31.7.05

Talento escondido. - Escondido?

Your Hidden Talent
You are a great communicator. You have a real way with words.
You're never at a loss to explain what you mean or how you feel.
People find it easy to empathize with you, no matter what your situation.
When you're up, you make everyone happy. But when you're down, everyone suffers.




(Via Somatos)

É bom saber que tenho jeito para me exprimir. Só é pena é não ter nada para dizer.


PS - "E quanto à minha pessoa, esse fiel passatempo, devo dizer que já não pensava nada nela"

in Molloy, S. Beckett, Ed. Presença, trad. Rui Guedes da Silva

Cem por cento?

No Expresso de ontem Nicolau Santos vem, de novo, batalhar contra a venda a espanhóis de empresas portuguesas. Raramente estou de acordo com o que ele escreve, mas acho que o artigo de ontem faz prova de uma má-fé intelectual pouco habitual naquela coluna.

Não é, obviamente, porque os empresários portugueses são corruptos e incompetentes que se deve aprovar a venda das suas empresas a espanhóis (já agora, e se for a ingleses, ou franceses, ou alemães, ou americanos)?

É por uma razão mais simples: uma empresa, se quiser crescer (ou sobreviver) no mercado internacional necessita de uma certa dimensão. E algumas empresas portuguesas - de resto, ambiciosas e com razões para o ser - preferiram integrar grupos maiores e mais fortes, assegurando assim o seu crescimento e a sua longevidade.

Não é preciso ser uma "pura vestal do neoliberalismo" para aceitar isto.

30.7.05

Mudanças

Em breve o Don Vivo começará a ser editado: vou cortar os posts de que não gosto. Oxalá não desapareça...

29.7.05

Motivações

Não é o dinheiro que me faz correr. É a falta dele.

27.7.05

Bjørn again

Um artigo a ler. Prefiro a posição de Bjørn Lomborg, obviamente, sintetizada nesta frase simples e lapidar: "Let's Try Priorities, not Propaganda".

Véritable mauvaise foi

President Chirac has officially raised the French terror alert from "Run" to "Hide". There are only two higher alert levels in France, which are "Surrender" and "Collaborate". The rise was precipitated by a recent fire which destroyed France's white flag factory - effectively crippling their military effort.

21.7.05

Palavra horrorosa

Parabenizar. Provavelmente a palavra mais feia de todo o léxico português. E ainda por cima é um neologismo.

19.7.05

O amor e a ecologia

- "Só como carne biológica", dizia-me um amigo recentemente. "Nunca fiz amor com um robot, que eu saiba".

17.7.05

Palavras feias

P: Piorreia / Peida / Peido
R: Rebanho

15.7.05

Palavras bonitas

H: Hermético
A: Abúlico / Ameuter
M: Meute

Breve passeio pela blogosfera

PeterBlood goes to Lisbon
Casmurro
Cocanha
Direita Liberal

Empreendorismo

A palavra "empreendorismo" está muito na moda. Mas a verdade é que é mais fácil convencer um português a investir na D. Branca ou no Pedro Caldeira do que numa empresa. Eles sim, são (ou melhor, foram...) empreendedores.

14.7.05

Certeza II

Por baixo dos lençóis espreita um joelho. Há pouco utilizaste-o para me percorrer o ventre, as coxas. Também me lembro dos trajectos que na tua pele desenhei. Às vezes, pergunto-me se a melhor parte do amor não será o pequeno almoço a dois. Não é.

Vontades

A vontade é sempre a mesma: pedir-te para não falares, não falarmos; deixemos os nossos olhares, os nossos tactos, os nossos olfactos, e paladares, falar por nós. Afinal é para isso que aqui estamos, nesta cama barulhenta, nesta noite inquieta, nesta catadupa de respostas sem questões, de perguntas sem respostas.

Perguntas-me, por exemplo, porque gosto de ti. Posso ser honesto, e dizer-te que não gosto de ti; ou ser honesto, ainda, e dizer-te que não sei; ou ser desonesto e mencionar a tua inteligência, os teus olhos, os teus seios, o teu ventre, que sei eu?

Não sei nada: e não gosto de falar do que não sei. Não falemos, portanto. Não digas nada, não me olhes com esses olhos inundados de desejo e de prazer e de dúvida, não me toques com esses dedos ávidos, não chames por mim como se num abismo caísses. Não faças nada. "Lie still", lembras-te?

Deita-te quieta a meu lado, não deixes sequer o teu desejo aflorar-me a pele, não me fales de sede, não me fales do vento que nos percorre as peles, não me fales de nós, de ti, de mim. Não me faças amor, não me peças para to fazer: não deixes que tudo o que no teu corpo não fôr a ponta dos seios me toque, ou os joelhos, ou a pele do ventre.

Deixa, simplesmente, que o Santo Corpo desça em nós, e a nossa epifania se faça em nós, apesar de nós.

Ad nauseam

É sempre a mesma coisa. Sempre foi assim; vejo-me grego com o amor. Literalmente: a minha primeira paixão avalassadora foi por uma grega, numa colónia de férias suiça. Ela era muito mais velha que eu e a coisa ficou por ali. Hoje as coisas tendem a não ficar "por aí". E a pergunta faz muito mais sentido, porque hoje há blogs e há corpos, coisas que não havia antigamente: era preciso amar, também. O dilema é simples:

a) Você vê uma rapariga num bar e acha-a atraente;
b) Você lê o blog de uma rapariga que nunca viu e acha-a atraente;

Qual das atracções é mais... - que palavra utilisar: válida?, verdadeira?, interessante?

A verdade é que já não conheço ninguém que tenha conhecido num bar, e conheço muita gente que conheci num blog. Penso portanto que a opção b) é mais válida, estatisticamente, que a opção a).

Acontece contudo que a rapariga "b)", no momento em que você a conhece, se revela um traste - fisicamente (claro; se o blog ou os mails fossem trastes, você não a procuraria). E - é frequentemente o caso, infelizmente - a rapariga "a)", depois de uma noite, ou meia noite, de sexo, se revela totalmente desinteressante.

Ad nauseam, meu caro...

13.7.05

Democracia

Ao contrário do que muitas vezes se pensa, e eles nos dizem, o objectivo dos políticos quando vão para o Governo não é fazer o que é bom para o país. Um político vai para o Governo com o fito único de ser re-eleito. O que é compreensível: se ser eleito é o reconhecimento das suas qualidades, ser re-eleito (não necessariamente em mandatos consecutivos) é o reconhecimento da sua "obra".

Daqui se infere que, entre duas opções, o político não escolherá a que ele pensa (ele ou a sua equipe técnica) melhor, mas sim a que lhe dará mais votos, ou lhe tirará menos: a Ota, o TGV, o terminal de contentores em Alcântara disso são exemplos mais do que perfeitos.

