20.2.23

Economia, sociologia, estrelas de David e dentes, tudo em meia dúzia de linhas e uma conclusão em forma de mea culpa

Partiu-se-me o que restava de um dente e penso no que me dizia uma dentista em Palma, há bem pouco tempo: "Pode estar contente, ainda tem todos os seus dentes". Aquilo não passava de uma mini-cratera da qual o chumbo interior (ou o que agora o substitui) já saltara há largos anos e nunca fora reposto por falta, precisamente, de chumbo. Da dentista em Palma a memória, qual tapete voador, traz-me a visão de uma dentista em Cascais, pequenina, com uma bonita e bem visível cruz de David pousada sobre os amplos peitos. A senhora era pequena, os coisos grandes e quando se debruçava sobre mim eu sentia-os na testa, leves como pombinhas amestradas.

Vai ser a senhora de Palma quem me dará o privilégio de andar por aí com um dente que não é meu. Se não for muito cara, claro. Isto vai ser tanto um exercício financeiro como dentário e de auto-imagem. O dente não sendo visível do exterior - excepto em caso de grande abertura de gueule, pouco provável - será preciso saber em quanto valorizo a minha imagem de mim vs. a massa que a dentista me vai pedir para me pôr massa na boca. (Imagem essa de mim que nem sequer é uma verdadeira imagem, pois a sua única fonte é a língua, mas passemos.)

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Os meus leitores habituais já terão percebido que este post não é sobre dentes ou dentistas. É sobre um facto singelo e triste da economia: os pobres pagam mais caro as coisas do que os ricos. Ou, dito de outro modo: a vida para os pobres custa mais, em termos tanto relativos - isto é óbvio - como absolutos do que custa aos ricos. Os pobres pagam mais as mesmas coisas do que quem tem guito. A pobreza é um imposto de que a malta endinheirada está isenta.

Se à pobreza se juntar a negligência nem se fala. A diferença fica estratosférica.

18.2.23

Diário de Bordos - Comboio Aveiro - Lisboa, 18-02-2023

Fui para o Porto a ver mal do olho esquerdo e pior do direito; regresso com o direito na mesma e o esquerdo ainda pior do que o direito. Isto seria a versão dramática, destinada a suscitar a adesão ou a compaixão dos leitores. A outra versão - a que prefiro chamar real - é que o olho esquerdo está inoperacional porque foi operado de novo, apreciem o subtil e duplo jogo de palavras, é desta que vai ficar como novo; e o direito trata-se com comprimidos que em breve comprarei. Reduzo-me portanto à habitual mistura, nestas circunstâncias, de anestésico para o olho e telefone (ou tablet) para a alma. Se a tivesse, mas isto agora não está para discussões teológicas.

Há pouco li um post de uma jovm senhora que me encheu de alegria, bem-estar e divindade. Tenho a minha dose quotidiana de coisas do outro mundo (ou do mundo superior, se preferirem).

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Ontem foi noitada de raclette em casa do meu primo J., em Aveiro. Para além de uma quantidade de queijo digna de registo, quatro jovens machos (incluo-me, abusando um pouco dos dois conceitos) beberam uma garrafa inteirinha e por estrear de kirsch. Já para as inúmeras garrafas de vinho branco houve a colaboração das senhoras presentes. Pouco activa, verdade seja dita. As mulheres sacrificam-se por nós, homens, de uma forma que torna impossível a vida sem elas. O vinho era bom, o kirsch igualmente, o queijo fantástico (tenho pena de ter decidido não voltar à queijaria Dupasquier, rue de Cornavin em Genebra) a companhia agradável e a conversa viva. C., a jovem e bonita prima, faz parte daquele grupo de pessoas que acha a palavra maricas ofensiva e portanto pensa que deve ofender-s, como se houvesse uma relação de causa-efeito entre ofensivo e ofendido. Não há, querida C., muito menos quando o que tens pela frente é um troglodita, herdeiro directo do Humpty Gumpty aliciano, para quem as palavras significam o que ele quer que signifiquem (isto não é bem verdade, mas troquemos a exactidão pela retórica, entre duas gotas de anestésico ocular e dois mil solavancos do comboio).

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Tudo isto me recorda que se estiver numa cama com uma senhora e na fase das ternuras pós-coitais ela me disser «estou fodida» a expressão tem um significado e uma conotação diferentes da que teria se ela a utilizasse porque eu cheguei tardia e ebriamente  casa, por exemplo. Ou se me tiver esquecido do seu aniversário, não tiver reparado que vem do cabeleireiro ou me tiver esquecido de comprar manteiga no supermercado (nada de associações cinéfilas, por favor).

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Uma mente gasta, dois olhos a pedir reforma e um corpo cansado encontram-se num comboio...

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Tudo indica que a palhaçada camarária chegou ao fim. A ficha só cairá quando o guito cair no banco - não é amanhã a véspera desse dia - mas só de saber que o «meu» P. saíu das garras da burocracia fico com o depósito de alegria atestado. Agora justifica-se que o ateste com outras coisas - kirsch, por exemplo.

17.2.23

Diário de Bordos - Comboio Aveiro-Porto, 17-02-2023

No comboio para o Porto. Duas filas à minha frente um senhor fala ao telefone. Visivelmente não acredita na capacidade do aparelho transmitir aquilo que diz ao seu interlcutor e faz os possíveis para que este o oiça directamente, sem mediações suspeitas. Toda a carruagem fica a saber que o senhor tem problemas «dos joelhos para baixo». Perde a sensibilidade, ou coisa que o valha. Da sensibilidade do homem não sei, mas do seu bom senso e da sua educação sei: algo me diz que nunca os teve. Abandono o meu lugar e venho para o bar, vazio e silencioso. 

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De regresso ao Porto, infelizmente por muito pouco tempo. Não chega a meia dúzia de horas. Pergunto a mim mesmo se não teria feito melhor trocando de olhos. Talvez por um par deles vindos de um socialista, ver se começo a olhar para a merda de governo que temos com os olhos adequados. 

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Pelo menos o dia está lindo. O trajecto de bicicleta de S. Bento à Foz vai ser uma maravilha. (Pequena nota lateral: a CP bem podia encontrar outro sistema para levar bicicletas. Assim penduradas dá-me cabo do guarda-lamas traseiro. Para não mencionar a entrada e saída nas carruagens. Seria preferivel pagar-se o transporte das burras e ter um seriço melhor.)

13.2.23

Notas à solta

Três - dois - um

Três edredões, duas horas prévias de aquecimento a gás no máximo e uma botija de água quente. E ainda há quem pense que faz frio no Alentejo.

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Hipotenusa 

Durmo em diagonal na cama. Toda a gente sabe que pés desapoiados não produzem boas ideias, bons sonos e menos ainda bons sonhos.

Se por acaso houver uma senhora no horizonte, basta certificar-me de que a sua altura é inferior à hipotenusa do triângulo recto assim formado, não esquecendo de subtrair ao lado maior do polígono a largura das almofadas. 

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De boas intenções, etc.

Um prado com cem flores será sempre mais bonito do que um de uma só, mesmo que essa seja a minha.

Variação 

skippers totalitários, rígidos, para quem só há uma maneira de fazer as coisas. Eu não sou desses. Sou um tipo aberto e flexível e sei perfeitamente que há duas maneiras de fazer seja o que for: a minha e a errada.

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Vê-se mais longe no escuro porque só se pode olhar para dentro. Olhando para fora esbarra-se imediatamente no muro do real.

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Sou contra os colchões de água, a menos que sejam também eléctricos. Aquecer aquela água toda ao fogão levaria a noite toda. Um colchão aquático eléctrico é muito mais rápido. 

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Somos filhos

A vantagem de se escrever de madrugada é que se fica com o resto do dia para não fazer nada e o nada não é bom pai.

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Vírgula final

Não gosto de vírgulas. Só servem para atrasar a leitura.

12.2.23

Fim-de-semana, família

O melhor remédio para um dia sulfúrico é aquela parte do mundo a que o enxofre mais pena a chegar: a família. Sobretudo a parte dela que vive no campo, numa casa tão fria quanto bonita. Mentira: é muito mais bonita do que fria porque o frio resolve-se e desaparece, a beleza fica. (Espero que apreciem a subtileza da paráfrase.)

De modo que debaixo de uma pilha de edredões e deste silêncio alentejano dorme-se bem. Não há ácido sulfúrico que resista a um fim-de-semana no campo, embrulhado nos cobertores da família.

11.2.23

Lama, luz, rum e outras coisas

Tenho um acesso severo de qualquer coisa que me é habitual: mistura de um presente peganhento e um futuro luminoso. Complicado, claro pelo facto singelo e incontornável de que o lamaçal de hoje já foi o luminoso futuro de ontem. Esta mistura de lama e luz torna-se cansativa, a partir do quadringentésimo quinquagési terceiro episódio. Piora quando começo a pensar em quantos faltam ainda. É preciso encontrar um critério, baseado a) na esperança de vida e b) qual o período dessa vida que se deve considerar. Estatisticamente vivi oitenta e quatro por cento da vida que posso esperar viver. Ou seja, para saber quantos episódios lama/luz devo esperar, teria de multiplicar quatrocentos e cinquenta e três por dezasseis e dividir por oitenta e quatro. O resultado desta regra de três simples é oitenta e seis. Mas isso só é válido se considerarmos a totalidade dos anos que vivi até hoje e esse pressuposto parece-me errado. O primeiro episódio não ocorreu à nascença. Que idade teria, quando tão funesta situação me encontrou pela primeira vez? Seria preciso subtrair essa idade à minha idade, perspectiva nada animadora pois vai fazer aumentar a média anual e portanto o número de vezes que ainda posso esperar viver esta situação. É verdade que misturada com a luz a lama se torna mais leve, menos repelente. Mas enfim, é uma simples questão de grau, não de qualidade. Um pântano é um pântano, qualquer que seja o panorama que lhe sucede.

A parte interessante disto é que sendo a vida um fractal este lamacento e luminoso  ciclo se reproduz a todas as escalas - mais vidas houvera, mais ciclos viveria: esta vida está uma merda, mas a próxima, ah, a próxima. Um paraiso de rum e virgens...

(PS à atenção dos senhores que regulam estas coisas; em vez de virgens preferiria senhoras de idade superior a quarenta anos e já, por assim dizer, formadas. E o lugar do rum poderia ser ocupado por uma boa conta bancária, com muitos zeros à direita. Se não for muito transtorno, claro.)

9.2.23

Diário de Bordos - Lisboa, 09-02-2023

Mudo de Genebra para Lisboa e sinto-me como se tivesse mudado de divisão em casa. Da cozinha para a sala de jantar ou desta para o quarto. 

A divisão Lisboa é maior, mais populosa e mais barulhenta do que a divisão Genebra e tem outra luz, mais sólida. Não é leite diluído como a genebrina. Está mais perto do mel de Leonard Cohen, quando fala dos cabelos da sua amante.

Talvez seja esta a principal diferença: o meu amor por Genebra é racional. Pode explicar-se facilmente com razões tangíveis. Aquilo que sinto por Lisboa é o contrário, é da ordem do irracional.

Palma estará no meio? Será uma mistura dos dois? Não sei. O tempo o dirá. Só conheço - e me apaixonei por - Palma há dez anos. Demasiado novo. Não se deve acreditar muito em amores recentes. Há que deixá-los sedimentar para lhes aferir a solidez e a justeza.

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A verdade é que Palma está cada vez mais presente e cada vez mais longe, como aquelas miragens no deserto ou uma montanha muito alta quando dela nos aproximamos vindos do mar. O asco está a atingir niveis inimagináveis, sobretudo porque eu pensava que isto tinha acabado. Não só não acabou como não está perto de acabar. Não é de hoje para amanhã que este povo se vai revoltar contra quem o "administra", com aspas porque se isto é administração pública eu sou a mulher do Papa.

