27.6.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 27-06-2024 / II

«Vastas emoções e pensamentos imperfeitos»

O dilema é antigo e não está perto de se resolver: saio do Claudio e vou ao Antiquari ou ao Jaume? Questão de distâncias relativas: o Antiquari deixa-me a maior parte do caminho por fazer; o Jaume está mais perto do barco. Questão de runs: o Antiquari tem Flor de Caña a cinco, quase seis, o Jaume tem Santissima Trinidad a seis e cinquenta. Questão de ambiente: não há diferença entre os dois. 

Como todos os verdadeiros dilemas, este resolve-se sozinho: começo por parar no Antiquari e depois deixo a burra decidir se quer parar no outro. Geralmente quer, mas nem sempre. Hoje tenho duas forças contraditórias e será interessante ver a qual delas a burra é mais sensível: uma boa gorjeta no bolso e um cansaço que nem para me engrossar serve.

A BH Glasgow Vintage é uma besta cheia de empatia. Confio nela sem hesitar. Ela que decida. Desde que não queira ir ao Moltabarra ou ao Bar Flexa, tudo bem. Há sempre a possibilidade de uma paragem súbita na Cantina, querida. 

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Isto tudo para servir de preâmbulo: fui ao Claudio comer o inevitável gelado pós-prandial. O homem faz os melhores gelados que já comi nas vidas todas que vivi até hoje. Notem que não digo «Os melhores gelados do mundo (pelo menos desta vez». São simplesmente os melhores gelados que já comi na vida. Nas vidas. Hoje experimentei Melissa de Mallorca con chocolate negro

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Minuto, como no basket: indicador direito a apontar para cima, tapado pela palma da mão esquerda na horizontal. Uma das pequenas que está ao meu lado (estava. Foi-se) «tem pernas até às orelhas» perfeitas e isto merece uma nota de aprovação).

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Não sei o que é melissa mas sei que é tão bom ao palato como as pernas da sueca (?) à vista.

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Bom, regressemos às coisas sérias: o cansaço. Aonde vou parar quando sair daqui (Antiquari)? O Flor de Caña é equivalente ao Santissima Trinidad? Tudo questões que me atormentam. Já não me sinto demasiado cansado para me engrossar mas ainda não tenho vontade de me engrossar. Na guerra chama-se a isto Terra de Ninguém. Ir à Bodega Bellver seria um compromisso. Não tem rum mas tem hierbas.

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É impossível para um céptico discutir com um crente. Tomado no sentido estricto, esta proposição passa facilmente. O problema é que alastra sem fim e todos somos os cépticos de qualquer crença. O diálogo torna-se inviável, se a respeitarmos.

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ADENDA: O nível estético do mulherio no Antiquari sobe vertiginosamente. Já o indicador «namorabilidade» desce no mesmo ritmo. Tenho de rever os meus critérios, sem dúvida.

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Paro no Jaume com uma imperial, um rum Santissima Trinidad e uma tapa de patatas bravas.

O Jaume está cheio até aos galopes. Eu também, louvado seja Deus. Devia ter pedido gambas al ajillo. Paciência. Agora é tarde.

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O Jaume são dois Jaumes: o dono e o que faz o balcão. Este último também é uma simpatia, mas mede os runs ao mililitro. 

Conhecendo os dois lados de um bar, não posso deixar de o compreender e detestar. Detestar é demasiado forte. Compreender não. É o termo correcto. Malditas assimetrias!

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Para quem não sabia se conseguiria engrossar-se a noite está a correr bem.

A Bodega de Can Rigo resolve esses e outros dilemas. Por exemplo: chegaram as patatas bravas. São as melhores que comi, com a solitária excepção de umas que comi na Galiza faz agora alguns anos. (Demasiados, mas isso é outra história.)

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Tapas no Toni, no Joan e agora no Jaume. Toni: bar Santa Eulália, ou coisa que o valha. Joan: bar Rita. Jaume: Bodega de Can Rigo. Palma (e suponho que a Espanha em geral) é um desafio a qualquer marinheiro que se preze:  bom marinheiro pára em todos os portos.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 27-06-2024

Comecemos pelo princípio: afinal a gorja foi porreira. Não bateu recordes, mas está na média. Clientes um, vento contra zero.

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Chego a terra, vou ao correio enviar os postais que me sobravam e à lavandaria. Daí passo pelo Joan, que me recebe com o sorriso e a bonomia de sempre. Diz-me para voltar dali a hora e meia - estava a abrir o estaminé - e venho ao Toni comer umas tapas e beber tinto de verano. As tapas, diz-me a empregada do ano (ou da semana?), continuam a ser feitas pela mãe dele, o que de resto em grande parte explica a minha vinda aqui. A mesma jovem diz-me que o homem está doente, tem um problema no joelho e agora raramente cá vem. Continua a ser um dos meus sítios favoritos em Palma. 

Comi uma tapa de beringelas assadas e outra de boquerones en vinagre. Estas últimas de compra, claro. Boas, mas de compra. O único louco capaz de fazer boquerones em casa sou eu - e devo dizer que nunca mais os comi tão bons desde que substituí o vinagre normal por um balsâmico (e verdadeiro).

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Porém, nada disto é o tema principal deste fim de dia quente (agora está calor, finalmente). Há dois temas que me parecem pertinentes:
a) O calor, o benfazejo calor voltou, finalmente. Sinto-me contudo um bocadinho hipócrita a dizer isto porque vim para o interior do café, aonde há ar condicionado. O pretexto sendo o DV, a calma (a esplanada está cheia) e poder carregar o computador. Contudo, só agora vejo a tomada. Está a menos de meio metro de mim, Faz uma hora que estou aqui. Há dias que me surpreendem;
b) O cansaço. Estou estoirado e pergunto-me se isto vai continuar assim até ao fim dos meus dias ou se vou conseguir fazer uma semana de charter bastante calma - e toda a motor - sem pensar que tenho mais dores musculares do que músculos e alguma coisa está errada na anatomia da carcaça.

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O tinto de verano continua excelente. A ver se o preço subiu. Se não: hallelujah!

Um bom tinto de verano é melhor do que uma cerveja, com este calor. O calor não passa de uma ilusão sensorial - aqui dentro está uma excelente temperatura.

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Mesmo sendo vista até menos de metade da sua altura a praça de Santa Eulália continua linda. Obviamente, ao ouvir isto qualquer céptico pensaria. «a beleza está nos olhos de quem a vê», coisa que eu refuto absoluta e convictamente. Sou um homem objectivo e racional!. (repetir três vezes em caixa alta, sff.)

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Não estou só cansado. Estou febril. Felizmente tenho rum a bordo. Vai varrer esta merda toda.

E podre de sono.

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 Notas adicionais:
a) O preço do tinto de verano no Toni aumentou, mas continua decente: três e vinte a unidade;
b) O Bar Rita continua o refúgio que sempre foi e os seus croquetes de xipirones sublimes;
c) Estou demasiado cansado para imaginar um futuro que se estenda por mais da dez minutos. Ou seja: peço umas hierbas (não há secas. Só mezcladas) e sei que daqui vou ao Claudio comer um gelado. Depois? Passa muito os limites do planeável;
d) Estou com uma dor de cabeça mastodôntica.

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Olho para todas as senhoras presentes no bar Rita, o bar mais local de Palma e daí do Universo. 

Nenhuma delas é excessivamente bonita nem excessivamente feia. Qualquer delas podia ser a minha mulher, se quisesse (ela, claro). A única coisa que têm em comum é parecerem todas inteligentes. 

Isto merece ser aprofundado. Nenhuma delas passaria o patamar da "Woman next door" da Playboy, coisa que não me incomoda particularmente. Já tive mulheres muito mais bonitas do que as da porta ao lado e duvido que apreciasse vê-las nessa revista, que de resto era sublime.

E importante. Um pilar na formação de qualquer adolescente e jovem adulto que se respeite. Ou respeitasse, não sei como está agora.

Voltando ao tema: qualquer destas mulheres, salvo uma ou duas excepções, poderia ser minha namorada. Talvez seja este um novo padrão para avaliação de bares.

Diário de Bordos - Puerto de Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 26-02-2024

Os restaurantes baratos de Puerto de Andratx (Andratx, daqui em diante) transformaram-se em coisas gourmet et al. Os que já o eram mantiveram-se. A quantidade de italianos (restaurantes, pizzarias e outras merdas Made in Italy) aumentou. É preciso ser alemão para vir a Mallorca comer spaghetti. Ou português para comer vindaloo no pior restaurante indiano do mundo.

Felizmente não foi uma surpresa. Apetecia-me uma indianeria qualquer, simplesmente, mesmo sabendo de antemão que seria uma porcaria. Vá lá que ao menos estava suficientemente picante.

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Tal como suspeitava, a R. não paga renda há seis meses. No outro dia cruzei-me com ela na feira. Disse-me que lhe devia dinheiro e que fiquei com duas peças dela. A história do dinheiro é para pôr na conta da doença; à das peças pode chamar-se diluente. Serve para ajudar a passar a do dinheiro. Para a diluir, por assim dizer. Deve haver uma razão pela qual só me sai disto na rifa. Ou várias, vá saber-se.

.... E não é só esta. Há mais. Devo ser um pote de mel para tudo o que o mulherio conta como caso psiquiátrico. Não é preciso dizerem-me que quem as escolhe sou eu. Obrigado.


25.6.24

Diário de Bordos - Port de Sóller, Mallorca, Baleares, Espanha, 25-06-2024

Não se pode dizer que o charter esteja a correr mal pela razão simples e linear de que não está. Antes pelo contrário: vim aos meus portos (ou calas) favoritos desta ilha, os clientes são bastante aceitáveis, o bote podia estar melhor mas podia também estar muito pior, o tempo está porreiro e a massa que recebi permitiu-me safar uma ou duas enrascadas. 

Tão pouco se pode dizer que seja dado a transes místicos, esotéricos, transcendentais. Não sou. Não passo de um troglodita que por uma qualquer dobra mal feita no tecido do espaço-tempo aprendeu a ler, comer de garfo e faca, ser bem-educado mesmo para as pessoas de quem não gosta e - nos dias melhores - não palitar os dentes à mesa (dar puns então nem se fala, o que eleva a quantidade de habilidades que conheço a um nível quase estratosférico). Tenho contudo uma sorte, uma bênção: sei reconhecer pessoas transcendentes. Mais do que reconhecer: sei falar-lhes e amá-las. 

Nalguns casos, até me aconteceu ser amado por algumas dessas pessoas - o que se não me leva a acreditar na existência de Deus, obriga-me pelo menos a acreditar na sorte. O que já é muito, para um céptico.

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Os restaurantes estão cheios de outro tipo de trogloditas: os que gostam de futebol. Invejo-os. Têm mais sorte do que eu: acreditam em qualquer coisa.

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Soller está para Palma como Cascais para Lisboa: mal chego aqui parece-me estar em férias.

