O homem vive de mitos. sempre viveu. O que separa as mitologias actuais das anteriores é que as de hoje estão mascaradas de ciência. Vivemos um carnaval permanente.
11.7.23
10.7.23
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 10-07-2023
Passam a vida a dizer que um homem não chora. Sou um homem, portanto não choro. Isto é lógica para principiantes. O que a lógica não menciona é que por vezes os homens precisam de chorar. Ou então de beber rum com sumo de laranja no Jaume, depois de um gelado de kefir e arándanos no Claudio, combinação fatal para as lágrimas, conhecida desde os estóicos. É um segredo de Polichinelo: as lágrimas dissolvem-se em rum e em gelados do Claudio. Para alguma coisa hão-de servir: por exemplo, lembrar-nos pérolas da sabedoria antiga.
Ah, também fui comprar calções Napapijri número trinta e quatro, mas isso foi truque da minha metade feminina, a que não se deixa enganar por rum e gelados esquisitos. Agora tenho aproximadamente duzentos calções dessa marca para vender, números quarenta, trinta e oito e trinta e seis. A Rossella disse-me para parar no trinta e dois. Expliquei-lhe que não fiz nem faço nada para aumentar o volume de negócios dela: a culpa é do Trulicity, abençoado seja.
Escrever também ajuda. A palavra lágrimas, por exemplo, escrita com a caneta Parker que comprei na feira da Ladra substitui as lágrimas reais que quero chorar. Ou preciso? Chorar é uma necessidade ou um capricho?
Não sei. Sei porém que pouco a pouco aquilo que me provocou esta vontade - ou necessidade? - de chorar se vai entranhando em mim, dissolvido em rum, gelados e calções. Como toda a gente sabe desde os estóicos, chorar é uma necessidade superficial. À medida que a dor se afunda e sedimenta o choro dá lugar à vontade de encontrar alternativas às lágrimas. Também conhecidas por soluções, paliativos e assim.
O P. vai passar mais um Verão em Palma. Abriu a época de caça às alternativas, também conhecidas por soluções. Parece-me que a minha vida tem sido isto: procurar soluções. A primeira já está no horizonte. Vai ser testada amanhã.
Vá lá. Consegui escrever um post inteiro sem mencionar as mamas da senhora que acabou de entrar no Jaume, salvo seja. A mulher acertou em cheio: entrou no momento em que eu julgava ter acabado de escrever. O homem que está com ela é feio para burro, mas enfim. Acredito na sorte e na capacidade que tem de se espalhar. São quase oito da tarde e os turistas começam a entrar para jantar. Palma é uma das plataformas escolhidas pela evolução feminina para mostrar aquilo de que é capaz.
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Palma está sob uma "onda de calor". Antigamente, a isto chamava-se Verão. Suspeito fortemente que as alterações são tanto climáticas como lexicais.
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O processo de dissolução de lágrimas continua, desta vez no Antiquari. Quem não tem casa tem muitas casas. Não ter onde cair morto é uma coisa; ter onde chorar é outra, melhor.
(Cont.)
Deux ou trois réflexions de dimanche
8.7.23
Diário de Bordos - Blanes, Catalunha, Espanha, 08-07-2023
Querido diário: tu sabes. Quanto mais cheios os dias mais vazio tu ficas. É uam injustiça. Devia ser ao contrário. Mas não é.
Bom, enfim, posso tentar resumir: ontem obtive o NIE. O processo foi simples e rápido, se dele excluirmos os quarenta minutos de comboio para Rubí e outros tantos de regresso a Barcelona. Depois foi a viagem para Roses, que desta vez me pareceu menos chata - apanhei um comboio mais lento e em contrapartida safei-me de uma das camionetas. Conversa simpática com a dona da Roses Nautic, onde chegámos à conclusão de que o grande culpado disto tudo foi o azar. Fui dormir a um desses «hotéis» abomináveis em que tudo se passa por intermédio do telefone. Vi uma pessoa porque a porta do meu quarto não abria e o homem chegou esbaforido. Afinal era só preciso empurrar com força. Fui jantar a uma tasca na qual lamentei não ser ainda mais surdo. Completamente surdo. Os espanhóis até para falarem consigo próprios gritam, aposto.
Acordei descansado, dormido de A a Z. Tenho o maldito NIE na carteira, dinheiro na conta, a viagem da Suécia a precisar-se, a neta quase a nascer, o BP à minha espera - na verdade acabei por ser eu a esperar por ele, mas isso é irrelevante - e cada vez menos dores no ombro direito. Esperar que um estaleiro ou uma empresa de charter entreguem um barco no prazo é como querer que a Virgem Maria participe numa orgia. A resposta é não, ponto. Vá lá que a espera não foi longa: saí uma hora e meia mais tarde do que o previsto, o que é razoável. Vinha mentalmente preparado para ter de passar mais uma noite naquele poço de mau-gosto, vulgaridade, banalidade e quinquilharia.
A viagem de Roses para Blanes correu magnificamente. O bote é uma maravilha. Três horas e um cagagésimo para fazer pouco mais de quarenta milhas. O casco passa na vaga como o meu olhar pelos seios desnudos de uma jovem na praia. Quase quatorze nós de média, vinte e seis litros de combustível. Verdade que tive de reduzir bastante porque à tarde entrou a térmica e nem as minhas costas nem o BP gostamos de ter a impressão de estar a ser esmagados por uma horda de elefantes tailandeses. Cheguei exausto, claro, mas antes de me deitar fui tratar de mim, depois fui ao chandler (felizmente estava fechado quando cheguei. Se estivesse aberto não teria desculpa. Assim tive a oportunidade de comer num mexicano um dos almoços mais indescritivelmente maus da minha vida. É que não era só um mau mexicano. Era mau tout court.)
Deitei-me, não dormi praticamente nada porque quero guardar-me para a noite, dei um passeio por Blanes porque fui comprar um creme «pós-sol». Gosto muito mais de Blanes do que de Roses, que não passa de um buraco para turistas igual a todos os buracos desses que há no mundo e agora preparo-me para ir jantar e dormir.
Espero que aprecies o esforço que fiz para te contar estas coisas todas. As tensões e distensões destes dois dias mereciam mais, mas fica para depois.
PS - Espera, esqueci-me de te dizer: amanhã tenho um dia de folga. Uma reunião com o Marc e avião para Palma. Não é maravilhoso? É.
5.7.23
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 05-07-2023
De maneira sexta de madrugada lá estou a caminho do aeroporto, sexta à noite durmo em Roses e sábado de manhã venho por aí fora até Blanes, sozinho como vim ao mundo. O azul salgado e eu e o barulho de um motor atrás. A ideia é vir devagar para não gastar muito combustível. E para fazer durar...
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Ontem à tarde comprei um maço de cigarros. Já foi quase todo. Ao mesmo tempo, continuo esta entrada - começada no Lo Divino - no P. Soma de mais um menos um é igual a zero, diz a álgebra. Não sou assim tão pessimista. Escrever no P. vale mais do que um: hierbas secas no fim de um braço direito quase sem dores (e sem analgésicos), os salmos de Orlande de Lassus, a ideia de que não tarda o P. estará habitável... As parcelas da soma não estão correctas. Claro que se fizesse uma fotografia de como isto está quem a visse pensaria que não percebo nada de álgebra. Não entro nessa discussão. A minha álgebra é melhor do que a tua pela razão simples e inexpugável de que é minha.
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Mudo para as Vésperas do Rachmaninov. Quero ouvir uma coisa que conheço. Estou farto de descobertas. Amanhã de manhã tenho o Enver. Vai acabar o traveller e começar a pintura do convés. Para a semana tenho o J. W. e o Dimitri. A porta fecha-se. Tenho é não sei quantos dedos entalados, mas isso é outra história. Há cinco anos que não vivia aqui, onde espero viver os próximos cinco. Ou dez. Ou vinte. O único senão são os livros, coitados, Sem mim não dormem.
4.7.23
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 04-07-2023
Têm sido complicados, os dias; e se quisesse ser honesto diria as semanas, os meses. Não quero. Os dias bastam-me, tal como basta dizer que quando cheguei a Palma em Abril pensava que hoje, quatro de Julho, estaria a chegar a Blanes. Não estou. Sinto-me vítima de uma injustiça diabólica, mas quem não se sentiria assim nesta sequência de merdas? As tribos sujeitas à punição das canhoneiras de Sua Majestade não se sentiam muito diferentemente, quando as balas dos canhões desabavam sobre elas, aposto. É como se o diabo tivesse decidido dar-me um passaporte novo, de uma terra chamada Inferno. Não deu. Sou português, com tudo o que isso tem de bom e de mau. Já lá vamos.