Compete aos cidadãos eleitores organizarem-se e criarem formas de fazer ver aos políticos que se optarem por certas escolhas perderão votos (ou não... - mas isso é outro debate).

PS - A manutenção do terminal de contentores em Alcântara é um erro tão clamoroso como a Ota ou o TGV - mas ninguém fala disso, porque o mar, e as coisas dele, há muito estão ausentes do nosso quotidiano.

Breve passeio pela blogosfera

Semiramis;
Crónicas e Textos de Alberto Gonçalves

11.7.05

Mais um tiro no pé (como se ainda tivéssemos pés...)

“No Diário de Notícias de hoje confirma-se a triste notícia que li ontem no Céu Sobre Lisboa. Copio aqui o comentário que lá deixei, com algumas modificações menores. Hoje estou um pouco mais revoltado: cada vez acredito mais que não há safa: vivemos e trabalhamos para sustentar funcionários públicos e políticos parasitas, incompetentes, incapazes, indiferentes ao interesse comum:

"A zona de Âlcantara devia ser dedicada à Marinha de Recreio. Um terminal de contentores no centro da cidade não faz, pura e simplesmente, sentido. A Doca do Espanhol poderia ser uma Marina (que é, como se sabe, um projecto imobiliário) magnífica, com espaço de construção, espaço para mega-iates, animação, perto do centro da cidade, do aeroporto, da foz do rio, espaço para área técnica - enfim, podia ser. Mas não é, e não será.

Serão eles idiotas? Não. Em recente conversa com uma responsável da APL (Administração do Porto de Lisboa) a senhora disse-me, candidamente:

- Pois, mas quem me paga o salário não é a navegação de recreio, são os contentores. - Perante o meu olhar atónito, ela continuou: - 70% do orçamento da APL provêm da Liscont (a empresa que gere o terminal).

Não penso que seja factualmente verdade; mas, ou arranjamos lugar na Comissão Europeia e somos colocados em Lisboa, e temos uma vida boa como não as há em mais lado nenhum da Europa, ou emigramos para Espanha - Barcelona, por exemplo, que reabilitou brilhantemente a sua orla marítima; ou Valência, que o está agora a fazer.

- Um terminal de contentores exige espaço, muito espaço. Se não o tiver, não será nunca competitivo;
- Um terminal de contentores implica quantidades enormes de camiões de 40 toneladas (mesmo que se façam caminhos de ferro, os contentores não são todos escoados por comboio);
- A 100 km (cem kilómetros, 1 hora de auto-estrada) há um porto que pode movimentar contentores de Portugal e Espanha, e de cuja estrutura accionista faz parte um dos mais eficazes operadores de terminais de contentores do mundo;
- Lisboa tem condições magníficas para a Marinha de Recreio, como a recente candidatura à America's Cup demonstrou;
- A Doca do Espanhol está "feita" - basta reconverter os edifícios, tirar de lá os restaurantes flutuantes que além de ocuparem o espaço de 40 ou 50 barcos não pagam rendas há anos (e se pagassem não seria o equivalente aos tais 40 ou 50 embarcações) - os estaleiros navais ao lado, privados, reconverter-se-iam de per si em área de apoio técnico; tudo isto sem necessidade de investimentos públicos, porque qualquer operador de marinas normalmente constituido venderia a família para poder gerir um espaço daqueles.

Mas não se pode parar esta loucura? Quem lhes paga os salários, e as incompetências, somos nós!”

10.7.05

Assimetrias incompreensíveis e perigosas

O senhor Omar Bakri Mohammed pode dizer coisas destas (post "O Terror em Londres") e não lhe acontece nada. Alguém lhe chama "filho da p... de árabe" e é provavelmente condenado por racismo.

8.7.05

Londres

Os misericordiosos voltam a atacar.

6.7.05

Paris

Não conheço suficientemente bem Paris para dizer que este, ou aquele, canto é o meu favorito. Porém, quando estou sozinho, como hoje, e ansioso (como ontem e há vinte anos), um dos sítios onde gosto de ir é ao Canal St. Martin.

Gosto de imaginar aquele troço de água agora inútil percorrido por barcaças, puxadas por cavalos; e imagino os inúmeros cafés de hoje com os cheiros, e as roupas, e os barulhos de antigamente.

Quem, pela primeira vez, me mostrou o canal foi uma amiga marinière, termo feio e enganador que designa os marinheiros da navegação fluvial. Ela amava perdidamente o Sena, e rir, e com ela partilhei algumas noites e muitos risos, e percorri as margens do Sena e este canal, cicatriz mal fechada de um passado que, em Paris, está tão próximo, sempre.

Gosto de Paris, é verdade, gosto das memórias que de lá trago, das pessoas que conheci, dos momentos, e sonhos, que lá vivi. Mas não consigo impedir-me de pensar que Paris é uma cidade irremediavelmente condenada a olhar para trás, incapaz de pôr, no Canal de St. Martin, outra coisa que não o tempo que foi, e não o que será. Ao contrário de Londres, onde o futuro nos salta aos olhos de onde quer que olhemos, dos sítios mais inesperados, dos monumentos mais antigos. Talvez seja essa a grande diferença: em Londres vê-se o futuro, em Paris lembramo-nos do passado.

Restaurante Familiar

O Restaurante Familiar Cana'bar fica perto da estação de Montparnasse e é isso mesmo: um restaurante familiar. As mesas têm toalhas encarnadas aos quadradinhos de plástico, a empregada tem um daqueles traseiros pelos quais montanhas se movem, cabeças se perdem e casamentos se desfazem - e fariam a seguir, se para aí ela estivesse voltada; - a que se junta, para mais, um par de seios de iguais propiedades; a pele é negra, tão negra que o espelho não a reflecte, o sorriso bonito e o olhar franco.

A comida é boa e barata, o vinho medíocre e barato, e o serviço - desempenhado com esmero pela dita empregada é - como dizer? fabuloso? Em vez de andar parece que rola sobre duas esferas perfeitas, equilibradas um pouco mais acima e do outro lado do corpo por outras duas perfeitas esferas. O conjunto é de uma harmonia indescrítivel, e potente, muito potente.

3.7.05

Um post optimista

Bebo um Ti'Punch em La Rochelle e oiço boa música; é aquele momento do dia em que as muheres são mais bonitas, o ar tépido, a luz espessa, e imagino que o passado acabou, finalmente. Começou o futuro, pela milésima quinquagésima terceira, e última, vez.

2.7.05

Auto-retrato

Je n'ai guère un corps attirant à première vue, force est de le reconnaître; ni à la deuxième, d'ailleurs. Imagine la cinquantième...