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Já aqui o disse uma vez, mas posso repetir-me, este blogue já tem idade para isso. Não sou pessoa de muitos amigos mas sou-o de amizades. Poucas mas boas. 

Lamentavelmente o mesmo não se passa com os amores. Também são poucos, note-se.

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O processo cujo fim meia dúzia de pessoas esperam faz-me lembrar um concurso de salto a cavalo no qual o cavaleiro derruba cada um dos obstáculos.  Em vez de continuar e tentar recuperar desmonta do cavalo e compõe o obstáculo. Uma espécie de comédia so que em câmara demasiado lenta, o que lhe tira qualquer restea de comicidade que pudesse ter. Uma comédia ao ritmo de uma tragédia. Uma tragédia,  tout court.

7.2.23

Mortos, memória

"Aos domingos, iremos ao jardim. Entediados, em grupos familiares, 
Aos pares, 
Dando-nos ares 
De pessoas invulgares, 
Aos domingos iremos ao jardim
..." (Reinaldo Ferreira)

É domingo, mas não vamos ao jardim. Vamos ao museu, ver os mortos todos que tens na memória, tão mortos que nem de formol precisam. Basta-lhes uma ligeira brisa para os conservar. Por vezes agitam-se, tanto tanto que até ressuscitam. Depois acalmam e voltam para os seus lugares. Tão invulgares que eles são, esses teus mortos. Sempre a pisar o risco. Nunca sabes quando despertará um - o de Coimbra, por exemplo, que é o mais irrequieto de todos. Mas olha que o de Lagos ainda se mexe muito, para um morto. O de Paris também. Vamos olhar para esses mortos todos, se tiveres a gentileza de nos franquear as portas da tua memória. Podemos até convocá-los para uma sessão conjunta, não achas? Pô-los a conversar uns com os outros,  calmamente, sem grandes parangonas. Ainda saberão falar? Talvez agora só murmúrios, olhares arrependidos, quase dizer como o outro "Confesso que morri" e acrescentar "por ti, por nós".

Não sei. Os mortos são tímidos, recatados, não gostam de muita exibição, mesmo se de vez em quando se esquecem do que são. Deixemo-los cada um no seu canto: Lisboa, Coimbra, Porto, Paris, Caraíbas, Burundi, Filipinas... Essa memória parece um atlas de geografia. Se fosse comida derramar-se-ia pelo globo e cobri-lo-ia de um líquido viscoso a pingar gota a gota no vazio. Como iogurte grego. (Chiu, cuidado, não despertes o morto de Atenas.) Aos domingos iremos à memória, dando-nos ares de pessoas amnésicas.

6.2.23

Lagos, Lua, linhas de nodos

«Assim em cada lago a Lua toda 
Brilha, porque alta vive.» (F. Pessoa / R. Reis, Odes)

Em cada pedaço de mim estou todo. Em cada célula minha há uma dupla hélice com os códigos todos para me refazer. Sou o lago de mim mesmo.

Profecias de balcão, dúvidas inconstantes, flutuantes, pedaços de madeira provenientes de cada naufrágio, cada mão, cada copo. Rodas em torno de ti num movimento eclíptico. Muitas órbitas, vários nodos e as linhas que os unem, planetas que se julgam livres. Pedaços de mundos, lixo espacial. A cada passagem pelo antinodo ressuscitas, suspiras e recomeças. Estás inteiro em cada pedaço de ti. As linhas de nodos das tuas vidas formam uma teia da qual não sabes, não queres, não sonhas escapar. 

Um planeta conseguiu enganar a lei da gravidade, libertar-se das teias, desaparecer no lago escuro que nos espera a todos? Um planeta a cavalo no tempo fugiu da estrebaria. Traz a Lua a reboque. Vai cair num lago. 

Esse lago és tu.

5.2.23

Idade Média, hoje

Ao contrário do que frequentemente se pensa, a Idade Média foi uma época de aprendizagem, debates, dúvidas, descobertas. Tudo isto debaixo da capa da religião, que era muito mais flexível do que se pensa.

Hoje vivemos uma espécie de Idade Média do avesso: tentamos cobrir a Razão com a capa das crenças.  

Definição - solidão

Convivo bem comigo. Não preciso de muita companhia. Sinto-me bem sozinho. Já as minhas palavras não sabem o que fazer, quando não tenho a quem as enviar. Solidão é não ter a quem escrever. 

(Por isso estou tão bem sozinho: tenho-me sempre a quem escrever.)

4.2.23

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 04-02-2023

Hoje fui finalmente ver o Geneva Lux, um festival de luz que há em Genebra desde 2014. Como raramente as minhas datas coincidem com as da luz esta foi a terceira ou quarta vez que o vi. Foi também a pior: Genebra está em contenção energética, as alterações climáticas ameaçam-nos de morte certa se não nos portarmos bem e formos todos à igreja de Santa Salvadora do Clima e portanto as obras são «económicas em energia». É uma lástima, porque as edições anteriores eram verdadeiramente fantásticas. Este ano vi uma ou duas interessantes e o resto era de uma «sobriedade» confrangedora.

Como não tinha tripé só consegui fotografar duas das obras; e como achei o cojunto pouco interessante só vi a metade da margem esquerda. Aquilo acaba amanhã - contention énergétique oblige: normalmente durava três semanas ou um mês. Agora dura semana e meia. Ou seja: se de um certo ponto de vista a expedição fotográfica que tinha planeado foi um fiasco, doutro não foi. (Pequena nota informativa: o nome do festival remete para a divisa de Genebra: Post tenebras lux.) Quem quiser mais informações pode pesquisar «Geneva lux» no Google. Ou então ir directamente aqui (tem uma versão em inglês): https://evenements.geneve.ch/genevalux-oeuvres/list

O pensamento primitivo teria decerto dificuldade em compreender os séculos XIX e XX mas não teria nenhuma em perceber o XXI, com a possível excepção de dois ou três temas mais «modernos». Voltamos aos mitos, às crenças, ao pensamento mágico, à autoflagelação. A religião regressou em força, agora dividida em múltiplas pequenas capelas laicas

Para um velho reaccionário e ateu isto é mais do que pode aguentar.

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Entretanto dia oito volto para Lisboa. «Vastas emoções e pensamentos imperfeitos.»

Vitória, virtude

Podem estabelecer-se várias relações directas entre a vitória e a virtude: esta é normalmente definida por aquela; o vitorioso necessita de se sentir virtuoso para validar a sua vitória. 

Os perdedores são o pau na engrenagem. Sem derrota, a vitória seria uma ditadura imparável.

3.2.23

Miopia

Descalço, nu, sem os óculos de que os olhos míopes tanto necessitam e ele acabou por deitar fora avança tacteando na luz escassa da madrugada. Prepara-se para um novo dia - que nada de novo lhe trará, isso ele sabe já mesmo antes de o dia começar. É míope para fora, mas para dentro vê bem.

2.2.23

Medo, razão e zeitgeist

Pergunto-me frequentemente se fomos nós - a minha geração - que deixámos à nova este mundo que já deixou de se antever porque está presente, ou se foi a geração que se segue quem construiu o horroroso mundo que aí vem - que aí está - com o que nós lhe deixámos. Deve ser  a primeira vez na história da humanidade que uma nova geração escolhe ter menos liberdade e menos humanidade do que a precedente. Não nos iludamos: o wokismo é o pior ataque ao humanismo de que há memória desde que o conceito foi inventado na Itália do séc. XV.

Não é só o wokismo. É também esta cultura do medo, da redução do outro ao estatuto de perigo potencial. A alteridade - que nós, hippies, soixante-huitards, víamos como uma riqueza é agora um risco que deve ser categorizada, classificada, enfiada em compartimentos estanques em nome, doce ironia, da inclusão. 

A histeria securitária tomou conta da vida quotidiana. Defender-se é a atitude correcta (e exige que se inventem riscos em quantidade). Segurança acima de tudo - inclusivé acima da liberdade, da individualidade - que desapareceu, trocada pela identidade - do futuro, esse risco insondável.

A minha geração pode limpar as mãos à parede? Ainda não sei. Mas já sei que o que aí vem não é bonito, nem humano. O medo tomou conta do mundo e onde há medo não há Razão. 

29.1.23

Gratin dauphinois (a fixar)

100 gr de manteiga
1 l de leite
1,5 kg de batatas (charlotte)
1 dente de alho (ou dois)
30 cl de natas
Sal, pimenta, noz moscada

Misturar as natas com o leite e cozer as batatas cortadas em rodelas finas só até o leite começar a ferver, dispor as batatas no prato de ir ao forno previamente untado com o alho. Enfornar 1h / 1,5 h a 130º, mais coisa menos coisa.  

PS - Não lavar as batatas ou lavá-las muito pouco. Precisam do amido.

(https://www.enviedebienmanger.fr/fiche-recette/recette-gratin-dauphinois-traditionnel)

A experimentar

400g cooked chickpeas
1 avocado
1 handful of basil leaves
1 glass of water approx.
250 ml 2 tbsp lemon juice
1 tbsp tahini
2 small clove of garlic
2 tbsp olive oil
Salt, Oregano, Chili Flakes
Put everything in the blender and puree. Arrange the hummus on a plate, decorate with some olive oil, basil leaves and a few chili flakes.

28.1.23

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 28-01-2023

Ao contrário de muita gente, prefiro viajar na TAP a viajar em qualquer outra companhia (das que conheço. Nunca viajei na Emirates, por exemplo). A TAP só é péssima até se entrar no avião. Uma vez lá dentro transforma-se naquilo que nós somos: cordiais, flexíveis, atentos. O diabo está nesse «até se entrar no avião». Hoje tentei reservar o meu regresso a Lisboa na nossa «companhia de bandeira» (aspas porque ironizo) e mais uma vez não consegui. Vou de Easyjet, uma companhia pela qual não morro de amores - sobretudo quando, como foi o caso hoje, o preço é igual ao da TAP. Quando é mais barata ainda vá que não vá, o que não tem remédio remediado está. Mas sendo o preço praticamente o mesmo irrita-me esta necessidade que nós temos de ligar o complicómetro e a ele juntar a negligência ou incompetência ou seja o que for. A TAP é uma excelente montra do carácter português: inapto por fora, mais do que aprovável por dentro.

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Breve apresentação de uma psicóloga: «Dá consultas privadas sobretudo no âmbito das seguintes problemáticas: traumas, medos, fobias, depressão, bordeline, bipolaridade, dor de luto, dificuldades relacionais, violência doméstica, divórcio, aconselhamento parental, consulta de casal. As populações visadas são: Crianças, jovens, adultos e séniores». Apeteceu-me perguntar à senhora se é especializada em «Tudo» ou em «Quase tudo» e se por acaso pode incluir animais de companhia («cães, gatos, lagartixas, mini-hipopótamos, caracóis, periquitos e corvos» nas «populações visadas».

A psiquiatria em Portugal anda pelas ruas da amargura - se bem tenha recentemente ouvido dizer que está a melhorar - e das duas uma: ou a senhora é uma excelente generalista (espero que seja o caso) ou é «especializada» em demasiadas «problemáticas» (aspas porque ironizo e porque cito).

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Detesto fins de semana e este não é excepção. Quando se espera qualquer coisa vinda de uma empresa ou de um organismo público a única vantagem que têm é saber-se de antemão que nesses dois dias não se receberá o que se espera. Já quando trabalho não tenho razão nenhuma para gostar ou deixar de gostar: são dias de trabalho iguais aos outros. Em Genebra têm outra vantagem: são os dias do passeio ao campo, passeio mais ou menos longo em função do tempo, do cansaço e da disposição. O de hoje foi curto e quase dentro da cidade. O sítio é bonito, ao longo de um ribeiro chamado Aire, na comuna do Grand-Lancy. A cadela regalou-se e eu só lamentei a luz estar uma porcaria e não dar para fotografar fosse o que fosse.

