31.3.09

A quelque chose Mahler est bon

Sinfonia nº 2 em Dó menor "Ressurreição".

Otto Klemperer, Kathleen Ferrier, Coros e Orquestra de Amsterdam.

Ressuscitar, sim tu o farás!
Após breve descanso, do pó ressuscitarás!
Vida imortal a ti trará
Aquele que te chamar.

Para reflorescer, serás semeado!
O senhor da colheita caminha
E a nós, agora mortos,
Aos feixes nos recolhe!

Acredite, meu coração, acredite:
Nada perderás!
A ti pertence o que desejas!
É teu, tudo que amas,
Tudo que conquistas!
Acredite,
Não nascestes em vão!
Tampouco em vão a vida e a dor vivestes.
Morre o que nasce!
E Renasce o que morre.
Cesse o tremor!
Prepara-te para a vida!

Oh dor, que a tudo penetra!
De ti consegui escapar!
Oh morte, que a tudo domina!
Agora tu estás subjugada!

Com as asas que conquistei,
No esforço febril de amar,
Desaparecerei na luz,
Jamais vista por algum olhar!

Com as asas que conquistei,
Desaparecerei.
Morrer para viver!

Ressuscitar, sim! Meu coração,
Em um instante ressuscitarás!
O que na luta superas
a Deus conduzirá.
(5º Movimento. Gottlieb Klopstock)

Diálogos improváveis

- Quero uma aventura, só, sem futuro nem passado.
- Estás a bater à porta errada: sou mais previsível do que um eclipse da Lua.

Chega

Chega de palavras. Devíamos passar aos actos. Dormir, por exemplo.

Zapping

O zapping na blogosfera é muito mais instrutivo do que o seu equivalente televisivo.

Lamentos, estações

Os seus lamentos eram tão conhecidos como as Quatro Estações do Vivaldi, mas muito menos belos.

Auto-censura

Sou livre, que queres? Não me sinto obrigado a dizer as coisas que não posso dizer.

Publicidade interessadíssima

O Don Vivo vai fazer uma venda de fotografias. Formato 20 x 30 ou 40 x 50, emolduradas, assinadas, cada fotografia com uma tiragem máxima de dez exemplares, das quais uma para o autor. O preço será de 150 e 200 euros cada, com um desconto para quem comprar mais do que duas fotografias.

Algumas das peças são visíveis aqui, outras aqui. Informações mais pormenorizadas via mail (lserpa@gmail.com).

Enigma

Devíamos pegar em certas palavras, atirá-las para longe e ficar a observar as pessoas que depois se dão ao trabalho de extrair um sentido daquela amálgama de sílabas partidas, vogais desgarradas e consoantes aleijadas.

Fragmentos

"...o teu aspecto físico interessa-me pouco. Menos do que a ti, em qualquer caso. Acho curioso que escondas aquilo que em ti realmente interessa, estimula, intriga - como se tivesses medo de que alguém descobrisse a verdade: és muito mais do que um magnífico conjunto de pares de coisas".

30.3.09

Bartoli, II

The Vivaldi Album. Parece que a música foi escrita para ela.

Desafinado

Há dias em que uma pessoa se sente desafinada do mundo, dos outros, da vida. E nem um Islay consegue afiná-la.

PS - Talvez as palavras consigam.

Sophia

"Ele porém dobrou o cabo e não achou a Índia
E o mar o devorou com o instinto de destino que há no mar."

Frio

Um dos contos mais bonitos de Jack London (pelo menos dos que conheço) é este. Chama-se "To build a fire". Como tudo o que Jack London escreveu (ou enfim, a maioria das coisas que ele escreveu) tem vários níveis de leitura, e são todos bons.

Abaixo o colonialismo

"Ilha de Mayotte decide em referendo ser um departamento ultramarino francês".

Uma boa iniciativa

Aqui: Eleições 2009. Blog do Público para a cobertura das 3 campanhas eleitorais deste ano.

Desunânime

Porque é que eu sou contra unanimismos: "Preservativos em África: Artigo no "Washington Post" diz que Papa pode ter razão".

PS - com uma excepção: acho realmente que as excomunhões na história da miúda de nove anos que abortou recentemente no Brasil são uma imbecilidade, e partilho o repúdio unânime, ou pelo menos largamente consensual.

O balanço dos pedais

Ao fim de dois meses de utilização regular, quotidiana e polivalente da bicicleta para deslocações em Lisboa e arredores (ponho-a muitas vezes no comboio para Cascais) posso fazer um balanço globalmente positivo.

Lisboa não é uma cidade confortável para as bicicletas, mas está longe de ser impossível. No fundo, uma escolha criteriosa de trajectos por parte do ciclista e pequenas modificações por parte da Câmara seriam mais do que suficientes (se excluirmos, claro, está, o estado calamitoso das ruas, que é uma obra maior) para tornar Lisboa uma cidade "ciclável", passe o neologismo.

"Os beatos do látex"

Esta história dos preservativos e do Papa trouxe-me à memória uma história que vivi no Burundi. A situação em Bujumbura quando lá cheguei era pura e simplesmente indescritível. O Representative tinha sido enviado para lá, acredite quem quiser, para fechar a representação - tinha sido a primeira do UNHCR a abrir fora da Europa, e fechá-la por se ter tornado inútil era um acto simbólico (de entre as curiosidades da UN, é preciso saber-se que naquele ano, 1994, ainda havia uma representação do HCR em Lisboa).

Nada nem ninguém estava preparado para a avalanche de refugiados que chegou ao Burundi - 320,000 em pouco mais de meia-dúzia de semanas. Não havia nada para os receber, nada: nem campos, nem transportes, nem comida, nem assistência média, nem watsan (water and sanitation), nem telecomunicações, nem staff. Nada.

Quando eu lá cheguei não tinha sequer um sítio para me sentar, e havia dois telefones ou três para toda a delegação, que crescia, como se pode imaginar, a olhos vistos. Ainda por cima, pela primeira vez na história da assistência a coordenação da ajuda tinha sido atribuída ao HCR - era a mais antiga agência em Bujumbura - e tínhamos que coordenar igual crescimento e confusão em todos os nossos parceiros.

Tudo isto tentando minimizar os efeitos perversos da ajuda (pelos menos aqueles sobre os quais podíamos agir): a inflação que dispara, os recursos qualificados a trocar lugares de direcção em grandes empresas por salários três vezes mais elevados como ajudantes nas organizações, a redirecção da comida para as agências, a prostituição, o roubo, etc. Passei os primeiros dias nas ruas de Bujumbura a mandar parar todos os camiões que encontrava, porque não tínhamos, simplesmente, capacidade de transporte nem meios de comunicação para contactar os transportadores.

Um dia aparece-me uma senhora americana, que não sei bem como conseguira furar a apertada barreira que tínhamos estabelecido no Burundi (aquilo era um eldorado para as agências, e todas queriam ir para lá) cuja agência era especializada na luta contra o Sida: queria que eu usasse os camiões para transportar camisas-de-vénus para os campos.

Nessa altura, ainda morriam diariamente 4 a 5 pessoas nos sete campos de refugiados que tínhamos (nos dias normais. Quando havia ajustes de contas, vinganças e coisas que o valha esse número aumentava). Não havia comida que chegasse - a maioria das vezes por falta de transporte; não havia tarpaulins (as lonas com que se fazem aquelas tendas muito bonitas, azuis, que se vêem por vezes na televisão), não havia jerricans para a água, não havia cobertores que chegassem, não havia remédios - a mortalidade infantil devida à diarreia, uma coisa facilmente tratável, era atroz; não tínhamos pessoal que chegasse. E ela queria que eu transportasse camisas-de-vénus para os campos.

Arranjei-lhe um lugar no nosso avião para Nairobi e fui ao aeroporto despedir-me dela - queria ter a certeza de que não voltava para trás. Ainda hoje estou para saber onde param as caixas de camisas. A última vez que as vi foi no aeroporto, no dia em que ela chegou.

Estação de serviço

"Sou uma espécie de estação de serviço para egos femininos", explicava-me com ar bastante sério. Lembro-me bem dele - baixo, gordo, com uma calvície acentuada que o tornava tudo menos atractivo. Mas a verdade é que o víamos (já não sei onde - provavelmente em Cape Town, ou no Rio. Não sei porquê, identifico-o sempre com o hemisfério Sul) mudar de namorada com a regularidade de um farol. Quando nos apresentava uma conquista recente dizia "lua nova, mulher nova", num àparte já de todos conhecido.

A duração das paixões variava entre uma semana e um mês, raramente mais. A cada ruptura ele aparecia-nos demolido, de rastos, a sofrer crucificações. Depois recompunha-se e recomeçava.

Nessa noite apanhei-o sozinho, entre dois casos. "Ainda é demasiado cedo para te falar nela, ainda não é suficientemente cedo", explicava-me. Gostava de paradoxos e de jogos de palavras, pelo que não liguei muito. "A única coisa que não percebo", disse-lhe, "é porque sofres tu tanto com cada caso que termina. Tu já deves saber que eles vão terminar assim, não?"

"Sabes, sou uma estação de serviço para egos femininos. Elas vêm ter comigo, eu apaixono-me perdidamente, amo-as o melhor que posso e sei; faço-as sentirem-se mulheres, femininas, amadas, desejadas, cajolées, dorlotées, mimadas, lindas. Quando têm o ego recauchotado vão-se embora, e engatam outro tipo qualquer, mais rico e mais bonito do que eu, mais apresentável. Se eu não me apaixonar, nada disto funciona". Encolheu os ombros e acrescentou "não sei mentir, que queres?"