Os conselhos do Dr. Meio-Vivo

I - DESGOSTOS DE AMOR

Entre os 15 e os 25, e a partir dos 45 anos, é infelizmente frequente termos que lidar com desgostos de amor (entre os 25 e os 45 não os há: só há relações que se terminam, ou que não funcionam, ou casamentos que se desfazem). Refiro-me, claro, àqueles desgostos de amor "estruturantes", "definidores" - os que definem, ou você pensa que definem - a sua vida futura.

Se tem entre 15 e 25 anos, o remédio é simples: uma ou duas garrafas de um álcool qualquer, um livro do Eugénio de Andrade para se aperceber bem de tudo o que acaba de perder, e um fim de semana em casa, "longe de tudo". Experimente e vai ver que passa.

Se, em contrapartida, a ou o leitor amável tem mais de 45 anos, o caso é mais difícil e mais caro, mais penoso e mais demorado. O meu conselho, baseado em inúmeras experiências, é: um avião para uma cidade francesa - pode mesmo ser Paris, por exemplo - um restaurante sublime (L'Opportun, Bld. Quinet 62, Paris XIV, serve perfeitamente). Deve encomendar-se um bom prato - por exemplo, Épaule d'Agneau en Papillote - acompanhá-lo por um bom vinho (para o borrego, gosto de Brouilly). Esta combinação - avião, restaurante e vinho - leva-nos, inexoravelmente, para longe de tudo. E faz-nos pedir, implorar, muitos desgostos amorosos, muitos, um por dia no mínimo.

A fase seguinte do tratamento consiste em transformar uma mera experiência sensorial numa experiência teológica. E para isso há que encomendar queijos - St. Félicien, Camembert, um queijo de cabra em cinza, por exemplo. São raros, muito raros, os momentos em que acredito na existência de Deus; face aos queijos do M. qualquer coisa, eleito "Meilleur Ouvrier de France", não só acredito na Sua Divina existência como penso seriamente que Ele vive em França. (A isto chamo o "Milagre Francês": você sai do seu país convencido, a justo título, que a França é um país de chatos pedantes e socialistas, presididos por um delinquente de direito comum - pelo qual eles optaram, correctamente, porque a alternativa era um atrasado mental ultra-nacionalista, negacionista e xenófobo - que ainda não se apercebeu que a Fraaaaaaança já não é a potência que em tempos foi, e ao fim de meia dúzia de horas apercebe-se que o país é sublime).


II - PROBLEMAS FINANCEIROS

A terapia acima descrita tem outra vantagem: é que transforma um desgosto de amor num problema financeiro, desviando assim a atenção para outro terreno, quiçá mais trivial mas melhor conhecido, muito melhor conhecido.

A terapia para os problemas financeiros é simples: basta lembramo-nos da existência dos hamburguers do MacDo, da sanduicheria ao lado, dos Hot Dogs; esquecer rum, whisky, cocktails e charutos Montecristo nº 4 (a perfeita combinação de tamanho e gosto) e pensar que milhões de pessoas em todo o mundo bebem cerveja; e lembrarmo-nos que a leitura é um passatempo enriquecedor, neste caso duplamente enriquecedor.


III - PROBLEMAS DE PESO

Na próxima lição trataremos dos problemas de peso induzidos por esta terapia.

1.7.05

Escrever

A dificuldade de escrever não são as palavras: é cortar as que estão a mais - quase todas.

Vento

O horizonte é o castelo, a sua torre de menagem. Gosto destas noites que, não fosse o vento, seriam insuportavelmente quentes. Muito baixa, mesmo por cima do horizonte, está Orion, e as Três Marias, e a memória do desejo que tenho de aqui estar contigo.

A simpatia da empregada do restaurante é contagiosa: ela parece-se com as falésias de Dover num dia de chuva, mas é infinitamente mais afável. O gaspacho está esplêndido; o vento, de todos os elementos aquele que eu prefiro, também.

Uma noite sem vento, costumavas dizer-me, é como uma mulher sem alma; dizias-mo nos dias de calmaria, tempo interminável em que ficávamos a pairar em pleno Atlântico, em que o amor substituía aquela calma mortal, em que me davas a ver, e a tocar, a tua alma, todas as tuas almas. Eras um tufão, tu sozinha; e nós os dois éramos outro, melhor.

Mais tarde, muito mais tarde, encontrávamo-nos numa cidade sem torre de menagem, sem vento, sem Orion - apenas o tufão era o mesmo, os mesmos. Tu tinhas mudado, e eu também: sabíamos agora que o amor é um auto-estrada cujas peagens são caras, um ciclone cujos estragos se pagam a dobrar. Já não acreditávamos em boleias, nenhum de nós; e o amor desconfiado era uma novidade, para ti como para mim.

- Força - dizia-te. - Acredita em ti, no teu direito à felicidade. E lembra-te que para a tua a minha não conta, ou muito pouco: todo o amor é egoísta. Alimenta-se do que o outro nos dá, do que do outro temos em nós, do que do outro nos apoderamos. Por isso te amo; assim quero que me ames.

Paráfrase

"La tristesse tranquille".

Queixa de Portnoy, versão 2

Não passo de um saco de serotonina.

27.6.05

Sabedoria popular

Procura a felicidade, se quiseres; mas não troques o que não tens pelo que nunca terás.

26.6.05

Diálogos possíveis

- Quero escrever um livro.
- Um livro? Sobre quê?
- Sobre a minha vida. Ou melhor, sobre as minhas vidas: tive muitas, sabes?
- Vida? Vidas? Meu caro, vive-a - ou vive-as - se ainda fores a tempo; não as escrevas.

25.6.05

Retratos imaginários

Um dia decidiu deixar de ter namoradas, porque estava farto de rupturas. "É pior que mudar de casa", explicou-me.

24.6.05

Diálogos possíveis

- No caminho perdi amigos, família, consideração (a dos outros por mim, a minha por mim, a minha pelos outros), perdi...
- E acha que valeu a pena? - interrompi-o.
- Faço-me essa pergunta todos os dias, como pode imaginar. E a resposta é sempre uma, só uma: sim! (e por vezes isso assusta-me). Antigamente tinha dúvidas; mas agora basta-me pensar nos dias de sofrimento, nos dias em que não sabia como ia ter dinheiro para pagar as facturas, nos dias em que não conseguia olhar para o espelho, em que já não sabia onde ia buscar recursos para inventar mais desculpas; por vezes punha-me a chorar sem qualquer motivo aparente e dizia a quem estava comigo que tinha uma alergia nos olhos... - em que não pensava senão em baixar os braços e deixar-me ir na corrente...
- Esse longo rio tranquilo ao qual você tanto aspirava.
- Exactamente. Penso nesses dias, quando não tinha paciência para me suportar, para me ouvir respirar, em que escrever um mail era mais difícil do que subir o Everest com um saco de pedras às costas, - e comparo tudo isso com a família que deixou de me falar, os filhos que não conheço, os amigos que me repudiaram ou que eu repudiei - e acho que sim, acho que valeu a pena. E acho que sou um monstro.

