19.11.17

Sintomas, distâncias

Tudo é sintoma de qualquer coisa. Tudo: este beijo que te quero dar, tão longe; esta noite fria e sem luz, sem lua, sem gente.

Sintomas, sem dúvida, mas não sei de quê, de que anomalia, de que cansaço.

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(Cansaço rima com abraço; mas como preencher o que lhes fica entre?)
(É tão curta a distância entre abraço e cansaço, não é?)
(Há um mundo sem fundo, uma distância sem importância.)
(Depende de quem é o abraço - teu ou meu? - e o cansaço.)

Onomatopaicas

"Quero mostrar-te as onomatopaicas do amor", diz o apaixonado pelas palavras. "Antes que me esqueças de vez. Ou eu ensurdeça. Ou emudeça. Ou nos esqueçamos um do outro, de tão silencioso foi o nosso amor".

Domínio da língua?

Não gosto da expressão  "domínio da língua". Primeiro porque ninguém domina uma língua e depois porque língua que se deixa dominar não merece ser falada, escrita ou sequer respeitada.

Poesias

"Poesia pura" escreveu alguém na parede. Poesia dura, responde o meu pénis porque penso em ti.

18.11.17

Um dia não me lembrarei de ti

Um dia assim: começa cheio de barulho e acaba bem, a escrever-te a mão, a pele ali onde ela é mais fina, mais leve, sorridente, quase transparente, como se me quisesses dentro dela, dentro de ti, como se me abrisses a porta antes de me abrires a porta.

...

Não consigo não pensar em ti. Isto é: não consigo não me lembrar de ti. Esquecer-te já te esqueci há muito tempo, mas continuo a lembrar-te: esquecemos mais depressa o que se fez depressa e mais devagar o que se fez devagar, não é?

17.11.17

Diário de Bordos - Lisboa, 17-11-2017

Eu gostaria que daqui não se inferissem coisas que daqui não se podem inferir, mas parece-me irrefutável: só há dois tipos de estabelecimentos em que as funcionárias são todas e sempre bonitas - os bares e as bibliotecas. E quando não são parecem -.

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Coisas que explicam porque amamos e detestamos Portugal simultaneamente e é impossível ser doutra maneira: vou de bicicleta da estação para o hospital de Cascais. A menos de quinhentos metros do dito aparece-me uma autoestrada - com sinal de proibição de velocípedes e outros veículos de tracção animal e tudo -; procuro alternativas, não as encontro mas vejo que pouco à frente volta a ser uma estrada normal e ooops, toda a força avante. Quase a sair do (curtíssimo) trecho de autoestrada oiço as sirenes de um carro de polícia, que me diz para encostar. Antes de poderem sequer abrir a boca desfio-lhes a ladainha (aparecem-me num instante, seja Deus louvado, sobretudo quando coincidem ponto por ponto com a verdade): que vou para o hospital, que a consulta é já dali a bocadinho, que procurei alternativas, que por aí fora, tudo isto num fôlego só e sem dar oportunidade aos senhores agentes de fazer outra coisa se não ouvir.

Quando acabo os homens dizem-me "Bom, você vai para o hospital? Ponha-se aí à nossa frente" e escoltam-me até à saída. Lá chegados eu estou a derreter de agradecimentos e de pensar "isto é incrível! Que simpáticos!" e um deles pergunta-me "Vai para as urgências?" "Não. Vou, para as consultas normais". "Ok, então vá que lá estará um colega nosso para lhe pedir a identificação". Comecei a ver a vida a andar para trás e a carteira tão vazia a esvaziar-se ainda mais, claro.

Isso é esquecer que estamos em Portugal, graças sejam dadas à Santíssima Virgem de Fátima. Passei mais de uma hora no hospital e não vi nem a sombra de um polícia.

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Em contrapartida vi que a porcaria do cotovelo não vai voltar ao sítio assim tão depressa ou facilmente como tenho vindo a pensar, coisa que me aborrece um bocadinho, por assim dizer.

Serviço público - Restaurantes Cascais (não ler)

Por muito que se goste da mudança ou se pense que ela é inevitável - je mange à ces deux rateliers - é bom voltar a certos sítios e ver que não mudaram. (Ainda, acrescenta o realista que dorme em mim e acordou sobressaltado).

Refiro-me concretamente ao restaurante Melody, em Cascais. Era de muito o longe o melhor restaurante de Cascais nas categorias Tesos e Gajos que Sabem (duas categorias distintas, claro). Hoje, muitos anos passados voltei cá e verifico com prazer que não sei se ainda é o melhor; mas que continua muito bom continua.

Se tiver uma página no Trip Advisor por favor digam o pior possível do restaurante; se houver uma página para restaurantes do Sporting digam que o dono é patologicamente do Benfica (esta tem a vantagem sobre a outra de ser verdade). O senhor tem trabalho que chegue e as mesas são poucas.

Hallelujah.

16.11.17

Palavras atrás das outras, umas

As palavras já quase nem palavras são, de tão pálidas; é assim que gosto delas: nem sombras do que foram são. Vão para ti em fila indiana, silenciosas e graves.

Graves a fingir, claro: no caminho aligeiram-se, esquecem-se de mim, de onde vêm, do que seriam se não fosse para ti que se dirigem.

Noite, dia

Sim, é isto. Nada mais do que isto: os deuses reservaram para o dia uma beleza e outra para a noite, diferente. Gémeas dizigóticas: clara e límpida uma, outra escura e densa.

15.11.17

Sentir

O concerto acaba e um gajo pensa "esta música foi tão bonita" e logo a seguir diz-se "bonita não é o termo" mas já usou "urgente" e não quer repetir-se de maneira conforma-se à falta de palavras, como se a música lhe aspirasse o léxico mas não os sentimentos; o que os faz ficar coxos.

Mas dizer que se ouve isto e se fica com sentimentos coxos é pior do que uma infinita injustiça: é inexacto, é muito pior.

Talvez. Há o Tati, o Logradouro onde se come mal mas é bonito p'ra burro  (o Tati é bonito e come-se bem) e o Irreal onde não se come de todo. Une-os a música? Mais os sentimentos.

Quero dizer: não que eu seja uma mala de mariquices que qualquer sax alto rapta. Nada disso. É só que isto é bom de mais e eu sou forçado a pensar, coisa que não gosto de fazer. Pensar é muito cansativo. Quase tanto como sentir.

Urgências

Música urgente no Irreal. Lisboa é uma cidade urgente, cada vez mais.

Sax alto, piano e bateria. Não sei o nome do grupo mas devia.  Um gajo nunca sabe quando terá uma urgência como esta. Um dia que começou de urgência num hospital (porque acordei tarde) acaba numa urgência no Irreal. Não sei como dizer isto melhor. É preciso estar aqui, urgentemente.

Há uma beleza na urgência que só as vítimas da urgência podem perceber.

Deslizar, Lisboa

Vivo esta cidade como se em vez de ser eu a pedalar-lhe as ruas fosse ela a deslizar-me por baixo.

Noite?

Há uma espécie de noite à frente: como chamar noite a uma noite da qual tu estás ausente?

Cair, corda bamba

Como dizer que te amo sem dizer que te amo? A arte da elipse é complexa: um olhar pode pôr um pé na porta que o pé impede de fechar; a mão no ombro pode impedi-lo de se afastar e empurrá-lo para longe da mão. Mais vale não dizer nada: as palavras têm uma irreprimível tendência para descambar. Melhor caminhar na corda bamba: não sabemos para que lado vamos cair. Só sabemos que cairemos, mais tarde ou mais cedo.

Para que lado só os deuses o sabem.

Diário de Bordos - Lisboa, 15-11-2017

Nâo sei como dizer isto: cheguei ao hospital e menos de meia hora depois estava a pedalar de regresso àquilo que agora me serve de casa (quase perfeitamente, aliás. Só me faltam os livros). Não vou nem queixar-me nem revelar o segredo (não começa por C). Limito-me a registar o facto, com indisfarçável prazer e uma certa nostalgia: já passei muito tempo naquele hospital (algum do qual graças à senhora C) e por mais que me chateie lá ter de voltar é sempre bom ver que tudo funciona.

Se não de resto de resto tudo bem: uma pequena urgência que se resolveu with a little help from my friends; mais uma perspectiva de futuro - é inacredtável a quantidade de portas que o futuro tem abertas versus as que o presente tem fechadas, mas isso é outra história. Basta viver no futuro e tudo se resolve -;  e por aí fora, que a estrada é longa, a página não tem fim e daqui a pouco vou sair, ouvir música.

Talvez. Não sei. Não sei nada, nunca, todos os dias. À croire que je ne veux pas savoir. Não quero, verdade seja dita. O que não sei satisfaz-me perfeitamente: é mais do que o que sei, é uma piscina maior. Nadar por nadar prefiro nadar no que desconheço. 

Amigos, família e café

A vantagem da amizade sobre a família é ser voluntária. A família cai-nos do céu - ou do inferno  - e os amigos vêm beber um copo connosco ao café.

14.11.17

À bicyclette

Vim de bicicleta de Belém ao Parque das Nações. É um passeio bonito. Já não o fazia há algum tempo. De carro é chato, parece que nunca mais acaba. De bicicleta está sempre a começar. A cada pedalada o cenário muda: Belém,  Alcântara, a chatice do Cais do Sodré, o Cais das Colunas, Sta. Apolónia, o porto todo desde aí até ao Parque: Marvila, Beato, Xabregas (não sei se a ordem está correcta). Lembrei-me daquele argumento da APL para fazer a aberração do terminal de contentores em Alcântara : "Lisboa precisa de um porto".  Temos quilómetros de porto, graças a Deus.

Viemos a pedalar o caminho todo, o N. e eu, nem muito depressa nem muito devagar. É um passeio fácil, plano, bom neste dia tão bonito, cálido, morno, antecâmara de outros dias iguais ou melhores..  

Lisboa

"Lisboa menina e moça"? Não me parece. Acho-a mais puta velha e sabida, que resiste a tudo e todos, seja chulos seja doenças venéreas, tremores de terra ou Medinas, vendedores de louro ou "tours gourmet-históricos".