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Hoje vendi uma caixa de postais, precisamente em Cascais. Quando penso que detestava lá viver lembro-me de que o caminho para sair da imbecilidade é longo, lento e - quase de certeza - interminável.

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O Payesa está fechado, o Bar Bosch mesmo ao lado do restaurante aonde os clientes comem e graças a essa feliz coincidência descubro o hotel Le-Vi. Mais uma prova de que o caminho para fora da imbecilidade é interminável: como é que não descobri isto antes, alguém me explica (sem usar as palavras imbecil ou estúpido, claro)?

24.6.24

Diário de Bordos - Sa Calobra, Mallorca, Baleares, Espanha, 24-06-2024

Qualquer pessoa com mais de vinte e cinco anos sabe que a vida é fundamentalmente injusta e convive bem com isso. Enfim, bem não é a palavra certa. Convive com isso, às vezes bem outras menos. Vir a Sa Calobra sem a D. revolta-me. Ou melhor: viver sem a D. revolta-me. Vir aqui sem ela dá-me vontade de pegar numa espada e espadeirar por essas injustiças fora.
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Isto dito, ver este sítio sagrado cheio de «trogloditas» (aspas porque cito) é outra manifestação da tal injustiça. É que são muitos, gordos e feios. Mais de metade não merece ser autorizado a entrar aqui. (A única excepção ao crivo da beleza e da formosura  devo ser eu, claro.) 

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Sa Calobra: imagina-se facilmente a água a escavar o caminho através das rochas. Milhões de anos num olhar. É daí que vem o poder, a energia que a D. viu neste lugar? Provavelmente. 


(Cont.)

23.6.24

Metáforas, ironias e outras verdades

Não sou dado a transcendências. Do que vejo não infiro nada até ver de novo. Ser básico tem vantagens. Olhar duas vezes é melhor do que ver uma só. Não ouvir é melhor do que acreditar em tudo o que se ouve. Acreditar no que se viveu é preferível a crer no que se viverá. É melhor estar em Sant Elm amarrado a uma bóia do que no centro de saúde de Freixo de Espada à Cinta amarrado a uma cadeira de rodas. 

Gosto tanto de viver que tenho vergonha de o dizer. 

20.6.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 20-06-2024

A clientela de um bar como o 7 Machos divide-se em Fauna e Flora. (Admitidamente, não é só a do 7 Machos, mas como é aqui que estou a escrever fica assim.)

Por razões que têm a ver com a biologia, entre outras, sou mais sensível à flora. E assim nasce a única, sublinho única crítica negativa ao novo local desta mágica instituição. Na rua de San Magi eu tinha o meu canto ao balcão e dali podia ir avaliando, discretamente (claro) as flores, plantas, árvores e outras rosas que iam entrando. Aqui não há essa possibilidade. Estou ao balcão mas virado para dentro, para as garrafas. Acho que vou ter de explorar melhor o espaço e ver se compenso ou contorno esta deficiência. 

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O dia foi rico em emoções. A menor delas não foi, de certeza, ter o bote limpinho da silva por fora e arrumado por dentro. Está quase habitável. Quase, essa maldita palavra.

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Hoje veio um segurança avisar-me de que a partir de agora tenho de deixar a burra no respectivo parque. Não as querem mais (havia outras) no pontão. 

[A rapariga que acaba de entrar é de certeza absoluta irmã mais nova da Mariel Hemingway. Quando penso que nos meus tempos de escola secundária detestava botânica. Vá lá que ainda tenho alguns anos para equilibrar a balança.]

Era bom de mais, claro, a burra à porta sem cadeado nem outra segurança que não a confiança nos vizinhos.

É verdade que já a deixei bastas vezes no parque sem o cadeado, mas não é a mesma coisa e agora vai levá-lo, coitada.

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O Naoel fez-me a margarita com um mezcal diferente, melhor e fumado. Ninguém imagina o efeito positivo de uma margarita bem feita nas perspectivas de futuro de um pobre e solitário skipper longe de casa. Sendo que este futuro não se limita ao longínquo. Engloba também a noite que aí vem e promete ser magnífica, de sono ininterrupto até ser hora de ir pôr a merda do aspirador a reparar. 

[A Marielita chama-se Alexandra,  se por acaso.]

(Se alguém me dissesse que um dia uma noite magnífica para mim seria uma noite de sono ininterrupto eu tê-lo-ia mandado imediatamente para um concurso de stand up comedy.  Ganharia o primeiro prémio, illico presto.)

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Outra desvantagem deste sítio: por muito que se goste de ver gente a trabalhar bem e depressa, olhar para estes gajos atrás do balcão provoca vertigens. É que não param um mili-segundo. E ainda hoje é quinta-feira. 

(Amanhã estarei num charter. Não haverá botânica nem vertigens nem margaritas nem mezcal. Em contrapartida haverá uma coisa que os substitui com algumas vantagens. Por que raio de carga de água não consigo conciliar tudo, numa maravilhosa esfera como as das discotecas? Porque não consigo ser pago para beber copos e estudar plantas no 7 Machos? Quem é que fez este mundo? Ainda há quem acredite em Deus?)

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Uma das piores bebedeiras (ou melhores, depende do ponto de vista) que apanhei na vida foi com mezcal, em Melville, Johannesburg, África do Sul. Foi das poucas das quais me envergonho, arrependo e admiro. Hoje bebo essa traiçoeira bebida e penso quão fácil é deixarmo-mos enredar nas suas teias. Felizmente estou prevenido.

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O Naoel não só me faz um preço inacreditável como ainda me propõe mais um mezcal para el camino. E ainda há quem pense que eu sou gastador.

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A BH enganou-se e em vez de me levar para bordo trouxe-me para o Antiquari. O erro não foi meu, insisto. Foi da burra. O Jaume estava fechado, o Gibson cheio - além de que não têm sobremesas - o Fidel estava fechado, passo pormenores e acabo aqui, palco de um celebre diálogo:

- Esta é a minha segunda casa.

- Ah sim? Qual é a primeira?

O Antiquari está aberto, tem uma sobremesa e rum Flor de Caña, música excelente e a beleza de sempre.

Que a bicicleta se engane no caminho muitas vezes, é tudo o que espero e desejo.

19.6.24

Noite, chamas

Chamas-me à noite, essa noite que me enche de chamas? E de uma noite cheia de chamas chamas a cheia para as apagar? A que chamas uma noite cheia cheia de chamas? Chama-me, dessa noite cheia e vê se dela as chamas se vêem. Chama-me essa noite e dela me chamas tu, cheia como nunca te vi do fogo com que me chamas. 

Breve teoria sobre as ressacas e a sobriedade

Não sabemos o que amanhã nos traz, mas sabemos o que nos leva. E sabemos que o que nos leva não nos trará de volta. Antes de ressaca amanhã do que sóbrio hoje.

Amanhã há mais. Talvez.

Os dias e os cavalos morrem devagar? Não sei. Este sim. Não morre: desagua num grande delta, como o do Ganges, o do Nilo, o do Mississipi ou o do Zambeze. Há mesmo um delta que desagua em terra, o do Okavango. Há dias e rios para tudo, como cavalos. Avançamos montados no dia, esporas na barriga do cavalo, copo na boca e de repente tudo começa a ir mais devagar: o cavalo, as esporas, os copos. Como nos deltas, aonde a água corre devagarinho, não vá perder-se.

Assim se esvai um dia, «feito de nada como nós». Amanhã há mais. Há sempre mais: «mais luz», mais mar, mais vida. Mais de tudo o que já foi e de tudo o que será. Amanhã há mais: hoje não passa de uma amostra. Ontem foi um treino. Ou foram, que houve muitos.

«Uma vez que ignoras o que te reserva o dia de amanhã,
Procura ser feliz, hoje.
Toma uma ânfora de vinho, senta-te ao luar e bebe,
Lembrando-te de que, talvez amanhã, a lua te procurará em vão.»

(Omar Khayyam. Não sei de quem é a tradução.)

Opostos

Isto assim dito num repente, o problema é sempre o mesmo: como conciliar opostos?

Vozes, «menos do que um cão»

Uma diz-me: «vai para bordo». A outra, melíflua, recita-me poemas de Omar Khayyam:

«Cansado de interrogar, em vão, os homens e os livros,
eu quis interpelar a ânfora.
Pousei os meus lábios sobre os seus e murmurei:
“Para onde irei quando morrer?”
A ânfora respondeu: “Bebe na minha boca.
Bebe longamente. Jamais voltarás aqui”.»

Uma terceira, mais pragmática, diz-me: «Não uses o travão da frente! e usa o de trás com cuidado.» (Está a chover.)

Sou simultaneamente um rapazinho obediente, pragmático, sedento e tento obedecer às três. Ou seja: ziguezagueio por estas ruas com as mãos fora dos travões (a bicicleta saiu agora das do Ivo. Está uma maravilha). Vou ao Divino falar com o Dino mas antes disso passei pelo Trastienda só para ter a certeza de que ainda está frequentável (está) e acabo na Cantina.

«Dizem-me: “Não bebas mais, Khayyam!”.
Eu respondo: “Quando bebo, ouço o que me dizem as rosas, as túlipas e os jasmins.
Escuto mesmo aquilo que não pode dizer-me a minha bem-amada”.»

Tento não pensar nos cinco litros de vinho tinto que tenho a bordo mas não consigo. Isto é: penso. Só não penso é na merda do vinho, que comprei para fazer tinto de verano mas depois lembro-me de que no Pepe um tinto de verano custa dois euros... Bom, deixemos a matemática para outros planos.

Tenho vinho e tenho sorte: contratei o day worker para amanhã e hoje choveu uma destas abomináveis lluvias de barro que deixam tudo cagado e castanho.

«Na Primavera gosto de me sentar na orla de um campo florido. E quando uma rapariga me traz uma taça de vinho, não me importa nada a minha salvação. Se eu tivesse essa preocupação, valeria menos que um cão

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19-06-2024

"De lo que oigas, nada. De lo que veas, la mitad." Vem do meu amigo Anton, reencontrado hoje numa daquelas vagas de passado que volta e meia me submergem de felicidade. Antes dele, não sei de onde vem. Será da sua Galícia natal? Não sei. Sei que é de ouvir, atentar, respeitar e seguir.

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Em mallorquín, Ca na Martina significa Casa da Martina. Em qualquer outra língua significa "as melhores tapas de Palma". Fica no mercat de Pere Garau, se por acaso.

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O problema da Bodega Morey é ficar perto de uma livraria chamada English Fine Books e da Typica (ou Typika, ou Típica, ou assim), uma loja de produtos típicos, contrariamente ao que o nome poderia sugerir. 

Vá lá. Consegui sair da livraria só com fotografias de telefone portátil (mudou de dono de certeza) e da Typika com dois postais a um euro cada. Se alguém algum dia disser que eu sou impermeável às circunstâncias - também conhecidas por "o real" - podem apresentar-lhe este post e lembrar-lhe o dia em que saí da Typika com dois postais a um euro cada e mais nada.