Em troca venho à Rambla ver as flores, as que estão nos stands e as de duas pernas que passam à minha frente para um lado e para outro. As primeiras enchem o espaço de cheiros; as segundas enchem-me a vista - o que por enquanto resta dela, há-de melhorar - de sábias sensações. Sábias de saborosas e de sapiência. Não há homem digno dessa condição que não se orgulhe dos seus prodígios manuais e passados. Roald Dahl tem um conto sublime sobre o tema. Espero que não tenha sido censurado.
A Ca na Chincilla fechou e o lugar que a substituiu está fechado hoje «para uma reunião». Vou à do lado, reiterando que um dia terei de fazer a lista dos meus lugares em Palma que fecharam ou desapareceram e das implicações ontológicas desses desaparecimentos. Nesta peço um vermute e uma gilda, ambos aceitáveis, cheiro umas flores e olho para as outras. Tenho pelo menos a sorte de poder reciclar estas coisas em disparates.
A verdade é que ser português tem vantagens: prepara-nos para uma série de defeitos da humanidade - a pequenez, a inveja, a falta de visão (a outra) e para algumas qualidades imprescindíveis: a resiliência, o desenrascanço, a poesia, a capacidade de conviver com o fado aceitando-o quando não há alternativa e resistindo-lhe quando há.
Vou jantar à Infame com o V., que está em Palma. Enquanto espero venho à Primavera beber um copo e transcrever os disparates, duas actividades que se coadunam facilmente. A música é infame, mas penso no jantar que aí vem (ou mini-jantar, mas isto não é um confessionário) e finjo que não oiço. Já gostei muito deste sítio, quando ainda se chamava Índico. Mudaram-lhe o nome, o resto continua igual. Não me lembro de como era a música. Devia ser melhor. Antigamente tudo o era, porque não aqui também?
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O diabo não me deu um passaporte novo mas deu-me um traveller da escota da grande que faz a mesma coisa. Hoje chamei o Carl B., ver se com uma contraplaca em aço inox resolvo aquilo de vez e mando o diabo ao diabo.
Falava com ele (Carl), um inglês jovem e redondo - metade de gordura e metade de músculos - e pensava que com a experiência deste refit estou pronto para qualquer um. Desde que não me apaixone pela merda do bote, claro. Fazer isto num barco que se adora é uma tensão permanente. Se não se amar a embarcação, o n de tensão cai, não cai? Aposto que sim.
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Acabei a recensão ao livro do Alberto Gonçalves e mandei-a ao PAV. O homem não merece coisa tão fraca, mas enfim. Pode ser que daqui a uns anos me pareça boa.
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O empregado do Primavera não só escolhe música abominável mas também a assobia enquanto trabalha atrás do balcão, fazendo um ruído infernal com a arrumação de pratos e copos. O diabo está em todo o lado, como Deus e a esperança, essa vaca.
3.7.23
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 03-07-2023
Eu sabia que o dia ia ser difícil. Não imaginava era que seria esta sucessão de bombas atómicas, interrompida de vez em quando por um abrigo ou pelo menos pela hipótese de um abrigo.
Falemos destes, que das bombas não reza a história: em princípio sexta-feira terei o NIE e sábado o BP nas mãos - ou seja: uma horinhas no mar, sozinho. E daqui a duas semanas vou a Lisboa fazer mais um exame ao olho esquerdo. O coitado deve ter chumbado a todos os que fez até agora. Foram tantos... Desta vez o médico está optimista. Não diz mas digo eu: talvez venha a recuperar a visão desse lado (o que tradicionalmente não vê e não é só em mim).
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Encontrei a Agustine, uma rapariga que é simultaneamente música e empregada de mesa, combinação suficientemente rara para merecer menção. Está no desemprego porque não lhe apetece trabalhar "num sitio qualquer". Tem direito a mais três meses e meio de férias pagas pelos contribuintes e tenciona aproveitá-los bem. Para a semana vai dez dias a Londres, por exemplo. Ia tocar na Drassana mas apareceu a polícia e pô-la a andar (ou melhor, a sentar-se comigo para uma cerveja). É preciso uma "credencial", outorgada pela câmara, para tocar na rua - e na praça Drassana nem com isso se pode tocar. Já a pediu três vezes, mas foi sempre recusado. Não fazem audições (se fizessem pagar-lhe-iam para tocar na rua, a mulher toca bem que se farta) e ignora quais os critérios usados para conceder tal graça.
Ia tocar para a Bosch mas eu fui à lavandaria buscar roupa e voltei para bordo. Isto de ser alvo de bombas de cinco em cinco minutos maça, parecendo que não.
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É possível que chova. Vou cobrir o traveller com um plástico. É a melhor maneira de ter a certeza de que não chove.
Adenda: cobri e está a chover. As alterações climáticas não respeitam nada.
2.7.23
Diálogos possíveis
- Está calado e fode-me.
- Outra vez? Ainda ontem fodemos.
- ......
- Além disso, foder é um verbo que só se conjuga no plural. Não tem singular, nem mesmo no imperativo.
- Oh, que ternura. Aonde é que aprendeste isso? Nos Salesianos?
- Não. Nas livrarias, nas bibliotecas e nos bordéis. São os únicos lugares onde se aprende qualquer coisa de jeito.
Diário de Bordos - Port de Valldemossa e Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-07-2023
A «quase-necessidade imperiosa» de uma piña colada de ontem transmutou-se hoje na quase-necessidade imperiosa de sol e água salgada na pele. Fui cedo para Estellencs mas não tive sorte: «as mesas estão todas reservadas e não se pode ocupar uma mesa cinco horas e blábláblá», tendo este bláblá sido emitido num tom a raiar o desagradável. A raiar, só: estavam ainda a pôr as mesas na esplanada, que é minúscula. Pouco importa: comecei por ir a Port des Canonges, que não me convenceu por falta de sítio para me sentar à beira-mar. Acabei em Port de Valldemossa, no velho es Port, do qual a simpatia do pessoal, a hospitalidade e a qualidade da comida compensam largamente os quilómetros a mais que tem de se fazer. De modo lá dei sol e azul salgado à pele e aos miolos, que lhe estão intimamente ligados (cf. Neurociencia del cuerpo, um livro que mudou a minha maneira de olhar para o mundo. Isto é, para mim. Para tudo) e filetes de peixe-galo e vinho branco e café e hierbas secas e tudo aquilo de que o meu corpo precisa para se pacificar e esquecer por momentos o P., que parece cada vez mais fazer parte dos meus circuitos neuronais.
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Fui cedo, ainda o Sol rasava o cume das montanhas. A luz oblíqua e densa da manhã (tal como a da tarde, de resto) acrescenta dimensões àquilo que de si é tridimensional. Parece que a paisagem adquire uma quarta dimensão, ou quinta.
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Querido diário: há muito que andas a desafiar-me para te falar dos carros do meu amigo Egidio, a minha empresa favorita de aluguer de automóveis (a seguir vem a Olivauto, em Lisboa. Aproveito estar em modo publicidade grátis). Chamar empresa ao Egidio está algures entre o exagero e o insulto (para as empresas, não para o senhor, que é muito mais do que uma empresa). O seu modelo de negócio é simples: compra os carros que as empresas «normais» já não querem e aluga-os a um preço ligeiramente reduzido. Duas notas: Um - digo «ligeiramente» sem saber se é verdade. Nunca me passou sequer pela cabeça alugar carros noutro sítio, quando em Palma. Na «peninsula» aluguei uma vez e foi uma catástrofe. Dois - Por vezes acontece-me pensar que ele também compra carros no ferro-velho, mas isso é só quando estou de mau-humor, o que é felizmente raro.
Mas antes de te falar dos carros do Egidio - já falei - devia ter-te contado uma grande novidade: parece que resolvi o problema dos cafés para escrever / trabalhar / flanar pelas redes aos domingos à tarde. O café Al Punt tem tudo o que é preciso: mesas com tomadas, ar condicionado, não muito longe do porto. A mesa é um bocadinho baixa demais, mas penso que uma vez por semana poderei viver com isso.