Diário de Bordos - Lisboa, 14-11-2017

Hoje a greve dos médicos não me correu tão bem como da outra vez: levantei-me às sete da manhã para chegar ao hospital e ouvir dizer que "a técnica está de greve". Troquei uma chalaça ou duas com a senhora do guichê, que apesar da hora matinal já devia ter lidado com alguns mais zangados e me agradeceu dizendo "assim é que se deve levar a coisa".

Se ela soubesse a vontade que tenho de mandar o corpo às urtigas e dizer-lhe "amanha-te com o que a natureza te deu"... Mas depois lembro-me de que ainda tenho dois ou três disparates a escrever e (espero) um corpo para amar e meia dúzia de garrafas de vinho a beber e uma ou duas ilhas a visitar e pronto. A senhora vai avisar-me da nova data.

Não vai chegar a tempo para a médica que pediu o exame, mas esta que se amanhe com o que há, ela também.

Estou mais farto de médicos, hospitais, comprimidos e exames do que de mim. É obra!

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Ontem falava com F., o dono do hostel e imaginava a sorte que ele talvez tenha. Não fala português e pode não saber quem é o Costa, não fazer ideia de onde fica o Panteão, ignorar que pode morrer se for a um hospital de Lisboa. Ou seja: ter de Portugal o melhor, este ar frio e transparente, cheio de sol dos últimos dias, a simpatia das pessoas, a beleza da cidade.

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Parece que o Marcelo anda a distribuir afectos pelos sem-abrigo. Acho bem: há que começar a tratar já da reeleição e dar palmadinhas nas costas aos senhores e senhoras das ruas é um método garantido.

Se o próximo presidente vier do circo pelo menos já estaremos habituados.

Entretanto cinco meses depois Pedrógão Grande está como ficou depois do fogo e quanto a isso népias. Nem uma palavra. Quem lhe esfregasse uma selfie nas ventas devia ser condecorado.

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Esta indiferença dos portugueses pelo tempo seria muito bonita e exótica se fosse noutro país. No nosso é dolorosa.

Quem?

Não é disto que quero falar. É do nada. Isto é: da vertigem na qual nos enterrámos quando nos sabíamos espiados pelo  nada. O dia em que não choraste, pela primeira vez. O dia em que decidi fazer meia volta. O primeiro dia em que não me mentiste. A primeira vez que te fui fiel. Imagens caleidoscópicas, nada revolto, peles enregeladas, lágrimas vazias.
- Porque me contas isso?
- Porque se eu não te contar quem to contará?  

Assim, sim

Assim as coisas se iam passando; mas nós não decidimos que elas se passariam assim. Elas sim.

13.11.17

Rio abaixo, acima

Questão de deuses e nuvens nas quais se escondem; corpos frágeis hesitam em subir até eles. Há muito que fazer cá em baixo, dizem-se, sussurram-se. Em voz baixa para não os acordar, em voz baixa porque têm medo de se ouvir a si próprios: as palavras sobem por escadas em caracol, batem pesadamente com os pés e quando são ouvidas parecem o grito de uma multidão num estádio de futebol. Há que dizê-las baixo, não acordar os deuses, não afastar as nuvens.

Estendamos um manto de silêncio e sobre ele estendamo-nos nós, calados. Respiremos juntos, síncronos, como se de um os pulmões fossem dos dois. Olhemo-nos: é uma forma de nos escondermos. Toquemo-nos: timidamente, para não nos ferirmos.

Há que trocar feridas: as minhas pelas tuas; tempos: o meu pelo teu. Esvaiamo-nos devagar, deixemo-nos ir corrente abaixo: seixos, árvores, praias, olhos, mãos que nos acenam hesitantes. Não sabem se devem regozijar-se se entristecer-se. As páginas dissolvem-se uma a uma: tu a frente eu o verso, eu o verso tu a frente. Somos duas páginas de uma folha, mas juntos fazemos um livro que  agora parte, devagar, rio acima para as nuvens, rio abaixo para a terra.

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Hoje vi o anjo Gabriel. Era muito novo e loiro. Estava com a mãe, morena e pequena. Perguntei-me que lhe terá dito que ela não saiba já? Olhei-a de novo e percebi: tudo. Nada sabemos, enquanto não ouvirmos o que um anjo feito por nós tem para nos ensinar.

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É de mistérios que convem falar. O que sabemos vale pouco. Imagina uma espiral à tua frente, desenhada por uma espada em fogo. Quem segura a espada? Quem o ensinou a desenhar no ar espirais que duram uma vida?

Todas duram, pelo menos as que são dignas desse nome: espiral é um termo nobre que designa a distância mais curta entre o que és hoje e o que sempre quiseste ser. Essa espiral é iluminada pelas chispas brancas de que ontem te falava uma fotografia de cavalos alados, desejos claros, mediterrânicos, pedras iluminadas pelo sol poente. É disso que se trata: nuvens, deuses, murmúrios sem fim nem princípio, luz. Mistérios, abismos. No quarto ao lamediterrânicas en canta - em pessoa - Hallelujah. "You don't really care for music, do you?"

Yes you do.

Havia outra: "your pain is no credential here". Avalanche. Sabíamo-las todas de cor, não era? Cantávamo-las nos intervalos do sangue que escorria pelas ruas, pelas falésias e acabávamos a dizermo-nos "That's no way to say goodbye". Todos os dias nos dizíamos adeus; mais tarde ou mais cedo aprenderíamos, não é?

Não. Nunca se aprende a descer esse longo rio em espiral para o qual olham os deuses refastelados e inúteis.

Louvor e simplificação do SNS, bis

Faço elogios desabridos ao meu médico de família e por extensão (ou por sinédoque, para os meus colegas de pedantismo) ao SNS.

Errado. O meu querido médico não é o SNS e o SNS não se reduz ao Dr. J. R. Há mais de duas semanas que esperava uma consulta no hospital de Cascais. Primeiro ponto: telefono e respondem-me imediatamente. Segundo: explico ao senhor que me atendeu o que me leva a telefonar-lhe. Ele ouve-me com toda a paciência do mundo (é preciso muita, eu conheço-me) e no fim pergunta-me o nome. (Tecla. Oiço o barulho das teclas. O senhor deu provas de um auto-domínio notável) e sem me passar a duzentos outros números, todos eles ou ocupados ou surdos diz-me:
- O senhor Luís está à espera da triagem. - Passo por cima do desgosto que tenho em ser tratado por senhor Luís. A culpa não é dele.
- Imagino perfeitamente que estou à espera de qualquer coisa. Mas talvez tenha percebido que a razão deste telefone é exactamente eu não querer esperar mais. Já esperei o suficiente.
- Pois, mas...
- Não é nem pois nem mas. Estou a perder o uso do braço direito (não é infelizmente um grande exagero. É só uma pequeníssima hipérbole).

Passo o resto do diálogo. Foi breve. Consulta sexta-feira feira que vem de manhã.

Espera, o que é que estava a dizer sobre o SNS? Agora de repente escapa-me.

Conversas e assim

Estou no Logradouro e pergunto-me: "como arrancar-me de uma cidade que tem o café Tati e o Logradouro  (e tudo o que fica entre eles)"?

Palma tem a Babel e o Antiquari. Mas Lisboa tem o rio e a Ler Devagar.

Falso debate, claro: "O mundo é sempre mais pequeno do que o viajante que nele viaja" (J. Baldwin). O resto não passa de conversas e assim.

Adenda: a música vem de LP e não de CD ou pens ou icoisos. O hoummus não vale nenhum mas gosto tanto do sítio que me propus trazer-lhe um bocadinho, mai-la receita. 

Oiça uma ideia, eu lhe dou de graça

Uma ideia para o salário dos políticos quando chegam ao governo: primeiro ano recebem zero. Trabalham pro bono e mostram o que valem; anos seguintes recebem em função de uma combinação de variáveis - PIB, dívida externa, défice, etc. Uma fórmula, por assim dizer -. os que forem reeleitos começam o novo ciclo com o valor anterior, que será aumentado ou diminuido em função da variação do resultado da fórmula. Os que quando saírem tiverem o salário a zeros outra vez não poderão trabalhar em empresas públicas.

12.11.17

Como se um rio

Como se fosse eu a nascente e tu a foz de um rio assim te quero; como se na sesta sem ti a sesta não fosse, rio sem foz, rio sem margens, mar sem rios. Não há frio que uma pele não cubra, rio que um mar não salve, mão que uma sede não apague.

Como se de um rio fosse eu a nascente e tu a foz.

11.11.17

O princípio do fim (de semana)

O sábado começa muito devagar, como um carrinho de rolamentos numa rampa pouco inclinada. Revivo o jantar de ontem, as pessoas de quem tanto gosto, a carne que não me convence; daqui a pouco tenho uma reunião de trabalho: o meu carrinho de rolamentos vai acelerar. Devagarinho: façamos devagar o que é bom e depressa o que nos desagrada. É isso: atardemo-nos na fotografia que há pouco vi, linda, de uma senhora a entrar numa parede. Não a revejo: memorizei-a e dou-lhe voltas como a um gelado do Santini num final de dia em Cascais.

O trabalho é por causa do Jantar de Natal, uma ideia da M., essa fábrica de ideias boas, quentes, doces. Daqui a pouco levantar-me-ei e o dia começará realmente: nesta cama o tempo não se deita. Eu sim, mas não com ele.

A menos, claro, que chamemos tempo ao que ficou para trás e ao que aí vem. Talvez. Não me interessa: agora só penso na velocidade com que um se transforma no outro.

Lentamente, como se numa rampa muito pouco inclinada um corpo se pusesse em movimento, iluminado pela luz densa e marítima de uma vida.

Pequeno-almoço, duche, barba, levantar-me: o tempo chega-me de marcha atrás. Janus, mon cher frère siamois, aujourd'hui on s'en foût, on fait la fête, toi et moi.

Comme tous les jours.

Diário de Bordos - Lisboa, 10-11-2017

No regresso a casa perdi-me, de uma forma estúpida e cruel. E saltou a corrente, nos carretos. Outra estupidez cruel: não é por azelhice minha que aquilo salta. Ou então é por azelhice, sim mas noutra área: a de ganhar massa. Verdade seja dita que nem os problemas de orientação nem os mecânicos me fizeram esquecer quão agradável foi o jantar. Não tanto a comida, mas a companhia, bastamente melhor do que as tiras de porco em molho de gengibre e soja que voltei a fazer.