Trajectos

S. conta-me episódios de quando estávamos casados e descubro com horror quão inimaginavelmente abominável eu podia ser com ela. Cada vez tenho menos dúvidas: para se ser um homem decente há que ter sido indecente. Quanto mais de um, mais do outro.

Não poder fazer mais nada

Estou a tentar arranjar uma forma de provar que é preciso ser-se fraco para se ganhar a batalha. Penso obviamente em Sun Tzu, mas sem o livro à mão dali não me vem ajuda. É um paradoxo, claro. O que quero dizer é que só os fortes se podem dar ao luxo de parecer fracos. Isto é: só os fortes sabem quando podem ser fracos. No mar temos muitas situações dessas. Num arraial de pouco serve fazer de Tarzan. Mais vale ser Jane. You Tarzan, me Jane. Oferecer a menor resistência possível ao mar. Ninguém luta contra um ciclone. On fait avec ce que l'on a. On fait le dos rond. O que é que fizeste? Bom, meti-me no beliche e dormi. Não podia fazer mais nada. Enrosquei-me tudo o que me era possível e dormi. Ou então: sentei-me e olhei pela janela. Não a abri sequer. Só olhei para fora. As árvores vergavam-se com o vento, as ruas inundavam-se com a chuva  e eu olhava, chávena de chocolate quente numa mão, croissant na outra. Puxei a cadeira, sentei-me e olhei. Não podia fazer mais nada. É preciso ser muito forte para se poder não poder fazer mais nada.

Assim se deve enfrentar os dias. Chocolate quente e croissant de manhã, vinho quente e bratwurst à noite. Entre os dois: nada. Olhar. Para dentro, para fora. Não se pode fazer mais nada. Excepto, talvez, escrever uma apologia do abulismo. E dormir enrolado em torno do vasto eixo do nothingness. Néant. Nada. 

Miragens, deserto. Para lhes resistir:  fechar os olhos. Fazer nada. Puxar os cobertores, tapar-se bem, aconchegar-se. Não pensar. Desligar os circuitos, como se se puxasse uma ficha. Não oferecer resistência às vagas. Fechar os olhos.  Não fazer mais nada. Repetir.

27.1.23

Falhado falhado

Era um falhado. Tão falhado que não conseguia sequer falhar o seu falhanço.

Tolerância, relativismo, tretas

O multiculturalismo é lindo. Porém, um dia esbarra com coisas como excisões, crenças chinesas nas virtudes do pó de corno de rinoceronte ou nas barbatanas de tubarões, caçadores de baleias et al. e os multiculturalistas - que são, não nos esqueçamos, meninos mimados das classes médias europeias - não sabem bem o que fazer.

Sou multiculturalista avant la lettre - não é bem desde que nasci, mas quase - e tenho sérias dúvidas sobre as virtudes de tal coisa. Prefiro dizer como dizia alguém: «Sou tolerante, mas não sou relativista.» 

26.1.23

Maldade - manual de utilização

I

A pior forma de maldade é a que vem embrulhada em bondade.

II

Há uma volúpia na maldade que é insaciável. 

III

Se magoares alguém, assegura-te de que o magoas onde mais dói e assegura-te de que o magoas mais do que o necessário. Deixa o "olho pir olho" para os justos.

Leonard Cohen, melancolia

Não há tristeza completa sem Leonard Cohen. O homem está para a melancolia como as abelhas para o pólen: precisam umas do outro para se realizarem. E darem frutos, convém acrescentar.

Vai bem com os Microcosmos de Bartók.

Diálogos impossíveis

A entrada de António na velhice foi abrupta, como de resto tudo o que de importante acontecera em toda a sua vida antes disso. 

- Primeiro foram os olhos, depois a resistência à bebida, depois a força fisica... O pior foi quando a ponte levadiça começou a fazer exigências estúpidas para se levantar. Ele era amor ele...
- Desculpa interromper-te, António, mas dessa parte beneficiei, beneficio e pior - aprecio muito que assim seja. Se percebi bem, tu não envelheceste. Melhoraste.

25.1.23

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 25-01-2023

As mercearias «bio» da Suíça (pelo menos na Suíça-francesa) estão a fechar. «Falta de clientes», diz o repórter. «Aparentemente, para as pessoas comer já não é uma prioridade». O dono de uma das mercearias, entrevistado, esqueceu-se de adjectivar comer. Compreende-se: comida é bio. A outra é uma mistela. Não se compreende é como conseguiu alimentar tantos milhões de pessoas por esse mundo fora.

Não tenho nada contra o bio, note-se. Aliás, quando morava no Príncipe Real era cliente do mercado bio que ali se realizava todos os sábados. Descobri que os legumes se aguentam muito melhor e sabem melhor. Para uma pessoa só, pouco consumidora de coisas verdes, a diferença de preço era facilmente compensada. Posso portanto dizer que contribuí para salvar o planeta, apesar de pensar que ele não precisa de ser salvo - tratá-lo bem é suficiente - e de as motivações serem bastante egoístas, por assim dizer. 

Como as dos fazedores-de-bem, de resto. «Não pode a alma elevar-se às regiões espirituais senão pela dedicação ao próximo; ela não encontra felicidade e consolação senão nos arroubos da caridade. Sede bons, ajudai aos vossos irmãos, ponde de lado essa horrível chaga do egoísmo. Esse dever cumprido vos deve abrir as vias da felicidade eterna. Aliás, quem dentre vós não sentiu o coração pulsar e sua alegria íntima expandir-se pela prática de uma obra de caridade? Não deveríeis pensar senão nesta espécie de volúpia proporcionada por uma boa acção...» (S. Vicente de Paula). O sublinhado é meu: a caridade pode ser embriagante. (Como explicar de outra forma que eu dê tanto dinheiro, quando o tenho?)

O que me chateia na «bio» é esse aspecto teológico, salvar o mundo, «eu estou no grupo dos bons». É uam atitude que se encontra em muitos grupos, um dos quais, para grande infelicidade minha, sendo o dos ciclistas. Nos anos oitenta em Berlim eram insuportáveis: andavam a toda a velocidade pelos passeios, atropelavam peões, gritavam para nos afastarmos - abominável comportamento que segundo eles se justificava por eles serem «o futuro», os «defensores do planeta», os portadores da palavra de deus. Sou ateu, impermeável a todas as religiões. Sejam elas laicas ou eclesiásticas. 

Enfim, começo nas mercearias biológicas da Suíça-francesa hoje e acabo nas bicicletas de Berlim dos anos oitenta. As primeiras fecham, as segundas expandiram-se. As queixas são permanentes em todo o lado. Em Berlim, claro, as autoridades intervieram e a coisa mudou. Não tarda vai acontecer o mesmo em todo o lado. Há ciclistas idiotas que tal como a maioria dos automobilistas não percebem que uma bicicleta é um híbrido, um misto de peão e veículo e como tal deve comportar-se diferentemente consoanto o sítio onde se está. (Há quem chame a isto bom senso, sensatez, siso, mas deixemos as complicações de lado.)

Falo das bicicletas porque me faz grande falta uma aqui em Genebra. Mal chegue, a chuva vai ter muitos jardins para regar.

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Quando esta espera acabar vou escrever um artigo a contar a história. Começo com duas digressões: a da equivalência na Martinique e a da experiência no Burundi. Depois vou confrontar os diferentes intervenientes. É importante ouvir os dois lados. E sobretudo mais eficaz, espero.

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De novo sozinho em casa: S. em Lyon e a cadela L. em casa da G. Estes dias seriam tão produtivos, não fosse esta maldita tensão em que vivo. Maldita e paralisante o que é pior. Não sou gajo de rancores, mas acho que esta vai ser difícil de esquecer. Os funcionários públicos portugueses deviam poder levar pontapés no cu até ficarem sem ele - refiro-me a pontapés literais, dados com botas cardadas, dez por cada dia perdido. (A dez por dia as vítimas da incompetência, negligência, sobranceria, desinteresse, preguiça e por aí fora ficariam sem pé antes de eles ficarem sem cu...)

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Portugal muda de polémicas mais depressa do que as casas de gelados mudam de sabores. Tanta futilidade é irritante. Parecem galinhas a cacarejar: fazem muito barulho mas não serve para nada.

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A fechar: amanhã vou ter o meu neto Leonardo comigo uma hora. Razão: exame de filha. Está a preparar outro neto. Ou neta, isso saber-se-á amanhã, justamente.Há pouco menos de dois anos não sonhava sequer que seria avô. Agora preparo-me para o ser a dobrar. A alegria não se divide pelos dois: multiplica-se por dois.

22.1.23

Guerra perdida

Nunca na história da humanidade os velhos ganharam a guerra contra a modernidade deles e não há geração que não o tenha tentado.

Linhas

"I don't know much about gods', dizia Eliot. Ruy Belo respondia-lhe:

"É antes do anoitecer suavíssimo dos deuses
antes do começar da sombra rente às árvores..."

É naquela linha que o Sol poente traça entre a luz e a sombra, ... É nessa linha que habitamos... 

Começo por procurar uns versos de Ruy Belo que me levam a Eliot e encontro um post meu de há três anos. Há quem chame a isto a linha do tempo ou a linha de luz. Conrad chama-lhe a linha de sombra. Seja do que for, é uma linha, uma fina e ténue linha que se vê mal. Para ser vista requer olhos e um bocadinho de alma. Psique e soma. Tateio hesitante a luz rugosa do fim do dia, uma luz "rente às árvores" e eu que nada sei de deuses pergunto-me o que está para lá daquela sombra que adivinho nos troncos, na metade deles voltada para mim, na escuridão que avança silenciosa, empurrada - quem sabe - por esses deuses de que nada sei. 

É mentira que nada sei de deuses. Quem como eu coabita com os diabos todos da criação tem de conhecer os deuses também,  se não não sobrevive. Andam sempre juntos. Naquele diálogo estou do lado de Belo: é em mim que os deuses escolheram anoitecer delicadamente e finjo não os conhecer, não lhes falo, limito-me a olhar para eles, para a luz rugosa que me estendem num prado meio coberto de neve. As árvores, a neve, a luz, as sombras que avançam para mim, que saem de trás dos troncos onde durante o dia se esconderam, de debaixo dos ramos que um vento forte agita. Tudo isso e eu, o que vejo fora de mim é o que está dentro, como se fosse um espelho ou feito de cristal transparente, como se fosse uma suavíssima parte da paisagem, inquieto à procura dos deuses escondidos nesta linha entre a sombra e a luz, essa linha onde todos habitamos, seja ela de sombra, de luz ou de tempo.

21.1.23

Diário de Bordos - Genebra, 21-01-2023

Sonhei com o Big Bad Dennis. Não faço a mais pequena ideia do porquê de tão estranha associação. Talvez tenha sido porque ontem vi umas fotografias de 12 M JI, não sei. A minha teoria dos sonhos é diferente das do Sigmund e do Jung. Não acredito muito nessas coisas de os sonhos serem portas para o inconsciente ou caminhos ou comunicações ou o diabo a sete. Acho que são o resultado do dia-a-dia e do estado de espírito do sonhador. Pelo menos os meus. Aceito naturalmente que me digam que sou um tipo primário que nem sonhos como deve ser sabe ter. Aceito com um caveat: depende de que sonhos estamos a falar. 

