me obriga a entregar as encomendas de metro, autocarro, comboio. Já lhe pedi uma bicicleta, ao menos, mas nem para isso a minha patroa tem dinheiro. Não sabe dizer que não a um cliente e quem perde é ela.
Pouco importa: vi a mulher no comboio. Apaixonei-me por ela imediatamente: nem demasiado bonita nem demasiado feia, o seu sentido de humor sobressaía no seu olhar como a marca de óculos de sol num rosto bronzeado. Dei-lhe as flores num gesto impulsivo: gostei dos cabelos despenteados, dos traços finos, do olhar trocista. Estávamos longe da próxima paragem; devia falar com ela. Não lhe disse nada. Nada. "Ofereço-lhe, minha senhora, estas flores porque simpatizei com a sua cara; porque é bonita; porque as merece; porque oferecê-las me põe numa situação periclitante". Nada. Ou: "Algo em si atraiu estas flores, não fui eu que lhas dei". Talvez devesse ter-lhe dito: "Não fui eu: foi você que ofereceu a si própria estas flores por meu intermédio. Um pobre imbecil veio cá comprá-las hoje de manhã. Queria, disse-me, um bouquet "conservador". "Conservador", foi este o termo que empregou".
- Ofereço-lhe, minha senhora, estas flores. Espero que goste delas. Se não gostar, não me diga, por favor. Prefiro a ignorância, sabe? É ela que me faz viver. Ou a esperança, são a mesma coisa.
O comboio parou. Era um desses comboios suburbanos, cheio de caixeiras de supermercado, vendedoras de roupa de marca, contabilistas e bêbados precoces. Saí sem a ver e só no cais me apercebi que ela também saíra. Tinha um andar desengonçado, como se quisesse ter uma perna mais curta que a outra. Levava as flores bem altas, visíveis e olhava em frente. Eu queria voltar para trás, ir buscar mais flores, refazer a encomenda original.
Claro que não: queria segui-la, ir para casa dela, deitá-la numa cama e apaixonar-me melhor. Nessa altura procurava desesperado uma mulher, se possível sem filhos, quarentona recente ou trintona tardia (gosto de mulheres mais velhas do que eu, sempre gostei), com sentido de humor e um aspecto geral, como dizer?, sensual. Objectivos esses inalcançáveis sem me apaixonar, claro. Por isso me apaixonava: por uma professora indiana entrevista à porta da universidade, por uma empregada ucraniana no café, pela secretária da pessoa com quem me iria encontrar para um emprego. Apaixonava-me a torto e a direito, mas nunca tinha oferecido flores - que ainda por cima não eram minhas -.
Enfim, acabei em casa dela, em pleno campo, numa cama enorme e ruidosa. Nesta ordem: primeiro ela, depois o campo, depois a casa, depois a cama, depois o ruído.
II
Quando voltei à florista dois ou três dias depois fui despedido, naturalmente; mas fiquei a viver com a Isabel, que era um emprego a tempo inteiro. De manhã dava de comer e beber aos numerosos animais que ela mantinha: um porquinho-da-índia, um coelho anão, dois cachorros, meia dúzia de caracóis e um gato; passeava os cachorros no jardim à frente de casa; comprava os legumes frescos para o dia no mercado biológico; passava o aspirador; fazia o almoço; lavava a loiça; dormia a sesta; passeava os cães; fazia o jantar. A todas essas tarefas me dedicava grato: tudo era melhor do que ter de oferecer flores no comboio à primeira senhora gira que encontrava.
Isabel não tinha uma perna mais pequena do que outra: tinha-as iguais, pequenas, bonitas, mas arqueadas. Montava a cavalo desde miúda, com a mesma energia e determinação com que me levara para casa. O cavalo, um alazão enorme, completo, chamava-se Red Promise e tinha uma potência ilimitada. Uma vez vi-o saltar um metro e sessenta parado. Parado. Nos concursos era um prazer vê-lo: arrancava num galope desenfreado para os obstáculos e quando parecia que ia levar tudo pela frente reduzia a velocidade e levantava vôo na vertical, como um helicóptero.
Era arquitecta, passava muito tempo em casa e longos períodos fora, porque tinha obras pela Europa toda. Não sei o que viu em mim, eterno aprendiz de fotógrafo e moço de recados de uma florista falida. Eu sei o que vi nela.
III
Nunca saberás, meu amor, quantas horas de metro, quantos quilómetros de vida, quantos olhares cruzados me levaram a ti.
Encontrei a senhora no comboio. Ofereci-lhe um enorme ramo de flores. Ela não sabia que as flores não eram minhas: sou empregado de uma florista sem dinheiro, que me obriga a entregar as encomendas de metro, autocarro, comboio. Já lhe pedi uma bicicleta, ao menos, mas nem para isso a minha patroa tem dinheiro. Não sabe dizer que não a um cliente e quem perde é ela.
Pouco importa: vi a mulher no comboio. Apaixonei-me por ela imediatamente: nem demasiado bonita nem demasiado feia, o seu sentido de humor sobressaía no seu olhar como a marca de óculos de sol num rosto bronzeado. Dei-lhe as flores num gesto impulsivo: gostei dos cabelos despenteados, dos traços finos, do olhar trocista. Estávamos longe da próxima paragem; devia falar com ela. Não lhe disse nada. Nada. "Ofereço-lhe, minha senhora, estas flores porque simpatizei com a sua cara; porque é bonita; porque as merece; porque oferecê-las me põe numa situação periclitante". Nada. Ou: "Algo em si atraiu estas flores, não fui eu que lhas dei". Talvez devesse ter-lhe dito: "Não fui eu: foi você que ofereceu a si própria estas flores por meu intermédio. Um pobre imbecil veio cá comprá-las hoje de manhã. Queria, disse-me, um bouquet "conservador". "Conservador", foi este o termo que empregou".
- Ofereço-lhe, minha senhora, estas flores. Espero que goste delas. Se não gostar, não me diga, por favor. Prefiro a ignorância, sabe? É ela que me faz viver. Ou a esperança, são a mesma coisa.