Gratidão

A gratidão não tem nada a ver com o resultado, o fim; mas com a intenção, com o início.

Vulnerável

Ela sentia-se tão fraca, tão frágil, vulnerável que o simples facto de um homem lhe olhar para o decote a fazia sentir-se grata.

29.3.09

Gran Torino

Uma das coisas de que mais gostei em Gran Torino foi o vocabulário: gostar das palavras independentemente do que elas significam. Talvez não seja a última liberdade, mas é uma liberdade importante, nestes tempos de correcção política e outros bullshit.

Dor, dignidade

Não era bem uma mulher; era uma ferida ambulante, coberta por um manto de dignidade que nem um tufão conseguiria arrancar - tufão esse que ela evitava cuidadosamente, porque nunca estava muito longe.

Para a C. R..

Palavras, vazios

As palavras são vento, ar; não enchem vazios. Quando muito, fazem-nos ver o caminho para fora deles. Ou que eles estão lá.

Muletas morais

São úteis, por vezes, quando estamos com uma dor na ética.

Uma precisão importante

Não gosto de unanimismos, não sou católico nem mesmo não-praticante, não gosto de imposições venham elas de onde vierem - excepto as do bom senso e as da razão. É por isso que acho este texto importante:

"Os beatos do látex

Começo por esclarecer que sou médico há 29 anos, e responsável pelo mais antigo site em Portugal sobre sexualidade (10 anos de actividade ininterrupta), com mais de 3 milhões de visitas e acima de 15.000 perguntas respondidas. Serve esta introdução apenas para ilustrar que tenho provavelmente mais experiência e, sobretudo, actividade concreta na área da informação sobre sexualidade que com certeza muitos dos iluminados que hoje em dia vemos a debitar sentenças sobre esta matéria.

Desde sempre defendo o uso do preservativo como o meio mais eficaz de protecção das doenças de transmissão sexual em caso de relações casuais, incertas ou com infectados confirmados. Durante esse tempo, no consultório on-line que existe no site, ou na minha actividade médica diária, já recomendei a utilização do preservativo milhares de vezes.

Sucede que, como também tenho sempre o cuidado de informar, o preservativo tem uma taxa de falhas média em termos de contracepção de 5% e em termos de protecção da SIDA terá eventualmente mais, apontando a Organização Mundial de Saúde para 10% de falhas (ou melhor: 90% de eficácia, o que vem a dar no mesmo)*.

Se pensarmos (exercício pelos vistos a cair em desuso) que o vírus da SIDA é cerca de 400 vezes mais pequeno que um espermatozóide, que os preservativos podem ter microporos, que podem rasgar, que podem ser mal colocados ou escorregar, que a gravidez só acontece se os espermatozóides passarem o preservativo na fase fértil (3 dias por mês) enquanto a SIDA se pode transmitir em qualquer altura, ou que a gravidez só acontece com a passagem do esperma para a vagina e o vírus da SIDA se pode contagiar por outras vias não protegidas pelo preservativo (sexo oral ou contágio boca a boca se houver lesões sangrantes), vemos que a margem de falhas terá que ser, infelizmente, demasiado grande, não obstante os negacionistas serem muitos.

Imagino que ao dizer isto estou a indignar muitos dos pseudo-preocupados com o problema da SIDA. Acontece que para mim (talvez porque me preocupe com os doentes e não com os aproveitamentos político-ideológicos que se possam fazer à custa das doenças deles…) tanto é condenável o fundamentalismo religioso que incute conceitos errados na cabeça das pessoas, como o é qualquer outro, concretamente, no caso presente, o novo fundamentalismo anti-religioso que hoje em dia é de bom tom manifestar e que leva a
escrever perfeitas irresponsabilidades como as que ultimamente se podem ver na imprensa ou ouvir à mesa dos cafés (o que é cada vez mais a mesma coisa…).

De qualquer modo, a lamentável e preocupante situação que temos é a seguinte: de um lado a Igreja Católica que apenas reconhece a fidelidade e abstinência como caminhos eficazes para a combater a SIDA, o que é tecnicamente correcto, mas na prática fortemente irrealista, e por isso seria muito positivo se acrescentasse que, no caso de não se cumprirem as duas premissas que defende, o preservativo será a melhor protecção possível, embora não absoluta. Do outro lado temos uma espécie de neo-fundamentalistas “beatos do látex” que, sob o pretexto de combaterem ideias retrógradas, fazem a generalidade das pessoas acreditar em duas coisas perigosamente erradas: que a Igreja proíbe o uso do preservativo (o que não é verdade, apenas não o preconiza nem defende o seu uso, o que não é exactamente a mesma coisa e pode fazer toda a diferença na cabeça de um pecador ortodoxo mais fanático), e, facto grave que não hesito em classificar de voluntariamente criminoso, incute a ideia de que o uso do preservativo é eficaz a 100%, quando, na verdade, pode falhar demasiadas vezes.

Já agora, convido-os a fazer uma experiência: peçam a um médico, QUALQUER médico, que lhes passe uma declaração assinada a comprovar que o uso do preservativo o (a) protege integralmente da transmissão da SIDA em todas relações sexuais que possa vir a ter….o resultado será óbvio. É que afinal o cinto segurança também é um método fundamental para evitar mortes na estrada, e é por isso qualquer pessoa responsável recomenda o seu uso, mas ninguém no seu juízo normal afirma que, ao colocá-lo, os condutores
se podem atirar contra um muro a cem à hora …pelo menos até ao dia em que recomendar conduzir com precaução possa ser considerado “retrógrado” ou politicamente incorrecto.

Fernando Gomes da Costa
Médico (cédula profissional 22027 da Ordem dos Médicos)

* Já na Wikipédia se pode ler: According to a 2000 report by the National Institutes of Health, correct and
consistent use of latex condoms reduces the risk of HIV/AIDS transmission by approximately 85% relative to risk when unprotected
"

Luto

Ainda é demasiado cedo, ainda não é suficientemente cedo para falar nisso.

Cosi fan tutte

28.3.09

Bartoli

"La Danza - Mélodies Italiennes"; James Levine, piano. Decca 455 513-2.

La Danza (tarantella napoletana), Rossini:



Há momentos de felicidade intensa, momentos em que entrevemos que nem tudo está perdido.

Vi sono sposa e amante, (Salieri).

4004

Este é o post nº 4004. Diz mais ou menos o mesmo que os outros 4003.

Farto de não poder caminhar pelo passeio? Também eu.



"Quero andar a pé! Posso?
Os peões nas nossas cidades têm visto o seu diminuto espaço constantemente usurpado por veículos estacionados ilegalmente. Passeios totalmente ocupados, passadeiras bloqueadas e logradouros totalmente rodeados de carros estacionados impedem a passagem dos peões. Até carros a circular nos passeios são situações relativamente banais.
Perante o laxismo dos cidadãos e a ineficácia conivente das autoridades, tentaremos alertar para cidades que envergonham. Colabore!"
.
IMPRIMA-ME E COLE-ME!
.
Autocolante em PDF :
Para impressão em PDF

(Via Miss Pearls, O Carmo e a Trindade e Cidadania Lx).

Voar

13º mundo

A questão não é terem sido vaiados. É saber por que raio se atrasou o começo da ópera. Se o senhor é Primeiro-Ministro, tem obrigação de chegar a horas. Porque é Primeiro-Ministro, não apesar de o ser.

"Sócrates e Fernanda Câncio vaiados no CCB"

Coincidências

"Às vezes não sou melhor que isto, que esta saudade insuportável, esta nostalgia à flor da pele, dolorosamente lenta e doce, até à náusea, até às lágrimas não desejadas, nunca desejadas. Neste intervalo, neste breve intervalo em que me fazes falta, volto de novo àquela tarde de sol e vento e estou de novo onde estava, com o meu coração não solicitado de novo nas mãos estendidas, tão estupidamente vulnerável, tão pouco inteligente, ou sábio ou resistente, frágil. Alguém devia, para minha paz de espírito, banir de vez o grito das gaivotas em tardes de sol, bani-las para que nunca pudesse estar como estou agora, num intervalo entre a vida e as possibilidades não cumpridas. Mais uma vez."

Felizmente não fui eu que escrevi isto: teria estragado um texto, uma hipótese magnífica.

Amizades, amor

Às minhas amizades de há trinta anos acrescentei duas ou três, poucas; aos meus amores, subtraí dezenas. (Admito que a escala de tempos é diferente, mas mesmo assim há aqui um sentido escondido que me escapa).

Fado

I
Uma pessoa vai ouvir fado e pergunta-se: porque serão as portuguesas tão contidas no amor?

II
Uma pessoa vai ouvir fado e percebe porque são as portuguesas tão contidas no amor.

O metro do sítio

Pus o Sitemeter: tenho o dobro dos leitores que tinha na última vez que o coloquei, há muitos anos. Pensava que teria metade. Merecia ter metade.

Variações Goldberg - III

Glenn Gould: não respeitar o original é a melhor maneira de homenagear um autor.

Variações Goldberg - II

Gould faz em cada nota um resumo da obra toda. É a isso que se chama "excesso".

(CBS Masterworks, CD 37779)

Variações Goldberg

A interpretação de Keith Jarrett (ECM 1395) não é a minha favorita; mas é a melhor antes do Gould: a contenção é boa, o excesso que se lhe segue é melhor.

