11.3.18

Diário de Bordos - Port d'Andratx, Mallorca, Baleares, Espanha, 11-03-2018

O bote não está propriamente como novo, já ali abaixo o disse. Hoje entrou badanal e fiquei contente por estar em terra. Isto apesar de o porto de Andratx não ser, sejamos modestos, o meu porto favorito em Mallorca; nem mesmo em Espanha, vá; nem sequer na Península Ibérica; e por aí fora - não é o meu porto favorito em lado nenhum. Mas já estive noutros iguais e em muitos muito piores. Andratx é um local de férias; os restaurantes são chic, os cafés estão cheios de ingleses barulhentos, bêbedos e amadores de futebol - quem continua a ler na Inglaterra uma parangona com civilização lá no meio engana-se redondamente -: é um país de hooligans, alguns com coragem para o ser visivelmente e outros a esconderem-se debaixo da fina capa dessa tal "civilização". Ontem entrei num café por causa da chuva e tive de me vir embora de seguida apesar dela: havia um jogo de futebol e um grupo de ingleses, combinação mortal s'il en est. No preciso momento a equipa  da qual eles gostavam meteu um golo (suponho; espero) e a gritaria foi tal que preferi a chuva.

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Vá lá que o tempo está assim assim: ora faz sol e calor ora badanal e frio. Não dá para um gajo se aborrecer ou lamentar não ter trazido roupa de Verão, pensava que era chegar e arrancar.

Não é. Uma das coisas boas deste trabalho é que pensar não serve para nada. A única coisa que tem valor operacional é ver.

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Saí de Lisboa com os problemas todos na mesma e agora passo os dias a receber anúncios de consultas. O nosso SNS funciona devagar, coitado; é como os autocarros: horas sem vir nenhum e depois vêm às dezenas. Reverti aos antigos remédios. As dores que se aguentem, as vertigens que esperem. A verdade é que tudo isto está muito melhor e não deve ser só por causa da química. Deve haver alguma acção mecânica do mar e do barco e de estar a fazer uma coisa para a qual às vezes penso que fui feito e outras temo ter sido feito.

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Os restaurantes de Andratx são uma seca; vou para o bar nocturno, que é para onde devia ter ido logo no princípio. Aposto que teria escrito menos disparates.

Chatices? Nem pensar. Desafios, quando muito

O bote tem alguns problemas no casco, no velame, na mastreação, no motor, na electrónica e em mais dois ou três pequenos pormenores como o sistema de combustível e o circuito de água doce (e mais alguns, não cito todos para a lista não ficar muito grande).

Ainda há quem pense que um barco é uma fonte de problemas e chatices.

Ética, maçadora ética

E depois há sempre aquele velhíssimo conflito entre uma coisa que de um determinado ponto de vista se deve fazer e eticamente não se deve e claro que a ética ganha mas não deixa por isso de ser uma grande por assim dizer maçada, quase uma seca.

10.3.18

(Aquecido no) micro-ondas

Comprei a 1843. Custa o mesmo do que dois copos de vinho, mas vale muito mais, é obrigatório reconhecer: o primeiro artigo que leio ensina-me que tenho várias coisas em comum com Einstein: a ideia de que se deve ir ao barbeiro por razões práticas e não estéticas (corto o cabelo ligeiramente menos do que duas vezes por ano), o uso de meias e a atitude geral em relação à roupa (um francês chamar-lhe-ia méprisante na pior das hipóteses; indifférente na melhor). Infelizmente é á única coisa que temos em comum, o Albert e eu. Mas deixemo-nos de merdas: é bom estar assim acompanhado num tema tão importante.

(Aeroporto de Madrid, recentemente).

Nunca mais a vi

- Would you marry a nomade? Would you marry a nomade? - Rita repetiu a pergunta mas não para mim. Tinha visivelmente bebido muito.
- Sim, claro - os nossos diálogos eram quase sempre bilíngues. - É uma sorte casar com uma nómada: quem não tem uma casa tem mil casas. E quanto mais tempo estivermos separados mais tempo o nosso casamento durará. Será um casamento escrito, mas não ridículo porque as nossas cartas não serão de amor, mas de vida.
- Cartas do amor quotidiano. Cartas do amor no quotidiano. Cartas quotidianas do amor.  Which one would you prefer?
- Prefiro: casa comigo, Rita.
- Não posso. Se casar contigo deixo de ser nómada.
- Disparate. Se deixares de o ser eu não caso contigo.
- Too much drink. Can't decide now.
- Amanhã vais-te embora.
- Então caso. Tratamos dos papéis quando eu voltar.

Bares

Gosto de bares rascas e nocturnos. Não sei se isto tem remédio mas espero que não. É a esses que a vida vai beber.

Óculos

Os meus óculos estão muito desfasados da realidade, mas eu não me importo. Antes pelo contrário.

Vejo melhor por todo o meu corpo onde eles não estão. 

Paixões

Vai para cima de sessenta anos apaixonei-me por um monstro chamado Vida e ainda não me desapaixonei.

Não há paixões racionais. 

9.3.18

Respeito

A melhor resposta a uma idiotice é outra idiotice. Simples questão de respeito.

8.3.18

Vida, ailleurs

O filme é antigo. Chama-se "La vie est ailleurs" no original pré-românico.

Godofredo vivia portanto a vida alhures. Faziam um par curioso: ele num sítio e a vida noutra. Às vezes enganavam-se mutuamente: ele com uma miúda em Palma ela com a mesma miúda na mesma cidade. Cruzavam-se no corpo da miúda mas não se viam.

Uma vez a mulher decomposta nas suas várias - e inconsequentes - partes regressavam ao seu lugar respectivo: Godofredo de um lado a vida do outro e observavam-se sem se ver, como boxeurs cegos.

Cor, categoria

Um conjunto de degraus, cada um um sonho: escada onírica. Se chegar à lua: escada selenita. Misturados dá uma escada onírico-selenita. Vista de fora é igualzinha à que nos leva ao bar Procópio em Lisboa: uma escada curta que desagua numa nascente de sonhos.

(As escadas onírico-selenitas são como a Lua circulares.)

Dito de outra forma: um selenita exilado sonha com Alexanders, simplesmente porque regressa de uma recente viagem à Lua. Têm em comum a cor, já que perguntam.

As categorias são diferentes, claro.

Receita

Uma das mais bonitas misturas que conheço é a do pensamento com o silêncio. 

Sonhar, tocar

Onde estou? Onde estás? Porque vieste interromper-me a sesta, tão profunda? Deves decerto ter saído do abismo; talvez num raio de luz, vá saber-se.

Sei apenas que dormia e de repente te vi luminosa e bela, sorridente e leve. Não sei onde foi, mas pouco importa. Espero apenas que o encontro se repita, um sono e um sorriso ficam bem juntos, abrir os olhos e ver-te, sonhar-te e tocar-te.

(Para a I. com um beijo).

7.3.18

Diário de Bordos - Aeroporto de Barajas, Madrid, Espanha, 07-03-2018

Dois aeroportos são os piores do mundo - cada um deles, individual e separadamente, de per se: Madrid e Miami -. E neles um passageiro é o pior do Universo: eu. Conseguem transformar-me num aprendiz de viajante, perdido na galáxia, enganado na vida. Hoje vim para o aeroporto uma hora mais cedo do que teria sido necessário. Uma hora de tortura, pior ainda por ter sido provocada pela tonteria aeroportuária madrilenha.

E eu corcunda de saber que se deve olhar atentamente para o cartão de embarque. E que por cada hora que passo neste aeroporto regrido mil viagens. E a pagar uma fortuna por uma merda de um vinho quando em Barajas (a vila, onde estava) ele custa metade do preço e é duas vezes melhor.

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Enfim, chega de queixas. Fui a Barajas (a vila). Aquilo está a dez minutos de Barajas (aeroporto) e parece que fica a mil quilómetros da cidade mais próxima. É uma viagem no tempo, até tem camadas como se fosse um campo arqueológico: vêem-se as ruas originais e depois os prédios modernos, construídos posteriormente, por causa dos aviões. Como lugar tem o mérito único, fácil mas não despiciendo de ser mil vezes melhor do que o aeroporto.

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Esperam-me uns dias em Palma. É difícil explicar o prazer que tenho em estar de novo envolvido com os problemas de barcos. A viagem para Lisboa vai ser uma seca, tudo indica (bastante molhada, por sinal), mas estou ansioso por voltar para o mar.

É verdade que gosto muito de Lisboa e do que lá faço, mas não sei. Deve haver uma vacina, mas nunca ninguém me falou nela - com a possível excepção da história do remo... (Um marinheiro quando se quer reformar põe um remo ao ombro e vai avançando terra dentro até alguém lhe perguntar "o que é isso que tens ao ombro?" É aí que pousa o saco.)

Creio que o antídoto se chama Mértola. Se não for, tem outro nome: onde-não-estou.

Ditirambos sentidos

Fui ao (ou à?) Bela ouvir o André Gago ler poesia. O tema da noite era a Lua; para um selenita no exílio difícil resistir. Ademais havia a perspectiva de boa companhia. Três em um: o André, a Lua e companhia bonita.

Tudo se confirmou. A companhia era bela, a poesia avassaladora e o André mais tudo do que sempre; ele é por vezes cabotino (não necessariamente um defeito: vejam-se Fabrice Lucchini e Daniel Day-Lewis, actores com estilos de representação opostos mas que hoje me vieram à mente); por vezes demasiado histriónico; por vezes falha o tom do poema. Mas é sempre bom, genial, como uma enxurrada que leva tudo pela frente e deixa a paisagem mais limpa uma vez limpos os escombros.