Não deixo contudo de ficar contente por ter o Dennis Conner  a dormir em mim, salvo seja. Deve ser o resultado das boas notícias que tive ontem. É um sintoma do estado a que cheguei, sonhar com o Conner por causa das micro-boas notícias de ontem. Em condições normais mereceriam um «óptimo!» meio distraído e pouco mais. Um dia estarei a sonhar com o Tabarly ou com o Loïc Peyron e aí terei atingido o cume do Everest das boas notícias, suponho.
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Saio para ir passear a cadela - outra das minhas funções aqui. A temperatura exterior é de um grau negativo. Com o vento parece muito mais frio. Apesar das luvas as mãos enregelam-se-me  em questão de minutos. No parque vejo um tipo a correr de calções e t-shirt. Deve ter um aquecimento interior, penso com um arrepio que me vem de dentro. Até os fluidos gástricos se me gelaram. Deve ser um daqueles que acredita no aquecimento global, o antepassado das alterações climáticas e da respectiva «urgência».

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Ontem a caixeira do supermercado dizia para uma cliente: «Normalmente o mês de Janeiro demora muito a passar mas este foi muito rápido. Já estamos quase em Fevereiro.» É verdade. Este mês não acaba e já acabou. O nome vem-lhe de Janus, o deus com duas caras, dois tempos. 

A doxa e eu

A única péssima e perene relação que tenho desde que comecei a balbuciar os primeiros monossílabos é com a doxa. Nunca nos suportámos mutuamente.

20.1.23

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 20-01-2023

As alterações climáticas acabaram e as temperaturas voltam ao normal para a época: mínimas de cinco negativos, máximas de zero ou um positivo. Já não estou habituado a estes números e saio pouco. Verdade que esta mistura de depressão e ansiedade na qual vivo, provocada pela pavorosa e cruel espera que os funcionários públicos me impõem (não só a mim), contribui bastante para este imobilismo. Refugio-me numa mistura eclética de música sacra, experiências de cozinha e programas de comentários de política nacional: música pré-gregoriana, improvisação para um bolo, Camilo Lourenço e Observador. E café, claro. Muito. Encontrei uma loja de café em Annemasse que o tem bom e muito mais barato do que Genebra, o que não é difícil. Ou seja: o títylo deste post tanto podia ser «Dias tranquilos em Genebra» como «Dias tensos em Genebra». Ou «Dias intermináveis em Genebra». Salvam-se, claro, os dias de visita ao neto, alguns passeios e pouco mais. 

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Penso muito no artigo que vou escrever a contar esta história. O mais importante - o mais difícil - é não lhe dar o aspecto de vingança. Evacuar a raiva antes. Pensar na New Yorker (excusez du peu). Não vai ser possível, claro, mas pelo menos deverei tentar.

Como descrever objectiva e friamente uma palhaçada?

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O resultado da experiência com o bolo não me parece famoso. Prolongo-lhe o tempo no forno, ver se pelo menos fica mais seco; e atiro-me a um livro, ver se o tempo passa mais depressa do que a música, que é encantadora mas paralisante. Isto é: move-se para dentro, para o fundo, como se o tempo tivesse feito um desvio de noventa graus para baixo.

19.1.23

Escrever

Escrevo porque preciso de escrever, não porque preciso de ser lido.

Retratos

 Era demasiado auto-centrado para ser capaz de sentir inveja.

17.1.23

Julgamentos

Por muito que vocifere contra os funcionários públicos - em especial os de uns determinados organismos ali de meados da linha de Cascais - por muita vontade que tenha de lhes pôr bombas debaixo da cadeira, de lhes dar cicuta de manhã ao pequeno-almoço e se for necessário completar a dose ao almoço; por muito que gostasse de os ver comidos pela lepra, roídos por térmitas, mordidos por serpentes venenosas (aqui há que ter cuidado. Não seria impossível que fossem as coitadas das cobras a morrer), por muito que deseje vê-los esquartejados debaixo do comboio, por muito que deseje estas coisas todas e outras que tenho vergonha de aqui confessar, a verdade é que tudo isto são desejos teóricos, desejos in vitro, por assim dizer. Na vida real tento não julgar ninguém, pelo menos antes de ter uma noção mais ou menos completa do que levou as pessoas a fazer qualquer coisa que a priori me pareça errada. Os supra-mencionados funcionários públicos - que morram queimados no fogo do inferno - não são excepção. Desejo-lhes todo o mal do mundo até ao momento em que for falar com eles e lhes perguntar porque agiram como estão a agir.

Só depois disso os julgarei «a sério». Julgamento esse, claro, que lhes será totalmente inofensivo. Não tenho - infelizmente - poderes para lhes impor todos os castigos que agora acho que merecem.

14.1.23

Revolução

Falava eu de revolução, mas não no sentido político. A política interessa-me pouco e esse pouco não inclui mudanças bruscas do que quer que seja. Não gosto de mudanças. Claro, podem vir dizer-me que a revolução industrial e blá blá blá. Tão pouco é dessa revolução que falo. Só uma revolução me interessa: a dos astros. Orbitar. Quantas órbitas deu a tua vida? Quantas voltas e a quê? A quem? Olhas para uma órbita como um fractal: começa na galáxia e acaba num asteróide em torno de um miniplaneta. Há vidas assim: órbitas fractais. Resta saber se as revoluções estão no mesmo plano ou se são elipsóidais. Cilíndricas? Vidas a duas ou três dimensões? Passeias-te com os fractais pela galáxia, feito dandy, fato de linho branco, chapéu e bengala e ela não te liga nenhuma, a galáxia. Nem a Lua sequer quer saber de ti. Verdade seja dita: nunca pensaste que eras tu o eixo da revolução. Se pensaste não disseste. Se disseste, ninguém ouviu. Uma sorte, repara. Nessa coorte de surdos que te segue, te precede, te envolve encontraste um canto para orbitares em paz. Estás sozinho no teu microplaneta, um espaço feito de ti e um elefante dentro de uma serpente. Aqui dispensas o fato de linho e a bengala. Dispensas tudo e todos, até o estúpido do elefante que ninguém sabe como se foi enfiar pela cobra dentro. Estás sozinho no meio de um exército de surdos a quem não tentas falar, de cegos que não te querem ver. Acabas de decidir que a tua vida é tridimensional: permite-te mais variedade. Com sorte consegues encher o sólido que desenhas no microespaço com algo de sólido. Tempo? Futuro? Passado não: há muito que o deixaste vadiar pelo espaço, sem rumo nem destino. Imagina um pião numa rampa. Não. Uma folha de papel A4 girando em torno do seu lado maior? Sim. Gera um cilindro cheio do que nela estiver escrito. Resta saber se estás do lado de dentro se de fora do cilindro. Se não te ouvem por serem surdos se por terem uma parede que os separa de ti. Indiferente, vais enchendo a folha A4 de palavras desconchavadas, de diagramas geométricos, de planos estelares. É isso que de ti alguém um dia encontrará: palavras, diagramas e planos. Estelares. Fechados.

13.1.23

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 13-01-2023

Hoje é um dia histórico: acabei a segunda volta da edição da continuação do Avenida. Ainda não sei como se vai chamar, ainda falta uma terceira volta (muito mais rápida porque é só praticamente eliminar posts, já há pouca revisão de texto a fazer), ainda falta enviá-lo para o J. R., que simpaticamente se propôs dar uma vista de olhos - vindo de um dos melhores editores portugueses isto é uma bênção - mas a verdade é só uma: falta menos uma etapa.

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Adultério é coisa de adultos. Já alguém ouviu falar em criancério?

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Partilho a sala com a cadela. O bicho sonha que faz inveja. Passar os dias a dormir e à noite sonhar parece-me uma uma boa forma de vida.

Eu também sonho, é certo. Mas acordado: sonho que um dia esta agonia vai acabar e vou poder voltar para o meu amado P., que me faz perder o sono. Sonho com o dia em que vai trabalhar. E muitas outras coisas, nas quais tento não pensar. Já basta não dormir.

Comentários

AVURNAV (Aviso urgente à navegação): só agora descobri que há uma etiqueta no Blogger onde ler os comentários. Antigamente os avisos chegavam-me por e-mail. Agora, aparentemente, há que ir a essa folha, adequadamente chamada «comments». O meu pedido de desculpa a quem enviou comentários aos quais não dei seguimento em devido tempo.

Oniris

Vi-o ontem na baixa: alto, magro, bem vestido "à funcionário", cabelo bem penteado. O que me chamou a atenção foi ter percebido que levava atrás um sonho completamente nu. Nada tenho contra a nudez dos sonhos, repare-se. Frequentemente até os prefiro assim, nus e puros. Acontece que não é frequente ver sonhos desses em tipos vestidos daquela forma. São mais coisa de hippies, aspirantes a cantores ou jovens empresários. Funcionários de fato cinzento barato, gravata indescritível comprada claramente no chinês da esquina e sapatos que pareciam estar na família há quatro gerações têm habitualmente o costume de vestir os sonhos antes de saírem de casa. O sonho parecia-me confuso, meio andrógino. Percebia-se que não tinha roupa, os cabelos tanto podiam ser de homem como de mulher e seguia-o de cabeça baixa, como se ali estivesse a contragosto.

Nós videntes de sonhos não somos mais de uma dúzia e conhecemo-nos todos. Sou o único que vê pesadelos e sonhos nus. Os outros especializaram-se em sonhos «normais» (aspas porque é uma maneira de dizer. Não há sonhos anormais). Eu preferi pesadelos: de qualquer forma, a minha vida acordada tem sido uma sucessão deles; passar essa experiência para a noite e para os outros foi fácil. Todos os dias treino: no jardim aonde passear a cadela, no supermercado, no autocarro que me leva para a beira-mar. A quantidade de pessoas que tem pesadelos é muito maior do que se pensa. Já os sonhos nus, sonhos que aparecem sem roupa, vindos do nada e sem destino aparente, são raros. Não sei como fui parar a essa área tão especializada da vidência de sonhos, mas pouco me importa. Os sonhos nus intrigam-me, por vezes levam-me a querer inquirir mais sobre o sonhador que os traz a reboque mas raramente dou seguimento a esse impulso.

Tenho que chegue com os pesadelos, os meus e os dos outros. 

11.1.23

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 11-01-2023

Esta espera, maldita espera continua. Entranha-se-me pelos ossos, pelo ventre que anda com uma pedra lá dentro há meses. Nunca fui muito fã dos funcionários públicos portugueses; agora começo a pensar que se lhes devia dar cicuta a beber ao pequeno-almoço. Os das câmaras municipais são os piores? Não sei. Quando me lembro das minhas guerras com a burocracia marítima hesito em estabelecer comparações: são todos iguais e igualmente péssimos. A falta de respeito, consideração, compaixão, humanidade daqueles animais é siderante. Funcionários públicos? Não. Disfuncionários públicos

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Resultado: a única coisa que consigo fazer é a edição do texto para a continuação do Avenida. Ler e escrever são para esquecer. O Guides V. O. sobre as Baleares está numa espécie de banho Maria doloroso. 

8.1.23

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 08-01-2023

Depois de uns dias de abatimento parece que a stamina voltou. Hoje avancei quase trinta ou quarenta páginas na edição da continuação do Avenida. Tem sido uma luta a subir, esta, coisa que Sun Tzu diz se deve evitar a todo o preço. Luto contra mim próprio e não percebo por que raio estou em baixo e em cima está a outra metade de mim. Devia ser ao contrário. 

Isto é retórica, claro. Sei muito bem de onde me cai este pedregulho que levo para todo o lado e me tolhe todos os movimentos, paralisa-me com algemas interiores, sufoca-me como se alguém me pusesse a cabeça debaixo de água e me impedisse de tirar. Uma amona, como lhe chamávamos quando éramos miúdos. Só que quem me faz isso tudo sou eu, Sísifo de mim.