27.3.09

Vagões

Vêm em carris, as palavras, umas atrás das outras como as carruagens do comboio da noite.

Leilão, troca

Devia ser possível leiloar algumas palavras, ou trocar umas por outras como se fossem cromos: "tristeza", por exemplo (esta dou-a, à borla, gratuita, até pago a quem me fizer esquecer que ela existe). E compro outras: vento, mar, alegria, tu, azul.

Palavras, vento

"Palavras leva-as o vento", diz o provérbio. Que bom seria, se as levasse realmente. Mas não leva.

Remédio d'alma

Há pessoas que não gostam de whisky de malte porque dizem que lhe sabe a remédio. Bendito remédio.

Para onde nos levam

Nunca sabemos para onde vão as palavras, de onde vêm, para onde nos levam. Como pedras numa fisga com um elástico partido: chegam-nos de onde menos se espera, vão sabe Deus para onde.

26.3.09

D'un pont l'autre

D'un pont l'autre

Quelques uns d'entre nous rêvent de magnolias, d´autres au loin voient des lions, des pleines lunes, des îles d'Orients cachés, cachées.


Pas moi. Je ne vois que de l'acier suspendu, des ponts qui se succèdent et se superposent comme des avenirs sans issue, des ponts sur le néant, le plus petit plus grand que le plus grand.

Il y en a, force est de reconnaître, des néants aussi beaux que des ponts, aussi clairs, définis, déterminés, utiles, presque. Mais pas souvent. Les reconnaître dans l'amalgame de ponts, de vies, de personages qui nous entourent est un art.

A part faire rêver, les ponts servent aussi à lier les mots de marges différentes: les mots marginaux, pourrait-on presque dire. Les deux marges d'une rivière ne sont plus unies que par l'eau: elles le sont aussi par le regard, les mots, par un personnage solitaire qui s'interroge sur l'Orient et les divagations léonines de l'être aimé, par le pont.

Y a-t-il des amours léonines? - Et qui ne le sont pas?

25.3.09

I quit

Carta de demissão de um quadro da AIG, no NY Times.

Francisco Lobato

Portugal tem um jovem e talentoso marinheiro da vela oceânica. Chama-se Francisco Lobato.

A classe na qual o Francisco navega é a Classe Mini. Chama-se assim porque a dimensão das embarcações está limitada a 6,5m. Contudo, só no comprimento faz jus ao nome. É uma classe de barcos de elevado desempenho, overpowered, difíceis, exigentes, verdadeiros laboratórios da vela de alta competição (os arquitectos usam-na para testar inovações que depois, se funcionarem, serão aplicadas em barcos maiores).

Cada classe tem uma regata que é a sua razão de ser, a mais importante. Na Classe Mini essa regata chama-se Transat 6,5 - é uma travessia do Atlântico, de La Rochelle a Salvador da Bahia, em solitário.

Como é natural, o Francisco Lobato quer participar na Transat 6,5 - é para isso que ele tem treinado, navegado, investido muito do seu tempo e do seu dinheiro, feito sacrifícios que a maior parte das pessoas não pode sequer imaginar.

Falta-lhe, contudo e como sempre, o dinheiro para isso.

Para uma empresa, apoiar o Francisco Lobato nesta regata não é um acto de caridade, não é uma ajuda: é comprar um vector de comunicação dos mais eficazes que existe. Para terem uma ideia, na última edição da regata (na qual o Francisco conquistou, se bem me lembro, um mais do que honroso 9º lugar) a página da regata teve 7,7 milhões de pageviews, 100 menções nas televisões internacionais, 2,000 artigos na imprensa escrita (todos os pormenores aqui).

A vela (e a fortiori a vela em solitário numa casca de noz de 6,5m com mais potência do que muitos barcos com o dobro do comprimento) é um desporto que exige qualidades humanas e conhecimentos técnicos fora do vulgar. Ou seja, é uma plataforma de comunicação excepcional, a partir da qual se podem desenvolver vectores de comunicação poderosos e eficazes - não é por acaso que empresas como a Volvo, a Oracle, a BMW, patrocinam eventos de vela ou embarcações de regata. Patrocinar o Francisco de um ponto de vista empresarial não é um acto de caridade: é uma acto de gestão, de boa gestão.

Para aqueles de entre os que me lêem que querem apoiar o Francisco a título pessoal, e para quem tem lugares de gestão em empresas, deixo aqui o link para o Jogo das Milhas, a forma que o Francisco Lobato encontrou para tentar angariar fundos para a Transat 6,5: cliquem aqui, vão ver, e comprem algumas milhas se o fizerem a título pessoal; contactem o Francisco se o fizerem de uma perspectiva empresarial.

E para os que têm blogs: divulguem, por favor.

Declaração de (des)interesse: não estou a fazer este apelo por razões profissionais, nem fui mandatado pelo Francisco Lobato para o fazer. Faço-o porque me é doloroso, e incompreensível, que Portugal não esteja representado na vela oceânica, que uma pessoa como o Francisco Lobato não encontre patrocínios num país do qual a vela devia ser o desporto nacional, cujos gestores ignoram o potencial da vela como plataforma de comunicação porque ignoram a vela, esse desporto nobre, tout court.

Perpetual defeat

Out of the sighs

Out of the sighs a little comes,
But not of grief, for I have knocked down that
Before the agony; the spirit grows,
Forgets, and cries;
A little comes, is tasted and found good;
All could not disappoint;
There must, be praised, some certainty.
If not of loving well, then not,
And that is true after perpetual defeat.

...

Dylan Thomas, in Collected Poems 1934 - 1953, ed. Phoenix, 1988

24.3.09

Fotografia

Já que estamos em maré de fotografia: há um blog que tem fotografias soberbas, mágicas, sublimes. Chama-se "4 caprichos e um café" e deve ser visitado por quem goste de fotografia, e de emoções.

Do Tejo

"Do Tejo a cidade parece querer cair para o Tejo: os prédios uns em cima dos outros como se tivessem vida, o cacilheiro a dar a impressão de que vai entrar directamente pela cidade acima, sem parar.

A Sé está um pouco perdida ali, ela que tem tantos anos, e tantos tremores de terra a mais do que o resto. A alta focal não esmaga apenas a perspectiva: esmaga também o tempo - e de repente aqueles prédios todos formam uma unidade, uma massa indistinta de tempo e de beleza.

Há um cacilheiro e uma beleza a sustentar aquilo tudo, há uma beleza a sustentar o cacilheiro, há uma pessoa a fotografar. No fundo, todo o quadro existe para a fotografia, para aquele inefável azul, ténue como a visão de um corpo perfeito a entrar no metro, no outro lado da estação.

Ali vive, trabalha, passa gente? Sim. Mas não é necessária: o cenário pertence às pedras e ao tempo, vistas da água. Aquelas pedras têm vida que chegue, nelas, para dispensar outras vidas: não são bem pedras, aliás: são vidas feitas casas, pedras, beleza.
"

(Nota: Este texto é uma adaptação de um comentário que deixei no post citado. Há fotografias no Nocturno estimulantes, e esta é uma delas. Transcrevendo o texto aqui, posso ir mudando-o, reescrevendo-o, como faço aos "meus" posts. Espero que a Luísa não leve a mal).

Descalço

Andava descalço pela vida, aos saltos como numa praia tropical ao meio-dia.

Noite

Etapa, fraco simulacro, falso exemplo.

Nada (ou: tudo, quase).

Objectivos

Abaixo os carcans. Viva a idade.

Misturas

Um dia difícil, uma alegria grande, Bartok: nada que faça muito sentido, nada que não tenha sido sentido até à exaustão.

Sentidos diferentes, claro.

Bartok

Fintar o tempo, brincar com ele. Visto da água, o tempo não existe. Vista do tempo, será que a água existe?.

(A resposta é "sim, vista do tempo só a água existe").

Verdades simples

Aqui: "tirando o uso do saca-rolhas, agir será sempre falhar."

23.3.09

Palavras

No fundo deviam ser como bolas, as palavras: pegar-se numa e brincar-se com ela, dar-se-lhe pontapés, passá-la para o colega do canto, recebê-la de retorno com as mãos, sei lá. Atirá-la para longe, para um guarda-redes invisível - ou só ausente, se calhar. Com desenhos geométricos, coloridos.

Em vez disso são pesadas, difíceis de manusear, intransmissíveis, negras. E andam sempre coladas a nós, as putas. Das palavras.

Hallelujah

As dores recentes foram substituídas, outra vez, pelas antigas, velhas companheiras de sempre.

22.3.09

Descobertas

Lisboa, esse interminável corpo sem fundo continua a descobrir-se aos poucos; e eu a mergulhar nele, ao mesmo ritmo lento dos amores que vêm de trás e são para durar.

Hoje descobri a Fábrica do Braço de Prata: livros, discos, música, pessoas simpáticas e Alexanders ao nível dos melhores a preços que nem os piores. Parece que aquilo abriu há dois anos: não penso que tenha perdido dois anos - mas não ando lá muito longe.

Isto depois de ter ido ouvir Rhys Chatham ao Museu do Chiado: um concerto, e uma descoberta, sublimes. Haveria talvez cem pessoas na sala, o que me pareceu pouco para alguém que vinha referenciado na Actual com aquele destaque. E apesar de a minha compleição física (interna - externamente não se vê) não ser a ideal para estar sentado no chão por longos períodos - isto é, mais do que 5 minutos - o tempo passou sem que tivesse dado por ele. Não deixa de ser supreendente, inesperada, a forma como o minimalismo funciona na música.