Amanhã vou para Palma buscar um bote lindo, irmão do Smeralda Prima (para quem conhece). Estou em modo largada e voei até à Lua a cavalo na poesia, na companhia, no Bela e na voz tridimensional do André.

Não exagero: ele transforma poemas em esculturas, coisas sólidas que se podem agarrar e sentir entre as mãos, ávidas mas serenas.

6.3.18

Torno, palavras

As frases devem ser bem torneadas a cada ponto final. Uma frase que não vai ao torno ou dele sai imperfeita é uma agressão. 

Do uso correcto das palavras - Boa noite

Boa noite é uma expressão que deve ser usada para resumir o que foi e para desejar um bom período de sono à pessoa que a partilha connosco.

Usá-la apenas numa das acepções é insuficiente. 

Variações e fuga

A hipnótica luz do fim do inverno ilumina estes dias chuvosos.

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Chove mas ela não se molha, protegida pela hipnótica luz da Primavera que aí vem.

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Hipnóticos dias se anunciam: até a luz é silenciosa.

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A avassaladora hipnose do fim da escuridão, tão próxima.

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Não é o teu corpo que me hipnotiza, é a luz que dele irradia.

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Uma infinita capacidade de se deixar hipnotizar pela vida, pelo amor, pelo abismo; porém consciente: saltava de uns para outros como um hipnotizado consciente do seu estado.

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(Tudo tem um fim menos o amor, a morte e o abismo.)

5.3.18

Tiranias

O amor e a palavra são as únicas tiranias aceitáveis. 

Galo

É a história de uma galinha míope que se apaixonava à primeira vista por todos os galos com quem se cruzava. Um dia enganou-se e atirou-se a um peru. 

Superfície

Superfície e o que lhe fica por baixo... Imaginamos sempre a superfície por cima - super: sobre -; mas poderíamos também dizer "o que lhe está por trás". A superfície uma parede, vertical.

Nada disso. Superfície e o que lhe fica ao lado. Ao lado: a superfície está ao lado do que é suposto cobrir, esconder, tapar. A superficie do amor fica ao lado do amor, que agora entrevejo e vai um dia envolver-me.

Toca-a: é a superfície mais profunda que terás tocado e está ali ao lado, só. 

Decifra-me

Assim ficou a noite: uma superfície lisa, sem uma ruga, na qual se vem espraiar a lua cheia. A palma de uma mão acaricia aquela superfície, sorve-a, aparecem uma rugas pequenas, invisíveis a olho nu. Só pelo tacto sabemos que ali estão. No topo dessa vasta superfície há um rosto bonito, um sorriso franco, aberto, convidativo. Diz à mão: se me decifrares sou tua. Se me decifrares ler-te-ei nos olhos o desejo, escancar-te-ei a porta dos segredos, derramar-te-ei da Lua a luz na pele.

Precisas apenas de me decifrar.

Diário de Bordos - Lisboa, 05-03-2018

Se tivesse juízo leria mais umas páginas do Calasso. "Zeus passou metade de uma noite de amor com Leda, deixando a outra metade para o marido, Tíndaro."

Mas não tenho. Acabo de ler um conto de Flaubert que me deixou completamente de lado, submerso, vencido (chama-se Un Coeur Simple, caso estejam interessados. É uma viagem extremamente concisa pelas diversas formas da maldade e da infelicidade e acaba com uma imagem de uma beleza avassaladora. Num conto do O'Henry que li há meia dúzia de séculos um arrombador de cofres lima as unhas para ter mais sensibilidade nos dedos. No Coeur Simple temos as unhas limadas desde para aí o segundo parágrafo e a cada linha os cortes aumentam, a cada linha a lima avança.

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Entretanto o inverno continua, as dores no cotovelo também - mas tudo mudou. "Un seul être vous manque et tout est dépeuplé ", escreveu Lamartine porque a sua amante o trocara por uma pneumonia fatal; un seul espoir apparaît et le monde se peuple, poderia escrever eu, se tivesse jeito. Não tenho. Mas quem tem, depois de ler aquilo? Ninguém e isso não os impediu de escrever.

Há até quem tenha menos jeito ainda do que eu e não páre de escrever.

Que inveja!...

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A malta anti-caça ou anti-tourada não percebe um facto simples: não se caça para matar; não se toureia para fazer sofrer o bicho (que de resto devia ser morto logo, como em Espanha). É o contrário: o animal morre porque se caça.

Estou numa espécie de caça em várias frentes; mas uma caçada que faz viver e não morrer. Não caço para viver; vivo porque há uma pista à minha frente e no fim dessa pista uma luz e no fim dessa luz uma esperança e no fim dessa esperança... Nada. A esperança não acaba.

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Conversas do jantar: Cláudia Sampaio, uma das minhas poetisas favoritas na nova poesia portuguesa  (a outra sendo Miguel Martins, já que perguntam); Tournier; Flaubert; a tradução e o trabalho do tradutor e porque são em Portugal as traduções tão más; Heinrich Böll; Werther; e o jantar ele mesmo, trutas à Minhota pela primeira vez feitas no forno em vez da habitual fritura. E outros. Fica uma indelével vontade de reler algumas páginas de Böll, beber uma cerveja (ou um Schnapps, dada a hora), ir a Berlim beber um copo à Literaturhaus.

E sobretudo de recuperar o tempo que perdi longe de tudo isto, dos meus livros, de algumas coisas de que tanto gosto. De escrever.

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O inverno continua, mas tudo mudou. Não é preciso ver muito longe para me aperceber disso. Basta-me ser capaz de ver para dentro, ver no escuro.

4.3.18

Vento, deserto

Era do vento do deserto que falávamos. Já estive no deserto. Em muitos, até: alguns figurados e um real.

Refiro-me ao vento, não aos desertos reais ou metafóricos. Conheço-o: crescemos juntos, eu a ver navios e ele a impulsioná-los. Sei-lhe as manhas, quando finge que vai cair e ao contrário leva tudo pela frente; quando diz que vai entrar Norte e vem de Leste, sabe que é para ali que vamos; ou quando não vem de todo e nos deixa parados à espera de um par de olhos, um par de mãos, tudo liso e sem uma ruga, o fumo do cigarro a subir na vertical e o olhar perdido na falta de uma aragem que seja.

"Embaciado", diz Raúl Brandão. Fremente, digo eu: da imobilidade fazer uma fremência, um tremor, uma palpitação imperceptível e esperar que o vento volte como tu voltarás, como tudo voltará.

Imperceptivelmente: grão de areia no deserto, dia sem vento, noite sem Lua, solidão sem fim, desejo sem braços, mãos sem ventre, seios sem olhares, adubo sem terra.

Voltarás, vento.

3.3.18

Hipocrisias

Hipocrisia é um substantivo que tem graus como um adjectivo. Quando é pouca chama-se Boa educação;  média, mantém o nome: Hipocrisia; vasta, passa a Cobardia. Só suporto e sou adepto da primeira. 

Maldita sorte

O cúmulo do azar é ter-se um bocadinho de sorte. Não se poder maldizer a vida porque a desgraça não é total: um pouco de sorte é um cárcere maior do que o pior de Piranesi.

Asneiras certas

Simulacro, ersatz, ilusão: palavras que desapareceram do léxico corrente. Vivemos dias de verdades absolutas; perderam-se as dúvidas e ficaram as asneiras.

Inevitavelmente, claro: nada é mais asneirento do que uma certeza.

Preferências

Prefiro mulheres inteligentes a mulheres bonitas; se puderem ser as duas coisas ao mesmo tempo melhor ainda. 

2.3.18

Flores

"Para não dizerem que não falei de flores", diz uma canção da minha juventude. Eu falo de flores; sempre falei. Escondidas ou visíveis, a cheirar bem ou sem cheiro, amarelas brancas encarnadas ou tudo isto misturado: eu falo de flores.

É mesmo a única coisa de que sei falar, apesar de não lhes saber os nomes (tão pouco é preciso estudar medicina para apreciar um seio que se ergue, um ventre que se oferta, um olhar que agradece).

As minhas flores têm nome de mulher. Umas vivem ao sol outras à sombra, umas esperam que eu as colha outras que não; umas querem sentir-me a mão outras ver-me as costas, desanimadas curvadas vencidas.

As minhas flores têm corpos de mulher e é delas que falo, nelas que penso, por elas respiro. Sem elas não passaria de um canteiro de terra seca e fria, amarela a cair para o ocre infértil.

Com as minhas flores farei um dia uma coroa e com ela coroarei uma deusa, a que me espera.

Cinco, o drama

Tudo começou com duas coisas muito próximas: a ausência de adjetivos numa frase - os adjectivos são os novos proscritos - e o amor do vinho pela ânfora que o recebe.

Quanto aos adjectivos é fácil: basta deixá-los no armazém, não os ir buscar a menos que eles implorem, chorem, ameacem matar-se ou, claro, diluir-se no vinho.

Vinho esse que está em ânforas - esguias e pontiagudas, elegantes e generosas mas anacrónicas -. O problema do vinho e das ânforas é de tempo, como se sabe: o vinho chega e aconchega-se no confortável seio da anfitriã, que o recebe por assim dizer de braços e boca abertos (para não dizer escancarados, seria deselegante) mas não pensa senão em sair dali e ir para o muito mais inóspito sistema digestivo de um gajo qualquer.