Enfim, hoje não me queixo. O Sísifo conseguiu manter a pedra lá em cima, eu nem tive de lutar, sequer. O esforço não consumiu energia. Resta saber se fou uma aberta como um dia de sol no inverno de Genebra ou se é um Verão mediterrânico, inundado de luz. Veremos. Isto tem de ser um dia de cada vez, escada que se sobe degrau a degrau. Não vale a pena tentar apanhar o elevador: passa a vida avariado.

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Amanhã passamos o dia com o Leonardo, S. e eu. Vamos a Prangins, uma aldeola bonita a vinte quilómetros daqui. É um hábito da S. que decidiu consagrar todas as segundas-feiras ao neto. Eu vou de boleia. Ver se amanhã ainda tenho o fogo sagrado de hoje.

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Esta espera está a dar cabo de mim. Já as tive pior, bem sei. Mas quero que o pior se lixe. Assim já é mau que chegue. Sinto-me como aquelas rãs da história, que numa panela ao lume vão sendo cozidas sem darem por isso. Com a diferença óbvia de que eu dou e sinto a água a aquecer e tenho de me lembrar das lições de natação do passado e não parar e não me deixar afundar pelo calhau cá dentro.

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O Guide V. O. está completamente parado. Creio que só vou conseguir avançar com aquilo quando estiver em Palma.

A minha vida gira em torno do P. Só não sei se ele é um sol se um buraco negro.

7.1.23

"Europa"

Estou muito grato à Europa por uma certa quantidade de coisas: o euro, por exemplo. Cada vez que venho à Suíça penso no pesadelo que era andar com uma carteira de pesetas, outra de francos franceses, outra de francos suíços - para além da de escudos portugueses (e às vezes marcos alemães e libras esterlinas). As formalidades fronteiriças. As imposições ao nosso governo - para os outros estou-me nas tintas. (Sim, sei que essas imposições são insuficientes. A "Europa", entre aspas como a designava o saudoso Vasco Pulido Valente, devia ter um representante com direito de veto no conselho de ministros.) A facilidade de comércio intracomunitário.

Infelizmente, essa "certa quantidade de coisas" é cada vez menor. A "Europa" transformou-se num monstro burocrático e paranóico que - a título de exemplo - duzentas vezes por dia me obriga a dizer que sim, aceito cookies. Bolas, não podiam arranjar um sistema que se lembrasse da minha escolha?

Podiam, claro.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 07-01-2023

Os dias sucedem-se calmamente, como é suposto acontecer na Suíça.

Isto é irónico, claro: a Suíça são vinte e seis países e Genebra é o mais "mediterrânico" deles (com bastantes aspas, mas não tantas quantas se poderia pensar). A calma não vem só do exterior. Ao almoço tive os filhos e companhia, a um dia cinzento segue-se outro dia cinzento mas hoje houve sol de maneira saí de manhã cedo para ir fazer fotografias para a beira do lago e - oh revolução,  oh epifania, oh metamorfose - usei o microondas para aquecer o jantar. E não foi a única revolução do dia - também agradeci a presença de uma máquina de lavar loiça. (Parafraseando o imortal e lamentado Mitterrand, demasiada loiça mata a loiça.)

Não quero contudo que os leitores vejam nisto uma transformação radical e, sobretudo, perene. Para começar, não é a primeira vez que uso um microondas. Deve ser para aí a quinta, pelo menos. Em segundo lugar, tão pouco é a primeira vez que uso uma máquina de lavar a loiça com gosto. Durante o primeiro confinamento, em Palma, usei-a todos os dias. Era uma máquina pequena, que se enchia com a loiça quotidiana e dados os menus tipo avalanche que faziam a minha ementa diária a maquineta era muito bem vinda. Já à televisão continuo reticente, apesar do prazer que é ver um telejornal aqui: curtos, concisos, informativos. Mas o filme que hoje se lhe seguia, uma comédia franco-francesa chamada Bienvenue chez les ch'tis aborreceu-me ao fim de dez minutos apesar de gostar muito dos ch'tis, diga-se de passagem, e da respectiva região.

Não estou, portanto, à beira de uma revolução na minha relação com as máquinas. E muito menos com o tempo, também conhecido por modernidade. 

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Reencontro o supremo gozo da pontualidade. Até para um almoço de família as pessoas estão a horas e se houver algum atraso avisam (atraso sendo tudo o que passe os cinco minutos).

Uma das coisas às quais não me habituo em Portugal é a falta de noção das horas. Bolas, é tão fácil ser pontual! E sobretudo, o gozo que proporciona é muito superior ao esforço que requer.

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A relação dos funcionários públicos portugueses com o público para quem são supostos funcionar continua a exasperar-me. É um hino quotidiano à minha capacidade de retenção, de controlo da raiva. É simplesmente indecente. Não merecem a designação de pessoas. São vermes que deviam ser esmagados. Deviam ser pagos com cuspidelas e não com dinheiro. (Refiro-me aos funcionários das câmaras municipais, especialmente a uma que fica ali para o meio da linha de Cascais. Não deve ser muito diferente das outras, eu sei. Mas desta tenho provas.)

6.1.23

Terra incognita, o que há

Sabes muito pouco do que quer que seja e esse muito pouco inclui muitos erros, muitas asneiras, falsas ideias, preconceitos que um dia serão corrigidos. O pouco que sabes é ainda menos do que à partida supões. Tens uma sorte e só uma: sabes que não sabes. A vastidão do desconhecido não é para ti a terra incognita das cartas de antigamente. Por isso te é tão difícil ter certezas: o teu território é o da dúvida, o da hesitação, o da bengala branca do cego no passeio de uma rua que desconhece. O teu mundo, por assim dizer. Navegas nesse mar de abismos descontrolados, fendas nas quais só penetram o teu olhar perplexo e com ele a fraca luz do pouco que sabes. É insuficiente, mas é o que há.  

Passado, futuro

Por muito arrumado que se seja, por muitas voltas que se dê na cama, chega-se a um ponto em que o passado não cabe no futuro.

Médico

Móveis velhos, baços. Rangem, coxeiam, estão cheios de marcas do uso. A própria casa esta desarrumada, demasiado cheia. As janelas já não fecham correctamente há bastante tempo. Não há aquecimento que chegue. A tinta das paredes escama-se, portas batem porque as fechaduras caíram e não têm quem as substitua. As paredes e os tectos enchem-se de mofo preto, as torneiras pingam, os ralos estão entupidos.

Decididamente está na hora de ir ao médico.

3.1.23

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 03-01-2023

A ser verdade que não devemos regressar a um sítio aonde fomos felizes, que dizer de um no qual não o fomos? Ou pior: aonde fomos infelizes? Talvez ali voltar seja uma questão de bom senso, não? Corrigir o que fizemos errado, apercebermo-nos de pormenores que passaram despercebidos, sei lá... Ou talvez, mais simplesmente, vermos os efeitos da passagem do tempo em nós e nesse lugar. Não somos os mesmos, ele também não e estamos bem assim, confortados, relaxados. 

A questão é falsa. Só se pode dizer que se foi feliz num lugar se lá se tiver passado pouco tempo. A felicidade é fugaz, como diz a canção brasileira. E, muito provavelmente, retroactiva. Pode - e deve - regressar-se a todo o lado onde já se esteve. A vida é uma sequência de círculos sobrepostos, não uma estrada recta no deserto. Pelo menos a minha.

A perfeição e nós

Pobre do Homem: sabe o que é a perfeição mas, com a excepção de alguns breves lampejos, é incapaz de a alcançar. Miguel Ângelo, Caravaggio (na pintura, que no resto mais valia estar quieto), Bach, Mozart, Hildegarde von Bingen, Rachmaninoff e talvez uma dúzia de outros alcançaram-na fugazmente, numa obra ou em poucas.

(Porque é que só artistas conseguem tocá-la, por muito brevemente que seja?)

2.1.23

Igualdade, nós e os outros

Somos todos iguais, com excepção dos que são mais estúpidos do que nós, não é? Isto é, há dois níveis de igualdade: o nosso e o que está abaixo de nós. 

1.1.23

História de comprimidos

Por vezes adormecer dá muito trabalho, é muito laborioso. Ora tens dores nos ombros, ora estás enjoado, ora te dói a memória ou o futuro ou outra coisa qualquer. Há sempre uma dor à espreita, quando envelheces. Por uma qualquer estranha alquimia da vida, essas dores não são compensadas por uma igual e simétrica quantidade de alegrias - à noite. Durante o dia a história é outra e melhor. Nalgumas dessas noites tomo um comprimido para dormir. Questão de preguiça, só. Não sou nenhum S. Jorge a lutar com o dragão nem S. Cristóvão com o Menino aos ombros. São poucas. Tal como são poucas as vezes em que tomo um analgésico para as dores de cabeça, apesar de andar sempre com eles atrás. Nada tenho contra a indústria farmacêutica, note-se. Ou tenho pouco, vá lá. Globalmente faz mais bem do que mal. Não sei de onde me vem esta antipatia pelos comprimidos e remédios em geral. Creio que é uma simples questão de hábito: ainda não me habituei à ideia de que daqui a menos de um terço dos anos que já por cá andei deixarei de andar e de ter dores.  Ou então é pior, é uma forma deslavada de estoicismo. Ou uma crença infantil na capacidade da carcaça se desenrascar sozinha. Não sei. Felizmente, nestas lutas comigo próprio saio sempre a ganhar: com somnífero ou sem ele acabo por adormecer; e se a dor de cabeça é demasiado persistente entra um Paracetamol. Ganho sempre, qualquer que seja a facção de mim que levou a melhor.

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 01-01-2023

Apesar - ou por causa - de nada fazer, os dias passam a uma velocidade vertiginosa. Ainda há pouco me levantei e já estou de novo pronto para dormir. Pouco mais fiz do que tratar da cozinha e cozinhar - se é que fazer um bife com batatas fritas pode ser considerado cozinhar. Pode.

Agora deito-me, não tenho luz para ler um livro mas posso ler e escrever disparates no FB (felizmente, mais estes do que aqueles) e penso que não tarda pego ao trabalho. Muito há que fazer, por isso mais vale aproveitar bem estes dias.

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Os quais foram de sol e amenos. O "chove, vírgula, claro" do outro dia foi uma clara injustiça. Bem sei que amanhã choverá de novo e por muito tempo, mas estes dois dias foram bonitos. Fica registado, para a próxima vez que o sarcasmo me tentar mais do que a precisão (tardará pouco).

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Ouvi a parte final do discurso de Ano Novo de Alain Berset, o actual presidente da Confederação. Sensato, moderado, para todos e não só para apaniguados. Pensar que o homem é socialista só me enche com ainda mais vergonha. António Costa é o traste que é por ser um canalha, não por ser socialista.

(De onde se conclui que o socialismo e a chuva em Genebra têm algumas coisas em comum.)

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Este ano de 2022 não foi fácil. Com excepção do Verão, em que trabalhei bem, o resto foi de espera e de desespero. Espero não conhecer outro assim, nos vinte que estatisticamente ainda tenho pela frente.

31.12.22

Auto-exílio

Auto-exilado de mim próprio percorro as ruas da cidade. Não é uma cidade só: são muitas. E não é só hoje: é todos os dias. Visto de fora, sou como as cidades que percorro: bairros bonitos, outros feios, nalgumas há uma greve dos homens do lixo, noutras os jardineiros esmeraram-se. Há ruas de todos os tamanhos e feitios, umas largas outras estreitas, alcatroadas ou meros carreiros de areia, umas sem fim à vista outras sem saída. Em todas os semáforos foram regulados por um tipo meio bêbedo. Desconheço se é o mesmo para todas ou se todas escolheram um que se parece com os demais. Talvez haja características específicas necessárias para regular semáforos e por isso as cidades escolhem gajos iguais ou parecidos. Por vezes uma casa abre-me a porta e eu entro. Fico um bocadinho, mais ou menos longo e logo saio. Comecei muito cedo a vaguear pelas ruas sozinho e agora a vista de uma lareira, uma mesa de jantar, uma estante com livros, uma mulher deitada numa cama assusta-me. Volto ao frio, ao vento? Sim. Mas também ao sol, ao doce afago de um nascer do dia sem ninguém ao meu lado senão a perspectiva do dia. Os meus dias são compostos por uma sucessão de minutos, a minha vida por uma sucessão de dias. Não se iludam, porém: sei muito bem para onde vou. Só não sei como lá chegar, mas isso é outra história. O acaso encarregar-se-á de me lá levar. Entretanto, vou desenhando os mapas das cidades por onde passo. Podem sempre ser úteis para alguém. Ou para mim, quando este exílio for substituído pelo seguinte.