Dias e dias - II

Hoje (ou ontem, ando com isto um bocadinho baralhado) foi dia da poesia, e lembrei-me da incitação que uma simpática, competente e bonita jovem me fez: Herberto Helder. Conheço-o mal - comprei a Poesia Toda de 1990 e desde aí pouco o tenho lido.

Mas, para agradecer à dita bonita jovem, aqui deixo um ou dois curtos poemas, da série Poemas Zen:

Conduz o teu cavalo sobre o fio de uma espada,
oculta-te como puderes no meio das labaredas.

As palavras não fazem o homem compreender,
é preciso fazer-se homem para entender as palavras.


E um fragmento que assinalei, também, quando comprei o livro:

...
Não sei como não posso fechar em duas conchas
essa pérola, essa dureza
preciosa e feroz
envolta
pelo frio, quando já não sei pensar.

...

E agora, sim, vou ler Herberto Helder. Obrigado, R.

21.3.09

Dias e dias

Sou um bocadinho céptico em relação aos dias disto e daquilo, e uma piada que tentei fazer hoje de manhã ao dia mundial das zonas húmidas saíu-me mal (se bem continue a achar a denominação fabulosa - sobretudo porque hoje é também o dia das florestas, vim a sabê-lo depois, e um velho fã de Woody Allen como eu não consegue impedir-se de perguntar se haverá igualmente um dia das florestas petrificadas). Adiante.

Aparentemente, hoje é dia da poesia (não sei se mundial, europeu, nacional, municipal ou universal), mas graças a isso temos direito a alguns poemas no Público.

Não resisto a transcrever o que foi escolhido por Changuito, da livraria Poesia Incompleta. Não porque é o poema mais curto, nem porque tive o prazer de conhecer o Mário Guerra há dias. É só porque é o meu preferido, de longe:

Quando quero morrer falo

quando quero morrer falo
com deus digo
merda de vida deste-me tu e
dá-me logo ele outra para comparar

Bénédicte Houart, in "Reconhecimento", Cotovia/Angelus Novus, Lisboa 2005.

20.3.09

Sim

Quanto tempo demora a dizer a palavra "sim" - um segundo? Uma vida pode resumir-se a um segundo.

Do outro lado

É sempre agradável assistir ao aparecimento de um bom blog do "outro lado": Léxico Familiar, de Pedro Adão e Silva. Pelo menos pode paliar-se o desacordo na política com o bom gosto musical.

Não é muito complicado, pois não?

«Os valores de Bento XVI não são os valores de um governo, de uma ONG ou de um indivíduo que tenta limitar o imenso desastre da sida em África. São valores de outra ordem. São valores de uma ordem religiosa, que cada vez menos se percebem ou respeitam no Ocidente. Não vale por isso a pena discutir a moral sexual da Igreja (e do Papa). Vale a pena garantir que ela não invade a esfera da liberdade civil. Ora Ratzinger não andou por África a pedir que se proibisse o preservativo. Pediu aos católicos que prescindissem dele, em nome de uma perfeição que os católicos escolheram procurar. A influência dele é, neste capítulo, deletéria? Inegavelmente. Convém que ela não alastre em África (e na Europa)? Sem a menor dúvida. Mas sem esquecer que o Papa está no seu direito e no seu papel.»

Vasco Pulido Valente, Público


(Do Portugal dos Pequeninos)

Auto-ajuda

Num comentário ali em baixo um ou uma leitora pergunta-me que livro de auto-ajuda li (para escrever aquelas patacoadas, subentende-se). A resposta é "nenhum". Vê-se.

19.3.09

S. Paulo

Ao meu lado decorre uma palestra sobre S. Paulo. No fim, um dos senhores da assistência diz que não gosta de S. Paulo: critica-lhe um certo antagonismo a Jesus Cristo, e a misoginia.

A misoginia de S. Paulo é das poucas coisas que gosto nele. Proporcionou-me o casamento mais hilariante da história de casamentos do meu grupo alargado de amigos.

O poço e a água

Sou um poço de defeitos. Amar-te, cristalina, pura, fresca, é a minha única qualidade.

18.3.09

O caquelon, o futuro e as estranhas relações entre eles

Para começar: é verdade - é possivelmente verdade - que eu tenha queimado um caquelon. Já fiz coisas piores - ainda recentemente, por exemplo, queimei a tampa de um recipiente no micro-ondas, coisa que não lembra a ninguém; e ainda piores: já encalhei um barco, menti a mulheres e - pior, pior ainda - chorei por causa delas.

Que queres? Queimei um caquelon, possivelmente; mas como eu já estava queimado há muito tempo isso mal se nota. Excepto, claro, nos momentos em que o caquelon é necessário, e aí a minha fatal inabilidade vem ao de cima. São quatro da manhã, a hora à qual o outro se lembra das gabardines azuis e eu de caquelons queimados, vidas queimadas, amores perdidos, inabilidades e fondues sem caquelon.

A verdade é esta: sou desajeitado, queimo caquelons como quem queima relações amorosas ou é queimado por elas, bebo vinho rosé às quatro da manhã e leite às seis (se fosse ao contrário seria pior, reconhece) e, apesar de tudo isso, continuo a acreditar que a vida não passa de uma sucessão de amanhãs que quando se transformam em hojes é gloriosa. Viver é fazer os amanhãs que ontem sonhámos. Alquimia pura, minha querida: homúnculos em homens; tu num corpo; caquelons queimados em fondue; vinho rosé numa bebedeira decente (é impossível, eu sei); uma vida em vida.


Verdades complicadas...

...e, claro, difíceis de debater num país que regula a quantidade de sal no pão.

"How to stop the drug wars"

(Via Cachimbo de Magritte.)

17.3.09

Pergunta

Alguém me pode dizer o que disse o nosso Amado ministro ao Hamas sobre os rockets palestinianos? Obrigado.

"Amado admite que UE tenha de repensar as relações com Israel"

16.3.09

Porque é que eu sou cada vez mais céptico

O regime de "cartas" para a navegação de recreio em Portugal - como de resto praticamente tudo o que toca o sector - é reconhecidamente absurdo. Foi criado pelos proprietários de escolas, que decidiram multiplicar os escalões: obviamente, quantos mais escalões houver mais as escolas trabalham.

Há tempos reuniu-se uma comissão que decidiu "partir do zero", e que fez um trabalho notável de simplificação, desburocratização, racionalização. O IPTM (céus, quem diria!) - para quem não sabe, Instituto dos Portos e Transportes Marítimos, até hoje um dos grandes freios à modernização e às reformas - não só aceitou como até encorajou as mudanças.

Hoje (por causa do post abaixo) fiquei a saber que está tudo na mesma: as escolas oposeram-se à mudança, e o IPTM, em vez de bater com o punho na mesa e impôr uma reforma mais do que necessária deixou ficar como estava.

E ainda há quem diga que Portugal é um país pobre.

PS - e depois há vezes em que sou cada vez mais optimista, de passagem se diga (são é cada vez menos, mas isso é outra história).

PS2 - a ideia, por exemplo, de que as melhores escolas de vela do mundo são em Inglaterra, um país que nem cartas tem não chega sequer a atravessar a mente desta gente tão pobremente servida de vistas e de mentes.

Causas

Não era bem um jornalista: avançava pela página dentro como um touro por uma arena; bastava o mundo acenar-lhe com uma causa (de preferência vermelha; se não, não era grave: ele encarregava-se de a pintar, se possível com o seu próprio sangue).

Publicidade interessadíssima

Caso se reúnam 4 pessoas quatro no mínimo e 6 no máximo com vontade de aprender a navegar à vela pela quantia módica de 400 euros por 8 lições oito de aproximadamente 4 horas cada, com saídas e chegadas à Doca do Bom Sucesso em Belém; e se essas pessoas se manifestarem dentro de um prazo de tempo razoável para o endereço Lserpa@gmail.com, então, e só então talvez eu possa dar as referidas aulas.

Atenção: aulas para quem quer aprender a navegar à vela, não para quem quer uma carta de marinheiro, ou coisas assim. Poder-se-ia quase mesmo pensar "já tem carta? Então venha aprender a navegar", mas não é imperativo.

Aqui

O ponto de partida foi aqui, depois passei aqui e finalmente cheguei aqui.

Manifesto anti-vírgula

Devíamos fazer um manifesto anti-vírgula, um manifesto tão violento, tão virulento que fizesse o Anti-Dantas passar por uma apologia.

Abaixo a vírgula e viva o ponto e vírgula (e já agora também tenho dúvidas sobre o ponto final: nada é nunca final, nem a morte, como dizem o Nick Cave e o Bob Dylan ali em baixo, nada acaba nunca para sempre. Vejam lá por exemplo o latim, se está morto? Não está nada, nem o grego clássico nem alguns sorrisos que eu conheço nem mesmo a ideia de morte morre, nada morre. Tudo ressuscita sempre, todos ressuscitamos - mesmo a vírgula, e não o merece, porque a vírgula é uma cabra redonda, meio sorriso meio nada. Já o ponto e vírgula é claro, vê-se bem ao longe. A vírgula faz muito pior, sob aqueles ares de perene bonomia do que os pontos final, de exclamação e de interrogação juntos. A vírgula não merece nem uma linha, nem um período nem uma frase nem o olhar espantado e grato, por um décimo de segundo, de uma mulher apaixonada. A vírgula espalha-se pela frase toda e pensa que esta lhe deve obedecer, que é ela que dita o ritmo, ela que manda. Uma vírgula não merece nem uns parênteses, quanto mais um parágrafo! Uma vírgula ocupa espaço no papel que seria muito mais bem utilizado com silêncio, com um espaço em branco, com uma saída pela esquerda baixa. Devia poder apagar-se as vírgulas todas do mundo como se apagam números de telefone de uma memória, ou se rasgam as páginas de receitas do Público, ou se afogam dores em banheiras de adrenalina).