Cozinhar é bom; para um grupo de boa gente é melhor. Tragam bom vinho e boa conversa: eu tentarei dar comida à altura. Não que o consiga sempre, mas às vezes lá calha.

10.11.17

Correspondência e diálogo II

- Não tarda vais precisar de uma casa.
- Eu sei. Mas vai tardar.

Desta vez quem tinha razão era eu. Levei anos a precisar de uma casa.
- Tu nunca soubeste viver sem uma, não é?
- Não. Nem quero aprender.

Morávamos à frente do Lago, lembras-te? A casa tinha uma pérgola onde trabalhávamos e bebíamos vinho à tarde e tu fazias fotografias de um gato que não sabia que era gato.
- É verdade. Pensava que era um cão. Era o gato mais canino que a natureza jamais produziu.
Passávamos muitas horas naquele jardim frente ao lago.

- Estivemos muitas horas juntos, muitos dias e noites e semanas.
- E mais ainda separados.
- Não suporto relações simbióticas.
- Não suportas relações.

- Penso muitas vezes em ti, sabes? Enfim, pensar não é o verbo correcto.
- "Em ti" também não é correcto. Nunca soubeste pensar em mim.
- É verdade. É mentira. Pensava, mas não sabia que pensava. Amava-te, mas não sabia que te amava. Amava-te como respiro: sem pensar nisso, maravilhado cada vez que me apercebo disso.

A minha vida continuou como era, depois de te ires embora: caótica, bonita, feia, triste, hilariante, rica, exótica, aborrecida, estimulante, divertida. Até precisar de uma casa. Quero envelhecer entre quatro paredes, no meio dos meus livros, a ouvir a minha música e a lembrar-me de ti.

- Devias esquecer-me. E crescer, antes de envelhecer.
- Nasci velho. Não posso crescer mais.
- Ensinaste-me a viver.
- Ensinaste-me a morrer. 

Correspondência e diálogo

O quarto está gélido mas eu aconchego-me bem nos braços das memórias de ti, das noites frias que passámos juntos. Foram tantas. Vêm-me aos olhos as imagens dos teus cabelos, dos teus seios nas palmas das minhas mãos, do amor que fazíamos sem quase nos mexermos, enregelados e trémulos, apaixonados sem dúvidas. Ainda hoje me aqueces, tantos anos depois. Dir-me-ás que o passado nunca me interessou, nunca me aqueceu nem arrefeceu e eu responder-te-ei:
- Tu não és passado.

Ficamo-nos por aqui, uma chávena de chá fumegante à frente e relanças:
- Como vão essas dores no cotovelo [ou será no pé]?
- Mal, mas pouco me importam, os comprimidos não chegam mas em breve irei ao médico.
- Nunca soubeste tratar de ti - dir-me-ás. Mas o que queres dizer é:
- Nunca soubeste tratar de mim.
- Tens razão. Desculpa.
- Não tens de pedir desculpa. Estás pior do que eu.
- Tens razão.
- Eu sei.

As dores habituaram-se aos comprimidos como eu me habituei à tua ausência e agora me habituo ao frio como dantes me habituava à minha indiferença. Não há comprimidos para as dores do tempo, pois não?

É curiosa esta ideia de que os nossos presentes são como duas linhas de caminho de ferro, paralelas até ao infinito e por cima rola um comboio chamado memória que hoje me aquece esta noite gélida, esta melancolia límpida como um passado desperdiçado.

Pergunto-me quantos passados terás tu desperdiçado.
- Nenhum.
- Tens a certeza?
- Tenho. Sou demasiado jovem para ter passados.

Assim vou oscilando: entre as dores, o frio, a memória e a melancolia.
- Como fazes para não sucumbir?
-
- Adeus.
- Adeus.

9.11.17

Mudança

Cada vez mais gente me pergunta "Como estás?" e menos "Onde estás?" Alguma coisa está a mudar, de certeza.

Diário de Bordos - Lisboa, 09-11-2017

Fui almoçar a uma tasca da Rua do Benformoso. Resisti a dez e sucumbi à décima primeira. Chama-se Ghoroa e fica na esquina da rua com a travessa do mesmo nome. Sentei-me na esplanada a encher-me de sol. Encher-me, literalmente. Sentia-o entrar-me por cada poro da pele que tinha exposta e por cada interstício da camisa. Comi um Tandoori excelente, há anos que não comia um assim - há anos que não comia Tandoori, tout court - e um Naan bom, sequinho e uns bhajis de cebola idem. São bengalis e não falam uma palavra de português, com a possível excepção de "Sagres" e "Super Bock".

Foi tão bom... Até o Sol me parecia estrangeiro.

Feliz spam

Nestes dias difíceis devia ir mais vezes à caixa de Spam. A quantidade de pessoas que me ama, me quer conhecer e me manda dinheiro (falo de dinheiro a sério: um enviou seis milhões de dólares, outro "os primeiros cinco mil da compensação total (que era, se não me engano, oitocentos e cinquenta mil)" chega para alegrar qualquer dia.

7.11.17

Já o frio voltou

Já o frio voltou e com ele a vontade de te ter nas mãos. Aquecias-me todo, da ponta dos pés ao cerne da alma. Respirava-te os cabelos, o ar chegava-me filtrado por eles, por ti. Como a vida: parecia-me mais leve porque eras tu que levavas grande parte dela aos ombros, esses ombros com os quais agora sonho, sozinho e frio.

Sou frágil, sempre to disse. Não sei esconder-me: atrás de ti era mais eu, não menos. Como se esses ombros que tanto me faltam me tivessem sido amputados, cortados os cabelos, roubados os joelhos onde encaixava os meus.

Sem ti não passo de um monte de células às quais alguém tirou os núcleos e os substituiu por nada.

Solidão dos centros

Queria começar pela Lua Cheia mas foi  há mais de dois dias e não me apetece nada começar pelo que já foi há muito tempo. Podia falar do jantar de domingo no Tambarina, bom e barato como sempre e com amigos queridos que não via há muito temporário, mas isto também já passou.

Na verdade é melhor falar do que foi ou pensar no que vai ser?

Não sei. Ignoro tudo do tempo: quanto mais ando para a frente mais penso no passado e menos este me interessa e mais o futuro tão pouco me interessa. A velha ideia do círculo: os extremos tocam-se. Apenas o centro está imune, só, livre. Raios, diâmetros e circunferências não passam de prisioneiros de uma fórmula ou duas. Pi erre ao quadrado, dois pi erre.

Tagarelice. Podemos elaborar sobre a liberdade do centro de uma circunferência, do encontro de finalidades que um círculo representa, do tempo, à volta do qual andamos quando ele anda à nossa volta: somos nós o centro. Sós, livres, imunes.

5.11.17

O princípio do mundo

Uma amiga querida convida-me para jantar. "O que há", acrescenta., prevenindo-me - como se eu não o soubesse - de que não é grande amiga de fogões, temperos e outras preparações culinárias.

Digo que sim, claro. Por ela iria ao fim do mundo, com ou sem jantar. Ou ao princípio.

4.11.17

Regras para a vida higiénica e uma explicação

Num artigo de ontem vi que não devemos tomar banho todos os dias; ou pelo menos ensaboarmo-nos. Com excepção, precisa o autor, "dos pés, partes íntimas e axilas". Li o artigo até ao fim, mas não havia nenhuma menção aos dentes. Nada. Zero. Ou seja, para o jornalista (enfim, não sei se era um jornalista. Escrever em jornais e revistas não faz das pessoas jornalistas, tal como andar embarcado não faz de alguém marinheiro) continua em vigor aquela norma de lavar os dentes três vezes por dia, coisa que acho injusta, discriminadora e exclusiva de uma harmónica inclusão dos dentes no espaço corpóreo.

Isto dito, percebi finalmente por que raio de carga de água as senhoras gostam tanto de me ver pelas costas: é a melhor pele do meu corpo, freneticamente ensaboado todos os dias e às vezes mais do que uma vez - com a notória excepção das costas, claro - .

(Isto dito ainda uma pequena nota à margem: isso de chamar "partes íntimas" ao lugar da fruta tem que se lhe diga. Só são íntimas porque nenhuma mulher as quer partilhar comigo. Eu por mim se pudesse eram de todas. Enfim, todas não. Algumas, só. Escolhidas a dedo e a pele).

3.11.17

Dores, cores

Nao sei qual das dores é pior. São muitas, misturam-se todas. Mas a eleger uma escolheria a do cotovelo. Faz-me ver o mundo em tons de preto. Só preto, mais nenhuma cor. Nem cinzento sequer.

Umas vezes preto violento outras preto das profundezas.

Pena o governo ter fechado aquela discoteca: estava capaz de lá ir só para ver se alguém me cortava o braço. 

2.11.17

Mau poder

As pessoas que escrevem mal tem direito a emitir opiniões negativas sobre quem canta ou lê mal. Amigo não empata amigo. O rapaz da guitarra não é bem só mau. É pior. Tenho pena dele, pena do esforço perdido, dilapidado. O senhor que leu era mau, mas menos mau. Era só mau. Não o suficiente para me fazer ter pena dele.

Que raio de noite. Agora tenho de esperar que o concerto acabe para recuperar a burra, espera essa que me forçou mais um copo copo vinho tinto pela goela abaixo. Goela essa que estava fechada e bem fechada.

Não se deve subestimar o poder da má música nem o da boa poesia mal lida.

Adenda: para cerejar o por assim dizer ramalhete vejo que o Gonçalo Marques tocou no Tati. Os franceses chamam a isto "perdre sur tous les tableaux".

Enganam-se: conheci uma miúda gira (há amigos assim, têm namoradas giras). Podia ser pior: imaginem que a miúda era uma chata, por exemplo.