23.6.05

Palavras bonitas

A: Aldebaran / Agulha - no sentido de bússola, como em "Agulha de marcar", "Agulha de governar"; / Al Iskhandyria (duvido que a grafia esteja correcta. É o nome árabe de Alexandria)
B: Betelgeuse
O: Outspoken / Outburst
S: Samarkand
V: Vápido / Verbo / Ventre / Vento

Passada...

...esta primeira vaga de má-fé, e ultrapassado o desprezo que sinto pela banca portuguesa, forçoso é reconhecer que o Sampaio disse uma grande idiotice.

Susto

Leio os dois últimos posts e pergunto-me se estou a converter-me num PS encapuçado.

Sampaio e os bancos

Até o Sampaio diz coisas certas de vez em quando. Infelizmente, é muito, muito, muito, de vez em quando. Ontem foi uma delas: 79% do crédito bancário comercial está concentrado em 6% das empresas. Meus caros, números são números.

Claro que se os bancos o fazem é porque têm razões para isso: a ausência de um quadro jurídico que lhes permita minimizar o risco de créditos fraudulentos, a ausência de uma lei do arrendamento que não torne tão racional e evidente a opção por habitação própria - qual o banco que vai aplicar activos num crédito duvidoso se os pode aplicar na compra de uma casa, que é, por motivos óbvios, a última coisa que se deixa de pagar? - uma lei fiscal cheia de buracos, o favoritismo que foi permitir a restructuração da banca à custa do erário público (reconhecidamente, não foi o único sector que o fez, e foi o que o fez melhor), j'en passe et des meilleures.

N'empêche
: salvo raras e honrosas excepções, os bancos portugueses são casas de penhores com uma rede de instalações bonitas.

22.6.05

Oposição

Há algo de obsceno, nos termos em que políticos do PSD criticam o Governo; como, por exemplo (mas está longe de ser o único) Vasco Graça Moura o faz hoje no DN.

Esta oposição não está boa.

18.6.05

Boas notícias

A outra boa notícia do dia é que a Enoteca de Cascais mudou para a minha rua. Antigamente ficava a três minutos, e a subir; agora está a um, a direito.

A Enoteca de Cascais, já aqui a referi uma vez, é um excelente restaurante e um excelente bar de vinhos, com preços mais do que aceitáveis e um serviço mais do que excelente.

17.6.05

Apologia da paixão

Odeio a distância, todas as distâncias, sejam elas geográficas, psicológicas ou simbólicas.

J'aime les mots

B: Bolina / Bordo - como em "está a bordo, vou para bordo, fico a bordo";
L: (Leme de) Ló - já ouvi falar em Pão de Ló, mas não sei bem o que é, nem qual a relação com este voz tão bonita: Leme de ló!, que o homem de leme (ou o oficial de quarto nos navios do antigamente) dá para indicar o início da manobra de viragem de bordo.

Números

Números, números, números - que fazem tantos números onde só letras e palavras deviam estar?

Icebergs

Iceberg da solidão: só 10% são visíveis.

Ebriedade

Ele enchia-se de amor como de vinho, whisky ou rum.

Ladaínha do amor não correspondido

Fala comigo, fala comigo, fala comigo, mesmo que seja para me dizeres "está calado!".

16.6.05

J'aime les mots

Palavras bonitas (A): Abalar (v.) / Abalo (s.) / Anacrónico
Palavras bonitas (H): Hélice - o hélice: faz-se frequentemente a este belo substantivo masculino a incorrecção de o feminizar;*
Palavras bonitas (P): Peculiar
Palavras bonitas (S): Singular




* - a este respeito, ver Ciberdúvidas (link enviado pela Helena, sempre atenta). Por mim, sempre ouvi "o" hélice, e foi esse som, e essa imagem que me ficaram no espírito.

E se virem a lista dos dicionários consultados, verão que não há nenhum náutico. O hélice de que gosto, escusado será dizê-lo, é o que puxa os navios pela água dentro, ou os aviões pelo ar, o dos helicópteros.

Outra pergunta (muito menos importante que a precedente)

Porque é que os partidos comunistas precisam, para mudar, que morra a figura tutelar?

Pergunta

Que amo, quando te amo? O amor é egoísta, todo. Amo o que recebo, o que me dás, o que em mim trago de ti.

14.6.05

Libertação de Florence Aubenas

O que mais impressiona é a vida, a força, a energia que emana desta mulher. O sorriso, a vivacidade do olhar. A vida, tout court, que cinco meses de cativeiro não chegam para anéantir.

Mais um...

...link para o cada vez mais indispensável Semiramis.

13.6.05

On croît rêver

Em Setembro vai realizar-se na Suiça um referendo para saber se o país deve aceitar a extensão da "livre circulação de pessoas" aos novos membros da União Europeia. Os prós e os contras definem-se ao longo das linhas habituais.

Habituais? Não: os sindicatos - todos os sindicatos - são a favor da abertura das fronteiras aos "canalizadores polacos" que tanto medo provocam noutras paragens. Dizem eles que a imigração legal é o melhor meio de impedir a baixa do poder de compra e de lutar contra o trabalho clandestino.

Com sindicatos assim, até eu sou sindicalista.

PS - claro que foi o resultado de uma negociação política, entre os sindicatos e as confederações patronais. Agora falta ver quais as concessões que estas fizeram. Mas isto não anula o facto singelo que sindicatos pragmáticos são melhores do que sindicatos ideológicos.

Luto nacional

Luto nacional porque morreu o Álvaro Cunhal? Um socialista, que ninguém no seu perfeito juízo acusaria de querer instaurar um sistema anti-democrático, decreta luto nacional porque morreu um líder comunista.

Nós, na direita liberal, temos pelo menos a vantagem de não ter ligações "genéticas" a nenhum sistema dictatorial.

Dívida

"Somos devedores...". Devedores? De quê? De ele não ter conseguido instaurar a ditadura que queria? Não, Ana, não estou de acordo: uma ditadura é uma ditadura é uma ditadura, qualquer que seja a razão que apresenta para se justificar.

Porque é que a ditadura comunista ainda goza de tanta boa vontade? Se ele tivesse lutado como lutou para instaurar um regime fascista, no qual acreditasse e pelo qual se tivesse sacrificado tanto, dever-lhe-íamos alguma coisa também?