Claro que pior do que qualquer vírgula são as reticências, mas essas não merecem sequer ser mencionadas, pensadas, como se existissem. As reticências são uma ilusão de óptica! Uma ilusão tout court! Uma fraude intelectual doublée de fraude gramatical [obrigado Artur Portela Filho].

[Imaginem uma reticência composta por vírgulas: ,,, É como um barco lento, uma mulher a sorrir permanentemente, um homem apaixonado e impotente, um dia sem vento, uma costa sem falésias, um whisky sem sede, uma pele sem vontade, um livro sem letras. Abaixo a vírgula, abaixo. Morra. Pim. Fim.]

Tibete

O Tibete tem azar. Se em vez de ser colonizado pelos chineses o fosse pelos americanos teria metade do planeta aos urros para que o "libertassem".

15.3.09

Virginia

Virginia Woolf não é a escolha indicada para quem anda com problemas na leitura - falta de concentração, desinteresse, incapacidade de entrar na história, qualquer que ela seja.

Mas há por vezes passagens que nos levam a insistir. Como esta:

I
"Well, we must wait for the future to show," said Mr Bankes, coming in from the terrace.
"It's almost too dark to see," said Andrew, coming up from the beach.
"One can hardly tell which is the sea and which is the land," said Prue.
"Do we leave that light burning?" said Lily as they took their coats off indoors.
"No," said Price, "not if everyone's in."
"Andrew," she called back, "just put out tghe light in the hall."
One by one the lights were all extinguished, except that Mr Carmichael, who liked to lie awake a little reading Virgil, kept his candle burning rather longer than the rest.

II
So with the lamps all put out, the moon sunk, and a thin rain drumming on the roof, a downpouring of immense darkness began. Nothing, it seemed, could survive the flood, the profusion of darkness which creeping in at keyholes and crevices, stole round window blinds, came into bedrooms, swalled up here a jug and basin, there a bowl of red and yellow dahlias, there the sharp edges and firm bulk of a chest of drawers.
..."

(Virginia Woolf,
in To the lighthouse)

Armando Silva Carvalho

Cheguei e perguntei
pelo grito do granito.

Rigor obstinado,
era o que ele dizia.
E sorria. Sorria?

Deita uma palavra ao mar.
Exemplo: rio.
Abandona outra: vento, ao próprio vento.

Mas se o quiseres escutar
é melhor deixares
lá fora o teu lamento.

The Raven

Lou Reed:



Já agora, a versão original:




Edgar Allan Poe

The Raven

Once upon a midnight dreary, while I pondered weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
`'Tis some visitor,' I muttered, `tapping at my chamber door -
Only this, and nothing more.'

Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow; - vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow - sorrow for the lost Lenore -
For the rare and radiant maiden whom the angels named Lenore -
Nameless here for evermore.

And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me - filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating
`'Tis some visitor entreating entrance at my chamber door -
Some late visitor entreating entrance at my chamber door; -
This it is, and nothing more,'

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
`Sir,' said I, `or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you' - here I opened wide the door; -
Darkness there, and nothing more.

Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortal ever dared to dream before
But the silence was unbroken, and the darkness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, `Lenore!'
This I whispered, and an echo murmured back the word, `Lenore!'
Merely this and nothing more.

Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.
`Surely,' said I, `surely that is something at my window lattice;
Let me see then, what thereat is, and this mystery explore -
Let my heart be still a moment and this mystery explore; -
'Tis the wind and nothing more!'

Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately raven of the saintly days of yore.
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door -
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door -
Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore,
`Though thy crest be shorn and shaven, thou,' I said, `art sure no craven.
Ghastly grim and ancient raven wandering from the nightly shore -
Tell me what thy lordly name is on the Night's Plutonian shore!'
Quoth the raven, `Nevermore.'

Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning - little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blessed with seeing bird above his chamber door -
Bird or beast above the sculptured bust above his chamber door,
With such name as `Nevermore.'

But the raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only,
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing further then he uttered - not a feather then he fluttered -
Till I scarcely more than muttered `Other friends have flown before -
On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before.'
Then the bird said, `Nevermore.'

Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
`Doubtless,' said I, `what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master whom unmerciful disaster
Followed fast and followed faster till his songs one burden bore -
Till the dirges of his hope that melancholy burden bore
Of "Never-nevermore."'

But the raven still beguiling all my sad soul into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird and bust and door;
Then, upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore -
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt, and ominous bird of yore
Meant in croaking `Nevermore.'

This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamp-light gloated o'er,
But whose velvet violet lining with the lamp-light gloating o'er,
She shall press, ah, nevermore!

Then, methought, the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by Seraphim whose foot-falls tinkled on the tufted floor.
`Wretch,' I cried, `thy God hath lent thee - by these angels he has sent thee
Respite - respite and nepenthe from thy memories of Lenore!
Quaff, oh quaff this kind nepenthe, and forget this lost Lenore!'
Quoth the raven, `Nevermore.'

`Prophet!' said I, `thing of evil! - prophet still, if bird or devil! -
Whether tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted -
On this home by horror haunted - tell me truly, I implore -
Is there - is there balm in Gilead? - tell me - tell me, I implore!'
Quoth the raven, `Nevermore.'

`Prophet!' said I, `thing of evil! - prophet still, if bird or devil!
By that Heaven that bends above us - by that God we both adore -
Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden whom the angels named Lenore -
Clasp a rare and radiant maiden, whom the angels named Lenore?'
Quoth the raven, `Nevermore.'

`Be that word our sign of parting, bird or fiend!' I shrieked upstarting -
`Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken! - quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!'
Quoth the raven, `Nevermore.'

And the raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming,
And the lamp-light o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted - nevermore!

"Death is not the end"

Nick Cave:



Bob Dylan:

Definição

A vida é a tangente da dor.

Diagonal, rejeição, equidistância

Ando há semanas atrás de uma palavra e tenho outra atrás de mim e hoje ela saltou-me à frente e agarrei-a e consegui escapar à que me perseguia, creio que definitivamente. Há momentos assim: uma pessoa foge de certas palavras, procura outras que lhe fogem, viu que se enganou - ou não, pelo contrário, apercebe-se que acertou.

Esquivas, as palavras, mas tão boas, quando se deixam apanhar, tão ricas e densas e promissoras.


Mar

Se pudesse hoje iria para o mar: deixá-lo-ia entrar em mim, olhá-lo-ia e diria este é o meu mundo este é o mundo, azul irrequieto sempre a mudar - só a mudança é estável, no mar, é única coisa que não muda - e se pudesse iria para o mar faria um almoço muito bom e beberia um whisky de malte que já não bebo há tanto tempo e diria vamos para "para onde?" "não sei" "para Cabo Verde" "vamos" e faria rumo a Cabo Verde e não pararia em mais lado nenhum antes de chegar a Cabo Verde e depois se calhar também não pararia em Cabo Verde voltaria para trás e dir-te-ia "desculpa hoje fui jantar fora e amanhã também vou e depois e depois" e voltaria se pudesse para os teus braços as tuas coxas a tua penumbra se o mar deixasse claro. Se o mar deixasse.

Felicidade

Já andei atrás da felicidade nas estradas de África nos mares do mundo nas ruas da cidade num sorriso num corpo ou dois numa fotografia numa carícia num livro ou num poema; e quase sempre quase a alcancei quase já lá estive quase. Claro é preciso continuar pode não ser feliz mas é persistente a vida e se calhar a felicidade é essa obstinação quase cega quase feliz quase tu aqui ao meu lado ao meu colo quase feita pele quase feita amor quase feita quase desfeita quase tudo.

A felicidade é a ausência de quase.

Um definição perfeita

Domingo

Descrever este domingo de sol que me espera na rua o sol e tu me esperas ao pequeno almoço, os seios pequenos a espreitar do roupão gratos pela festa da noite e se calhar quem sabe a pedir mais festas iremos os dois para o jardim beber o sol gota a gota e passear pelas margens do rio e pensar nas festas que aí vêm fumar charros trepar às árvores lançarmo-nos de pára-quedas dos pilares da ponte nadar no rio como se estivéssemos em campanha eleitoral o teu ventre a dizer vem vem vem "põe o Rei na sua penumbra" mas a penumbra não era penumbra era sol e queimava vem vem vem e vejo os seios a espreitar do roupão o sol na cidade o calor que aí vem o calor que foi a vida é assim a vida: dois seios pequenos num roupão entreaberto o rio o amor que desfizemos esta noite as tuas pernas cruzadas por cima de mim vem vem vem não me deixes nunca sozinha vem os cabelos grandes e densos e pretos uma acção de graças a pele a praça das Flores o sol o calor e o rio o vento um longo passeio pelas margens da vida da noite do amor da felicidade.

14.3.09

Pão com tomates

Hélder Amaral, Nuno Melo, Mota Soares, Telmo Correia e António Carlos Monteiro.

(Via Blasfémias e Insurgente.)