Meio Mezze

Vim almoçar ao Mezze Mezze. Primeira constatação (passem-me o detestável galicismo): está cheio a abarrotar. Para um povo que há uma dúzia de anos considerava exótico tudo o que viesse de para lá do Guadiana e achava intragável o que não viesse de França o português aderiu com uma velocidade tão surpreendente e estonteante como tardia à comida do mundo, passem-me o transplante. Segundo ponto: é caro pra burro. Terceiro: das três coisas que provei prefiro a versão libanesa: falafel, tabouleh e kibbeh. A gastronomia libanesa continua a ser a minha favorita no Mediterrâneo. Isto dito: não sei até que ponto o que comi aqui é "sírio" ou uma interpretação pessoal da cozinha síria. Quarto: o senhor que me serve não sabe o que é raki. Arak. Experimento todas as pronúncias possíveis. Não sabe. Com que raki de idade veio o homem para Portugal? (Fui à net e mostrei-lhe o telefone. Identificou finalmente a coisa. Não tem. De qualquer forma é parecido com o Assad. Pata que o pôs.)

Mitos, evolução

Enquanto não tivermos dentes auto-laváveis a evolução não passa de um mito.

1.11.17

Mar, tempo e outros círculos

Foi na superfície do mar azul que comecei a ser. Talvez não: talvez seja ao contrário e tenha acabado de ser feito na superfície do mar. Não sei. Ninguém sabe, de qualquer forma, onde começa ou acaba. De uma coisa só estou seguro: no mar azul sou. Isto é: em terra também sou, mas o princípio - ou o fim? - estão no mar. A terra é uma parte da passagem, da viagem.

Sem ontem não há amanhã, sem hoje não há ontem, sem amanhã não há nada. O mar onde tudo começou e acabou não percebe nada de futuro ou passado. É como é.

Eu não sou como sou. Sou como me fiz, no mar azul; ou fui feito por ele. Uma mistura, quem sabe?

Sou esta mistura toda de corpos onde me perdi e me perderam, mar sem ontem nem amanhã - que raio é uma coisa sem tempo? - livros que não li, olhos que não vi ou não me viram.

Não sei o que é o tempo mas sei a forma que tem: é um círculo do qual o raio somos nós, cada um de nós. Somos o princípio e o fim. Mar.

Em casa

Enquanto estas coisas todas destilam vou bebendo vinho tinto num restaurante chamado Pardieiro, na Graça (o senhor deixa-me entrar com a burra), entram duas senhoras francesas com um miúdo e pedem um gelado para ele, o empregado dá um ar da graça portuguesa - não me pareceram parigottes mas simpatia destas nem no fin fond du fond -, a mesa à minha frente chama o mesmo empregado com um "Olhe..." ao que ele responde "Estou a olhar" - e eu sinto-me em casa.

Em casa. Há uns anos tive o mesmo sentimento com um polícia sinaleiro do Príncipe Real que parava o trânsito todo para me deixar passar na bicicleta.

Chamei-lhe pertença, mas estava enganado. Era "em casa".

Diário de Bordos - Lisboa, 01-11-2017

A primeira vez na vida que bebi Mai Tai foi no Trader Vic's de Oakland. Diz o próprio que ali aquilo foi inventado. Um concurrente contesta. Não sei, pouco me importa: os Mai Tai estavam excelentes, eu tinha dinheiro e embebedei-me com Mai Tai, eu mai-la tripulação toda, estavamos de largada para a Costa Rica e estava com uma depressão mortal, mortal. Um fluxo estável e praticamente ininterrupto de Mai Tai durante muitas horas fez-me esquecer a jovem senhora que estava na origem da depressão por uma quantidade significativa de tempo.

Fiquei fâ daquilo, apesar de nunca mais os ter encontrado tão bons - fosse por os ter conhecido na casa-mãe seja porque eram mesmo bons (já o mesmo não posso dizer da Piña Colada, que conheci muito antes de as ter bebido no Bar Barranchino em S. Juan de Puerto Rico e apesar disso acho estas as melhores de todas, de longe) -.

Hoje estou a beber o pior Mai Tai da minha já longa vida (e curta experiência da mescla), não me vai fazer esquecer nada, nem a depressão que teria se estivesse deprimido nem a jovem senhora que não me abandonou, nem nada. Não vale a ponta de um corno, mas eu devia ter suspeitado de que o Intendente não é o melhor sítio do mundo para se beber Mai Tai. Será que o Luís do Procópio os sabe fazer?

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Em S. Juan, numa das vezes que lá fui estava com a minha filha e não me embebedei com Piña Colada. Ela serve de bebedeira: é a miúda mais bonita do universo e arredores.

Hoje precisava (o tempo verbal não está inteiramente correcto) de beber um copo com ela. Aposto que ela faria deste Mai Tai uma bebida não só potável mas também inesquecível.

Vou ter de encontrar outros esquecimentos.

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Não se deve misturar piedade e amizade; não são miscíveis e estragam-se uma à outra quando juntas.

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À frente do (soube depois) hotel onde bebi uns Mai Tai que se Deus quiser vou esquecer rapidamente há um bar chamado Josephine ao qual já tinha vindo, faz agora anos de mais. Têm excelente música e um cheiro a detergente que mata o mais valente dos apetites. Suspeito que o cheiro a detergente vai partir e a boa música continuar. Vai entrar para a lista de lugares frequentáveis.

31.10.17

Em louvor dos velhos valores

Acabo de ouvir o empregado da Ginginha Popular servir "um glass de vinho tinto" a uma mesa de turistas. O dito vinho é uma merda (é o que estou a beber) mas porra!, sabe tão bem.

30.10.17

Diário de Bordos - Lisboa, 30-10-2017

Sacana do turco aumentou os preços. Diz que quer servir-me "com a melhor qualidade, pois o nosso melhor cliente é você". Aceito a explicação: o Gambrinus também quer servir-me o melhor possível. Não sei é se precisou de aumentar os preços para isso. Já lá não entro desde que Madalena se arrependeu e como prémio não encontrou o corpo que ia perfumar.

Neste tão pouco. Chateia-me comer sem cerveja ou sem vinho, é como comer sem sal ou navegar sem vento. Os kebab continuam bons; o falafel é assim assim e as chamuças uma merda. Ou então sou eu que estou chateado, é possível. Não fui feito para esperar, apesar de saber fazê-lo às vezes. Depende do que espero. Vento, por exemplo.

Outras coisas por que sei esperar? Não me ocorre nenhuma agora mas são muitas.

Falta-me paciência, essa é que é essa. Compenso com a tolerância, mas não é a mesma coisa e acaba por não compensar nada.

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O turco não tem cerveja. Posso parar na Portugália, talvez. Para compensar.

Não sei. Sei que qualquer dia está a chover e a burra não tem guarda-lamas e sei que a maré baixou fulminantemente e me deixou aqui fulminado, num turco manhoso a pensar que estou no Gambrinus.

Essa é que é essa. O resto é conversa de encher chouriços. Como a temperatura: se não gostam vão para o Alaska ou para a Groenlândia. Por mim podia continuar assim até ao Natal (com uma ligeira excepção para uma quinta perto de Évora que pertence a um amigo meu e está um bocado desesperado com a falta de água. Aí pode chover à vontade. De resto e enquanto isto estiver de maré baixa mais vale que faça sol e não chova).

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Sete e setenta,  o jantar no turco. O gajo bem podia preocupar-se um bocadinho menos comigo. Isto é, com a qualidade do que me ausências mim que sou o seu melhor cliente, diz ele. Eu e toda a gente que lê o papel na parede, claro. Um bocado infantil como estratégia de comunicação, mas enfim.

Acabou por ficar em sete euros. Não tinha troco. Bem feita: compensa a ausência de cerveja.

29.10.17

Diário de Bordos - Lisboa, 29-10-2017

Hoje a missa começou fraquinho mas foi melhorando e acabou numa apoteose,  que é o único termo que define o Gonçalo quando ele está em graça, em harmonia, em linha directa para aquelas profundezas de nós que não sabem distinguir um dó de um fá mas sentem cada molécula de som desde que a Hildegarde von Bingen se lembrou de escrever o que ouvia. Ou o que queria dizer, é a mesma coisa.

De maneira viemos jantar, a "magrela" e eu ao Domingos, na rua do Poço dos Negros. O Tambarina é para mim o melhor restaurante cabo-verdeano de Lisboa, não por ser o melhor restaurante cabo-verdeano de Lisboa mas por ser o melhor restaurante cabo-verdeano do mundo; com a possível e admissível excepção de alguns restaurantes cabo-verdeanos que provavelmente existem mas eu não conheço. 

A música hoje está baixinho e o Domingos deixa-me entrar com a "magrela" (acho que vou definitivamente e para sempre adoptar este termo, obrigado Fabreu. Magrela vai perder as aspas e devemos congratular-nos por isso, uma palavra com aspas é mulata demasiado vestida, ou beata fingida).

De modo é isto: encontrei por acaso o Z. M. no Tati e - de uma forma previsível e combinada - a T. e o marido e depois vim ao Tambarina e como por acaso a música continua boa apesar de tão diferente.

Como se por acaso o acaso fosse para aqui chamado, que não é.

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Ainda por cima tive hoje uma daquelas notícias de ordem familiar que me fazem pensar que ninguém consegue falhar tudo e que de entre as coisas que esse ninguém não falhou algumas são mais vitórias do que outras.

Ou seja: qualquer dia mudo de nome e começo a chamar-me Candide.

Post demagógico-afectivo; ou: sou um anjinho. Ou: mamas jungianas

Quem já viu um par de mamas viu-os todos; a quem já nas mãos teve um belíssimo par delas - ou dois ou três, não vão os meus leitores pensar coisas erradas a meu respeito - todas parecem belas: as mamas de uma senhora têm nelas as mamas todas de todas as senhoras, as boas e as más (não existe tal coisa), as grandes e as pequenas, as caídas e as leves como uma coluna de fumo que sobe da fogueira para o céu.

A única coisa que muda de mulher para mulher é o que ela tem por baixo do cabelo, entre as orelhas e se vê pelos olhos. 

Serviço público - Receitas (Porco panado em molho de gengibre e soja)

Não foi propriamente improvisado mas ficou bom:

Panar tiras de porco em farinha, ovo e pão ralado, como de costume; fritar em azeite, idem.
Uma vez dourada acabar de cozer a carne num molho feito com gengibre ralado e alho picado refogados e que se deixaram cozer numa mistura de molho de soja e água.

Levou cominhos, paprika, pimenta.

Pode ser servido como aperitivo se os pedaços de porco forem cortados pequenos. 