Uma história de amor a cair para o drama quase tragédia, como a que agora se abateu sobre os adjectivos, coitados. Eram tão úteis.

Já a nossa tragédia - ou dela faremos antes um drama? - tem três personagens, quatro se incluirmos o tempo: o amor, o vinho, a ânfora, os adjectivos e o tempo. Cinco.

1.3.18

Vida, vidas

Quando estava ainda a Índia por descobrir eu era feliz. Já para lutar contra os mouros faltaram-me fé e energia. Fui feliz quando apareceram os primeiros hélices por baixo dos navios e triste quando, por cima deles, desapareceram as velas. Exultei com um alemão que inventou (ou trouxe para a Europa) uma forma barata de fazer livros, mas o entusiasmo esmoreceu quando a Santa Sé fez um Index e nos proibiu de ler o que quiséssemos. Creio vagamente lembrar-me de ter ido nas naus do Fernão à volta do mundo mas só  cheguei às Filipinas em 1977. Morri na Batalha do Lys e desembarquei na Normandia. Estive na China com Marco Polo e no Japão com Fernão Mendes Pinto. Dei a volta ao mundo com Joshua Slocum e voei com a Amelia Earhart.

Uma vida não são vidas, é a vida toda.

27.2.18

Duas dispersas / duas giras

Era um mau bêbedo: recebeu dinheiro e em vez de comprar vinho comprou remédios.

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Há mais amor no meu "gosto de ti" do que muitos "amo-te" contêm "gosto de ti".

História triste e incompleta

Romualdo mantinha-se de pé. Estava exausto mas acreditava que se se deixasse cair ainda se cansaria mais. Escolhia entre dois cansaços como um funâmbulo escolhe o lado da corda para o qual quer cair.

"Prefiro cair estando de pé a cair estando caído" justificava-se enquanto espadeirava com os elfos. Eram muitos e ao contrário do que deviam, grandes. Renata, a mulher ria-se a bandeiras despregadas enquanto o via na televisão. Alugara um anão para a noite, com instruções precisas para lhe fuçangar entre as coxas, um palmo acima dos joelhos no limite inferior e o limite dos pelos púbicos no superior. O anão sabia que se extrapolasse dali Renata lhe cortaria a cabeça. Não era pessoa de faltar ao que dizia, apesar de dizer muitas coisas, sobretudo nos dias de sol.

A verdadeira razão destes limites estrictos, contudo, era mais prosaica: é que na região pélvica não corria o risco de se enamorar. Isto é: tinha prazer sem amor, coisa que mais acima ou mais abaixo era difícil de manter. Romualdo, por exemplo, seduzira-a com uma hábil mistura de mordiscar-lhe os dedos dos pés enquanto lhe acariciava a parte traseira dos joelhos.

Já Ricardo, por quem estava apaixonada quando Romualdo regressava das batalhas - Renata alternava os amores como a Lua as fases: estava sempre voltada para o mesmo lado mas variava o que deixava ver - tinha-lhe acicatado os desejo e os afectos falando-lhe aos ouvidos com a língua.

(Demasiado complicado para escrever mas quem já experimentou a técnica sabe o que quero dizer: sussurrar-lhes palavras bonitas enquanto se lhes passeia a língua pelos pavilhões auriculares. Uma excitação polissensorial multi-nível, por assim dizer.)

Enquanto o anão lhe escarafunchava a vagina, de telecomando na mão Renata via Romualdo bater-se com elfos gigantes. "Só este idiota seria capaz de encontrar elfos gigantes" pensava com carinho e ternura. Mas deve ter pensado em voz alta porque o anão zangou-se e mordeu-a. Pensou que ela o estava a gozar porque os elfos são anões, como toda a gente sabe (com a plausível excepção do marido).

Romualdo era uma anacronia ambulante, um D. Quixote que se dava ao trabalho de fazer moinhos verdadeiros antes de os combater e obrigou Sancho a uma dieta paleo. Rocinante é um puro-sangue lusitano que gosta de floreados e abomina galopar, não vá chegar a tempo a qualquer lugar. Nunca é montado para não se cansar. Se os sindicatos dos puro-sangues lusitanos sabem que os seus membros trabalharam um minuto que seja entram em greve indefinida.

Renata chamou um escudeiro e mandou-o degolar o anão: detesta que lhe mordam o clitóris, seja qual for a razão. Uma vez o serviço feito disse ao escudeiro que continuasse mas que tivesse cuidado com os dentes.

O escudeiro respondeu "sim, senhora"; mas a verdade é que se devem ter distraído os dois, a Renata e o servidor porque entretanto o programa dos elfos gigantes acabou, Romualdo voltou para casa, viu a mulher a ser lambida por um gajo de quem só via as costas e o rabo e chateou-se, claro.

Enfiou-lhe uma espada pelo ânus acima e começou a tratá-lo por "Escudeiro cu dado". "Cu dado, anda cá depressa", gritava, sabendo perfeitamente que ao homem custava andar com a espada enfiada no rabo.

É assim que a história acaba: uma mulher infiel mas lambida e em vida, um anão morto por se ter enganado a fazer o que devia - e para que tinha sido pago, acrescente-se em defesa da senhora - um escudeiro cu dado, um cavalo descansado e um amante amado do qual nada sabemos se não o nome.

26.2.18

Memorandum

"Os seres que falam sabem que possuem, em certos momentos, beleza ou força ou graça divina, mas que lhes faltará sempre qualquer coisa: a profundidade inextinguível como o "riso inextinguível" dos Olímpicos quando vêem Hefesto coxear pela sala do seu banquete, a capacidade de "viver facilmente", que pertence apenas às figuras que sabem que viverão para sempre".

Calasso, As Núpcias...

Decisão

Não quero morrer, por isso vou viver.

SNS

Talvez um bom critério de aferição do SNS (admitidamente com uma amostra reduzida) seja pegar nas coisas que me fizeram decidir ficar em Portugal vai para cinco meses e ver como estão hoje.

Das três maleitas que tinha a precisar de reparação uma está controlada e duas estão como estavam há cinco meses: à espera de consultas decisivas.

Posso estar enganado, mas não me parece uma réussite por aí fora.

Jantar improvisado - Magret de canard fumé em coulis de tomate

Comecei por fazer um coulis de tomate em óleo de linho, com échalotes e vinho tinto, tomilho e meio frasco de pimenta verde fresca, um bocado de concentrado de tomate, pimenta preta, uma boa colher de açúcar não vá a diabetologista começar a sonhar com ladrões; e nesse coulis pus o magret fumado cortado às fatias finas mais a aquecer que outra coisa.

Paralelamente no bico ao lado fiz um puré de batata vulgaris Lineu (mas com duas gemas de ovos, gostei da sugestão da J. no outro dia; e deixei as cascas das batatas; e com natas em vez de leite, os ossos do Lineu devem estar ao saltos) e quando estava pronto pus um bom molho de caldo verde lá dentro e deixei cozer cinco minutos e parece que estava tudo bom, até o puré porque lhe arrefinfei bem com a noz moscada, mas prefiro com leite e vou repensar as gemas.

Acompanhei com um chutney já não sei de quê mas que acompanhava bem e com um tintol assim assim. Com um tinto levezinho tipo Chianti e um flambé de whisky ou de rum naquela pimenta verde teria ficado melhor, suponho.

Mas lá que magret fumado é bom é.

25.2.18

À rola do mar

Marinheiro sem eira nem beira é pleonasmo e rima pobre, pecado a dobrar. Não há casa que queira pecados destes, lastro duplo, adornados até às portas de mar, retrancas a roçar as cristas e vergas desvairadas, de antes desarvorar que rizar, pistola na mão "dou um tiro ao primeiro filho da puta que tocar numa escota".

Se morressem morriam pobres, os marinheiros. Pobres e podres, que o sal conserva mas mal: Seca e Meca percorridas o que lhes fica nas entranhas é a liberdade, que da merda livram-se toda e a liberdade corrói, a liberdade é uma prisão da qual só morto escapas e como não morres nem assim de pés para diante dela sairás.

Os marinheiros não morrem: transformam-se em vagas que um dia nas praias desfalecem, montadas por putos em pranchas de surf, a olhar-lhes para as miúdas que os esperam nas areias e a pensar nos albatrozes que viram ao largo do Boa Esperança ou do Horn, nos bordéis onde foram fodidos como putos num ginásio de Atenas, eles que durante um milésimo de segundo pensaram ser eles os seres, nem vivos nem mortos, reis do mar do vento e dos corpos, dos ventres.

Os marinheiros não morrem: entregam-se um dia em que a pistola do capitão não tenha balas e mais valha folgar do que andar à rola do mar.

Optimismo, palermice

Hoje morreu um amigo meu. Não o via há bastantes anos, mas foi durante muito tempo um amigo pilar importante do meu círculo próximo. Há dois dias a uma amiga a quem quero para lá de muito foi diagnosticado uma "doença do foro oncológico", que é como se diz filha da putice em eduquês. Ontem arrumei o meu bloco-notas encarnado, apesar de ainda ter páginas brancas. Resolvi começar um outro, mais bonito, oferecido na Sardenha por uma senhora com quem me enganei uns dias, felizmente poucos; uma outra com quem nunca me enganei disse-me que gosta mais de mim quando me rio de mim próprio do que quando me queixo. Eu também, claro. Não gosto de queixar-me, nem a mim quanto mais a um estúpido de um blogue cuja única qualidade é aturar-me os altos e os baixos há mais de catorze anos.