12.3.09

Requiem

O Requiem de Mozart é bom até para celebrar o fim de uma dor.

Ser, não ser

"Sou o que sou, e é tudo o que sou", diz a nova epígrafe deste blog. É uma frase bonita, da qual há muito gosto muito. E bem verdade: já tentei não ser o que sou, e consegui. Não ser.

Sindbad

Li as aventuras de Sindbad o Marinheiro há mais anos do que os que pensava existirem. Hoje fui à procura dele na net e encontrei estas pérolas, que aconselho. São uma simples maravilha (ou uma maravilha simples, mais a propósito):






Viva a luta de classes: o bom gosto

Outra das coisas que aprecio bastante nas classes BCBG nacionais é o gosto, e a cultura. O bom gosto: sempre abertos a descobertas, a nomes desconhecidos, à arte em geral e contemporânea em particular.

Viva a luta de classes: quecas queques

Já a burguesia chic nacional é culta, viajada, open minded, nada pedante, nada saloia - antes pelo contrário, mais cosmopolita não há no cosmo inteiro - e tem marcas de distinção magníficas. O beijinho, por exemplo, para os diferenciar dos trogloditas popularuchos como eu, que dão dois; o GPS-queque, do qual MEC faz hoje uma descrição hilariante no Público; e as quecas. Mas disso não posso falar, porque também não tenho experiência nenhuma.

Americanos

Os americanos, é do conhecimento geral, são incultos, selvagens; raramente saem do país deles - o que os leva, claro, a pensar que o mundo... blablablabla.

Quando oiço esta espécie de bullshit penso invariavelmente nas TED Conferences, que são uma constante supresa, uma maravilha, um deslumbre sem fim.

Vejam isto, e lembrem-se: os americanos são uns incultos, bárbaros, etc.

PS - já agora, mais um exemplo dessa inquestionável falta de cultura.

O país de José Sócrates

Deus sabe que eu não gosto do homem, mas bolas!, oiçam isto (Paulo Portas na TSF).

(Via Escola de Lavores)

11.3.09

Vidas

Era uma vida como correr a maratona com uma diarreia: ou se apertava e não corria, ou corria - e por onde passava borrava tudo.

10.3.09

Calor

Chegou o calor, está a primavera à porta. As raparigas desnudam-se, e os homens deixam de olhar para o umbigo. Se estivéssemos a bordo, naquelas viagens que fazíamos entre S. Miguel e Santa Maria, eu dir-te-ia (silêncio) e tu responderias (silêncio) e iríamos fingir que o mundo se reduz a uma pele, um suspiro, um olhar.

Cá fora tudo seguiria igual: a esteira regular e direita do piloto automático, o céu azul, a brisa de Nordeste, a ocasional baleia ou os frequentes golfinhos, as velas bem afinadas, na aparência tão simples (e na verdade tão complicadas) como o desejo.

Nós não. Um mundo constrói-se assim: carícia a carícia, milímetro a milímetro, vaga a vaga.

9.3.09

Qualidade de Falecido

Vejam isto, contado não se acredita.

Aterrador

Com uma celeridade impressionante a APL iniciou a demolição dos edifícios da Doca do Espanhol. Está portanto a preparar-se para levar àvante o absurdo projecto de ampliação do Terminal de Contentores de Alcântara, apesar de tudo o que se sabe, disse e faz para o parar.

E ainda há quem diga que Portugal é um país pobre.

Surpresa, surpresa

"Areia da Costa levada pelo mar".

Claro que se pode considerar esta operação uma interpretação literal de Keynes, que falava, ao que parece, em "cavar buracos e tapá-los". Um pormenor interessante é que a maioria da areia colocada na Costa da Caparica vai depois depositar-se em plena Barra Sul - para quem não sabe, o principal canal de acesso ao Porto de Lisboa, o tal que se prepara para receber porta-contentores post-Panamax.

E ainda há quem pense que Portugal é um país pobre.

Nota: também publicado aqui.

Eterno feminino

Neste post interessantíssimo, a Luísa desmonta lapidar e concisamente um dos mitos mais fortes que jamais existiu. Não sei é se as mulheres ficarão a ganhar, uma vez desfeita a mágica.

"A feminilidade manifesta-se, já se sabe, de formas muito contraditórias, que vão da gentileza e da graciosidade ao pragmatismo e à malícia; combina um sentimentalismo delicado ou vibrante e um genuíno horror a violências com friezas terríveis e pequenas grandes crueldades; e é capaz de atropelar a mais firme lógica com o absurdo de inexplicáveis preferências ou enternecimentos

...

«eterno feminino» parece, portanto, resumir-se um ideal físico, estético, a que o homem rende homenagem imputando uma bateria não menos ideal de doces traços temperamentais. E é no desencontro entre esses ideais e o real que reside o mistério da tradição de equívocos e desinteligências que constitui a «guerra dos sexos», que o homem, preguiçoso no exercício da sua intuição, vai acalentando com a afirmação reiterada, feita com tanta resignação como irónica complacência: «nunca vou compreender as mulheres». Pois nós, felizmente, cada vez compreendemos melhor os homens."

Salvo dois ou três ínfimos pormenores (não acredito, por exemplo, na "inexplicabilidade" ou "absurdo" de certas preferências - prefiriria "indízivel", por exemplo) esta análise é perfeita.

O clube de Groucho e o amor

Há uma terrível - e mais frequente do que pensamos - semelhança enter o amor e o clube de Groucho Marx: quantas vezes sentimos que não podemos amar uma pessoa porque ela nos ama?

8.3.09

Kruger Park, Girafa, 1999


Estratégia de luta

Lutar em todas as frentes ao mesmo tempo tem riscos demasiado elevados para que seja aconselhável. Mas tem uma beleza (é só uma, mas é grandiosa): uma vitória, ainda que pequena, numa delas repercute-se imediatamente em todas, torna tudo mais leve.

Este meio

Exmos. Senhores,

Venho por este meio, e se não fosse por este meio seria por outro qualquer, e virei também por outros meios, se possível, e se não estiverem a ver que o meio é este o problema deve ser vosso porque o meio é claramente perceptível - é este e não é mais nenhum. Se eu viesse por outro meio di-lo-ia: "Exmos. Senhores, venho por outro meio, etc." até que V. Exas soubessem sem margem para dúvidas qual o meio por que venho.

Porque isto tem, obviamente, que se lhe diga, vir por um meio e não o dizer, ou dizer que se vem por um e vir-se por outro.

Quase maldoso

Alberto Gonçalves no seu melhor:

Prazeres da vela

O fim de um dia cheio de sol no Tejo, 15 nós de vento, a ouvir Camané, Percy Sledge, Moustaky, Frank Sinatra, Dassin. O passado não é um refúgio, mas em certas alturas sabe bem.

7.3.09

Trapalhadas

Ao lado deste governo, poderia por vezes parecer que Santana Lopes não passava de um aprendiz de trapalhão: "A cooperação estratégica, segundo o Governo de José Sócrates".

Claro que também há coisas boas (serão decerto compensadas pelo TGV, ampliação do Terminal de Contentores de Alcântara, et al.): "Governo só tem pequenas obras para inaugurar em ano eleitoral".

Twitter

O Mares está agora no Twitter: www.twitter.com/maresolhares.

Marenzio

Os Madrigais de Marenzio são das coisas mais bonitas que a mente humana concebeu em forma de música. Não há uma grande escolha no Youtube; oiçam isto:



e vão a correr comprar isto.

A quebra do enguiço

Um dia em grande para os Mares: dois patrocínios confirmados, e a chancela do Ministério da Cultura confirmada oficialmente.

Trocas

Trocaste-me o sono, mulher, e o sonho.

A ver, absolutamente

Na Galeria Abraço, a exposição de pintura de Luis Alves da Costa, intitulada "Metal fundente, perfis ardentes".

Pintura lúdica, erótica, irónica, livre. É bom saber que a Galeria Abraço está nas mãos competentes, e exigentes, de Jorge Oliveira.

6.3.09

Vidas

Não sei onde é que li isto; não sei sequer se o li. Mas é uma grande verdade: ele teve mais vidas do que as que consegiu viver.

PS - Bigger than life, smaller than lives (com uma vénia ao P., do esplêndido Chove).

Secundário

O amor é secundário: não é porque a ama que o rio corre para a foz; nem por amor que o sol todos os dias se levanta.

Frio

Estou cheio de frio, nos sítios onde tu não estás: todos.

Tu, o mundo, a pele

Penso em ti, e vejo o mundo. Penso no mundo e vejo-te, luminosa e sorridente: não há mundo sem sol, não há rio sem foz, nuvem sem vento, pele sem mão.

Espera, hesitação

Não devíamos esperar tanto, sabes? Hesitar é bom, esperar é um dos caminhos da morte .

Resumo

Amo-te: duas palavras resumem uma vida, um futuro, e explicam um passado. Não deve haver muitas com tantas responsabilidades, tanto peso.

Incompreensão, fatalidade

Tudo é ultrapassável, excepto formas diferentes de entender a fatalidade.

Onde

Onde estaria eu, onde tu não estivesses?

Post scriptum

Uma vida como um post scriptum: útil, mas não essencial.

5.3.09

Audiências da vela

Um interessantíssimo artigo de Elaine Blunt, aqui.

Mares Olhares

O Instituto Camões vem juntar-se às entidades (CPLP, CNC) que divulgam o projecto Mares - Olhares da Língua Portuguesa.

Obrigado.