Empirismo, fé

O empirismo céptico é obviamente a atitude filosófica mais oposta à crença religiosa. É também a base filosófica do liberalismo. Não é portanto de espantar que para um liberal a esquerda pareça uma igreja e o esquerdismo uma fé sem qualquer base racional ou real.

28.10.17

Palavras banidas

Refiro-me às areias subterrâneas daquele país inominável. O país que baniu do seu léxico uma quantidade de palavras (a começar pelo seu próprio nome). Isto é: baniu uma vasta quantidade de palavras, deixando assim os seus habitantes mudos e surdos.

Uma dessas palavras - creio que estava na vaga inicial de banimentos - foi o verbo Amar, em todas as suas conjugações. "Amo-te" integrou portanto o index de palavras banidas.

E muitas outras. Um dia juntaram-se e formaram um rio, um vertiginoso caudal invisível por baixo do deserto.

Amo-te - provavelmente, de todas as palavras banidas a que mais falta fazia - ia à cabeça daquela longa fita que ninguém via, na qual se distinguiam por vezes patinadores, como se as palavras tivessem congelado.

Isto é: de vez em quando alguém derrapa numa palavra (ou em várias).

Fechemos todos os parênteses que possamos inadvertidamente ter deixado abertos. Derrapemos impetuosamente nas palavras que não vêem a luz do Sol, o luar, o dançar leve de uma jovem, o mar. Aprendamos a viver assim, debaixo do solo num país inominável. Nós, cujo único crime consiste em insistir, usar as palavras interditas: amo-te, por exemplo. 

Estética e divisões

As mulheres bonitas deviam ter presente sempre que com uma feia se fazem as mesmas coisas.

Não é a beleza que divide, é o que está por trás dela. 

27.10.17

Círculos, espadas

Podíamos - nós, isto é: tu e eu - imaginar que é isto a noite. Isto sendo, claro, um círculo que ora fica aberto ora se fecha, consoante as vontades,  a minha ou a tua.

Se essas vontades não forem simétricas sai uma elipse. Uma coisa oval, feia se estiver ao contrário e bela às vezes, independentemente da posição. Prefiro a simetria; a beleza de um círculo; a ideia de que o que lhe fica dentro é tão perfeito como o que lhe é exterior.

É isso o círculo; também se faz com espadas. 

Até aqui

"Não morras já, que tenho uma espada que mata com mais amor".

É dessa espada que te falaria, se quisesses. Mas tu não queres. Dizes-me "cala-te e fere-me". Obedeço. Olho para o ponto no ventre que indicas com a mão enquanto me dizes "Até aqui". É profundo esse ponto. Tenho de ir longe, ao fundo de mim e olhar-te, como fazem os arqueiros zen: tu és o alvo, eu sou o alvo.

"Até aqui". Não te apercebes de que "aqui" fica no centro do tempo: quando lá chego o futuro acaba e o passado dissolve-se.

É assim que entro em ti: a matar com uma espada que mata com mais amor. Mas o amor não é para aqui chamado. Só existe "Até aqui".

Aqui sou eu e és tu. Um círculo, se quiseres; do qual o centro é "aqui" e o raio a espada, o tempo, o indefinível conjunto de coisas que nos levou  "Até aqui".

Discotecas, guia sintético e assíncrono

São poucas as discotecas em Lisboa às quais se pode ir: o Incógnito quando está vazio - acontece raramente - ; o Jamaica quando se está grosso (já lá não vou há duzentos anos); e o B.Leza, sempre. O B.Leza é a melhor definição de Portugal, a melhor montra. O B.Leza é Portugal. O resto é ruído.

(Antigamente havia o Lontra. Não sei se ainda existe. Era a versão crua do B.Leza).

26.10.17

Tentativa de definição

Talvez no fundo "viver em" se refira singelamente ao sítio onde está o livro que estamos a ler.

Diário de Bordos - Lisboa, 26-10-2017

Fui à apresentação de livros de poesia numa livraria da Baixa. Foi relativamente mau (relativamente para se perceber que relativizo: se calhar era muito bom e eu não percebi nada. Acontece-me muitas vezes não perceber nada. Aliás acontece-me mais vezes não perceber nada do que perceber tudo).

Não conseguia deixar de pensar, enquanto ouvia os senhores falar, em Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Pedro Tamen, Nuno Júdice, Miguel Martins e uma jovem poeta chamada Cláudia Rodrigues ou Sampaio ou coisa que o valha. Não me lembro do nome dela e logo que chegar a um computador vou procurar, se me lembrar). Pensava eu enquanto os ouvia "num país que produziu poetas destes [os acima citados e outros] devia ter-se muito cuidado quando se publicam livros de poesia" (entre aspas porque reproduzo fielmente o que estava a pensar enquanto os senhores falavam).

Depois chegou a fase das perguntas e respostas e eu enfureci-me comigo mesmo porque estava cheio de vontade de falar e vim-me embora e eu detesto quando a minha cabeça se recusa a aceitar a timidez como explicação para aquilo a que ela mesma chama injustamente cobardia. Sou tímido mas não sou cobarde e detesto que se confundam essas duas características. Não era por causa da poesia ser má que eu ia falar - um gajo que escreve o que eu escrevo não tem muito espaço para criticar negativamente os outros -. Era porque o senhor - um deles - começou a atacar umas pessoas que eu conheço e a falar de Debord e eu chateio-me quando as pessoas atacam outras que eu conheço sem razão (o ataque, não o meu conhecimento delas) mas vim-me embora timidamente.

Não foi cobardemente, imbecil (falo ao meu cérebro).

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Depois para diluir isto tudo fui beber uma ginginha mas o gajo que lá está não me conhece e é estúpido (sem relação) de maneira deu-me a ginginha num copo de plástico e eu já não tenho energia para discutir a merda dos copos. Faltam-me o senhor Manuel, que morreu engasgado e o senhor Coelho que lá está de pedra e cal há mais anos do que eu me lembro dele mas só trabalha de manhã. E depois vim comer uma sandes de ovo com chouriço à Ginginha Popular e uma febra, são óptimas tanto a febra como a sandes de ovo e pensei em Palma e achei que face a isto tudo bem podia dispensar uma vírgula ou duas.

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Hoje descobri que algumas senhoras acreditam que enviar a um homem fotografias delas nuas é sadismo. Também com isto a minha pobre mente se confundiu e começou a misturar tudo, Hugh e ego, por exemplo.

Duas coisas que não se misturam de todo, claro. (As vírgulas voltaram. Tudo acaba sempre por encarrilar).

Ou seja: o dia acaba em Lisboa, na Ginginha Popular a beber penalties e a lembrar-me da maravilha que viver em Lisboa é excepto quando o meu cérebro confuso mistura cobardia e timidez e precisa de ginginha Sem Rival para se desmisturar. Na Ginginha Popular a ginginha é mais barata do que na ginginha Sem Rival e é também Sem Rival e - prémio - é servida num copo de vidro.

Bom. Tenho a bicicleta afinada, uma quantidade decente e perfeitamente defensável de Ginginhas bebidas - três à data - as vírgulas estão de regresso, a temperatura exterior é doce como uma mulher apaixonada, "vivo" num quarto pequeno mas limpo (as aspas devem-se às diferentes interpretações que a palavra vivo pode ter) e por incrível que pareça os carris parecem estar paralelos e o comboio em cima deles.

"Je rêve d'un monde où l'on mourrait pour une virgule" disse o bom velho Emil um dia, como se uma vírgula fosse uma coisa pequena e desprezível.

Não é, Emil. Pequenos e desprezíveis somos nós. As vírgulas que deixamos são infinitamente importantes.

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De repente vêm-me à mente os fins de tarde na Barra, Salvador da Baía a beber caipirinhas sem açúcar e pronto lá vai tudo por água abaixo carris e ginginha e bicicleta e sandes de ovo com chouriço e.

25.10.17

O Sol e a Lua

Deixa-me dizer-te: vamos começar pelo fim. Vamos começar por nos insultar,  para que isso fique resolvido, feito e para trás. Depois conhecemo-nos tacteando no escuro; jantamos e finalmente escrevemo-nos.

Isto é o princípio; o fim vem depois do oceano, da chegada ao porto. Atracámos e desembarcámos. Deixámos o barco limpo, lavado e arrumado. Fomos para a terra e então  - só então - nos conhecemos.

Comecemos pelo fim. Deixemo-lo para trás. Naveguemos para o princípio, como fazem o Sol e a Lua todos os dias.

Sobrevivência

Sobreviver é uma maçada muito grande: há que recomeçar tudo cada vez que se sobrevive.

Emil chega aqui, por favor

Morrer a cada frase, como Cioran a cada livro: esta é a grande vantagem de um blog.

Oiça um bom conselho

Não percebo nada do negócio da edição de livros e não sei qual a relação entre a qualidade de um livro e o seu potencial de vendas.

Mas se eu fosse editor compraria os direitos para a tradução de Los Palimpsestos, de Aleksandra Lun, ed. Minúscula, Barcelona 2015.

Se aquilo não vender nada se vende.

Ingratidão

Lacan dizia que "a estupidez é uma histeria. Basta uma pessoa saber-se estúpida para deixar de o ser".

A minha tumultuosa relação com a estupidez - uma das raras características humanas que não suporto - faz-lhe ressaltar um certo traço lacaniano: a estupidez - uma das muitas características humanas que não me suporta - deixa de o ser porque justamente não gosta de mim.

Um estúpido que me detesta deixa de ser estúpido. Podia pelo menos agradecer-me, mas isso nunca acontece: ninguém me compreende. Excepto, claro, a estupidez, que é por natureza ingrata. 

Retratos avulso - mayonnaise

Cheio de simpatia, isento de quaisquer emoções ou sentimentos.

Temas: bonomia insensível. Empatia neutra. Indiferença. Afastamento  (éloignement). Il n'est pas ces arbres que l'on va abattre et pour lesquelles il se bat, ni - encore moins - ces  chiens que il nourrit et promène, les voitures qui claxonnent maladivement et dont il partage l'énervement des conducteurs.

Il est tout ça mélangé et séparé comme une mayonnaise qui a tourné.

Camus n'est pas loin. On n'abbat jamais les arbres qu'il faudrait, de toute façon.

Faudrait-il continuer en français, "cette langue d'emprunt" comme l'appelait le bon vieux Emil qui ne s'est jamais tué parce qu'il mourrait à chaque livre.