Tudo indica que vou finalmente ter um barco para gerir; as vertigens não me chateiam há quase pouco menos de uma semana; a constipação barra gripe barra merda passou; sobretudo, não perdi a teimosia. No meio deste campo de minas das quais algumas se desarmaram continuo o teimoso optimista que sempre fui.

É irritante tanta teimosia, patética, odiosa nos dias piores e insuportável nos melhores. Um optimista que não desiste não passa de um pessimista que conhece cada monstro de cada esquina e resolveu ir pelo caminho mais longo na vã esperança de os apanhar pelas costas. Vã é a palavra-chave. Vanitas. Cuidado: a arrogância ou se faz pagar muito bem ou se paga muito caro.

........
Não escrevo este post para mim: escrevo-o para a P., em Guimarães; para o filho do L. M., para o campo devastado no qual um palerma insiste em ver um raio de luz, para o Hemingway, que escreveu a agora epígrafe, frase lapidar sobre a derrota e a destruição de um homem - homem esse que de repente deixa de ser palerma.

24.2.18

Primeira vista

Leio - provavelmente pela primeira vez - a palavra "pressaga". No contexto é impossível não lhe compreender o significado a partir das componentes, mas vou ao dicionário  confirmá-lo: há palavras, como mulheres, por quem o amor à primeira vista não admite erros à primeira vista.

Ajuda

"Este é apenas o primeiro degrau da vida do herói. É o degrau em que ele se bate com os outros homens. Mas há um degrau superior, um lugar mais vasto a conquistar: a região onde se encontram, e se chocam, os deuses e os homens. Aí nem sequer a união entre a força e a inteligência é suficiente. Estamos de novo num reino da força, mas desta feita de força divina. Para ascender a esse reino o herói é impotente, se está só,  se conta apenas com as suas próprias forças. Necessita da ajuda de uma mulher."

Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, ed. Cotovia.

Visões - a pradaria

Era uma pradaria como aquelas que se viam no Bonanza e no Rintintim e se calhar até na Lassie quando se era garoto.

Vinha a pé, aproximava-me de um grupo de cães selvagens que despedaçavam ferozmente uma presa. Estavam demasiado entretidos para me dar atenção. Ouvia-lhes de longe os ruídos das mandíbulas, os ossos da vítima que se separavam, quebravam, embatiam uns nos outros, os rosnados de ameaço que se enviavam mútua e quase mecanicamente.

Era o vento que me trazia o barulho; a matilha não me podia cheirar e nenhum deles levantava sequer a cabeça; a presa era demasiado apetecível, decerto. Ao longe viam-se os cumes de uma cadeia montanhosa, mas até lá tudo era plano. Estávamos em plena Primavera: as flores ondulavam como nos poemas dos Românticos, coitadas.

O meu sentido de olfacto é fraco: só quando estava muito perto do grupo comecei a cheirar o sangue e o pestilento odor da morte chegou a mim. Tentava lembrar-me do que me levara ali. Recordava vagamente uma discussão familiar cujos termos e facções me escapavam, um automóvel que parou para me recolher, um silêncio obstinado face às perguntas do condutor. Quando ele parou num cruzamento saí de carro num repente, inopidamente, sem querer; o homem não esperou por mim nem me procurou. Foi-se embora. Até aqui isto é tudo o que recordo.

Não sei há quanto tempo marcho na pradaria coberta de flores nem quando me começou a chegar o alegre ruído de uma dezena de mandíbulas que se repastavam numa animada refeição familiar (ou clânica, não percebo nada de cães selvagens).

O quadro é bonito, rústico, quando visto de longe: uma adolescente de vestido às flores pelos joelhos avança num campo coberto de flores que lhe chegam aos joelhos. Da distância vêm ruídos de ossos e ameaças animais, mas pouco se distingue à vista se não uma massa semelhante ao dorso de uma tartaruga que se anima, as escamas a levantarem-se e a baixarem-se como o mar de plástico no filme do Fellini.

Só quando estava muito perto, já quase em cima da borda exterior do círculo de caudas e patas traseiras vi que a presa era eu. Sou eu.

Raças

"A mais louca raça entre os homens
É a que despreza o que há à sua volta e volve o seu olhar para mais longe,
Com vãs esperanças buscando o inconsistente".

(Píndaro, citado por Roberto Calasso in "As Núpcias de Cadmo e Harmonia", ed. Cotovia, Lisboa 1990, trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo.)

23.2.18

O verbo e a verba, nova versão

"Quem não tem dinheiro não tem palavra", diz o adágio de que mais abomino a justeza, a abjecção, a inescapabilidade.

"Quem não tem dinheiro não tem nada", por exemplo, seria mais abrangente e mais verdadeiro, mas perderia na comparação: pode não parecer mas palavra vale mais do que tudo.

S/título

Poder-se-ia razoavelmente pensar que se num terreno devastado por toda a espécie de desastres caísse uma bomba atómica não se veriam sinais disso. O terreno já está uma pilha de lixo, buracos de chuva, árvores caídas por causa dos ventos ciclónicos, pragas de ratos, deslocações de terras, inundações, desastres de comboios, carros e aviões, maremotos uns a seguir aos outros.

Como a este quadro acrescentar os danos de uma bomba? Ainda há algo que se possa danificar?

Não sei. Há. 

22.2.18

Bis repetitiæ, fere

O futuro é brilhante. A dificuldade é chegar a ele antes de morrer.

21.2.18

Dor, Quaresma

Ainda bem que a dor não é visível. Se fosse andaríamos vestidos de roxo, todos os dias seriam Quarta-feira de Cinzas e a vida não passaria de uma interminável Quaresma, uma Quaresma sem Páscoa à vista.

Claire, ou Claude

Chamava-se Claude, ou Claire, não me lembro. Era uma mulher alta, loira, magra, bonita e para mim incompreensivelmente triste.

Tinha acabado de chegar de Gibraltar, encontrámo-nos num dos bares da marina e um pouco de chofre perguntou-me se me importava que fosse dormir a bordo do barco onde eu estava. Tinha-se zangado com o namorado, etc. A história é conhecida. Depois dizem-te que por favor não lhes faças nada, não lhes toques, é mesmo só para dormir, tu percebes, percebes?, e tu percebes, claro: se fosse para foder não precisaria de te pedir, bastar-lhe-ia pôr a mão na coxa enquanto fala contigo e daí passá-la pelo cabelo, há por ali um código qualquer que até um cego como eu percebe, mas quando te pedem para dormir já sabes que nessa noite vais ter népias, o melhor é carregares já no rum para ver se adormeces antes de os demónos te atazanarem e logo esta, tão bonita e tão frágil, agora percebes porque estava triste.

Disse-lhe que sim, tinha dois camarotes vagos e estava sozinho a bordo, o armador autorizava-me companhia "desde que seja bonita e não a tenhas apanhado na rua" (mas isto não lhe disse) de maneira fomos jantar ao Star System - é muito bom e barato e Claire ou Claude tinha insistido para ser ela a pagar -, quando chegámos a bordo ela despiu-se no salão e perguntou-me "Vamos tomar um duche? Os brasileiros dizem que é o melhor afrodisíaco mas eu acho que é o único" e foi aí, juro, que lhe olhei para as mamas a primeira vez e vi-as como se fossem as primeiras da vida toda, como se nunca tivesse visto uma mulher nua à minha frente.

Foi na casa de banho que fizemos amor, antes de o fazer no camarote, ainda todos molhados, na casa de banho sentados na retrete, tampo fechado, ela de costas para mim dizia-me "por favor não te venhas já" e repetia "por favor não..." e eu não me vinha, de qualquer forma já devem ter reparado: um gajo só se vem quando está farto do que está a fazer, até se fartar vai aguentando, isso de fazer durar para lhes dar gozo parece-me treta, não sei, não percebo nada, só sei que estava a gostar muito e não queria acabar por nada deste mundo e quando fomos para o camarote continuámos até ela me dizer "não aguento mais" e aí sim, vim-me e fomos dormir, ela no camarote de bombordo e eu no de estibordo, fico sempre a estibordo e a von Hildebrand lá ficou a cantar até me levantar para acabar com aquilo.

Quando acordei Claire ou Claude já lá não estava. Fui ao café, o Rui deu-me um bilhete dela a dizer-me "não te posso dar o que tu procuras" e eu não percebi nada, nunca percebo nada, seja como for.

Como é que ela sabe o que eu procuro?

Não procuro nada. Voltei para bordo, pus a Jeanne Lee e desatei a chorar, pela primeira vez em muito tempo.

19.2.18

Arrogância, modéstia

A linha que separa a modéstia da arrogância é finíssima mas extremamente resistente: sobrevive a tudo.

18.2.18

O pouco e o infinito

Chegámos tarde um ao outro; não seremos o princípio da história. Apanhámo-la já ela corria há muito tempo, tinha tido episódios, intervalos, fitas partidas, saídas a meio e entradas intempestivas. Só nos resta sentarmo-nos um ao lado do outro e fazer o que falta - pouco, felizmente -.

A menos, claro, que desse pouco façamos o infinito. 

Opções e impossíveis

Os gregos transferiram para os seus deuses o encargo de fazer tudo o que eles (gregos) queriam fazer e não podiam: violações, incestos, amores desbragados, raptos e trinta por uma linha.

Os católicos optaram por ter santos, anjos, mártires e virgens.