E obrigado também ao João Severino, do Pau Para Toda a Obra, e à Io do Amor e Outros Desastres - é possível que haja outros, a quem agradeço também, naturalmente, mas estes dois são os únicos que vi.

PS - O Technorati não me parece muito fiável. Já por várias vezes me apercebi de links para o DV que eu conheço e ele não menciona. Por isso, se alguém tiver mencionado o projecto, agradeço me avisem.

Fado dos contentores

Fado dos Contentores

Já ninguém parte do Tejo
Para dobrar bojadores
Agora olho e só vejo
Contentores contentores.

E do Martinho Pessoa
Já não veria o vapor
Veria a sua Lisboa
Fechada num contentor.

Por mais que busques defronte
Nem ilhas praias ou flores
Não há mar nem horizonte
Só contentores contentores.

Lisboa não tem paisagem
Já não há navegadores
Nem sol nem sul nem viagem
Só contentores contentores.

Entre o passado e o futuro
Em Lisboa de mil cores
O sonho bate num muro
De contentores contentores.

Por isso vamos cantar
O fado das nossas dores
E com ele derrubar
O muro dos contentores.


De Manuel Alegre

4.3.09

As Quintas do Esplanada - II

O jantar de amanhã, quinta-feira, já tem 29 pessoas inscritas, das quais 21 confirmadas. Aguardo com impaciência as últimas inscrições. O objectivo destes jantares é relativamente simples: juntar pessoas de quadrantes diferentes, passar um bom momento, conversar e rir (não muito, que isto é uma coisa séria e com coisas sérias não se brinca).

Aqui fica o menu, para relembrar:

- Mezze mediterrânico (tapenade, houmous, tzatziki e mais, consoante o mercado);
- Galinha do Campo de Outono;
- Mousse de banana e limão verde.

E, para terminar onde começou, chá marroquino.

O preço, bebidas incluídas, é de 20 euros.

Por favor inscrevam-se, divulguem, venham, tragam a família, os amigos e os - ou as - namoradas (não todas ao mesmo tempo, a ocasião quer-se pacífica).

Inscrições para Lserpa@gmail.com.

PS - O restaurante Esplanada do Príncipe Real fica no jardim do Príncipe Real.

Imprescíndivel

Um jogo perverso

04/03/09 00:01 | Fernando Gabriel

Este artigo é imprescindível. Finalmente, começa a ler-se na imprensa mainstream aquilo que se murmurava - é o termo, os exércitos da correcção moram lá, também - nos corredores de algumas agências da ONU.

"Pressionado a retractar-se, em Fevereiro de 2005 Clay pediu finalmente desculpas -pela moderação da linguagem, por ter subestimado a dimensão do saque e por ter permanecido em silêncio durante tanto tempo.

As declarações do diplomata causaram incómodo não pelo grotesco, mas porque Clay ignorou as regras do jogo pós-colonialista. Neste jogo, os governos ocidentais prejudicam o crescimento dos países africanos através de políticas proteccionistas que diminuem a competitividade das exportações agrícolas. Em troca, pregam a superior virtude moral da ajuda financeira a África. Do lado africano, qualquer crítica à governação é denunciada como uma tentativa de "ingerência" e invocam-se imediatamente os pecados políticos do colonialismo. Todos devem abster-se de observar que este gigantesco exercício de cinismo é responsável pela pobreza, doença e corrupção da África subsaariana.

Às raras vozes que se atrevem a denunciar a perversidade sobrepõe-se a arrogância moral de redentores auto-designados como Bono ou Bob Geldof, armados de uma demagogia neo-puritana calibrada para as preferências culturais de um ocidente complacente, que adoptou o cosmopolitismo superficial da ajuda e do "comércio justo" como sucedâneos das teses sociológicas da dependência e da exploração.

Mas o jogo pós-colonialista não estava preparado para alguém como Dambisa Moyo. Natural da Zâmbia, completou um mestrado em Harvard e doutorou-se em Economia em Oxford. Trabalhou no Banco Mundial e na Goldman Sachs e acaba de publicar Dead Aid (Allen Lane, 2009) um argumento arrasador sobre os efeitos da ajuda sistemática, bilateral e multilateral, na corrupção e no empobrecimento africano.

África é abundante em exemplos espectaculares de corrupção. O mundo pasma-se com o descaramento de Mugabe, que pediu 2 mil milhões de dólares de ajuda para o Zimbabwe no mesmo dia em que gastou 175000 dólares a comemorar o seu aniversário, mas já poucos se lembram que a coroação de Bokassa como imperador custou 22 milhões de dólares em 1977, ou que os saques de Mobutu no Zaire e de Abacha na Nigéria terão superado os 5 mil milhões de dólares -cada. A evidência empírica disponível sugere que a ajuda internacional é o principal factor explicativo da corrupção africana e esta, através de diversos canais, tem um impacto negativo na taxa de crescimento, empobrecendo os países receptores e reforçando o ciclo vicioso da ajuda. Nos últimos trinta anos, os países africanos mais dependentes da ajuda externa conseguiram a proeza de diminuir a sua capacidade produtiva, registando uma taxa de crescimento média de -0,2%; entre 1970 e 1998, quando os valores da ajuda internacional cresceram até ao seu valor máximo, a pobreza africana disparou de 11% para 66% da população.

E no entanto a chuva de dinheiro ocidental continua a cair, impenitente. Tal como o puritanismo proibicionista foi instrumental no estímulo ao negócio de contrabando do álcool nos EUA dos anos 20, também o puritanismo dos redentores de África é instrumental na sustentação do negócio da ajuda externa. Pelos cálculos de Moyo, entre o Banco Mundial, FMI, ONU, ONG e agências governamentais, mais de meio milhão de ocidentais trabalham na indústria da ajuda internacional - um dos principais motivos da persistência no erro. Apesar disso e das inúmeras declarações sobre a necessidade de uma revisão profunda das instituições financeiras internacionais, ninguém se atreverá a recomendar a extinção do Banco Mundial na próxima reunião dos G20. Do mesmo modo, a ronda de Doha continuará a arrastar-se, como se o proteccionismo não fosse um dos maiores impedimentos ao crescimento.

Enquanto europeus e americanos agem como se a realidade fosse imutável, o resto do mundo continua a transformar-se e até África se está a cansar de aturar os seus benfeitores crónicos. Moyo defende que os países africanos não devem esperar mais pelo ocidente e precisam de incentivar as trocas comerciais com os que estão disponíveis: Índia, Brasil, Turquia e, sobretudo, China. Angola, por exemplo, já é o principal fornecedor de petróleo ao mercado chinês e na última década o comércio entre África e a Europa caiu de 40% para 26%. Enquanto os ocidentais oferecem prelecções sobre ‘sweatshops', os chineses investem e oferecem uma possibilidade de desenvolvimento. Ou os ocidentais corrigem os erros estratégicos, ou acabam a explicar a sua superioridade moral a países imaginários - o que até nem será muito diferente da atitude actual."

(in Diário Económico, ed. nº 4581)

Tratado das regras da vida doméstica para uso das novas gerações - II

Um jovem e simpática leitora fez-me ver um erro crasso de concepção deste Tratado: comecei pela loiça, quando a montante há - como pude não o ver? - a divisão geral das tarefas domésticas; na qual a lavagem de loiça se inclui, naturalmente.

O problema parece no mínimo espinhoso (não é, como se verá) - daí provavelmente o meu lapso que assim adquire uma aura freudiana, de respeitabilidade. O ponto de partida para a sua resolução deve portanto ser - não é novidade - conceptual: os jovens casais devem começar por ter em conta que a igualdade absoluta não só não existe - nem no casamento, nem no amor, nem na generalidade dos afectos humanos - como pode até, se perseguida cegamente, ser perniciosa. Cito, para exemplo, o casamento que há anos conheci de uma jovem suiça-alemã com um igualmente jovem alemão que acabou em fanicos dada a procura obsessiva, racional, quantificada ao centésimo de igualdade na divisão das tarefas domésticas. Nesta área (e só nesta) o bom-senso é quem deve mandar - e do bom-senso faz parte integrante a aceitação de certas assimetrias (se virmos bem, não há nada mais maravilhosamente assimétrico do que um homem e uma mulher - peço desculpa aos dias que correm, mas não sou muito bom em casais simétricos, se bem não tenha nada contra).

A primeira pergunta a fazer é saber quais as tarefas de que cada um gosta, e quais as que lhe são essenciais (já partilhei, por exemplo - por breves, muito breves meses, verdade seja dita - a vida de uma senhora para quem fazer a cama era imprescindível. Para mim, nessa altura, não era). Aprendemos assim que um não suporta o pó nos livros, outro a roupa do dia nas costas do sofá da sala - e pode estabelecer-se uma lista (mais ou menos informal e flexível) das coisas a evitar ou a fazer absolutamente. Esta lista pode ir-se fazendo, não é necessário estarem os dois, entre o padre e o notário, sentados num degrau das escadas a decidir se pode viver sem aspirador ou com camisas mal passadas (a resposta é "não", em ambos os casos).

Podemos, também, definir as coisas que só podem ser feitas por um dos membros do casal (nesta área nós, homens, temos a vantagem da força: quando é preciso mudar o piano de sítio, quem é que o vai mudar? Já coser um botão ou passar uma camisa a ferro qualquer pessoa pode fazer - se souber, claro. E desde já aconselho todos os jovens de sexo masculino a aprender estas tarefas básicas, tradicionalmente reservadas às senhoras. Não imaginam quão úteis poderão vir a ser). A partir daqui torna-se relativamente fácil passar para o segundo ponto:

O qual é baixamente comparativo. O que é melhor? - Retomando o exemplo acima: Viver sem a senhora, ou fazer a cama todos os dias? Mudar de roupa no quarto ou vê-la ir-se embora? Insistir em ter a loiça lavada no dia do jantar, ou ... (esta pergunta não é boa)?