O comboio parou. Era um desses comboios suburbanos, cheio de caixeiras de supermercado, vendedoras de roupa de marca, contabilistas e bêbados precoces. Saí sem a ver e só no cais me apercebi que ela também saíra. Tinha um andar desengonçado, como se quisesse ter uma perna mais curta que a outra. Levava as flores bem altas, visíveis e olhava em frente. Eu queria voltar para trás, ir buscar mais flores, refazer a encomenda original.
Claro que não: queria segui-la, ir para casa dela, deitá-la numa cama e apaixonar-me melhor. Nessa altura procurava desesperado uma mulher, se possível sem filhos, quarentona recente ou trintona tardia (gosto de mulheres mais velhas do que eu, sempre gostei), com sentido de humor e um aspecto geral, como dizer?, sensual. Objectivos esses inalcançáveis sem me apaixonar, claro. Por isso me apaixonava: por uma professora indiana entrevista à porta da universidade, por uma empregada ucraniana no café, pela secretária da pessoa com quem me iria encontrar para um emprego. Apaixonava-me a torto e a direito, mas nunca tinha oferecido flores - que ainda por cima não eram minhas -.
Enfim, acabei em casa dela, em pleno campo, numa cama enorme e ruidosa. Nesta ordem: primeiro ela, depois o campo, depois a casa, depois a cama, depois o ruído.
II
Quando voltei à florista dois ou três dias depois fui despedido, naturalmente; mas fiquei a viver com a Isabel, que era um emprego a tempo inteiro. De manhã dava de comer e beber aos numerosos animais que ela mantinha: um porquinho-da-índia, um coelho anão, dois cachorros, meia dúzia de caracóis e um gato; passeava os cachorros no jardim à frente de casa; comprava os legumes frescos para o dia no mercado biológico; passava o aspirador; fazia o almoço; lavava a loiça; dormia a sesta; passeava os cães; fazia o jantar. A todas essas tarefas me dedicava grato: tudo era melhor do que ter de oferecer flores no comboio à primeira senhora gira que encontrava.
Isabel não tinha uma perna mais pequena do que outra: tinha-as iguais, pequenas, bonitas, mas arqueadas. Montava a cavalo desde miúda, com a mesma energia e determinação com que me levara para casa. O cavalo, um alazão enorme, completo, chamava-se Red Promise e tinha uma potência ilimitada. Uma vez vi-o saltar um metro e sessenta parado. Parado. Nos concursos era um prazer vê-lo: arrancava num galope desenfreado para os obstáculos e quando parecia que ia levar tudo pela frente reduzia a velocidade e levantava vôo na vertical, como um helicóptero.
Era arquitecta, passava muito tempo em casa e longos períodos fora, porque tinha obras pela Europa toda. Não sei o que viu em mim, eterno aprendiz de fotógrafo e moço de recados de uma florista falida. Eu sei o que vi nela.
III
Nunca saberás, meu amor, quantas horas de metro, quantos quilómetros de vida, quantos olhares cruzados me levaram a ti.
20.1.19
Receita para fazer um amor
Um amor é o encontro de duas liberdades, mas é também o encontro de duas solidões. Todavia, é importante lembrarmo-nos de que liberdades há muitas e solidões há só uma. As liberdades são como os silêncios: cada um a sua. Já as solidões são mais simples, coitadas.
Sonhos, mulheres
É mais fácil esquecer um sonho do que uma mulher, apesar de pertenceram à mesma família.
19.1.19
Real?
Sem uma dose de irrealidade, sem um lado onírico, demente, louco, ilógico o real não passa de uma farsa.
Zeros hidrográficos
Bebo muito mas não bebo de mais. Excepto, claro, quando o nível "demais" muda sem dizer nada a ninguém (ninguém sou eu). Dois copos de vinho hoje são de mais, ontem não foram nada e amanhã? Não sei. Continuo a beber tranquilamente os mesmos copos de vinho de sempre. Ao contrário do zero hidrográfico das cartas, o meu zero hidrográfico pessoal muda todos os dias.
O que as palavras são, às vezes
As palavras às vezes são flechas; outras, tartarugas mortas na praia.
Coisas que tendemos a esquecer ou mesmo a não ter presentes:
"Repitámoslo: no hay nada nuevo. Dostoievski lo describió en Los Demonios: la hipocresia, la corrupcion intelectual, la fascinacion por la violencia, la adicción al poder y un conformismo ilimitado son típicos de demasiados intelectuales.
Todo esto es cierto. Pero es igualmente cierta la larga lista de poetas y pensadores que no han caído en las garras de esta corrupción intelectual y que han seguido siendo leales a sus obligaciones morales para con el mundo del espíritu. Para nombrar solo a unos pocos: Thomas Mann, Ósip y Nadezhda Mandelstam, Arnold Schönberg, Dietrich Bonhoefer, Joseph Brodsky, Hermann Broch, Albert Camus, Paul Celan, René Char, André Tarkovski, Václav Havel y el mismo George Steiner, Steiner, a contracorriente, ha permanecido fiel a su proprio código moral intelectual´, a su vocación de «invitar a otros a entrar en el sentido», sin ceder al nihilismo, al populismo ni a la politización."
(Rob Riemen, Director Fundador do Nexus Institute, in George Steiner, La Idea de Europa, Introdução, Ed. Siruela, Biblioteca de Ensayo)
Todo esto es cierto. Pero es igualmente cierta la larga lista de poetas y pensadores que no han caído en las garras de esta corrupción intelectual y que han seguido siendo leales a sus obligaciones morales para con el mundo del espíritu. Para nombrar solo a unos pocos: Thomas Mann, Ósip y Nadezhda Mandelstam, Arnold Schönberg, Dietrich Bonhoefer, Joseph Brodsky, Hermann Broch, Albert Camus, Paul Celan, René Char, André Tarkovski, Václav Havel y el mismo George Steiner, Steiner, a contracorriente, ha permanecido fiel a su proprio código moral intelectual´, a su vocación de «invitar a otros a entrar en el sentido», sin ceder al nihilismo, al populismo ni a la politización.