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O prato do dia na Morey hoje era beringelas recheadas. E fui eu encher-me de tapas magníficas na Martina do Pere Garau. Quem é que pode viver assim?

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Logística: consegui resolver o problema do telefone, vender o computador antigo e comprar um BIB de cinco litros de vinho tinto por doze euros. Dos quais sessenta para o telefone. Só falta realizar a venda do computador. Por uma razão que só a fundamental teoria das assimetrias de base explica, as entradas de dinheiro levam mais tempo do que as saídas.

Resolvi também o problema da net a bordo, por dez euros. Agora vou levar a BH ao Ivo. Sexta embarco para un charter e acabam-se os problemas de logística. 

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Encontro com a M. P. dos seguros. Além de muito simpática e bastante eficaz, a senhora é linda. Há pessoas assim, a quem a lotaria genética acudiu logo à nascença para não mais as largarem.

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Voltemos à logística, paixão velha:
- O telefone está a funcionar a cem por cento;
- O computador novo a noventa;
- A roupa que entreguei hoje de manhã na lavandaria para me ser entregue sexta-feira ficou pronta agora e já a tenho;
- A bomba do duche está a funcionar;
- A bicicleta está neste momento a ser reparada no Ivo;
- Tenho cinco litros de vinho tinto a bordo (quaisquer comentários sobre a eventual qualidade do dito serão esmagados como se fossem uma barata. O senhor que mo vendeu disse-me logo que com gasosa seria óptimo).

Verdadeiramente, não deixo de me surpreender com esta minha capacidade de reolver problemas importantes e fundamentais e basilares e tudo. Comparados com estes, o que são os problemas financeiros (por exemplo) ?

(Cont.?)

18.6.24

Diário de Bordos - Edição especial - Palma, 18-06-2024

Bom, as coisas aconteceram assim: saí de bordo com a férrea intenção de ir ao novo 7 Machos beber um mezcal e voltar para o "meu" P.

Tive de tactear um bocadinho porque não é aonde eu pensava e mal chego - isto é, mal desmonto da burra - vejo o Mark. Há premonições que não enganam ninguém. "Lá se vai o mezcal para o galheiro", pensei.

Celebramos este reencontro, tão agradável quanto surpreendente, entramos e quem está nos fogões?

Quem?, pergunto.

E respondo: o Johnson. O Johnson. O melhor cozinheiro de Tex-Mex a leste de Miami (ou Jacksonville, o que ficar mais a leste). O Mark tinha encomendado dois tacos mas não conseguiu comer os dois derivado ao tamanho e à quantidadede carne, eu fiquei com o segundo, enquanto esperávamos pelas Margaritas bebemos dois mezcal cada um,  vai daí o Naoel (?) resolve fazer-nos as Margaritas com mezcal em vez de tequila e vai daí eu fui submergido por uma imensa vaga que me chegou do passado, quando o Mark trabalhava no Abracadabra e o Johnson era o cozinheiro do 7 Machos e eu descobria Palma com os olhos maravilhados de quem descobre que o outro mundo afinal é neste.

Felizmente a BH Glasgow Vintage não bebeu de mais e trouxe-me para bordo sem uma única hesitação. As Margaritas do 7 Machos continuam a ser uma das provas da existência de Deus, os tacos do Johnson outra e eu não tarda converto-me. 

(Não sei. Não tenho um cavalo. Cair de uma burra dá direito a conversão? O Johnson saberá fazer hóstias? Jesus pode transformar água em mezcal?)

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 18-06-2024

As senhoras - nenhum homem faz o mesmo - que me acusam de gastar dinheiro em cocktails, vermutes e sei lá que mais deviam começar por ter juízo e continuar por calarem-se. O único dinheiro verdadeiramente mal gasto que gasto é em livros. Como resistir, por exemplo, a este título: El murmullo del agua. Fuentes, jardines y divinidades acuaticas, de uma autora chamada María Belmonte, publicado na Acantilado, Barcelona, 2024? Não sei nem, aviso já, quero saber. Basta folhear meia dúzia de páginas para perceber que o raio do livro é imprescindível - opinião essa que o José Luis, da Babel, confirma com o seu habitual e louvável laconismo.

O resto do dinheiro que gastei hoje - alpergatas, vinho no Antiquari, palo sifonado na Bodega Bellver - foi sensata e conscenciosamente dispendido. Sobretudo o vinho e o palos. O almoço não foi grande coisa: o Sabores Criollos estava fechado e fui ao outro colombiano, que lhe fica à frente. Estava uma merda, mas vá lá: têm cerveja Aguila (a colombiana, a verdadeira) e isso perdoa muita coisa.

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Chego a bordo com uma inextinguível vontade de ouvir música barroca. Cânticos, exaltações, malabarismos. Acabo na Bartoli a cantar Vivaldi, mas até lá chegar confirmei duas ou três opiniões, que não exprimo aqui para não ter de pedir desculpa aos meus amigos que percebem realmente de música. Ao contrário de mim, que dela sei tanto como sei de hidrodinâmica dos mosquitos em meio hostil. 

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A relação simbiótica que mantenho há bastos anos com a teimosia voltou a manifestar-se e comecei o dia a tentar reparar a bomba da retrete. O cheiro de merda mistura-se bem com o do café, dir-me-ão os mais cépticos dos leitores. Não consegui, claro. O Ricardo diz que o problema não está na bomba mas sim no macho de fundo e eu tento resistir à óbvia necessidade de encher o bote de água (isto é, desmontar a mangueira do macho de fundo e do passa-cascos com o barco a nado) para verificar essa hipótese. Só não posso é fazê-lo sózinho, por um lado; e por outro isso é tarefa para um dia, coisa de que estou em notória ruptura de stock. A alternativa é mandar vir um mergulhador, mas não acredito que seja suficiente. O glamour, o glamour!

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Ou seja: uma série de nós que só um mezcal no 7 Machos pode desatar.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 17-06-2024

É como se estivesse a andar de patins atrás do sono, só que à frente dele ainda há mais alguns vinte patinadores e eu atrás deles todos a ver se os apanho,  um a um.

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Caiu uma bomba atómica em Palma: fechou o 7 Machos da rua San Magi. Já tinha lido alguma coisa a esse respeito mas não acreditei. É como se me dissessem que a ponte sobre o Tejo ia mudar de sítio. Ou que o Cristo-Rei agora dança o samba todas as noites. Ou que o Calatrava vai começar a desenhar estações de comboios funcionais. Ou que António Costa arranjou um emprego de almeida na CML (não desfazendo nos almeidas, claro).

Agora tenho de ir procurar o novo. (Não está muito longe, vá lá. Fica para amanhã.)

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Dia de merda, literalmente: passei-o todo a trabalhar na retrete, que se avariou logo de manhã. Passo os pormenores, há almas sensíveis que me lêem.

Foi até deixar de haver luz. Desconsegui. Deus sabe que sou o skipper mais mal jeitoso de mãos que ao mar deitou.

Não é o ser desajeitado que me inquieta. É sê-lo cada vez mais. A bomba é uma Henderson MK5, a melhor bomba de retrete jamais feita. A retrete é uma Lavac. Só há dois tipos de marinheiros: os que idolatram a Lavac e os que não a conhecem. A combinação Lavac / MK5 é garantia de repouso para o pobre skipper longe de casa no que à merda diz respeito. 

Não há garantias, meu caro. Estão esgotadas. Felizmente desta vez não foi tão grave como em Ponta Delgada, a bordo do AQUARELLE, em que apanhei um duche de merda de tal maneira que tive de me mandar à água no porto, que por muito suja estivesse estava menos suja do que eu. 

Enfim, uma belíssima maneira de começar o dia. E depois, de o passar a tentar reparar a maldita bomba. A vida de skipper é um festival de glamour. Melhor, só em Cannes ou nos filmes do James Bond.

Amanhã começo o dia a telefonar ao serviço técnico da Henderson. Já devem ter visto nabos mais nabos do que eu.

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Dois livros a fechar: o último romance do António Cabrita (O que o céu permite, ed. The Poets and Dragons Society - não posso reclamar muito. O meu Avenida também foi publicado numa editora com nome inglês) e The Portuguese, a modern history, de um senhor chamado Barry Hatton.

Deste último ainda vou muito no princípio, é cedo para dizer mais do que "lê-se bastante bem" - os portugueses vistos pelos olhos de um estrangeiro que nos grama à brava e até casou com uma portuguesa e tem piada e conhece bem o país e a sua história recente - o que não é de admirar porque é jornalista e correspondente de um ou vários jornais estrangeiros.

O livro do António é outra coisa. Espero vivamente que o homem não esteja no pináculo da sua forma de romancista, mas que está lá muito perto está de certeza. Uma narração da qual "não se vêem os canos" (parafraseio não sei quem), personagens densas - com uma óptima charpente, diria se estivesse a escrever em francês - um gozo permanente, a cada frase, cada linha. Sei que pareço suspeito, mas não sou: não gosto da poesia dele e digo-o, e se não gostasse deste livro não o diria, mas tão pouco diria o que digo: um livro para desenganar quem pensa que em Portugal se publica de mais. Não publica nada. O céu permitiu uma escrita absolutamente soberba. Obrigado, céu. 

Aproveito a boleia da excelência para mencionar uma poetisa que conheci recentemente (nos dois sentidos do termo: pessoal e literariamente). Trata-se de Gaëlle Istanbul. Tem dois livros ambos publicados na Húmus e sendo bastante diferentes são os dois muito bons. (Prefiro o primeiro, por razões epidérmicas - nos dois sentidos: a pele está presente em todos ou quase todos os poemas e a poesia é muito mais contida do que no segundo.)

16.6.24

O tapete e os cobertores

Estendo-me inquieto nos tempos que aí vêm e penso que nos passados tão pouco estava muito descansado. Estendi no tempo o meu tapete e nele dormi quase sempre sozinho. Só raramente tinha a paz ao meu lado. Sei bem o que a ansiedade é.  Conheço-lhe o cheiro e as formas. E o tempo. Atravesso-o todos os dias, percorro-o de trás para a frente e da frente para trás. 

A inquietação e o tempo que se lixem. Estende o tapete e dorme. Deixa a inquietação para amanhã. Ela tem o tempo todo para se espraiar. Preocupa-te antes com os teus cobertores, aqui e agora. Esses pelo menos não voam.

15.6.24

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 15-06-2024

Palma num fundo de constipação, alergia, quase-gripe, não tarda. Tomo comprimidos atrás de comprimidos: mais de sessenta anos a não saber o que isso era vingam-se. Ou a não querer saber, vai dar no mesmo.

.........
Hoje comecei por ir ao mercado de Santa Catalina. Lulas a quarenta e nove euros o quilo. Brevas a dezasseis. Cerejas a doze. Bebi um vermute no bar do Mercat e voei para o Olivar, a lamentar não ter energia para ir ao Pere Garau.