Genève

Genève é uma cidade calma, uma calma de aquário.

Discrepâncias

O meu desejo é múltiplo, o meu amor é único.

O casal da mesa ao lado

"Putain, merde, chier, ce n'est pas parce que j'utilise un langage un peu imagé que je parle mal, non?" demande-t-elle.

Poderia amá-la, quase: gosto tanto do sentido de humor como da má-fé.

Retratos possíveis

O casal na mesa ao lado: ele saíu de um filme de Rohmer, ela de um de Jean Eustache.

11.6.05

Galicismos

No Bloguítica, um os melhores blogs políticos nacionais, destaco esta frase:

"[a] Lisboa assumiu a presidência do Comité de Ministros dos Negócios Estrangeiros do Conselho da Europa (Maio/Novembro de 2005). Não se tratando de um vector central na política externa portuguesa, o exercício da presidência confere visibilidade externa a Portugal e contribui para que possamos «punch above our weight»."

Bolas, mas ninguém nos obriga a ser como a França, pois não?

10.6.05

Lua

É difícil navegar pela Lua: move-se demasiado depressa, raramente tem um horizonte bem delineado, nunca sabemos se devemos tomar-lhe a parte superior, o meio ou a parte de baixo (isto é, nunca sabemos por onde pegar-lhe).

Não, não é uma analogia.

8.6.05

Ora bolas

E eu que sempre pensei que os políticos portugueses eram mal pagos, coitadinhos.

Palavras em fogo

Brincava com as palavras como um malabarista com garrafas em chamas: cadeado / encadeado / encandeado / encalhado / na calha / se calhar / encalhámos um no outro.

Se calhar. Se calhar desencalhámo-nos um ao outro.

Serão as palavras...

...que o diabo amassou as únicas que merecem ser escritas? Não: o pão que o diabo amassou tão-pouco é o único que merece ser feito.

Teste

Acordo e digo-te bom dia. Funciona: a caneta tem tinta.

Sem título

Que há, na estrutura de um cristal, que o torna diferente de outro? Que há no tempo que o torna diferente de outro tempo? Que há em mim que me torna diferente do outro eu? Só de dentro se pode saber. Sabê-lo-ei, um dia?

Porque é diferente a luz, hoje? A cidade é a mesma, o mar. O sol põe-se e, como ontem, como amanhã, não há um sopro de vento. As pessoas são as mesmas, o calor, a distância, a solidão. Essa não muda. Não é preciso estar por dentro para a distinguir. É sempre a mesma coisa: eu estou longe, tu estás longe, e o futuro nunca mais é presente. O futuro nunca será radioso.

- Nunca foi - respondes, com o habitual sorriso trocista ao canto do olho.

7.6.05

Interessante

Aqui está um ponto de vista interessante.

6.6.05

Desejo

No fundo, o seu maior desejo era escrever uma história de amor que depois pudesse viver.

5.6.05

Diálogos possíveis

- Lês muito?
- Não, só o suficiente para saber que escrevo mal.

Hipocrisia

Detesto as hipocrisias, todas as hipocrisias - sobretudo a minha.

2.6.05

Serviço Público / Blogs

A ler, todos os dias, várias vezes ao dia: Le Tasque.

1.6.05

Serviço Público e Agradecimento Público

A esta senhora, bonita, inteligente e culta devo um erro e uma descoberta. O erro foi meu, e já foi corrigido. A descoberta, essa, foi dela (ou por ela), e por isso lhe estou grato ad aeternum.

Trata-se, singela, fundamentalmente, do Restaurante Painel de Alcântara, Rua do Arco a Alcântara, 7 - 13, 1350-019 Lisboa (213 965 920).

Aviso

Apesar do tom lamuriento, choramingas, e de uma maneira geral chato deste blog, quem me conhece sabe que sou de um natural alegre, optimista, mesmo ingénuo.

Apesar disso, não quero, não posso, deixar de mencionar o artigo da Teresa de Sousa no Público de hoje, 31/05/2005 - (se o meu amigo e ocasional leitor M. R. tiver a gentileza de Ctrl+C + Ctrl+V, colocá-lo-ei aqui).

Nele, Teresa de Sousa incita-nos a não subestimar a importância, o alcance (portée) do "Não" francês.

Bom seria traduzi-lo, claro.

30.5.05

Serviço Público

É para coisas destas que serve a blogosfera (que palavra horrível!). Apesar de achar que não está ao nível do melhor de Medina Carreira, vale a pena ler.

Obrigado ao Insurgente.

PS - E para estas. Um texto a ler absolutamente do Semiramis.

28.5.05

"Shall I at least set my lands in order?"

"I read, much of the night, and go south in the winter." Durante muito tempo não sabíamos que este verso magnífico era do T. S. Eliot. Éramos crianças. Lêmo-lo pela primeira vez num livro do Pepe Carvalho, coitado. O que ele nos fez sonhar, lembras-te? A primeira parte não tanto: ler, much of the night, era o que fazíamos, antes ou depois do amor; mas viajar para sul no inverno - perguntávamo-nos se iríamos de comboio, de paquete, num grande Rolls-Royce com chauffeur fardado a rigor.

Tu tinhas fugido de casa para vir ter comigo. "Fugido de casa", dizias. Um dia descobriste que não era uma casa: tu fugiras "para" uma casa. Nunca tiveste casa, na verdade. E não é agora que a vais ter, pois não? Verdade é que nunca te dei uma: o nosso deserto, já há muito o trazia comigo. Vieste para sul, para vir ter comigo, e passaste uma noite num avião, mais uma noite na rua, mais milhares de noites em todas as ruas do mundo.

Um dia descobrimos "The Waste Land". E não se passava um dia que não abríssemos o livro ao acaso e recitássemos uma linha ou uma estrofe: "The sea was calm, your heart would have responded / Gaily, when invited, beating obedient / to controling hands". Não sabíamos ainda que o nosso amor viria a ser ele-mesmo uma waste land, um desperdício de afecto, de tempo, de olhares e das carícias que trocávamos nos sítios mais inesperados, cada instante que passávamos juntos.

"Shall I at least set my lands in order?"

"Who is the third who walks always beside you?
When I count, there are only you and I together,
...
But who is that on the other side of you?
"

Tens um outro lado, sempre, uma terra algures, inacessível - mesmo para ti, ela é inacessível. E tens alguém, também, que nunca te larga. Ainda não descobriste quem é - simples questão de tempo, não? Tempo - tanto tempo; e terra - é por isso que anseias, não é?, terra, simples terra, uma terra, pouca terra, para te enterrares de vez, para te esqueceres do que há para lá da terra.