(Rob Riemen, Director Fundador do Nexus Institute, in George Steiner, La Idea de Europa, Introdução, Ed. Siruela, Biblioteca de Ensayo)
18.1.19
Da série "pérolas do Don Vivo"
Um barco é uma pessoa a quem Deus esqueceu de dar o sopro. Nunca se recompôs, claro e agora ou se vinga se tu o esqueces ou te agradece reconhecidamente se te lembrares disso e lhe deres tu essa vida que tanto lhe falta.
17.1.19
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 16-01-2018
Estes filhos de um comboio de putas roubaram-me o selim da Órbita, um selim novo, lindo e confortável. Não comprei outro: vendi a burra. Vender não é bem o termo, mas que se lixe. Quando a comprei já sabia que não a venderia mais cara do que agora vendi e quando gastei três vezes o valor da compra em coisas e afinações diversas (entre as quais o selim agora roubado) também. Fiquei só com a Panter, que tem um velho e rodas mais velhas ainda. O meu amigo R. chamar-lhes-ia hijos de una reputa madre e acho que está mais ou menos bem dito. Me cago en Dios, desculpem a auto-citação.
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Antiquari, Sifoneria, Ca La Seu, Moltabarra e Biblioteca de Babel. Estive fora cinco dias e parece que foi um mês.
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Antiquari, Sifoneria, Ca La Seu, Moltabarra e Biblioteca de Babel. Estive fora cinco dias e parece que foi um mês.
15.1.19
Serviço Público - Restaurantes no Porto
Não é bem bem um restaurante, é uma hamburgueria, mas é excelente (outra coisa não seria de esperar, tendo os donos que tem). Chama-se Burger Point, fica na Rua de Santa Catarina 800. O sítio é bonito, o serviço impecável, sorridente e atencioso, a carta tem um vasto leque de opções e a carne é óptima.
14.1.19
Serviço público - Restaurantes em Évora
À procura de um restaurante em Évora? Em caso de dúvida, esquecimento temporário ou obras espúrias alhures: Café Alentejo. Outra vez: Café Alentejo. Podem repetir quanto quiserem.
(Já não têm o piripiri caseiro).
(A Associação dos Deficientes das Forças Armadas também era muito bom. Estará aberta? A senhora moçambicana que lá trabalhava ainda lá está e faz o melhor piripiri a norte do Rovuma? Tinha uma vantagem muito grande, para mim pessoalmente a título pessoal: não discriminam entre deficientes físicos e dos outros).
(Já não têm o piripiri caseiro).
(A Associação dos Deficientes das Forças Armadas também era muito bom. Estará aberta? A senhora moçambicana que lá trabalhava ainda lá está e faz o melhor piripiri a norte do Rovuma? Tinha uma vantagem muito grande, para mim pessoalmente a título pessoal: não discriminam entre deficientes físicos e dos outros).
13.1.19
Domingos, Ferreiriana
O futuro
Aos domingos, iremos ao jardim. Entediados, em grupos familiares, Aos pares, Dando-nos ares De pessoas invulgares, Aos domingos iremos ao jardim. Diremos, nos encontros casuais Com outros clãs iguais, Banalidades rituais, Fundamentais. Autómatos afins, Misto de serafins Sociais E de standardizados mandarins, Teremos preconceitos e pruridos, Produtos recebidos Na herança De certos caracteres adquiridos. Falaremos do tempo, Do que foi, do que já houve... E sendo já então Por tradição E formação Antiburgueses - Solidamente antiburgueses -, Inquietos falaremos Da tormenta que passa E seus desvarios. Seremos aos domingos, no jardim, Reaccionários.Reinaldo Ferreira
Questões etárias
Entrar por ela adentro e descobrir que na cabeça não há nada tanto pode ser benção como maldição. Depende unicamente da idade.
12.1.19
Diário de Bordos - Lisboa, 12-01-2019
És puta peganhenta, Lisboa. Não largas um gajo nem que ele se esconda nos recônditos. Quanto mais ele foge de ti mais se te apega.
És parte dos recônditos...
.......
A perfeição é assim: há que procurá-la no sítio certo: nós. E estende-se. Este dia perfeito, por exemplo, começou ontem com um jantar perfeito em Sintra. Continuou depois com dois mojitos perfeitos e sem açúcar no bar mais improvável do mundo. Continuou hoje de manhã com uma crónica de Vasco Pulido Valente e dois cafés no Brick.
Desaguo, meio sem querer meio por impulso, no Caxemira. Digo ao senhor - é o mesmo há duzentos e trinta anos (trinta e quatro) - que escolha ele o que vou comer e beber, dentro dois parâmetros: tinto para o vinho, camarão ou borrego para o prato. Traz-me meia garrafa de Cabriz, uma chamuça que podia estar muito ligeiramente mais picante e um Sak Gosh perfeito.
Lisboa agarra-se a mim nos sítios mais inesperados, por muito que tente fugir-lhe. Tens a perfeição manhosa, cidade.
Velha gaiteira debochada e lúbrica, sensual e sofisticada, porca e aprumada, desleixada e ataviada, velha de séculos e nova todas as semanas.
........
Deve ir-se a Lisboa como se vai às putas: de vez em quando. Antes isso do que viver com uma.
És parte dos recônditos...
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A perfeição é assim: há que procurá-la no sítio certo: nós. E estende-se. Este dia perfeito, por exemplo, começou ontem com um jantar perfeito em Sintra. Continuou depois com dois mojitos perfeitos e sem açúcar no bar mais improvável do mundo. Continuou hoje de manhã com uma crónica de Vasco Pulido Valente e dois cafés no Brick.
Desaguo, meio sem querer meio por impulso, no Caxemira. Digo ao senhor - é o mesmo há duzentos e trinta anos (trinta e quatro) - que escolha ele o que vou comer e beber, dentro dois parâmetros: tinto para o vinho, camarão ou borrego para o prato. Traz-me meia garrafa de Cabriz, uma chamuça que podia estar muito ligeiramente mais picante e um Sak Gosh perfeito.