Resultado: o jantar hoje vai ser um prato com frango do campo, pancetta, tomate e pimento branco (?), o mais doce, suave e acolhedor de todos os pimentos.

Poc a poc o frigorífico do P. enche-se e poc a poc aterro. Poc a poc entro por esta terra dentro e ela em mim. Poc a poc olho para o P. e ele responde, pisca-me o olho e diz "És homem para mim? Olha que um homem é um homem e um gato é um bicho."

"Sim, meu sacana", respondo. "Sou homem para ti, ainda que tenha de ir aos tréfonds buscar-me."

.........
Há algo injusto - ou incorrecto - em apanhar uma constipação destas em Palma em Junho. O culpado é o aquecimento global, claro, que nem aquece nem globa.

14.6.24

Tolices

Por razões que eu não entendo bem, a maioria das pessoas prefere acreditar em ideias a acreditar em factos.

Quer se queira quer não, é uma tontice dos diabos.

Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 14-06-2024

Chego a Palma e como de costume os primeiros dias são dedicados à logística. Desta vez um pouco mais do que o habitual: problemas na bicicleta, no computador e no telefone (problemas no sentido lato: situações que exigem tempo e atenção). Trato de tudo mais ou menos em paralelo, tentando manter uma corredorzinho estreito para ver os amigos. 

Xisco, Fidel - o melhor vitello tonnato do mundo e arredores, mais cf. infra - a miúda que me vende as tâmaras medjoul (não é bem uma amiga, mas não faz mal), o Ismael e o Alberto da Cantina, o Pepe do Corb Mari, o Hugo da Bottega Bolognese,  o Claudio... Ainda faltam tantos. Amanhã vou ao Joan, ao François, irei visitar a Paloma, que tem uma loja linda e o José Luís, da Babel - uma livraria e um livreiro que me fazem tanto pensar na Caroline e na Galileu, apesar do oceano de diferenças - o Jaume da Bodega Ca'n Rigo, o façanhudo da Bodega Belver que nem a S. C. conseguiria fazer rir e por quem desenvolvi uma ternura mesclada de admiração - e inveja -, a Bodega Morey.

O Es 20 de Bonaire fechou. Agora é uma loja de decoração / mobiliário chic. Volto a Palma, volto a casa e penso na quantidade de sítios que frequentava e fecharam: o Ca na Chinchilla, o Abracadabra, a Sifoneria... Não há melhor prova de que em Palma estou em casa do que esta: também as famílias diminuem de um lado e crescem do outro. 

.........

Chego a Palma e apanho uma constipação (misturada de episódios de alergia) de caixão à cova. Acontece-me tantas vezes em Genebra, essoutra casa. Como se precisasse desta necessidade de me enfiar na cama debaixo de uma pilha de cobertores para ter a certeza de que sim, estou em casa. Sim, estou, estúpida carcaça. Não precisas de me fazer cenas de ciúmes só porque desta vez andei longe muito tempo (mentira. Estive cá em Março).

........

As ruas turísticas de Palma já estão cheias, mas ainda não a abarrotar. Ainda se consegue pedalar, desde que se vá devagar e atento. Daqui a duas semanas isso será impossível. Com sorte terei trabalho nessas semanas e só verei Palma sextas à tarde e sábado de manhã. 

O meu P. reclama: trabalho tens sempre, parvalhão. Tenho, P., eu sei, mas de vez em quando preciso de ver outras paragens e de ser pago para isso.

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A mise en place do computador avança. Lentamente mas avança. O telefone é mais complicado. A burra está resolvida: "não desfazendo" (aspas porque cito) o Ivo é o melhor mecânico de bicicletas do mundo. 

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O raio do telefone tem sete meses, bolas! Suponho que os problemas venham dos arraiais de pancada que apanhei nas saídas de Saint-Martin. Já não tenho garantia, porque o abri em Marigot. Vá lá, pelo menos essa "reparação" serviu para alguma coisa. O telefone ficou exactamente na mesma, mas a garantia foi-se. E com ela cinquenta paus, não fosse o senhor queixar-se de ter "trabalhado" por nada.

.........

Parágrafo importante sobre o vitello tonnato: é um prato do Piemonte (como toda a gente sabe, um sítio que regurgita atum e anchovas).  Consiste em finas fatias de vitela, frias, cobertas por um molho (na verdade uma espécie de maionese) que inclui os dois peixes acima mencionados e mais meia dúzia de ingredientes. É relativamente simples. Só tem duas ou três dificuldades:

1 - A qualidade da carne e respectiva cozedura (tem de ser com alguns legumes e durante muito tempo);

2 - A espessura das fatias de carne: entre o carpaccio e o scallopini;

3 - A delicada proporção de atum e anchovas na maionese;

4 - A delicada proporção de limão e alcaparras nessa mesma maionese;

5 - A delicada proporção de especiarias na... adivinhem;

6 - A simpatia do serviço e a beleza do local.

O cozinheiro e restante pessoal do Gustar ultrapassam estes obstáculos com uma perna às costas e apresentam um prato sublime. É sempre o que como, quando aqui venho após uma ausência de Palma.

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Acrescente-se a tudo isto um par de hierbas secas. Ou seja: vou para debaixo da minha pilha de cobertores de alma cheia.

Há melhor justificação para um dia? Para uma vida?

De novo novo

Não tardará nada e eu serei de novo novo, jovem cheio de ideias sobre o passado. Refarei o caminho no sentido inverso, mas pela primeira vez. Cairei nas mesmas curvas e contracurvas, começando pela queda e acabando de pé a olhar para elas. Como faço agora, na verdade, mas olhando para trás e não para a frente, como será em breve, quando for de novo novo.

13.6.24

O Sul de ti

Descontrolado, o tempo volteja(*) em torno do corpo. Perdeu ou o norte e está desnorteado ou o oriente e está desorientado. Talvez devesse estar desolado, também, por não encontrar o Sul. O Sul é o mais desejado dos pontos cardeais. 
- Vou para o sul - dizes-me. E eu respondo: 
- Para o sul de quê?
- Não sei. É como se vivesse no pólo norte e todas as direcções fossem o Sul. 
- Todas são, quando se vive no pólo norte. Mas tu não vives. Estás a sul de umas terras e a norte de outras. 
- Vou para o Sul de mim. 

Longo silêncio. 

- No sul... - Pausa.  - Suspiro. - Pausa - Deitar-me-ei durante uma tempestade de areia... 
- Isso é o contrário do que se deve fazer. 
- ... E ficarei soterrada - prossegues como se não me tivesses ouvido. - Quando a tempestade acabar desenterrar-me-ei... 
- Desarear-te-ás... 
- ... E tudo estará coberto de areia. Tudo será igual e tudo será diferente. O sul de mim é assim. Tudo igual e tudo diferente. 
- Aonde ficarei eu, nesse teu sul de ti? 
- Aonde sempre estiveste. És o meu Norte de mim.

(*) - Inspirada de um verso de Yeats.

12.6.24

Diário de Bordos - Aeroporto de Lisboa, 12-06-2024

Ler livros à noite e no Inverno viajar para sul, sugeria Eliot. Segui esse conselho com uma certa frequência. Passei alguns anos sem invernos, a tal ponto que uma vez em Abril fui à Suíça e pedi à S. que me levasse a um sitio com neve. Estava com saudades do frio. Lembro-me dos meses que passei em Nakhodka (temperaturas entre menos vinte e cinco e mais doze) e penso que tal como não seria capaz de viver em altas latitudes não poderia voltar a viver sem invernos. A conta que Deus fez não foram três. Foram quatro: Verão, Outono, Inverno e Primavera. Por muito bom que pareça, não se pode passar o ano de calções azuis e pólo branco. Calças e camisa de mangas compridas, casaco ou camisola fazem falta. 

Como a solidão e a companhia: nem sempre uma nem sempre a outra.

.........

O avião atrasou mais de uma hora. Acontece muitas vezes, neste voo. Os atrasos do dia vão-se adicionando. É possível que desta vez fique por aqui. Às vezes é mais. Refugio-me num café (Grandcafé, se por acaso) e bebo vinho a um preço revoltante.

Há alguma coisa que não seja revoltante, num aeroporto?

.........

Conheci recentemente a G. I. e leio-lhe os livros, duas breves recolhas de poesia. A primeira é um tratado sobre as relações do corpo com a pele e o tempo. Fossilizadas, a acreditar no título, que o conteúdo desmente. Leio em ziguezague, de trás para a frente, da frente para o lado, do lado ora para trás ora para a frente. O livro tem uma lógica, uma progressão quase circular. Começa e acaba com "ontem". Lê-lo aleatoriamente faz ressaltar esse percurso. "Lembro o futuro no caminho de ontem / (...)" "Na pele, um anel de pedras pretas / o caminho de ontem."

Respectivamente do último e do primeiro poemas. Como se a pele e o corpo fossem um círculo cujo centro é o tempo.

Como se?

11.6.24

Vida, biologia

Nada a fazer, como dizia Beckett. Sou filho adoptivo da vida e nunca encontrarei os meus pais biológicos.

Como como

Como cerejas. Como: advérbio e verbo. Vida, acção. Vida: como cerejas. Acção: como cerejas.

Como: como a vida como como cerejas. Vida: como cerejas como como a vida. Cerejas: entre a vida a noite e o sono.

Não há hiatos entre a vida e a noite.

Não há nada. Seriam uma e a mesma coisa, não fossem os advérbios ou os verbos, como como.

Vim, vi, vivi

Os equilibristas que andam em cordas bambas por cima de precipícios usam umas grandes varas para os ajudar. Em francês, essas coisas chamam-se balanciers. Não sei o nome em português e agora o Google está fechado, fecha a horas escandalosamente escandalosas. Pouco importa. Essas varas servem para os ajudar a manter o equilíbrio. 

Viver consiste em atravessar muitos e profundos precipícios. Pensar também. Precisamos de balanciers para viver e pensar, duas coisas que estranhamente andam sempre juntas. Por mais que as queiramos separar: viver, pensar e manter o equilíbrio entre elas. 

Isto é: separar viver em dois. Vi e ver. O que vi, o que vejo. O que devo ver. O que vi. Talvez viver seja essa mistura do que vi e do que vejo. Talvez ver seja consequência de viver. Parte de. Talvez o que vi seja parte do que vivi. Metade.

Talvez vi, vivi, viver, ver sejam gomos da grande laranja que a vida é: "meu fruto de morder, todas as horas."

10.6.24

Um leitão no forno

- Viva. Como estás?
- Olá. Cansado, angustiado, ansioso, triste, zangado, incapaz de me concentrar e descontente.
- Há-de passar. Ciao, vou ali a casa da minha prima, tem um leitão no forno. 

Pele, corpo, tempo

O meu corpo é uma associação de membros e órgãos que não se entendem lá muito bem. Tento coordená-los e eles insistem em ir cada um para seu lado. É só graças aos tendões e às articulações que se mantêm juntos.