30.12.22

Diário de Bordos - Genebra, Suíça, 30-12-2022

Duas horas com o neto. O miúdo cresceu desmedidamente e é de uma agilidade surpreendente. Estou ansioso por que comece a falar. Até lá, mantenho a minha opinião: é um tubo digestivo com pernas. Ao princípio era o Verbo. E antes do princípio era o quê? Amor mudo...
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Amanhã passo o fim do ano com o T. A experiência do Natal, que há tantos anos não tinha, continua. No princípio é a família. Não sou suficientemente mediterrânico para dizer que a família é tudo mas sou-o para saber que a família é a âncora que nos prende à vida. Os natais e fins do ano que passei sozinho ou no mar ou em casa de amigos não me fizeram mal nenhum. Antes pelo contrário: ensinaram-me a dar valor a estes seres com quem partilho muito mais do que genes.

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Está a chover, vírgula, claro. Estranho seria o oposto. Já as temperaturas estão amenas para a época. Mais lenha para a fogueira dos catastrofistas. O desequilíbrio na informação é brutal. Há pouco ouvia um programa da Sud Radio com um jornalista científico que escreveu um luvro chamado Sapiens et le climat. Faz um levantamento de tudo o que se sabe sobre as mudanças climáticas desde que o homo sapiens apareceu na Terra. As alterações foram ainda mais brutais do que aquilo que eu pensava e obviamente não tiveram nada a ver com o homem. 

Há verdadeiramente que fazer um enorme trabalho de correcção do rumo actual da comunicação social. Esse trabalho tem de ser feito, sob pena de se voltar à idade das trevas. Precisamos de um novo Nietzsche, que o antigo ganhou cheiros. Injustos, mas não há quem lhos tire. Verdade seja dita: ele tinha a tarefa mais fácil. Só tinha um deus a matar. Agora há muitos. 

A modernidade e eu

A minha geração bem pode limpar as mãos à parede com o mundo que deixa à seguinte. Podemos - e devemos - ralhar, gritar, insurgirmo-nos contra a cultura woke. Mas fomos nós quem a formatou. Falhadas as  ideologias dos colectivismos do século vinte, acreditámos na liberdade como valor absoluto.  Às novas gerações, a única rebelião possível é lutar contra essa liberdade. Demos ouvidos a Rimbaud: somos "absolutamente modernos". Não lhes resta senão ser anti-modernos, voltar à censura e ao cancelamento (como faziam os vitorianos com o sexo, por exemplo). Matámos os deuses: eles ressuscitaram com redobrado vigor, multiplicaram-se, compartimentaram-se em múltiplas capelinhas. Fizemos da Razão o pilar central das nossas mundovisões: não lhes resta outra porta que a do pensamento mágico.

Isto dito, continuo a subscrever todos os valores que me formataram. Por nada deste mundo trocaria a minha Liberdade (assim mesmo, em caixa alta). Lutei para a ter; agora luto para a manter.

O zeitgeist é um cilindro compressor. Vejo muita gente da minha idade ceder-lhe ("il faut être absolument moderne", lembram-se?) Resistir-lhe é quixotesco? Talvez. Mas não lhe resistir é trágico. Prefiro morrer de pé levado pelas asas de um moinho a morrer cilindrado por um rolo compressor pilotado por um "acordado" cego, surdo e intoxicado de "bondade",  Quem resistiu às sereias dos colectivismos tem a obrigação de resistir à do colectivo.

29.12.22

Palácios, pessoas

N'O Leopardo o Príncipe (enfim, o sobrinho por ele) diz " Um palácio do qual se conhecem todas as divisões não merece ser habitado".

O mesmo se pode dizer das pessoas, não é?

Vida - breve definição

É como se estivesses a esvaziar o oceano com um balde. A maré baixa e pensas que conseguiste. Mas logo a seguir volta a subir e apercebes-te do logro. Não páras o balde mas agora já não tens ilusões. 

Isto supondo que aprendeste à primeira.

28.12.22

Breve apologia do solipsismo

O mundo exterior aborrece-me. É monótono na melhor das hipóteses e maçador na maioria das vezes. Prefiro olhar para dentro. "Nada do que é humano me é estranho." Já fui quase tudo e o que falta serei. Basta esperar. Interagir com o real é como jogar ténis à parede. Já comigo há um jogador do outro lado da rede. O mundo exterior é como o recreio de uma escola: vazio é feio e cheio barulhento. Refugio-me em mim, onde tudo se alterna ou baralha ou mistura ou acontece simultaneamente. Tenho em mim toda a ordem e toda a desordem do mundo. Quando vejo vejo-me, quando sou olhado não sou visto. Tal como Sísifo subia pedras eu levanto paredes e logo a seguir destruo-as. Não escrevo, escrevo-me. Não vivo, vivo-me. Não morro.

27.12.22

Tempo, espera

É depois do solstício de Inverno que os dias me parecem mais longos, o que não é de espantar porque o frio aumenta. No fundo, a promessa do solstício só se cumpre em Março, quando chega a Primavera (e o equinócio, para os preciosistas). 

Se aprendemos alguma coisa com o tempo é a esperar. O que não é de espantar: é para isso que ele foi feito.

25.12.22

Grande angular

Bastar-te-ia talvez saberes enquadrar a vida, escolheres a focal correcta para cada momento. Seria fácil olhares pelo visor e veres a quantidade certa de vida, toda a que nele cabe a cada instante. Infelizmente não sabes. Apanha-la toda de uma vez só, engasgas-te, cospes metade, engoles a outra metade meio por mastigar.

Agora, aguardas tranquilamente que este cansaço tenebroso se aligeire e volte a ser do bom, do que te larga quando te deitas. Esquece o zoom. Deixa tudo para a grande angular.

Maldito cansaço

Deitas-te e o cansaço não te sai pelos poros todos do corpo, sedativo sopro que te expurga dos restos do dia. Hoje, ao contrário do que é habitual, deitas-te e o cansaço fica dentro de ti a moer-te espírito e músculos. Sente-lo a correr-te nas veias, feito sangue palpitante. Estás demasiado cansado. O dia - os dias, foram muitos - vão continuar a triturar-te por dentro, como se dentro de ti tivesses um ruminante indiferente ao que te rodeia. Este cansaço não é bendito. É nefasto, perverso. Que seja amaldiçoado. Sobretudo, que dê rapidamente lugar ao outro.

24.12.22

Diário de Bordos - Lisboa, 24-12-2022

Podem dizer o que quiserem, mas este foi um dos melhores natais da minha vida. Podemos dizer o que queremos, mas no fim da linha, no fundo do saco o que está são aqueles que conhecemos há mais tempo. Digo muitas vezes que uma das poucas coisas que admiro na aristocracia é o tempo, a noção de tempo com a qual ela vive. Desse ponto de vista, este foi um jantar nobre. Bem sei que o fio do tempo era curto; bem sei tudo e mais alguma coisa. Bem sei. Mas ter quatro quintos da fratria juntos, ter a maioria de sobrinhos e sobrinhas ao meu lado - muitas das quais não via há anos - não tem preço. Quem diz mal do Natal ou não percebe nada ou não tem família. Eu percebo e tenho e sinto-me feliz por isso.

Não sei se feliz é o termo correcto. Afortunado é. 

23.12.22

Recheio, ano

Quantos de nós poderiam escrever um livro, agora que o ano chega ao fim, intitulado Em busca do significado perdido? Não sei. O significado é parecido com o recheio de uma salsicha e nunca vi uma salsicha com o recheio perdido. O ano é assim também: não perde o recheio, ainda que por vezes seja dificil distingui-lo do resto. Não existe um ano sem recheio, tal como não há recheios negativos. Um recheio é sempre, por definição, superior a zero.

O mundo e eu

Todos nascemos com uma ideia fixa: fazer uma sociedade com o mundo chamada O Mundo e Eu, Sociedade Ilimitada. Nem sempre funciona, é forçoso reconhecer. Às vezes há falências (felizmente poucas), outras (a maioria) a sociedade tevela-se bastante limitada e nalgumas, raras, os sócios começam a lutar desde muito cedo e nunca mais acabam, até à morte de um deles (é sempre o mesmo).

McGiver e eu

Não me lembro de como começou este ano. Procuro no DV, mas no telefone é difícil e abandono. Estou mais interessado em como acaba e em como começa o próximo. A resposta é simples: mal. Mais complicado vai ser transformar este "mal" em qualquer coisa de aceitável. O desafio é interessante, obriga-me a transformar-me numa espécie de McGiver da mente, um McGiver manualmente desajeitado mas psicologicamente apto a enfrentar situações complexas e - sobretudo - a dar-lhes a volta, transformá-las, decompô-las numa sequência de status digeríveis, por assim dizer.

Claro que poderia argumentar: Estou farto de metamorfosear, decompor e reconstruir situações más e fazer delas um ersatz de felicidade. Não valeria a pena. Esta não será decerto a última. 

[Adenda: começou maravilhosamente em Ponta Delgada.]

22.12.22

Diário de Bordos - Lisboa, 21-12-2022

O solstício de Inverno é hoje (às vinte e uma e quarenta e oito, para quem estiver interessado) e eu aqui sentado à espera. Esperar é muito chato, é uma seca, um horror; há porém que reconhecer que ter esperança é pior. Eu não tenho esperança nenhuma em nada apesar de passar a vida à espera. À espera de chuva, à espera do solstício (é a primeira vez que isto me acontece e será provavelmente a última. Preocupo-me tanto com as paragens do Sol como com o meu primeiro biberon ou o que o Papa pensa do sexo antes do casamento. Espero pelo solstício unicamente para ter alguma coisa diferente do habitual por que esperar. Se esperar é chato, fazê-lo sempre pela mesma coisa é pior ainda).

Espero também que esta pedra que arrasto comigo para todo o lado me largue; sendo, contudo, pouco provável que isso aconteça em breve não dedico muita atenção a essa espera. Há que saber seleccionar as esperas, coisa que se aprende com a prática. Nenhuma teoria nos ensina a esperar ou o que esperar. Tem de ser uma aprendizagem empírica. Espera-se o que é inevitável esperar. Ao lado, acrescentam-se uns pós de outras esperas para variar o mix, esperam-se uns anos para que o saber consolide e pronto, um dia somos doutores em espera. (Tal como somos doutores em desenrascanço, outro atributo útil a quem tem de esperar.) 

20.12.22

Sono

Sono, insuspeito e fugaz sono, o que tu gostas de te fazer esperar é inaceitável. Despacha-te!

Diário de Bordos - Lisboa, 20-12-2022

Amor e ódio, como um cão que se morde a cauda a correr em círculo sem parar. É o que me ocorre cada vez que penso na minha relação com este país. Hoje fui à DGRM porque ando a tentar ligar para lá e ninguém responde (desde muito antes das cheias, se por acaso). Enviei-lhes um e-mail cheio de raiva contida e esqueci o assunto. Tinha de lá ir, ponto. A senhora que me atendeu foi de uma simpatia inexcedível. Portugal é isto: uma oscilação permanente entre a inoperância e a amabilidade - é o caso da TAP, já aqui o tenho dito. Até se entrar no avião é a pior companhia aérea do mundo, uma vez lá dentro metamorfoseia-se e fica uma das melhores. 