Lisboa agarra-se a mim nos sítios mais inesperados, por muito que tente fugir-lhe. Tens a perfeição manhosa, cidade.
Velha gaiteira debochada e lúbrica, sensual e sofisticada, porca e aprumada, desleixada e ataviada, velha de séculos e nova todas as semanas.
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Deve ir-se a Lisboa como se vai às putas: de vez em quando. Antes isso do que viver com uma.
11.1.19
CTT - Uma saga portuguesa
No dia 5 de Dezembro do ano passado enviei uma encomenda de Palma para Coimbra. Como não sabia a morada do organismo para onde ela ia, tirei-a da net, do Google. A morada estava errada: o organismo em questão mudou de instalações há dois ou três anos mas o Google ainda não a actualizou. No dia 12, soube pelos correios espanhóis que a encomenda não tinha sido entregue devido a um erro na morada.
Tentei entrar em contacto com os CTT, mas é como tentar falar para o céu: Deus está demasiado ocupado para responder aos telefonemas de meros mortais como nós. Ao fim de inúmeras tentativas - dois ou três dias, a no mínimo dez vezes por dia - consegui falar com uma agência dos correios de Coimbra. "Vamos fazer uma nova tentativa". Como o organismo ainda é dono da morada onde já não está há alguns anos - o dinheiro público em Portugal é bastante bem administrado - avisei a destinatária final da encomenda de que provavelmente teria um aviso de recepção na outra caixa de correio.
Não havia aviso de recepção nenhum. Mais dois ou três dias até conseguir falar com a agência de Coimbra que responde ao telefone - foi o único fixo de todos os que tentei que respondeu - consegui o número de telefone portátil de um senhor que se prontificou a ajudar-me. Durante todo este tempo, os e-mails e mensagens que enviei para o "apoio ao cliente" (entre aspas porque cito e por piada) estavam sem resposta. Podemos arrumar desde já a parte escrita desta história: língua de madeira, respostas tardias e a más horas em português administrativo, provavelmente o pior crime que se pode fazer à nossa língua depois do AO90.
Continuemos com o telefone: o primeiro senhor cujo telemóvel me foi transmitido informou-me de que a encomenda tinha sido enviada para um outro centro dos CTT e deu-me o número de telefone portátil de um seu colega; este já não trabalha nos CTT e deu-me outro; este não trabalhava naquele sector e deu-me outro. Até que chego finalmente à fala com um senhor (F. S. porque me pediu para o tratar assim). Começo por agradecer ao senhor F. S. a paciência de que deu provas. Sou educado mas não sou especialmente fácil. Nessa altura estava convencido de que a encomenda tinha sido roubada e queria ter a confirmação disso o mais depressa possível.
Entretanto meteu-se o Natal, depois o fim do ano. O senhor F. S. confirmou que a encomenda estava no centro onde trabalha, mas ele não sabia onde. "Ainda não foi devolvida", explicou-me. "Mas encontrá-la vai ser uma questão de tempo, nós nesta altura do ano temos muito correio, como pode imaginar".
Posso, senhor F. S. E posso imaginar o esforço que fez para a encontrar e a devolver para Coimbra. Deixo-lhe aqui o meu agradecimento. V. é a prova viva de que as nossas instituições são piores do que o nosso povo.
Em Coimbra a encomenda foi ainda uma vez entregue na morada errada - apesar de eu já ter dado a morada correcta tanto aos Correos como aos CTT, mas graças a um senhor (M. C., por questão de coerência) a encomenda foi apanhada ante de ser reenviada para o centro de devolução. O senhor M. C. tomou nota, ele pessoalmente, da morada e reenviou a encomenda, que foi entregue hoje, um mês depois da primeira tentativa de entrega.
Não agradeço aos CTT. Como instituição não valem a ponta de um chavelho. Mas agradeço às pessoas dos CTT que deram provas de profissionalismo, de sentido de serviço, de brio profissional e - no fundo - de humanismo.
Bem hajam.
Tentei entrar em contacto com os CTT, mas é como tentar falar para o céu: Deus está demasiado ocupado para responder aos telefonemas de meros mortais como nós. Ao fim de inúmeras tentativas - dois ou três dias, a no mínimo dez vezes por dia - consegui falar com uma agência dos correios de Coimbra. "Vamos fazer uma nova tentativa". Como o organismo ainda é dono da morada onde já não está há alguns anos - o dinheiro público em Portugal é bastante bem administrado - avisei a destinatária final da encomenda de que provavelmente teria um aviso de recepção na outra caixa de correio.
Não havia aviso de recepção nenhum. Mais dois ou três dias até conseguir falar com a agência de Coimbra que responde ao telefone - foi o único fixo de todos os que tentei que respondeu - consegui o número de telefone portátil de um senhor que se prontificou a ajudar-me. Durante todo este tempo, os e-mails e mensagens que enviei para o "apoio ao cliente" (entre aspas porque cito e por piada) estavam sem resposta. Podemos arrumar desde já a parte escrita desta história: língua de madeira, respostas tardias e a más horas em português administrativo, provavelmente o pior crime que se pode fazer à nossa língua depois do AO90.
Continuemos com o telefone: o primeiro senhor cujo telemóvel me foi transmitido informou-me de que a encomenda tinha sido enviada para um outro centro dos CTT e deu-me o número de telefone portátil de um seu colega; este já não trabalha nos CTT e deu-me outro; este não trabalhava naquele sector e deu-me outro. Até que chego finalmente à fala com um senhor (F. S. porque me pediu para o tratar assim). Começo por agradecer ao senhor F. S. a paciência de que deu provas. Sou educado mas não sou especialmente fácil. Nessa altura estava convencido de que a encomenda tinha sido roubada e queria ter a confirmação disso o mais depressa possível.