E à pele, claro, essa pele que tu habitas e teces pacientemente, todos os dias, todo o dia. À noite aplicas-te: fazes-me dela o relvado que os teus dedos escavam, percorrem, exploram, cada um deles em forma de ponto de interrogação. Essa pele que te ofereço, expectante, mantém-me inteiro, uno. É tua. 

.........
Abrigo-me debaixo desta manta de retalhos: retalhos debaixo de outros, outros que és tu, mesma pele, mesmos dedos, mesmo frio, mesma hesitação. As vastas planícies da pele oferecem-se-te, horizontes embrenhados um no outro. Vastas planícies: até onde a vista alcança. Até onde o tempo chega. 

.........
O tempo é um comboio que vai inventando paragens à medida que avança. 

9.6.24

Língua, eu

A minha pátria é a língua portuguesa?

Não. A língua portuguesa sou eu. Eu sou a língua que falo, escrevo e leio.

8.6.24

De para onde vou, raízes

Nómada de mim, oscilo como um junco em busca de raízes, à mercê de ventos que eu próprio criei e de outros que me chegam de fora. Ventos desencontrados, ventos cruzados, ventos com e sem chuva. Raízes de mim. Raízes nómadas. Sou de onde estou e de onde venho mas não sei se sou de para onde vou.

7.6.24

Transferências, transcendências

Aonde quer que me sente, só oiço pessoas a falar de futebol. Abro uma página de um jornal e leio dez vezes a expressão "alterações climáticas". A transcendência não desapareceu. Foi simplesmente desaguar a outras praias - admitidamente mais tristes e pobres.

Definição - memórias, sonhos

As memórias - tal como os seus primos direitos, os sonhos - são o presente a reconstruir-se, com as patines do passado ou do futuro.

Diário de Bordos - Lisboa, Portugal, 07-06-2024

Faltar: estar em falta. Faltar aos deveres. Já o outro falava disso, mas não tinha ainda o Távola à disposição. Eu tenho. Resultado: oiço o Romeu Tristão no baixo (está cem vezes melhor do que estava no Tati), o João Moreira no trompete - maravilha simples - e outro moço na viola, tão bom como os anteriores. E um gajo não consegeu impedir-se de pensar «Porra! Não fiz um caralho hoje e estou cansado como se tivesse tido a Marilyn Monroe todo o dia debaixo (ou por cima, ou ao lado) de mim. «Ir ao mar cansa», dizem-me. «¡No jodas! Já fui ao mar dois milhões de vezes e não saí tão cansado.» A ver.

.........
O jazz calmo e apaziguante do João Moreira (trompete).

.........
Mulher vestida com um grande decote nas costas e a a parte de trás do soutien à vista: não. Não dá vontade de desapertar o coiso e é para isso que eles foram feitos: para serem desapertados com um gesto hábil. Ou inábil, depende.

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Uma gorjeta é dinheiro que nos cai do céu e deve ser gasto no inferno rapidamente.

(Ambos estão dentro de nós.)

...........
A rapariga - jovem - está à minha frentre, de costas para mim. Vejo-lhe os cabelos - suspeita mistura de encaracolados e lisos - a t-shirt (feia. Branca com motivos que não percebo se eram de rosas se de morangos) e as nádegas, que se esponjam lindamente no banco. Saia curta, ajustada ao esplendor.

Não me é difícil imaginar aquele rabo esponjado noutro sítio. Fosse eu pintor e aquelas coxas estariam plasmadas até ao infinito. Enfim, nádegas.

- As coxas: o rabo:
- Os braços: o rabo;
- Os cabelos; ....

.........
Bom jazz é a melhor  forma de tornar audível as «coisas» do nosso interior.

........
Há uma mão que a acaricia. Apercebo-me de que é a dela, por causa dos anéis e pulseiras. O seu companheiro vira-lhe as costas, absorvido pela música e ela acaricia-se a cintura. 

Como se fosse eu.

.........
Esta mistura de linhas rectas e de curvas é o que faz da vida o que ela é: o desejo de a endireitar por vezes e o de a tornar menos rígida outras.

........
Irei para casa quando a necessidade de escrever for maior do que a de beber música. 

..........
Outra fonte de patriotismo: ouvir jazz no Távola.

4.6.24

Fantasmas, lei da conservação da energia e outras deambulações sobre o cansaço

Há de certeza uma lei na física sobre a conservação do cansaço. Isto é: sobre a equivalência do cansaço à energia que o gerou. A energia transforma-se em trabalho e em cansaço e de repente, numa espécie de fenómeno físico, este sobrepõem-se àquele é o trabalho desaparece da equação e fica só a fatiga.

É por isso, suponho, que desta há vários tipos, dos quais destaco dois: a física e a emocional. Ou seja: a lei da conservação da energia aplica-se. Uma pessoa gasta energia numa determinada actividade, desta resultam consequências e fatiga, ao fim de algum tempo os resultados saem de equação, ficam só os cansaços, um gajo pergunta-se "como é isto possível?" e a resposta vem sob a forma de cansaço intangível.

O dia chega ao fim, um gajo deita-se, os cansaços reagrupam-se, reconstituem-se, começam a sair-lhe pelos poros e a operação - que nesta altura já não sei se é química se física - refaz-se no sentido inverso: os resultados ficam, a fatiga dissipa-se e transforma-se numa indescritível melancolia.

A lei da conservação da energia confirma-se de novo, maravilhoso milagre quotidiano, nocturno, arrebatador. Há alguém na sala que não acredita em fantasmas? Eles existem. São o resultado da transformação da energia do dia. Saem-nos da pele em hordas muito calmas, controladas, lentas como algmas exibições hípicas de dressage. Basta dar-lhes oportunidade para isso e estar atento. Basta procurar os restos do dia como os mendigos procuram comida no lixo. Basta pensar que dormir é a dádiva das dádivas e o caminho do sono não é só nosso.

É dos fantasmas também. 

1.6.24

Patriotismo, patafísica

O patriotismo - ou melhor: os patriotismos, são muitos - só têm três fontes: 

- Papilas gustativas;

- Olhos (ou paisagens, se preferirem);

- Memória. 

Todas as outras são do domínio da patafísica. 

Pequenos restos de amores grandes

Acontece-me por vezes pôr os pequenos trocos num jarro e deixá-los ir crescendo até o jarro começar quase a rebentar e depois pergunto-me "e estes restos de amor, estes farrapos que não servem para ninguém, que ninguém quer, aonde devo pô-los? Aonde podem ficar sem que rebentem, quase?"

31.5.24

Diário de Bordos - Aeroporto de Orly, Paris, França, 31-05-2024

Não sei se escrevo porque não tenho mais nada que fazer se por ter mesmo qualquer coisa a dizer. Tendo mais para a primeira hipótese, apesar de a saber falsa: podia ler, por exemplo. Tenho a Rossetti («Somos un cuerpo herido», só o título merece respeitinho e admiração) para terminar, que já se arrasta há um bom par de meses; uma colectânea de contos do le Clézio, da qual li o primeiro, magistral; e mais meia dúzia deles. Deixei de ser um leitor compulsivo e passei à categoria de comprador compulsivo. Ou transportador compulsivo: sou incapaz de os deixar para trás (desta vez creio que deixei os Cesaire, mas não tenho a certeza. Vontade não me faltou).

.........
Salto de aeroporto em aeroporto com a mesma frequência com que salto de porto em porto, mas não com a mesma alegria. Oito horas metido dentro de um colete de forças voador é uma violência de longe superior às trinta que passei à saída de St.-Martin. Ou seja: estar quieto é mais penoso do que não parar de fazer a carcaça trabalhar, no meio de squalls, aguaceiros, rajadas súbitas, subidas e descidas de vento sem qualquer espécie de pré-aviso, vagas sem lógica e por aí fora. 

........
Seis horas de espera em Orly. Quando acabar a De Passagem faço uma sobre os aeroportos. Ontem o de Fort-de-France estava lindo, ao fim do dia.

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Esqueci-me das injecções na Martinica. Penso que só há duas coisas de que nunca me esqueci: a cabeça, porque tenho o pescoço; e o meu nome. Mas deste não estou seguro. Esta distracção é-me cada vez mais insuportável., apesar de não ter a impressão de ela ser cada vez pior. A minha paciência para mim é que é cada vez menor.

[Adenda: esqueci-me também do programa de navegação do Quinn. Provavelmente a melhor coisa em que gastei cento e cinquenta euros nos últimos duzentos anos.]

..........
Faço um desvio impromptu para a analogia entre o café solúvel e os problemas insolúveis. São muito parecidos. Um problema insolúvel não é um problema e um café solúvel não é café.

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Vi (finalmente?) o Dune, no avião. O filme é longo, chato  e intrincado. Infelizmente as intricracias não prevalecem sobre a duração e a chateza. Ficam só estas: longo e chato.

Depois revi as Pontes de Madison County, que não é nem longo nem chato, muito antes pelo contrário. È magnífico. Uma lição de como fazer um melodrama sem cair na melice.  

30.5.24

Diário de Bordos - Aeroporto de Fort-de-France, Martinique, DOM-TOM França, 30-05-2024

As despedidas foram rápidas, como convém a pessoas habituadas a elas. Duas cervejas no Mango com o Stefan, almoço a bordo do T. com o respectivo proprietário e pai - que me me deram boleia para o aeroporto - mais o Ben e a Gab, adoráveis como sempre. Sesta rápida no poço do T., duche rápido no B. e aqui me eis no aeroporto de Fort-de-France com uma quantidade de dinheiro irrisória, uma descomunal quantidade de sono, quase três horas de espera e vinte mil perguntas em torno desta pobre cabeça, coitada. 

Deixei o S. D. a bordo do navio, final inglório de uma época nada diferente. Uma embarcação que estava «em condições, como nova, bem tratada» (aspas porque cito) revelou-se um poço de problemas. E não foi só por causa de mim ou das tempestades por que passei. A marca Jeanneau desceu mais um bocadinho na minha consideração, coisa que me parecia não impossível mas pelo menos difícil. Barcos para piqueniques de fim-de-semana, basicamente.

Tal como eu, que de tão desfeito física e emocionalmente me pergunto se dou para mais. Não posso sequer dizer que estou contente por ver este projecto longe. (Ainda não o está, para começar.) Estou meio contente e meio triste. Já não mereço cenas destas ao fim destes anos todos. Enfim, mais um degrau na curva de aprendizagem, que é uma escada interminável, como toda a gente sabe.

........
Em breve estarei no «meu» P. Paradoxalmente parece-me a única coisa sólida nesta minha vida. Não que me faltem propostas de trabalho - tive uma ontem bastante atraente e outra hoje de madrugada menos atraente porque mais curta no tempo mas também interessante. Mas enquanto não tiver o P. a funcionar e a render não consigo olhar para mais nada. (Mentira. Consigo.)

.........
Não é o momento para tomar decisões. Uma das regras básicas da navegação em solitário é: gere o teu cansaço. Não tomes decisões se não estiveres em condições de o fazer. Antes pôr-te à capa, correr com o tempo ou parar num porto qualquer. Não é hora de decidir seja o que for.