Deus, deusa

Há mulheres bonitas, feias, assim assim... E há a Jacqueline Bisset, a quem essas categorias não se aplicam.

Julgar a beleza de Jacqueline Bisset é como aferir a santidade de Deus.

Os vinte gloriosos

As mulheres só começam a ser mulheres aos trinta anos. Antes disso ou são demasiado complicadas ou demasiado simples. A partir dos cinquenta não são uma coisa nem outra.

Nunca ninguém cantará suficientemente a glória do equilíbrio. 

Vida, morte

Quem tem medo de morrer tem medo de viver. Só quem pode morrer a cada instante vive sempre.

Queres viver? Prepara-te para morrer.

24.10.17

Arnaldo e os museus

Arnaldo tem uma perspectiva solitária da pobreza; e outra, diferente mas complementar, pobre da solidão. Oscila entre as duas porque não sabe de onde melhor poderá analisar a sua vida. Além do mais é doente, mas isso ele não inclui nos dados para análise para não aumentar a complexidade do problema. Arnaldo é um homem simples, está visto e dito.

Todas as tentativas que faz para deixar de ser pobre, só (e doente) falham. Falta-lhe, pensa ele, uma visão clara das causas dessa situação e um real desejo para a alterar.

Coisa que no fundo é fácil: para deixar de ser pobre basta trabalhar; só, fazer amigos e encontrar uma mulher a quem a condição financeira dele não importune; (e doente, um médico e remédios). Noventa e nove por cento da humanidade faz isso com sucesso.  O restante um por cento alimenta literatura, teatro, cinema e quem sabe a escultura. Digamos: a arte.

Arnaldo era uma obra de arte em busca de um público. Infelizmente para ele há um facto quotidianamente comprovado: os pobres da rua não são os mesmos dos livros, tal como a solidão num filme é diferente da do vizinho (da doença então nem se fala: alguém pensa que um modelo de Botero é obeso, por exemplo?)

Talvez no fundo mais do que de um público Arnaldo precise de um museu.

23.10.17

Sol, enganos

Se estiveres num poço com uma pedra amarrada aos pés e as mãos amarradas atrás das costas e esse poço fôr fundo e estreito ao meio dia verás o sol brilhar.

Não te deixes enganar: o poço é fundo, a pedra pesada e o nó que te prende as mãos impossível de desfazer.

Círculo

Navegar sem fim um corpo sem princípio. Navegar no princípio do corpo o corpo do fim. Há um corpo no princípio e outro no fim. Há um fim, um princípio e um corpo. Amar do princípio ao fim o fim e o princípio. Navegar o círculo do teu umbigo, navegar até ao umbigo do mundo, que não tem princípio nem fim: os corpos são o mundo. Amar é o círculo no qual o princípio e o fim se tocam.

Imagina um corpo. Imagina um princípio. Desenha-lhes o fim: é um círculo. 

21.10.17

O vinho e a chacha

A Sifoneria, de longe a melhor cave de vinhos que conheço nos dois hemisférios - o Norte e o Sul, o Este e o Oeste - reabriu. Agora chama-se Bodega Santa Clara e continua onde sempre foi: Carrer de Santa Clara 4.

O resto - tudo o resto - é conversa de chacha.

Relatório e contas

Cinco livros, três discos e um par de jeans pelo preço de uma viagem para Lisboa.

Um desses livros (Palimpsestos, de Aleksandra Lun, ed. Minúscula) começa com esta frase (a tradução do espanhol é minha): "Chamo-me Czesław Pręśnicki, sou um miserável emigrante da Europa do Leste e um escritor falhado, há muito tempo que não tenho relações sexuais e estou a dar entrada num manicómio na Bélgica, um país que há um ano não tem governo."

Outros chamam-se "Releer a Rilke", ou "Elogio de la anarquia" (os autores são "dois excêntricos chineses do séc. III" - não sei como se pode ser anarquista e excêntrico ao mesmo tempo, mas passemos).

Passemos também uma pergunta sobre o regresso a Lisboa.

Diário de Bordos - Palma de Mallorca, Baleares, Espanha, 21-10-2017

Há uma mistura entre a geografia, o tempo, a memória e a felicidade (ou pelo menos o bem-estar. Não exageremos). Quero dizer: há sítios em que nos sentamos num café a beber um licor de Hierbas seco e o tempo passa por nós como se fosse água mas não nos molha. Como se estivesse a chover e nós a dançar imóveis, à chuva sem chapéu e sem candeeiros, só com tempo. Tempo no sentido lato: hoje, ontem e amanhã passam-nos igualmente pela impermeável superfície que a geografia montou e à qual por falta de vocabulário adequado chamamos pele.

Palma, claro. Licor de Hierbas, Restaurante El Puente, Livraria Biblioteca de Babel, bar Antiquari. Perdi-me quando saí do El Corte Inglés, por incrível que pareça. Uma irrupção de presente nesta mistura que à partida parece de betão armado e um gajo perde-se.

Comprei muitos livros, alguns discos e um par de calças, que é o mais urgente. Em Lisboa comprarei o resto. Não é possível não viver em Palma. Já me aconteceu muitas vezes, mas cada vez que aqui venho pergunto-me como fiz.

Voltando ao princípio: um gajo senta-se num restaurante, pede uma cerveja, espera um bocadinho e de repente começam a pingar gotas de tempo e esse mesmo gajo pensa "Olha que giro! Está a chover e não me molho", assim, com pontos de exclamação e tudo. Esse gajo faz de propósito e vai à Babel comprar livros, senta-se no Antiquari para os ler - coisa que não faz devido a uma irrupção súbita de disparates - e pensa "o futuro molha muito mais do que o passado".

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As mulheres de Palma são bonitas, mas não tanto quanto as de Genève. Isto é: em Genève são todas bonitas, mesmo as feias; aqui só as bonitas o são, mas há muitas. 

20.10.17

Diário de Bordos - Sul de Ibiza, rumo a Palma, 20-10-2017

Estamos finalmente a andar. Entrou vento, 15 - 20 nós pelo través. O TTG avança aos solavancos, saltos, esticões neste mar curto do Mediterrâneo. As pessoas que compram catas porque acham que são mais confortáveis só os vêem no porto.

Rizámos e perdemos pouco em velocidade; não valia a pena esperar mais. Se o vento não caísse passaríamos Ibiza ao meio-dia e as dez da noite estaríamos em Palma. Infelizmente vai cair de certeza.

É aproveitar enquanto há, solavancos ou não: é a primeira vez que não oiço a merda dos motores desde que saímos de Cascais.

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Por falar em Cascais: acharam a Marina detestável. Pessoal antipático, material degradado e sem manutenção. Curioso como certas coisas não mudam, apesar de o mundo ser composto de mudança.

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Ando outra vez transformado em farmácia ambulante por causa do cotovelo. Quem me cortasse o braço direito e o deitasse ao rio não sabe o favor que me fazia.

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Esta noite vi a maior estrela cadente de toda a minha vida. Ao princípio pensei que fosse um avião com as luzes de aterragem acesas; depois um satélite que se tivesse enganado de órbita.

19.10.17

Diário de Bordos - No mar, a Leste do cabo Palos, rumo a Palma, 19-10-2017

"Mantém-te sempre a barlavento do teu rumo". É giro ter de navegar com armadores a quem tem de se explicar coisas básicas como esta. Tomara hajam muitos, sejam simpáticos e me paguem, como estes.

Vamos a caminho de Palma, finalmente. Estava a ver que ainda tinha de parar em Denia, mas não. Um bocadinho de vento esta noite, mas pelo través. Disse à senhora que seria pouco tempo. Não gostam de vagas. É como eu quando decidi ir viver para o campo: um que é que um gajo alérgico à clorofila foi fazer para Bassins? A diferença é que não paguei meio milhão de euros para isso. Eles sim, ou quase; e ainda por cima por um bote que é uma bela merda.

Mas não sabem e não sou eu quem lhes vai dizer. Pelo menos tratam-no bem. Hoje tivemos o Juan Pedro, por um problema no leme e a malta da Volvo para o serviço das duzentas e cinquenta horas. Já me disseram que posso ficar a dormir a bordo se quiser passar uns dias em Palma. Quero, claro.

Mas não muitos. Dia 25 tenho imperativamente de estar em Lisboa. É um imperativo bom e para esses sou um rapazinho obediente.

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Hoje vi-me grego para encontrar uma padaria aberta às sete da manhã. Não há países perfeitos. Este tem esse problema, mai-lo palerma do Puigdemont. Não sei como estão as coisas pela Catalunha. Não consegui sintonizar o Facebook para lá.

Andam todos entretidos com aquela mistura de incêndios, ministros e incompetências diversas que por lá grassa.

Só tenho pena que o Passos Coelho se tenha retirado. Para o que aí vem, antes padarias que não abrem a horas decentes e um palerma que ninguém percebe.

17.10.17

Diário de Bordos - No mar a Sul de Adra rumo a Cartagena, 17-10-2015

São seis e meia da tarde, estou de quarto até às nove (entrei às seis), está frio (é o primeiro dia de Outubro desta viagem), o vento está ponteiro mas fraco e vamos a motor. Estou quinze milhas a Oeste de Almerimar (e a cinco de terra); desde pouco depois de Sagres que a VHF não se cala com avisos à navegação: cinquenta e cinco pessoas; trinta e quatro; oito; cinquenta e sete, a bordo de lanchas, botes de borracha, insufláveis... É horrível. Penso no que está gente pagou para ser tratada desta forma, explorada, roubada, entregue a campos de refugiados. Tudo isto é melhor do que o que têm; tudo isto é nojento.

A Europa tem culpas no cartório. Não as que os "desculpistas" tiram do chapéu a cada esquina, mas as de fechar as fronteiras aos produtos agrícolas que os países africanos podiam produzir e exportar; as de alimentar e financiar regimes corruptos e despóticos para aliviar a má consciência  (que é completamente injustificada, ainda por cima).

Ou seja, para nos desculparmos de crimes imaginários e para proteger meia dúzia de agricultores franceses condenamos milhares de inocentes à morte e à infâmia de uma vida miserável.

Depois vamos ajudá-los: enviamos meninos e meninas em barquinhos, enviamos vasos de guerra e lançamos avisos sem fim na VHF.