Volto então aos carros do Egidio: fazem-me lembrar os carros do então Zaire (se bem lá estes passassem por automóveis saídos do stand). São automóveis contra-indicados para quem goste de uma condução confortável, digamos. Ora as coisas não funcionam, ora funcionam e não param de funcionar, ora o carro vibra quando chega aos cento e dez ou não chega sequer aos cem, ora têm o alarme do óleo aos gritos ora... Não, isto não é ora. É sempre: o Egidio está sozinho, de maneira os carros saem da sua «garagem» (um terreno ao ar livre que acolhe duas ou três empresas, não sei de quê) com a gasolina que o cliente anterior lá deixou. A combinação sendo «deixas o depósito como o encontraste». Nem sempre é possível. Já me aconteceu sair dali com um carro a perguntar-me se chegaria à bomba de gasolina que fica a quinhentos metros. Aquela luzinha vermelha que acende quando o carro precisa de combustível já não era vermelha. Era infravermelha. Ultravioleta. Não era luz sequer, era um grito, um pedido de socorro, um náufrago na água agitar o colete de salvação: «dá-me de beber!» Claro que ninguém com um mínimo de empatia pelo próximo (não me refiro apenas ao próximo cliente, mas ao próximo no sentido genérico do termo, outrèm) deixa um carro assim. Como me acontecia por vezes deixar o carro com mais gasolina do que a que tinha quando saíra com ele e nunca me aconteceu sair com um tanque nem que fosse a meio, um dia perguntei-lhe o que fazia ele com a gasolina. Vendia-a? «Não», respondeu. «O que entra é o que sai.»
Os carros têm as avarias mais diversas (já me calhou basicamente de tudo, o que é uma boa escola. Mas nunca fiquei parado na estrada) e o Egidio nem sempre se apercebe porque nem todos os clientes lho dizem (eu digo, quando me lembro). As viaturas têm um preço fixo qualquer que seja o seu tamanho, ano ou estado - com excepção, por vezes, dos que estão sujos («este não está muito limpo») que têm uma redução de cinco euros ao dia. Pago um euro para os aspirar, pelo que fico a ganhar. Não há seguros: ou estão incluídos no preço, se os riscos e mossas são pequenos; se são grandes paga-se um ligeiro suplemento na entrega do carro. Uma vez parti-lhe o vidro de um pisca-pisca traseiro. Disse-me que ia comprar um ao ferro-velho e me cobraria o que lhe custasse (no que acredito). Na vez seguinte calhou-me o mesmo carro. Tinha um pouco de fita isoladora encarnada no sítio do buraco e até hoje não apareceu conta nenhuma. Podem dizer o que quiserem do Egidio. Para mim é um herói. (Ele denomina-se «louco», mas não concordo. É um homem bom e sério.)
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Pronto, querido diário. Já tens a tua históra sobre os carros do Egidio. Agora vou comprar um desodorizante, se não te importas. Pouco mais há a dizer, de qualquer forma. O dia passou sozinho, sem a minha ajuda. Enfim, quase. Mas não te quero aborrecer hoje com as chatices que me esperam amanhã. Seria uma falta de educação enorme, não é? É.
1.7.23
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 01-07-2023
Talvez se pudesse considerar isto um dia de excessos, se beber muito fosse excessivo. Não é, claramente. Beber muito é uma questão de bom senso, quando esse bom senso parece desvanecer-se em torno de nós. Desaparecer. Inexistir. Não sequer se manifestar. De maneira a noite - ou o dia? - acabou no 7 Machos com a L. a pôr-nos a garrafa de mezcal à frente e a dizer-nos: "Bebam. Estão em minha casa".
Bebemos. Somos rapazinhos obedientes e bem educados, o V. e eu.
Penso muitas vezes nisto: seria capaz de reproduzir este eco-sistema em Portugal? Nada é mais incerto. Intuitiva e repentinamente diria "Não!"
Que faltaria? Ser estrangeiro. A maneira como sou recebido aqui deve-se ao facto de não ser de cá.
Talvez. Esta hipótese precisa de ser estudada.
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V. arranjou um embarque desses de última hora e fui levá-lo a Cala d'Or. No regresso tive vontade de um cocktail, um verdadeiro e bem feito cocktail. A vontade foi crescendo até se transformar na quase necessidade imperiosa de uma piña colada no café Lisboa, aonde a tinha prometida. O homem (chama-se Adriano e é mais italiano do que Roma, Milão e Nápoles juntas) diz-me "a melhor piña colada de Mallorca". "Não sei", respondo. "Mas que uma das melhores que tenho bebido é". Exagero bastante mas ele não sabe e regozija-se com a resposta.
A música no café Lisboa é insuportável, o ambiente simpático - está praticamente vazio, ainda é cedo - a piña colada bastante aceitável e amanhã vou à Tramuntana. Isto é como nas autoestradas: é preciso uma zona de repouso de vez em quando.
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Se tudo tivesse corrido como o plano queria, hoje ou amanhã estaria a largar para Blanes.
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As pilas conadas (estas coisas andam aos pares) abrem-me o apetite, que previra reduzido depois da sublime paella do almoço. Acabo no Johnny Dhaba a comer um caril de frango e um naan. A senhora que está na mesa à frente da minha tem um cu de ir ao céu, para adoptar a taxonomia do Xisco. Está de perfil para mim e só ocasionalmente lhe vejo a face. Não é só o rabo. É o olhar, o sorriso, a expressão, tudo o que de intangível um corpo tem. De vez em quando endireita as costas, projecta o peito e o rabo, os cabelos longos meio castanhos meio louros parece que se animam.
O homem está sentado de lado para a mesa e para ela, de frente para mim. Pouco a pouco vai cedendo. Vejo-o sorrir e abrir-se cada vez mais. Há felicidades, mesmo alheias, que nos levam ao céu.
30.6.23
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 30-06-2023
Jantar no Lo Divino. Não é só a anatomia feminina que me leva ao céu. Na verdade, todas as estradas levam a ele: um corpo, um jantar, um livro, um poema. Basta respirar, no fundo.
A funcionária da gestoria que contratei para tratar dos P. (pai e filho) esteve uma semana de baixa. Quando tentamos explicar a quem não é deste meio que os factores que nós controlamos são uma parte ínfima de todos aqueles com que lidamos as pessoas pensam que exageramos. Não exageramos. Antes pelo contrário: somos púdicos e escamoteamos uma grande parte da realidade. Questão de não expormos a toda a gente a nossa pequenez. A nossa impotência fundamental, basilar.
Falo da beleza das estradas hiper-secundárias de Maiorca, das surpresas que nos reservam, mansões escondidas no meio de nada. R. acrescenta que aqui as estradas estão limpas, ordenadas, arranjadas. Na Sicília (de onde é originário) «parece uma guerra».
Empíricas, meu caro Watson
A Neurociencia del Cuerpo é um livro fabuloso, de leitura imprescindível. Entre muitas outras qualidades (mais, mais tarde) tem uma essencial: faz-me ver, com provas, quão errado eu estava (ou estou ainda, estas coisas não são de um dia para o outro) em tantas áreas. A palavra-chave, para quem não tenha percebido, é provas. Provas empíricas.
Foi com elas que construí as minhas opiniões e é com elas que gosto de vê-las demolidas.
29.6.23
AVURNAV - Terminal 2 do aeroporto de Lisboa
28.6.23
"Oiça um bom conselho / eu lhe dou de graça"
Sabedoria do século de ouro
"Todos los que parecen estúpidos lo son y, además, también lo son la mitad de los que no lo parecen."
Quevedo, citado por Nazareth Castellanos in Neurociencia del cuerpo.
27.6.23
Diário de Bordos - Lisboa, 27-06-2023
Chego ao Marquês e hesito: Avenida da Liberdade e Restauradores, Rossio ou Braancamp e Rato? Aqui haveria outro dilema: Príncipe Real ou Estrela? Opto pela via do menor dilema e desço lentamente a Liberdade, pelo passeio para dar lugar aos automobilistas, que como de costume vão numa corrida furiosa contra o próximo semáforo. Acabo no Nicola a beber cafés e a comer pastéis de nata, assim mesmo no plural.
O R. é um filho da puta de um argentino, passe o pleonasmo (e a injustiça da generalização, que a mais das vezes é falsa mas que se lixe. Isto não é uma aula de antropologia e menos ainda de boas maneiras). A verdade é que o E. pegou no material e foi-se embora, podre de razão. Espero que recomece sexta, como combinado, que o outro sacana já deve ter terminado.
Neste refit apliquei tudo o que sabia e apercebi-me de tudo o que não. Gostaria muito que houvesse outro igual um dia destes, para ver se o que aprendi se nota na vastidão do que não sabia. Se o pequeno montinho que acrescentei ao que já sabia é visível.
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O hospital de Cascais informa-me gentilmente que a próxima infiltração não poderá ser antes do dia vinte e três de Agosto. Até agora tenho resistido ao apelo do seguro privado, mas tudo me leva a pensar que António Costa vai ganhar a aposta e eu perdê-la. Menos um gajo a chatear no SNS. Costa quer privatizar a saúde usando o conhecida método do fode-fininho. Um dia o SNS não terá ninguém senão o lúmpen.