Excepto, claro, que vou estar na festa da Ler por Aí. Se as linhas aéreas não decidirem outra coisa, lá estarei.

........
Estou cheio de sono. Espero que ele se mantenha até ao avião.

(Cont.?)

Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 29-05-2024

Uma longa cadeia de dias complicados está quase a chegar ao fim. Em breve o cansaço físico cederá o seu lugar ao cansaço emocional, que demora sempre mais tempo a dissolver-se na poeira dos dias. Até aqui têm andado os dois juntos. De braço dado, para usar uma fórmula bastante redutora. Tanto um como outro espalham-se pelo meu corpo todo como se fossem siameses. Não são.

Imobilizo-me regularmente para os ouvir sair da pele.

(Cont.)

28.5.24

Cansaço, decénios

Há cansaços bons e cansaços maus. Aprender a distingui-los é uma simples questão de tempo. 

Mede-se em decénios, se por acaso.

Multas

Devia haver multas para excesso de cansaço como as há para excesso de velocidade, por exemplo. Escapar-lhes seria a única forma de extrair prazer da exaustão.

27.5.24

Assimetrias, eixos de simetria e mulheres bonitas

Acabei de lanchar: pão feito ontem, manteiga da Bretanha, goiabada, rum Madkaud, uma ou outra rodela de chouriço daqueles de pacote. O almoço só correu bem se excluirmos o preço. Vinte e três euros por um prego e duas canecas de cerveja é demasiado.

Ainda por cima vou ter de sair para jantar (e para desanuviar). A ver, como repete o ceguinho a quem o quer ouvir.

.........

Comecei uma conversa sobre o tema da assimetria, mas não a prossegui. Falar de simetria nas relações - sejam elas profissionais, amicais, sociais, familiares, amorosas, desportivas ou outras - é como discutir o monstro de Loch Ness, os chemtrailers ou a vida sexual dos sete anões: só me interessa de um ponto de vista académico. Na prática nada disso existe: nem simetrias nem chemtrails nem os sete anões. 

Não há simetria em relação nenhuma, qualquer que seja o eixo de simetria que se escolha. Falemos, por exemplo, do conhecimento: eu percebo mais de navegação do que qualquer uma das pessoas que me contrata - o que é normal, porque senão não me contrataria - e menos do que qualquer dessas pessoas da sua área profissional. Se o meu proprietário (fórmula idiomática) for médico, engenheiro, contabilista ou engenheiro de foguetões eu não vou contestar aquilo que ele diz sobre essa parte do conhecimento humano. 

Já o inverso não acontece. Por uma razão que desconheço totalmente um cientista de foguetões pensa que percebe mais do que eu da pilotagem de uma embarcação de vela, por muito que só as tenha visto no cinema. 

Assimetria impossível de resolver.

Outra: um proprietário - podre de razão - pensa que nos paga para fazermos um trabalho bem feito. Acontece que ele não sabe diferenciar os vários graus de "bem feito". Para ele, o critério é binário: se partiu está mal feito, se não partiu está bem feito.

Não é preciso ser um génio para se saber que este critério não é fiável. Fittipaldi teve muitos mais acidentes de viação do que a minha querida Mãe e não passaria pela cabeça de ninguém sugerir que a senhora conduzia melhor do que o brasileiro. 

O problema numa relação, seja ela de que tipo for, não é eliminar as assimetrias. Essas existirão sempre. A questão é atenuar-lhes as consequências. O âmbito, por assim dizer.

Outra questão é saber escolher os eixos de simetria dos quais falamos. Se para o meu proprietário (figura teórica, insisto) o eixo fundamental é o financeiro e para mim o tal eixo de simetria é outro qualquer podemos discutir durante horas: não chegaremos a conclusão nenhuma. 

Por isso, para mim o tema das assimetrias é crucial. Sobretudo, a escolha do eixo de simetria sobre o qual queremos encavalitar-nos.

E do qual, mais tarde ou mais cedo, cairemos.

Derivar e pairar entre palavras

Já aqui um dia expliquei a diferença entre derivar e pairar. Ambas consistem basicamente na mesma coisa - estar no mar sem meio de locomoção - mas a deriva é involuntária e pairar não. Por exemplo: se eu arrear os meus panos, se parar o meu motor, se puser os remos em posição de descanso fico a pairar. Se o meu mastro cair, se o motor avariar, se os remos se partirem fico à deriva. No mar a diferença é clara. Na vida nem tanto. Neste rio de palavras que agora me atravessa - ou eu atravesso -, onduleante como um rio africano, eu derivo ou pairo? Deixo-me arrastar ou é ele que me leva? Do meu bote (vamos imaginar que é uma almadia, em memória das minhas aventuras no rio dos Bons Sinais) vejo as largas extensões de palavras em cada uma das margens. Não sei aonde pus a pagaia - perdeu-se? Caiu? Está no fundo e recuso-me a olhar para ele? Talvez bastasse baixar-me e apanhá-la e dar uma direcção à minha canoa. Talvez não, talvez não esteja lá. Hesito e deixo-me levar pela corrente, fraca porque o rio é largo e preguiçoso, tem demasiados meandros, arrasta muitos sedimentos. Vai pesado. As palavras olham para mim com uma indiferença notável. É como se eu não existisse. Que nome dar a esta assimetria? Eu vejo-as tão bem... Às vezes até me parece que me acenam, me chamam, dizem-me «Pára essa porcaria e vem passear para aqui connosco.» E eu ali, abúlico, sem saber se derivo se pairo, se paro ou se continuo. Penso: «Isto só me acontece com as palavras. Com o mar, por exemplo, não. Sei perfeitamente de onde venho e para onde vou. Só nesta interminável e palavrosa planície me perco.

Interminável, palavrosa e silenciosa. As palavras não falam. 

26.5.24

Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 26-05-2024 / II

Estou numa fina linha entre "Estarei em Lisboa dia 31 ou não?" e penso que quem escolheu esta vida de ausências fui eu.

O próximo livro deveria chamar-se "A via da ausência". Ou "Uma vida de ausências". Ou: "Ausências. Uma vida".

........

A puta de chuva recomeça. Nunca pensei ter tanta influência na meteorologia. 

Meteorologia? Não sejas modesto: na vida em geral.

Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 26-05-2024

Continua a chover desalmadamente. O dia está feio, nebulado, cinzento, paralisado. Nada nem ninguém se mexe. Sinto-me no norte da Europa mas vejo-me em tronco nu e de calções e afasto imediatamente tão funesta ideia.

Funesta? Não tenho a certeza. Aproveitei para arrumar o saco e apercebo-me de que estou com saudades da roupa de frio, que tão pouco usei durante os últimos badanais. 

Este regresso a casa de avião entristece-me. Preciso muito de umas semanas no mar.

.........

Também preciso de ir ao aniversário da Ler por Aí, mas ainda não sei se conseguirei. Vai ser suspense até ao último minuto. A razão e a emoção intimam-me a esperar não conseguir; as mesmas razão e emoção dizem-me "Não percas a esperança." Dou mais peso ao primeiro conjunto e deixo o segundo em música de fundo.

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Hoje aqui é dia das Mães. O Marin Mouillage está fechado, como de costume. Apanhar aquilo aberto é ganhar à lotaria; o Liv e o Kokoa também (este por ser domingo, não tem nada a ver com as Mães); o Mango só tem um menu a cinquenta e cinco paus. Acabo no Cayali, que tem música ao vivíssimo - esta malta gosta de ajudar os fabricantes de aparelhos auditivos - e também só tem menu, ao mesmo preço do outro. A foda igual vou ao Mango, a música aos gritos dá-me cabo da paciência. 

Como se a porra da chuva não fosse suficiente para me lixar o dia.

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Resumo: acabo no L'Annexe, que é uma merda como o Mango mas ao menos pode comer-se à la carte. E tem música aos gritos, vinda do lado. Chama-se a isto uma enfiada de triunfos. 

Pelo menos posso comer e retornar à normalidade, depois destas três semanas difíceis. 

Três? Não. Quase quatro.

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Estranhamente, sinto-me a sair reforçado destas provas. Continuo a dar conta do recado, com tripulação ou sozinho. Continuo a gostar do que faço. Continuo a saber que amanhã não é a véspera do dia em que mudarei de vida. Continuo a pensar que um dia bom dos meus vale dez dos maus, meus ou de outros. 

Em suma: continuo a estar grato ao conjunto de deuses e diabos que hoje me trouxe ao L'Annexe, com "frio" (aspas porque estão vinte e oito graus centígrados), céu cinzento e uma multidão a festejar as respectivas mães. 

Enquanto houver mulheres bonitas, rum e vinho tinto há vida. E mar, claro.

Variações sobre um tema

Durante muitos anos pensei que a única razão para ter saído de Portugal era arranjar uma mulher, coisa que não conseguia de todo no nosso bem-amado país. Durante os primeiros anos no estrangeiro a situação manteve-se, o que explica que eu não tenha feito imediatamente a relação estrangeiro = mulheres. Ao fim de dois anos isso mudou radicalmente e nas dezenas de anos que se seguiram acordava todos os dias convencido da bondade da minha decisão. Voltei - «irrevogavelmente» - para Portugal em 2002 e – por inércia, pura inércia – continuei a não poder queixar-me.

Agora, por razões que não vêm ao caso, apercebo-me de que a minha incompatibilidade com a mãe-pátria é muito mais profunda, passem-me o elegante jogo de palavras. Mais profunda, freudiana e estocolmiana: quero, decididamente, viver em Portugal. Tal como quero ganhar o totómilhões, de resto. Basta-me começar a jogar. Ou arranjar um emprego a escrever artigos, falar na rádio e ser pago para aparecer na televisão. Por muito tortas que sejam as raízes, o programa é fácil. Isso das mulheres é uma nuvem que passa, um desvario, uma ilusão que ao fim de quarenta ou cinquenta anos se desvanece. Bem sei que o único país que me aceita de braços abertos (não tem pernas) é o mar, mas isso não é para esta equação chamada.

É uma equação que tem de um lado uma impossibilidade e do outro outra. Tudo o que perturbe este frágil equilíbrio deve ser excluído liminarmente.

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Uma das vantagens de se ter várias vidas é que se pode ter várias mulheres da vida.

Bolas, não. Falta ali um possessivo: várias mulheres da minha vida.

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«Por detrás de cada viagem esconde-se uma intenção erótica.» (Agustina Bessa-Luís, de memória.)

Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 25-05-2024

Regresso ao Marin e descubro que afinal adoro isto. Os lugares não existem sem nós. São o que somos, o que estamos aonde estamos.

(Claro que a diferença de preços com St. Martin é horripilante? É, excepto nos restaurantes: não há diferença. Uma refeição custa trinta ou quarenta euros, ponto, seja aqui ou lá. Mas nos supermercados sim, há uma diferença enorme. Resumindo: todos os lugares são bons, depende de nós gostarmos ou não de nós.)