Vinha a pensar que devíamos exportar, para além de jovens qualificados, dois grupos de pessoas: os grafiteiros (?) e os funcionários públicos. Porém, depois da experiência desta manhã, penso que é injusto. Os funcionários públicos devem ter de passar por um filtro.  Não são todos os que merecem um lugar em países organizados. Para equilibrar as deficiências sistémicas retemos os amáveis, os prestáveis, os que merecem a designação de funcionário público. Os outros? No avião juntamente com os idiotas que sujam paredes.

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Começo a trabalhar seriamente no meu projecto pós-mar. É uma ficção, claro. Nunca deixarei o mar a menos que a carcaça decida por mim e as farmacêuticas se coliguem. Mas acredito piamente numa transição modulável, em suaves prestações mensais.

(De qualquer forma, verdade seja dita: a única forma de gerir o "presente actual" é projectar-me no futuro. Tenho uma carreira garantida: cursos de gestão de stress. Vou treinando a prática com os meus acontecimentos literários, que terão várias formas e feitios.)

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O mau tempo passou. Daqui a uns dias há mais. Há muito tempo que não via tantas depressões nas nossas latitudes. A jet stream veio a banhos e dá-nos chuva a baldes. Às vezes acontece, não tem nada a ver com alterações climáticas. A única coisa alterada no meio disto tudo é o bom senso e a Razão. Não me admira nada que os jornalistas se pavoneiem por aí com o rei na barriga. Fazem a chuva e o bom tempo (metafóricos, os das cabeças). Conseguiram parar metade do mundo com a histeria da Covid e agora sentem-se cheios de energia com as alterações. Deviam talvez ir ao café desalterar-se e pensar um bocadinho, caso lhes restem dois ou três neurónios funcionais.

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Vinho: Três Tourigas Reserva, 2020. É um vinho do Pingo Doce a quatro euros a botelha, "produzido e engarrafado pela Symington". Os vinhos do Douro estão a arredondar-se e cada vez têm menos pontas por se lhes pegue. Este escapa, por pouco. 

Qualquer dia restam-nos os vinhos da Beira e alguns de Trás-os-Montes. O resto irá para o carrocel: todos iguais.

19.12.22

Diário de Bordos - Lisboa, 19-12-2022

Estou de novo a bordo do S. M. II. As razões interessam pouco: deixemo-las de lado, que é aonde pertencem. O que interessa agora é esta sensação de ter um elástico nas costas que me leva para um barco, de preferência veleiro, cada vez que penso ter finalmente um pé em terra. É como se isto fosse o meu habitat natural, inelutável e de cada vez que penso que me afastei dele por uns tempos o dito habitat persegue-me, alcança-me, engole-me, coça a barriga e ri-se. E depois, claro, penso na sorte que é ter aquele grupo de que falei no outro dia, o grupo dos Eles, aqueles que me demonstram que não estou sozinho por muito que às vezes pense estar.

De maneira oiço a chuva, sinto com prazer os embalos do bote, felicito-me por ter deixado a burra no edifício do escritório (se amanhã tiver sorte os funcionários da doca partilharão o meu entusiasmo) e pergunto-me se os meus últimos vinte anos serão, um dia, mais calmos do que os precedentes.  Claro que serão. Antigamente, durante as tempestades os marinheiros deitavam óleo para o mar, para diminuir a violência das vagas. Os meus óleos para aplacar os anos que aí vêm são dois: o neto e escrever. (Neste não ponho muita fé, mas naquele sim.) Dorme-se bem num barco, pelo menos se não se for claustrófobo, sobretudo quando se ouve a chuva de tão perto e se está bem tapado, quente como se se estivesse ao lado de uma lareira.

Só que agora a lareira está do lado de dentro de mim e não sei se queima se aquece.

18.12.22

Embrulha

É como se tivesse o corpo dividido em duas partes, o invólucro e o conteúdo.  Mas aquele não foi feito a medida deste. Como se alguém tivesse querido embrulhar uma garrafa numa bola de futebol. O que está por fora não joga com o que está por dentro. Tento ajustar um ao outro: é como andar no gume afiado de uma faca, tem-te não caias em que se caires para um lafo magoas-te, para o outro dói e se não caires cortas-te até à medula.

Adivinha

"The world that we think we see

It's only our best guess".

Margaret Atwood, Dearly

Diário de Bordos - Lisboa, 18-12-2022

Acordei tarde e com uma ligeiríssima Menière a chatear-me. Pequeno-almoço rápido, de pé na cozinha e viemos para o hipermercado fazer compras para um jantar que o A. dá logo à noite. Resultado: estou no café a beber imperiais, esperando que o Menière se vá embora e o A. me encontre, qualquer das duas coisas o mais depressa possível, senhor. Às vezes digo, meio na brincadeira, que sou um troglodita. Nestes supermercados vejo que não é meio na brincadeira: é totalmente a sério. Odeio estes espaços cheios de objectos que não identifico, pessoas que não conheço, vendedores sempre ocupados, barulhos cacofónicos, mulheres gordas e feias, com filhos birrentos pelas mãos, meios de pressão que não controlo.

Quando vou a uma mercearia e o homem põe mais do que aquilo que eu peço, digo-lhe educadamente para tirar o que está a mais e pronto, fica o assunto resolvido. Aqui não: tudo está feito para que um tipo compre o dobro do que precisa, desde a iluminação à cor das saias das empregadas.

Dêem-me mercearias de bairro, mercados municipais, a loja de ferragens do Luís, a livraria da Caroline ou da Ana. Em troca, prometo deixar de dizer meio na brincadeira e assumir, completamente a sério: sou um troglodita.

(A meu lado senta-se uma senhora que não é gorda nem feia e não tem crianças. Muito gosta a realidade de me desmascarar.)

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Uma relação é feita para que cada um dos dois (polis, só para o duche) possa ser o que é. É um encontro de liberdades. Se não se puder ser o que se é,  se se tiver de restringir a cada instante, deixa de ser uma relação. Não preciso sequer de invocar a minha idade: nenhuma é boa para se viver o que não se quer viver.

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Agradabilíssima cerveja à beira Tejo. No regresso passámos pelo meu SCARLETT, todo arranjado e bonito. Uma das viagens mais bonitas que fiz: trazê-lo de St. Malo para Lisboa, sozinho. Na Roca hesitei em seguir para as Canárias. Não o fiz e não perco muito tempo (não perco tempo nenhum) a perguntar-me como teria sido a minha vida se não tivesse entrado em Lisboa. Limito-me a vivê-la, às vezes a revivê-la e ficamos por aqui, querida vida. Prefiro uma vida vivida a mil imaginadas.

Oiça um bom conselho

Compreender mil vezes antes de julgar uma; e que esta não seja a última, que não seja definitiva. Por muita lama em vez de lava com que a erupção te cubra. Sê paciente, espera até teres a certeza de que por baixo da lama só há mais lodo e que a lava é o que está visível à superficie. Não ajas precipitadamente. Espera até o cheiro do lodaçal se dissipar. É esse o momento em que te verás mais claro. 

17.12.22

Até amanhã

Qualquer coisa se me escapa das células todas do corpo. Não sei o que é mas sei porquê: para dar lugar ao sono. Talvez seja o dia, os restos do dia, o pó. Não sei. Mas à medida que vai saindo o meu corpo esvazia-se e dá lugar à noite, à benevolenta e apaziguante sonolência com que me despeço de mim. 

Até amanhã, eu.

Eles

Estou no rés-do-chão da Ler Devagar a beber devagar, sonhar devagar, divagar devagar, devanear devagar, passar o tempo devagar. Há treze anos tive um escritório aqui, não no rés-do-chão mas no último piso da máquina. Foi o escritório mais bonito que jamais tive e o melhor também, de certos pontos de vista. Escuso-me a enumerá-los; espero que não se importem. Estou também a memoriar devagar; nada de pressas nem de precisões inúteis. O escritório mais bonito, o projecto mais bonito, um ano bonito. Talvez um dos melhores, sim. Não sei. Foi há tanto tempo. 

Deixo o tempo fluir devagar. Vou buscar um livro, penso que no fundo tenho sorte: a minha solidão é superficial. No fundo (o outro fundo, aquele que conta) não estou sozinho. Nunca tinha pensado nisto: solidão superficial, vogar sozinho por cima da vida verdadeira, parte de um cardume que se manifesta em pirâmide, em cima despovoada, a base sólida. Vou provavelmente passar o Natal sozinho, mas isso pouco me afecta. Não é o primeiro, não será o último. O Natal é um dia como os outros a quem alguém um dia decidiu atribuir qualidades diferentes. Basta um tipo alhear-se dessas qualidades e "Natal sozinho" perde toda a carga emocional que tem à vista desarmada. Basta um tipo alhear-se da superfície para não se preocupar com o fundo. Eles estão lá. Que se vejam no dia a dia ou não,  que se oiçam por vezes gritar ou não se oiçam de todo, eles estão lá. Eles.

(Este texto é dedicado a Eles.)

11.12.22

Cachecol cinzento

Pronto, o cachecol cinzento lá saiu do armário outra vez. Aquilo entrou na minha vida desde que a minha vida começou, ainda eu não sabia que estava no começo da vida e dela nunca mais saiu. Há coisas que vêm para ficar, como a Toyota, as constipações e o cachecol cinzento. Aquilo já é tão parte de mim que não chega sequer a ser uma coisa, é quase uma pessoa, uma parte de mim que de vez em quando vem à luz do dia, como se o Sol andasse desregulado e só aparecesse quando lhe dá na gana e não quando a gravidade e a grandiosa mecânica celeste lhe dizem que deve aparecer.

Quando não está cá fora porque é Inverno e eu estou constipado o cachecol fica no armário, na gaveta da roupa de mar / Inverno, apesar de eu não o usar no mar. (Não o quero estragar.) Ou seja, no Verão vejo-o menos. Só vejo o Sol, de quem ele é, de certa forma, irmão.

Definição - escritor

Escritor não é o que escreve, é o que é lido.

10.12.22

Refúgios - editado (Re-re-reedição)

Talvez devido às nossas origens animais temos tendência a ver um refúgio como um lugar físico, uma paisagem, uma casa, uma gruta. Não é necessariamente assim: podemos por exemplo refugiar-nos na música (particularmente na de uma cantora de jazz chamada Jeanne Lee, na música medieval e mística de Hildegarde von Bingen ou na 5ª sinfonia de Mahler; ou em tantas outras). Podemos também refugiar-nos no álcool, especialmente no vinho ou no whisky, numa tentativa camusiana - isto é, inútil mas necessária - de afogar os demónios; podemos refugiar-nos nos livros, num corpo feminino (desde que esse corpo tenha uma alma, porque um corpo sem alma não é um refúgio, é um poço, é como cair a um poço). Muitos de nós refugiam-se na solidão: não é um bom refúgio, para mim. É o lugar da memória, da abjecção (“Solo una cosa no hay: es el olvido./ Diós, que crió el metal, crió la escória / y cifra, en su profética memória / las lunas que seran, y las que han sido”, dizia esse outro gande refúgio argentino).

A depressão é um refúgio, também; o pior e o melhor deles: é o mais doloroso, cruel, o mais indescritivelmente maldoso, o mais eficaz, porque nos isola de metade do mundo, da sua metade boa. E só nos deixa ver a dor. A depressão é como ter que andar com uma fractura exposta que não se vê, não se vêem as feridas dilaceradas, não se vêem as carnes rasgadas, não se vê o sangue, não se pode cortar o mal pela raiz sem cortar o mal tout court, ou a raiz. A amizade tão-pouco é um bom refúgio: não depende só de nós, e num bom refúgio devemos ser autónomos, por definição, sozinhos.