Nesse dia a saúde privada será ainda mais forte e ainda mais pujante do que está hoje. Infelizmente o SNS continuará uma merda porque a quantidade de proletas não pára de aumentar e os médicos terão fugido todos para "a privada".
25.6.23
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 25-06-2023
24.6.23
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 24-06-2023
Manhã boa: consegui fechar com o Enver a um preço porreiro. Agora sim, a porcaria do traveller vai ficar resolvida. Depois pinta o convés todo, mas isso só mais perto do fim.
Manhã má: compras. A minha metade feminina não é suficientemente vasta para entender o conceito de «terapia de compras». Que prazer se pode extrair de ir gastar dinheiro em lojas de roupa? Numa loja de aprestos marítimos aceita-se facilmente, mas em roupa? Enfim, o meu stock de pólos brancos foi reposto e o Domingo tinha finalmente os dois pares de alpergatas que lhe encomendei quando cheguei - um deles ficou logo lá, estava um bocadinho grande. O Domingo é um gajo adorável mas está longe de ser o ás da alpergata. Tem a vantagem de ficar ao lado do mercado de Santa Catalina, o que não é despiciendo. Esta segunda vou para Lisboa um bocadinho mais leve, sabendo que deixo o Enver a bordo. É um srilankês pequenino, com uma pele que assenta directamente nos ossos, não há nada entre estes e aquela. Combináramos às nove e às nove em ponto lá estava. Quando cheguei liguei-lhe, mas ele ainda não estava em condições. A operação foi semelhante à minha e também não lhe correu muito bem. Ou correu pior, ainda. Eu pelo menos nunca deixei de poder trabalhar.
Manhã péssima: voltaram as dores no ombro, depois de umas semanas de paz.
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Começaram as queixas do calor. Respondo imediatamente: «ainda bem. Já era tempo», ver se as calo. No Inverno queixam-se do frio e na Primavera e no Outono das «alterações climáticas» (aspas porque é sarcástico).
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Esparramo-me pelo cansaço, que nem sequer é bem cansaço. É antes o desfazer da tensão. A distensão, se quiserem. Sinto as cobras todas a abandonar-me a carcaça, uma por poro. Cada músculo é um ninho delas. Pergunto-me o que se passará pelos neurónios, pelas sinapses, por essas zonas que sabem dizer como me sinto mas não se deixam observar.
23.6.23
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 23-06-2023
"Está un verano loco", diz-me Martin no seu espanhol quase perfeito. Martin é um dos poucos expatriados que conheço que aprenderam espanhol. Trabalha na Mercanautic, aonde é um funcionário competente e afável. Está podre de razão, como esta breve troca demonstra:
- Tania, o adiantamento que te dei não é suficiente, vou dar-te mais dinheiro - digo-lhe quando veio tirar as medidas para o lazy bag (sim, consegui). Claro que não estou nada preocupado com o montante do sinal. Estou preocupado com outra coisa.
- Luís, o meu problema não é dinheiro, é tempo. Deixa o sinal, não te preocupes com isso - responde-me a senhora, outra das que aprendeu espanhol.
Ou seja, traduzindo: Luís, não sonhes com ladrões, qualquer que seja a língua dos teus sonhos.
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I. continua a não dar sinais de vida. Procuro alguém para o substituir. "Luís, não sonhes com ladrões". [Mentira. Talvez. Amanhã de manhã o Enver vem a bordo. Este é fiável. Não falha. A ver quanto me vai pedir. Tem estado doente, de baixa, de alta, de operações e pós-operatórios. Aparentemente já se mexe.]
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Fim de tarde no Toni. Esta praça é fascinante: apesar do bulício consegue ser repousante. Consequência da luz, creio; da mistura de árvores (não sei identificar metade), da ausência quase total de automóveis. Na esplanada do Toni ninguém grita; nas duas que a rodeiam tão pouco. As três - Café Moderno, Café Plaça, Bar Santa Eulália, no sentido dos ponteiros de relógio de onde estou - são ocupadas maioritariamente por maiorquinos. De vez em quando lá se senta um turista ou dois, na sua maioria casais e com a adolescência há muito para trás.
A luz reflecte-se nas folhas e dá-lhes cores que vão do amarelo vivo ao verde escuro (aonde ela não chega). Essas mesmas folhas absorvem o pouco barulho e devolvem-no-lo sob a forma de paz. No caminho para aqui vinha a pensar que se descrevesse os meus dias pormenorizadamente os leitores pensariam que estava a estagiar para uma escola de filmes de terror. Bom: dois tinto de verano e uma tapa de chouriço e o filme de terror transforma-se na ilustração visual do álbum From gardens where we feel secure. Cuja audição de resto sugiro fortemente.
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Jantar na Cuadra del Maño, no meu lugar habitual (já aqui não venho há mais de um ano). O gajo do casal ao meu lado mantém o chapéu - um panamá de feira - na cabeça o tempo todo. Tira-o apenas para a selfie, quando a carne chega.
E ai da há quem diga mal das selfies.
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O meu lugar habitual é ao balcão, à frente das torneiras de cerveja. O que eu gosto de ver esta azáfama nobre que é dar de comer e beber aos outros, completamente alheados da dimensão nobre da coisa. Trata-se de servir, depressa e bem e encaixar o resultado desse trabalho. A nobreza fica para os observadores solitários (que por sinal já fizeram isto, mais ou menos).
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Termino a noite no Jaume. O Santisima Trindad é como a praça de Santa Eulália: amolece qualquer filme de terror.
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«Por favor recicla», diz um cartaz à porta do Jaume. «Per tu, per mi, pel nostre futur», assim mesmo em maiorquino. Confesso que não percebo. Há sessenta e cinco anos que reciclo tudo o que como e bebo em merda e mijo; desde os doze ou treze que converto o que sinto em palavras. Não vejo o que isso tenha feito pelo futuro de quem quer que seja. Nem o meu, quanto mais o dos outros.
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Vá lá, reciclo filmes de horror em pastorais rupestres, reciclo dinheiro em coisas variadas, bebidas e disparates (hoje comprei um modelo de paquete lindo), reciclo tudo em nada e nada em tudo. Espero que um dia a humanidade me devolva tudo o que fiz por ela.
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Ao longo destes cinco anos construí em Palma um ecossistema encantador. Tenho de falar nisto.
22.6.23
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 22-06-2023
Vamos pôr as coisas nestes termos: se eu amanhã conseguir ter a T. a tirar medidas para o lazybag fico a perceber porque nunca ganhei o totó-milhões: a sorte estava toda reservada para este momento. A alternativa - sou um génio - não me parece credível.
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O I. continua a não aparecer e a não responder ao telefone. Aquele traveller da grande é uma das peças malditas do P.
Que tantas tem, coitado.
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No café Goa à espera do D. A reunião era às onze, cheguei às onze menos dez, são onze e quase meia e até agora nada. Aproveito o tempo para telefonar, enviar e-mails e, isto tudo feito, escrever disparates. Podia ser pior. O Goa tem um cafe quase bebível.
(Cont.)
21.6.23
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 21-06-2023
Caras: o I. não veio trabalhar e não atende o telefone; o D. diz que está «agoniado de trabalho» e não pode vir a bordo (para fazer um orçamento, note-se, uma coisa que ele faria em quinze minutos mais, admitidamente, as deslocações); a gestoria de Blanes não responde ao telefone; tentei outras, mas tão pouco respondem; ando às voltas com a minha folha de Excel. Grosso modo, é como dar passos de um milímetro numa viagem de quilómetros; o B. arranjou um embarque e não deve estar disponível nem amanhã nem depois, que é exactamente quando eu preciso dele. O X. não tem tempo nem para me dizer que está agoniado de trabalho. Fui à loja deixar um recado ao irmão - que estava ao telefone e não pode atender-me. Deixei-o ao empregado; o correio ainda não deixou o papel no Registo Civil de Loures. Talvez amanhã, diz a boa metade de mim. Talvez na sexta, diz a outra, sabendo que na segunda vou lá chegar e com sorte o maldito papel acabou de chegar também, no mesmo correio do que eu.