Entretanto meteu-se o Natal, depois o fim do ano. O senhor F. S. confirmou que a encomenda estava no centro onde trabalha, mas ele não sabia onde. "Ainda não foi devolvida", explicou-me. "Mas encontrá-la vai ser uma questão de tempo, nós nesta altura do ano temos muito correio, como pode imaginar".
Posso, senhor F. S. E posso imaginar o esforço que fez para a encontrar e a devolver para Coimbra. Deixo-lhe aqui o meu agradecimento. V. é a prova viva de que as nossas instituições são piores do que o nosso povo.
Em Coimbra a encomenda foi ainda uma vez entregue na morada errada - apesar de eu já ter dado a morada correcta tanto aos Correos como aos CTT, mas graças a um senhor (M. C., por questão de coerência) a encomenda foi apanhada ante de ser reenviada para o centro de devolução. O senhor M. C. tomou nota, ele pessoalmente, da morada e reenviou a encomenda, que foi entregue hoje, um mês depois da primeira tentativa de entrega.
Não agradeço aos CTT. Como instituição não valem a ponta de um chavelho. Mas agradeço às pessoas dos CTT que deram provas de profissionalismo, de sentido de serviço, de brio profissional e - no fundo - de humanismo.
Bem hajam.
Álgebra afectiva
Um dia descobre-se que as mulheres não são intercambiáveis (uma descoberta que se faz muito cedo) e ainda menos são acumuláveis - esta demora mais tempo, quase uma vida.
Ao contrário da nossa vida profissional, que é o somatório de todas as experiências (e mais: uma adição de números absolutos, não há experiências profissionais com valor negativo) a vida afectiva é o resultado de subtracções em série. As mulheres que amamos vão-se subtraindo ao longo da vida, num processo algébrico cujo resultado é um na melhor das hipóteses e zero na pior. Chega inevitavelmente o dia em que se descobre que só há uma e chega-se a essa conclusão por subtracção e não adicionando.
Ao contrário da nossa vida profissional, que é o somatório de todas as experiências (e mais: uma adição de números absolutos, não há experiências profissionais com valor negativo) a vida afectiva é o resultado de subtracções em série. As mulheres que amamos vão-se subtraindo ao longo da vida, num processo algébrico cujo resultado é um na melhor das hipóteses e zero na pior. Chega inevitavelmente o dia em que se descobre que só há uma e chega-se a essa conclusão por subtracção e não adicionando.
9.1.19
Carta à Mãe
Olha, Mãe, não acreditas o que fiz hoje para o jantar. Adivinha. Sim, isso mesmo. Acertaste à primeira. Fatias recheadas. Ficaram uma porcaria, horríveis, cada que vez que me lembro das tuas... O que é que ficou mal? Tudo, Mãe, tudo. A começar pela carne, não consigo fazer a carne como tu, tão simples e tão saborosa. Ó Mãe, eu sei que não custa nada. Basta saber, não é? Pois, mas eu não sei. O pão aqui não vale um chavo e isso também não ajuda. Mas olha, Mãe, não me importo. Vou dizer-te a verdade: estou-me nas tintas. Fartei-me de pensar em ti, pensei o tempo todo, lembrei-me dos teus últimos dias no Alentejo, eras uma esponja de morfina, nunca te deves sequer ter apercebido de que eu estava ali. Que sorte? Sim, foi uma sorte poder acompanhar-te até ao fim, estar ao teu lado mesmo não estando tu lá. Estavas tão magra, tão diferente... A única coisa que ficou de ti foi a tua vontade, essa porra dessa vontade... Mãe, porra não é um palavrão... essa vontade, essa força, aguentaste até ao fim, lutaste e ferraste-te à vida, tu que há mais de vinte anos só falavas em morrer. Mãe, deixa lá as fatias recheadas, que se lixem. Lembrei-me praticamente de todas as que me fizeste para aí desde os quinze anos e sobretudo lembrei-me das primeiras que não fizeste, pediste-me desculpa mas tinhas deixado de cozinhar, já a paciência te faltava. Sempre tiveste muita paciência, eu sei; mas tinhas mais força e mais vontade do que paciência, não é, Mãe? Nunca mais hei-de comer fatias recheadas como as que tu fazias mas olha, que se lixe. Pensei em ti o tempo todo de fazer o jantar. Na verdade comecei a pensar antes, foi no caminho de Andratx para aqui, pensei em dizer-te Mãe, o P. tem o mastro no lugar e tu perguntavas-me O que é o P.? pela razão simples de que não reconhecias a existência de nada que te aborrecesse, como naquele dia em que o V. levou a nova namorada pela primeira vez lá a casa e tu por acaso, por simples acaso rearrumaste as fotografias todas para que as da L, a prévia, de quem tu tanto gostavas, ficassem à frente, bem visíveis. E nunca arredaste pé dessa explicação: o acaso. Também foi por acaso que pensei em fatias recheadas, não foi? Claro que sim, Mãe. Qual a relação entre um mastro no lugar e as tuas fatias recheadas? Provavelmente a tua ironia, aquela ironia que te fazia dizer os piores horrores a quem quer que fosse com o ar mais cândido deste mundo. Morreste finalmente, como tanto dizias querer e como tanto demonstraste não querer, mas quero que saibas isto: quando estou contente, feliz, orgulhoso de mim, como hoje, penso em ti. Quando estou triste e miserável penso em ti e é em ti que penso quando estou de um a caminho do outro ou vice-versa. Não aprendi a fazer fatias recheadas, Mãe, mas contigo aprendi muito mais importante: ser eu, "Você vai arranjar-me isso, não vai?" Isso era um linguado, o teu peixe favorito e a pergunta foi dirigida ao empregado - tu disseste criado até ao fim - do João Padeiro, em Cascais, que te tinha trazido o peixe inteiro. Você vai arranjar-me isso, não vai? Volta para casa Stop Vamos para Moçambique Stop. Minha querida, esqueci-me de te dizer... As memórias vêm-me em cascata e fico-me por aqui, Mãe. Tu não precisas que te lembre de nada. Falavas muito alto, mas tinhas a mudez mais expressiva do planeta Terra e percebes lindamente a dos outros. Um beijo do teu filho Luís.