Não te podia dar o que queres, tempo e terra - não os tinha nem para mim, que fazer? Dava-te um corpo, e era um corpo bonito, o meu, gostavas dos meus seios, lembras-te, do meu ventre liso, das minhas pernas intermináveis, das minhas dúvidas, dos meus medos. Gostavas de tudo em mim, mas que podia eu dar-te mais do que aquilo de que tu gostavas, o que na realidade querias, sem saber? Quem tem sede não pode dar água, quem tem fome não pode dar pão, quem é cego não pode dar luz.

Acabaste por partir: "And I will show you something diferent from either
Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;
I will show you fear in a handful of dust
".

Suportavas os meus medos, mas não suportaste os teus, num punhado de pó.

26.5.05

Constatação

Sem ti, o mundo não é duro, frio, seco, cruel, desumano. Nada disso: é simplesmente desinteressante.

Uma boa notícia?

Talvez, mas não para os refugiados.

ANTÓNIO GUTERRES...
[646] -- ...é o novo Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados. Independentemente do ângulo de abordagem, trata-se de uma boa notícia.

"Pero nunca había silencio en realidade"*

O dia chegou ao fim e pousou - delicada, quase involuntariamente - um toro de madeira exótica na praia. Traz um homem agarrado, exausto. Está na água há muito tempo, vê-se pela roupa, esfarrapada, pela pele, carcomida, macilenta, estriada por uma longa estadia no mar. O homem está cansado mas inteiro - as gaivotas não lhe comeram os olhos, nem os tubarões as pernas.

Conseguirá andar, agora em terra firme?

- Não andei à deriva - explica. - Era a esta praia que queria chegar. Mas devia ter chegado há muito, muito tempo.

A praia chama-se Guincho. Fica a sul do Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa Continental, o ponto que desta fica mais perto do meio do mar. O homem conhece a praia: dela saíu há anos, redonda como um ventre grávido, ventosa como um dia de raiva. Ainda sabe andar, verifica com satisfação: a água salgada não o dissolveu. Mal se tem nas pernas, mal suporta a luz, mas consegue andar, e ver.

Pensa que não tem passado, e que não há ninguém que o não tenha. "Trago comigo o passado como um saco vazio que levasse ao ombro". Sabe que tem família, algures, e amigos, que alguém ali perto o conhece. O ar está quente, imóvel, denso. "Hoje não há vento", pensa. "Só este calor, apaziguante".

Avança pela praia sem olhar para trás.

- É bom saber que ainda posso andar, e ver. Tenho as duas pernas, os dois olhos, e não tenho memória (ou ela não tem peso, ou ela pesa tanto que não se sente). Só vejo para a frente - do passado, só a sombra que à minha frente se projecta, esfarrapada e nua. Eu fui aquilo, mas agora sou outro, pior e melhor, mais velho e mais novo.


* - Antonio Muñoz Molina, in "Ventanas de Manhattan", Seix Barral, etc.

Reflexão

Meu caro,

Acusar um político de incoerência é a mesma coisa que acusar a água de ser líquida, ou o ar gasoso.

Atenhamo-nos ao discurso deles hoje, coitados. Que pensa, ou diz, você, hoje, daquilo que ele diz (on s'en fout de ce qu'il pense, si tant est qu'il pense) hoje?

23.5.05

Está na hora

Só depois de encontrarmos o nosso destino sabemos se fomos, ou seremos, dignos dele.

(PS - No dia em que se encontraram o choque foi frontal e não houve sobreviventes.)

19.5.05

Já agora

El Enamorado

LUNAS, marfiles, instrumentos, rosas,
lámparas y la línea de Durero,
las nueve cifras y el cambiante cero,
debo fingir que existen esas cosas.
Debo fingir que en el pasado fueron
Persépolis y Roma y que una arena
sutil midió la suerte de la almena
que los siglos de hierro deshicieron.
Debo fingir las armas y la pira
de la epopeya y los pesados mares
que roen de la tierra los pilares.
Debo fingir que hay otros. Es mentira.
Sólo tú eres. Tú, mi desventura
y mi ventura, inagotable y pura




Borges, claro.

Pois

O dia chega ao fim como um papel de rebuçado empurrado pelo vento; está sol e calor - o verão está, decididamente, a bater à porta, e nós vamos abri-la, em grande, portas e janelas para que ele entre todo em nós, como o ar da Primavera daquele poema do Baudouin, lembras-te "Mais l'air du printemps est une chose souple et tendre. / Les pores s'ouvrent et il rentre en nous / et nous, nous nous répandons délicieusement en lui"?

Hoje trabalhei muito, e o resultado do meu esforço - de hoje, ontem, de uma vida ou duas - está, finalmente, à vista; depois fui àquela esplanada perto do rio, onde nos encontrámos quando te fui buscar ao aeroporto, e durante o trajecto no autocarro não fizémos mais do que perguntarmo-nos, cada um de nós a si mesmo, se era real, a presença do outro ali, e se era boa, ou bem, ou certa - foi o rio que acabou por responder, e disse que sim, não foi?, abraçou-nos como nos abraçámos, e entrou por nós como nós um pelo outro, como o verão quer agora entrar na nossa irremediável solidão, ou pelo menos na minha.

É o fim do dia, não são horas de jantar ainda, e as pessoas vão depressa na rua, por causa do vento, decerto; peço-lhe que me entre pela memória e varra todos os momentos mágicos que passámos juntos, e todos os que passaremos, que são agora parte da memória e só dela, como varreu este dia, como empurra as pessoas.

As árvores acenam-me irónicas despedidas; nunca te fui deixar, creio, a uma estação de comboios, ou fui? Teria sido assim que me disseste adeus, esse teu vestido verde claro com frutos vermelhos a lembrar-me as palmeiras que agora me irritam, os dedos espetados a agitarem-se-me à frente dos olhos? Penso que não; ainda nos amávamos, quando nos dizíamos adeus ou olá à frente do rio, e não me terias tratado com o desprezo que vejo nas árvores, no cão encolhido na relva, na noite que aí vem, no amanhã ou depois que aí virão, em tudo o que me rodeia.

O vento limpa a memória, a que foi e a que será?

SÓLO UNA COSA no hay. Es el olvido.
Dios, que salva el metal, salva la escoria
y cifra en Su profética memoria
las lunas que serán y las que han sido.

Ya todo está. Los miles de reflejos
que entre los dos crepúsculos del día
tu rostro fue dejando en los espejos
y los que irá dejando todavía.

Y todo es una parte del diverso
cristal de esa memoria, el universo;
no tienen fin sus arduos corredores

y las puertas se cierran a tu paso;
sólo del otro lado del ocaso
verás los Arquetipos y Esplendores.
"


Não.