Moeda ao ar. Coroa: acabei finalmente de digitalizar a massa informe de papéis que tinha amontoados do P.; amanhã tenho finalmente a reunião com o D. para falarmos do boomvang (não vou comprar um rígido e quero saber o que é que ele sugere para uma retranca e um mastro destes); o Th. enviou-me uma mensagem a dizer que me vai dar as datas dos charters (metade vai para o V., espero, mas pelo menos assim sei com que linhas me coserei - além de que é um prazer fazer um charter em barcos novos, bem equipados e em alguns casos com stew - se for bonita, disse ao Th., que me respondeu que sim, é). Fui jantar ao 7 Machos, aonde já não ia há séculos. Recebido como sempre. Melhores tacos a leste do Pecos (não sei onde fica o Pecos, mas isso é irrelevante). Margaritas al dente e mezcal oferecido; gelado de caramelo salgado no Claudio. Encharcado em rum das Maurícias até às bordas; enviei a carta ao R. M. da Roses Nautica. Não serve de nada senão para descarregar, mas pelo menos descarreguei; a inspecção ao gás está feita. Não tarda chega-me o certificado. Em prémio «ganhei» uma garrafa de gás (aspas porque é a pagantes, claro); o portaló mais barato do chandler dá para o P.
A esta moeda chama-se «uma vida». Cada um dos meus dias é assim: uma vida.
20.6.23
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 19 e 20-06-2023
De um ponto de vista burocrático, sair de Portugal e vir para Espanha é como saltar da frigideira e cair no fogo.
Enfim, na verdade de todos os pontos de vista. Espanha é Portugal em dez vezes pior (cinco porque tem cinco vezes a população e outras cinco porque cada um deles pensa que vale por dois).
Adoro esta cidade, as Baleares (com a excepção de Ibiza, de que gosto, só), adoro a Andaluzia e a Galiza. Tenho aqui bons amigos, sei de boa gente. Isto é exactamente como os franceses: quando a unidade é a unidade são gajos porreiros, afáveis. Quando a unidade passa ao milhão transmutam-se e o país fica insuportável.
Até agora tenho vivido à revessa, bem abrigado, a beijar as rochas e a coisa tem ido. Com a compra do BP embati de frente na outra face da Lua e pronto.
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Metade da clientela feminina do restaurante parece que saiu de um casting da Vogue. A outra metade saiu, sem parecer - isto é, de certeza - dos quarteirões chiques de Palma. Há dois ou três machos alfa espalhados pela sala. Um deles sentou-se na mesa ao lado da minha. Infelizmente o correspondente troféu ficou do meu lado. O restaurante chama-se Giromatto, é giro mas não mata. Os saltimbocca estavam correctos, o Chianti era aceitável e o limoncello bastante bom. Não se pode dizer que encontrá-lo tenha sido obra do acaso; eu pedalava de facto ao acaso nas ruas de Santa Catalina à procura de um italiano e vi aquele, àquela hora ainda vazio (ando com horários de alemão). Acaso anula acaso: têm sinais alternadamente opostos. Mais acaso menos acaso igual a zero acaso. Depois vim para casa dormir, dormir e conferenciar com a almofada sobre esta história do BP.
Como nestas coisas um azar nunca vem só (e os azares não se anulam, são todos do mesmo sinal, adicionam-se) o registo civil de Loures recusou-se a dar o passaporte ao P. C. Pedi-lhes que e dêem pelo menos o número. Vamos ver que desculpa arranjam para me dizer que não.
Adenda: a responsabilidade. Não lhes passa pela cabeça que quem não gosta de responsabilidades não devia ir para lugares que a requerem.
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Comi as primeiras brevas. Estamos a meados de Junho, bolas. Malditas altera... Benditos frutos. Eu sei que há uma palavra portuguesa para designar esses figos tardios (ou precoces, dependendo do ponto de vista), menos doces do que os outros mas com tanto ou mais sabor. Brevas, meus amigos, brevas. Tereis o Mediterrâneo na palma da mão e a felicidade num dos seus lugares favoritos: a boca.
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Concerto em favor da luta contra o cancro e em homenagem a uma senhora chamada Mayka que dele morreu e era amiga de muitos músicos (ou era música, não consegui destrinçar). Magnífico. Doze músicos e dois poetas (à vez) interpretaram músicas de que a senhora gostava e evocaram lembranças pessoais. Foi comovente. No ultimo tema o Vicençs ganhou asas. O homem toca como um deus, quando o toca a mão de um. Faz-me pensar num saxofonista genebrino chamado qualquer coisa Ferro. Ouvi-a por vezes no jardim à frente de casa e um dia, muito antes dessa casa, consegui pô-lo a tocar no Marchand. O Vicençs aqui em Palma é conhecido, é certo. O Ferro em Genebra só era ouvido por meia dúzia de melómanos. Contudo, são parecidos.
19.6.23
Definição - especialista
Um especialista é simplesmente uma pessoa cujo ignorância abrange muito mais áreas do conhecimento do que a de um generalista.
18.6.23
Retratos possíveis
A rapariga é bonita. Isto é, normalmente bonita. O que lhe confere uma beleza excepcional, única, é a conjugação do olhar com o sorriso. Os olhos e a boca iluminam-se e o que não passava de uma grande divisão bem decorada transforma-se num sumptuoso salão de baile.
A vontade que tenho de lhe dar música só é vencida pelos quase trinta anos que nos separam.
17.6.23
Carpinteiro louco
À medida que ia envelhecendo, o fosso entre ele e o mundo alargava-se. "Como se a vida fosse uma cunha entre mim e os outros que um carpinteiro louco vai martelando, todos os dias."
(Às vezes, o carpinteiro falhava a cunha e acertava nele mas também acontecia acertar nos outros. Ela por ela, equilibravam-se.)
Vida, solidão e outras complicações
Acontecia-lhe frequentemente estar em "modo Kalimero" e não ter a quem queixar-se.
"Deve ser isto aquilo que tantas vezes leio, solidão" - dizia-se, porque não sabia bem o que é não estar sozinho.
A vida só é complicada enquanto não se cresce. Depois é simples.
16.6.23
Diário de Bordos - Barcelona, Catalunha, Espanha, 16-06-2023
Começo por me perguntar por que raio de carga de água as pessoas hoje me pareceram tão antipáticas, daí apercebo-me de que hoje não tive quase dores no ombro direito, confirmo no Portalón que o serviço é simpático, competente e profissional e vejo que quem foi execrável hoje comigo foram os funcionários dos caminhos de ferro e isto sobretudo porque lhes pedia informações e a resposta era a outra companhia de comboios. Há duas, uma da Catalunha outra do governo central e quem trabalha para uma acha-se na obrigação de não tratar bem os passageiros da outra, sendo a uma e a outra intercambiáveis. Daqui pergunto-me o que aconteceu à dor no ombro e tento chatear-me porque o avião está com uma hora e meia de atraso. Falho redondamente, seja porque estou demasiado cansado para me chatear seja por causa do passaporte. Além disso fico contente por er resolvido o enigma matinal, apesar de continuar a achar estes gajos provincianos, chauvinistas e - no caso específico do director comercial da Rosesnautic, o gajo que me vendeu o barco - de uma incompetência fenomenal. Monumental. Se alguém um dia quiser fazer uma estátua à incompetência pode usar o R. M. como modelo.
15.6.23
Diário de Bordos - Barcelona, Catalunha, Espanha, 15-06--2023
Quanto mais tempo passo em Barcelona menos percebo a atracção que esta cidade exerce sobre tanta gente. Estes gajos são execráveis, pequenos, mesquinhos. Parecem portugueses com mais dinheiro, mas nós ao menos falamos uma língua que se percebe. A destes faz pensar num grupo de paralíticos a tentar falar linguagem gestual. As informações nos transportes públicos são péssimas e incompletas, ao contrário da minha má-vontade, pujante, viçosa e florescente. (A minha. A dos outros é abissal.) Quando penso que o serviço aqui é melhor do que em Palma belisco-me. É e sim, estou acordado. Já adorei esta cidade, já aqui passei momentos deliciosos, mas as últimas vinte vezes foi só chatices.
Bom. Isto é um exagero, claro. Um exagero e uma generalização e um preconceito sem pés nem cabeça.
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Mas hoje foi um dia sem pés nem cabeça e posso finalmente dizer o que me vai por esta, isto é: pelos olhos. E que me vai pelos olhos é mamas, mamas e mais mamas. Os mais preciosistas dos meus leitores dirão que por detrás dessas mamas há mulheres. Sem dúvida. Aliás, acrescento: por detrás, por cima e por baixo. Mas por questões relacionadas, sem dúvida, com a velocidade da luz, a moda (de que não percebo mais do que o que vejo) ou a idade das ditas senhoras - são cada vez mais e mais novas e não me venham cá com números que não são para aqui chamados - a primeira coisa que me chega aos olhos e quem diz olhos diz cabeça são precisamente as sobreditas glândulas.