Ou seja: tanto os deuses gregos como os santos cristãos fazem o que para a humanidade é impossível.

Mas se tivesse de escolher preferiria a abordagem grega: antes o impossível decalcado da vida do que a sua negação.

17.2.18

Partes e outros

Algumas partes do meu corpo não me parecem minhas. É como se precisassem de ser tocadas para as sentir parte de mim. Quem fala nos outros como se não fôssemos nós não percebeu nada.

16.2.18

Diário de Bordos - Lisboa,16-02-2018

É preciso dar graças: os males sucedem-se mas não se acumulam. Veio uma espécie de gripe mais a cair para a constipação e foram-se - empurradas, aposto - as vertigens. Ora imaginem se em vez de se empurrarem se acomodavam umas às outras... Seria eu um albergue espanhol para vírus, batérias e quejandos; e quem me recebe uma espécie de agência de viagens. Antes assim, tipo comboio: amarradinhas mas seguindo-se. O meu sistema imunitário anda por baixo, é verdade: mais sensível do que eu (está longe de ser difícil) reage pior aos estímulos que de fora lhe chegam. Às más vibrações, por assim dizer, se fosse hippie ou new age e acreditasse nisso das vibrações que são simultaneamente particulas e enviamos uns aos outros, etc.

Não acredito em nada disso. Acredito em mim - este "mim" inclui o sistema imunitário, que hoje reforço com doses extra de whisky -. Para isso servia o rum dos antigos marinheiros: reforçar as fraquezas, como numa muralha os operários se despacham a pôr os tijolos que faltam. Les briques manquantes, diria em francês. E ainda há quem se admire de o francês ser uma ,língua elegante.

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Não percebo nada disto. Oiço um disco de Amélia Muge com um grego e o disco é soberbo.

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E dói-me a cabeça, mas isso tem a ver om a gripe, não é grave, meia dúzia de analgésicos e resolve-se a questão, mais meio litro de whisky mais cama mais o raio que parta esta porra toda.

Não há raio que parta esta merda toda. Ou sou eu ou não é ninguém, nem Zeus.

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As Núpcias de Cadmo e Harmonia é o melhor livro que li nos últimos duzentos ou trezentos anos, com algumas breves excepções. Penso nele enquanto a dor de cabeça aperta as mãos ao Paracetemol e ao whisky, com a música da Muge em fundo. A mulher canta como um deus vive: com a ligeireza e profundidade de quem sabe que conseguirá lidar com seja o que gor que aí venha.

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Já eu vivo como um deus canta: indiferente a quem me ouve. Não é tão bom, mas é o que há.

15.2.18

Poesia de hoje

Fui ao Irreal ouvir Cláudia Sampaio ler o seu "Primeira urina da manhã". O livro é esplêndido. Cláudia leva quase à letra o que eu me recomendo: é preciso escrever com sangue.

Ela vive-o e escreve-o como o vive. Oscila entre a beleza de algumas imagens e a crueza de outras. A Cláudia e Miguel Martins são de longe os meus jovens poetas favoritos. E têm a vantagem não despicienda de mostrar que a poesia portuguesa de amanhã não vai estar amarrada ao surrealismo vigente.

Instruções

Il faut porter ses défauts comme un modèle porte des habits: avec désinvolture.

Inominável

Inominável é uma palavra que devia ser mais utilizada. Sub-aproveitada, por assim dizer. Beckett usou-a como título, mas lá está: era um génio.

Inominável é vasto: quase tudo é inominável, contrariamente ao que parece ou pensamos. Esta dor de cabeça, por exemplo: muito mais do que a cabeça dói-me tudo, o dia, a semana, o inverno, a esperança. Tudo.  Chamar dor de cabeça a isto não passa se uma simples ilusão, um comodismo, um facilitismo.

Inominável seria mais adequado. Não lhe dar de todo nome. Não me referir a ela, não para lhe esconder a existência mas porque é demasiado vasta para ser sequer perceptível, distinguível de tudo o que a rodeia.

Poderíamos viver num mundo de coisas sem nome? Ó pobre sombra ridícula, tu já vives num mundo de coisas inomináveis. Só não te apercebes disso porque alguém lhes deu um nome há alguns anos e tu habituaste-te a usá-lo, sem te aperceberes de que por baixo desse nome jaz um vastíssimo território de nada, de coisa nenhuma, um deserto inominável.

Vadeamos por aqui como uma criança pré-linguagem, mas como falamos e escrevemos e lemos não nos apercebemos do engano.

Inominável.

Madalena

Madalena era simultaneamente impulsiva e calculadora. Não ao mesmo tempo, claro: não saberia dissimular a que não estava a uso porque era uma pessoa fundamentalmente honesta consigo própria e com os outros. Mas a mistura - ou alternância - de um racionalismo frio, calculador, que pesava os prós e contras do menor gesto com uma explosão de sentimentos inesperada era difícil de gerir, tanto por ela como por mim.

Um dia enganou-se numa reserva de bilhetes de avião e acabámos por viajar em voos diferentes. Não foi engano, foi um impulso. Pouco tempo depois deixava-me, com grandes manifestações de pesar. Não eram impulsos, eram calculadas. Escrevia magnificamente e cantava melhor. Ou ao contrário, nunca percebi. Zangava-se muitas vezes comigo porque lhe dizia que devia cantar mais, profissionalmente.

Madalena foi o meu principal, maior, mais doloroso falhanço amoroso. Estou-lhe muito grato por isso: traçou uma linha que sei agora não devo pisar, sob risco de pesadas sanções. Felizmente há poucas mulheres como ela e o risco de tropeçar numa é nulo.

Só não percebo porque me obstino a procurar.

14.2.18

Sofrer e fazer sofrer

O presente é uma fraude fugaz e não penso muito nele. Mas penso em certas coisas do futuro e noutras do passado e apercebo-me de que em mim uma coisa não mudará nunca: prefiro sofrer a fazer sofrer.

Atitude que de resto me sai cara.

Meças, por pouco

Não tenho a mais pequena dúvida de que se cantassem em inglês Chico, Caetano e Simone pediriam meças aos Beatles.

No que me diz respeito ganham-nas claramente. Agora basta ensinar português a alguns biliões de pessoas.

Diário de Bordos - Lisboa, 14-02-2018

Ontem - ou terá sido anteontem? Isto passa tão depressa... - fui ao Irreal e pela primeira vez lá ouvi música medíocre; enfim, a música até era boa ou pelo menos assim-assim.  Terrível foram os textos das canções. Infantis, primários, desinteressantes, déjà entendu mil vezes. As melodias safavam-se. A flauta era um bocadinho pedante, mas quando o homem a trocava pelo sax a coisa ia.

O guitarrista e chefe da banda cultivava uma imagem à la Tom Waits. Fez-me lembrar o Chico António, que ouvi muitas vezes em Maputo e acentuava o seu lado Miles Davis. Apesar de tudo o Chico António era melhor do que este, além de que gosto mais de jazz do que de canção.

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Voltei a irritar-me com a senhora que agora gere aquilo. Infelizmente foi pouco, não ando com paciência para exorbitar sentimentos, sejam eles bons ou maus. E esta ainda por cima mal a conheço, não sei se é só um bocadinho parva se completamente idiota. Irritou-me ela ter transferido para a M., com quem eu estava, o mau-humor que normalmente é para mim. Há coisas que não gosto de partilhar.

A M. levou aquilo na boa, ontem encontrei um músico da Martinique (excelente. Toca lá todas as terças. Desta não cheguei a tempo, estive a apanhar uma seca de fado) e pronto, a irritação diluiu-se - apesar de ela ter tentado chatear-me outra vez e de novo falhado. [É para estas ocasiões que o verbo desconseguir foi inventado...]

Só espero é que isto não passe muito deste nível de desgosto mútuo porque a música é boa e o bar excelente. Adoro aquele lugar e não quero ter de deixar de lá ir por causa de uma bifa que ainda por cima anda de boné à Andy Capp, um dos meus heróis.

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Acho que me estou a repetir. Paciência. Como disse um dia Nuno Júdice "a repetição é um recurso do estilo". Ou coisa que o valha, cito de memória. Os meus livros ainda estão encafuados cada vez mais longe de mim, filhos da mãe. Para não dizer filhos da puta, expressão que tinha reservada para o meu pâncreas, até me lembrar que chamar filho da puta a um orgão nosso é como chamar a um irmão: por mais que o mereçam é chato para a senhora que os fez. Enfim, quero que o pâncreas se foda e para o provar acabo de comer uma tablette inteira de chocolate, coisa que já não fazia vai para muito tempo. Isto de matar o frio com vinho e café tem limites e a repetição tira bastante eficácia ao remédio.

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Só me apetece ir para a cama ler, mas o sacana do frio até isso torna difícil, não consigo ler com os dois braços debaixo do cobertor e o que está por fora enregela-se e me em menos de dois parágrafos. Tenho meia dúzia de livros à espera da clemência do tempo, mas hoje trouxe mais um do Institut Français, ando para o ler há demasiado tempo. Chama-se L'hiver à Lisbonne e é a tradução francesa (quem diria?) de El invierno en Lisboa, do Muñoz Molina. Se pudesse enchia uma banheira de whisky e metia-me lá dentro com uma tonelada de livros (estes ao lado, claro) e só saía quando o whisky tivesse acabado e estivesse cheio de frio outra vez.