Merda! para esta merda toda.

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Entretanto Portugal arde e António Costa dá uma lição ex-catedra sobre a arte de ser português.

Lição que aprendi mal, infelizmente e agora é tarde. Gosto de Portugal e provo-o com actos, não com palavras; viajei o suficiente para saber que todos os paises têm coisas detestáveis. Mas Portugal é o meu e é onde quero passar o que me sobra (ou o que me falta, depende do ponto de vista). António Costa provoca-me náuseas,  quase tantas como o seu patrono Sócrates. Deviam ir os dois combater os incêndios ao lado dos bombeiros. E se possível ficar por lá.

Enfim, não lhes desejo a morte. Mas umas queimaduras em segundo grau não lhes fariam mal. E talvez abrissem os olhos dessa ameba escorregadia que faz de nós parvos. (O outro pelo menos tem a justiça pela frente. Ao menos isso. Custou mas foi).

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Está frio, estou com vontade de chegar a Palma e amanhã entra badanal. O mar está cheio de desgraçados em busca de uma vida melhor do que a que teriam se ficassem nos seus países. Melhor deixar o Costa em paz, mai-los agricultores franceses e os meninos com sede de aventura. Antes concentrar-me no quarto. Ainda faltam duas horas.

[Adenda: apresso-me a esclarecer os mais puristas que não há tráfego, estou longe da terra e levanto os olhos do telefone de cinco em cinco minutos.]

Um post curto sobre lulas fritas, badanal e princesas

A próxima escala é em Cartagena: vai entrar badanal e nem os armadores nem eu estamos com muita vontade de nos chatear.

Antes assim. Pode ser que haja uma boa exposição no Museu e haverá de certeza lulas fritas no café Taona. Fazem-nas com farinha de grão-de-bico, se a memória não me falha. Ficam levezinhas, deliciosas, finas.

Entretanto Palma faz-se esperar, como convém a uma princesa.

Milagres e cocó nas fraldas

Não é serem idiotas;  não são  (aliás estes até são adoráveis); não é não perceberem nada disto, coisa que graças à miserável expansão da RYA já não depende sequer da idade: a RYA está a matar a arte de marinheiro; não é serem arrogantes - toda a ignorância é arrogante -.

É pior, mais fundo e mais intratável do que tudo isso. É não se maravilharem, não verem o milagre. É eu estar farto.

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Enchem-se de electrónica, que percebem tanto quanto eu o chinês do séc. V a. C. Não sabem falar: dizem bumpers em vez de fenders, janelas em vez de vigias, chamam paredes às anteparas; não sabem que não se dorme num quarto, dorme-se num camarote. Não sabem sequer andar a bordo: parecem elefantes bêbedos. E vão para o mar assim.

Em terra estariam no jardim de infância e aprendiam a não cagar nas fraldas.

16.10.17

Serviço Público - Restaurantes Málaga

Largamos amanhã de manhã cedo e deixo aqui uma palavrinha rápida para recomendar aos meus leitores que se um dia tiverem de passar em Málaga e nesse dia precisarem ou de um pequeno almoço ou de uma refeição rápida, boa e barata um dos sítios a ir é a padaria La Canasta, sita na Av. de Cánovas del Castillo 2.

(Normalmente estas indicações de restaurantes são para mim, mas da espécie de prego com presunto que hoje jantei não corro o risco de me esquecer nos próximos duzentos e cinquenta anos).

Diário de Bordos - Málaga, Andaluzia, Espanha, 16-10-2017

Ia a caminho da sesta, juro que ia. Mas mal saí do café Bruselas - o meu antro em Málaga desde que a J. me levou lá - ouvi música. Eram dois gajos, um baixo e um guitarra, francamente bons. Tive um certo contacto com músicos de rua há alguns anos e é uma classe profissional pela qual tenho o maior dos respeitos.

Quando são bons ainda mais.

Estes são dos melhores que tenho ouvido, ao nível de uma banda em Palma que incluía uma violinista búlgara, uma cantora portuguesa e um baixo argentino que estavam para lá do muito bom. Aqui os dois andam lá perto. Têm aquela qualidade fundamental na música de rua que é o bom humor, fazer rir as pessoas, quase mais importante do que a técnica.

Infelizmente o mojito do Café con Libros - à frente do qual tocam - não está à altura. Lembro-me de alguns tão maus como este, mas pior nada me ocorre. Fica o nome do café e a música,  que agora acabou e me deixa aqui pendurado, equilibrista entre uma sesta mais do que merecida e um mojito que ninguém merece.

Diferenças

Um barco que é uma merda, comparado com o outro; mas está novo e é bem mantido. E um armador sério em vez de um aldrabão, ladrão e outras coisas acabadas em ão.

Para um engenheiro, provavelmente, cada ponte é uma ponte; para um médico, cada doente um doente. Para mim, cada barco é um planeta. 

15.10.17

Diário de Bordos - Málaga, Andaluzia, Espanha, 15-10-2017 / II

Uma vez saindo das imediações do porto e embrenhando-nos nas ruelas pedonais do centro Málaga perde o ar compostinho de menina de boas famílias. Antes assim.

Tinha duas missões: comprar um cartão para o telefone do armador e analgésicos para mim (isto é, para a porra das epicoisas). Uma das grandes vantagens de Espanha é que as ruas estão cheias de mulheres espanholas. A desvantagem sendo que perguntar uma indicação a um transeunte é a mesma coisa do que perguntar a um marciano onde é a casa da Mariquinhas, seja qual for a distância a que o dito cidadão esteja do alvo da nossa pergunta.

Acabei por encontrar as duas coisas; não me queixo, afinal de contas, da combinação perguntas & espanholas. Agora resta aguardar que o analgésico faça efeito.

Vim para a Casa Lola (dito assim parece que conhecia; está longe de ser o caso, infelizmente) beber vermutes do barril - uma das especialidades da casa - ver se o Tramadol se despacha. Ajudá-lo, por assim dizer.

O sítio é melhor do que bom e o vermute melhor do que o sítio. Só tenho pena de não ter vindo almoçar aqui, mas não faz mal. Amanhã também é dia.

Todos os dias são dias, claro. Um pouco mais quando a merda do cotovelo se esquece de mim, um pouco menos quando não. Médias feitas, não me queixo. Imagine-se que estava a doer-me o cotovelo na Amadora.

¡Y viva a España!

Casa Lola
www.tabernacasalola.com
+34 952 223 814
c/Granada 46
Málaga

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O vermute de barril não parece ter grande efeito sobre o analgésico. É uma mistura de Tramadol e Paracetemol. Uma merda, é o que é.

Vou para bordo dormir.

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Vai tu.

Diário de Bordos - Málaga, Andaluzia, Espanha, 15-10-2017

É domingo, mas já ganhei a minha caña, a J. vem aí, o tempo continua estival e a única coisa que me chateia é que se calhar vou ficar mais um dia aqui, a fazer fé nas últimas previsões. Talvez seja engano, não sei, vamos ver. De nada serve um gajo excitar-se demasiado antes de tempo, nesta vida de mar. Agora espero pela J., bebo uma cerveja e escrevo disparates no café Galopain, uma coisa metida a afrancesada e cujo nome começa logo por um erro de ortografia, suponho. Devem ter querido dizer Galopin, que é o equivalente à nossa Lambreta, uma imperial pequena. Meia imperial, por assim dizer.

Málaga está mais calma do que da outra vez que aqui estive, foi no pico do Verão. Parece uma cidadezinha burguesa, calma e de bom gosto, pelo menos a julgar pela padaria La Canasta onde hoje comprei pão, presunto e chouriços para o pequeno almoço e pelo erro de ortografia que lhe fica mesmo à frente, onde tento enganar o sono porque me deu um ataque de soneira que só com mais dez cañas passará; não comemos os enchidos e o presunto porque os armadores não quiseream e eu não quis abrir aquilo só para mim mas o pão era excelente e marchou deliciosamente com a manteiga dos Açores.

Galopin também significa "miúda da rua".

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Pouco importa. J. apareceu, mas de raspão porque tinha de ir trabalhar e eu mudei-me para a Canasta onde daqui a pouco me vou encontrar com os armadores e onde agora bebo um copo de vinho tinto e penso na ecologia, na J., em St. Martin onde a conheci - ficou comigo a bordo do S. M., cada um no seu camarote sem excepções, note-se - e em como não sei como raio de carga de água vou deixar esta vida, parece-me que querer viver em terra é como querer andar atrás das miúdas que me deram tampas atrás de tampas. Ele é a terra e as miúdas, tampas e sonhos.

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Os domingos de manhã foram feitos para isto, não foram?

(Isto sendo trabalho, uma miúda cujos cabelos brancos fazem mais bonita do que quando os tinha só pretos, pretos retintos, vinho tinto - cf.missa, já lá alguém viu vinho branco? - e umas croquetas de salsichón de Málaga que a três euros e picos a meia dúzia deliciosa me fazem perguntar se um dia não terei de me mudar para Espanha e sim quando (a net de merda diz-me logo que não, obrigado, nunca).

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A dor no cotovelo direitio tem nome, desde Abril. Chama-se epicondilose e não me larga, a puta. As putas: são duas, uma ao lado da outra.

14.10.17

Diário de Bordos - No mar, a sul de Marbella e rumo a Málaga, 14-10-2017

Chama-se a isto "um tempo de senhoras": cinco nós de vento, mar chão e nós a caminho de Málaga porque amanhã vai entrar vento de proa e ninguém a bordo está com vontade. Paramos dois dias, se as previsões estiverem correctas. Espero que estejam. Gosto mais de Málaga do que a conheço e se a J. lá estiver terei uma boa guia.

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Não sei se é a idade, se o bom senso (não andam sempre juntos, ao contrário do que por aí se diz) se o que é: mas deixei de me importar com o motor. Há já algum tempo, não é de agora: gosto de estar no mar, seja à vela seja a motor (se bem prefira aquela, claro).

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A dez milhas de terra e tenho net. Qualquer dia estou a queixar-me de que a net é lenta.

Alegrias novas

Aqui o coitado do Don Vivo fica todo contente quando o escrevo do mar. 

História velha

A apanhar porrada para entrar no Estreito. Onde é que já ouvi isto?