Venha o Diabo
No rescaldo de uma conversa facebookiana apercebo-me de que já vivi com a quase-perfeição e com a quase-imperfeição (e mais ou menos com tudo entre os dois).
Ou seja: esperam-me a perfeição total ou a imperfeição absoluta. Venha o Diabo e escolha. Eu não sou capaz.
Ou seja: esperam-me a perfeição total ou a imperfeição absoluta. Venha o Diabo e escolha. Eu não sou capaz.
8.1.19
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 08-01-2019
Não é propriamente uma vida em montanha russa. São dias em montanha russa, uns a seguir aos outros, dias que me fazem simultaneamente ter inveja de não ser funcionário público e perguntar-me como seria, se fosse? Dias de emoções, sentimentos, desilusões, esperanças uns atrás dos outros, seguidos como vagões num comboio, dias que chegam ao fim e me trazem à mente aquela biografia cujo título é Confesso que vivi. Confesso? Mas confesso a quem? Não confesso nada: digo, grito, declaro, afirmo, proclamo, certifico, garanto, asseguro, atesto, aprego aos quatro ventos que vivi. Hoje. Ontem também e amanhã igualmente, se Deus quiser, a partir das duas da tarde, hora a que a manobra de arvorar está prevista. Até lá também vivo, espero, desespero, falo com o arquitecto e com o surveyor de outras coisas, escrevo e-mails sobre outras ainda, descubro vermutes fantásticos (enfim, um), por causa desse vermute fico a conhecer uma loja da qual a partir de agora serei cliente quotidiano, escrevo cartas e postais (um de cada) insurjo-me veemente contra o preço de um Campari com vinho branco (e ganho parcialmente), passeio pela cidade na minha bicicleta Òrbita branca, tão bonita, vou aos Correos enviar a carta barra postal, tudo isto contado numa desordem cronológica total mas numa outra ordem qualquer que faz sentido, não sei qual. Sei que o jantar coze e cheira a Bruce Springsteen, que canta no Youtube (sinal seguro de que qualquer coisa se está a passar) é um jantar composto por uma data de coisas, tantas que me é difícil listá-las. O disco é The River e está quase a acabar, não sei se depois volto aos portos habituais se continuo pelos carreiros do passado. Marianne Faithful, estás aí? Say it in Broken English, would you please? Nico, Are you sure the shore is desert? Morreste por estas bandas, não foi? A andar de bicicleta, parece. Queres ser o meu espelho? Estes dias, Nico, estes dias you'll be my femme fatale break my heart in two and play me for a fool. Everybody knows, Nico. Patti, vamos dançar descalços?
.........
Descubro que afinal tenho um clã, uma tribo, uma família. Chamem-lhe o que quiserem. Irmandade, bando, associação: a das pessoas para quem uma linha de entrada de água num casco é mais importante do que a linha de um extracto bancário, para quem as obras só são vivas se estiverem dentro de água, para quem uma carena bonita devia desfilar num concurso de misses, para quem a linha de flutuação e a linha de vida se confundem numa só, algures no horizonte.
Descubro tudo isto e muito mais: gosto de vermutes artesanais, Palma parece uma mulher linda e de cabeça vazia, Lisboa é puta velha, desleixada, mal lavada e mais inteligente do que todos os clientes que a frequentaram desde que nasceu ou pelo menos desde que é puta, juntos e por atacado. Lisboa é a minha puta e eu sou o único chulo que paga para ter uma galdéria por conta. (Se calhar não sou, somos um monte deles à cata da mesma).
........
Amanhã às duas da tarde começo a arvorar o P.
No fundo o meu universo é muito simples: o rum acabou anteontem e a vodka está no congelador, à espera.
.........
Descubro que afinal tenho um clã, uma tribo, uma família. Chamem-lhe o que quiserem. Irmandade, bando, associação: a das pessoas para quem uma linha de entrada de água num casco é mais importante do que a linha de um extracto bancário, para quem as obras só são vivas se estiverem dentro de água, para quem uma carena bonita devia desfilar num concurso de misses, para quem a linha de flutuação e a linha de vida se confundem numa só, algures no horizonte.
Descubro tudo isto e muito mais: gosto de vermutes artesanais, Palma parece uma mulher linda e de cabeça vazia, Lisboa é puta velha, desleixada, mal lavada e mais inteligente do que todos os clientes que a frequentaram desde que nasceu ou pelo menos desde que é puta, juntos e por atacado. Lisboa é a minha puta e eu sou o único chulo que paga para ter uma galdéria por conta. (Se calhar não sou, somos um monte deles à cata da mesma).
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Amanhã às duas da tarde começo a arvorar o P.
No fundo o meu universo é muito simples: o rum acabou anteontem e a vodka está no congelador, à espera.
6.1.19
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 06-01-2019
O dia está lindo, quente e imóvel. Não há vento e o azul do céu mete-se por tudo quanto é frincha. Pedalo o mais lentamente que me é possível; na verdade passear não é o termo adequado. É esparramar-me por essa cidade, derramar-me como uma ânfora demasiado cheia nesta luz tão calma, tíbia, fina, luz que não ilumina, mais parece que acaricia as coisas, passa-lhes suavemente pela superfície da pele e deixa-as revelar-se como elas querem mostrar-se, sem forçar.
Procuro um sítio para beber um vermute e escrever - vim com a parafernália toda: postais, caneta, papel de carta, envelopes, tablet -. Acabo na esplanada do Baluarte, o museu de arte contemporânea da cidade. A vista é simples: uma linha de árvores e mastros por cima. Não há sítio na beira-mar de Palma de onde não se vejam mastros.
O vento é nulo e apesar disso o dia está lindo. Ou será "por causa disso"? Por causa desta ausência total de vento, desta imobilidade... Se alguém fizesse um estudo sobre a velocidade da luz encontraria decerto que a de Palma nestas manhãs de domingo de Inverno é mais lenta do que c.