Amar-te não é uma aberração: é não te amar que o é...

Surpresa

Hoje tive uma surpresa agradável - muito agradável e muito surpresa.

À qual respondi, ou devia ter respondido, que não, não tens que me agradecer, porque os comentários que faço aos teus posts são teus, não são meus - as raízes são as tuas palavras, o terreno.

Um beijinho e espero que recuperes depressa da agressão de que foste vítima.

16.5.05

Maybe, but don't count on it

(Via Somatos)


The Visionary

You are charming, outgoing, friendly. You make a good first impression.
You possess good negotiating skills and can convince anyone of anything.
Happy to be the center of attention, you love to tell stories and show off.
You're very clever, but not disciplined enough to do well in structured environments.

You would make a great entrepreneur, marketing executive, or actor.


The Thinker

You are analytical and logical - and on a quest to learn everything you can.
Smart and complex, you always love a new intellectual challenge.
Your biggest pet peeve is people who slow you down with trivial chit chat.
A quiet maverick, you tend to ignore rules and authority whenever you feel like it.

You would make an excellent mathematician, programmer, or professor


The Inspirer

You love being around people, and you are deeply committed to your friends.
You are also unconventional, irreverant, and unimpressed by authority and rules.
Incredibly perceptive, you can usually sense if someone has hidden motives.
You use lots of colorful language and expressions. You're qutie the storyteller!

You would make an excellent entrepreneur, politician, or journalist.

A ler, absolutamente

No Semiramis, "Sócrates perante a cicuta".

15.5.05

Sucesso

A corrida ao sucesso tem várias linhas de partida, e uma só meta: um epitáfio, ou um nome e duas datas numa lápide.

Amar, v. int.,

Ainda hoje ama todas as mulheres por quem se apaixonou, e todas aquelas por quem se apaixonará. Para ele, o verbo amar não tem pretérito (excepto o imperfeito, por vezes): só tem presente e futuro.

7.5.05

Retratos imaginários

Ele era um feminista convicto: gostava de mulheres, de todas as mulheres, não por razões meramente estéticas, afectivas ou sexuais; não: ele pensava realmente que as mulheres eram melhores do que os homens "in every way", como diz o Calypso: mais inteligentes, mais poupadas, mais fiéis (e melhores mães, acrescentava).

Contudo, um dia conheceu uma mulher por quem se apaixonou seriamente, ao lado da qual as outras perdiam o sabor, e a substância - e descobriu assim que afinal a maioria das mulheres se parece muito mais com os homens do que até aí pensara.

6.5.05

Serviço Público / Restaurantes

Na Linha há três tipos de restaurantes: os maus, os outros e o Meson Andaluz. Estou a ser injusto, claro. Esqueço o Visconde da Luz, o Beira-Mar (ambos em Cascais), o Refúgio, no Estoril, e dois ou três mais.

Mas o Meson Andaluz é o Meson Andaluz, mesmo neste infecto centro comercial; e é esplêndido. Deixem o contabilista e a Ministra das Finanças em casa e vão lá já - para festejar uma ocasião, para esquecer outras, para pensar em ti, para ajudar a suportar a tua ausência - vão à Meson Andaluz, já.

PS - e não começem tractações sem uma canja de perdiz.

Cascais Shopping, Cascais. Tel - 214 600 659
www.mesonandaluz.net (site não testado).

5.5.05

Declaração

Não tenhas medo: não sou dado a amores fantasmas, nem a amar fantasmas.

Diálogos possíveis

- Be my queen. I will love you like a king.
- Kong?

4.5.05

Não digas nada

Não digas nada, não digas mais nada, está tudo dito e feito, está tudo hoje como será amanhã, e depois. Não digas nada, não vale a pena: e não faças nada, não poderás desfazer o que fizémos, o que fizeste, o que fiz. Não digas, não mexas, não faças mais nada: atravessemos o tempo que nos resta como fotografias imóveis, estátuas de mármore; atravessêmo-lo como luz, não como sombras. Se um dia alguém conseguir tirar uma fotografia ao tempo, poderá dar, à dos momentos que passámos juntos, o nome singelo, e verdadeiro, de "Felicidade"; ou outro, falso mas igualmente singelo, de "Esperança"; ou "Amor", que não é singelo nem verdadeiro nem falso.

Não digas nada. "Lie still", dizia o Dylan Thomas, não era? Lembras-te, de como o líamos gulosos - "Do not go gentle into that good night", não era? "Do not go gentle into me" dizias-me, e eu obedecia, claro. "Lie still", ordenava-te.

Mas não era do Dylan Thomas, o verso. Era do Byron:

THERE be none of Beauty's daughters
With a magic like thee;
And like music on the waters
Is thy sweet voice to me:
When, as if its sound were causing
The charmèd ocean's pausing,
The waves lie still and gleaming,
And the lull'd winds seem dreaming:

And the midnight moon is weaving
Her bright chain o'er the deep;
Whose breast is gently heaving,
As an infant's asleep:
So the spirit bows before thee,
To listen and adore thee;
With a full but soft emotion,
Like the swell of Summer's ocean.


Há quanto tempo o esquecêramos, lembras-te? Há quanto tempo nos servíamos de palavras cuja origem ignorávamos, de que só o cheiro e o sabor nos interessavam?

Não digas nada. Não sorrias sequer, não te mexas, não assustes o vento das velas, não mudes de lugar a sombra, não digas "lua" nunca mais, "mar", "cama", "amor", "do not go gentle into that good night", "do not go gentle into me", "rage, rage, rage".

Não digas. Não digas nada. Não olhes sequer para trás, não afagues o ar como me afagavas a mim, lembras-te?, ao pequeno almoço enquanto espravas a torrada, o dia, e me sorrias "with a full but soft emotion, like the swell of Summer's ocean".

Conselho

"Do not try to emulate success; avoid failure" - este foi, sem sombra de dúvida, o melhor conselho que recebi nos últimos anos.

Pois

Uma dor de cabeça violenta, um fim de tarde sem sol com sol sem sol com sol, um passeio deserto, exceptuando a loira e a morena que andam depressa, tão depressa que não tenho tempo para lhes ver as caras, uma vela paralelipípeda, um jantar que espera, um chinês que espera, um mundo que espera, um cachorro batido que ladra a um homem a quem falta uma perna - apercebermo-nos-íamos, se tudo isto existisse, da sua horrível frustração por não poder dar um pontapé ao cão.