Pode talvez dizer-se que o dia não teve pés nem cabeça (de resto é um daqueles dias que vai prolongar-se por amanhã) mas lá que teve outras coisas teve. Entre as quais emoções, adrenalina e regalo para os olhos.
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Barcelona pode continuar a ser a cidade chata, provinciana e chauvinista que sempre foi mas hoje consegui uma mesa no El Xiringo sem ter reservado e não posso senão orgulhar-me da sorte, da dupla sorte. Uma, de ser dotado para a manipulação, arte que herdei da minha Mãezinha, coitada, que Deus tem; e outra por... bem, não digo, ainda vão pensar que sou obcecado, coisa que não sou. Sou um esteta, o que é diferente.
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O suquet de tamboril com que me delicio (agora que a senhora da mesa à frente se foi embora) é curioso. Começa por parecer chato e ensonso e à medida que se vai nele avançando vai ficando melhor e melhor até atingir a perfeição absoluta. Será efeito da música, uma mistura de Sinatra, Cohen, Tina Turner, Dire Straits e outros do tempo? Do vinho branco? Aposto na qualidade intrínseca do prato, na sua subtileza, no equilíbrio perfeito... Parece um quadro do Klee, vai-se descobrindo andar a andar, passo a passo até que de repente o compreendemos.
No sentido em que compreender é sinónimo de apreender.
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Querido diário,
Passo os pormenores do dia. Não fui feito para coisas complexas, como sabes. Basta dizer-te que vou outra vez dormir numa espelunca, mas esta pelo menos está limpa. E que amanhã tenho de me levantar às cinco, outra vez.
E que a vida é uma espécie de maionese feita de melancolia e felicidade e sem a correcta mistura das duas ela fica desequilibrada.
Ou seja: maçadora.
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O jantar acaba numa apoteose de mousse de chocolate negro regada com azeite, um milimétrico fio, vinho moscatel e Leonard Cohen.
E ainda há quem pense que estamos à beira do abismo a dar passos em frente. Estamos, mas o abismo foge mais depressa do que os nossos passos.
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O serviço está quase a acabar e o pessoal do restaurante ri-se, brinca, exala bom humor e alegria. Estou aberto a sugestões, mas para mim não há melhor sinal.
13.6.23
Calasso, dúvida
"Quem escreve duvida de cada palavra que escreve. Sabe que ninguém poderá confirmá-la."
Roberto Calasso, in Memè Scianca, ed. Anagrama, Barcelona, 2023 (traduzido do espanhol por mim).
12.6.23
Excesso de soberania, falta de educação
Não sou mais patriota do que me parece aconselhável e não lamento a falta de soberania que pertencer à União Europeia implica. Antes pelo contrário: lamento bastante o excesso de soberania que temos. Permitir Galambas et al. no governo é coisa talvez defensável nas tribos San do centro de África (para quem não sabe, San são as etnias normalmente designadas por pigmeus). Num país que se pretende europeu não é.
Isto dito, há alguns hábitos estrangeiros que gostaria muito de ver implantados em Portugal:
1 - O hábito de, numa listagem de nomes, pôr o narrador em último lugar. O António, o João e eu em vez de eu, o António e o João, como é habitual no nosso país. É feio e soa mal.
2 - A prática francesa de, numa relação, ser o mais velho a decidir (ou pelo menos a propor) o tratamento por tu. É ao mais velho que incumbe propor o tuteamento (que o mais novo pode recusar). Que idade teriam Mitterrand e o seu interlocutor quando este lhe disse "Já nos podemos tutear, não achas?" Ao que o filho da puta-mor (o filho, não a mãe) respondeu: "Se você quiser".
3 - A pontualidade. (Não sei como é no resto de Espanha, mas aqui nas Baleares ela é tão escassa como em Portugal. Há excepções, claro: basta escolher fornecedores ingleses ou alemães - antes de se aculturarem).
Até esses três hábitos deixarem de ser correntes não nos poderemos queixar de falta de soberania. (Se nos queixássemos de falta de educação ninguém nos ouviria, de qualquer forma.)
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 12-06-2023
Não sei
Uma das poucas coisas que sei é que a modernidade chateia-me, como chateou todos os velhos das gerações anteriores à minha.
Claro que esta minha tem mais razão para estar chateada com a sua modernidade do que todas as anteriores.
Isso é coisa que nem se discute.
11.6.23
Diário de Bordos - Estellencs, Mallorca, Baleares, Espanha, 11-06-2023
Venho a Estellencs e chego suficientemente cedo para ter lugar no estacionamento (por atacado terá dez lugares, se tanto), mesa no xiringuito e este vazio ou quase. Alemães só um casal e calado. O resto é um jovial grupo de locais que fala maiorquino, essa língua que começa a tornar-se-me simpática. Ainda não está calor suficiente para pôr o fato de banho. Aproveito para pôr a escrita em dia. Ou melhor, as escritas: a propriamente dita e a fotográfica, que também é escrita como de resto o nome indica.
Saí de Estellencs logo a seguir ao almoço, não parei em Banyalbufar, nem mesmo em Valdemossa e vim directamente para casa. O carro explicou-me que eu tinha de dormir a sesta e ele de descansar um bocado, farto que estava de subidas, descidas, mudanças, curvas e contracurvas. Obedeci-lhe, claro: o material tem sempre razão.
10.6.23
Diário de Bordos - Soller, Mallorca, Baleares, Espanha, 10-06-2023
1 - Porreres
O carro trouxe-me a Porreres, aonde parei para um café e uma coca de albaricoque, especialidade local que se fosse traduzida daria provavelmente bolo de pêssego. Tanto o bolo como o fruto são bastante agradáveis. Logo à tarde vai haver uma festa em honra do dito pêssego, os restaurantes e cafés terão menus especiais à base dele e estou cheio de pena de não estar cá mas estarei do outro lado da ilha, se o carro quiser e eu deixar.
Porreres - pelo menos a pequenina parte dela que vi e vejo - é uma aldeola igual às outras com a sua praça, um café com o nome apropriado de S'Escrivania (bonito e bem arranjado, por sinal) e estas casas cor da terra, parece que dela saíram e não que foram construídas. A azáfama da preparação da festa é visível. Ou melhor: sente-se. Não salta propriamente aos olhos.
2 - Sineu
Próxima paragem, Sineu. Via Petra, não estamos aqui para andar em linhas rectas. Desta vez fui eu que impus o destino. O carro estava claramente a preparar-se para me levar a Colonia de San Jordi comprar hierbas e quem sabe comer no Hostal de la Playa. Não, meu caro. Não. Um dos objectivos deste passeio é ver terra. Outro é ir a sítios aonde não vou com frequência. Colonia de San Jordi não responde a nenhum destes critérios. Quanto às hierbas, ainda há a bordo.
Ou seja: bordo a terra. Guina a bombordo tudo. Carrega-me esse leme e vai para onde te digo.
Passo por Petra sem parar, só para vet a igreja. Nunca percebo como cabe coisa tão grande numa aldeia tão pequena. Em Sineu o restaurante dos holandeses (?) ou está fechado ou é um hotel, de maneira sento-me ao acaso - isto hoje é dia de S. Acaso, está visto - numa das tascas da praça. Tasca é uma inexactidão grosseira mas não faz mal. O tempo está chato e não faço - nem tenho vontade de fazer - fotografias. Pergunto-me se é só o tempo, se não o estarei eu também. Como não tenho resposta, pego na carta da ilha (está no telefone onde escrevo) e penso no futuro próximo. Reassumi o comando da embarcação, de maneira estas chatices são para mim.
Rota: Muro, Sa Pobla, Alcudia, Port de Pollença. Daí logo se verá, mas o mais provável é fazer escala em Soller. Logo se verá, que não estamos aqui para ver ao longe. Com a possível excepção de amanhã, se o tempo estiver bom: vou à praia.
3 - Soller (ou melhor: Port de Soller)
Chego ao Port de Soller (doravante Soller) à hora a que uma parte das hordas começa a sair. A outra já está sentada à mesa para jantar. Jantar às seis da tarde,
"... antes do anoitecer suavíssimo dos deuses
antes do começar da sombra rente às árvores..." Ruy Belo dixit.
Sento-me na esplanada do Payesa, a única coisa ainda mais ou menos potável, penso na beleza deste dia, desta terra, espero que os deuses anoiteçam suavemente. Fiz o que tinha a fazer em Pollença, tentei ir ao cabo Formentor mas o estacionamento estava cheio e não me apeteceu procurar um lugar, com tantos carros cá em baixo aquilo lá em cima estaria insuportável e depois vim para Soller pela Tramuntana, decidi que daqui vou para Palma pela autoestrada e que amanhã venho por Andratx e vou até Estellencs ou mesmo mais, talvez Banyalbufar ou Valdemossa mas não mais. Tudo isto resultado de uma tão violenta quanto silenciosa batalha entre o bom senso e o resto de mim, batalha essa que o resto de mim ganhou. Como de costume, seja Deus louvado.