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Reflexões profundas sobre a escrita: se leio merda tenho medo de fazer a mesma coisa; se leio uma coisa sublime sei que nunca conseguirei chegar àquele nível. Em ambos os casos o resultado é o mesmo.

(Não é totalmente verdade, mas é como se fosse. Comecei este blog porque li tantos tão merdosos que pensei "de qualquer forma pior do que isto o meu não será". Vão catorze anos e des poussières. Não tarda está um homenzinho).

O fado e a indecisão

A capacidade de indecisão dos portugueses só tem igual na sua incapacidade de decisão.

Não decidem: são decididos - pela "vida", esse fantasma omnipresente no cosmos português -.

T. S. Eliot dizia que havia uma terceira pessoa no seu casal. Em Portugal essa terceira pessoa é "a vida": somos permanentemente encornados pela "vida" e cantamos o fado para fingir que não sabíamos. 

Sentimentos, simetrias

Deve ser-se tão selectivos no ódio como no amor. São simétricos. Alguém que odiamos deve esforçar-se por merecer o nosso ódio. Da rapariga que trabalha no I. não sei sequer se é parva, quanto mais odiosa. Sei que não me grama, no que é perfeitamente correspondida. Vá lá, ao menos isso. Daí a ser odiosa vai um passo gigante e que do meu lado requer mais paciência do que a que agora tenho. Talvez mais tarde.

Isto dito, Andy Capp é uma das minhas personagens de BD favoritas e qualquer pessoa que se lhe assemelhe ou use acessórios próximos dos dele merece a minha simpatia.

Ninguém é imperfeito. Enfim, totalmente imperfeito.

(Curiosa, esta assimetria da imperfeição. Ninguém é perfeito, todos somos imperfeitos. Mas deve haver graus, não?

A perfeição não os tem, é digital. Já o seu oposto é analógico.
)

13.2.18

Medos

Breve troca com FPA sobre os vinis / CD.

As pessoas tem medo do futuro,  digo-lhe.

Não é só isso. As pessoas até do presente têm medo.

O vale de Cronos

O vale para o qual se resvala é o mesmo do qual se resvalou para o mundo.

Caveat emptor

Não menosprezar a superfície das coisas: seria como desprezar a pele de uma mulher.

Precauções: camisa-de-vénus para a pieguice; anti-obscuriótico a cada duas linhas; não vacilar nas doses de clareza ao menor sintoma de hermetismo. Mudez anti-verborreica; as aliterações são permitidas se forem premeditadas.

(Aliterações = metonímias, litotes, eufemismos e gama completa de etc.)

Exemplo: Zeus numa banheira cheia de água tépida. Uma mulher nua - pode ser a Europa das Núpcias de Cadmo e Harmonia - entra na banheira.

Zeus dá-lhe lugar: afasta as pernas, penetra-a - tem a erecção rápida -. A mulher tem um orgasmo, agradece a Zeus e sai da banheira.

Zeus adormece e afoga-se (por exemplo). A reter: mulher nua entra na banheira: palavras nuas, possuídas gozaram: não se sabe quem gozou quem. Zeus morreu afogado.

Doença, palavras

O melhor aliado da escrita é a doença.

(J.: "escrever é uma aberração anti-natural").

A morte é o melhor aliado da literatura.

Mas nada de homeopatias. Doses de cavalo. Doença como o ataque de um regimento de cavalaria chefiado por um gentleman encharcado em ópio.

Sinusoidal: morte doença e escrita ao longo de uma sinusóide cuja ordenada é a vida e a abcissa a falta de ar. Urgência.

Quinta e seguintes

O não-dito refere-se à pele das palavras;  o silêncio aos ossos.

(Substituir "ossos" por "traços que as formam".)

?

Cada um dos traços que as formam. ?

Ossos.

Terceira e quarta

Glissement, glissade, escorreganço, extension du domaine de la tragédie (ao português falta a dignidade do francês. Descamba logo tudo para o farfelu).

Há um plano inclinado entre a tragédia e a fatalidade, entre o silêncio e o não-dito. Simultaneamente nanoscópico e abissal, como a luz é ao mesmo tempo onda e partícula.

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"Há uma fenda em todas as coisas..."

Nesta não entra luz; entram palavras.

Tentativas de definição - primeira e segunda

Portugal, por exemplo é um país de não-ditos, mas não é um país de silêncios. A Suíça é o oposto, um país de silêncios onde se diz o que há a dizer. Em França nem silêncios nem não-ditos: diz-se tudo, de mais.

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A frincha entre a tragédia e a fatalidade: aquele nano pedaço de tempo no qual uma palavra ou um gesto poderia ter evitado uma ou outra (uma e outra seria um excesso de optimismo que não é para aqui chamado).

12.2.18

Silêncio

Descubro - graças à J., mais rios de gratidão lhe sejam dedicados - Natalia Ginzburg. O silêncio não voltará a ser o que era.

Antigamente, mentes antigas

Acabo de descobrir mais um blog sobre a Lisboa de "antigamente". Porra, ninguém se lembra de fazer um sobre a Lisboa do futuro? Esse é que sim interessava. Deixem os antigamente aos historiadores e dediquem a pieguice a outras merdas. Fodam com o futuro, porra! e deixem de assediar o passado.

Matar o tempo? Para quê? Ele sobrevive sempre

Não deixa de ser espantoso que o tempo tenha sobrevivido a todas as tentativas de o matar que já foram feitas.

11.2.18

Retórica e vertigens

Calasso, outra vez: "de que falam os escritores quando nomeiam os deuses? Se esses nomes não pertencem a um culto - nem mesmo a esse culto no sentido figurado que é a retórica -..."

Tentei substituir retórica mas nada funciona: nem palavra nem literatura nem mesmo poesia. Ao princípio era a retórica e a retórica era Deus....

[A citação continua: "...qual será o seu modo de existência? "Os deuses tornaram-se doenças", escreveu uma vez Jung com uma brutalidade esclarecedora".]

Fica para depois. O meu sistema imunitário luta contra um vírus qualquer que me enche de vertigens e vou ajudá-lo, dormindo. De Jung conheço pouco mais do que do sexto ano do liceu dele retive (o inconsciente colectivo, tão bem desmontado por Guy Scarpetta no Eloge du Cosmopolitisme), mas tanta antecipação na clarividência é quase vertiginosa.

Em cada página um espelho

Calasso, ainda no ensaio sobre Mallarmé (a propósito, o livro chama-se La Littérature et les Dieux e as traduções são minhas, com tudo o que isso implica): "há um sentimento muito forte e muito antigo, raramente nomeado e reconhecido: o da angústia devida à ausência de ídolos".

Reconhecer-se - ou melhor, ver-se descrito - num livro no qual se pegou quase (quase) por acaso só não é assustador porque no buraco não há razão para se ter medos. Só há lugar para as gratidões (assim mesmo no plural, apesar de não serem todas iguais).

Cosmogonia enfim revelada

"Se os deuses não fazem nada de inconveniente então não são deuses".

Passo a história da frase - é de Mallarmé e o tema do ensaio de Calasso com o qual entrelaço Ponta Gea e os meus disparates - para chegar ao essencial: um dia terei tempo para explicar que este é provavelmente o principal pilar da minha cosmogonia.

10.2.18

Ponta Gea, música

Ponta Gea, de João Paulo Borges Coelho é uma obra musical na qual as notas são as letras. É possível identificar no texto os três componentes da música - o ritmo, a melodia e a harmonia. 

Altos e baixos, Friederich

Nietzsche falava muito da solidão dos cumes. Conheço melhor a do abismo.

Disparates, spaghetti e salsichas

Escrever disparates, muitos, reflexo do violentíssimo Inverno que não tem maneira de parar de começar, parece que começou agora e vai durar para sempre, não vai acabar nunca, isto é Inverno em tudo quanto é sítio, lá fora e cá dentro e assim como não ter vontade de dizer disparates uns a seguir aos outros, fazer troça do sacana, pôr as mãos espetadas no nariz, polegar primeiro e os dedos esticados e abertos como quando éramos putos, língua de fora, quem chama é quem é, pata que o pôs mai-lo frio e os ouvidos e a falta de guito e o polaco que não há maneira de dizer nada, safa-se a Amália e a bolognese que não é bolognese, é feita com carne de salsicha, tem outro nome mas por mais que não puxe pela memória estou-me nas tintas para o nome do prato (não estou, fui procurar no Google: spaghetti alla salsiccia, mas não era este que eu tinha cá no recanto das alembranças), isto nem os disparates saem correctos, mais valia limpar as mãos à parede e estar quedo.

Enfim, o molho parece que não vai ficar mau de todo, ao menos isso. Não safa o Inverno mas aligeira o jantar.

De resto

Em noites assim prefiro estar sozinho. Pelo menos não chateio ninguém, com a possível excepção do telefone, qui me la rend bien, de resto.

Noite, descanso, vertigens

Deve temer-se a noite que não é um descanso?

Depende do que o perturba, de quem. Em certos casos mais vale ficar-lhe à porta, não entrar nem "gentilmente nessa noite".

O uso do adjectivo "vertiginoso" vai começar a ser severamente racionado, para não dizer punido.

Lautréamont, vertigens e outras coisas insignificantes

Um quadrilátero cujas arestas são Amália Rodrigues, Calasso (e Lautréamont), pão caseiro e algumas edições da Colóquio Letras e o centro um ouvido interno avariado.

Não para sempre, claro. Mas a vertigem é como o amor, infinita enquanto dura.