13.10.17

O centro do mundo

Um gajo vai deitar-se e pergunta-se onde estão os centros do mundo que farão de uma noite vazia uma noite cheia como a Lua.

Serviço Público - Restaurantes em Barbate.

El Ancla del Galéon. Av. del Mar 98. Barbate.

É uma tasca e tem a melhor barriga de atum que comi em muitos anos.

Diário de Bordos - Barbate, Andaluzia, Espanha, 13-10-2017

Pode ser que o amor obnubile a memória;  ou a exacerbe. Vá saber-se. A verdade é que procurava um lugar onde estive com uma senhora que amava, faz agora alguns anos. Não encontrei.

Jantei com os armadores - um casal bastante mais simpático do que parecia às primeira e segunda vistas -; depois despachei-os para bordo e Ecco!

Encontrei o lugar. Não encontrei o então amor, claro. Esconde-se para lá da outra metade do mundo. Mas reencontrei-me, factor não despiciendo no meio deste turbilhão. Parece uma daquelas misturadoras de gelados mas com mil sabores diferentes.

Dois deles são clássicos: licor de hierbas e um cigarro comprado avulso. Vinte e cinco cêntimos cada; e a salsa nos altifalantes. Três. E estar ligeiramente grosso. Quatro.

Num turbilhão. Cinco.

Barbate é maior e mais feia do que a minha memória obnubilada ma representava. Antigamente chamava-se Barbate de Franco, mas deixou cair a segunda parte do nome. A marina continua vazia e com precos ridiculos de baixo.

O amor ou é obnubilador ou não é amor. É outra coisa qualquer.

Está calor. As pessoas que reclamam contra o aquecimento global não sabem viver. Isto é: não sabem nada.

Eu sei muitas coisas. Viver, por exemplo: basta calor, licor de hierbas, um cigarro avulso e a sombra de uma ameaça de um turbilhão. Tudo isto num molho de memórias e futuros breves, como são os meus.

Despachei os armadores e pensei que ficava sozinho. Não fico. Merda.

12.10.17

Diário de Bordos - No mar, Cabo de S. Vicente, 12-10-2017

Ora bolas. Não é com viagens assim que se conquistam donzelas. Nem uma baleia no esgoto do duche, golfinhos no convés, mastros a explodir, lemes a cair... Nada disso. Mar chão, vento ponteiro mas fraco como café americano... Nada que faça ressaltar a nossa coragem, sangue-frio, rapidez de raciocínio e por aí fora, nós outros tão fortes e bons e a natureza não colabora.

Antes assim: pelo menos telefones e computadores andam carregados. Não haverá histórias para contar mas podemos falar desta manhã tão bonita, S. Vicente a sair da bruma, a Pedra do Gigante de sentinela ao lado, o calor a querer furar o pouco que resta do frio da noite, que já foi pouco.

Perto do cabo o vento cresce um bocadinho. A ver o que faz depois. Se a previsão estiver correcta só lá para domingo teremos de parar, em Cartagena ou quase.

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Daqui a pouco deixamos de ver terra. Não estamos a mil milhas do porto mais próximo - os melhores lugares do planeta (desde que sejam no mar, claro) - mas com um pequenino esforço de imaginação podemos pensar que sim.

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Estar no mar é bom. O barco é pequeno e uma merda mas novo, o armador e a mulher muito mais agradáveis do que esperava. Há pouco vento e vamos a motor. É sempre assim: ou não há vento ou está contra... Escrevo isto e penso nos milhares de horas que passei com ventos bons, para ré do través. Foram muitas. Estou-me nas tintas para o motor. É da maneira que chego mais depressa à Palma da minha vida.

11.10.17

A fala do falo

Eu falo duro e ela manso? Não. Ela fá-lo duro e eu mansinho falo.

Terra no Paraíso

Vejo tantas vezes a expressão "Paraíso na Terra", aplicada a tantos lugares diferentes de todas as longitudes e latitudes que me pergunto se a Terra toda não será um paraíso.

É. 

10.10.17

Hoje, sempre

O mar que ontem foi e o que amanhã será são o mesmo: o mar tem esta estranha capacidade de negar ao tempo as distinções das aparências.

Como na mulher amada de amanhã vemos a de ontem : ambas são a de hoje.

A última chuva

Da chuva fininha a escorrer-te ao longo da pele e dos dedos que a perseguem.
Sossega. Há minutos que cheguem, vidas. Acalma. Apaga as chamas desse incêndio que do mar te sobe pela coluna, escorrega na pele, tropeça no tempo, num fio de luz a que trôpego chamas amanhã. Há mais noite do que vidas: a cada uma delas morres e de cada uma delas ressuscitas.

Até à última. 

Um dia

"Não há panela sem tampa", dizia o sapo à princesa. Coitada não sabia o que é um sapo: animal gordo careca e escorregadio, esverdeado e esbugalhado, encalhado e encanado (de onde a expressão "encanar a perna à rã" - as pessoas confundem sapos e rãs com a maior das facilidades).

O sapo perdera o Norte havia de ali meia dúzia de dias. Talvez semanas ou meses. Talvez anos. Não sabia. Ignorava mesmo se era sapo, rã ou um animal desconhecido criado por Deus depois de ter bebido uma quantidade indeterminada (isto é, elevada) de medronho.

"Refiro-me à qualidade da noite". Andam anjos por aí. "À alternância: a uma lua cheia sucede-se um quarto minguante e a este uma lua nova. Segue-se-lhe um quarto crescente. A Lua disse-me um dia ao ouvido "estou farta de saltar de quarto para quarto. Quero morrer nova". Falo na primeira pessoa. Pouco interessa: a maioria das pessoas que nunca lerão isto já terá imaginado: a Lua não sabe do que fala. E muito menos a quem. Por detrás da Lua esconde-se uma cratera. Dentro desta, outra lua. Cratera. Lua. A vida é assim feita de uma sucessão de luas e de crateras sobre a qual saltam rãs e sapos, príncipes e princesas, nomes em cascatas sem fim.

Não importa. Imaginemos uma noite e nessa noite uma pele; nessa pele uma voz; nessa voz um medo, uma confusão, um apelo,  uma timidez. A voz - cada uma delas - é um mundo. O sapo deixa-se escorregar à superfície desse mundo, que lhe entra pelos póros, dedos e desejo e esquecimento e alegria em riste. Cada mundo tem muitos dedos, muitas vozes, uma sede, um olhar que se bebe a si próprio.

"Não gosto de espelhos", diz o sapo. "Olha melhor", diz o Príncipe. "Sou cego". "Melhor. Abençoados os olhos que não vêem, os ouvidos que não ouvem, as bocas que não falam. Deles não sairá asneira, por eles não entrará pecado".

Imagina um corpo. Cala-te. Faz amor com o silêncio como se fosse o futuro: lembra-te de tudo o que um dia te vai acontecer e para o que ainda não tens palavras.

É tudo. Vozes de burro não chegam ao céu. Só o silêncio lá chega: o céu é um vasto corpo silencioso no qual uma lua se queixa e uma voz chora, nostálgica e meiga, o que um dia será. 

9.10.17

Sonhos duracell

Portugal é um país lento. Quem quiser sonhar aqui mais vale ter sonhos de longa duração. 

7.10.17

Da memória

É assim que por vezes às vezes penso em ti: tu por vezes em cima de mim eu às vezes em cima de ti.

5.10.17

Vida, velhice

A longa vida velhice breve.

1.10.17

Séculos de reflexão

Os portugueses têm tanto horror à mudança que nem para corrigir o que está notória e consensualmente errado o conseguem ultrapassar.

Fomos o último país da Europa a actualizar a lei das Rendas - todos tinham uma semelhante, depois da guerra e todos as actualizaram nos anos sessenta -; e agora fazemos o mesmo com o dia de reflexão e com mais alguns milhares de leis, regulamentos, burocracias e outras idiotices.

Diário de Bordos - Lisboa, 01-10-2017

Era um gajo surdo, tão surdo que a surdez se lhe via de longe.

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Uma das coisas boas de andar de bicicleta em Lisboa é que se fica imediatamente a saber que temos os melhores condutores de automóveis do mundo. Um ciclista faz uma daquelas microscópicas, inofensivas e irrelevantes infracções e logo a chusma dos automobilistas que nunca estacionaram em cima de um passeio, passaram com um sinal vermelho, viraram sem pisca-pisca e por aí fora apita e manifesta a sua indignação.

 (Forçoso é porém reconhecer que hoje um automobilista cruzou-me quando eu ia em contra-mão e parou para me deixar passar.)

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A maré baixa, baixa e o Verão prolonga-se. Antes assim. Maré vazia por maré vazia ao menos que seja no calor.

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A amizade faz aparecer o melhor que há em cada um de nós; a família dá ao pior um vasto campo de possibilidades de manifestar-se.

Pitigrilli, um autor que fez as delícias da minha adolescência escreveu numa das suas muitas e hoje justamente esquecidas obras "pior do que inimigos, eles eram irmãos". Percebia sem dúvida de irmãos, talvez por experiência directa; e de amigos, quanto mais não fosse a contrario.

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Ontem (na verdade ainda é hoje) fiz sessenta anos. Aquece-me pouco e arrefece-me menos: o jogo só acaba no fim. Até a linha ser cruzada a regata continua; a viagem não acaba até os cabos estarem passados, a máquina parada e à manobra ter sido dada volta.

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Breve entrevista com R., que vai animar um dos meus ateliers flutuantes. A graça existe; neste caso é dupla, interior e exterior.

Sorte a minha: tem aquele tipo de graça contagiosa, airosa (como em aérea), leve e transbordante. Acompanhou-me o que sobrava do dia.

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Avanço pelo tempo como um porta-aviões sem escolta: invencível e vulnerável. Fortaleza frágil, solitária no meio do deserto.

A imagem é mais bonita do que verdadeira, mas não muito.

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Estou cansado, esgotado, exausto como se os sessenta anos que levo tivessem decidido encavalitar-se-me aos ombros.

E na cabeça também, de resto. É em dias assim que lamento não ser capaz de dormir muito. Uns dez anos, por exemplo.

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Ao fim e ao cabo uma só palavra sobrevive. Ou melhor, flutua: hallelujah. E um sinal de pontuação: !