Pelo menos até ver.
Soller continua esta bacia de beleza. A menos de se estar sentado mesmo em frente da boca da baía parece que se está num lago, um micro-lago cheio de barcos e de silêncio. Bebo uma vodka com sumo de laranja natural, olho pela milésima tricentésima quinquagésima sexta vez para as montanhas e penso que este é um dos raros sítios aonde o excesso de construção não estraga a paisagem. Talvez porque "excesso" é um exagero. Ou porque isto é demasiado bonito. Ou porque simplesmente não me apetece que nada estrague nada. A verdade é que as casas e os barcos fazem um continuum harmonioso, maneira pouco subtil de me lembrar que também eu - até eu - terei um dia uma casa outra vez. E terei então a sorte de ter uma casa e ter tido uma vida antes dela.
O Payesa é o único estabelecimento da marginal de Soller que ainda apresenta alguns locais, por vezes sozinhos por vezes em grupo. Nos outros já só se ouve falar alemão e por vezes um pouco de inglês e francês. Há muitos franceses aqui. À tarde não tem comida: fecha às oito, diz-me a senhora, pesarosa. Às oito? Se isto não é resistência não sei o que é resistir.
Um dia também o Payesa desaparecerá, transformar-se-á em manjedoura para turistas, jantares às seis da tarde e cocktails "de autor". Contudo, as montanhas ficarão, as casas continuarão a olhar para os barcos com inveja e estes em troca dar-se-ão ares de gente vivida, como se saíssem muitas vezes do porto.
(Cont., se calhar.)
9.6.23
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 09-06-2023
N. tem trinta e oito anos, o que comprova a minha teoria de que as mulheres - sobretudo as bonitas - deviam nascer com trinta e cinco. A partir daí é sempre a melhorar.
Verdade seja dita: a biologia trata disso e só quando chegam a essa idade transforma em mulheres as pessoas do sexo feminino.
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"Charité bien ordonnée commence par soi-même", diz um sábio provérbio francês. Ponho-o em prática muitas vezes. Por exemplo, cada vez que venho ao Lo Divino com o objectivo claro e expresso de ajudar a N. e o R. e ainda bebo um bom vinho, como bem (quando como) et je me rince l'œil, continuaria se fosse francês ou, sendo português, não tivesse vergonha. Não sou e tenho, pelo que não continuo. Fico por aqui, como dizia já não sei quem.
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Não há melhor afrodisíaco do que uma mulher bonita que se sabe bonita. Perguntem à N.
Enfim, não perguntem. Venham ao Lo Divino.
(Ou então vão remar no lago Léman, num barco de duas pessoas: a remadora à frente voltada para trás e eu atrás, ao leme, voltado para a frente. Mas isso foi anteontem, ainda a N. não tinha nascido, ou quase.)
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Apesar das inúmeras perguntas, hoje não falo do P. É sexta-feira à noite e há mais rabos bonitos neste mundo. O do P. está longe de ser o único.
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A minha imagem dos dias a galope e eu a correr atrás deles está ultrapassada. Agora os cavalos são dois. Ambo têm rabos bonitos, sim.
Santòka Taneda - Haikus
de quel côté aller ?
Le vent souffle.
Une pierre pour oreiller
J'accompagne
Les nuages.
Toute la journée
Sans un mot
Le bruit des vagues.
C'était mon visage
Sur ce miroir froid.
Beau chemin
Qui mène à un beau bâtiment,
Un crématorium.
8.6.23
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 08-06-2023
6.6.23
Injustiças da biologia
Os casais de lésbicas de uma certa idade têm uma enorme - e injusta - vantagem sobre os casais de congéneres masculinos.
Pata que a safety first pôs
Há demasiadas coisas a estragar-me (com F) a modernidade. Uma delas é a preocupação dos outros com a minha segurança. Foda-se, eu sou capaz de zelar por mim. Não preciso que uma porra de um sinal me diga se posso atravessar a rua, ou de uma "coordenadora de segurança" (aspas para sublinhar o ridículo) quando faço um antifouling num quarenta e três pés. A porcaria do Safety First inverteu os pólos. Work first. Safety because I need you to work. Not the other way round. Understandes?
5.6.23
Certezas, loucura
As relações incestuosas entre as certezas e a loucura estão há muito estudadas. Basta ler as mitologias grega e latina: há nelas algum deus normal? E algum que duvide, há?
Deus, deuses
Os deuses - e Deus, claro - sofrem de dois problemas fundamentais: a omnipotência e a omnisciência. Nada de bom nunca saiu de que sabe tudo e menos ainda de quem tudo pode.
Das certezas e outras dúvidas
Uma das coisas que me fascina - e, sejamos justos, invejo - é a capacidade que a maioria das pessoas tem de ter certezas. Eu daria um braço para me chamar Não sei e vejo-me rodeado de gente que não só sabe como sabe tudo, de ciência certa. Os semi-deuses do outro são os deuses da certeza de hoje.
De onde vem tanta certeza? A minha hipótese é: do relativismo da geração da qual estou nas últimas camadas. Não sei. Posso estar enganado.
Objecção ao pessimismo
Oh homem de pouca fé! Então tu não acreditas nas capacidades regenerativas da humanidade? No seu sistema imunitário, capaz de regenerar os tecidos feridos? Tu não acreditas naquela lei de bases da física segundo a qual a cada acção corresponde uma reacção? Tu não acreditas que o tempo de grunhice que atravessamos é uma resposta ao relativismo da minha geração? E que a esta escuridão uma nova época de luzes surgirá? Acreditar que a civilização é uma rampa descendente é o mesmo que pensar que a rampa é ascendente, não achas? Não é nem uma coisa nem outra. É as duas, como o gato do outro.
4.6.23
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 04-06-2023
Nós marinheirios não somos muito dados a «fãzices». Por um lado, o mar é um grande equalizador; por outro, todos sabemos que todos temos em nós recursos insuspeitos até as circunstâncias nos obrigarem a usá-los. Claro que de vez em quando lá aparece um ou outro que desperta um pouco mais de admiração e ou de respeito. Um Tabarly, um Slocum, uma Helen MacArthur (também não distinguimos muito os sexos. Um Homem é um homem, seja homem seja mulher), um Peyron. Tão pouco somos muito de hierarquias. Já aqui o disse várias vezes: a única hierarquia que respeitamos é a do saber. Nomes, dinheiros, famílias, opiniões políticas, posições na pirâmide social, cor da pele ou tendências alimentares (no sentido lato) deixam-nos mais ou menos indiferentes. Se o camarada que está do outro lado da manobra ou na ponte de comando sabe o que está a fazer, é ouvido. Não sabe? Arranja-se sempre maneira de fazermos como queremos dando-lhe a impressão - se for caso disso - de que ele manda. Isto passa-se no mar como em tudo. Gabriel Garcia Marquez, para mim um dos maiores escritores de sempre, é um escritor. Sei que ele era comunista porque é impossível não o saber, mas a coisa fica-se por aí. O mesmo se passa com Yourcenar, com Beckett (deste li a biografia, por acaso), com Conrad ou com alguns outros: admiro-lhes o talento, ignoro o resto. Quero ler a biografia de Pessoa por curiosidade, não por reverência.
"Despedida nas margens do Sul"
É a feira do livro em Palma, uma coisinha muito pequenina no passeio do Born. Passo todos os dias pelo Born, com ou sem feira: juntamente com a Rambla é a avenida mais bonita desta cidade. O único stand onde paro é o da Babel, que este ano ostenta orgulhosamente e com razão uma série de dísticos: "uma das vinte melhores livrarias do mundo (Financial Times)". Depende daquilo a que se chama mundo. Do meu é com certeza. Comprei uma colectânea de um poeta chinês que não conhecia: Bai Juyi, na transcrição castelhana. Chama-se 111 Cuartetos de Bai Juyi, é editado pela Editorial Pre-Textos, Valência 2003.
Ele há descobertas cujo único defeito é serem tardias. Outras têm a vantagem de chegarem a tempo. Esta concilia as duas, que só na aparência são contraditórias.
"Triste despedida en la orilla del sur,
Ondeante otoño al viento del oeste.
Mirarnos nos desgarra las entrañas.
Cuídate y no vuelvas la vista atrás."