Por mim se pudesse mandá-la-ia para a pata que a pôs e continuaria no Calasso. Deixo-a acreditar que ganhará: é preciso ser Maldoror. Lê-lo não chega.

........
No meio disto tudo pergunto-me porque se tornam os velhos piegas, quando devia ser ao contrário: já vimos onde leva o amor e todos sabemos - pelo menos depois de uma certa idade e antes de outra - que a sua ausência é muito melhor.

A razão é simples: o sexo só é bom quando vem em embalagens múltiplas. Em doses individuais o amor é preferível: demora mais tempo a fazer-se e menos a desfazer-nos.

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Leio o ensaio de Calasso sobre Lautréamont e lembro-me das inúmeras noites que passei a lê-lo a bordo do R. C., num camarote apinhado de marinheiros, colegas oficiais e um Imediato que o abominava, mas gostava de ler Pessoa - sobretudo o Se te queres matar.

O whisky corria à flots, a travessia do Pacífico nunca mais acabava - nunca acabou, na verdade, se não com a chegada ao Suez; Nakhodka e as Filipinas e o Estreito de Sumatra e o Indico todo ainda eram o Pacífico - e Maldoror dizia-nos que nada daquilo era a sério; nada daquilo era verdade:

"Vieil océan, aux vagues de cristal, tu ressembles proportionnellement à ces marques azurées que l’on voit sur le dos meurtri des mousses ; tu es un immense bleu, appliqué sur le corps de la terre : j’aime cette comparaison. Ainsi, à ton premier aspect, un souffle prolongé de tristesse, qu’on croirait être le murmure de ta brise suave, passe, en laissant des ineffaçables traces, sur l’âme profondément ébranlée, et tu rappelles au souvenir de tes amants, sans qu’on s’en rende toujours compte, les rudes commencements de l’homme, où il fait connaissance avec la douleur, qui ne le quitte plus. Je te salue, vieil océan!

Vieil océan, ta forme harmonieusement sphérique, qui réjouit la face grave de la géométrie, ne me rappelle que trop les petits yeux de l’homme, pareils à ceux du sanglier pour la petitesse, et à ceux des oiseaux de nuit pour la perfection circulaire du contour. Cependant, l’homme s’est cru beau dans tous les siècles. Moi, je suppose plutôt que l’homme ne croit à sa beauté que par amour-propre ; mais, qu’il n’est pas beau réellement et qu’il s’en doute ; car, pourquoi regarde-t-il la figure de son semblable avec tant de mépris ? Je te salue, vieil océan !

Vieil océan, tu es le symbole de l’identité..."

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Mais tarde veria Weekend e perceberia que os Cantos são uma das formas da verdade, onde quer que sejam declamados. Verdade do avesso, mas verdade.

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Vertiginoso, tudo isto, misturado num poço de vertigens actuais, memórias, uma irreprimível vontade de voltar à verdade original, sem cor nem dor, sem ouvido interno nem amor.

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Tubaroa, onde páras? Quando pararás para mim?

"Debout sur le rocher, pendant que l’ouragan fouettait mes cheveux et mon manteau, j’épiais dans l’extase cette force de la tempête, s’acharnant sur un navire, sous un ciel sans étoiles. Je suivis, dans une attitude triomphante, toutes les péripéties de ce drame, depuis l’instant où le vaisseau jeta ses ancres, jusqu’au moment où il s’engloutit, habit fatal qui entraîna, dans les boyaux de la mer, ceux qui s’en étaient revêtus comme d’un manteau. Mais, l’instant s’approchait, où j’allais, moi-même, me mêler comme acteur à ces scènes de la nature bouleversée. Quand la place où le vaisseau avait soutenu le combat montra clairement que celui-ci avait été passer le reste de ses jours au rez-de-chaussée de la mer, alors, ceux qui avaient été emportés avec les flots reparurent en partie à la surface. Ils se prirent à bras-le-corps, deux par deux, trois par trois; c’était le moyen de ne pas sauver leur vie; car, leurs mouvements devenaient embarrassés, et ils coulaient bas comme des cruches percées… Quelle est l'armée de monstres marins qui fend les flots avec vitesse ? Ils sont six; leurs nageoires sont vigoureuses, et s’ouvrent un passage, à travers les vagues soulevées. De tous ces êtres humains, qui remuent les quatre membres dans ce continent peu ferme, les requins ne font bientôt plus qu’une omelette sans œufs, et se la partagent, selon la loi du plus fort. Le sang se mêle aux eaux, et les eaux se mêlent au sang. Leurs yeux féroces éclairent la scène du carnage… Mais, quel est encore ce tumulte des eaux, là-bas, à l’horizon. On dirait une trombe qui s’approche. Quels coups de rame ! J’aperçois ce que c’est. Une énorme femelle de requin vient prendre part au pâté de foie de canard, et manger du bouilli froid. Elle est furieuse, car, elle arrive affamée. Une lutte s’engage entre elle et les requins, pour se disputer les quelques membres palpitants qui flottent par-ci, par là, sans rien dire, sur la surface de crème rouge. À droite, à gauche, elle lance des coups de dents qui engendrent des blessures mortelles. Mais, trois requins vivants l’entourent encore, et elle est obligée de tourner en tous sens, pour déjouer leurs manœuvres. Avec une émotion croissante, inconnue jusqu’alors, le spectateur, placé sur le rivage, suit cette bataille navale d’un nouveau genre. Il a les yeux fixés sur cette courageuse femelle de requin, aux dents si fortes. Il n’hésite plus, il épaule son fusil, et, avec son adresse habituelle, il loge sa deuxième balle dans l’ouïe d’un des requins, au moment où il se montrait au-dessus d’une vague. Restent deux requins qui n’en témoignent qu’un acharnement plus grand. Du haut du rocher, l’homme à la salive saumâtre, se jette à la mer, et nage vers le tapis agréablement coloré, en tenant à la main ce couteau d’acier qui ne l’abandonne jamais. Désormais, chaque requin a affaire à un ennemi. Il s’avance vers son adversaire fatigué, et, prenant son temps, lui enfonce dans le ventre sa lame aiguë. La citadelle mobile se débarrasse facilement du dernier adversaire… Se trouvent en présence le nageur et la femelle du requin, sauvée par lui. Il se regardèrent entre les yeux pendant quelques minutes; et chacun s’étonna de trouver tant de férocité dans les regards de l’autre. Ils tournent en rond en nageant, ne se perdent pas de vue, et se disent à part soi : “Je me suis trompé jusqu’ici; en voilà un qui est plus méchant.” Alors, d’un commun accord, entre deux eaux, ils glissèrent l’un vers l’autre, avec une admiration mutuelle, la femelle de requin écartant l’eau de ses nageoires, Maldoror battant l’onde avec ses bras; et retinrent leur souffle, dans une vénération profonde, chacun désireux de contempler, pour la première fois, son portrait vivant. Arrivés à trois mètres de distance, sans faire aucun effort, ils tombèrent brusquement l’un contre l’autre, comme deux aimants, et s’embrassèrent avec dignité et reconnaissance, dans une étreinte aussi tendre que celle d’un frère ou d’une sœur. Les désirs charnels suivirent de près cette démonstration d’amitié. Deux cuisses nerveuses se collèrent étroitement à la peau visqueuse du monstre, comme deux sangsues; et, les bras et les nageoires entrelacés autour du corps de l’objet aimé qu’ils entouraient avec amour, tandis que leurs gorges et leurs poitrines ne faisaient bientôt plus qu’une masse glauque aux exhalaisons de goémon; au milieu de la tempête qui continuait de sévir; à la lueur des éclairs; ayant pour lit d’hyménée la vague écumeuse, emportés par un courant sous-marin comme dans un berceau, et roulant, sur eux-mêmes, vers les profondeurs inconnues de l’abîme, ils se réunirent dans un accouplement long, chaste et hideux !… Enfin, je venais de trouver quelqu’un qui me ressemblât !… Désormais, je n’étais plus seul dans la vie ! Elle avait les mêmes idées que moi !… J’étais en face de mon premier amour !"

8.2.18

Vai de burra

O motor da burra tem andado a falhar um bocadinho e o mecânico é longe; por isso resolvi voltar para casa de transportes públicos. Estava em Algés, apanhei o comboio para o Cais do Sodré e o metro até ao Parque. Demorei o mesmo tempo ou (pouco) mais do que teria demorado se tivesse pedalando o caminho todo.

Não sei se fique orgulhoso se revoltado.

7.2.18

Pesadelo

Tive um pesadelo. Sonhei (o verbo é antitético) que o médico me "proibia" (entre aspas: um médico pode, quando muito, sugerir) de andar de bicicleta. Imaginei uma série de diálogos que desaguou neste: "só a bicicleta me proíbe de andar nela. É a única que sabe se a posso montar ou não".

Não transpira elegância, mas é o que um pesadelo destes merece.

6.2.18

Diário de Bordos - Lisboa, 06-02-2018

"Saúde, dinheiro e amor" têm andado notoriamente escassos por estas bandas, todos os três. Aos poucos vou compondo-os: salto de hospital em hospital, de médico em médico a corrigir anos de desleixo. Com sorte um dia conseguirei pôr a máquina em condições e sobretudo habituar-me à ideia de que já não está em primeira mão. O seguinte na lista depende menos de mim (estão por ordem decrescente de dependência) mas falta pouco: mais quinze dias, no máximo e começo a trabalhar. Quando acabar terá sido o pior e mais longo período de dèche dos últimos sessenta anos - pelo menos tanto quanto me lembro e verdade seja dita tenho uma memória cada vez mais selectiva, como a audição ou o desejo. Mas sempre teve a generosidade de me ensinar muitas coisas, algumas que só conhecia teoricamente e agora tive oportunidade de confirmar, outras que foram novidade total. A grande questão é saber se a aposta valeu a pena; eu aposto no sim, mas o jogador do outro lado é muito forte. A ver. Do terceiro calo-me: não gosta de ser empurrado e quanto menos se falar dele melhor.