ADENDA: Isto não é inteiramente verdade. No Bistro de la Mer consegui comer por vinte e cinco, mas não tenho a certeza de ter acabado com um rum, como é de norma.

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Mais um elogio do Andy, o meu vizinho inglês: «Tu trabalhas muito! Espero que o teu proprietário o reconheça.» «Veremos, Andy, veremos. Como diz o cego. (em inglês não posso dizer ceguinho...)»

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Se não tivesse testemunhas do trabalho que tenho feito, as dores musculares e nas costas tão pouco ajudariam. Ninguém as vê.

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Não chovia no Marin há três semanas. Chego, preciso de sol e tempo seco e que acontece? Adivinharam: começou a chover.

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Outro traço do carácter dos portugueses que me irrita bastante: o não-dito. O hábito de não-dizer as coisas, que algumas vezes - erradamente - confundo com cobardia. A palavra chave é algumas. Não é sempre cobardia. É só às vezes.

(Isto vindo de quem tenta dizer o menos possível quando escreve pode parecer estranho. Não é: os silêncios têm planos e conotações, como as palavras. O silêncio é uma das formas da palavra. Há-os justos e os desadequados, é tudo.)

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Pequeno intervalo para um elogio ao rum Madkaud, que não conhecia. Comprei hoje, para experimentar. Não é mau nem é bom, antes pelo contrário. Vale integralmente os quase dezanove euros que custa (aqui. Em St.-Martin compra-se Mount Gay Eclipsepelo mesmo preçoe émil vezes melhor). Diz que a distilaria foi criada pelo senhor Félicien Madkaud, descendente de escravos, em 1895. A distilaria nasceu numa habitation (o equivalente martiniquês do château francês) que pertenceu ao primeiro governador da ilha. A família do senhor tinha bons contactos, aparentemente.

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Os trabalhos que tenho vindo a fazer seriam mil vezes mais fáceis de fazer a dois. Sou, contudo, forçado a reconhecer que prefiro fazê-los sozinho. Não sei porquê, mas sei que não é por masoquismo. Talvez as negativas sejam mais fáceis de descobrir do que as positivas. São superiores em quantidade, não é?

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Hoje pensava na expressão «verdade seja dita» - foi quando pensava na mania portuguesa de não-dizer - e apercebi-me de que se fôssemos a dizer a verdade toda - ou as verdades todas - nunca mais saíriamos de onde estamos. Há uma quantidade insuspeitada de verdades espalhadas por aí, em nós, nos outros. Mais vale seleccioná-las.

E depois dizê-las, couillons.

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Sempre trabalhei muito. Não é uma qualidade. Nunca fui muito adepto de testes de inteligência (é como tentar entrar numa discoteca da moda e ser «barrado») mas aposto que se um deles integrasse esta minha incapacidade de ver trabalho por fazer me daria imediatamente uma nota negativa. 

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Foi preciso insistir um bocadinho mas a marina pôs-me no mesmo pontão - quase no mesmo lugar - aonde sempre estive aqui. Ou seja: voltei para casa.

25.5.24

Pequeno diálogo sobre a verdade. Ou: viva a tolerância, abaixo o relativismo.

- É preciso dizer a verdade.
- A verdade não existe. O tecto de um homem é o chão do outro.
- Estás a falar de moscas, não de homens.
- E qual é então essa verdade que tanto queres apregoar?
- A coxa de frango do mercado Lamont, mo Marin, é a melhor coxa de frango do mundo. Em segundo lugar vem o frango boucané da paillote Cayali. O  boudin créole da loja Au bon boudin, no mercado do Marin, é o melhor boudin créole do universo.
- E que concluis tu dessas verdades a que chamas universais?
- Incontestáveis.
- ...
- É impossível não reconhecer a existência de outras verdades e é igualmente impossível não reconhecer que as minhas são mais verdadeiras do que as dos outros. Se não fossem, não as teria escolhido como verdades.

(Post dedicado ao meu amigo V., com quem espero um dia provar o que digo.)

Labirinto

O mais eficaz dos labirintos é o mar. Tem milhares de saídas e nenhuma delas é visível.

Diário de Bordos - Le Marin, Martinique, DOM-TOM França, 24-05-2024

De novo no Marin, a dar início à última parte desta longa viagem - começou a catorze de Dezembro e terminar-se-á no fim deste mês de Maio (se Deus quiser e puder). Que viagem!

Mas ainda é cedo para falar dela. Ainda não acabou. Está quase, mas quase é uma palavra que engana muito, como todos sabem.

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Por ordem cronológica inversa: 

Tenho um vizinho inglês, ex-skipper profissional. Há pouco ofereceu-me uma cerveja e disse-me: «Pára! Já fizeste que chega por hoje.» Como qualquer pessoa - suponho - gosto de ver o meu trabalho reconhecido. É paradoxal, porque de maneira geral a opinião dos outros acerca de mim interessa-me pouco. Porém, uma coisa sou eu e outra o meu trabalho, coisa na qual ponho brio e tento fazer o melhor que sei e posso. Há certamente melhores do que eu, mas também os há piores e fico contente quando vejo um colega reconhecer o que faço - e para mais um inglês, povo que regra geral sabe do que se trata quando se fala de ser um skipper profissional.

É uma das coisas que me magoa no povo português - somos avessos a reconhecer a qualidade do trabalho alheio.  Não sou o único a dizê-lo - basta perguntar aos milhares de jovens que todos os anos abandonam o país (tal como eu fiz, de resto. Podres de razões). Tenho uma leitora regular, uma das melhores artistas portuguesas, na minha opinião, que diz o mesmo. Não é vaidade - e se for paciência. É vaidade boa. "Nem só de caviar vive o homem."

Antes disso:
Ontem fui mandado parar pela Alfândega francesa, num local particularmente estúpido (chama-se Passe du Fou, é a passagem entre a ponta do Diamant e o rochedo do mesmo nome). Vieram quatro homens e viraram-me o barco do avesso - bastante incompleta e incompetentemente, é preciso dizê-lo. Apanharam uma concha de tartaruga que a S. C. me tinha pedido para levar para Lisboa e mandaram-me ir fundear à Anse Caritan. Dizem que é de uma espécie protegida. Demorei duas horas a chegar, o S. D. não passava dos três nós. Não me multaram por causa da concha, mas sim por não ter feito a clearance à saída de St. Martin. Resultado: uma multa de cem euros que a S. simpaticamente pagou, uma eternidade a andar à procura de um ATM para lhes pagar - tinha de ser em dinheiro, não têm cartões nem aceitam transferências nem nada. Fundeámos em Caritan e quando chegou o momento de pagar levaram-me a Sainte-Anne, que é mesmo ao lado, levantar dinheiro. A única caixa da aldeia está avariada «há seis meses», informa-me muito correctamente um senhor. Os três homens que estavam no semi-rígido comigo pediram informações ao chefe, que nos mandou para o Marin. Por sorte ainda tinha os cem euros na conta. A palhaçada acabou já passava das onze, o que para quem acaba de passar dois dias e meio à bolina cerrada e só pensa em duas coisas - uma cerveja e dormir - é demasiado tarde. (O «chefe» foi bastante simpático e ofereceu-me não uma mas duas cervejas, eu não tinha nenhuma a bordo).

Não é a primeira vez que sou vistoriado e compreendo que seja preciso. Só podiam era ter encontrado outra vítima.

Antes disso: 
Dois dias e meio extenuantes. Ou melhor: um dia e meio extenuante e um dia (mais coisa menos coisa) relativamente calmo. Os meus movimentos a bordo perderam fluidez, mas no resto continuo válido. O cansaço foi físico - as manobras de rizar, desrizar, enrolar a genoa, desenrolar a genoa, folgar a grande, caçar a grande, ajustar o rumo, marear os panos sucediam-se a uma cadência digna dos Tempos Modernos - mas nunca me senti farto, nunca me perguntei que raio de carga de água estou eu a fazer aqui. Pensei imenso, isso sim, naquele meu hábito de dizer a um cliente que não navego à bolina com mais de quinze nós de vento. O tanas, é que não navego. Põe-me um cargueiro, uma festa de aniversário da Ler por Aí ou outra coisa igualmente importante à espera e vais ver se não navego à bolina com mais de quinze nós de vento.

Antes disso:
Saio de St.-Martin após cinco meses e meio de Caraíbas e consegui não ir nem a Grenada, nem às Grenadines nem às BVI. É obra.

Pelo menos fiz uma operação que «o melhor SNS do mundo» ainda está para marcar - foi pedida pelo médico do Centro de Saúde de Cascais ao hospital Egas Moniz a catorze de Setembro do ano passado, com carácter de urgência - e convivi bastante com o meu filho. É muito e não se pode ter tudo. A Passevite está de acordo em adiar a exposição de fotografia, o P. para a semana tem as peças do leme, tenho dois netos lindos. A engrenagem vai encaixando. Excruciantemente devagar, é certo. Mas vai encaixando.

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Um Inverno assim-assim e mesmo assim bastante melhor do que o de tantas outras pessoas. Não vejo grande mérito nisto, tal como não vejo razão de orgulho ou de vergonha em ser português ou falar quatro línguas. É o resultado de um conjunto de coisas que não dependem de mim, no qual a sorte e o azar ocupam partes iguais.

(A paráfrase "azar para o qual trabalhei muito" ocorre-me. Ideia espúria e desprezível, claro.)

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Estou em dia de paráfrases. "Por que palavra começar, por que desordem" transforma-se em "por que palavra terminar, por que desordem". 

Jantei, acabei a garrafa de Mount Gay (estava quase) e sinto os cansaços a lutarem para me abandonar. Assim mesmo no plural: os cansaços novos e os destes dias não se misturam, são como a água de dois rios ou - mais visível ainda - a de um rio a do mar. Ao largo da foz do Yangtse vêem-se a muitas milhas da costa, uma castanha e a outra azul numa espécie de apartheid aquático. Parece que na do Amazonas acontece o mesmo, mas essa nunca a vi. Só sei de ouvir dizer. Diga-se de passagem que por muito que acredite no empirismo não penso que seja a única fonte correcta de informação. Não preciso de provar cicuta para saber que é mortal. (Verdade seja dita: se provasse nunca o saberia, a menos que fosse pouca e morresse devagarinho. Mas deixaria de saber, mais tarde ou mais cedo.)

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O S. D. volta ferido para casa. Mete água e perdeu a tampa do bow thruster, principalmente. O resto são pequenas mazelas de nada. 

É compreensível: a Jeanneau só fabrica barcos há duzentos anos. Ainda não teve tempo de aprender.

Sarcasmo à parte: comprar embarcações de recreio? Só para lá da Bélgica. Isto é: começar nos Países Baixos, como agora querem ser chamados. (Falas holandês? Não. Falo país baixense.)