E assim se esvai o dia, lentamente, sem se dar por ele. The Hours, Philip Glass...
Procuro um sítio para beber um vermute e escrever - vim com a parafernália toda: postais, caneta, papel de carta, envelopes, tablet -. Acabo na esplanada do Baluarte, o museu de arte contemporânea da cidade. A vista é simples: uma linha de árvores e mastros por cima. Não há sítio na beira-mar de Palma de onde não se vejam mastros.
O vento é nulo e apesar disso o dia está lindo. Ou será "por causa disso"? Por causa desta ausência total de vento, desta imobilidade... Se alguém fizesse um estudo sobre a velocidade da luz encontraria decerto que a de Palma nestas manhãs de domingo de Inverno é mais lenta do que c.
E assim se esvai o dia, lentamente, sem se dar por ele. The Hours, Philip Glass...
Multidões
- Podes falar? - Antes de nos telefonarmos tínhamos de nos perguntar isto. Ela era casada e tinha um amante; eu duas namoradas "oficiais" cuja existência desconheciam mutuamente e uma ocasional - aspirava à condição de fixa, confundia uma relação afectiva com um emprego -. Se alguém descobrisse o nosso amor teríamos uma multidão atrás de nós.
Retrato
Não tinha grande opinião de si próprio e por isso bebia muito vinho: esperava bonificar-se ao envelhecer.
5.1.19
Aprendizagens
Não sei de que é isto sinal, mas tendo a aprender mais com gente mais nova do que eu do que com mais velhos.
Tobogans, hífens e ses
Ou seja, podemos imaginar que a vida é uma piscina rodeada por tobogans, daqueles que se vêem nas fotografias publicitárias dos parques aquáticos e das regiões de turismo.
Num desses tobogans,
Num desses tobogans estás,
Num desses tobogans estás tu.
Pronto. Nos outros, quem está? Quais são? Como vamos ordená-los? O primeiro dos outros tobogans é o passado? Qual deles? Há tantos passados...
Melhor seres tu a decidir a ordem. Cronograma, importância, relevância, GANTT chart, meteorológica, pinturas rupestres, aleatória... Todas são boas. Poderíamos até - se quisesses, claro - organizar uma ordem estética. Do mais feio para o mais bonito. Refiro-me aos tobogans, naturalmente. Ou a ti, ordenada do mais livre ao menos livre. Do mais tu ao menos tu. De tudo isso a tudo menos isso. Beijo-hífen-te. Enfim, se calhar deixamos os hífens beijar-se. Conhecem-se tão bem, os nossos hífens. Os nossos ses. E os tes. Apanhemos juntos o tobogan, um qualquer.
Não, um qualquer não. O mais bonito, o do hoje.
Num desses tobogans,
Num desses tobogans estás,
Num desses tobogans estás tu.
Pronto. Nos outros, quem está? Quais são? Como vamos ordená-los? O primeiro dos outros tobogans é o passado? Qual deles? Há tantos passados...
Melhor seres tu a decidir a ordem. Cronograma, importância, relevância, GANTT chart, meteorológica, pinturas rupestres, aleatória... Todas são boas. Poderíamos até - se quisesses, claro - organizar uma ordem estética. Do mais feio para o mais bonito. Refiro-me aos tobogans, naturalmente. Ou a ti, ordenada do mais livre ao menos livre. Do mais tu ao menos tu. De tudo isso a tudo menos isso. Beijo-hífen-te. Enfim, se calhar deixamos os hífens beijar-se. Conhecem-se tão bem, os nossos hífens. Os nossos ses. E os tes. Apanhemos juntos o tobogan, um qualquer.
Não, um qualquer não. O mais bonito, o do hoje.
4.1.19
Cores
Toda a gente sabe que os dias têm cores. Alguns são encarnados, outros verdes, alguns cinzentos, azuis, mais escuro ou mais claro. A minha cor favorita para um dia é o azul. Não necessariamente marinho, repara. Pode ser qualquer azul (menos azul bebé, que detesto). Como pintar um dia de azul? Ou melhor, como se pintam os dias? Não somos nós que os colorimos, são eles. Por vezes é retroactivo: está quase o dia a acabar e chega um telefonema e num só gesto de repente fica tudo azul; por vezes começa logo de manhã: como se numa tela vazia o pintor espalhasse uma camada prévia da sua cor favorita. Outras vezes, nem uma nem outra: as horas vão-se pintando a si próprias, pequenos toques de pincel aqui e ali, ora como quem não quer a coisa ora como quem a quer muito.
Tu és a minha cor azul: os dias começam contigo, tela vazia coberta de um azul-marinho denso, ciclópico. Nessa base outras cores vêm assentar: um bocadinho de encarnado aqui, verde ali, roxo para fingir que somos modernos, amarelo para dar vida. Mas o azul está sempre lá, como quando no mar dançam navios: é o azul que os sustenta.
Tu és a minha cor azul: os dias começam contigo, tela vazia coberta de um azul-marinho denso, ciclópico. Nessa base outras cores vêm assentar: um bocadinho de encarnado aqui, verde ali, roxo para fingir que somos modernos, amarelo para dar vida. Mas o azul está sempre lá, como quando no mar dançam navios: é o azul que os sustenta.
3.1.19
De que são feitos os raios. Fragmentos
Se fosse assim de raspão já teria sido. De raspão, quero dizer: assunto de pele. Mas não foi. Veio de mais longe, do lado de dentro do lago no qual nadamos à superfície, ao sol. De modo não foi de raspão, foi um choque frontal, dois icebergues que se encontram, talvez o dia estivesse azul, talvez o mar calmo, talvez a lua cheia, ninguém sabe.
Questão de escuridão e excesso de luz ao mesmo tempo. É disso que são feitos os raios, não é?
Questão de escuridão e excesso de luz ao mesmo tempo. É disso que são feitos os raios, não é?