No mar, uma baleia de bossa adolescente abalroou um navio; magoou-se e, para não dar parte de fraca, pôs-se à frente de um trimaran que tentava bater o record da New York - S. Francisco (o anterior record estava com uma senhora chamada Isabelle Autissier, e antes dela com um clipper cujo nome me escapa, é de resto para isso que os clippers são feitos, para escapar - seria Flying Cloud? É possível, com um nome tão bonito estava fadado para bater records). A tarde escoa-se, lentamente, esgota-se como bonbons na loja à hora da saída da escola, o tempo derrete-se como um gelado deixado fora do congelador, e a noite chega, cega, surdo, muda.

Em terra, uma senhora zanga-se outra vez com um candeeiro que ali está, à espera dela, há anos. "Deixa-me de mão, larga-me, vai ver se estou ali, vai dar uma volta, vai passear o cão, vai morrer deitado, vai chorar para outro lado, deixa-me" - mas não se lembra que o candeeiro não pode, coitado, andar, e que se a fita com o seu grande olho único é porque não pode olhar para mais lado nenhum.

Saberá o candeeiro que o resto do mundo existe?

Retrato

O seu único objectivo na vida era, ou parecia ser, apaixonar-se. Objectivo esse que atingia, em média, uma vez por semana, com uma mulher diferente. Era enjoativo, ouvi-lo falar de cada uma das paixões como se fosse a definitiva, a verdadeira, a última, a melhor de todas.

Na semana seguinte recomeçava, com outra.

Amo-te Porto - II

Outra coisa de que gosto sem fim no Porto são os táxis. Há alguns meses, um estudo da DECO demonstrou que no Porto 100% dos taxistas enganaram as pessoas que fizeram o teste. Em Lisboa, esse nº foi de 70%, creio - o que explica os intensos estágios que a ANTRAL está a organizar no Porto para os nosso taxistas (em Lisboa, se o estudo se cingisse aos taxistas do Aeroporto, a percentagem seria de 300% ou mais - eles conseguem o milagre de enganar várias vezes o mesmo passageiro).

Recentemente, fui de táxi, no Porto, do ponto A ao ponto B - e paguei 4 euros e qualquer coisa. No regresso, do ponto B para o ponto A, mandei parar o táxi quando o taxímetro ia nos 9 euros - e ainda tive que andar dez minutos a pé para regressar ao ponto de partida. Tenho que reconhecer que não me zanguei com o condutor - ele foi de uma gentileza inexcedível: até me explicou o caminho, apontando para a direcção contrária daquela para onde seguíamos (se fosse em Lisboa, ele ter-me-ia enganado também na indicação do caminho a pé, e teria sido mal-criado).

Porto

Imagino que um dos posts abaixo vai revoltar os meus amigos portuenses, e desde já quero aqui deixar uma grande e inequívoca declaração de amor pela cidade do Porto - afinal, não é preciso um lugar ser civilizado para se gostar dele, para ser amável. Eu gosto, por exemplo, muito do Burundi e do ex-Zaire e são dois países que estão longe, muito mais longe do que o Porto, da civilização.

Há coisas que eu adoro no Porto. Uma delas é a política social. Recentemente apanhei um autocarro do Aeroporto Sá Carneiro - terna ideia, esta, dar a um aeroporto o nome de uma pessoa que morreu num desastre de avião - e reparei que no Porto os atrasados mentais, em vez de estarem fechados em instituições psiquiátricas ou de vadiar, selvaticamente como em Lisboa, pelas ruas da cidade, conduzem autocarros. Acho a política excelente, porque assim andam uniformizados, e a obrigação de ir trabalhar todos os dias dá-lhes um aspecto quase normal. Claro que depois continuam incapazes de distinguir um autocarro de um automóvel de corridas, mas isso é um pormenor a que só uma mente doentia como a dos lisboetas (que ainda há bem pouco tempo tinham a mesma política, note-se) atribui importância.

No regresso apanhei a mesma carreira, mas com outro chauffeur, e a coisa repetiu-se: um atrasado mental a conduzir um autocarro cheio de passageiros, a fazer slalom nas faixas da auto-estrada (o que só faz jus à fama de poupados que os portuenses têm, porque assim pelo menos utilizava todas as faixas a que tinha direito) e a provocar uma animada e boa disposição entre os passageiros, alguns dos quais se precipitaram para as canetas e blocos para, suponho, ali deixarem escrito o testamento. Penso que ambos os chauffeurs tinham amigos cirurgiões, especialistas em operações às cervicais, porque as travagens e acelerações eram tantas e tão bruscas que eles só podiam estar a colaborar para o bem estar material dos seus amigos.

Também gostei imenso do Aeroporto - sobretudo da área das partidas - que deixei com um doce suspiro de saudades antecipadas.

Douce Lisbonne...

...sans toi si amère.

Doce e boa Lisboa

O Restaurante Palmeira é bonito, tem um vinho tinto sublime - digo-o sem ironia: é muito bom, e com o que sobrar da pequena garrafa que se obtém encomendando um copo podem pintar as paredes da adega ou tingir os sofás da sala.

Lisboa é a melhor cidade do mundo, porque é a única cidade civilizada que conheço onde se pode engraxar os sapatos, comprar um pingalim de dressage lindo e almoçar no restaurante Palmeira por pouco mais de uma vintena (já uma vez engraxei os sapatos no Porto, mas depois comi pessimamente - o que no Porto é difícil - e além disso o Porto não é bem uma cidade civilizada, apesar de parecer e apesar de lá ter os ingleses do vinho há tanto tempo).

No Restaurante Palmeira a média de idades é ligeiramente superior a 60 (anos), o que só por si indicia, como diria eu se fosse jornalista, que estamos no sítio certo para, mais do que comer bem, sermos apaparicados. A carta é dilemática, multi-dilemática: como escolher entre Caras de Bacalhau com Grão e Corvina Cozida (ambas a seis euros)? Como resistir a passar fome até amanhã e não encomendar já uma cabeça de Pescada a 12 euros (para duas pessoas, claro, e infelizmente só por encomenda)? Como resistir à simpatia do Sr. Rodrigo e não encomendar a carta toda, uma dose de cada, só para experimentar - Sr. Rodrigo esse que não me fez pagar a aguardente só porque não gostei dela?

O Restaurante Palmeira é bonito, serve comida boa, barata e rápida, e fica situado na Rua do Crucifixo, 69 - 73 (é nestes momentos que aprecio o facto de o Don Vivo ter tão poucos leitores: posso revelar estes endereços sem depois precisar de começar a reservar o restaurante com três meses de antecedência).

2.5.05

Memória

Como chamar fogueira a um incêndio, mesmo controlado?

1.5.05

Pequenos passos

Sócrates preferirá ser o menos mau dos Primeiro-Ministros, ou um bom Primeiro-Ministro?

PS - A ler: Pequenos Passos versus Reformas Estruturais, I e II, no Bloguítica.