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Hoje, entre a minha chegada ao hospital, a consulta e sair decorreu menos de meia-hora; o SNS tem bastantes qualidades e bastantes defeitos - a consulta levou quase três meses a ser marcada - mas quando funciona assim é uma delícia. Portugal é um país dicotómico em tudo e a saúde pública não foge à regra. Só me falta aprender a viver do lado bom das dicotomias, mas isso requer um talento para o qual me falta jeito.

(Felizmente a austeridade acabou; agora chama-se "cativações". Nas mentes dicotómicas dos nossos socialistas, austeridade = mal, cativações = bom. Se ao menos servisse para alguma coisa, mas não: serve para comprar quadros. Talvez o mentecapto que nos serve de Primeiro-Ministro os pudesse pôr nos hospitais. Enquanto se espera pelas consultas davam jeito).

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Tudo leva muito tempo, em Portugal: as bolas que se lançam ao ar por lá ficam meses sem fim. É como se não houvesse gravidade. Claro que há uma relação entre a gravidade e o tempo, mas seria preferível que ficasse confinada à física e não invadisse outros territórios.

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"Saúde, dinheiro e amor": em breve deixarão de ser a outra face da Lua. Não há deserto que sempre dure nem chuva que nunca acabe. A ver se é desta que aprendo astronomia ou pelo menos a fazer chover com mais frequência.

Que idade tens? A dos livros que li

Tinha cinquenta anos, na verdade. Isto é, era uma criança. Não fosse tudo o que tinha lido e nem buço teria ainda. 

Um cerveja com Maldoror

Se um dia - Dieu m'en garde - devesse escolher entre Rimbaud e Lautréamont escolheria este último, sem hesitação.

Um falhou a sua vida por delicadeza; o outro nunca teve uma por selvajaria. Rimbaud deixou a beleza para andar atrás da vida; Ducasse fugiu da vida e descreveu-lhe o horror, isto é: a beleza. 

Conquistas

A mediocridade é uma conquista, tanto quanto o sublime. Saber-se medíocre e perseverar está ao alcance de tão poucos como saber-se sublime e não se abandonar.

Beckett, Borges, Pessoa, Yourcenar: sabiam-se sublimes e nunca se refugiaram no sublime. Nunca se deixaram ir.

Acaso, vida

Apparition, soudaine, narquoise. Aparição, súbita, trocista. Leio estas palavras isoladas, separadas e não consigo impedir-me de as juntar e de as virar do avesso: desaparição súbita e trocista.

Foi assim que desapareceste da minha vida, não foi?

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Dis, quand reviendras-tu? Ouvi isto tantas vezes, pela voz abissal de Barbara; agora é Sophie von Otter quem canta, mais leve e melhor tecnicamente, menos sentida. Talvez por a canção não ser dela.

Para além do acaso não há outra relação entre isto tudo: aparição, desaparição, reaparição.

Será por acaso que acaso e vida são sinónimos?

5.2.18

Certezas, dúvidas

Como aquilo começou é para mim um mistério. Lembro-me de que a certa altura falávamos de bater com a cabeça nas paredes e daí passámos para um passeio no campo (eu acabara de descobrir Maupassant, ela conhecia-o de cor e salteado); do campo e das coisas que ficam por dizer e viver desembocámos no trágico problema da inadequação. Estávamos num restaurante de fado e como não havia lugar disse-lhe que se podia sentar à minha mesa. Ela vinha acompanhada por um colega de trabalho. Num intervalo, ela: "Isto é uma seca. Vamos beber um copo aqui ao lado".

Deixámos o colega com uma vaga explicação de um cigarro que precisava de ser fumado e fomos para uma tasca ao lado do restaurante.

Despedimo-nos sem termos sequer perguntado o apelido um do outro. Chamava-se Claire, era magra, morena e tinha aproximadamente trinta e alguns anos. talvez muitos. Frequenta regularmente a biblioteca do Campo Pequeno, um palácio muito bonito ao qual fui todos os dias depois de a ter conhecido (mas nunca a encontrei lá).

"Basta uma noite / Para ferir a tua alma para sempre", diz um poema chinês cujo autor não retive. Talvez não seja sequer preciso uma noite; uma certeza sem a respectiva dúvida chega. As dúvidas curam as feridas que as certezas fazem.

4.2.18

Ondulação, tempo

Uma ondulação no horizonte: primeiro parece-te um corpo. Depois vês que não: é o tempo que hesita, não sabe se há-de voltar atrás e recomeçar, se ganhar balanço e saltar. 

Raiva: mundo, vida, tudo

Ferras-te à vida como um bulldog à perna do carteiro que te vem entregar uma carta, mas infelizmente não sabes de onde ela vem nem o que diz, não sabes se as notícias são boas ou más ou sequer se são notícias. Podia até ser uma carta do fisco, da polícia, da tua seguradora.

Não sabes o que diz a carta que o sacana do bulldog impede agora o carteiro de te dar e a pergunta é: algum dia saberás?

Com a mesma raiva entras no sono, te apegas a tudo o que ao alcance da mão te passe: uma manhã cheia de sol; um rio a fazer da luz a luz que fez a cidade que te fez e faz da luz o que é.

Luz: por ela colas à vida. Luz nuns cabelos loiros no bosque, num corpo moreno na mar, numa pele alva na neve, num peito cujos mamilos refulgem quando lhes tocas, num ventre que brilha quando te diz: olha-me, toca-me, apaga-me à beira desse mar que te fez luz, faz-me tremer, eriça-me os sonhos, faz-me de ti a vida.

Raiva: morde essa luz que te faz com raiva, com ganas, com unhas e dentes, entra por ela dentro como se ela fosse o mundo.

Ela é o mundo.

2.2.18

Alvo, palavras

As minhas palavras são autónomas, independentes; escolhem sozinhas os seus alvos.

Mas eu sei uma coisa que elas não sabem: não podem escolher-te a ti.

Em contrapartida elas sabem uma coisa, só elas: se não fores tu não há mais ninguém. 

Felicidade, boca

Almço imprevisto no Roda Viva (relembro: o melhor restaurante moçambicano de Lisboa). À mesa fala-se francês, espanhol, inglês mas isto aparece-me em francês: "ma bouche est pleine de bonheur".

31.1.18

Promessa

Prometo amar-te como se escrevesse um poema sem fim.

Palavra, sonho

Eugénio de Andrade tem um poema que começa de uma forma linda: "por que palavra começar, por que desordem?"

De uma vida pode perguntar-se "por que palavra terminar, por que sonho?"

Vida, um resumo

Nasci ontem, vivi hoje de manhã e agora que a tarde acaba, suave e lenta, pergunto-me "que fazer de outra noite?"

Amor, francês

O meu francês adquiriu um bocadinho de sotaque e perdeu alguns termos e muita elasticidade. Um pouco como dizer "a minha amada adquiriu alguns cabelos brancos e algumas rugas e perdeu um bocadinho da juventude que tinha quando a conheci".

Em qualquer dos casos posso dizer: o meu amor cresceu.

Parenthèse

La parenthèse s'est réouverte et je puis finalement te dire à nouveau que je t'aime. C'est inutile, je sais; mais dis-moi: a-t-il servi à quelque chose de te dire "je t'aime" quand je t'aimais comme je t'aime aujourd'hui à nouveau?

La question est évidemment rhétorique. Ça a servi à beaucoup plus que quelque chose.

Mais pas à ce qu'aujourd'hui je puisse te dire "je t'aime".

29.1.18

Inverno

A única vantagem do Inverno é que as pessoas andam mais bem vestidas.

(Não é a única. Há outra, mas desaparece rapidamente: sair de casa e apanhar ar frio estimulante no rosto. Mas depois chega às mãos e estraga tudo).

Diário de Bordos - Lisboa, 29-01-2018

Esta Lisboa asséptica fode-me o juízo, como uma mulher inteligente se chateia com um gajo que a toma por estúpida.

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Pequeno aviso à navegação, em resposta a uma simpática pergunta que há pouco me foi feita: o Don Vivo não é um blog de opinião; é um blog de disparates. Ou então de opiniões disparatadas. Talvez mesmo um blog de disparates opiniosos.

Enfim, as opiniões estão neste blog como natas numa Carbonara: são boas separadas mas juntas estragam tudo.

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Em Lisboa há uma por assim dizer taberna medieval onde eu vim depois de uma tarde de trabalho árduo. Perguntei ao jovem se podia pôr os Carmina Burana e antes de lhe poder precisar que queria a versão de Clemencic ele perguntou-me "isso é de Bizet, não é?"

Depois de um curto diálogo do qual passo os pormenores corrigiu, dizendo que tinha confundido com "a Aida, a ópera".

"Je me promène dans ce monde comme une putain dans un monde sans trottoirs".

A citacão saiu-me da memória. A correcta é assim. "Je vadrouille à travers les jours comme une putain dans un monde sans trottoirs".