Nb.: na Alemanha, saltar aquelas aberrações que dão pelo nome de Bavaria e Hanse. E os Dehler de alguns anos. (A França tem algumas excepções equivalentes no outro sentido, mas abstenho-me de as nomear: aparentemente  já nem no Outremer se pode confiar.)

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Creio que já aqui mencionei o piedoso estado da minha electrónica: o telefone a carregar faz pensar naquele haikai do Issa: "caracol / lentamente, lentamente / sobe o Fuji." (1 - Não sei de quem é a tradução. 2 - Cito de memória.) O computador tem as duas portas USB inoperacionais. Felizmente está é toda a electrónica que possuo. Mais houvera mais queixas haveria.

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A navegação em solitário tem uma qualidade que só por si a justifica: não é show off. É show in.

Para lá dos aspectos metafísicos: obriga-nos a planear cada etapa das manobras. Cada passo tem de ser antecipado e planeado. Não há melhores núpcias da improvisação e adaptabilidade com o rigor e a previsão. 

21.5.24

Diário de Bordos - Marigot, Saint-Martin, DOM-TOM França, 20-05-2024

Hoje choveu, finalmente. Comprei bananas e bebi um Mai-Tai. Não é o mesmo com que me embebedei em Oakland, mas que se lixe. Não se pode viver no passado. De qualquer forma é possível que volte a Oakland em breve e vá ao Trader Vic’s, que é aonde eles foram inventados. Vim jantar ao Bistrot de la Mer. É a primeira refeição decente (ou pelo menos num restaurante) desde há quinze dias. Entre as bananas e o jantar estive no Mains à la Pâte com o J., a P. – veio despedir-se, gesto que me toca bastante - e o S., um amigo do J. que conheci anteontem, velho marinheiro. Foi dono do WILLIWAW, o original, o do Peterson e isso chega para definir um homem.

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«O marinheiro é um fingidor.
Ora finge que é rico
Ora finge que é pobre
E chega a fingir que é amor
A dor que agora sente
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Escalope de frango à milanesa, acompanhado por um Malbec e pelo barulho das motas. Estes gajos devem ser a única população do mundo cuja morte me deixaria completamente indiferente. Todos os dias dois, por exemplo. Ou pelo menos que ficassem suficientemente avariados para não poderem voltar a sentar o cu num banco motorizado. O barulho que fazem é infernal, irritante, agressivo e – sobretudo – idiota. O St. chamava-lhes «doadores de órgãos». Desde que não dêem a cabeça, tudo bem. Claro que o mais interessante seria perorar sobre esta necessidade de correr riscos e chatear os outros, tanto maior quanto mais pobre é o país. Não sei. Neste momento não consigo pensar senão no que tenho de fazer amanhã: ir ao estaleiro TOBY (Time Out Boat Yard), pagar a marina, arrumar o bote e zarpar. Com um pouco de sorte antes das onze estarei a largar amarras. O plano é fundear em St. Kitts e depois prosseguir viagem de manhã cedo até à Guadeloupe, fundear de novo e chegar quinta-feira ao Marin. Se não der para fundear, aquartelo e durmo um par de horas. Tenho lugar na marina, hallelujah!. Vou ter uma montanha de trabalho a preparar sozinho o S. D. para o transporte, mas confesso que encaro esses dias com prazer. Tudo é melhor do que esperar. A espera e a sua irmã esperança deviam ser banidas da vida quotidiana e do léxico de uma pessoa normal. São duas formas do mesmo veneno, uma ligeiramente mais letal do que a outra.

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Ontem à noite vomitei, ainda estou para saber porquê. Excesso de álcool não foi de certeza. Ou foi da maionese que está no frigorífico há não sei quanto tempo ou foi da água dos fundos que provei. Tinha qualquer coisa estranha, fez-me arder os dedos arderam quando os meti. Vantagens de andar sempre cheio de pequenas mazelas. Tenho o corpo e a cabeça de um elefante e a pele de uma donzela inglesa da aristocracia, século XIX. A verdade é que não acredito nem na maionese nem na água. Foi a tensão a vingar-se de eu não lhe ligar nenhuma.

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O Til acabou preso nas ilhas Caimão. Agora foi transferido para um centro de detenção. O mais provável é ser deportado para a Etiópia. Quando penso no tempo e no dinheiro que gastou para este fim inglório fico revoltado. O inglês com o qual embarcou é um idiota, para além de ser um explorador. Parou em todo o lado até chegar às Caimão e ali fundeou à frente de uma esquadra da polícia. Está preso também, ao menos isso.

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O frango à milanesa estava excelente. Como sempre, sobrou metade. Vai para bordo, será o almoço de amanhã. Acho que não consigo voltar a comer aquele couscous com a maionese. Deve ter sido isso que me pôs a chamar pelo Gregório a meio da noite.

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Duas notas a terminar o dia: a) só passaram três motas e b) estou exausto. O que mais me faz medo no futuro é o cansaço. Estou assim porque tentei pôr o motor no bote sozinho. Foi uma tourada, cujo resultado agora é o motor  não pegar. Tenho de ir a pé para o estaleiro, que é bastante longe. Pelo menos para as minhas pernas cansadas. 

20.5.24

Como adormecer rápida e confortavelmente em três tempos

1 - Deitar-se e procurar uma boa posição (cf. infra);

2 - Deixar o dia sair por todos os poros. É de notar que o dia nos preenche o corpo por todas as frinchas possíveis. Daí a importância do ponto 1: uma boa posição é aquela que permite um deslaçamento total do corpo na sua totalidade (isto é, incluindo o cérebro);

3 - Uma vez o dia expulso, substitui-lo paulatinamente pelo sono.

Está técnica nem sempre funciona. Ou porque não conseguimos esvaziar-nos do dia ou porque em vez de sono entram outras coisas: um amanhã, por exemplo. Ou qualquer coisa que fizemos há duzentos anos e insiste em não nos largar. Nestes casos, o melhor remédio é levantarmo-nos, ir ao frigorífico buscar uma cerveja (sugiro fortemente a Smithwicks, a Presidente ou a Red Stripe) ou um rum (Mount Gay), sentarmo-nos o mais suavemente possível, apreciar a bebida que se deixou escolher e recomeçar. 

Repetir tantas vezes quantas as necessárias (ou enquanto houver rum e ou cerveja).

18.5.24

Emoções, alísios e outras tretas

Estou deitado no poço. Trouxe uma almofada para cima, juntamente com um copo de rum (Mount Gay Eclipse, passe a piroseira do nome),  deixei a música (Carmina Burana do Clemencic) lá dentro e vim para cima.

Penso: é de emoções que quero falar. Ou: quero falar de emoções. Quais? O vento ainda não caiu completamente. Este vento tem um nome: alísios. São os alísios que tornam suportável a vida nestas latitudes. Primeira emoção: ser parte dos alísios. Emoção antiga: vem de 1984, a primeira vez que atravessei o Atlântico à vela. Paráfrase: é nas emoções mais antigas que se fazem os melhores sentimentos. Outra emoção: não vou regressar à Europa a navegar. Vou de avião. Que tristeza! Preciso tanto de umas semanas de mar. Outra emoção: mais uma época financeiramente falhada. Quando aprenderei a viver comigo? 

Emoções. A lista, aqui deitado a ouvir o Clemencic Consort, acariciado pelo rum e pelos alísios seria interminável. Sou melhor a acumular emoções do que dinheiro. E a vivê-las, também. Com elas não tenho a relação diarreica - ou hemorrágica, para os menos escatológicos - que tenho com o guito. Consigo mantê-las comigo, em mim. Consigo vivê-las, senti-las, dar-lhes um destino (se tanto é que se pode chamar destino a uma publicação num blogue).

No fundo, tratar-se-ia apenas de não deixar que estas emoções se transformassem automaticamente em sentimentos, mas elas fazem o que querem e de mim um mero espectador.

17.5.24

Diário de Bordos - Cole Bay, Sint Maarten, Antilhas Holandesas, 17-05-2024

Poder-se-ia argumentar que há sítios piores para escrever disparates num blog do que o Lagoonies. Há. Cerca de três milhões, mais coisa menos coisa. Sobretudo a esta hora, em que o rhum punch custa - já aqui o disse - dois euros se for tomado aos pares ou a múltiplos. O dia cai na laguna, a luz do poente esgueira-se por baixo dos tecidos que eles pões para os clientes não ficarem encadeados, a maioria das pessoas está sentada em redor do balcão e à minha frente tenho uma sequência de mesas nas quais a luz escorrega e chega a mim com trejeitos. A música é boa - não fosse o marido da O. músico [não é] - mas demasiado variada para o meu gosto . É daquelas listas feitas para agradar a todos menos aos apreciadores de música clássica. De maneira é aqui que venho. Às vezes tenho sorte e servem-me o punch num copo grande sem gelo, doutras nem tanto e reduzem o copo à dimensão adequada (para eles. Para mim não). Nem reclamo nem peço para acrescentarem spiced rhum. Tão pouco reclamo por me trazerem a bebida mal me sento, sem ter sequer de a pedir. É uma prática que não aprecio muito, mas enfim. Paciência. 

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Gosto de navegar em tudo quanto é embarcação (de recreio. Marinha mercante, de guerra e pesca não obrigado) e dentro dessa navegação prefiro a de vela, por muita tentação que tenha de mudar definitivamente para o motor, por razões carcássicas e financeiras. Há várias razões pelas quais gosto de navegar à vela e uma delas é que a vela é um continuum no tempo. Se nós pegarmos no primeiro homem que se lembrou de pôr um pedaço de pano num mastro e o pusermos numa embarcação moderna, ao fim de meia hora ele reencontrará os movimentos, as funções de cada cabo e cada objecto e saberá orientar-se a bordo. Há uma linha que vem dos primórdios. Uma escota hoje é diferente da escota de há cinco mil anos, mas faz a mesma coisa. O mesmo se pode dizer de uma adriça, de um amantilho ou de um leme - que durante muitos anos foram remos, de resto, de onde o steerboard - estibordo de hoje.

Tudo isto para explicar porque gosto tanto de embarcações tradicionais. Não as oponho às modernas, longe disso, apesar de saber as de hoje mais rápidas e mais seguras do que as de antanho. Gosto de embarcações tradicionais porque a cada momento da história reflectem tudo o que o saber náutico da época permitia - e foi esse saber que nos trouxe ao de hoje.

Por isso fico encantado com todas as iniciativas que promovem as embarcações tradicionais. Dentro destas, as baleeiras dos Açores ocupam um lugar muito especial. São lindas, rápidas, elegantes e a caça à baleia (enfim, ao cachalote) está para o mar como as touradas para terra: a desproporção de forças é enorme. Não há actividade marítima em que a noção de «elo mais fraco» seja tão evidente como na caça ao cachalote dos Açores.

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O. apareceu no Goonies. É o seu aniversário. Ofereci-lhe as fotografias que fiz - ou melhor o uso delas, se quiser. Quem dá o que tem.

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ADENDA - Por causa do aniversário da O., hoje bebi três rhum punch. Pobre sempre, miserável nunca.