2.1.19
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-01-2019
Fui ao dentista, onde passei uma hora; tenho de comprar camisas e estou a fazer um chili con carne que não vai ficar grande coisa porque não conheço bem as especiarias; reservei a noite para pensar e em vez disso estou a beber vinho e a ouvir música enquanto o chili coze. Verdade seja dita: pensar não é incompatível com beber vinho e ouvir música, se forem bons. Estes são: o Davida é simultaneamente bom, ecológico, sem sulfitos e barato (alguém conseguiu a quadratura do círculo) e as Drinking Songs de Purcell pelo Deller Consort são... bem, do Purcell e canções de taberna. Às vezes é um bocado lacrimoso de mais, mas o conjunto é bom. O dentista já passou; uma hora durante a qual a senhora escarafunchou um dente e eu pensei em todos os dentistas por onde já estive: Nakhodka, Cape Town, Cape Town outra vez (ou terá sido Pretória?) Almirante (Panamá), Brasil e Portugal, claro; não sei se mais algum. Depois interroguei-me sobre os sacrifícios comparados do dentista e de comprar camisas. Ganhou aquele, porque é mais frequente: a média de idade das minhas camisas deve rondar os doze ou treze anos, isto contando com a que comprei em Atenas há dois anos e com a que o meu primo me deu há não sei quanto tempo, mas pouco. Se bem uma vez passei doze anos sem ir ao dentista; mas foi só uma vez.
Ou seja: não sei se poderei qualificar este dia como "um sucesso!" (imitar sotaque de tia de Cascais). O dentista em Nakhodka já aqui contei; o de Cape Town também: tinha bebido uma garrafa de whisky antes de ir para lá. Sentei-me e só tive tempo de lhe dizer duas coisas antes de cair num sono profundo: "Por favor veja-me essa cárie que me trataram na Rússia há um ano" e "tenho mais medo do dentista do que de um ciclone no mar".
.........
A M. veio cá, tem um check in à uma da manhã. Ficámos um bom bocado à conversa na cozinha, enquanto o chili cozia (dá para tudo, um chili que coze). Perguntou-me se eu bebia água. Disse-lhe que não. Bebo muito café e quando navego com ingleses chá. De vez em quando bebo sumos, se as condições estão reunidas: laranjas e uma máquina para as espremer. De resto, só vinho; cerveja raramente; hierbas secas, vermute, Palos; rum; gin; vodka. Ontem bebi um Bénédictine, de que tanto gosto. É feito em Fécamp. É o licor menos doce do mundo. Ninguém me pode acusar de beber pouco. Nem de andar bêbedo mais do que o razoável, apresso-me a esclarecer.
É importante: um homem não deve embedar-se sem querer, por acaso, sem método e sem propósito.
.........
As canções de taberna do Purcell são boas, mas não chegam aos calcanhares das suas congéneres medievais. A diferença está em Deus, claro: na Idade Média estava em todo o lado. No séc. XVII já não. Só se pode desobedecer se houver a quem.
........
M. tem aquela beleza tosca das paisanas holandesas e alemãs. É muito simpática, mas não lhe suporto o cão.
- Esse cão pensa que é humano.
- Sim. Pensa que é o meu namorado.
Ou seja: não sei se poderei qualificar este dia como "um sucesso!" (imitar sotaque de tia de Cascais). O dentista em Nakhodka já aqui contei; o de Cape Town também: tinha bebido uma garrafa de whisky antes de ir para lá. Sentei-me e só tive tempo de lhe dizer duas coisas antes de cair num sono profundo: "Por favor veja-me essa cárie que me trataram na Rússia há um ano" e "tenho mais medo do dentista do que de um ciclone no mar".
Depois adormeci. O homem teve de me acordar quando acabou. "A sua cárie foi extremamente bem tratada" e "muito gostaria eu que todos os meus pacientes medrosos fossem como você". O do Panamá era caríssimo e ensinou-me a bocejar com água oxigenada para não ter dores, porque não lhe podia pagar o tratamento. Funciona às mil maravilhas. Já as camisas são uma seca. Não me apetece nada. (É verdade que estou um bocado farto de ver sempre as mesmas, mas isso é outra história).
As especiarias vêm de duas fontes diferentes, ambas sitas no Mercat de l'Olivar. A partir de agora vão ficar reduzidas a uma, um argentino arrogante (passe o pleonasmo) que tem as melhores especiarias que vi até hoje a sul de Marselha e a norte do Maghreb. Em Lisboa pode comprar-se especiarias correctas no Martim Moniz, mas a diferença entre uma especiaria correcta e uma boa é a que vai entre Marilyn Monroe e a vizinha do 1º dto. Com a notável excepção dos cominhos: o melhor que até hoje me passou o estreito foi o de S. Luís, num mercado cujo nome não recordo. mas sei onde é..........
A M. veio cá, tem um check in à uma da manhã. Ficámos um bom bocado à conversa na cozinha, enquanto o chili cozia (dá para tudo, um chili que coze). Perguntou-me se eu bebia água. Disse-lhe que não. Bebo muito café e quando navego com ingleses chá. De vez em quando bebo sumos, se as condições estão reunidas: laranjas e uma máquina para as espremer. De resto, só vinho; cerveja raramente; hierbas secas, vermute, Palos; rum; gin; vodka. Ontem bebi um Bénédictine, de que tanto gosto. É feito em Fécamp. É o licor menos doce do mundo. Ninguém me pode acusar de beber pouco. Nem de andar bêbedo mais do que o razoável, apresso-me a esclarecer.
É importante: um homem não deve embedar-se sem querer, por acaso, sem método e sem propósito.
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As canções de taberna do Purcell são boas, mas não chegam aos calcanhares das suas congéneres medievais. A diferença está em Deus, claro: na Idade Média estava em todo o lado. No séc. XVII já não. Só se pode desobedecer se houver a quem.
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M. tem aquela beleza tosca das paisanas holandesas e alemãs. É muito simpática, mas não lhe suporto o cão.
- Esse cão pensa que é humano.
- Sim. Pensa que é o meu namorado.
1.1.19
Razões
Um homem ejacula quando está farto do que está a fazer e embebeda-se exactamente pela mesma razão.
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