Este chama-se Despedida en la orilla del sur e se não é das coisas mais lindas que tenho lindo sobre a separação não sei o que é.
3.6.23
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 03-06-2023
Vou voltar a ser armador. Não creio, porém, que seja daí que me vem esta dor de cabeça que até ao Tramadol resiste. Suponho que seja uma transferência, como vejo nos jornais a respeito dos futebolistas: a dor no ombro transferiu-se para a cabeça. E a vontade de ir beber copos transmutou-se em vontade de dormir. Amanhã mudo para o quarto, vá lá. Pelo menos estarei um pouco mais confortável.
O livro para os Guides V. O. faz-se esperar. Se calhar também é daí, a dor de cabeça. Deve ser como aqueles rios que têm muitos afluentes, uma espécie de árvore de pernas para o ar, uma soma de dezenas de pequenas dores (mais duas ou três grandes). Não sei. Só sei que o meu index de palavras proíbidas juntou-se dor. Farto. Chega.
Mescla matinal
O dia começa com um sonho bonito, uma mentira e eu esgazeado de fome. O sonho passa-se em Genebra: duas senhoras metem conversa comigo, uma a seguir à outra. A primeira por causa de arquitectura e a outra das cerejas que levo num cesto. Não me lembro do decorrer dos diálogos mas chegado a casa da S. conto-lhe a história e remato com "detesto os portugueses", por achar que as duas conversas teriam sido impossíveis em Portugal. É mentira e ainda mais porque lá pelo meio do sonho havia uma menção ao Porto. Gosto dos portugueses. O que detesto neles é a cobardia e a mesquinhez, a pequenez de espírito. As cerejas deviam estar relacionadas com a fome: uma ensaladilla e um gelado de chocolate com rum é manifestamente pouco para jantar. Há dias, no Mercat de l'Olivar vi cerejas a um preço alucinante. Não comprei, claro. Em contrapartida ontem comprei um pêssego no supermercado. Não sei se foi o pior pêssego da minha vida se o mais caro. Tive de o deitar fora à segunda dentada. Ou seja: quase um euro cada trincadela naquela coisa verde, ácida e dura como carne de cabra para chanfana. Preparo-me para ir tomar o pequeno-almoço à Cantina, penso que em breve terei o P. habitável e não precisarei de sair a correr porque na véspera decidi não comer nada de jeito. Ou eu ou a carcaça, coitada: anda enjoada, sem dúvida devido à mescla de comprimidos com que a encharco quotidianamente. Eu também. Enjoado e farto, mas antes isso do que a porra das dores. A armazenagem em Santa Maria não está a funcionar. Não só não posso lá ir quando preciso como também apanhar o B. ao telefone é mais raro do que encontrar o amor da minha vida: já aconteceu, mas ou a vida foi curta ou o amor se pôs a andar antes dela terminar. O vento rondou a Norte, está quase nulo e eu levanto-me para o duche. Palma não é sítio para matinais esgazeados de fome.
ADENDA: Não escrevi o suficiente. A Cantina ainda estava fechada e tive de deambular por aí até encontrar uma tasca aberta. A Espai Natural (?), na Costa de Sa Pols, que não é confortável e tem uma música horrível mas sempre é melhor do que o Arenas, que também estava aberto mas aonde não me apetecia ir.
2.6.23
«D'où, chose remarquable, rien ne s'en suit» Ou: Santa puta de vida
A Lua está quase cheia, o Joan e a Paz dizem-me que vêm a Lisboa ver a exposição, o meu ombro direito diz-me que ou tomo os comprimidos a tempo e horas ou ele não se cala, a M. concorda em emprestar-me massa para comprar o semi-rígido, a meteorologia não há maneira de se convencer de que estamos em Junho e os idiotas do costume confundem-na com o clima, a BH Glasgow Vintage saíu da oficina com o guiador uns bons dez centímetros mais alto, o frigorífico está a bordo, instalado e a funcionar, a empregada da Cantina não me põe muito rum no gelado de chocolate «para tomar conta de mim», aspas porque cito, amanhã a A. vem trabalhar. A rapariga não sabe pôr uma carta no correio mas limpa bem para burro e aparentemente desenrasca-se com ferramentas. Lembram-se do incipit do Homem sem Qualidades? É mais ou menos isso: «um belo dia de Junho de 2023.» «D'où, chose remarquable, rien ne s'en suit.»
Não tenho a certeza de que um dia assim não tenha consequências, mas tão pouco quero atribuir-lhe demasiada importância. Pensar no If, do Kipling e nos seus dois impostores. Lembrar-me da quantidade de dias assim por que já passei, que isto é a vida, só, pura e impura, generosa e retorcida, puta e santa.
Uma santa puta, é o que é.
Liberdades, prisões. Ou: contra o relativismo
A minha geração - ou a geração ligeiramente anterior - descobriu a liberdade como Colombo descobriu a América: por engano. Pensava estar num sítio e estava noutro. Os boomers esqueceram-se de que não há a liberdade. Há liberdades. E que estas têm duas faces: cada liberdade é uma prisão, como a noite é parte do dia. "Liberdade é poder escolher as nossas prisões", disse não sei quem, que ou não era boomer ou percebeu algo que a maioria deles não percebeu. Isto vai mais longe e mais fundo do que "a tua liberdade acaba onde a minha começa". A minha liberdade é também a minha prisão.
A maioria das asneiras do nosso tempo vêm de se ter escamoteado esta verdade simples. Pensa-se que se pode dizer o que se quiser. Pode, claro, de um ponto de vista jurídico. Mas isso não significa que se possa pensar tudo o que se quiser. Há limites e obrigações. Um direito não é uma obrigação. O facto de eu poder dizer uma palermice não a valida. Uma palermice é uma palermice, por muito direito que se tenha de a dizer ou fazer. Não deixa de o ser.
Vila-Matas, Rothko e a imprescindibilidade
Diário de Bordos - Palma, Mallorca, Baleares, Espanha, 02-06-2023
Sem ser bonita, a senhora é atraente. Magra, rosto estreito, cabelos castanho escuro pelos ombros, quarenta anos, vestida muito simplesmente, mas com gosto. O azul da camisola, decote pequeno. O que me seduz nela? O sorriso, a expressão, o olhar - tudo nela tem gosto e é simples, menos o homem que a acompanha. É feio e tem ar de boçal. (Isto é uma opinião objectiva, claro.)
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Vim almoçar ao mercat de Santa Catalina, para variar. Ao Joan Frau, claro. É um dos dois sítios do mercado mais ou menos livre de turistas. Duas tapas, dois vermutes e duas hierbas: a única imparidade fou o vinho branco, que se ficou pela unidade. Os tempos não estão para números ímpares e amargos.
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Não consigo impedir-me de rir quando oiço falar em equilibrar «o trabalho e a vida privada» (aspas apesar de não ter a certeza). No princípio do refit tive um fornecedor que não veio trabalhar quase uma semana porque a namorada tinha vindo do Uruguai vê-lo. Agora, tenho outro que pelo mesmo período de tempo achou que precisa de um descanso e foi fundear não sei para onde. Quem não sabe equilibrar o trabalho e o resto é como quem não sabe fazer amor: não vale a pena ensiná-los. (Desta vez temos pelo menos a chuva, que sempre aligeira a dor.)
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Hoje é um dia importante: vou ficar com o frigorífico a trabalhar. Isto é: o «meu» P. vai ter o frigorífico a trabalhar. por ironia, arranjei um quarto por duas semanas, mas quero que se lixe: este compressor vai durar anos. Que são duas semanas sem beneficiar dele? (Além de que delas estarei três dias em seco.)
1.6.23
Autocarro, caos
Pois, é assim. Já to disse, mas tu não acreditaste. Às vezes vejo-as passar todas, sentadas num autocarro, muito sossegadinhas. Mas não estão sentadas por ordem cronológica; não se percebe bem a ordem, se tanto é que há alguma. E o condutor do autocarro ou está bebedo ou é maluco. Ou então não sabe conduzir aquele autocarro, é o mais provável. Algumas querem descer e ele não pára, outras não querem subir e ele quase as obriga, empurra-as, diz-lhes: "sente-se e ponha o cinto de segurança. A viagem vai ser agitada." Umas são mais bonitas, outras mais inteligentes, algumas nem uma coisa nem outra. As vezes estala um conflito, mas dura pouco. Nunca ganham as mesmas. Algumas reclamam: dizem que embarcaram para uma viagem curta - ou longa - e acabaram por ficar mais tempo - ou menos - do que inicialmente pretendiam. É uma confusão, uma enorme confusão, um caos.
O pior é que a viagem ainda não acabou.