(Alguém dizia que a liberdade é a possibilidade de cada um escolher as suas própias prisões; um refúgio devia ser a versão optimista de uma prisão - como se houvesse versões optimistas do que quer que fosse...)

Mas enfim, devo reconhecer que tenho um refúgio secreto em Portugal, e que esse refúgio é um lugar físico: é o mar; em especial aquele pedaço de mar que vai do Cabo da Roca ao Cabo Raso, do qual nunca me canso, no qual nunca me canso. Gosto do contraste entre as linhas verticais do Cabo (que não são bem verticais, são oblíquas e um pouco grosseiras, como se estivesse a chover rocha) e a curva graciosa e horizontal da praia. Gosto do Guincho a pé, a cavalo ou de bicicleta, de carro ou de avião. Gosto de passar o Raso quando venho a navegar do norte porque é quando se começa a cheirar a terra e a serra de Sintra tem um cheiro bonito, a pinhais e a maquis – um pouco como o da Córsega, mas mais bonito, porque esta é a minha terra e o cheiro vem carregado de passado; o da Córsega só tem presente. Gosto de estar no mar a olhar para a terra e na terra a olhar para o mar. Gosto do Guincho nos dias de vento, que são muitos e nos dias sem vento, que são mágicos. Gosto do Guincho aos domingos, dias de procissão automóvel e às segundas-feiras à noite, quando não há ninguém para ver o facho luminoso do farol apontar para o mundo. Tudo isto apesar de não gostar de praia. Mas o Guincho e aquela zona da qual ele é a alma, o centro não é só uma praia: e ainda bem, porque como praia deixa um pouco a desejar, não é?, com aquelas correntes, a água glacial, as rochas, as ondas desencontradas, o vento.

Gosto daquele bocadinho de mar porque nele me refugio desde a infância e os refúgios da infância nunca mais nos abandonam, sejam eles uma paisagem ou uma cabana nas árvores. Gosto daquele bocadinho de mar. É nele que gostaria de me refugiar, um dia. Para sempre.

Elogio do desenraizamento (Roupa velha)

É preciso reconhecer, contraramente a tudo o que tenho vindo a escrever desde que iniciei este blogue, que sou um desenraizado e o serei sempre. Escrevo isto em vésperas de ter uma coisa pela qual anseio há anos: um apartamento em Lisboa (este, em prémio, vem com uma flor dentro); mas escrevo isto, também, em Palma, numa praça anódina, igual a milhares de outras por essa cidade fora. Resolvi experimentar um café que não conhecia e o resultado não foi brilhante. O vinho é bom, acabo de passar duas horas a ouvir um concerto com alunos de escolas de música - alguns francamente bons - penso que não tarda estarei nesse porto seguro que é o Bar Rita, bar que tem nome de amor antigo e irmã de sempre - e percebo que por mais que faça nunca deixarei de ser daqui, de Genebra, de dezenas de lugares onde vivi. (Vivi tem aqui o sentido de «viver», independentemente do tempo que neles passei.) A pertença, sobre a qual tanto escrevo e na qual tanto penso, é um fenómeno «complexo não-linear» que nada tem a ver com o tempo. Ou tem pouco, talvez. Não «sou de onde estou», é verdade. Tenho raízes. Mas levo-as comigo para onde quer que vá. Agora estou em Palma como poderia estar em Lisboa, em Mértola, em Genebra ou no mar. Não sou de onde estou, mas sou de onde posso ser. De onde as minhas raízes se sentem bem, seja isso onde for.

(Palma, 12-06-2021)

Mitos, «ciência»

Que a humanidade precisa de mitos para se manter é coisa fácil de aceitar. Basta olharmos para trás e ver como eles se têm sucedido - quase sempre (mas não só) vestidos de ornamentadas roupagens religiosas. O que torna aborrecidos os mitos da era moderna é terem deixado essas roupas religiosas. Agora, vestem-se de «ciência» (aspas porque cito).

9.12.22

Diário de Bordos - Lisboa, 09-12-2022

Ontem comprei um bloco-notas e uma esferográfica nua loja chamada Flying Tiger ou coisa que o valha. Já a conheço de Palma, entrei ali para comprar qualquer coisa um par de vezes. A de Lisboa é igual, naturalmente. Vendem de tudo e mais alguma coisa, desde que seja bricabraque e possa ser vendido a preços de bricabraque. Parecem versões bonitas, arejadas e limpas de lojas chinesas. De modo escrevo no meu novo bloco com a minha nova esferográfica, que não o é. É uma lapiseira. Não faz mal. A um euro perdoo-lhe a metamorfose, que de resto é apenas devida à minha falta de atenção. Bem me pareceu, mas como ligo pouco ao que me parece, sempre liguei, enganei-me. Acontece-me sempre que me esqueço de pensar no que me parece. É assim há muitos anos e será assim pelos que me restam. De pouco serve afligir-me.

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Descobri recentemente a Mercearia Criativa, na Guerra Junqueiro. Sou extremamente reticente a aderir a essas lojas destinadas à burguesia «gourmet», essa que há vinte anos não sabia o que era salmão fumado e hoje se lança com avidez e sem olhar a preços sobre tudo o que desconhece e seja caro. Como tantas vezes, as minhas reticências earm injustificadas, o que me deixa contente. Perder preconceitos - no fundo, troar os velhos por novos - é uma infinita fonte de prazer. Tanto mais, neste caso, que isto só confirma que a Comida Independente não está sozinha. A Mercearia Criativa tem óptimos produtos e se se tiver cuidado alguns podem ser adquiridos a preços decentes - sendo os outros facilmente evitáveis. Além disso, a amabilidade, simpatia e competência de uma das suas vendedoras são inexcedíveis, o que não estraga nada, muito antes pelo contrário. Uma loja muito recomendável, se querem a minha opinião. 

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Diga o que disser, preciso de três meses em qualquer sítio para conhecer as minhas redondezas. Hoje foi a vez de um talho chamado Edgar e Luís. Fui lá a conselho da supra-mencionada senhora da Mercearia Criativa. À primeira vista parece-me estar num talho suíço ou alemão. Não tenho a certeza de que a qualidade da carne supere em muito a do meu bem-amado talho O Naco, na rua dos Poiais de S. Bento, mas estou aberto a provas. A verdade é que está muito mais perto e só isso a um bom ponto a favor. Isto acontece-me em todo o lado: exploro as redondezas muito devagar, passo a passo, como um cego de bengala num passeio cheio de trotinetes. Tem vantagens e desvantagens, mas tem sobretudo uma característica já ali mencionada: não vai mudar. Não se pode dizer que já me tenha aceitado, mas uma coisa é certa: aprendi a viver comigo.

Só por isso, os sessenta e cinco anos que levo ao lombo valem o seu peso em ouro, incenso e mirra.

8.12.22

Diário de Bordos - Lisboa, 08-12-2022 - II

Apanhei duas vezes o eléctrico. Por acaso (no sentido em que nem olhei para o número dos ditos) era o 28, que in illo tempore eu aconselhava aos meus amigos como tendo o trajecto mais bonito de Lisboa. Hoje não me preocupo muito com o percurso: basta-me ir para onde não estou, mais depressa do que indo a pé. Como os sítios onde não estou são muitos mais do que aquele onde estou, que é só um, um eléctrico que pára numa paragem ao meu lado parece-me uma boa opção.  Uma opção inevitável, por assim dizer. De maneira lá vou eu para Campo de Ourique, levado por esse grande rio chamado Lisboa, parte sólida dessoutro chamado Tejo.

Antigamente conhecia os condutores dos eléctricos por wattmen. Parece que a designação correcta é guarda-freios. Gosto mais da designação inglesa: o homem dos watts, da potência. O guarda-freios controla os travões. Preciosistas: sei muito bem que controlar travões é a mesma coisa do que controlar os watts. Em termos práticos. Simbolicamente é o oposto e continuarei a preferir a designação da minha por assim dizer urgência. 

Inevitavelmente penso nas vírgulas: os portugueses gostam delas e de freios. Eu não gosto. Prefiro watts e potência ininterrupta, seja por virgulas seja por passageiros curiosos que se mantêm mesmo atrás do  wattman a ver como se conduz aquilo. (Já sei onde é o apito. É no botão encarnado à direita do tablier.) E frases corridas, escorreitas, em forma como um atleta para os cem metros barreiras. Um dia conseguirei, tal como hoje me mantive atrás do homem, separado de mim por uma folha de plástico devida sem dúvida às alterações climáticas. 

Desço na primeira paragem de Campo de Ourique. O vinho é muito melhor. As cidades são a forma que Deus encontrou de replicar o paraíso na Terra.

Diário de Bordos - Lisboa, 08-12-2022

Só me apetece não me apetecer nada e tenho sorte: não me apetece nada. Na parte do dia em que ainda me apetecia qualquer coisa também tive sorte: apetecia-me um bom almoço e saiu-me na rifa um excelente, no Sabores de Goa. Agora não me apetece nada e o que tenho é pouco, muito pouco, quase nada: uma taça de vinho (ainda não provei) numa cervejaria do Camões, aposto que não é grande coisa, quase nada. Apesar de gostar desta cervejaria, note-se  éum daqueles clássicos que agora ascenderam à categoria de resistentes. Mas não é o que me apeteceria, se me apetecesse ter vontade de qualquer coisa: o Vertigo, o Fábulas, lugares assim, fechados pela "pandemia" (aspas para) ou pelos "turistas" ou, mais prosaicamente, por causa desta estúpida propensão que as cidades têm para mudar, como se fossem pessoas ou obra de pessoas.

De modo estou assim, sem apetências e sem destino, sem vontades e sem eus a chatear-me. O vinho é medíocre mas não tão mau como esperava e o eu que agora carrego é transparente, mal se nota na paisagem: a luz verde de uma farmácia à direita, o encarnado do semáforo à esquerda, a cidade vem direitinha contra mim e eu aqui sentado não lhe ligo nenhuma.

Mentira: de vez em quando levanto os olhos para a fauna da cervejaria, penso que devia ter trazido a máquina fotográfica, que não devia ter perdido as canetas, que devia ter o bloco-notas comigo e assim só teria de pedir uma esferográfica ao empregado (um senhor baixinho e com um enorme sentido de humor) em vez de escrever no telefone, penso que escrever no telefone tem algumas vantagens, penso na cidade na qual vagueio e da qual faço parte como um quisto (maligno ou benigno? Não sei) faz parte de um corpo, bebo o vinho a um ritmo vertiginosamente lento, troco uma chalaça com o empregado baixinho e piadético, deixo-me ir no lento caudal de uma tarde involuntária.

6.12.22

TPC

Sou contra o aborto e a favor da sua legalização e a favor da eutanásia e contra a respectiva legalização. 

Há uma coerência nisto, mas fica para depois.

Preguiça, opiniões

Tenho opiniões muito firmes sobre poucas coisas e pouco firmes sobre a maioria dos temas.

Simples questão de preguiça: construir uma opinião exige muito trabalho e leva imenso tempo.

4.12.22

Gralhas, escrever

Escrever escorreito é um objectivo tão risível como viver escorreito, amar ou sequer pensar. Ele há gralhas em todo o lado.

Felizes cicatrizes

A vastidão do frio não tem fim. Nunca nos encontramos  nele, por mais edredões que ponhamos por cima de nós, por mais amores que estendamos por baixo. O frio é uma vasta planície deserta sem fim à vista. Ela era uma luz nesse deserto, uma fogueira, um fogo, um afogueamento, um nascer do sol, uma espada em cujo rasto eu me queimava. Ainda hoje tenho as cicatrizes desse lume. Felizes cicatrizes.