O terceiro item nesta lista de pontos prévios é quantitativo: de todas as tarefas, quais as que se podem externalizar, contribuindo assim para a economia e para o bem estar de uma família na Ucrânia, ou no Brasil?

Estas etapas concluídas, a divisão das tarefas domésticas torna-se um jogo de crianças (o que ela é, verdade seja dita): as tarefas vitais para que o casal se mantenha durante os previsivelmente 7 ou 8 anos que vai estar junto devem absolutamente ser feitas - ou por uma pessoa externa, ou por aquele dos dois que é mais apto (ou retira mais prazer) da sua execução, ou pelos dois, alternadamente. As outras podem ser objecto de negociações au cas-par-cas. Deve sempre ter-se em conta, como dizia o Marquês de Sade, que de todos os actos humanos se pode retirar prazer (ele exceptuava a acção de se barbear, quotidiana e matinalmente - o que só demonstra que sabia do que falava); e poder: a minha Avó, que já aqui mencionei uma vez a propósito de uma outra confusão que frequentemente envenena a vida dos jovens casais, proibia-me, por exemplo, terminantemente de entrar numa cozinha - com o pretexto, para ela irrefutável e para mim, naquela altura, bastante aprazível, de que "a cozinha não é para os homens".

Claro que a divisão de tarefas domésticas não passa, o mais das vezes, de um repositório de tudo o que não funciona num casal - e muitos preferem limitar as suas discussões a esse tópico e não abordar os outros, mais importantes. É uma opção válida; se bem, para mim, um pouco triste: entre acabar um casamento por causa da loiça ou porque o amor, essa maravilhosa tragédia que de vez em quando se abate sobre nós (e nos abate, mas isso é outra história) não funcionou, ou acabou, ou nos sufoca, quem prefere a primeira?

3.3.09

Outono

Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago

Matsuo Bashô, in "O Gosto Solitário do Orvalho, seguido de O Caminho Estreito", Assírio & Alvim.

O tempo do amor

De certa forma, o amor é uma permanente assincronia: com o nosso actual parceiro tentamos corrigir os erros que cometemos com o anterior (andamos sempre um amor atrasados...). E amar alguém não é na realidade amar o que é, mas o que vai ser: o que será o futuro, o que o será o ser amado, o que serão os dois juntos. Amamos o que pensamos que vamos descobrir, enquanto o descobrimos - e deixamos de amar (porque o amor acaba, não porque o queiramos) quando pensamos que nada mais há a descobrir.

O tempo do amor é o futuro, sempre; e o passado, às vezes - naqueles casos, tão raros, em que o amor morreu sem surpresas, sem dor, sem futuro.

(Com uma vénia a esta senhora)

Tratado das regras da vida doméstica para uso das novas gerações

Sob este título genérico tenciono deixar para a posteridade algumas normas simples sobre a convivência doméstica para jovens casais. Começo, naturalmente pelo ponto mais sensível, aquele que, histórica, estatística e empíricamente mais obstáculos levanta na vida do jovem casal. Refiro-me, os generosos leitores com mais de 40 - vá lá, 45 anos - já o terão adivinhado, à lavagem da loiça.

Poder-se-ia pensar que com as modernas máquinas de lavar o problema estaria resolvido, mas não está. Além de que inúmeras são ainda as ocasiões em que o jovem casal não dispõe dessa tecnologia - a qual, de resto, é barulhenta e anti-ecológica (duvido, mas fica sempre bem, nestes tipo de tratados, mostrar uma certa preocupação com o ambiente. Mesmo que não ajude a vender não nos leva directamente para as estantes dos ostracizados).

Posto isto, devo previamente prevenir (anda por aqui um cheiro a pleonasmo) os jovens casais que me vão ler do meu gosto pela prática saudável, relaxante e, repito, amiga do ambiente da lavagem manual de loiça: ou seja, este post não é objectivo, eu reconheço.

Há duas razões pelas quais a maioria das pessoas não gosta de lavar a loiça: mau timing e desorganização. É evidente que após um magnífico jantar, com toda a gente na sala a conversar, beber cognac, whisky e outras coisas, a tecer comentários elogiosos ao que acabou de comer ninguém tem vontade de lavar a loiça - como não a teria de passar a ferro ou passar o aspirador, por exemplo (a diferença sendo que estas duas actividades domésticas nunca são agradáveis, ao contrário da lavagem de loiça). Nada disso; a loiça deve dividir-se em duas fases: uma pré-arrumação, depois de os convidados saírem - dividindo os diferentes constituintes por categorias que vão do menos ao mais sujo; e a lavagem propriamente dita, no dia seguinte logo de manhã cedo. Nada há de mais agradável do que reviver, através da loiça, o alegre convívio da véspera.

Em seguida, a desorganização: a maioria das pessoas que tenho visto lavar loiça fá-lo de uma forma desordenada - o que tem um impacto negativo tanto na eficácia da acção como no prazer que dela se retira. Idealmente deve dispôr-se de dois lava-loiças, um cheio de água com sabão e outro de água sem sabão. A ordem de lavagem é a seguinte:
- Copos;
- Talheres (estes dispõem-se no fundo do lava-loiças, por agora),
- Pratos de sopa;
- Pratos de sobremesa;
- Pratos do principal.
(Frequentemente, consoante o nº de convidados e o menu, chegados a este ponto convém mudar de água - lavando então os talheres, claro).
- Panelas, frigideiras e demais utensílios, por ordem crescente de sujidade.

Algumas notas:

a) Um erro frequente que todos os jovens inexperientes cometem é passar a loiça por água quente antes de iniciar a lavagem propriamente dita. É fácil ver que se a comida se pegou às panelas, por exemplo, foi devido à acção do calor. Se lhes puseermos água quente, estamos a atrasar, e não a adiantar, o efeito de descolagem da água;
b) Não se deve deixar acumular muita loiça na bacia de água limpa;
c) Os copos ficam melhor (ao contrário de tudo o mais), se forem passados por água fria depois da lavagem;
d) A loiça deve dispôr-se arrumada no secador de loiça (pessoalmente, detesto secá-la. Quem goste pode passar directamente a essa fase) de forma a facilitar a sua posterior arrumação.

Resta, claro, o habitualmente espinhoso problema de definir a divisão do trabalho. Há duas escolas, ambas defensáveis: a que diz "um cozinha, o outro lava" - leva por vezes a certos abusos e deliciosas retaliações; e a que defende que quem cozinha lava (no meu caso, como prefiro cozinhar e lavar a loiça a, por exemplo, secá-la, ou passar o aspirador, opto por esta).

Seguindo estas normas simples, as novas gerações poderão eliminar a maior parte dos conflitos (ou pelo menos daqueles que têm a sua origem na lavagem manual de loiça).

O próximo artigo será sobre a roupa, desde a lavagem à passagem a ferro - incluindo, naturalmente, as reparações.

2.3.09

Exaustão

Na construção da personagem, recordar: nem um esquizofrénico consegue lutar em mais do que duas frentes ao mesmo tempo.

Poesia, outra vez

Lamento

a alma aflita anseia sempre pela calma,
mas, ai de mim, a desgraça sombria não se vai.
as minhas noites, no palácio de al-Zâhir,
eram sem mácula, como as de qualquer rei.

ventura, depois desgraça... uma apaga a outra.
por fim, a morte apaga toda a esperança.


Al-Mu'tamid, in "Al-Mu'tamid, Poeta do Destino", Assírio & Alvim, trad., prefácio e notas de Adalberto Alves.

1.3.09

Aguaceiro

Uma chuva de fotografias muito boas, aqui.

(Via A Vida dos Meus Dias).

Uma vida, amor

Uma vida é feita de vidas, e todas as vidas convergem para outra vida. Deve ser a isso que se chama amor.

Escrever

Escrever não é muito difícil; basta alinhar palavras umas atrás das outras, sujeito predicado complemento directo e esquecer que por detrás dessas palavras há sentimentos ou esperança ou emoção e coisas assim porque são essas coisas que estragam o que se escreve. E esquecer que há quem nos leia, quem imagine que percebe aquilo de que nós queremos fugir quando escrevemos, quem pense que sente a mesma coisa que nós que não sentimos nada, só alinhamos palavras e pontuação e advérbios e pensamos que não há nada a pensar, nada a sentir nada a dizer porque as palavras falam por si próprias e tudo o que há a fazer é escolhê-las criteriosamente já que não podemos escolher o que lhes fica por trás. É preciso escrever como se não se sentisse, como se não houvesse amor tristeza alegria esperança luta amizade morte, como se o teu sorriso não existisse nem o teu corpo nem as tuas mãos os teus olhos; é preciso escrever como se não houvesse nada excepto as palavras. É preciso escrever como se não houvesse tempo, como se amanhã não passasse de uma ilusão e ontem outra, como se amanhã ou depois não pudessem ser diferentes por causa do que se escreveu hoje; é preciso escrever e esquecer o que se escreveu porque as palavras não têm memória, a memória não tem memória, não sabe o que é. Basta escrever para que o mundo deixe de ser. Bastam as palavras.